SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

'Taxar super-ricos não é mais ideia só da esquerda': os argumentos de milionário americano que quer pagar mais imposto.

 

'Taxar super-ricos não é mais ideia só da esquerda': os argumentos de milionário americano que quer pagar mais imposto

Morris Pearl

CRÉDITO, PATRIOTIC MILLIONAIRES

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Morris Pearl é ex-diretor de um dos maiores fundos de investimentos do mundo, o BlackRock 

Morris Pearl tenta há quase dez anos fazer com que milionários como ele próprio paguem mais impostos nos Estados Unidos.

Ex-diretor de um dos maiores fundos de investimentos do mundo, o BlackRock, ele preside a organização Patriotas Milionários (Patriotic Millionaires, no original em inglês), que busca aumentar a pressão sobre os políticos americanos para que aprovem mais tributos sobre a renda e o patrimônio dos super-ricos. 

Em entrevista à BBC News Brasil, ele reconhece que houve pouco avanço concreto nessa última década. 

Por outro lado, acredita que o sentimento a favor de taxar mais os milionários tem ficado mais forte, em meio à crescente desigualdade no país.

"Essas ideias sobre tributar os ricos eram consideradas ideias da esquerda. Agora, o presidente dos Estados Unidos (Joe Biden) está abraçando ao menos algumas das nossas ideias. O presidente do Comitê de Finanças do Senado dos Estados Unidos (o democrata Ron Wyden) está propondo algumas das nossas ideias", comemora, ao mesmo tempo em que admite que não há maioria no Congresso americano para aprovar as medidas.

Pearl compartilhará um pouco da sua experiência com o público brasileiro nesta terça-feira (29/08), quando participa virtualmente do Fórum Internacional Tributário (FIT), promovido em Brasília por entidades como a Federação Nacional do Fisco Estadual e Distrital Fenafisco) e o Comitê Nacional de Secretários de Fazenda, Finanças, Receita ou Tributação dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz).

Sua mesa tem como tema "Tributação da Renda e da Riqueza: a Experiência Internacional e o Brasil". 

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João Fellet tenta entender como brasileiros chegaram ao grau atual de divisão.

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Dados oficiais dos dois países mostram que Brasil e Estados Unidos têm um cenário semelhante: os contribuintes mais ricos pagam, em média, alíquotas menores de imposto de renda que a classe trabalhadora. Isso ocorre, em boa parte, porque salários são mais tributados do que aplicações financeiras.

Uma análise realizada por economistas da Casa Branca em 2021 estimou que as 400 famílias bilionárias mais ricas do país teriam pago, em média, apenas 8,2% de seus ganhos totais em imposto de renda, entre 2010 e 2018. 

Em comparação, uma família de um trabalhador de renda média com dois filhos (dependentes que dão desconto no imposto de renda) era taxada em 19,8% em 2022, enquanto um trabalhador solteiro pagava alíquota de 30% naquele ano, segundo cálculos da instituição Tax Foundation. 

"Aqui nos Estados Unidos, infelizmente, temos um sistema em que as pessoas que já são ricas, as pessoas que obtêm o seu dinheiro dos seus investimentos e das coisas (propriedades, por exemplo) que possuem, pagam taxas de impostos mais baixas do que as pessoas que de fato trabalham para viver", ressalta Pearl.

"E isso significa que se você já é rico, tende a ficar mais rico com o tempo. Enquanto todos os outros estão apenas lutando para permanecerem iguais", crítica. 

Para o milionário, esse processo está ampliando a desigualdade no país e pode desestabilizar a democracia americana. 

"Estamos preocupados com a perspectiva de que muito em breve, em algum momento, as pessoas não aguentem mais isso. Esperamos usar o processo democrático para mudar essas políticas, reduzir a crescente desigualdade e tornar toda a nossa sociedade mais estável", defende.

Na visão de Pearl, defender que lhe sejam cobrados mais impostos não se trata de bondade, mas de pensar no seu próprio interesse. 

Ele contesta argumentos de que tributar riqueza reduziria investimentos, prejudicando a economia e a geração de empregos. 

"Quando o governo arrecada dinheiro tributando as pessoas ricas, o dinheiro não desaparece simplesmente. Na verdade, o dinheiro é realmente colocado na economia, porque as pessoas muito ricas têm muito dinheiro (parado) em investimentos e em contas bancárias", argumenta.

