SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Reino Unido terá 7º primeiro-ministro em 10 anos: país está se tornando ingovernável?

 

Fotos dos seis primeiros-ministros nos últimos 10 anos, todo eles falando em frente à sede do governo; a partir do topo à esquerda: David Cameron, Theresa May, Boris Johnson. Embaixo, da esq: Liz Truss, Rishi Sunak e Keir Starmer

Crédito,PA

Legenda da foto,Reino Unido teve seis primeiros-ministros nos últimos 10 anos. A partir do topo à esquerda: David Cameron, Theresa May, Boris Johnson. Embaixo, da esq: Liz Truss, Rishi Sunak e Keir Starmer
    • Author,James Landale
    • Role,Da BBC News em Londres
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  • Tempo de leitura: 10 min

A história da política britânica de hoje pode ser contada por números. Seis primeiros-ministros em dez anos, nenhum dos quais cumpriu um mandato completo do Parlamento. No mesmo período, o país teve oito ministros de Relações Exteriores e sete ministros da Economia.

É uma história de instabilidade e inconsistência, cujo capítulo mais recente se concretizou com a renúncia de Keir Starmer, do Partido Trabalhista, nesta segunda-feira (22/06). Ele permanecerá no cargo até a escolha de um novo líder pelo partido.

Antes dele, Rishi Sunak deixou o cargo após a derrota do Partido Conservador nas eleições gerais de 2024. Em outubro de 2022, Liz Truss renunciou após apenas 49 dias no cargo.

Já Boris Johnson foi pressionado a renunciar em 2022 após uma série de escândalos, Theresa May saiu em 2019 e David Cameron se demitiu após o referendo do Brexit em 2016.

O que está impulsionando essa narrativa? Por que o Reino Unido está descartando seus líderes quase tão rapidamente quanto a Itália fazia? Por que eleitores e parlamentares concedem e retiram seu apoio com tanta facilidade? Em resumo, o Reino Unido está se tornando ingovernável?

Em uma entrevista coletiva em maio, quando já sofria pressão para renunciar, o primeiro-ministro disse: “Não, não acho que o Reino Unido seja ingovernável”.

Na mesma época, sua rival, a líder conservadora Kemi Badenoch, concordou, dizendo na Câmara dos Comuns: "O Reino Unido não é ingovernável."

Keir Starmer

Crédito,EPA

Legenda da foto,Keir Starmer é mais um premiê britânico a enfrentar problemas para se manter no cargo

Mas Starmer e Badenoch lideram parlamentares que, nos últimos tempos, demonstraram gosto pelo regicídio político; eles precisam governar por meio de uma estrutura administrativa, regulatória e judicial complexa que pode dificultar a implementação de políticas; e atraem eleitores que parecem cada vez mais impacientes por resultados e não querem aceitar que o jogo político envolve concessões.

Este é um momento particularmente turbulento na história britânica que deixou os líderes à mercê dos acontecimentos? Ou a turbulência em Londres reflete problemas profundos e sistêmicos na política?

Theresa May ao declarar que renunciará
Legenda da foto,O Reino Unido teve seis primeiros-ministros em dez anos, como Theresa May

Tempos desafiadores

A primeira resposta pode ser simplesmente que esses são tempos difíceis para a classe política.

Esse período da história seria considerado desafiador para qualquer geração: a crise financeira de 2008, o caos político do Brexit (saída britânica da União Europeia), o golpe econômico da covid, a guerra na Ucrânia e o choque energético posterior e, claro, a ruptura sistêmica do presidente dos EUA, Donald Trump.

Esses são desafios que não são específicos do Reino Unido; eles são enfrentados por outros líderes mundiais que também estão tendo as mesmas dificuldades. Em toda a Europa, os governos em exercício enfrentam obstáculos econômicos e eleitorados impacientes.

Uma pessoa anda em uma rua passando por fachadas de lojas fechadas

Crédito,EPA

Legenda da foto,Enfrentar os problemas no Reino Unido envolve escolhas difíceis

Os líderes políticos no Reino Unido estão conseguindo enfrentar todos esses desafios? Hannah White, CEO do centro de estudos Institute for Government (IFG), tem suas dúvidas.

“O Reino Unido não é 'ingovernável'”, diz ela. “Mas seus partidos políticos entregaram ao país uma série de primeiros-ministros sem habilidades essenciais de liderança em um momento em que as crises surgiram em rápida sucessão e várias tendências estão tornando o ato de governar consideravelmente mais difícil.”

O professor Anand Menon, diretor do centro de estudos UK in a Changing Europe, concorda.

