SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

domingo, 21 de junho de 2026

Bishkek, a moderna capital onde herança soviética é destruída

 

Estátua de Lenin diante do Museu Nacional de História do Quirguistão, em Bishkek

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,O atual Museu Nacional de História do Quirguistão, em Bishkek, abrigava o Museu Lenin durante a era soviética
    • Author,Aysimbat Tokoeeva*
    • Role,Serviço Russo da BBC
    • Reporting from,Bishkek, Quirguistão
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  • Tempo de leitura: 9 min

A capital do Quirguistão está no centro de um processo de apagamento de seu passado arquitetônico.

Bishkek já perdeu vários grandes exemplos da arquitetura soviética, e outros monumentos também correm risco de destruição. Nos locais demolidos, avança uma intensa construção comercial.

Há alguns meses, o presidente do Quirguistão, Sadyr Japarov, participou da inauguração de um projeto planejado para abrigar 60 mil moradores, com custo estimado em US$ 3 bilhões (cerca de R$ 16,5 bilhões).

O local escolhido para a construção foi o terreno do antigo e lendário hipódromo soviético Ak Kula. Dizia-se que aquele era o ponto de encontro entre a cidade e a estepe, entre a modernidade e as tradições nômades.

Para alguns analistas, o Ak Kula simbolizava uma parte importante da identidade e da história do Quirguistão, pequena ex-república soviética localizada na Ásia Central.

Construído em 1947, o complexo estava abandonado até então. No início da década de 2020, perdeu o status de patrimônio histórico e acabou demolido para dar lugar a um novo projeto.

Na prática, qualquer hipódromo ocupa uma vasta área urbana. Os argumentos a favor de destinar esse espaço a usos considerados mais eficientes e rentáveis são relativamente simples de compreender.

Mas a particularidade do novo complexo de Bishkek é que as estruturas únicas e reconhecíveis de Ak Kula, o conjunto de entrada, os edifícios administrativos e as arquibancadas, poderiam ter sido preservadas e integradas ao projeto como parte da história urbana e nacional.

E esse não é um caso isolado.

Nos últimos cinco anos, Bishkek perdeu ao menos nove edifícios históricos importantes, segundo estimativas de jornalistas e urbanistas.

A maior parte das construções demolidas seguia o estilo arquitetônico conhecido como "classicismo soviético" ou "arquitetura stalinista", em referência a Joseph Stalin (1878-1953), que governou a antiga União Soviética.

"Como seria a cidade sem esses edifícios?", questiona a premiada artista quirguiz Gulnara Musabai, de 71 anos. "Agora, vão derrubá-los e construir aqueles prédios todos iguais. Mais uma caixa de concreto armado e pronto", afirma Musabai.

O edifício e a pista do hipódromo com a cidade ao fundo

Crédito,Anna Karamurzina

Legenda da foto,O hipódromo Ak Kula seis meses antes de ser demolido

Cidade 'descartável'

A gráfica Erkin-Too, construída em 1931 e responsável pela publicação do primeiro jornal do Quirguistão, está entre os edifícios demolidos.

Em 2015, a gráfica perdeu o status de patrimônio histórico. O Ministério da Cultura do país afirmou que o prédio havia perdido seu valor arquitetônico, urbanístico e histórico-cultural e que não poderia ser restaurado.

Também foi demolido o edifício da Escola de Música Kurenkeev, a mais antiga do país, construída em 1939 e única instituição responsável pela formação de músicos profissionais.

Três monumentos icônicos também desapareceram, sem que houvesse uma justificativa clara para sua remoção. Entre eles estavam o mosaico "Recepção de Convidados", uma das fontes mais antigas de Bishkek no parque Oak, e o baixo-relevo na fachada do Teatro Dramático Russo Aitmatov.

A professora de arquitetura Aigul Nasirdinova afirma que esse tipo de tratamento dado aos edifícios históricos transforma Bishkek em uma "cidade descartável", que perde gradualmente a sua diversidade cultural.

"Cidades que se valorizam não destroem seus marcos arquitetônicos", diz Nasirdinova. Segundo a professora, essas construções "se acumulam como um capital que gerará retorno no futuro".