"Se você tirar parte do dinheiro deles (os milionários), eles ficarão um pouco menos ricos, é verdade. Mas, quando você usa esse dinheiro para pagar professores, funcionários de hospitais e todos os tipos de trabalhadores do governo, esse dinheiro é gasto (por esses trabalhadores) e é isso que realmente ajuda os empresários", continua.

O milionário gosta de usar uma analogia para ilustrar seu raciocínio. 

"Costumo dizer que o dono do bar se preocupa muito mais com quanto dinheiro está nos bolsos de todas as pessoas sentadas no bar do que com o salário do cara que está atrás do bar servindo a cerveja. Precisamos construir negócios numa nação onde haja pessoas com dinheiro suficiente para pagar as coisas", reforça. 

"Por isso eu digo para investidores e empresários olharem para o longo prazo, olharem para o seu próprio interesse com clareza e pensarem sobre onde estão e onde querem estar. Ou onde seus filhos e netos querem estar", diz ainda.

Biden quer nova taxa sobre fortunas

Imagem ilustrando desigualdade, com duas pilhas de moedas, uma grande e uma pequena

CRÉDITO, GETTY IMAGES

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Taxação maior de grandes fortunas enfrenta muita resistência no Congresso dos EUA

Nos Estados Unidos, Joe Biden tem feito sugestões ambiciosas de aumento de impostos sobre os mais ricos.

Algumas delas entraram na proposta de orçamento do governo para 2024, como a ideia de criar um imposto de 20% que incidira sobre a valorização de ações (mesmo sem a venda dos papéis) e atingiria um grupo pequeno de pessoas - pouco mais de 20 mil contribuintes nos EUA com fortunas superiores a US$ 100 milhões (cerca de R$ 488 milhões atualmente). 

O investidor Warren Buffett, o chefe da Tesla, Elon Musk, e o fundador da Amazon, Jeff Bezos, estariam entre os afetados.

A proposta de Biden também prevê o aumento da alíquota do imposto de renda sobre as famílias que ganham mais de US$ 400 mil - subiria de uma alíquota de 37% para 39,6%. 

E o imposto para empresas seria elevado a 28%, revertendo parcialmente os cortes feitos sob o governo Trump.

Morris Pearl, porém, reconhece que essas tentativas não devem passar no Congresso. 

Na sua avaliação, os parlamentares sofrem muita influência de grandes financiadores de campanha, pessoas ricas que não estão interessadas em pagar mais impostos. 

Um dos caminhos para combater isso, diz, é convencer mais pessoas a votar (o voto é opcional nos EUA) e a pressionar o Congresso. 

"Nossos congressistas passam muito tempo com esses doadores e não falam com pessoas que trabalham para viver e que pagam ainda mais impostos. Por isso, pensamos que fazer com que mais pessoas votem e expressem a sua opinião é a resposta certa (para reverter a resistência no Congresso)", acredita Pearl.

Governo Lula também tenta ampliar impostos sobre ricos 

Um novo levantamento do Sindifisco (sindicato que representa os auditores-fiscais da Receita Federal) mostra que alíquota efetiva média de imposto de renda cobrada sobre os mais ricos recuou entre 2019 e 2021 (dado mais recente disponível). 

No caso dos milionários que declararam renda anual total acima de R$ 4,2 milhões em 2021, por exemplo, essa alíquota ficou em 5,4% naquele ano, ante 6% em 2019. 

A alíquota efetiva é o percentual da renda total que de fato foi consumida pelo IR. Segundo o Sindifisco, o principal motivo de os mais ricos terem uma alíquota baixa é que uma parcela relevante de sua renda vem do recebimento de lucros e dividendos das suas empresas – renda que é isenta de imposto no Brasil desde 1996. 

E, como houve crescimento do pagamento de lucro e dividendos nesse período, o topo da pirâmide ficou mais rico, ao mesmo tempo que pagou proporcionalmente menos IR. 

Os números da Receita Federal mostram que contribuintes brasileiros declararam terem recebido em 2021, no total, R$ 555,68 bilhões em lucros e dividendos, uma alta de quase 45% sobre o valor de 2020 (R$ 384,27 bilhões) e de 46,5% ante o de 2019 (R$ 379,26 bilhões). 

