SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quinta-feira, 12 de março de 2026

'Estamos com o dedo no gatilho': a advertência do Irã aos iranianos que tentarem derrubar o regime, como pede Trump

 

Membros das forças de segurança fazem guarda em veículos blindados adornados com retratos do falecido líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei (à esquerda e à direita), e de seu filho, o novo líder supremo do Irã, o aiatolá Mojtaba Khamenei.

Crédito,AFP

    • Author,Masoud Azar
    • Role,BBC Persian
  • Tempo de leitura: 4 min

Quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, iniciou os ataques contra o Irã, matando o seu líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, ele disse aos iranianos para "tomarem o controle do governo".

"Ele será de vocês", disse Trump. "Esta será provavelmente a única chance de vocês em gerações."

Mas, à medida que a guerra entre os EUA, Israel e o Irã se intensificou nas últimas duas semanas, os iranianos receberam mensagens muito diferentes sobre o que pode acontecer se eles tomarem alguma atitude.

O encorajamento de Trump e de iranianos que vivem fora do país veio acompanhado de relatos de um aumento na presença policial e de segurança em cidades de todo o país, com autoridades alertando contra aglomerações ou protestos.

'Vamos atrás de vocês'

No início desta semana, o chefe de polícia do Irã, o general Ahmadreza Radan, alertou que suas forças tratariam qualquer pessoa que fosse às ruas "a pedido do inimigo" como um "inimigo".

"Todas as nossas forças estão prontas para defender a revolução e apoiar seu povo e seu país", acrescentou Radan.

Em outro momento, um apresentador do Canal Três da televisão estatal iraniana dirigiu-se aos opositores da República Islâmica e àqueles que consideram protestar contra o governo.

"Quando a poeira desta sedição baixar, iremos atrás de vocês", disse o apresentador. "Confiscar suas propriedades será o mínimo. Faremos vocês e suas famílias pagarem, estejam vocês dentro do país ou no exterior."

Em 8 de março, a Procuradoria-Geral do Irã emitiu um comunicado alertando os iranianos que vivem no exterior de que, se cooperarem com o que descreveu como "inimigos hostis", poderão enfrentar punições severas.

Citando a lei iraniana sobre a "intensificação da punição por espionagem e cooperação com Israel e países hostis", o comunicado enfatizou que qualquer "atividade operacional, cooperação de inteligência ou espionagem" para tais países pode resultar não apenas na confiscação de bens, mas também na pena de morte.

Essas ameaças são um forte lembrete das ameaças enfrentadas pelos iranianos caso protestem contra o governo.

Durante semanas de protestos antigovernamentais em dezembro e janeiro, pelo menos 7 mil manifestantes foram mortos em uma repressão sem precedentes pelas forças de segurança, segundo grupos de direitos humanos.

'Tomem seu destino pelas próprias mãos'

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Apesar disso, algumas lideranças fora do Irã tentam encorajar os iranianos a tomarem medidas contra o governo em um momento de fraqueza do regime.

Na terça-feira (10/3), Reza Pahlavi, filho exilado do último xá do Irã, instou a população iraniana a obter suprimentos essenciais o mais rápido possível e a aguardar o que chamou de seu "chamado final".

Em uma mensagem de vídeo, ele disse: "Para sua própria segurança, saiam das ruas e permaneçam em suas casas. Continuem as greves e não vão trabalhar. Para demonstrar sua união, mantenham os cânticos noturnos [contra as autoridades] com força."

Pahlavi também se dirigiu a membros das forças militares e de segurança do Irã, dizendo: "Esta é a última oportunidade para vocês se separarem das forças da repressão e se unirem ao povo."

Seu apelo veio no momento de intensificação da segurança dentro do Irã. Com a continuidade do bloqueio da internet, postos de controle foram instalados em vários bairros e ruas.

Pessoas acenam com bandeiras nacionais iranianas enquanto participam dos funerais de comandantes da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), do exército e de outros mortos nos primeiros dias dos ataques dos EUA e de Israel contra o Irã, na Praça Enghelab (Revolução), em Teerã.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Os funerais dos comandantes iranianos mortos nos primeiros dias da guerra ocorreram em Teerã na quarta-feira

Na quarta-feira, a agência de notícias semioficial iraniana Fars, próxima à Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), alegou que drones israelenses alvejaram vários postos de controle em Teerã. A agência afirmou que vários militares foram mortos nos ataques e, citando fontes não oficiais, disse que "cerca de 10" pessoas morreram.

