SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

domingo, 6 de setembro de 2026

Eleição na Alemanha: como direita radical planeja mudar o país após provável vitória na Saxônia

 

Ulrich Siegmund, principal candidato do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), gesticula enquanto discursa para seus apoiadores

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Ulrich Siegmund, do partido AfD, lidera as pesquisas nas eleições estaduais da Saxônia-Anhalt, que acontecem neste domingo
    • Author,Jessica Parker
    • Role,Correspondente em Berlim
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Todos os olhos da Alemanha estão voltados para o leste do país neste domingo (06/09), onde ocorrerá uma eleição de grande impacto.

O partido Alternativa para a Alemanha (AfD) pretende garantir a maioria no parlamento regional da Saxônia-Anhalt.

Segundo pesquisas de boca de urna divulgadas neste domingo, o AfD caminha para uma grande vitória. Prevê-se que o partido de direita radical conquiste entre 44% e 44,5% dos votos, muito à frente da CDU, de centro-direita, que deverá obter 18,5%.

O partido AfD saudou o resultado como um "consequência histórica". Ainda não está claro, porém, se a votação será suficiente para o partido assumir o poder no Estado sem se coligar com outros grupos, mas o AfD afirma ter conquistado um mandato para governar.

Uma vitória absoluta marcaria a primeira vez que um partido de direita radical assumiria o poder em nível estadual na Alemanha depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Para os oponentes do AfD, este é um grave perigo. Já o partido vê as eleições locais como um trampolim rumo ao seu sonho de alcançar o poder em todo o país.

O resultado também pode trazer novos problemas para o chanceler conservador (CDU) Friedrich Merz, que enfrenta dificuldades e dúvidas se conseguirá concluir seu mandato.

Vaiado em aparições públicas recentes, Merz dificilmente é visto como um trunfo eleitoral.

Talvez o chanceler se arrependa da promessa de deter a ascensão da direita radical, visto que aconteceu exatamente o contrário.

Em contrapartida, o carismático candidato principal do AfD no estado, Ulrich Siegmund, parece ter dominado as discussões e a cobertura da mídia.

Apelidado de "Homem Mais Perigoso da Alemanha" pela revista Der Spiegel, ele descartou as notícias de que seu círculo íntimo inclua homens que já fizeram parte do movimento neonazista.

O ator de 35 anos pode ser visto frequentemente, inclusive em suas muitas postagens nas redes sociais, em meio a multidões de fãs ou pilotando alegremente uma scooter retrô da Alemanha Oriental.

Uma nostalgia persistente pelo passado, juntamente com uma profunda insatisfação com o presente, alimentou a popularidade do partido em seus redutos no leste.

Eleitores expressam frustração com a imigração, a segurança pública, a economia alemã em dificuldades, os altos custos de energia e a ajuda enviada para países como a Ucrânia.

Apoiadores do partido Alternativa para a Alemanha (AfD) exibem cartazes com o rosto de Ulrich Siegmund; eles estão em um ambiente aberto, sob céu nublado

Crédito,Reuters

Legenda da foto,Esses apoiadores do AfD acreditam que seu partido salvará a Alemanha

Algumas pessoas com quem conversei acreditam fervorosamente que o AfD está oferecendo uma chance real de mudança radical. Elas dizem que Ulrich Siegmund lhes deu esperança.

Outros apoiadores estão menos convictos, mas afirmam ter perdido a fé nos partidos tradicionais que dominaram a política por décadas.

Um parlamentar do AfD me disse certa vez que, se eles tivessem a chance de governar uma região, as pessoas veriam que "o céu não vai cair".

A sigla quer segregar as crianças refugiadas em classes especiais: "As crianças refugiadas devem receber a mensagem de que sua estadia na Alemanha é apenas temporária."

O manifesto afirma que "desvios sexuais e estilos de vida não reprodutivos" têm sido promovidos agressivamente em detrimento das estruturas familiares "normais".

O partido argumenta que as bandeiras do arco-íris LGBT devem ser proibidas nas escolas e que as crianças devem aprender menos sobre os nazistas e mais sobre os aspectos positivos da história alemã.

