SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

A Conversa Silenciosa: Como Ouvimos e Falamos com as Estrelas


 Laurens van der Post passou a vida tentando traduzir um abismo. Ao sentar-se ao redor da fogueira com os bosquímanos, ele percebeu que o céu noturno não era para eles um mapa, mas um eco. Quando perguntaram "por que você não consegue ouvir as estrelas?", não estavam se referindo a uma frequência sonora inaudível ao ouvido ocidental. Estavam se referindo a uma frequência da alma.

Para o povo San, o universo não é mudo. A natureza é uma entidade viva que narra a si mesma constantemente. Se não ouvimos as estrelas, é porque esquecemos a língua original.

Como Ouvimos as Estrelas?

Ouvimos as estrelas não com o tímpano, mas com a presença. Os bosquímanos passavam horas em silêncio — não um silêncio vazio, mas um silêncio receptivo. Era nesse estado que o cosmos deixava de ser um cenário e se tornava um interlocutor.

Ouvir as estrelas, nesse contexto, é perceber a ordem invisível que rege a noite. É sentir que aquele pontinho de luz é o mesmo que guiava as migrações dos antílopes, que marcava o tempo de plantar ou a história de um ancestral transformado em constelação.

Van der Post observou que, para eles, o canto das estrelas era uma vibração que subia da terra e descia do céu simultaneamente. Era o som da continuidade da vida. Quando a hiena ria, as estrelas tremiam. Quando uma criança nascia, uma nova estrela sussurrava seu nome no vento. Ouvir, portanto, é estar em sintonia com essa malha invisível de significados.

Como Conversamos com as Estrelas?

A conversa não acontece em palavras articuladas, mas em ritos e histórias. Os bosquímanos não oravam às estrelas como deuses distantes; eles dialogavam com elas como se fossem anciãos da tribo.

Um caçador, antes de partir, olhava para Sirius e pedia permissão ou sorte. A resposta vinha na forma de um pressentimento, no comportamento de um animal ou na direção do vento. Essa era a réplica da estrela.

Para eles, conversar com as estrelas era manter viva a "Grande História" . A Via Láctea não era um aglomerado de gases quentes; eram as cinzas das fogueiras ancestrais, as raízes de uma árvore cósmica. Quando contavam essas histórias para as crianças, estavam traduzindo a voz do céu para a linguagem humana. Quando dançavam a dança da girafa ou do leão, estavam encenando a coreografia que aprenderam ao observar as constelações.

A maior lição que van der Post nos deixou foi a percepção de que a desconexão moderna é uma forma de surdez espiritual. O progresso nos ensinou a falar sobre as estrelas (científica ou poeticamente), mas nos fez esquecer como falar com elas.

Conversar com as estrelas, no final das contas, é lembrar que não somos visitantes deste universo. Somos feitos da mesma matéria que ele, e a matéria, quando está viva, vibra. Cabe a nós parar o fluxo de ruídos humanos por tempo suficiente para perceber que a noite, lá no fundo do Kalahari ou no meio da cidade grande, está sempre cantando.

Ouvir é aceitar que fazemos parte de algo maior. Conversar é agradecer por isso.

A Rebeldia do Pensar: Do Zero ao Infinito por Egidio Guerra



O Ponto de Partida: O Zero e a Inércia 

No princípio, era o zero. Não o número, mas o estado de não-pensamento descrito por Óscar de la Borbolla. É o conforto da inércia social, onde "toda a gente marcha na mesma direção" e as ações da maioria convergem para um objetivo comum, gerando uma ideologia que poucos questionam . Neste estágio, o indivíduo é como um algarismo sem valor absoluto, definido apenas pela posição que ocupa na multidão. A naturalização da realidade é completa: a crise climática, as guerras, a violência tornam-se paisagens aceitas, não problemas a serem dissecados . A massa vive na tranquilidade enganosa do que de la Borbolla chama de "certeza cega" — que, na verdade, é mera inércia . 

Para a maioria, esta é a única direção possível. É o pensamento único, a estrada real onde o sentido da vida é dado pelo farol do sucesso, do dinheiro e da fama . Mas, como alerta o filósofo, "o êxito não é garantia de pensamento" . É possível acumular fortunas e poder, ser um "campeão da imbecilidade", sem jamais ter cruzado a fronteira que separa o zero do um . 

O Despertar: O Salto Quântico para o Um 

A rebeldia do pensar começa com um salto: a conquista do pensamento. De la Borbolla é enfático ao afirmar que não nascemos pensando; nascemos com a possibilidade de conquistar o pensamento . É um ato de vontade, um movimento que nos tira do zero e nos coloca no "um" — o primeiro número natural, a afirmação da individualidade. 