O arquiteto e especialista em planejamento urbano estratégico Aibek Sydykov concorda: "Falta compreender que uma identidade preservada é um ativo de longo prazo, capaz de trazer para a cidade, no futuro, muito mais benefícios por meio do turismo e da qualidade de vida do que uma expansão acelerada da construção civil".

"Precisamos deixar de tratar edifícios antigos como 'ruínas' ou um 'obstáculo ao progresso'. Na prática internacional, são construções emblemáticas que ajudam a criar a identidade de um lugar", acrescenta Sydykov.

Um edifício com cúpula dourada e a bandeira do Quirguistão

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,"A cidade está perdendo seu DNA e se transformando em um conjunto de soluções padronizadas", afirmou o arquiteto e especialista em planejamento urbano estratégico Aibek Sydykov

A história perde espaço para os negócios

A Lei de Proteção aos Monumentos do Quirguistão estabelece que um bem tombado adquire esse status de forma permanente.

No entanto, o artigo 36 dessa lei prevê que a demolição e a reconstrução de patrimônios histórico-culturais podem ser autorizadas pelo governo "em caso de destruição repentina do monumento em consequência de desastre natural e diante do risco de perda de seu valor histórico, científico, artístico ou de outra natureza".

É justamente essa brecha legal que o governo e as comissões especiais do segmento utilizam para retirar de edifícios o status de patrimônio arquitetônico ou histórico.

Segundo Nasirdinova, as empresas da construção civil costumam ser as principais beneficiadas pela demolição de edifícios históricos. Muitos desses imóveis ficam na região central de Bishkek, uma área densamente urbanizada e com alguns dos metros quadrados mais caros da cidade.

"[Geralmente], os monumentos arquitetônicos pertencem ao Estado e não podem ser privatizados. Eles ficam na parte central da cidade e ocupam grandes áreas", explica Nasirdinova.

Mas, se um monumento desaba e é considerado irrecuperável, o terreno pode receber qualquer tipo de empreendimento. "Os monumentos arquitetônicos acabam perdendo para os interesses empresariais", afirma Nasirdinova.

Ativistas e analistas concordam que a corrupção é um dos fatores centrais por trás desse processo.

Segundo dados da Transparência Internacional (declarada pelo governo russo como "organização indesejável" e "agente estrangeiro"), o Quirguistão aparece de forma recorrente entre os países com piores resultados nesse aspecto.

Elementos do estilo soviético no edifício do Teatro de Ópera de Bishkek

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Detalhes da arquitetura soviética na fachada do Teatro de Ópera de Bishkek

"Aqui prevalece uma lógica pragmática de lucro econômico de curto prazo. Infelizmente, dentro dessa visão, o valor do metro quadrado continua pesando mais do que o valor simbólico da história e da cultura", afirma Sydykov.

Nos últimos cinco anos, os projetos de construção cresceram de forma significativa no Quirguistão. O boom imobiliário se transformou em um dos principais motores do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), soma de todos os bens e serviços produzidos pelo país.

Nos últimos três anos, o PIB praticamente dobrou, passando de 1 trilhão de soms, moeda do Quirguistão, equivalente a cerca de US$ 11 bilhões (R$ 60,5 bilhões, mais ou menos equivalente ao PIB do Estado de Sergipe em 2023), para quase 2 trilhões de soms, cerca de US$ 22 bilhões (R$ 121 bilhões).

Segundo dados do governo, a economia do país cresceu 11% em 2025. No setor da construção civil, a expansão no ano passado superou 21%.

O DNA de Bishkek

Bishkek, então chamada de Pishpek, recebeu o status de cidade em 1878.

Até o início do século 20, era um assentamento formado principalmente por construções térreas. Os poucos edifícios de dois andares abrigavam órgãos administrativos ou residências de comerciantes ricos.

O principal desenvolvimento urbano da cidade ocorreu durante o período soviético.

