SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

FELICIDADE (feat. Lucio Dalla)


 

FELICITÀ (feat. Lucio Dalla)

Se todas as estrelas do mundo, em certo momentoSe tutte le stelle del mondo ad un certo momento
Descessem do céuVenissero giù
Uma série de astros de poeira brancaTutta una serie di astri di polvere bianca
Caindo do céuScaricata dal cielo
Mas o céu sem seus olhosMa il cielo senza i suoi occhi
Não brilharia maisNon brillerebbe più
Se toda a gente do mundo, sem razão nenhumaSe tutta la gente del mondo senza nessuna ragione
Levantasse a cabeçaAlzasse la testa
E voasse pra cimaE volasse su
Sem aquele barulho, aquele som dolorosoSenza il loro casino, quel doloroso rumore
A terra, pobre coraçãoLa terra, povero cuore
Não bateria maisNon batterebbe più

Eu sempre fico sem o elástico pra segurar a cuecaMi manca sempre l'elastico per tener su le mutande
Então, na hora mais bonita, ela desceCosì che le mutande, al momento più bello mi vanno
Pra baixoGiù
Como um sonho acabado, talvez um sonho importanteCome un sogno finito, magari un sogno importante
Um amigo traído, eu também já fui traídoUn amico tradito, anch'io sono stato tradito
Mas não importa maisMa non importa più
Entre a escuridão do céu e as cabeças carecas brancasTra il buio del cielo e le teste pelate bianche
Nossas palavras se movem cansadasLe nostre parole si muovono stanche
Não nos entendemos maisNon ci capiamo più
Mas eu quero falar, quero ouvirMa io ho voglia di parlare, di stare ad ascoltare
Quero continuar fazendo besteira, me comportar malDi continuare a far l'asino, di comportarmi male
Pra depois não fazer maisPer poi non farlo più
Pra depois não fazer maisPer poi non farlo più

Ah, felicidadeAh, felicità
Em qual trem da noite você vai viajar?Su quale treno della notte viaggerai?
Eu seiLo so
Que você vai passarChe passerai
Mas como sempre, rápido, você nunca paraMa come sempre in fretta, non ti fermi mai

Seria uma questão de nadar, levando na boaSi tratterebbe di nuotare, prendendola con calma
Deixar-se levar por dois olhos grandesFarsi trasportare dentro a due occhi grandi
Talvez azuisMagari blu
E pra me libertar, atravessar um mar medievalE per dovermi liberare, attraversare un mare medioevale
Lutar contra um dragão vesgo, mas de dragão, babyLottare contro un drago strabico, ma di draghi, baby
Não tem maisNon ce ne sono più
Talvez por isso os sonhos sejam tão pálidos e brancosForse per questo i sogni sono così pallidi e bianchi
E pulam cansados entre as antenas tortasE rimbalzano stanchi tra le antenne lesse
Das várias TVsDelle varie tivù
E voltam pra casa trazidos por senhores elegantesE ci ritornano in casa portati da signori eleganti
Sim, sim, que falamSì, sì che parlano
Todos eles aplaudindoTutti quanti che applaudono
Não queremos maisNon ne vogliamo più

Mas se esse mundo é um mundo de papelãoMa se questo mondo è un mondo di cartone
Então, pra ser feliz, basta um nada, talvez uma cançãoAllora per essere felici basta un niente, magari una canzone
Quem sabe (quem sabe)Chi lo sa (chi lo sa)
Se não, seria o caso de tentar fechar os olhosSe no, sarebbe il caso di provare a chiudere gli occhi
E mesmo quando você fechar os olhosE poi anche quando hai chiuso gli occhi
Quem sabe o que seráChissà cosa sarà

Ah, felicidadeAh, felicità
Em qual trem da noite você vai viajar?Su quale treno della notte viaggerai?
Eu seiLo so
Que você vai passarChe passerai
Mas como sempre, rápido, você nunca paraMa come sempre in fretta, non ti fermi mai
Ah, felicidade (felicidade)Ah, felicità (felicità)
Em qual trem da noite você vai viajar (vai viajar)Su quale treno della notte viaggerai (viaggerai)
Eu sei que você vai passarLo so che passerai
Mas como sempre, rápido, você nunca paraMa come sempre in fretta, non ti fermi mai

Eu seiLo so
Que você vai passarChe passerai
Mas como sempre, rápido, você não paraMa come sempre in fretta, non ti fermi
NuncaMai


Bruce Springsteen - Streets Of Minneapolis


 

Nós não queremos o “menos pior”por Egidio Guerra .