Este passo inicial é a identificação, o primeiro nível do pensamento . É quando paramos de repetir e começamos a nomear o mundo. Como explica o autor, se não conhecemos o nome das árvores, nossa experiência do bosque é "tosca, grosseira e opaca" . Pensar é, antes de tudo, dar nome às coisas, distingui-las do fundo homogéneo da existência. É o ato de "relacionar palavras, relacionar conceitos, relacionar categorias" . Ao fazê-lo, o indivíduo opera um corte na uniformidade do rebanho. Ele deixa de ser um zero à esquerda e torna-se uma unidade consciente de si. Como bem expressou um dos comentadores da obra, o livro nos coloca "na entrada maldita que é pensar e rebelar-se" . 

A Expansão do Infinito: A Crítica e a Dúvida 

Se o "um" é a individualidade conquistada, o caminho até ao infinito é pavimentado pela crítica e pela dúvida — os níveis mais elevados do pensar . De la Borbolla define a crítica como uma comparação que não busca o comum, mas sim a diferença, o aspecto pelo qual uma coisa nos parece melhor ou pior que outra . É um juízo, um pronunciamento a favor ou contra. Neste movimento, a matemática do pensar torna-se fractal: cada problema resolvido, cada certeza estabelecida, é apenas um descanso, uma pausa para a próxima investida da dúvida . 

O pensador rebelde é aquele que, como um matemático diante de um teorema, não se contenta com a primeira solução. Ele sabe que "as verdades são descansos no processo de pensar" . Se as abelhas encontraram uma solução para sobreviver e a repetem há milénios, os humanos são seres históricos exatamente porque não se conformam . A dúvida cartesiana, que de la Borbolla resgata, é a alavanca que nos move "do zero ao infinito", pois nos permite rebater as certezas para, em seguida, projetarmo-nos em direção a novas possibilidades . 

É neste ponto que a filosofia se encontra com a transformação da realidade. Como lembra Louis Althusser, citado indiretamente, a filosofia é uma arma para revolucionar o existente . Pensar criticamente é pôr o mundo em crise, é estabelecer limites ao que parece eterno e imutável, é deixar de normalizar a realidade . O pensador, ao questionar as estruturas de poder e as ideologias dominantes, não apenas interpreta o mundo, mas prepara o terreno para a sua transformação, compreendendo que é preciso contemplar as leis da aerodinâmica antes de tentar voar . 

A Solidão do Número Primo 

Nesta jornada do zero em direção ao infinito, o pensador experimenta a solidão do número primo. "Pensar não é tranquilizador: provoca dúvidas, incerteza e, às vezes, inclusive, angústia", escreve de la Borbolla . O indivíduo que pensa afasta-se da massa, olha para os lados e não encontra facilmente um companheiro . A companhia da multidão, que marcha uníssona, é-lhe negada. Ele precisa, não de outros que "pensem como ele", mas de outros que também pensem . Precisa de outros números primos com quem possa dialogar, consciente de que a conexão verdadeira não está na repetição, mas na singularidade compartilhada. 

A Beleza do Infinito: O Acaso da Existência 

E, no entanto, este caminho solitário em direção ao infinito não conduz ao desespero. No último capítulo do seu livro, de la Borbolla reconcilia o pensamento com a felicidade . Pensar a nossa finitude, ter "consciência da morte", não nos torna necessariamente infelizes . Pelo contrário, ao pensarmos, damo-nos conta de que a nossa existência é fruto do acaso, um golpe de sorte na imensa lotaria cósmica . 

Somos um número que surgiu do zero por puro acidente. E é essa constatação que nos permite alegrar-nos. "Descobres que ganhaste a lotaria da existência", afirma o filósofo . A rebeldia de pensar, que começa com o esforço de se destacar da inércia do zero e prossegue na jornada crítica em direção ao infinito, culmina na percepção de que não havia qualquer motivo para ter vindo à existência. E é exatamente por isso — por sermos um acidente maravilhoso num universo indiferente — que podemos ser completamente felizes . 

Assim, a rebeldia do pensar, do zero ao infinito, não é uma fuga do mundo, mas um modo mais profundo de habitar nele. É a coragem de trocar a tranquilidade da certeza emprestada pela aventura da dúvida própria, e a sabedoria de descobrir que, na solidão do pensamento, encontramos a companhia mais autêntica: a de nós mesmos e a do universo infinito que, por um instante, podemos compreender. 