Em relação à imigração, seria criada uma força-tarefa para deter e deportar migrantes que não têm mais o direito de estar no estado. O partido também pede o fim da imigração em massa "ilegal e culturalmente estrangeira".

A posição pró-Rússia do AfD também suscita alegações de que o partido não é confiável para lidar com informações sensíveis.

Quando uma caneca do exército russo foi vista no escritório de Hans-Thomas Tillschneider, figura proeminente do AfD na Saxônia-Anhalt, ele afirmou que era apenas uma lembrança e que "essa guerra não é nossa".

Isso ocorreu depois que Berlim culpou publicamente Moscou por um ataque fracassado com drones ao aeroporto de Leipzig/Halle. O Kremlin negou envolvimento.

Sorrindo, Sven Schulze (ao centro), juntamente com o primeiro-ministro do estado de Hesse, Boris Rhein (à direita), serve currywurst com batatas fritas durante um evento de campanha em Magdeburg

Crédito,Reuters

Legenda da foto,Candidato dos Democratas Cristãos, Sven Schulze (ao centro) se recusou a trabalhar com o AfD

Entretanto, fontes da área de segurança alemãs alertam que campanhas de desinformação apoiadas pela Rússia, frequentemente contra rivais do AfD, têm se intensificado — algo que os representantes de Moscou descrevem como "histeria anti-Rússia".

Os governos estaduais detêm poderes significativos em áreas como educação, policiamento e cultura, enquanto seus representantes ocupam assentos na segunda câmara do governo federal, o Bundesrat.

Um governo do AfD na Saxônia-Anhalt seria capaz de implementar mudanças localmente e obter uma voz mais forte no cenário nacional.

O partido continua mais poderoso na antiga Alemanha Oriental comunista, mas também lidera as pesquisas em todo o país.

Isso apesar dos alertas de que o partido, fundado em 2013 com uma agenda contrária à União Europeia, hoje flerta com, ou atrai, apoio extremista.

Num comício do AfD, vimos um homem vestindo uma camiseta com a palavra Arisch — a palavra alemã para "ariano" que os nazistas usavam para promover suas falsas teorias de uma raça superior.

O torso de um homem vestindo uma camiseta preta com a inscrição 'Arisch', que em alemão significa ariano, escrita em uma fonte vermelha de estilo gótico.
Legenda da foto,Um participante de um comício do AfD, com cobertura da BBC, usava uma camiseta com a palavra Arisch

Não sabemos se o homem era um simpatizante do partido ou um membro da sigla. Ele não quis falar conosco.

A Saxônia-Anhalt é um dos vários estados, a maioria deles no leste, onde o partido é oficialmente classificado como extremista de direita.

Órgãos de inteligência interna acusam a filial local de estar imbuída de uma "ideologia racista" e de objetivos anticonstitucionais.

O AfD, que se define como um movimento conservador e libertário, rejeita essas designações, classificando-as como difamações politizadas.

Ulrich Siegmund não descarta a possibilidade de extinguir o serviço de inteligência interna (BfV) caso o AfD conquiste a maioria.

Outros partidos não entrarão em coligação com o AfD, como parte do que é conhecido como o "Brandmauer" ou "muralha de proteção", uma tentativa de impedir a direita radical de chegar ao governo.

Para isso, é preciso conquistar uma maioria parlamentar.

A concretização desse objetivo provavelmente dependerá de outros partidos menores conseguirem votos suficientes para ultrapassar o limite de 5% que lhes permite entrar no parlamento.

A política é matemática, e na Alemanha não é diferente, mesmo que a matemática envolvida possa ser bastante complexa.

Mas se o AfD conseguir uma vitória decisiva, o partido, que usa uma retórica antissistema, enfrentará um desafio inédito.

As queixas ainda poderiam ser dirigidas ao governo federal em Berlim, mas o AfD não seria mais o único partido a criticar os que estão no poder, pois ele próprio estaria no poder.

Embora a Saxônia-Anhalt seja um estado relativamente pequeno em termos de população, está prestes a sediar uma eleição memorável.