A casa de Ilya Terentyev, primeiro prefeito eleito da cidade, em 1910, é um dos poucos edifícios da era pré-revolucionária ainda preservados em Bishkek

Crédito,Dmitry Motinov, para o serviço russo da BBC

Legenda da foto,Bishkek se desenvolveu durante o período soviético. A casa de Ilya Terentyev, primeiro prefeito eleito da cidade, em 1910, é um dos poucos edifícios anteriores à Revolução Russa que ainda permanecem de pé

Sydykov explica que a paisagem urbana de Bishkek é marcada pelo modernismo soviético e pela arquitetura do chamado "classicismo socialista" ou "classicismo soviétivo", corrente arquitetônica da União Soviética entre as décadas de 1930 e 1950.

"O Circo Estatal do Quirguistão, inaugurado em 1976, é um dos exemplos mais reconhecíveis do modernismo soviético na cidade. É um edifício circular com a característica cúpula em formato de 'disco voador'", afirma Sydykov.

Sydykov destaca que o que torna a arquitetura de Bishkek singular não são as chamadas "caixas soviéticas", mas o modernismo desenvolvido em Frunze — antigo nome da cidade — entre as décadas de 1960 e 1980.

"É uma adaptação do estilo internacional ao contexto local: brises para proteção solar, uso do concreto e ornamentos nacionais", explica Sydykov.

Um dos exemplos citados por ele é a Filarmônica Estatal T. Satyganov, do Quirguistão: "É uma sala de concertos monumental, com fachada expressiva, grandes formas geométricas típicas do modernismo pós-soviético e elementos decorativos em relevo", afirma Sydykov.

Por essas e outras razões, Sydykov defende: "Nossa tarefa é aprender a valorizar a história, em vez de vendê-la ao preço dos tijolos para sua demolição. O futuro de Bishkek está em sua singularidade, não em imitar megacidades sem personalidade".

E acrescenta: "A cidade está perdendo seu DNA e se transformando em um conjunto de soluções padronizadas".

Um edifício em forma de “disco voador” no centro de Bishkek. No topo, a palavra “Circo” (escrita em russo) aparece em letras grandes. Ao fundo, três guindastes e um arranha-céu em construção dominam a paisagem

Crédito,Dmitry Motinov, para o serviço russo da BBC

Legenda da foto,O 'disco voador' do circo estatal é um exemplo clássico do modernismo soviético, e um dos edifícios mais típicos de Bishkek

Apagamento da herança soviética?

Tanto Japarov quanto seus aliados costumam usar a expressão "Novo Quirguistão", associada ao crescimento do PIB, ao desenvolvimento do turismo e também a reformas arquitetônicas.

Ao assumir a Presidência, em 2021, Japarov anunciou a necessidade de construir um novo edifício para a administração presidencial.

A inauguração oficial do novo complexo ocorreu em agosto de 2024. O prédio foi erguido no terreno onde antes funcionava o hotel Issyk-Kul, que também possuía status de patrimônio arquitetônico.

Na época, o porta-voz presidencial, Erbol Sultanbaev, respondeu às críticas de moradores e de integrantes da comunidade de arquitetos afirmando que a construção do novo edifício era uma questão de "prestígio" para o país.

"Quando visitamos países estrangeiros, sempre observamos com admiração seus complexos administrativos e sua arquitetura", disse Sultanbaev. "Esperamos que agora os visitantes de nossa república também nos olhem com a mesma admiração."

Militares em uniforme de gala desfilam diante do edifício administrativo branco. No centro da construção, uma fachada de vidro em forma de cruz se destaca. No alto da torre, uma bandeira tremula

Crédito,Governo do Quirguistão

Legenda da foto,Segundo o governo, a nova sede presidencial foi projetada para impressionar visitantes estrangeiros

Nos últimos cinco anos, as autoridades gastaram dezenas de milhões de dólares na construção de novos edifícios administrativos.

A atenção dada aos símbolos nacionais também se refletiu na mudança da bandeira do país (que, embora não tenha sido radical, provocou reações divididas entre a população) e, em 2024, foi iniciado o processo de adoção de um novo hino nacional (atualmente, uma comissão especial continua analisando as propostas).

Em 14 de abril, durante uma viagem ao sul do país, Japarov também afirmou que, no próximo ano, todas as cidades e localidades do Quirguistão com nomes soviéticos ou russos terão suas denominações alteradas.