“Nosso sistema concede poder significativo a um governo com maioria”, diz ele. “O fato de essa maioria não ter sido utilizada [para promover mudanças] até o momento é uma falha de liderança, em vez de ser indicativo de uma tendência sistemática de ingovernabilidade.”

Anthony Seldon, historiador e biógrafo de muitos primeiros-ministros, argumenta que alguns titulares recentes — como Boris Johnson, Liz Truss e Keir Starmer — não tinham as habilidades políticas para dar conta do trabalho e a humildade para procurar ajuda.

“Eles não tinham as habilidades e não estavam dispostos a trazer outras pessoas”, diz ele. “Outros primeiros-ministros tinham mentores. Até Margaret Thatcher tinha Willie Whitelaw [político conservador que serviu como uma espécie de vice-primeiro-ministro de Thatcher nos anos 80].”

Atritos

Mas o fato de muitos primeiros-ministros serem eleitos com menos experiência do que no passado não é o único problema. Alguns parlamentares dizem que os servidores públicos do Reino Unido não estão conseguindo apoiar adequadamente seus primeiros-ministros.

Camilla Cavendish, ex-diretora de políticas do ex-premiê David Cameron, disse à BBC: “Todo governo parece entrar e ficar surpreso com o quão difícil é fazer as coisas”.

Em uma admissão franca perante um comitê dos Comuns em dezembro passado, Starmer reclamou que até mesmo ele tinha dificuldade para fazer as coisas acontecerem: “Minha experiência como primeiro-ministro é frustrante porque toda vez que eu puxo uma alavanca, existem vários regulamentos, consultas e órgãos que fazem com que o tempo entre acionar a alavanca e obter resultados seja maior do que eu acho que deveria ser”.

Funcionários públicos, que não podem dar entrevistas, pela lei britânica, rebatem essas acusações em privado — alguns culpando ministros por não fornecer instruções claras. Eles questionam se a classe política esqueceu como governar.

As rebeliões contra o primeiro-ministro se tornaram mais comuns.

Crédito,PA

Legenda da foto,As rebeliões contra o primeiro-ministro se tornaram mais comuns.

Uma pessoa com muita experiência política nos corredores do poder em Londres me disse: “O desprezo pelo funcionalismo público, agora amplamente retribuído, deixou assustados e cautelosos os meios pelos quais os políticos implementam suas políticas”. Ele disse que os políticos “estão cada vez mais como crianças. Deslumbrados e impressionados ao conquistar o poder e com muito medo de fazer qualquer coisa depois que estão lá.”

Alguns funcionários e conselheiros dizem que a própria Downing Street, a sede do gabinete do primeiro-ministro, está lamentavelmente mal preparada e com falta de pessoal para administrar um governo moderno. No entanto, sucessivos governos centralizaram ainda mais o poder no prédio. Alguns dizem que isso deixa as decisões acumuladas sem solução — e os ministros sem poderes.

Jonathan Hill, secretário político de John Major na década de 1990, disse: “A centralização do poder no número 10 (onde trabalha o primeiro-ministro) e no Gabinete — e a obsessão pelo gerenciamento da pauta de notícias — tornaram o trabalho de um ministro muito menos relevante e poderoso. É um milagre que as pessoas ainda estejam preparadas para entrar na política e se tornarem ministros.”

Mas eventos contemporâneos, liderança fraca e um funcionalismo público sobrecarregado são suficientes para explicar a atual desordem política?

Vício em drama

Alguns culpam as redes sociais por acelerar o processo político a um ponto quase incontrolável. Theo Bertram, ex-assessor de Tony Blair e Gordon Brown e atual diretor da Social Market Foundation, disse: "Há um problema estrutural: todas as coisas que precisamos fazer para consertar o país levarão 10 anos. Mas, se você é primeiro-ministro, não tem 10 anos. Na era das redes sociais, o que temos é muito curto-prazismo."

As redes sociais, incluindo aplicativos de mensagens pessoais, facilitam rebeliões no Parlamento e dificultam o debate de políticas. Steve Baker, ex-deputado conservador e arquiteto do Brexit, escreveu: "Líderes de partido e ministros chegam tarde demais a uma conversa que as redes sociais encerraram uma hora antes. Hoje, os mesmos mecanismos estão sendo usados dentro do Partido Trabalhista: minicentros de poder construídos em torno de listas de WhatsApp, organizando-se contra seu próprio líder em dias, não meses."