Para o presidente do Sindifisco, auditor-fiscal Isac Falcão, esse aumento reflete a expectativa de que os dividendos voltem a ser taxados no país. 

A volta dessa tributação pode ser incluída pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva em uma proposta de reforma do Imposto de Renda que o Ministério da Fazenda pretende enviar no fim deste ano para o Congresso. 

O assunto, porém, enfrenta resistência no Parlamento. Proposta semelhante enviada pelo governo de Jair Bolsonaro em 2021 não avançou.

Antes de enfrentar esse tema, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tem tentado dar passos menores. 

Ele quer aprovar primeiro no Congresso mudanças na taxação de fundos offshore (investimentos de brasileiros no exterior) e fundos exclusivos (para grandes investidores), com objetivo de ampliar o impostos sobre milionários. 

Após deixar uma medida provisória sobre os fundos offshore parada na Câmara, o presidente da Casa, Arthur Lira, se disse comprometido a pautar o tema nas próximas semanas.

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

A história de Philippson, a primeira colônia de judeus do Brasil

 

Foto geral da colônia

CRÉDITO, DIVULGAÇÃO

Legenda da foto, 

Em outubro de 1904, 38 famílias de vários países europeus chegaram a seu novo lar: a Fazenda Pinhal, no município de Santa Maria (RS) 

  • Author, Edison Veiga
  • Role, De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil

Medo e esperança eram os sentimentos comuns àqueles judeus que, oriundos de várias localidades do Leste Europeu, se reuniram na Bessarábia, na parte que hoje pertence à Romênia. Era começo de 1903 e, de acordo com alguns pesquisadores, ali estavam 148 pessoas, de 38 famílias diferentes. 

Menos de dois anos mais tarde eles formariam a Philippson, a primeira colônia judaica a funcionar no Brasil. 

O medo que eles nutriam era das políticas antissemitas do império russo, sobretudo depois da ascensão de Alexandre 3º (1845-1894), continuadas por seu filho Nicolau 2º (1868-1918). 

Naquela época, eram constantes os pogrons, ataques deliberados a casas, empresas e centros religiosos de judeus. E tal violência era incentivada pelo imperador russo, que pretendia ver toda a região convertida à Igreja Ortodoxa.

A esperança era encontrar, do outro lado do Atlântico, uma terra acolhedora. Não apenas para ganharem dinheiro e voltar, como era o desejo de tantos imigrantes que queriam simplesmente “fazer a América”; os judeus queriam fazer de terras distantes - na América do Norte (Canadá e Estados Unidos) ou do Sul ( Argentina e Brasil) seu novo lar.

Eram russos, lituanos, estonianos, ucranianos, bielorrusos, moldávios e romenos, aqueles 148. Bancados por uma organização beneficente chamada Jewish Colonisation Association — mais conhecida pelas siglas JCA ou ICA —, eles tiveram um treinamento de cerca de um ano e meio visando a se preparem para a vida nova. 

Em geral acostumados a trabalhos no comércio, iriam ter de se tornar agricultores e pecuaristas. Em um novo local, um novo clima, com uma nova língua. Imigrar não é nada fácil. Naquele ano, a ICA comprou uma antiga propriedade rural no município de Santa Maria, Rio Grande do Sul, a Fazenda do Pinhal. 

A terra prometida

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João Fellet tenta entender como brasileiros chegaram ao grau atual de divisão.

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Aquele espaço seria o novo lar dos imigrantes judeus. E ganharia o nome de Philippson para homenagear Franz Philippson (1851-1929), o então presidente da Compaigne Auxiliare de Chemins Du Fer au Brésil, que explorava as linhas de ferro naquela região. 

Philippson era acionista da ICA, organização criada em 1891 pelo barão Maurice de Hirsch, um judeu alemão filantropo que se dedicou a ajudar aqueles que eram vítimas ou corriam risco de opressão antissemita. 

A localização não foi obra do acaso. “Quando se buscavam terras para instalar a primeira colônia agrícola no Brasil, após inspeções de técnicos agrícolas, a ICA foi autorizada a comprar e colonizar terras no extremo sul do Brasil. Esta escolha veio a calhar com os interesses do banqueiro belga Philippson, que além de vice-presidente da ICA, era presidente da companhia de estradas de ferro que havia obtido a concessão do governo para a construção e administração de vias ferroviárias no Rio Grande do Sul”, pontua, em e-mail à BBC News Brasil, a socióloga Anita Brumer, professora aposentada da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). 

