El Amor Es Imposible (2023) é a mais recente investida do filósofo argentino Darío Sztajnszrajber em seu projeto de levar a filosofia para além dos muros acadêmicos, "despojando-a de sua língua críptica" e transformando-a em uma ferramenta para interpelar o senso comum . O livro é a "conclusão esperada e ambiciosa de um ciclo temático" que o autor vinha explorando desde 2016, e se propõe a realizar uma "desconstrução radical sobre um dos eventos mais radicais de nossa existência": o amor .
Diferente de seus trabalhos anteriores, Sztajnszrajber admite que este é seu texto "mais genuíno" e implicado, onde ele "vomita" suas perplexidades e expõe sua vulnerabilidade, ainda que sem recorrer a relatos biográficos explícitos . A obra é costurada por oito teses filosóficas que, em vez de oferecer respostas ou receitas para o amor, funcionam como "provocações" para desmontar a "arquitetura sentimental tradicional" sustentada por instituições como o casamento, a monogamia e a ideia de par . O objetivo não é negar a experiência amorosa, mas sim "problematizar o que damos como certo", criando problemas onde nos disseram que não existem .
A seguir, uma análise detalhada de cada uma das oito teses que estruturam o livro.
As Oito Teses Sobre a Impossibilidade do Amor
Tese 1: "O amor é impossível porque todos os amores não são mais que uma cópia do único amor verdadeiro que é o primeiro amor e que além disso nunca existiu."
Esta tese dialoga com princípios da psicanálise e da filosofia, sugerindo que carregamos a idealização de um "primeiro amor" como modelo único e inalcançável . Todas as relações posteriores seriam, então, tentativas frustradas de replicar uma experiência que, na verdade, é uma construção narrativa, uma fantasia forjada no presente. O passado, uma vez vivido, se desintegra e se torna inacessível em sua forma original. Restam apenas "vestígios, rastros", que interpretamos e revivemos de acordo com nossas expectativas atuais e futuras . Assim, o "primeiro amor" é um mito que nos condena à decepção, pois buscamos algo que, em sua essência imaginada, nunca existiu.
Tese 2: "Se o amor é impossível, discutamos o impossível."
Aqui, Sztajnszrajber desconstrói a própria noção de impossibilidade, inspirando-se em filósofos como Derrida e no slogan de Maio de 68: "Sejamos realistas, peçamos o impossível" . O amor é impossível não no sentido de ser inalcançável, mas como "aquilo que se abre uma vez que o possível mostra sua fronteira" . O impossível não é a negação do possível, mas uma categoria que nos convida a questionar as estruturas que determinam nossa realidade. É a busca por "um mundo que nem avizinhamos", um alerta permanente para que não nos acomodemos nas certezas estabelecidas . O "único amor verdadeiro" seria, então, esse amor impossível, que nunca pode ser apresado ou consumado, pois sua essência é "eludir o mundo do possível" para assim perdurar .
Tese 3: "O amor é impossível porque é inefável."
O amor resiste a qualquer tentativa de definição ou apreensão total pela linguagem. As palavras são ferramentas limitadas que não conseguem capturar sua essência . Citando autores como Wittgenstein e Derrida, Sztajnszrajber argumenta que, no momento em que tentamos lexicalizar o amor, impomos a ele uma interpretação simbólica e cultural que o trai. A inefabilidade, longe de ser uma falha, é o que "protege o amor de sua redução às categorias da linguagem" . É por isso que o "te amo" pode ser visto como uma "fórmula industrial, serial, artificiosa, falsa", uma tentativa de capturar o inapreensível que acaba por esvaziá-lo .
Tese 4: "O amor é impossível porque é sempre a destempo."
O amor nunca chega na hora certa. Seja por circunstâncias externas, pela falta de sincronia entre as pessoas ou pela percepção subjetiva, o amor é marcado pelo desencontro . No entanto, essa falta de sincronia, que pode ser uma fonte de frustração, é também o que "mantém vivo o desejo e a fantasia do amor", protegendo-o "da degradação da rotina e da cotidianidade" . O amor a destempo é uma força disruptiva que suspende a previsibilidade do relógio e abre espaço para a experiência do impossível, vivendo na "saudade do que não pôde ser" .
Tese 5: "O amor é impossível porque é incalculável."
O amor genuíno não pode ser produto de um cálculo racional ou de uma estratégia de conveniência. Sua natureza é imprevisível e irrompe na vida como "um assalto que desestabiliza e desarma qualquer planificação" . Ele se opõe ao "pensamento calculador" que busca produtividade e benefício, instaurando uma lógica de gratuidade e perda de controle.
Tese 6: "O amor é impossível porque todo amor é sempre um desamor."