Manifesto do Amanhã Que Plantamos Hoje: Um mutirão de amor 

(I) 

Irmãos e irmãs da Terra cansada, do asfalto quente, do rio envenenado, 
Não venham nos oferecer migalhas do banquete podre. 
Não nos peçam para escolher, na urna cega, 
entre a fome que consome e a sede que desespera. 
Nós não queremos o “menos pior”. 
Essa é a lógica do opressor, a matemática da resignação. 

Porque ouvi, nas vielas do silêncio, o grito de Frantz Fanon: 
Cada geração deve, numa relativa opacidade, descobrir sua missão, cumpri-la ou traí-la. 
Nossa missão não é remediar. É raiz. É fundação nova. 

(II) 

Sonho, como Luther King sonhou nas escadas de um Lincoln de mármore, 
mas meu sonho tem cheiro de terra molhada e mãos calejadas. 
Sonho com as crianças de Vygotsky, aprendendo no círculo da comunidade, no “zona de desenvolvimento proximal” que é a praça, o terreiro, o campo. 
Um saber que não é dádiva, mas construção coletiva, como ensinou Paulo Freire: 
Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso, aprendemos sempre. 

Sonho com a escola de Edgar Morin, que tece os saberes, que une o texto ao contexto, o planeta à aldeia, a ciência à compaixão. 
Uma educação que não seja fábrica de peças, mas jardim de seres complexos e conectados. 

(III) 

Olho para os construtores deste “melhor” que ousamos nomear. 

Vejo Gandhi, com seu fuso e sua verdade firme, sussurrando: “Seja a mudança que você quer ver no mundo. 
Vejo Nelson Mandela, saindo após 27 anos sem permitir que o cárcere roubasse seu futuro, provando que “Aparentemente não há vergonha em perder a fé na humanidade, se mantivermos a fé nas pessoas. 
Vejo Pepe Mujica, no seu jardim simples, lembrando que “Não é pobre quem tem pouco, mas quem precisa muito”, e desafiando-nos a inventar uma felicidade que não seja mercadoria. 

Escuto Bernie Sanders, rugindo contra a oligarquia: “A justiça econômica é um direito moral. 
E ouço, vindo das assembleias indígenas, das mães de comunidade, o mesmo eco: não é sobre esmola. É sobre justiça. 

(IV) 

Este “melhor” que construímos não é uma torre de marfim. 
É a casa comum, de portas abertas, que Francisco de Assis cantaria. 
É a Terra sem males dos povos originários, não como fuga, mas como promessa plantada aqui. 
É entender, com Foucault, que o poder não é só repressão; pode ser, também, rede de solidariedade que produz vida. 
É lembrar com Platão, na sua alegoria, que sair da caverna é doloroso, mas necessário – e que não podemos voltar só para nós; temos que voltar para libertar os outros das sombras. 

(V) 

Por isso, convoco não uma marcha, mas uma semeadura. 
Que nossa ferramenta seja a enxada e o livro. 
Que nossa estratégia seja a poesia de Mario Benedetti: “Não te rendas, por favor não cedas / mesmo que o frio queime / mesmo que o medo morda… 
Que nosso ritmo seja o samba-raiz de Cartola, que transforma a dor em beleza, a luta em dança. 
Que nossa referência seja a literatura de Graciliano Ramos, que na seca do Nordeste brasileiro encontrou a dignidade intocável do homem. 

Vamos construir o melhor com a ética do cuidado – cuidado com o idoso, com a criança, com o rio, com a floresta que pulmona nosso ar. 
É a justiça social e ambiental como faces da mesma moeda, como ensinam as mulheres do Cinturão Verde do Quênia, plantadoras de árvores e de esperança. 

(VI) 

Este manifesto não é um sonho adormecido. 
É um convite para acordar e fazer. 
É um chamado para as praças, para as hortas comunitárias, para as salas de aula que questionam, para os ateliês que reciclam o lixo em arte. 
É a recusa definitiva à necropolítica, à lógica de quem decide quem merece viver e quem pode morrer.