O Rio Grande do Sul já contava com imigrantes e descendentes de imigrantes judeus, pelo menos desde o início do século 19. Conforme conta o escritor, ensaísta, poeta e advogado Marcos Iolovitch (1907-1984) em seu livro Numa Clara Manhã de Abril, publicado pela primeira vez em 1940, em 1900 havia 54 judeus no Estado. “É possível que este número fosse maior, pois os números referidos para a população judaica registrada no Brasil no final do século 19 contém algumas contradições”, escreveu ele. 

“Lembro que esta concessão previa a obrigação da empresa de assentar colonos ao longo da via férrea e a construir uma escola e um templo quando o estabelecimento colonial incluísse mais de 30 famílias, como forma de facilitar a integração social e econômica dessas famílias”, acrescenta Anita Brumer. 

 2.	Mapa da colônia, com a demarcação dos lotes

CRÉDITO, DIVULGAÇÃO

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Famílias foram alocadas em lotes demarcados

A viagem da Bessarábia para o Brasil durou dois meses. Em carroças, eles foram de lá até Hamburgo, onde embarcaram em um vapor com destino ao Rio de Janeiro. Na então capital do Brasil trocaram de embarcação para um novo trecho de viagem marítima, agora com destino a Rio Grande, no litoral sul do Rio Grande do Sul. De Rio Grande a Santa Maria, foram de trem. 

No dia 18 de outubro de 1904, eles chegaram às terras que seriam seu novo lar. Nascia aquela que, oficialmente, era a primeira colônia judaica em terras brasileiras. 

'Incapacidade para esse tipo de serviço'

“Philippson terminou em 1926 e os habitantes acabaram indo para a cidade”, conta à BBC News Brasil a historiadora Roberta Alexandr Sundfeld, diretora do Museu Judaico de São Paulo.

Sua avó, Frida Alexandr (1906-1973), nasceu na colônia agrícola judaica e escreveu um livro de memórias, publicado pela primeira vez em edição restrita em 1967 e que, agora, foi reeditado e relançado sob o nome de Filipson: Memórias de Uma Menina na Primeira Colônia Judaica do Rio Grande do Sul (Chão Editora). Essa grafia aportuguesada do nome da comunidade foi a escolhida por Alexandr quando escreveu a obra. 

“O fim da colônia agrícola foi por causa de algumas razões. Em primeiro lugar porque os habitantes eram todos originalmente ligados ao comércio. Na Bessarábia eles não tinham terras, não sabiam plantar, tratar da terra. E as terras onde eles estavam não eram muito férteis. O outro motivo era que eles queriam que os filhos estudassem”, pontua Sundfeld. 

“Os judeus trazidos pela ICA — além de muitos que vieram por conta própria — dedicavam-se à agropecuária, embora a maioria deles fosse proveniente das cidades e não tivesse experiência prévia nesta atividade”, frisou Iolovitch, em seu livro —ucraniano, ele próprio viveu em uma colônia agrícola vizinha a Philippson, a Quatro Irmãos, fundada em 1912. “Este foi um importante fator — embora não o único — a explicar o insucesso das colônias judaicas.”

1.	Frida com sua filha mais velha, em foto de 1925

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Frida Alexandr, autora de livro de memórias sobre a vida em Phillipson, posa com filha, em foto de 1925

Sobre o despreparo dessas pessoas para o manejo rural há uma curiosa passagem no livro Filipson, quando Frida Alexandr escreveu sobre o gado que seu pai e seu irmão mais velho foram buscar logo depois que eles se instalaram na nova casa, porque “tínhamos direito e estava à nossa disposição no pasto da Administração”. 

“Voltaram eles em companhia do peão do administrador, pois nunca tinham antes lidado com gado. Receavam aproximar-se dele. Intimidavam-nos os grandes cornos retorcidos”, descreveu. “O peão ensinou-lhes como tirar o leite. Umas vacas eram bem mansas, mas outras necessitavam de ser amarradas pelos chifres e pelo pé esquerdo a um tronco, do contrário não consentiriam a ordenha ou entornariam a vasilha do leite com um coice.”