Esta tese aponta para a ambiguidade constitutiva do amor. Amar é também estar sujeito à perda, à frustração e à ausência. A idealização do amor como pura positividade é desmontada para dar lugar a uma visão mais complexa, onde o desamor não é o oposto, mas uma sombra que acompanha inevitavelmente a experiência amorosa .
Tese 7: "O amor é impossível devido aos condicionamentos institucionais do amor."
Sztajnszrajber critica como o amor foi capturado e moldado por instituições como a família, a Igreja e o Estado, que o reduziram a formatos normativos como o casamento monogâmico e heterossexual . Essas estruturas, em vez de protegerem o amor, muitas vezes o engessam, criando expectativas irreais e transformando a relação em um contrato social que sufoca a alteridade. A desconstrução desses "condicionamentos institucionais" é fundamental para liberar o amor de sua versão "comercial, romântica, que nos é vendida como dominante" .
Tese 8: "O amor é impossível porque o amor é o outro."
Esta é a tese que, nas palavras do autor, amarra todas as outras e representa o coração do livro . O amor verdadeiro não é uma expansão do eu, mas uma "retração, uma perda". É a experiência de ser desarmado pelo outro, que nunca pode ser completamente conhecido, possuído ou reduzido a um objeto que nos complete . Sztajnszrajber desconstrói a metáfora da "media naranja", argumentando que ela supõe que somos uma metade à espera de complementação. "Se o outro é um outro, nunca vai te completar porque é um outro, excede aquilo que você supõe que ele tem que ter para te completar" .
Em vez disso, o amor é o encontro com essa alteridade radical, que nos desestabiliza e nos mostra os limites do nosso eu. "O outro é o grande ausente", inclusive da política . E é essa ausência, essa impossibilidade de apreensão total, que torna o amor uma busca eterna e transformadora. Amar é "escapar de si mesmo", é se abrir para o risco da desconstrução da própria identidade .
Uma Análise Crítica, Humana e Existencial
As Origens do Amor: Entre o Mito e a Falta
O livro sugere que a origem do amor não está em uma plenitude passada (o primeiro amor), mas sim em uma falta estrutural. Amamos porque somos incompletos, mas não no sentido de buscar uma "outra metade" que nos complete. A incompletude é a condição de possibilidade para a abertura ao outro. O amor nasce desse vazio, dessa impossibilidade de ser autossuficiente, e é justamente por isso que ele nos move. O "primeiro amor" é uma ficção que criamos para dar sentido a essa busca, um mito de origem que esconde que a origem é, na verdade, a falta.
A Humanidade sem Amor: Um Projeto Inacabado?
A partir da provocação de Sztajnszrajber, podemos refletir sobre para onde caminha a humanidade com ou sem amor. Se o amor, como ele propõe, é essa experiência radical de descentramento do eu e abertura ao outro, então:
Com amor, a humanidade caminha para um estado de permanente questionamento e transformação. O amor, em sua impossibilidade, funciona como uma "voz de alerta" que nos impede de cristalizar nossas identidades, relações e instituições . Ele nos força a sair da zona de conforto do "possível" (o mundo do consumo, da utilidade, das normas) para vislumbrar outras formas de existir e de se relacionar. É uma força revolucionária que nos "interpela", que nos desacomoda e nos humaniza na medida em que nos reconhece como seres vulneráveis, capazes de serem afetados pelo outro .
Sem amor (ou com a versão domesticada e institucionalizada que o livro critica), a humanidade corre o risco de se fechar em um projeto de autossuficiência e expansão narcísica. Seria um mundo governado pelo "pensamento calculador", onde as relações são meras trocas de conveniência e o outro é apenas um instrumento para a nossa própria realização . Nesse cenário, a solidão não seria a solidão existencial que nos abre ao outro, mas um isolamento egoico, onde estamos sempre cercados de "outros" que são, na verdade, extensões de nós mesmos.
O livro de Sztajnszrajber, portanto, não é um tratado de pessimismo, mas um ato de fé na potência transformadora da filosofia e do amor. Ao afirmar que o amor é impossível, ele nos liberta da tirania de ter que alcançá-lo, possuí-lo ou defini-lo. A impossibilidade não é um ponto final, mas um ponto de partida. É um convite para "animar-se ao impossível", para aceitar que a beleza do amor reside justamente em sua natureza fugidia, em sua capacidade de nos tirar do lugar, de nos lançar em direção ao outro sem garantias de retorno ou sucesso. Como ele mesmo diz, o amor nos leva a um lugar onde "não queremos estar onde estamos" . E talvez seja exatamente essa insatisfação criativa, esse estranhamento em relação ao dado, que nos define como humanos.