Robert Pattinson faz 'melhor atuação da carreira' como caçador de pedófilos em novo filme, diz crítico da BBC

 

Foto colorida do ator Robert Pattinson

Crédito,Divulgação/A24

    • Author,Nicholas Barber
    • Role,BBC Culture
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Será que algum ator tão bonito quanto Robert Pattinson já interpretou tantos personagens feios por dentro?

Ele levou alguns anos para encontrar papéis que combinassem com ele depois que a franquia Crepúsculo o transformou em um ídolo adolescente, mas filmes como Bom Comportamento, O Farol, Mickey 17 e Morra, Amor o consolidaram como um dos grandes nomes do cinema de arte contemporâneo.

Ele também brilhou em filmes mais convencionais e de grande visibilidade, especialmente em Batman, mas, em geral, prefere não ser o protagonista heroico, escolhendo em vez disso os papéis menos favoráveis que se possa imaginar: é uma verdadeira galeria de perdedores, mentirosos e sujeitos repulsivos à beira do colapso.

Ele parece se divertir interpretando personagens desagradáveis — e, porque se diverte tanto com isso, nós também nos divertimos.

Assim tem sido o ano de Pattinson, com atuações para saborear em The Drama e A Odisseia (e Duna: Parte Três, ainda por vir). Mas nenhum filme parece combinar tanto com seu estilo maliciosamente excêntrico quanto Primetime, uma sátira sombria e surreal da mídia que estreou neste sábado (5/9) no Festival de Veneza.

Foto do ator Robert Pattinson no filme 'A Odisseia'

Crédito,Universal Pictures/Divulgação

Legenda da foto,Pattinson foi elogiado pela crítica especializada por sua atuação como Antínoo no filme 'A Odisseia', um dos longas mais aguardados do ano

Primeiro longa de ficção de Lance Oppenheim, que antes dirigia documentários, Primetime certamente será candidato ao Oscar, embora possa ser um concorrente controverso.

O filme é inspirado na história real de Chris Hansen, jornalista americano vencedor do Emmy, e no seu programa de televisão mais famoso, To Catch a Predator (Capturando um Predador, em tradução livre), exibido na rede de televisão NBC de 2004 a 2007.

O programa realizava operações de flagrante contra homens possivelmente pedófilos, que faziam planos para abusar sexualmente de menores.

Os integrantes da equipe se passavam por adolescentes em conversas on-line com homens adultos e, depois, marcavam encontros com eles. Quando os homens chegavam às casas de suas supostas vítimas, porém, o elegante Hansen aparecia tranquilamente, acompanhado de uma equipe de câmeras, e perguntava, com uma polidez devastadora, no que eles estavam pensando.

O próprio Hansen não participou da produção de Primetime e criticou o filme sem sequer tê-lo visto. Isso não o impediu de tirar algum proveito da situação: ele pagou para exibir anúncios antes de todas as sessões do filme nos cinemas americanos, incentivando os espectadores a assistir depois ao seu próprio serviço de streaming.

Mas o mais provável é que ele não goste muito da maneira como é retratado.

O roteiro, escrito por Ajon Singh, apresenta To Catch a Predator como o marco do fim de uma era da televisão — Friends, fenômeno das séries de comédia, encerrou sua trajetória de dez temporadas em 2004 — e do início de uma nova e sombria era dos reality shows.

Afinal, o que poderia ser mais sombrio do que transformar a exposição de criminosos sexuais em entretenimento eletrizante?

O Hansen do filme fica eufórico quando seu programa é transferido para um horário nobre, no começo da noite, se vangloriando de que poderá ser visto por mais espectadores do que Lost.

Mas será que ele deveria mesmo estar pulando de alegria por prender e humilhar pessoas na televisão, por mais abomináveis que elas sejam?

E será que ele ou sua produtora, fria e implacável (interpretada por Merritt Wever), se importam com os "iscas" adultos usados pelo programa (Skyler Gisondo e Phoebe Bridgers), que têm a perturbadora tarefa de fingir que são pré-adolescentes?

Fotografia de Robert Pattinson no filme Primetime

Crédito,Divulgação/A24

Legenda da foto,'Pattinson nunca nos pede para simpatizar com o personagem. Na verdade, parece perfeitamente à vontade com a ideia de que o detestemos', escreve Nicholas Barber

Não há nada de radical na mensagem de Primetime: ao lado de Ink, novo longa do diretor Danny Boyle, é um dos dois filmes em Veneza que lamentam a chegada de uma nova forma de sensacionalismo midiático.