No entanto, mais tarde, o atual porta-voz presidencial, Askat Alagozov, afirmou que o chefe de Estado havia sido mal interpretado e que a medida dizia respeito apenas a uma proibição temporária de dar às vilas nomes de personalidades específicas.

Quando, no ano passado, um monumento de 23 metros dedicado a Vladimir Lenin foi derrubado em Osh, segunda maior cidade do Quirguistão, alguns especialistas passaram a afirmar que o país havia iniciado um processo de "desovietização" ou "apagamento da herança soviética".

Na época, tratava-se da maior estátua de Lenin da Ásia Central. A rua onde o monumento ficava também deixou de levar o nome do revolucionário que fundou a União Soviética.

A Casa Branca, sede administrativa da presidência construída em arquitetura stalinista modernista em Bishkek, no Quirguistão

Crédito,Arterra/Universal Images Group via Getty Images

Legenda da foto,"Cidades que se valorizam não destroem seus marcos arquitetônicos", afirma especialista diante da perda de edifícios emblemáticos da era soviética

Ainda assim, bairros da capital do Quirguistão continuam com nomes soviéticos, e o monumento a Lenin permanece no centro da cidade.

Além disso, em seus discursos, Japarov segue mencionando "os fundadores do Estado, os heróis da União Soviética, os mestres da prosa e os heróis populares", sem excluir nenhum desses grupos.

Por isso, afirmar que o desmonte e a demolição da arquitetura soviética fazem parte de um programa ideológico seria, no mínimo, precipitado.

"O processo de 'desovietização' não está sendo conduzido de maneira consciente e estruturada no plano político no Quirguistão", afirma Elmira Abylbek, diretora do projeto de pesquisa histórica Esimde.

"Existem diferentes debates e narrativas, mas não em nível estatal. Continuamos sendo muito leais à antiga metrópole. Ao mesmo tempo, avançam processos de 'retorno a si mesmo', voltados para a preservação e o fortalecimento da língua, da cultura e da história", acrescenta.

"Não se trata necessariamente de um movimento de oposição a algo, muito menos de forma agressiva, mas de uma recuperação de nossa própria identidade."

*Esta reportagem é uma versão resumida do artigo publicado pelo Serviço Russo da BBC, que pode ser lido no idioma original aqui.

O fenômeno Vozinha, o herói de Cabo Verde na Copa do Mundo que, aos 40 anos, se tornou sensação do futebol

 

Vozinha, goleiro da seleção de Cabo Verde

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Vozinha pensou em se aposentar do futebol, mas o sonho de disputar uma Copa do Mundo falou mais alto
    • Author,Elizabeth Conway*
    • Role,BBC Sport
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Quando o árbitro apitou o final da partida no Estádio de Atlanta, no dia 15 de junho, todos os olhares se voltaram para um único jogador: o goleiro Vozinha, da seleção de Cabo Verde.

Seu rosto estava coberto de lágrimas, devido à magnitude da conquista: em uma partida que ficará para a história, sua seleção, estreante em Mundiais, empatou em 0x0 com a atual campeã da Europa, a Espanha.

As tribunas deliraram com a comemoração dos torcedores cabo-verdianos. Eles apoiaram sua seleção por 90 minutos que pareceram uma eternidade. E, agora, eles comemoravam se abraçando, dançando e saboreando o resultado.

No campo de jogo, os atletas corriam uns em direção aos outros, com um entusiasmo contagiante. Os próprios espectadores de outros países foram tomados pela emoção e muitos deles também comemoraram ao lado de Cabo Verde.

Mas o herói nacional foi o veterano goleiro Josimar José Évora Dias, o Vozinha. Eleito o melhor jogador da partida, ele foi o protagonista do espetáculo.

No jogo da sua vida, ele conseguiu manter o heroico placar de 0x0 frente à Espanha, uma das seleções favoritas para a conquista da Copa do Mundo da Fifa de Futebol Masculino de 2026.

"Chorei porque fui criado pelos meus avós", declarou Vozinha, de 40 anos. "Infelizmente, eles não estavam aqui, pois morreram há alguns anos. Eles eram tudo para mim, tudo na minha vida."

