SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sábado, 2 de maio de 2026

O problema da escola não se resolve no gabinete dos Algozes- Capitães do Mato.




A TRAIÇÃO DOS NOVOS CAPITÃES DO MATO

Que nojo! Que asco me dá quando vejo a história sendo reescrita pelas botas dos algozes de sempre. Por que não, não me venham com falsas simetrias: os Capitães da Areia de Jorge Amado eram meninos abandonados, vítimas do sistema, que sobreviviam como podiam — e sim, batiam em outros pobres, sim, reproduziam violência, mas eram produto da mesma senzala que os cuspira na rua. Eram confusos, contraditórios, mas nunca serviram à Casa Grande de peito aberto. 

Hoje, porém, temos os CAPITÕES DO MATO — esses sim, bem-vestidos, com discursos de esquerda, de gravata ou de saia, com sorriso ensaiado para a TV, sentados em cadeiras giratórias em gabinetes climatizados. Estes não são confusos. Sabem exatamente o que fazem: atuam na educação para manter a senzala de pé. Usam a escola como açoite indireto, como gaiola dourada onde se ensina repetição, obediência e silêncio. 

Enquanto isso, os pais — ah, os pais — viram escravos modernos. Trabalham 12, 14 horas por dia, "6 X 1” para pagar imposto que vai sustentar o carro novo do secretário de educação, o mimo da construtora que superfaturou a obra da escola sem biblioteca, sem laboratório, sem esgoto. A escola não tira ninguém da pobreza. Pelo contrário: naturaliza a pobreza. Ensina o pobre a ser pobre com dignidade, a aceitar o lugar que lhe cabe, a não olhar para cima. 

 

A grande mentira do "case político" 

E aí vem o golpe mais sórdido: fazem da educação um case político. Um case! Como se fosse produto de marketing. Mostram gráficos de nota subindo 0,2 ponto em português e matemática (só essas, porque o resto que se dane) e dizem "olha, a educação melhorou!". Mas melhorou o quê? Melhorou a vida de alguém? Algum jovem saiu do tráfico porque aprendeu a fazer regra de três? Alguma família deixou a fila do hospital porque a escola ensinou a pensar ou só ensinou a repetir? 

Paulo Freire já denunciava isso há mais de meio século: "A educação não transforma o mundo. A educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo." Mas que educação é essa que não muda ninguém? Que produção é essa que não produz consciência, só produz nota? 

E Darcy Ribeiro, que criou escolas inteiras do zero em Brasília com recursos que hoje dariam vergonha, disse: "A crise da educação no Brasil não é crise, é projeto. É projeto de manter o povo na ignorância para que nunca saiba que pode ter mais." 

 

O problema não se resolve no gabinete dos capitães do mato 

Escuta aqui, ó capitão do mato de terno e gravata: NÃO É EM REUNIÃO NO SEU GABINETE ENTRE OS SEUS PARES QUE SE RESOLVE OS PROBLEMAS DAS ESCOLAS. 

Não adianta você fechar a porta com seus amigos empreiteiros, seus comparsas das editoras, seus sócios das consultorias de "formação", e decidir no ar-condicionado o que a escola sem ar-condicionado precisa. Você não pisa lá. Você não sabe o nome de um aluno. Você não carregou giz faltando. Você não viu criança chorando de fome na hora do intervalo. Você não ouviu professora pedindo minutos para ir ao banheiro porque não tem merendeira. 

A solução está nas escolas. PONTO. É lá, no chão de terra batida ou no piso quebrado, que se escuta: 

  • Professores — que conhecem cada aluno pelo nome, pela história, pela dor. Que sabem que o João não aprendeu divisão porque passou três dias sem comer. Que sabem que a Maria é brilhante, mas falta porque cuida dos irmãos pequenos. Que estão exaustos, humilhados, mal pagos, mas ainda assim insistem. 

  • Alunos — que não são número, não são nota, não são dados estatístico. São gente. Gente que quer aprender de verdade, que quer sair daquela realidade, que quer ser vista. E que hoje recebem um ensino de merda que os prepara para ser mão de obra barata, não para ser cidadão. 

  • Famílias — que trabalham igual escravas, que confiam na escola como última esperança, e que são tratadas como ignorantes pelas reuniões de pais com pautas de gabinete. As famílias sabem o que falta. Sabem que o filho volta com dever de casa que não pode fazer porque não tem quarto para estudar. Sabem que a escola não dialoga com a comunidade. 

 

Um plano por escola: o óbvio que os capitães do mato não enxergam 

Não existe receita de bolo. Não existe pacote fechado. Não existe solução nacional única vendida por consultoria de São Paulo. 

O que existe é cada escola, com seu contexto, seu território, sua gente, sua luta. 

Chega de programa "camisa de força" que vem de cima pra baixo. Chega de metas iguais para a escola da periferia de São Paulo e para a escola ribeirinha do Amazonas. Chega de apostila igual que não serve para lugar nenhum. 

O caminho é um plano por escola, construído com quem vive a escola, não para quem vive a escola. E isso significa: 

  • Priorizar ações de acordo com a realidade local: se a escola não tem esgoto, o plano prioriza saneamento — não lousa digital. Se o professor não tem formação continuada de verdade (não essa palhaçada de final de semana), o plano prioriza tempo de estudo dentro da escola. Se a fome impede o aluno de aprender, o plano prioriza cozinha, merenda de verdade, nutricionista. 

  • Potencializar a rede de baixo para cima: a inteligência está na base, não no topo. Os professores entre si sabem o que funciona. Os alunos entre si sabem o que engaja. As famílias entre si sabem o que falta. A escola não precisa de salvador de fora — precisa de recurso, autonomia e escuta. 