O que o torna tão envolvente é que não se trata de um drama convencional, mas de uma comédia de humor negro, exagerada e alucinante. Em vez de detalhar o passado de Hansen ou a criação de To Catch a Predator, o filme nos joga no meio de um pesadelo febril em que tudo é perfeitamente crível e, ao mesmo tempo, perturbadoramente estranho.

Pattinson encarna esse tom vertiginoso. Como em tantos de seus filmes, sua atuação em Primetime é exagerada e teatral sem jamais se tornar afetada. Ele mergulha completamente na estranheza do personagem. Interpreta Hansen como um sujeito escorregadio e repulsivo, às vezes bufão em sua autoconfiança, às vezes sinistro e às vezes à beira da loucura.

Em entrevista à BBC ontem, em Veneza, Oppenheim descreveu sua versão de Hansen como uma mistura de Jerry Maguire e Drácula.

A chave talvez esteja no fato de que Pattinson nunca nos pede para simpatizar com o personagem. Na verdade, parece perfeitamente à vontade com a ideia de que o detestemos. Ainda assim, é um prazer assisti-lo.

Esta é a melhor atuação até agora do ator mais intrigante de sua geração.

O Modus Operandi: Emendas, Obras Fantasmas e o Orçamento Secreto

 




O esquema é velho, mas a roupagem é nova. As emendas parlamentares, que deveriam levar recursos essenciais para saúde, educação e infraestrutura, viraram o principal instrumento de corrupção e compra de votos.

Apenas em 2025, as comissões permanentes da Câmara e do Senado direcionaram R$ 8,5 bilhões em emendas "paralelas" que repetem a prática sombria do orçamento secreto, sem transparência sobre quem pediu ou para onde o dinheiro foi parar. Um levantamento da Transparência Internacional revelou que mais de R$ 1,66 bilhão foi alocado em "emendas-bolsão" — recursos aprovados com objetivos genéricos e depois pulverizados sem rastreio, impossibilitando que o cidadão saiba qual parlamentar beneficiou quem.

O resultado? Obras que existem apenas no papel. Em novembro de 2025, a Polícia Federal e a CGU deflagraram a Operação Fake Road, desmontando um esquema de desvio em contratos de pavimentação financiados por emendas no DNOCS. O prejuízo: R$ 22 milhões. O grupo usava fotos falsas e mídias manipuladas de outros locais para "comprovar" a realização de obras. Pagavam por serviços não prestados, usavam materiais de péssima qualidade e fraudavam licitações para atender cidades comandadas por familiares de deputados.

O Fundo Partidário: R$ 1,2 Bilhão para Manter a Máquina

Enquanto falta dinheiro para o básico, os partidos políticos recebem uma montanha de dinheiro público apenas para existir. Em 2025, o Fundo Partidário distribuiu R$ 1,126 bilhão a 19 legendas, somados a R$ 102,5 milhões provenientes de multas eleitorais. O PL liderou com R$ 208,6 milhões, seguido pelo PT (R$ 152,8 milhões) e União Brasil (R$ 116,9 milhões).

Esse dinheiro, que sai do Orçamento da União, banca aluguéis de sedes, viagens, propaganda e funcionários. Ou seja: o contribuinte financia a própria máquina que o explora. 

A Compra de Votos e o Enriquecimento Ilícito 

O ciclo da corrupção se fecha na compra de votos. Deputados utilizam dinheiro de emendas para promover a própria imagem, prática já apurada pelo TRE do Pará. O enriquecimento ilícito corre solto nas Assembleias Legislativas de ponta a ponta do país. No Rio de Janeiro, denúncias apontam que dezenas de deputados recebem mesada de facções criminosas. A Polícia Federal já prendeu parlamentares e desmontou esquemas cravados dentro das assembleias do Pará, Rondônia e Goiás. 