"Chorei também pela minha mãe. Ela não conseguiu vir por causa do visto. Devido ao dinheiro que precisávamos pagar para o trâmite, não conseguimos a tempo. Eu gostaria que ela estivesse aqui", lamentou o goleiro.

Vozinha levanta o braço para deter a bola chutada por um jogador espanhol

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,O goleiro de Cabo Verde fez defesas decisivas no jogo contra a Espanha

Ana Cândida Évora, a mãe do goleiro Vozinha, estará presente no estádio em Miami, nos Estados Unidos, para ver o filho jogar neste domingo (21/6) contra o Uruguai.

Ela confirmou a viagem aos repórteres da BBC em São Vicente (Cabo Verde). "Estou muito feliz", disse ela.

"Está acontecendo muito rápido, mas estou muito feliz, assim mesmo. Vou ver meu filho jogar na Copa do Mundo, se Deus quiser."

"Estarei lá para torcer por ele, vou levar força e coragem. Vou dar um abraço nele depois do jogo."

Um funcionário do Departamento de Estado americano confirmou posteriormente que "nossa equipe de vistos na Praia [capital de Cabo Verde] está em contato direto com ela, fornecendo os serviços necessários".

Cabo Verde é um dos cinco países participantes da Copa do Mundo cujos torcedores precisam pagar uma caução de até US$ 15 mil (cerca de R$ 77,5 mil) para obter o visto de entrada, por exigência do governo americano. Mas os portadores de ingressos para os jogos foram excluídos desta regra em maio passado.

Ana Cândida Évora mostra retrato na parede do seu filho, o goleiro Vozinha, em sua casa em Cabo Verde

Crédito,Michel Mvondo/BBC

Legenda da foto,Ana Cândida Évora, mãe do goleiro Vozinha, está feliz por conseguir o visto de entrada nos Estados Unidos para 'dar um abraço no meu filho depois do jogo' contra o Uruguai, em Miami

Para Vozinha, a principal arma de Cabo Verde é a união.

"Não importa se o jogador chegou hoje, ou se joga há 10 ou 15 anos, a forma como tratamos nossa família é a nossa maior fortaleza", declarou ele.

"Todos pensaram que nós viríamos aqui para passear no Mundial. Mas não. Sempre respeitamos as equipes porque é a nossa primeira vez, mas estamos aqui para competir e lutar pelo nosso país."

'Era o melhor, mas era baixinho'

Para Vozinha, isso é um sonho de toda a vida que se tornou realidade.

O goleiro cabo-verdiano passou a carreira buscando o objetivo de jogar na Copa do Mundo. E, quando a oportunidade finalmente chegou, o feito foi histórico.

Com 40 anos e 12 dias de idade, ele se tornou o jogador mais velho de uma seleção estreante em Copas do Mundo, ultrapassando o recorde estabelecido poucos dias antes por Eloy Room, de Curaçao.

O único jogador mais velho que Vozinha a estrear em uma Copa do Mundo foi outro goleiro, o egípcio Essam El Hadary. É uma marca incrível para uma carreira definida pela perseverança.

"Comecei a jogar como profissional aos 25 anos, em 2012", conta Vozinha. "Foi um pouco tarde para alguém como eu."

"Eu pensei em deixar a seleção, mas decidi continuar porque tinha este sonho", prossegue o goleiro.

"O desempenho é para todos. Sou o homem do jogo, mas este prêmio é para todos os meus colegas, pois, sem eles, nada é possível. Agora, é continuar a trabalhar por Cabo Verde e para o povo."

País de língua oficial portuguesa, Cabo Verde fica a cerca de 600 km da costa oeste da África. É um belo arquipélago, mas isolado, especialmente para quem almeja ser jogador de futebol profissional.

"Eu era um dos melhores goleiros da ilha, mas era baixinho", recordou Vozinha, em entrevista à BBC. "Mesmo jogando bem, não me selecionavam devido à minha altura."

