SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Viva América: Romance da Terra sem Fronteiras por Egidio Guerra.

 


Parte I: O Canto da Terra Unida 

No crepúsculo que antecedeu a tempestade, quando os ventos do norte começaram a soprar com fúria renovada, havia um murmúrio que percorria a espinha dorsal do continente. Era a voz antiga e sempre nova de uma América que se recusava a ser apartada. 

No intervalo do espetáculo mais assistido do mundo, quando as luzes do Super Bowl se apagaram por um instante, um porto-riquenho de vestes brancas ergueu seu canto. Bad Bunny não era apenas um artista; era a encarnação de um sonho bolivariano, aquele que Simón Bolívar visionara em sua Carta da Jamaica, quando escreveu sobre fazer da América a rainha das nações, mãe de repúblicas e de povos. O reggaeton se fez hino e a ideia de uma única América, do Norte, Central e do Sul, pulsou no peito de milhões . 

Mas do norte descia a serpente de escamas listradas. Donald Trump, em sua segunda vinda de ferro e fogo, ordenava que o ICE estendesse seus tentáculos. A Estátua da Liberdade, aquela que deveria acolher os cansados e pobres de outras terras, via sua tocha se apagar diante dos fornos da xenofobia. Não contente em erguer muros físicos, Trump declarava guerra à própria ideia de América. Impunha tarifas a quem ousasse vender petróleo a Cuba, chamando a ilha de "ameaça incomum e extraordinária". Para ele, a resistência não era um ato político, era uma afronta existencial . 

Parte II: As Veias que Ainda Sangram 

Para entender a teimosia dos povos americanos em sobreviver, era preciso escavar fundo, como fazia o velho Solimán, personagem saído das páginas de Texaco de Patrick Chamoiseau. Ele dizia que a memória era um cais onde atracavam todos os navios negreiros. Na Martinica, ele via o mesmo mar que banhava Havana e Cartagena, o mesmo oceano que engoliu milhões e que agora via passar novos navios: os de carga dos tratados de livre comércio, que levavam a riqueza e deixavam a miséria. 

Era a lógica descrita por Eduardo Galeano em As Veias Abertas da América Latina: a prata de Potosí que virou colar europeu, o açúcar do Nordeste que adocicava a Inglaterra, o petróleo venezuelano que movia os carros estadunidenses. Uma hemorragia que durava séculos. 

No México, a menina Alfonsina, personagem de Rosario Castellanos em Balún Canán, parecia sussurrar ao vento as histórias de seus antepassados maias. Ela sabia que a terra não se vende, a terra se defende. E enquanto Trump ameaçava tarifas e militarizava a fronteira, os povos originários do México se levantavam novamente, lembrando que a primeira resistência foi deles, contra Hernán Cortés, e que não seria um magnate de Nova York que os dobraria . 

Parte III: O Recurso da Resistência 

Num palácio em ruínas da Havana Velha, o Primeiro Magistrado imaginário de Alejo Carpentier, em O Recurso do Método, caminhava entre colunas quebradas e sonhos desfeitos. Ele representava todos os ditadores que a América conheceu, empurrados e sustentados pelas potências de fora. Mas Cuba era diferente. Cuba era a retaguarda estratégica, o símbolo que o império precisava destruir . 

"Não é pelo que Cuba faz", explicava um professor da Universidade de Havana, "mas pelo que Cuba é" . E o que Cuba era, desde 1959, era a prova viva de que era possível dizer não. O bloqueio de mais de sessenta anos não era apenas uma sanção; era uma confissão de fracasso. Enquanto Cuba resistisse, a chama da dignidade continental não se apagava. 

Na Venezuela, a história parecia repetir-se. O governo Trump, que já tentara derrubar Maduro em 2019, agora sequestrava o presidente e sua companheira num ato de pirataria estatal . O objetivo era liquidar as pendências, quebrar a linha de base da resistência anti-imperialista. Mas em Caracas, nas ruas de Petare e Catia, o povo sabia que a era das intervenções da CIA, que haviam patrocinado o golpe na Guatemala em 1954, no Brasil em 1964, no Chile em 1973, não poderia ser repetida impunemente . 

Parte IV: As Vitórias do Sul 

Contra todas as previsões, a América Latina aprendeu a dançar conforme a música sem perder o passo. Na Colômbia, Gustavo Petro, outrora guerrilheiro, agora presidente, lembrava-se das palavras de Bolívar: "A união dos povos não é uma quimera, é uma necessidade". Quando Trump ameaçou, Petro respondeu com a dignidade de quem sabe que sua nação é feita de sangue de índios, negros e espanhóis, e que nenhum império pode reivindicar posse sobre essa mistura sagrada . 