A Impunidade Generalizada e o Silêncio dos Poderes 

O mais estarrecedor é a certeza da impunidade. O Brasil manteve-se estagnado na 107ª posição no Índice de Percepção da Corrupção, uma das piores marcas da nossa história. Vivemos um ano marcado pela impunidade generalizada até para corruptos confessos, com condutas desmoralizantes nas mais altas cortes do país. 

A Lava Jato, que desvendou o maior esquema de corrupção do país, tem sido sistematicamente desmontada, com atos anulados como se a corrupção nunca tivesse existido. Enquanto isso, casos como a fraude de R$ 50 bilhões do Banco Master revelam indícios de captura regulatória e conflitos de interesse no mais alto escalão do Judiciário. 

Sem Democracia, Só Mafiosos 

A cada eleição, o povo é convocado a dançar a mesma música com os mesmos mafiosos. Não há democracia real quando o dinheiro público financia campanhas, emendas compram votos e obras são fantasmas. Os políticos operadores enriquecem com o suor do povo e continuam lá, intactos, blindados pelo silêncio cúmplice das instituições. 

O Brasil não precisa de uma simples reforma política. Precisa de ruptura. Precisa que o povo exija que cada centavo público seja rastreado, cada obra fiscalizada e cada corrupto punido. O voto não tem preço, tem peso. Enquanto não usarmos esse peso para esmagar esse sistema, continuaremos vivendo sob a Ditadura da Corrupção — onde os mafiosos governam, as oligarquias mandam e você paga a conta. 

 

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A Natureza como Proteção contra Enchentes no Rio Grande do Sul: Uma Perspectiva Biogeográfica e Ecossocialista. Por Egidio Guerra Biogeógrafo.

 




As enchentes históricas que atingiram o Rio Grande do Sul em abril e maio de 2024 — com acumulados de chuva superando 700 mm em algumas regiões — expuseram com brutal clareza a fragilidade de um modelo de ocupação territorial que despreza os limites ecológicos. Para mim, Egidio Guerra, geógrafo, economista ecológico e militante ecossocialista, cada enchente não é um "desastre natural", mas o sintoma de uma crise civilizatória profundamente enraizada na lógica do capitalismo predatório. A natureza, quando preservada, é nossa principal aliada; quando destruída, torna-se nossa maior adversária.

Animais aquáticos e o colapso dos ecossistemas

O impacto das enchentes sobre a fauna aquática gaúcha foi devastador e revelador. Pesquisadores do Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos (Ceclimar/UFRGS) registraram, pela primeira vez, a presença da tilápia-do-nilo (Oreochromis niloticus) em ambientes salobros e marinhos do litoral norte gaúcho, com 188 exemplares encontrados encalhados na orla. A origem do problema é inequívoca: o transbordamento de criadouros comerciais durante as cheias de maio de 2024 liberou essa espécie exótica na Bacia Hidrográfica do Rio Tramandaí, que então desaguou no mar.

Mais alarmante ainda é a situação do boto-de-Lahille (Tursiops gephyreus), um golfinho costeiro ameaçado, com pelo menos 600 indivíduos em toda sua área de ocorrência no sul do Brasil, Uruguai e Argentina. O Projeto Gephyreus, em parceria com o ICMBio, investiga como as enchentes podem ter agravado o quadro de saúde já debilitado desses animais, descarregando poluentes das cidades, remobilizando contaminantes depositados no solo e alterando a disponibilidade de presas.

Espécies invasoras: a segunda onda da destruição

As enchentes não apenas deslocam espécies nativas — como jacarés avistados no bairro Menino Deus, garças pescando na avenida Borges de Medeiros e capivaras migrando para a Orla do Guaíba — mas também abrem caminho para a invasão biológica, considerada a segunda maior causa de perda de biodiversidade no planeta.

Nas margens do rio Taquari, espécies exóticas invasoras como o capim-annoni (originário da África) e a uva-japonesa (da Ásia) tomaram conta das áreas antes ocupadas por mata ciliar nativa. Como alerta a botânica Elisete Freitas, da Universidade do Vale do Taquari, essa cobertura vegetal é uma "ilusão" — as invasoras possuem raízes superficiais e caules frágeis, não cumprem a função ecológica de proteção das margens e aumentam o risco de erosão e deslizamentos. Um levantamento anterior às enchentes já identificaram 18 espécies exóticas invasoras na região; após o desastre, o problema se generalizou.