Membros da mídia relatam do lado de fora da 10 Downing Street, em Londres, Reino Unido

Crédito,EPA

Legenda da foto,Alguns argumentam que a sede do público por notícias e caos torna mais difícil governar

Outros dizem que a mídia é responsável. Nick Bryant, comentarista político e ex-jornalista da BBC, acredita que a “excitação dos jornalistas” é “parte do problema”, argumentando que o “vício em drama entre os políticos e os repórteres políticos alimenta o ciclo constante de caos e incerteza que está se tornando tão democraticamente desestabilizador”.

Por exemplo, a politicagem em torno do Brexit foi tão polêmica que alguns acreditam que isso envenenou o ambiente político, criando uma cultura de constante turbulência e rebelião. Os parlamentares conservadores se acostumaram a substituir seus líderes.

Será que a atual geração de deputados trabalhistas assistiu e absorveu essa cultura, e a normalizou? Estudos sugerem que os parlamentares sem cargos no governo estão se tornando menos obedientes. A rebelião era rara nos parlamentos do pós-guerra, mas se tornou mais comum nos governos de John Major, Tony Blair e David Cameron, à medida que esses parlamentares ganharam confiança e o controle partidário enfraqueceu.

David Cameron

Crédito,PA

Legenda da foto,As rebeliões parlamentares aumentaram durante os anos do governo de coalizão liderado por David Cameron

Mas será que essa é a explicação completa?

Alguns dizem que a natureza da política do Reino Unido está mudando.

Eles apontam para a ascensão de partidos menores que estão desafiando o duopólio do Partido Trabalhista e dos Conservadores. Isso deixou o atual governo com uma maioria parlamentar significativa, mas sem muitos votos populares, já que o voto no Reino Unido não é obrigatório — e, portanto, um mandato mais fraco junto aos eleitores. Essa tendência pode seguir com o aumento do apoio popular a partidos novos, como o Reform UK, de direita, e aos Verdes, da esquerda.

Stewart Wood, ex-conselheiro de Gordon Brown, diz: “Ambos os principais partidos tiveram problemas no governo devido a questões internas. As dificuldades do Partido Conservador no governo foram em grande parte o resultado do Brexit ter fraturado o partido e impossibilitado a gestão partidária".

"O Partido Trabalhista foi estranhamente afetado por sua vitória esmagadora em 2024, sem uma agenda clara de governo para unir o partido e definir o rumo após chegar ao poder."

John Major

Crédito,PA

Legenda da foto,John Major diz que os líderes contemporâneos tem dificuldades para fazer escolhas

Alguns argumentam que o problema é mais profundo do que isso e que a fratura das linhas partidárias tradicionais reflete o fracasso das classes políticas em lidar com a escala dos problemas que o Reino Unido enfrenta — fraqueza econômica estrutural, imigração persistentemente alta, enfraquecimento das relações com aliados tradicionais na Europa e nos EUA e dependência energética de um tumultuado Oriente Médio.

Gerenciando expectativas

Isso aponta para uma questão mais ampla, a da liderança política.

Os primeiros-ministros esqueceram como argumentar, apresentar a seus partidos e eleitores escolhas políticas honestas ou compensações? Onde antes prometiam dor de curto prazo para ganhos de longo prazo, agora oferecem satisfação instantânea que quase sempre não é alcançada? Isso pode alimentar a desilusão e a perda de confiança. Na última eleição, nenhum dos dois maiores partidos foi sincero sobre as perspectivas de aumentos de impostos e cortes de gastos.

Hill diz que muitos no centro do poder esqueceram que política significa definir o que se quer, construir um argumento e persuadir o maior número possível de pessoas a apoiá-lo em uma eleição geral.

"Em vez disso, acreditam que seu trabalho é descobrir o que diferentes grupos querem, conciliar todas as posições e reunir votos suficientes para vencer", argumenta. "Passamos de um mecanismo de transmissão de governo e parlamento para um que recebe mensagens como uma enorme máquina de lobby."

Theo Bertram, do centro de estudos Social Market Foundation, acrescenta: “Uma das coisas que não vimos muito nos últimos primeiros-ministros é a capacidade de enfrentar sua própria base parlamentar, enfrentar o público e dizer coisas difíceis”.

Liz Truss

Crédito,Reuters

Legenda da foto,Liz Truss foi muito criticada durante seu curto mandato

Alguns dizem que os políticos ainda não foram honestos com o eleitorado sobre a necessidade de cortar gastos com bem-estar social, aumentar os gastos com defesa, reformar o sistema de saúde e tornar a economia mais produtiva – tudo isso implicaria dor no curto prazo e, segundo alguns, um reequilíbrio do apoio estatal dos mais velhos para os mais jovens.