A Fars citou uma fonte que alegou que a operação tinha como objetivo enfraquecer a presença de segurança em Teerã e criar condições para distúrbios ou protestos antigovernamentais. O relatório também alegou que a operação envolveu "monarquistas", referindo-se aos apoiadores de Pahlavi.

Com a continuidade dos ataques militares, crescem as preocupações com as baixas civis e o aumento das tensões no Oriente Médio. Vários observadores alertaram sobre as consequências mais amplas da guerra para a vida dos civis, a segurança regional e os mercados globais de energia.

Desde o início das hostilidades, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, também se dirigiu ao povo iraniano, afirmando que Israel "criaria condições que permitiriam que vocês tomem o seu destino em suas próprias mãos".

Netanyahu acrescentou ainda esta semana: "Esta é uma oportunidade única para vocês derrubarem o regime dos aiatolás e conquistarem a sua liberdade".

As mensagens rivais dão uma ideia da intensa pressão que paira sobre os iranianos.

As autoridades dentro do país alertam contra qualquer dissidência, enquanto vozes no exterior encorajam os iranianos a enxergarem o momento como uma oportunidade de mudança.

Como jovens iranianos estão enfrentando a guerra: 'Não temos outra escolha a não ser viver'

 

Uma área de Teerã coberta de neve
Legenda da foto,Partes de Teerã cobertas de neve dias depois de "chuva negra"
    • Author,Ghoncheh Habibiazad
    • Role,BBC Persian
  • Tempo de leitura: 5 min

Partes da capital iraniana, Teerã, ficaram cobertas por neve na noite de terça-feira (10/3), depois que ataques aéreos contra depósitos de petróleo nos arredores da cidade provocaram dias de céu escuro e "chuva negra".

E a vida continua, mesmo com a guerra se prolongando.

Sahar, uma mulher na faixa dos 20 anos, disse à BBC News Persa que passava a maior parte dos dias abrigada em casa, em Teerã, cozinhando, lendo e jogando um videogame de simulação de vida.

"Acho que minha criatividade aumentou durante a guerra. Estou constantemente estressada e acabo construindo casas mais bonitas no jogo", disse.

Sahar — cujo nome, assim como o dos outros entrevistados nessa reportagem, foi alterado por motivos de segurança — soube na terça-feira que uma mulher com quem havia estudado na escola foi morta.

"O corpo dela não foi encontrado. Fiquei horrorizada ao saber disso", disse.

"Por que precisamos passar por um horror desses quando estamos nos melhores anos da juventude? Eu só quero que isso termine antes do Nowruz. Meus dias favoritos na vida são os primeiros dias da primavera."

Faltam menos de dez dias para o Nowruz, festival de Ano Novo persa que marca a chegada da primavera.

Normalmente, é um período em que as famílias se reúnem para celebrar. Mercados e ruas em todo o Irã costumam ficar cheios de pessoas comprando doces e nozes para receber convidados antes do feriado.

Mas neste ano não tem sido assim, segundo moradores de Teerã.

Montagem de imagens mostra uma rua quase vazia em Teerã (esquerda), uma refeição servida sobre uma toalha de plástico em uma casa no Irã (centro) e uma mulher segurando um copo de café (direita)
Legenda da foto,Imagens da vida em Teerã após mais de uma semana de guerra
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"Não parece que estamos nos preparando para o Nowruz. Mas, mesmo sob ataques de mísseis, continuamos vivendo. Não temos outra escolha a não ser viver", disse Peyman, um homem na faixa dos 30 anos.

"O metrô está vazio. Tão vazio que, para cada pessoa, há 30 ou 40 assentos desocupados. As ruas também estão muito silenciosas… tão silenciosas que seria fácil jogar futebol no meio da rua", acrescentou.

Outro homem, também na faixa dos 30 anos, disse: "Meu horário de sono agora depende dos bombardeios. Vou dormir por volta das seis ou sete da manhã e acordo às 14h. Às vezes preciso sair para comprar mantimentos, mas Teerã está muito vazia".