A perda das matas ciliares e o ciclo de vulnerabilidade

As enchentes de 2024 expuseram de forma cruel a vulnerabilidade das Áreas de Preservação Permanente (APPs). A perda da cobertura vegetal deixou o solo exposto, favorecendo a erosão e os desmoronamentos. Como bem sintetizou a deputada Maria do Rosário, "ao longo do tempo, as margens e as matas ciliares foram sendo degradadas, e sem raízes, a erosão se espalhou, trazendo prejuízos humanos, econômicos e ambientais".

A recuperação, no entanto, não é simples. Estima-se que restaurar um único quilômetro de mata ciliar custe, em média, R$1,5 milhão. O Núcleo de Estudos e Pesquisas em Recuperação de Áreas Degradadas (NEPRADE-UFSM), em parceria com o ICMBio, já realiza levantamentos da regeneração natural em dez áreas de encostas e oito áreas de matas ciliares no Corredor Ecológico da Quarta Colônia.

Água contaminada e a saúde da população

A contaminação da água foi um dos aspectos mais dramáticos da tragédia. As enchentes afetaram mais de 2,3 milhões de pessoas, e o colapso dos sistemas de esgoto fez com que a água da chuva se misturasse ao esgoto urbano, expondo a população a riscos sanitários gravíssimos.

Pesquisadores detectaram a presença de Enterobactérias em 100% das amostras de água de enchente coletadas em Porto Alegre, além de genes de resistência a carbapenêmicos (blaKPC e blaNDM) em proporções alarmantes — o blaKPC esteve presente em 100% das primeiras coletas. A alta prevalência desses marcadores de resistência antimicrobiana revela um cenário preocupante de disseminação ambiental de bactérias multirresistentes.

Mosquitos e doenças infecciosas

As águas estagnadas criaram o ambiente ideal para a proliferação de mosquitos vetores como o Aedes aegypti, elevando significativamente os casos de dengue, zika e chikungunya. Mas o dado mais contundente refere-se à leptospirose. Em 2024, o Rio Grande do Sul registrou 550 casos da doença entre janeiro e junho — um aumento de 204% em relação ao mesmo período de 2023. A mortalidade mais que dobrou, passando de 0,23 para 0,49 por 100 mil habitantes. Dos 55 óbitos registrados no período pós-enchente, 75% ocorreram entre homens, predominantemente na faixa etária de 40 a 59 anos.

Agricultura gaúcha sob impacto

A agricultura, pilar da economia gaúcha, foi gravemente impactada, com perdas significativas nas culturas de soja, arroz, trigo e milho. Em municípios como Nova Santa Rita e Esteio, mais de 50% do território foi afetado. O estado alterna agora entre estiagens severas e enchentes históricas, evidenciando a profunda desestabilização dos ciclos hídricos.

Microrganismos e a resiliência do solo

Pesquisas sobre a dinâmica das comunidades bacterianas em solos de arroz submetidos a ciclos repetidos de alagamento e drenagem no Rio Grande do Sul revelaram mudanças significativas, incluindo um declínio em Acidobacterias  e um aumento em Proteobactérias e Chloroflexi. Essas alterações na microbiota do solo têm implicações diretas para a fertilidade agrícola e a resiliência dos ecossistemas.

Biotecnologia e monitoramento: inovação a serviço da prevenção

A ciência gaúcha tem respondido com inovação. A startup TideSat, spin-off da UFRGS, desenvolveu um serviço de monitoramento remoto do nível da água que já presta serviços ao município de Estrela e à empresa Portos do Rio Grande do Sul. Na FURG, uma parceria com uma escola de Caraá criou um protótipo de sistema de prevenção de enchentes utilizando placa Arduino, sensor ultrassônico e energia solar. Drones com sensoriamento remoto e inteligência artificial também já são realidade no monitoramento de solos e plantações.