Vozinha, em partida de 2013

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Vozinha foi inicialmente rejeitado devido à sua altura, mas ganhou espaço graças à sua habilidade

Como muitos jogadores antes dele, Vozinha se mudou para Portugal em busca de uma oportunidade. Cabo Verde foi colônia portuguesa até 1975.

Sua decisão foi o início de uma carreira profissional que o levou a Angola, Eslováquia, Moldova e Chipre.

Atualmente, Vozinha joga no Chaves, da segunda divisão portuguesa. Seu passe vale US$ 60 mil (cerca de R$ 310 mil).

O próprio nome do goleiro traz um trecho da história do futebol. Afinal, ele nasceu durante a Copa do Mundo de 1986, no México.

Seu pai queria batizá-lo como Valdano, em homenagem ao grande Jorge Valdano, do Real Madri e campeão do mundo pela Argentina naquele ano. Mas as autoridades cabo-verdianas não permitiram.

Por isso, ele recebeu o nome de Josimar, o lateral-direito do Botafogo que disputou a Copa de 1986 pela seleção brasileira.

Quatro décadas se passaram e, em outro Mundial, Vozinha fez história por seus próprios méritos.

O goleiro de Cabo Verde, Vozinha, leva as mãos ao peito durante o jogo contra a Espanha pela Copa do Mundo de 2026

Crédito,Reuters

Legenda da foto,Vozinha fez sete defesas no empate entre Cabo Verde e Espanha, garantindo o 0x0 no placar

'Absolutamente brilhante'

Incentivado por milhares de torcedores cabo-verdianos, Vozinha permaneceu firme frente ao implacável ataque espanhol. Foram sete defesas cruciais ao longo do jogo.

O único goleiro com mais de 40 anos que praticou mais defesas em uma partida de Copa do Mundo foi o norte-irlandês Pat Jennings. Ele completou 41 anos no mesmo dia da partida da Irlanda do Norte contra o Brasil pela fase de grupos da Copa de 1986.

Jennings fez 10 defesas naquele jogo, mas seu desempenho não impediu a seleção brasileira de vencer a partida por 3x0, com dois gols de Careca e um, coincidentemente, de Josimar.

Os torcedores presentes em Atlanta comemoraram cada defesa de Vozinha como se fosse um gol de Cabo Verde.

O goleiro também se tornou uma sensação viral fora do estádio. Vozinha passou de 50 mil seguidores no Instagram para mais de 14 milhões, depois que a CazéTV incentivou seus espectadores brasileiros a seguirem o goleiro.

"Isso é louco", comentou ele quando tomou conhecimento, em entrevista depois da partida.

O ex-atacante escocês Pat Nevin, comentarista do Mundial para a BBC, declarou que o goleiro "iluminou a partida".

"Ele foi absolutamente brilhante", segundo Nevin. "E fez isso com 40 anos. Todas as câmeras estão sobre ele, todos os seus companheiros apontam para ele. É um belo momento."

Jogadores da Espanha saindo de campo

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,O empate frente a Cabo Verde foi um baque para a Espanha, atual campeã da Europa e uma das favoritas para vencer a Copa do Mundo

O comentarista Lee Dixon, da rede britânica ITV, foi além:

"É absolutamente fantástico. Uma atuação brilhante. Eles merecem este ponto acima de tudo e a Espanha quase não merece nenhum. Saíram de campo decepcionados, mas a noite é de Cabo Verde."

"Que atuação de cada um deles: os centrais, os laterais, esse homem aí [Vozinha], chorando... eu também estou quase chorando."

Foi um resultado de imensa importância para o terceiro menor país a se classificar para o Mundial, com pouco mais de meio milhão de habitantes — o equivalente à população de Florianópolis (SC).

No estádio, seus torcedores estiveram à altura do acontecimento. Vestidos de azul e portando suas bandeiras azuis, vermelhas e brancas, eles cantaram e dançaram durante toda a partida, empurrando sua equipe a cada momento difícil e conquistando os espectadores de outros países.

A história de Cabo Verde se transformou na história de todos. Uma pequena nação insular conquistou a imaginação do mundo do futebol.

Com informações de Paul Njie e Michel Mvondo, repórteres da BBC em São Vicente (Cabo Verde), e de Tom Grundy, da BBC Sport.