A política envolve persuasão, até mesmo sedução, e os primeiros-ministros parecem ter esquecido que este é um processo quase constante de conquistar eleitores, parlamentares e funcionários públicos para manter sua agenda avançando.

Talvez os eleitores também tenham se tornado impacientes demais? Em uma era de compras online instantâneas entregues em poucas horas, exigimos resultados políticos mais rápidos do que qualquer governo pode oferecer?

O aumento do apoio a partidos antiestablishment como Reform e os Verdes é resultado do descontentamento dos eleitores com os partidos tradicionais que, segundo eles, não conseguiram enfrentar os problemas do Reino Unido.

Por que cada vez mais mulheres chinesas preferem usar roupas masculinas?

 

Fotografia colorida mostra duas mulheres em uma loja na China, tendo ao fundo uma imagem de Xangai com um filtro vermelho. Uma mulher de costas segura uma camiseta branca e verde pendurada em um cabide para que outra mulher a observe de frente.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,As jovens chinesas afirmam optar por roupas masculinas porque são de melhor qualidade, mais baratas e mais confortáveis
    • Author,BBC News China
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  • Tempo de leitura: 6 min

À medida que o verão se aproximava, Kexin percebeu uma mudança ao organizar seu guarda-roupa: a quantidade de roupas masculinas superava a de peças femininas. As camisas, camisetas e bermudas não tinham sido compradas para seu namorado nem para seu pai, mas para ela mesma.

Kexin, que preferiu não revelar seu sobrenome, não é a única a notar essa mudança.

Um número crescente de mulheres jovens chinesas, tanto em seu círculo social quanto em diversas publicações pelas redes sociais, afirma ter passado a usar roupas masculinas por motivos semelhantes: melhor qualidade, preços mais baixos, maior conforto e menos pressão relacionada à aparência física.

Mas o que está impulsionando essa tendência?

No popular aplicativo chinês de redes sociais Xiaohongshu, também conhecido como RedNote, a hashtag "mulheres usando roupas masculinas" já acumulou mais de 82 milhões de visualizações, enquanto a hashtag "moda de gênero neutro" ultrapassou 90 milhões.

As discussões sobre o tema se multiplicaram, frequentemente destacando vantagens das roupas masculinas, como maior uso de algodão e linho, modelagem mais refinada, bolsos maiores, costuras mais suaves, melhor acabamento e preços mais baixos.

Uma mulher costura um pedaço de tecido entre várias peças de roupa em uma aparente fábrica. Ela usa uniforme e um avental estampado.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,A mudança no modo de vestir acontece em meio a um cenário de enfraquecimento do consumo na economia chinesa

Kexin lembra que a mudança em seu modo de vestir começou em 2023, quando, em sua conta do Douyin (a versão chinesa do TikTok), ela começou a receber vídeos de vendas de camisetas masculinas.

No início, achou aquilo estranho. Ela nunca tinha comprado roupas na internet para o pai ou para um namorado, então por que o algoritmo estava recomendando aquele tipo de conteúdo?

Kexin achou que fosse um erro, até que um dia deixou o celular passando um anúncio de venda de roupas enquanto estava no banheiro.

"As garotas podem comprar esse item em um tamanho menor e usarem", diz. "É unissex, as mulheres também podem usar."

Essas frases se repetiam continuamente ao longo de poucos minutos.

Em comparação com os conteúdos voltados para mulheres, que costumam enfatizar emagrecimento, esconder supostas imperfeições ou projetar um ideal delicado e feminino, aquele anúncio se concentrava na qualidade do tecido e dos materiais.

"Isso chamou minha atenção", conta ela. "Nunca entendi por que as roupas femininas focam tanto nos padrões tradicionais de beleza, principalmente quando os modelos costumam ser tão desconfortáveis."

O preço também era um atrativo: a maioria das camisas custava cerca de 100 yuans (R$ 75). Mesmo que tivesse que devolvê-las depois, o risco parecia pequeno.

Ela comprou sua primeira camiseta "masculina" e ficou surpresa. A peça era mais confortável, mais encorpada e mais respirável do que as roupas femininas que havia comprado antes por preços até três vezes mais altos.

Não demorou para que começasse a comprar mais roupas masculinas, e a vergonha que achou que sentiria ao usá-las nunca se concretizou.

Com o tempo, essas peças foram gradualmente tomando conta do seu guarda-roupa, "como uma espécie invasora expulsando a nativa", descreve ela.

Gastando menos

Uma mulher em pé tira uma selfie diante de um espelho com uma parede vermelha ao fundo, vestindo calças pretas e uma camisa branca com longas franjas.