Mikhail Bakhtin, o grande pensador do diálogo, já dizia: o sentido não está na palavra de um só, está na relação entre as vozes. E onde estão essas vozes? No gabinete? Não. Na sala de aula, no pátio, na fila da merenda, na conversa com a família. 

Lev Vygotsky: a aprendizagem é social, acontece na interação, na zona de desenvolvimento proximal. Traduzindo: a criança aprende com o outro que está perto — com o colega, com o professor que a conhece, com a família. Não aprende com programa de TV ou apostila milionária. 

 

A orgia do dinheiro público (e por que o plano por escola ameaça os capitães do mato) 

E aqui está o ponto que dói nos capitães do mato: se a solução é por escola, escutando professores, alunos e famílias, o dinheiro não passa mais pelos esquemas de sempre. 

Por que cadê o dinheiro hoje? Vamos falar do dinheiro, porque é aí que o chicote estala mais forte: 

  • Construtoras fazendo palhaçada com verba de creche: entregam parede trincada, telhado que chove dentro, e recebem 300% do valor real. Se a escola decidisse o que fazer com a verba, talvez pedisse reforma do telhado, não um prédio novo espelhado que ninguém pediu. 

  • Projetos de formação que são farinha do mesmo saco: consultorias pagas a peso de ouro para "formar professores" em coisas que eles já sabem. Se a escola decidisse, talvez pedisse tempo de estudo coletivo entre os próprios professores, sem palestrante estrela. 

  • Editoras com o rabo preso nas secretarias: material didático superfaturado, livro que custa R 200 pra fazer é vendido a R 800 para o governo. Se a escola decidisse, talvez pedisse biblioteca com livros escolhidos pelos professores, ou nem usasse apostila — usaria texto da comunidade, jornal local, literatura que os alunos escolhessem. 

É uma verdadeira BOMBA DE GASTO INÚTIL jogada em cima da educação. E todo esse esquema corrupto depende da centralização. Depende do gabinete. Depende da decisão de cima. Porque se a decisão for de baixo — escola por escola, comunidade por comunidade — o dinheiro desvia? Não. O dinheiro vai para o que realmente importa, e os capitães do mato ficam sem a sua parte. 

 

A alternativa: a China sabe, o MST mostrou, nós também podemos 

Dá para fazer diferente? CLARO QUE DÁ. A prova está aí: 

  • A China, país do tamanho de um continente igual ao nosso, construiu DOIS SISTEMAS EDUCACIONAIS QUASE DO ZERO em menos de 40 anos. Não porque os chineses são especiais, mas porque tiveram prioridade: formar o povo para sair da pobreza. E fizeram isso escutando as comunidades, adaptando às realidades locais, investindo onde dói — em professor valorizado, em infraestrutura mínima, em currículo que faz sentido para a vida real. 

  • O MST já mostrou que é possível no Brasil: as Escolas Itinerantes, construídas com as mãos dos assentados, com currículo pensado a partir da terra, da luta, da memória. Ocupam prédio abandonado, fazem mutirão, criam material próprio, ensinam matemática a partir da área plantada, português a partir da história da comunidade. E os alunos saem de lá sabendo ler o mundo — não só decodificar letra. 

  • Escolas que existem escondidas em periferia, em terra indígena, em quilombo. Escolas que ninguém dá prêmio, ninguém dá "case", mas que funcionam porque a comunidade toma para si. A diretora que conhece a fome de cada aluno. O professor que usa a feira do bairro como laboratório. A família que faz comida na cozinha da escola porque a merenda terceirizada é uma porcaria. 

Não precisa de prédio espelhado, de lousa digital 4K, de projeto de assessoria milionária. Precisa de vergonha na cara, dinheiro indo para o que importa, e poder de decisão na mão de quem vive a escola todo santo dia. 

Célestin Freinet já sabia: a escola tem que sair do livro e ir para a vida — com a imprensa na escola, com o texto livre, com o plano de trabalho que a turma constrói. 

Maria Montessori: o ambiente é o mestre. Aqui, o ambiente é a comunidade, a fábrica abandonada, o centro comunitário, a praça, a feira. Dá para fazer escola embaixo de árvore se tiver professor comprometido e material de verdade — mas sem a farra das empreiteiras, sem o roubo das editoras, sem o circo das assessorias. 

 

O grito final 

Chega. CHEGA. Chega de CAPITÕES DO MATO vestidos de salvadores. Chega de "case político" e gráfico de nota sem melhoria de vida. Chega de pai trabalhando que nem escravo para sustentar verba que vai para o bolso de construtor amigo de político. Chega de reunião em gabinete climatizado decidindo o destino de quem nunca viram na vida. 

O problema da escola se resolve na escola. Com professor. Com aluno. Com família. Escola por escola, território por território, com plano próprio, priorizando o que realmente importa, potencializando a rede de baixo para cima. 

Ou a gente arranca esse chicote da mão dessa gente agora, ou a senzala nunca mais vai fechar seus portões. E eu, você, nossas crianças, nossos velhos — vamos continuar apanhando calados no lombo da falsa promessa chamada "educação brasileira". 

Revolta é pouco. É ódio mesmo. Ódio de quem vê a merda acontecendo há décadas e ainda tem que ouvir "estamos no caminho certo". O caminho certo é o cemitério de sonhos, e os capitães do mato estão plantando as covas. 

Acorda, Brasil. O gabinete deles não é nossa sala de aula. Nossa sala de aula é nossa. E vai ser tomada de volta.