No México, Claudia Sheinbaum, cientista e mulher, ocupava o palácio nacional com a força dos que aprenderam que a história a que temos direito é a história que fazemos. Diante das provocações de Trump, ela não recuou. O México não era mais o quintal dos Estados Unidos; era a porta de entrada de uma nova América, orgulhosa de seu passado asteca e maia . 

E no Brasil, Lula emergia das entranhas da ditadura que a CIA ajudara a instalar, para mostrar que o Brasil não era apenas um país do futuro, mas um país do presente . Quando Trump investiu contra a soberania alheia, o Itamaraty falou a língua da firmeza cortês, lembrando que a América do Sul não aceita protetorados. 

Na Bolívia, Evo Morales e Luis Arce, filhos de Aymara, reconstruíam o Estado a partir da imagem e semelhança dos povos originários, provando que a democracia podia ter rosto indígena. A tentativa de golpe de 2019, que expulsou Evo, foi derrotada nas urnas pela vontade popular . 

Parte V: A Confluência das Águas e das Memórias 

E foi então que todos os personagens se encontraram numa praça imaginária da América. 

Chegou Marie-Sophie Laborieux, a narradora de Texaco, trazendo na bagagem os cacos da cidade que construiu com as próprias mãos, lutando contra o prefeito que queria urbanizar sua alma. Ela olhou para os arranha-céus de Miami e disse: "Eles têm o aço, mas nós temos a seiva". 

Chegou Alfonsina, de Balún Canán, já crescida, trazendo a memória dos índios despossuídos de Chiapas, e entregou a bandeira do México a Claudia Sheinbaum, sussurrando: "A terra não se negocia". 

Chegou o Primeiro Magistrado de Carpentier, despido de seu fardão, transformado agora num velho sábio que caminhava por Havana e via, nos olhos das crianças, a certeza de que o bloqueio era apenas um muro de vento. 

Junto a eles, desfilaram os mortos e os vivos: Francisco de Miranda com sua espada rota; Tupac Amaru com seus membros estirados mas o coração intacto; Zumbi dos Palmares espreitando da serra; Fidel Castro com seu fuzil transformado em pena; José Martí, que havia avisado: "Vivi no monstro e conheço suas entranhas". 

Epílogo: A América que Venceu 

E quando os tanques de Trump pararam na fronteira do Rio Grande, encontraram um exército que não era de soldados, mas de poetas, camponeses, operários, índios e negros. Encontraram uma América que lia As Veias Abertas e aprendera a estancar o sangue com as próprias mãos. Encontraram uma ideia que não se pode bombardear: a ideia de que somos um povo só, mestiço e rebelde, que canta no Super Bowl, que resiste no bloqueio, que vence nas urnas e que, nas palavras de Chamoiseau, constrói a cidade de Texaco todos os dias, com o suor do rosto e a esperança no coração. 

Viva América, a que resiste. Viva América, a que luta. Viva América, a que é una e diversa, livre e soberana, desde as geleiras do Alasca até os pampas da Patagônia. 

"Pátria é a América", disseram Bolívar e Martí. E a pátria, finalmente, estava salva. 

Resistência Quântica: Ontologia e Política por Egidio Guerra





Eu proponho um cruzamento intelectual tão desafiador quanto necessário. A busca para entrelaçar as revoluções da física com as consequências políticas retratadas na literatura e na filosofia é, em si, um exercício de pensamento quântico: uma tentativa de criar uma superposição de saberes para compreender um fenômeno complexo. A ideia de uma "resistência quântica" frente às transformações sociais pela força é particularmente instigante. 

O ponto de partida para essa reflexão está na própria natureza das revoluções científicas do início do século XX. A física quântica, ao contrário da física clássica de Newton, não descreve um mundo de certezas e trajetórias definidas. Com Niels Bohr e o princípio da complementaridade, aprendemos que um objeto pode ter propriedades contraditórias (como onda e partícula) que são mutuamente exclusivas, mas igualmente necessárias para uma descrição completa . Werner Heisenberg, por sua vez, formulou o princípio da incerteza, demonstrando que é impossível conhecer, com precisão absoluta e simultânea, certos pares de propriedades de uma partícula, como sua posição e sua velocidade. O mundo, na visão quântica, não é feito de coisas definidas, mas de probabilidades e potencialidades que se atualizam no momento da interação ou da "observação" . 