Teerã e a província ao redor têm cerca de 14 milhões de habitantes, mas alguns moradores deixaram a região em busca de segurança em outros lugares desde que os Estados Unidos e Israel começaram a atacar o Irã em 28 de fevereiro.

Alguns seguiram para o norte, em direção ao mar Cáspio, onde houve menos ataques.

Bombeiros cercam um caminhão-tanque de combustível destruído pelo fogo

Crédito,Reuters

Legenda da foto,Uma fumaça escura cobre o céu de Teerã após ataque ao depósito de petróleo de Shahran no sábado

Mina, uma mulher na faixa dos 20 anos, é uma delas. Ela agora está na cidade de Rasht, norte do Irã, perto do mar Cáspio.

"Minha família insistia para que fôssemos para Rasht ficar com minha avó, mas minha melhor amiga e colega de apartamento não queria deixar Teerã. Eu me senti culpada por ir embora sem ela, então não queria que fôssemos", lembrou.

"Na noite em que atingiram os depósitos [de petróleo], nosso apartamento tremia até a porta de entrada. Todas as janelas se iluminaram como se fosse manhã."

E acrescentou: "Fiquei pensando o tempo todo que, se algo acontecesse com minha família, seria culpa minha por ter dito que não devíamos ir para Rasht.

"No dia seguinte, finalmente fomos para Rasht, em um carro coberto por manchas deixadas pela chuva poluída", contou Mina.

"Minha melhor amiga decidiu ficar em Teerã com a família, mas eu ligo para ela todos os dias. Conversamos ao telefone sobre todas as coisas legais que vamos fazer quando a guerra terminar. Talvez a gente pinte o cabelo de um tom mais claro depois disso."

Uma mulher está em uma praia do mar Cáspio, no Irã
Legenda da foto,A costa iraniana do mar Cáspio foi menos afetada pela guerra do que Teerã

Ainda é muito difícil entrar em contato com pessoas dentro do Irã em meio ao apagão de internet imposto pelo governo no início da guerra, mas moradores com conhecimento tecnológico têm usado dispositivos Starlink e compartilhado a conexão com outras pessoas.

O sistema de internet por satélite tornou-se um recurso vital de comunicação para alguns que tentam entrar em contato com o mundo exterior. Ele funciona como uma antena de celular no espaço, usando uma constelação de satélites para se comunicar com pequenas antenas no solo que possuem um roteador Wi-Fi integrado.

Usar o Starlink no Irã pode resultar em punição de até dois anos de prisão, e houve relatos de que as autoridades estavam procurando antenas parabólicas para impedir que as pessoas se conectem.

Mehran, na faixa dos 20 anos e morador de Teerã, disse que vinha compartilhando sua conexão Starlink com pelo menos 25 outras pessoas. Ele acrescentou que havia escondido o dispositivo "em algum lugar remoto" para evitar que as autoridades o "encontrassem ou bloqueassem".

Ele disse que permitiu que pessoas próximas a ele se conectassem ao serviço gratuitamente, embora o acesso à internet esteja sendo vendido no aplicativo de mensagens Telegram por cerca de US$ 6 (aproximadamente R$ 30) por 1GB de dados — um preço alto em um país onde o salário médio mensal é estimado entre US$ 200 e US$ 300 (cerca de R$ 1.000 a R$ 1.500).

Delegacia atingida no condado de Rey, no sul de Teerã, Irã
Legenda da foto,Alguns moradores deixaram Teerã, que tem sido atingida repetidamente por forças de Israel e dos Estados Unidos

Shima, uma mulher na faixa dos 20 anos em Teerã que usa uma conexão Starlink para acessar a internet, disse: "Você precisa comprar de alguém em quem confie, caso contrário há a possibilidade de que cortem sua internet depois que você pagar uma quantia considerável."

A organização de monitoramento NetBlocks afirmou na quarta-feira (11/3) que o apagão de internet no Irã havia entrado no 12º dia, com a conectividade ainda em apenas 1% dos níveis normais após 264 horas.