13 de abril: Sobre o cálculo do volume da vida e do amor. Por Egidio Guerra




Há dias que se repetem. Não como na literatura, onde a ficção nos permite habitar o mesmo 18 de novembro durante milhares de manhãs, mas na vida real, onde certas datas adquirem a estranha propriedade de voltarem sempre — aniversários, efemérides, o 13 de abril que insiste em retornar no calendário como um lembrete de que o tempo, afinal, é uma espiral e não uma linha reta. 

Solvej Balle, na sua septologia Sobre o cálculo do volume, criou Tara Selter, uma mulher presa no mesmo dia, condenada a viver e reviver um único 18 de novembro enquanto o mundo à sua volta insiste em recomeçar sem memória . O que parece, num primeiro olhar, um artifício de ficção científica, revela-se uma poderosa metáfora para a condição humana: todos nós, de certa forma, habitamos dias que se repetem, relações que pedem reinvenção, dores que retornam com a mesma fatia de pão a cair ao pequeno-almoço . A pergunta que Balle nos coloca, nas entrelinhas da sua prosa hipnótica, é simples e devastadora: como se calcula o volume de um dia? E, por extensão, como se calcula o volume de uma vida? 

O volume, na geometria, é o espaço que um corpo ocupa. Trata-se de uma medição tridimensional — altura, largura, profundidade. Mas como medir a densidade de um afeto? Como calcular a área ocupada pela ausência de alguém? Como determinar o peso específico de uma memória que insiste em não se dissolver no esquecimento coletivo? 

A protagonista de Balle descobre que alguns objetos permanecem consigo quando o dia recomeça, enquanto outros simplesmente desaparecem. As compras que faz no supermercado esvaziam as prateleiras, mas o dinheiro volta à conta bancária . Há coisas que se acumulam, outras que se perdem no reinício forçado. Talvez seja essa a matemática secreta da existência: vamos acumulando pequenos saldos invisíveis — gestos, palavras, silêncios — enquanto o mundo gira, alheio à nossa insistência em permanecer. 

Num 13 de abril qualquer, olhamos para trás e tentamos fazer o nosso próprio cálculo do volume. O volume do amor não se mede em meses ou anos, mas na profundidade das marcas que deixa. Há amores que ocupam um espaço imenso na nossa geografia íntima mesmo tendo durado apenas alguns dias — como um corpo denso que pesa muito mais do que o seu tamanho sugere. Outros, longos e estáveis, ocupam um volume modesto, como quem aprendeu a existir sem fazer barulho. 

Tara Selter, nos seus intermináveis 18 de novembro, observa o marido repetir os mesmos gestos, alheio à sua presença fantasmática . "Thomas não sabe, mas eu escuto e encontro caminhos no dia dele, e à noite me visto para as estrelas" . É uma imagem comovente da solidão a dois, do amor que continua mesmo quando deixamos de ser vistos. O volume do amor, afinal, também se mede por essa capacidade de habitar o invisível, de permanecer mesmo quando o outro já não nos reconhece. 

A crítica literária apontou que a obra de Balle é "uma meditação sobre as formas solitárias e intraduzíveis como cada um de nós habita o tempo" . Talvez seja essa a grande aprendizagem que podemos extrair tanto da literatura como da vida: somos todos habitantes solitários do nosso próprio fuso horário emocional. Amamos no nosso tempo, sofremos no nosso ritmo, e raramente os ponteiros do outro coincidem exatamente com os nossos. 

O 13 de abril pode ser apenas mais um dia no calendário. Mas se o olharmos com a atenção que Tara Selter dedica a cada repetição do seu 18 de novembro — se repararmos no momento exato em que o melro começa a cantar, no instante preciso em que a chuva começa a cair  — talvez descubramos que cada dia contém um volume infinito de possibilidades. A questão não é quantos dias vivemos, mas quanta vida cabe em cada dia. 

Calcular o volume da vida é, no fundo, um exercício de atenção. É perceber que alguns amores ocupam mais espaço do que aparentam, que algumas dores são mais densas do que outras, que a memória tem a estranha propriedade de comprimir anos num instante ou esticar segundos em décadas. 

Balle escreveu uma obra em sete volumes para explorar um único dia . Talvez seja essa a medida exata da existência: precisamos de uma vida inteira para calcular o volume de um só instante. E mesmo assim, como Tara, continuaremos sem saber ao certo quantos dias vivemos, quantas vezes amámos, quanta tinta gastámos a tentar fixar o que nunca deixou de escorrer entre os dedos. 

Num 13 de abril, o que fica não é a data. É o volume do que nela coube — todo o amor que ali aconteceu, toda a esperança que ali nasceu, toda a despedida que ali se consumou. O resto é apenas matemática. E, como toda a matemática, apenas nos serve se nos ajudar a sonhar.