Ela escreveu que diante da “incapacidade” manifestada por seu pai e seu irmão “para esse tipo de serviço”, a tarefa acabou “entregue às duas mulheres da casa”. 

Revisitar esses relatos surpreendeu até mesmo a neta da autora, a historiadora Roberta Sundfeld. “As memórias mais antigas que eu tenho de minha avó são ligadas à comida, à torta de maçã, aos cheiros. Tive uma surpresa quando li o livro e vi o quanto eles eram religiosos, porque eu não imaginava. Mas me chamou muito a atenção também ver como o mundo mudou em 120 anos”, comenta ela.

“Eu não imaginava que minha avó montava a cavalo em pelo, que ela fosse capaz de depenar um frango, que em Philippson não havia luz elétrica, que banho era no riacho. Tudo isso me impressionou bastante quando reli o livro agora nessa nova publicação”, diz. 

Família de Frida

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'As memórias mais antigas que eu tenho de minha avó são ligadas à comida, à torta de maçã, aos cheiros. Tive uma surpresa quando li o livro e vi o quanto eles eram religiosos, porque eu não imaginava', relata historiadora Roberta Sundfeld, neta de Frida Alexandr

Iolovitch também relatou que a vida nas colônias “era muito difícil”, o transporte “pelas ferrovias existentes era caro”, e as condições de saneamento “e de acesso a médicos e escolas” eram precárias. 

Filho de imigrantes judeus da Bessarábia, o escritor Moacyr Scliar (1937-2011) assinou o prefácio de uma das edições do livro de Iolovitch. Em seu texto, ele ressaltou que “o empreendimento, contudo, não teve o êxito esperado”, referindo-se a Philippson. “Por numerosos fatores — a carência de recursos, a inexperiência dos emigrantes, a tradicional instabilidade política da América Latina […] arrefeceram o ânimo dos colonos e fizeram com que a maioria deles buscasse as cidades.”

Com o término da colônia, os judeus se instalaram parte em Santa Maria, parte em Uruguaiana, parte em Porto Alegre — como foi o caso de Frida Alexandr. Ela viveria como dona de casa e voluntária em trabalhos sociais. Quando publicou seu livro, tornou-se a primeira e única mulher de Philippson a escrever sobre a experiência. 

Expulsão, atração 

No posfácio da obra recém-lançada, a pesquisadora Regina Zilberman, professora na UFRGS, destacou a primazia daquela colônia, que “não foi a primeira colônia formada por europeus que emigraram para o Brasil, tendo sido antecedida, por exemplo, pela Colônia Cecília, que reuniu, no interior do Paraná, um grupo de pessoas originárias da Itália que comungava ideias anarquistas”. 

“Também não foi a que, pela primeira vez, resultou da aquisição de terras por um mecenas interessado em ver prosperar uma comunidade caracterizada por princípios comuns, já que, no caso da experiência paranaense, foi Giovanni Rossi (1856-1943), ideólogo do anarquismo, quem escolheu o lugar de instalação dos imigrantes, havendo comprado as terras ocupadas por seus seguidores”, acrescentou. 

“Não foi, enfim, a primeira colônia dentre as patrocinadas pela ICA estabelecida na América Latina, tendo sido precedida pelas experiências de Moises Ville e de Lucienville, na Argentina, na última década do século 19”, frisou a pesquisadora. 

Em sua contextualização, Zilberman posicionou a experiência agrícola judaica no Rio Grande do Sul como algo parte da “tendência que estimulava a transferência de famílias de um país a outro, e especialmente, de um continente a outro, este sendo sobretudo a América, na busca de um tipo de vida mais condizente com suas expectativas existenciais, filosóficas e, no caso dos judeus, étnicas e religiosas”.

“Mas a colônia assentada no Rio Grande do Sul”, concluiu a pesquisadora, “foi pioneira sob outro aspecto: constituiu a primeira colônia judaica oficial do Brasil, implantada a partir de recursos captados no exterior, mas apoiada pelo governo estadual […].”