Crédito,@wangwangsuibingbing

Legenda da foto,A tendência de usar roupas masculinas é mais comum entre jovens mulheres chinesas, e tem ganhado tração nas redes sociais

Essa tendência também ocorre em um contexto de enfraquecimento do consumo na China desde o fim das restrições relacionadas à covid, em 2022.

Para trabalhadoras como Kexin, que segue a exigente jornada conhecida como "996" (das 9h às 21h, seis dias por semana), a cautela financeira se tornou a regra.

Ela está menos disposta a trocar de emprego e mais relutante em gastar muito mesmo com itens essenciais, como roupas.

Nesse cenário, alguns consumidores passaram a adotar tendências de "consumo reverso", priorizando valor e durabilidade em vez da moda rápida (fast fashion).

"Se alguma peça não fica boa, é fácil devolver", afirma Kexin. "Já não vejo sentido em gastar muito dinheiro com roupas. De uma forma ou de outra, quase nunca uso uma peça por mais de uma temporada."

Problemas com os tamanhos

Uma mulher vestida com roupas masculinas de tamanho grande segura um telefone celular na mão esquerda, tirando uma foto enquanto guarda um tablet no bolso com a outra mão. Sua camiseta é listrada e ela usa calças pretas.
Legenda da foto,Para Li, uma advogada de Xangai, as roupas masculinas são mais funcionais: uma calça tamanho M pode acomodar até um tablet de 28 cm ou um livro nos bolsos

Para muitas delas, a mudança tem menos a ver com demonstrar uma posição sobre gênero e mais com funcionalidade. O tamanho é um dos aspectos mais criticados das roupas femininas na China.

Em redes sociais como Douyin e Xiaohongshu, influenciadoras mostram como os maiores tamanhos muitas vezes não servem nelas, com peças classificadas como XL (extra grande) excessivamente apertadas na região das coxas.

Em um vídeo que viralizou, uma blogueira coloca uma camisa tamanho grande em seu poodle e ela fica muito apertada.

Li, uma advogada que mora em Xangai e que pediu para ser identificada apenas pelo sobrenome, afirma que passou a usar roupas masculinas porque as femininas quase nunca serviam nela. Ela mede 1,70 m e tem ombros largos. Só quando estudou na Europa percebeu que o tamanho M (médio) padrão lhe servia bem.

"Parece que as roupas femininas aqui não foram feitas para pessoas com o meu tipo de corpo", diz ela.

Ela também destaca que roupas masculinas são mais funcionais: um par de calças masculinas tamanho M pode acomodar um tablet de 28 cm e um livro nos bolsos sem comprometer o caimento.

"Que roupa feminina consegue fazer isso?", pergunta. "Até um batom no bolso já resulta em um volume perceptível na calça."

As pressões da indústria

Uma mulher com cabelo na altura dos ombros, vestindo uma camisa larga de cor esbranquiçada, um cachecol preto e creme com estampas ao redor do pescoço, está em pé diante de uma cama.

Crédito,@likeke

Legenda da foto,Os tamanhos das roupas femininas produzidas na China muitas vezes não servem bem em mulheres altas

Segundo Wang, uma designer de uma marca de moda de médio porte, tanto os problemas de tamanho quanto os de qualidade são reflexos de pressões na indústria.

O setor de confecção na China encolheu significativamente desde a pandemia, com queda na produção e nas exportações. O crescimento do varejo desacelerou de forma acentuada, com alta de apenas 0,1% em 2024, em comparação com quase 15% em 2023.

As empresas agora produzem menos novos modelos, e os consumidores — que já possuem roupas suficientes — estão reduzindo suas compras.

Para reduzir custos, algumas marcas passaram a comprar modelos prontos do Sudeste Asiático em vez de desenvolver seus próprios designs.

Mas esses modelos nem sempre se ajustam às formas do corpo chinês, o que contribui para um mau caimento e para o aumento da chamada "numeração infantil" nas roupas femininas.

A variedade de modelos também é guiada pela economia. Segundo Wang, roupas voltadas para corpos mais magros são mais baratas e fáceis de produzir, enquanto tamanhos maiores exigem modelagem mais complexa e custos mais altos.

"Se vender 20 peças grandes custa o mesmo que 200 médias, as empresas simplesmente vão abandonar os tamanhos maiores", afirma Wang.

Com o custo dos tecidos subindo de forma acentuada, os produtores enfrentam novas pressões, acrescenta a designer, e alerta que o resultado provavelmente será roupas ainda mais justas no próximo ano.

Para consumidoras como Kexin, isso apenas acelerará a mudança que já está acontecendo em seu guarda-roupa.

Reportagem adicional de Luis Barrucho