"O serviço VPN Starlink que comprei para emergências é absurdamente caro e leva muito tempo para se conectar, o que me faz duvidar se valeu a pena gastar tanto dinheiro", disse Shima.

"Mas pelo menos posso dizer aos meus entes queridos no exterior que não virei cinzas e que ainda estou viva."

The Manifesto (feat. Trueno and Proof) , Pt. 1


 

"Sociedade Digital" de Manuel Castells



1. Introdução: A Síntese de uma Obra Aguardada 

Em "Sociedade digital", com lançamento previsto para fevereiro de 2026, Manuel Castells, um dos mais celebrados cientistas sociais da contemporaneidade, retoma e atualiza sua monumental teoria da "sociedade em rede" para dissecar as transformações estruturais do século XXI. Diferentemente de sua trilogia inaugural dos anos 1990, esta nova obra promete um olhar mais focado e empiricamente atualizado sobre como a digitalização generalizada está reconfigurando as relações humanas, a economia global e o poder político. 

O livro, com 210 páginas, não é apenas uma repetição de ideias passadas, mas uma aplicação do seu quadro teórico a fenômenos recentes como o capitalismo de dados, a inteligência artificial, a desinformação em massa e as novas formas de guerra geopolítica. Castells propõe-se a examinar as consequências sociais, econômicas, culturais e políticas da digitalização, investigando desde a vigilância estatal até o impacto das big techs e a reconfiguração do espaço urbano. 

2. Estrutura e Temáticas Centrais 

A obra está organizada para navegar por diferentes camadas da vida social, todas atravessadas pela lógica digital. As descrições disponíveis permitem identificar os seguintes eixos temáticos principais: 

2.1. Economia e Trabalho na Era Digital 

Castells analisa a nova arquitetura da economia global, marcada pelo capitalismo de dados e pela automação. Ele discute o papel das criptomoedas como instrumentos financeiros descentralizados e a consolidação do trabalho remoto como uma nova norma, investigando como essas mudanças alteram as relações trabalhistas e a estrutura das corporações. O autor já havia estabelecido em obras anteriores que a produtividade e a competitividade dependem crucialmente da capacidade de gerar, processar e aplicar a informação baseada em conhecimento. Neste novo livro, ele examina como essa lógica se aprofunda com a inteligência artificial. 

2.2. Política, Poder e Comunicação em Rede 

Um dos núcleos do livro é a transformação da esfera pública. Castells explora como as redes sociais se tornaram arenas centrais para o embate político, mas também para a proliferação da desinformação. A obra investiga a tensão entre vigilância estatal e privacidade, e os dilemas impostos pelas big techs à soberania dos Estados e à autonomia individual. O conceito de "comunicação pessoal de massa", desenvolvido anteriormente por ele, encontra aqui seu desdobramento, mostrando como mensagens individuais podem alcançar audiências globais, ao mesmo tempo que disputam espaço com "comentários contagiantes" e memes, nivelando a importância de dados e entretenimento. 

2.3. Transformações Socioculturais e Espaciais 

O autor também dedica atenção à educação, à estrutura espacial das cidades e às desigualdades digitais. Ele analisa como a digitalização cria formas de exclusão e segregação, ao mesmo tempo que redefine o "espaço de fluxos" — conceito que criou para descrever a organização material das práticas sociais que funcionam por meio de conexões digitais, independentemente da proximidade física. As cidades, nesse contexto, são vistas como nós dessas redes globais, mas também como espaços de resistência local e afirmação de identidade. 

3. Fundamentação Teórica: A Sociedade em Rede como Base 

Para compreender Sociedade digital, é essencial conectá-lo à teoria mais ampla de Castells. O livro se assenta na premissa de que a era digital constitui a base socio tecnológica da nossa estrutura social. Isso significa que: 

  • Informacionalismo: A geração de conhecimento e o processamento de informação são as fontes fundamentais de produtividade e poder. 

  • Lógica de Redes: A sociedade está organizada em torno de redes (financeiras, midiáticas, políticas), que são estruturas abertas e dinâmicas, capazes de se expandir ou se reconfigurar conforme as necessidades. "Uma rede é feita por um conjunto de nós, que são elementos que se comunicam entre si". 