Casos de sucesso e caminhos para a recuperação

Há exemplos inspiradores. Na região do Vale do Taquari, a propriedade da família Mallmann tornou-se a primeira a implantar uma agrofloresta no âmbito do Plano Recupera Rural RS. O estado ampliou em quatro vezes seu efetivo de Defesa Civil após o desastre — investimento que se mostrou decisivo diante de novos eventos climáticos. O plano de reconstrução inclui desde estudos técnicos e modelagens hidrodinâmicas até investimentos em radares meteorológicos e sistemas contra enchentes.

Plantas e animais gaúchos: entre a resiliência e o risco de extinção

Espécies endêmicas do Rio Grande do Sul enfrentam ameaças sem precedentes. A Grindelia atlântica (Margarida-da-praia), uma das 50 espécies exclusivas do bioma Pampa, teve sua situação agravada pelas enchentes: a água avançou sobre a orla, submergiu as plantas, dificultou a fotossíntese e enfraqueceu as raízes. O sapinho-admirável-de-barriga-vermelha (Melanophryniscus admirabilis), espécie ameaçada que ocorre apenas às margens do rio Forqueta, teve seu habitat drasticamente alterado.

O compromisso de toda uma vida

Como geógrafo, meu olhar para o Rio Grande do Sul é o de quem estuda a distribuição da vida, as conexões entre os ecossistemas e as marcas que a ação humana imprime no território. Como economista ecológico, compreendo que a economia não pode ser dissociada dos limites biofísicos do planeta. E como militante ecossocialista, tenho a convicção de que a superação desses desafios exige uma transformação radical do modelo civilizatório.

As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul não foram um acaso. Foram a materialização de décadas de degradação ambiental, de ocupação desordenada do território, de destruição de matas ciliares e de um modelo agrícola e urbano que trata a natureza como mero recurso a ser explorado. A ciência nos fornece as ferramentas para monitorar, prevenir e recuperar — como mostram os trabalhos do Ceclimar, do NEPRADE-UFSM, da TideSat e de tantas outras instituições. Mas a ciência, sozinha, não basta.

É necessária uma mudança de paradigma. É preciso reconstruir não apenas pontes e casas, mas a própria relação entre a sociedade e seu ambiente. É preciso reconhecer que a natureza não é uma adversária a ser domada, mas uma aliada a ser protegida. E é preciso, acima de tudo, construir uma sociedade que coloque a vida — toda a vida, humana e não humana — no centro de suas decisões. Esse é o compromisso que carrego comigo, como geógrafo, como ecossocialista e como cidadão gaúcho e cearense que vivia na UFRGS e PUCRS fazendo ciência


Referências Acadêmicas e Institucionais Citadas

  • Tavares, M., Ribeiro, J.N.S., & Rocha, C.M. (2025). Nile tilapia (Oreochromis niloticus) in brackish and marine environments of the State of Rio Grande do Sul: impact of the 2024 flooding tragedy in Southern Brazil. Aquatic Ecology, Springer Nature.

  • Taborda, A.M., Schuck, A.H., Goergen, C., Jales, C.S., & Agostinetto, L. (2026). Leptospirosis in the context of the 2024 floods in Rio Grande do Sul: An ecological study. The Brazilian Journal of Infectious Diseases.

  • Global Health in Times of Climate Crisis: Leptospirosis Mortality in Rio Grande do Sul after the 2024 Floods. The Brazilian Journal of Infectious Diseases.

  • Michelon, W., et al. (2025). Increased leptospirosis incidence following flooding in Rio Grande do Sul, Brazil. International Journal of Environmental Health Research. doi: 10.1080/09603123.2025.2498623.

  • Bacteria That Made History: Detection of Enterobacteriaceae and Carbapenemases in the Waters of Southern Brazil's Largest Flood. Microorganisms, 13(10), 2365.

  • Projeto Gephyreus / ICMBio: Avaliação dos Efeitos do Desastre Natural decorrente das Mudanças Climáticas na Biodiversidade do RS (2025-2027).

  • NEPRADE-UFSM / ICMBio: Pesquisa sobre recuperação de matas ciliares e encostas no Corredor Ecológico da Quarta Colônia.

  • IBGE (2024). Impactos das enchentes na produção de grãos do Rio Grande do Sul.

  • TideSat/UFRGS: Monitoramento remoto de corpos d'água.