Conforme ressalta a socióloga Brumer, todo movimento migratório precisa ser analisado sob dois prismas: os fatores de expulsão e os de atração. “Na Rússia, a situação dos judeus se deteriorou principalmente quando Alexandre 3º assumiu o governo, em 1881, revertendo reformas liberais que haviam sido introduzidas por seu pai. Com as novas medidas os judeus foram duramente afetados pela perda de garantias jurídicas, proibição de residência em áreas rurais, restrição do acesso a escolas secundárias e ao ensino superior e perda de posições liberais”, contextualiza ela. 

“Devido a isso, aumentou a pobreza entre os judeus e diminuíram suas perspectivas de sobrevivência. Paralelamente, ocorreram pogrons, isto é, assassinatos coletivos de judeus. Esses fatores certamente estavam por trás das intenções migratórias de grande parte da população afetada.”

Os países europeus enfrentavam ainda uma questão decorrente do avanço das máquinas que extinguia inúmeros trabalhos manuais. “Para enfrentar a crise, alguns governos e empresas começaram a estimular a emigração de seus concidadãos para regiões onde a modernização ainda não havia chegado”, complementa ela, lembrando que a ICA “juntou-se a esses empreendimentos”.

A atração, por sua vez, vinha porque o Brasil precisava de mão de obra, principalmente após a abolição do regime escravista, em vigor até 1888. “O governo brasileiro criou normas que favoreciam a vinda de imigrantes de países europeus. A imigração de agricultores para o sul do país foi fortemente estimulada, como forma de garantir a integração desse território ao país e pelo interesse no aumento da produção e comercialização agrícola”, explica Brumer.

Fé, rituais e educação

Foto da escola da colônia

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Escola da colônia teve professor romeno que 'tinha formação em odontologia e havia estudado a língua alemã e o português' 

As narrativas memorialísticas de Frida Alexandr, como bem observou Zilberman, acabam demonstrando como aqueles colonos estavam preocupados com a instalação de três pilares muito caros ao judaísmo — porque eles seriam necessários para que essas pessoas tivessem no Brasil uma vida compatível com seus valores. 

Logo no segundo capítulo, a autora descreveu como foi construído o templo. “O diretor da colônia […] convocou os colonos para uma reunião […]. Queria participar-lhes que em breve chegariam as últimas famílias de imigrantes, e que eles eram portadores de uma dádiva […]. Essa dádiva consistia numa Torá (os rolos sagrados que contém a cultura milenar dos judeus)”, relatou.

“Pediu aos colonos que se apressassem na construção de um templo. Os colonos exultaram com a boa notícia e puseram-se logo a trabalhar no erguimento de uma sinagoga”, disse ela. 

No capítulo terceiro, Alexandr narrou como se deu a eleição do shoiched, aquele que seria responsável tanto pelo abate do gado e suprimento de carne kosher como também de praticar o ritual de circuncisão dos meninos recém-nascidos. 

Ele acabaria sendo praticamente um rabino. “[…] tinha também tomado a si a santificação dos casamentos, a incumbência de circuncidar os varões recém-nascidos, bem como, por força da lei, promulgar o divórcio dos casais reconhecidamente incompatibilizados”, escreveu Alexandr. 

O terceiro pilar fundamental foi a inauguração da escola, um espaço coletivo para as aulas, um professor contratado e a preocupação em ensinar, às crianças, a língua portuguesa. Frida Alexandr contou como foi marcante a chegada de Léon Back (1882-1965), um romeno que foi encarregado de lecionar português. 

A autora descreveu a casa do professor como um local em que havia “assoalhos de madeira”, o que significava “para nós, crianças nascidas nas colônias não afeitas a nenhum conforto, o máximo do luxo”.

“[Ele] viera diretamente de uma universidade europeia para ensinar na escolinha rural de um minúsculo ponto perdido na imensidade deste país”, ressaltou Frida Alexandr. 

“A administração da ICA se empenhava para a que a colônia Philippson fosse bem-sucedida. Assim, procurou evitar alguns equívocos ocorridos nas colônias agrícolas da Argentina”, diz Brumer. 

A socióloga conta que Back “tinha formação em odontologia e havia estudado a língua alemã e o português”. “Para preparar-se para ir para a colônia, onde chegou em 1908, passou alguns meses em Portugal para aperfeiçoar-se na língua portuguesa”, afirma.

A escola instalada em Philippson era mista e ali também estudavam filhos de trabalhadores da estrada de ferro — eles viviam nas proximidades da colônia.