  • Cultura da Virtualidade Real: Não há separação entre o "real" e o "virtual". A realidade é capturada e reorganizada no meio digital, e esse ambiente, por sua vez, retroalimenta e molda a realidade física, criando uma integração profunda. Como explica um analista, "não existe fronteira entre o 'real' e o 'virtual'". 

4. Citações e Percepção da Crítica Preliminar 

Embora o livro ainda não tenha sido resenhado academicamente, a crítica inicial destaca a relevância e a abrangência da análise de Castells. A Veja o classifica como "um dos mais celebrados especialistas do impacto das modernas tecnologias em tempo de comunicação acelerada e informações falsas". A revista Galileu reforça sua autoridade, chamando-o de "uma das maiores autoridades acadêmicas mundiais quando o assunto é o impacto das tecnologias da informação na sociedade". 

Uma análise preliminar de um leitor na Amazon Brasil, de 25 de fevereiro de 2026, oferece um contraponto interessante: 

"O autor é referência, mas, neste livro, há muita ênfase nas estatísticas. Faltou um pouco de análise global."  

Esta crítica sugere que, na tentativa de ser rigoroso e atualizado, Castells pode ter privilegiado a apresentação de dados empíricos em detrimento de uma visão mais sintética ou interpretativa dos fenômenos, um desafio comum a obras que buscam capturar a realidade em rápida transformação. 

5. Análise Crítica e Debates Suscitados 

Com base no escopo do livro e na trajetória do autor, é possível antecipar os principais pontos de debate e crítica que Sociedade digital provavelmente enfrentará: 

5.1. Otimismo Tecnológico vs. Determinismo 

Uma crítica recorrente à obra de Castells é um certo otimismo tecnológico ou, no mínimo, uma abordagem que alguns veem como funcionalista. Ao afirmar que a tecnologia é a base da estrutura social, corre-se o risco de interpretar sua teoria como tecnologicamente determinista, embora o autor sempre argumente que a tecnologia é um produto social e que as redes são moldadas por valores e interesses. A questão que fica é: até que ponto o livro aprofunda a análise de como as relações de poder e exploração capitalistas estão moldando a tecnologia, e não apenas sendo moldadas por ela? 

5.2. A Questão da Exclusão e das Desigualdades 

Castells promete abordar as "desigualdades e exclusões digitais". A crítica poderá avaliar se ele oferece uma análise estrutural dessas desigualdades ou apenas uma descrição da "divisão digital" (acesso/não acesso). A menção ao "capitalismo de dados" indica uma direção promissora, ao sugerir que a exclusão não é apenas de acesso, mas de exploração dos dados dos usuários. No entanto, a crítica do leitor sobre a "falta de análise global" pode indicar que o livro se detém mais na descrição do fenômeno do que na sua crítica política e econômica profunda. 

5.3. Atualidade e Efemeridade 

O livro aborda temas extremamente voláteis, como criptomoedas, IA e redes sociais. O grande trunfo de Castells sempre foi identificar tendências estruturais de longa duração por trás das modas passageiras. O desafio de Sociedade digital será demonstrar como fenômenos aparentemente novos (como uma rede social específica) são, na verdade, manifestações da lógica mais profunda da sociedade em rede. O risco é que algumas das análises sobre tecnologias ou plataformas específicas possam se tornar datadas rapidamente. 

6. Conclusão 

Sociedade digital chega como uma obra fundamental para quem busca um mapa teórico confiável para navegar pelas complexidades do presente. Manuel Castells oferece uma sistematização abrangente das transformações em curso, ancorada em décadas de pesquisa e na sua poderosa teoria da sociedade em rede. 

A principal contribuição do livro é, provavelmente, a sua capacidade de integrar fenômenos díspares — da guerra à educação, das finanças à privacidade — num mesmo quadro analítico, mostrando como todos são atravessados pela lógica da digitalização e das redes. 

Se a crítica inicial aponta uma possível ênfase excessiva em dados, isso não diminui a importância da obra. Para estudantes, pesquisadores e formuladores de políticas públicas, Sociedade digital promete ser não apenas um retrato do nosso tempo, mas uma ferramenta indispensável para compreender os dilemas éticos, as disputas de poder e as possibilidades de ação em um mundo cada vez mais estruturado por fluxos de informação.