Essa visão, que tão profundamente perturbou Einstein (com sua famosa resistência à ideia de que "Deus joga dados com o universo"), encontra um eco perturbador na análise da política contemporânea e das transformações sociais descritas em obras como as que estudei.



A Política em Estado de Superposição Quântica 

A primeira ponte entre esses mundos é a constatação de que as relações de poder e a própria estrutura dos Estados já não obedecem à lógica binária e determinista da física clássica. Não vivemos mais (e talvez nunca tenhamos vivido inteiramente) no mundo das "leis mecânicas" da política internacional. 

  • O Fim das Certezas Geopolíticas: A física quântica nos mostra que o visível é apenas uma fração da realidade. Um analista político contemporâneo observa que a política global entrou numa fase de "incerteza quântica" e "energia escura", onde os processos reais operam por leis que desafiam o "senso comum" da diplomacia tradicional. O Direito Internacional e os tratados públicos seriam apenas os 4% visíveis da matéria política, enquanto os 96% restantes são compostos por forças obscuras, interesses sombrios e caos. 

  • O Princípio da Superposição de Papéis: Na arena internacional, os atores já não são apenas "amigos" ou "inimigos". Eles existem em um estado de superposição: um país pode apoiar publicamente uma nação vítima de agressão enquanto, simultaneamente, financia a máquina de guerra do agressor através da compra de seus recursos energéticos. Assim como o gato de Schrödinger, a identidade geopolítica de uma nação só se revela (ou "colapsa") no momento da crise, quando uma ação concreta é exigida. 

  • O Fim das Garantias (Entanglement e Incerteza): As garantias e tratados internacionais, antes vistos como constantes fixas na equação do poder, tornaram-se "funções de onda", meras distribuições de probabilidade. A ajuda pode vir ou não, dependendo de uma complexa teia de fatores imprevisíveis . A isso se soma a entanglement (ou emaranhamento) global: um conflito local no Mar Vermelho instantaneamente distorce os preços na Europa, mostrando que eventos distantes estão intrinsicamente ligados, compartilhando um estado que não pode ser descrito independentemente . 



A Força e a Técnica: Da Caça ao Homem ao Laser Social 

É nesse ponto que me refiro a Grégoire Chamayou e suas "Caças ao homem" se torna crucial. Chamayou descreve a evolução do poder cinegético, um poder que se exerce através da perseguição, da mobilidade e do controle de territórios e populações. Essa é uma forma de poder "clássica", que opera no espaço e no tempo. A revolução quântica, no entanto, oferece ferramentas para um poder de um novo tipo, que atua na própria estrutura da realidade e da informação. 

A "força" que transforma sociedades, seja nas narrativas pós-coloniais de Chamoiseau e Castellanos, seja nas análises geopolíticas atuais, ganha um novo vetor: a tecnologia quântica. 

  1. O Poder de Decifrar: A capacidade de um computador quântico de quebrar os sistemas de criptografia que protegem comunicações governamentais, transações financeiras e segredos militares representa uma forma radical de poder. Não é uma "caça" no sentido físico, mas uma "caça" informacional, onde a presa é o próprio segredo. A estratégia "harvest nowdecrypt later" (colher agora, decifrar depois) já permite que potências armazenem dados hoje, aguardando o momento em que a tecnologia quântica os torne transparentes . 

  1. O Poder de Tornar Invisível e Ver o Invisível: Sensores quânticos podem tornar obsoletos os sistemas de navegação por satélite (GNSS), criando sistemas de navegação indetectáveis e imunes a interferências . Ao mesmo tempo, podem detectar submarinos a profundidades antes inimagináveis, anulando a capacidade de dissuasão de um adversário . É a materialização do princípio da incerteza aplicado à guerra: enquanto um lado tenta se esconder (medir sua posição com precisão), o outro pode medir seu momento com uma acuidade antes impossível. 

  1. O Poder de Moldar a Realidade (O Laser Social): A proposta mais fascinante e perturbadora vem do conceito de "laser social" . Assim como um laser físico amplifica a luz de forma coerente e exponencial, um "laser social" descreveria a capacidade de amplificar ações sociais e políticas de forma igualmente poderosa. Através de fluxos de informação direcionados (como mídias sociais e propaganda algorítmica), seria possível criar "inversões populacionais" na opinião pública, levando a emissões estimuladas de comportamento de massa, desde "revoluções coloridas" até ondas de protesto e eleições . Isso transcende a "caça" e entra no domínio da orquestração quântica da vontade coletiva. 

Resistência Quântica: Ontologia e Política 

Diante desse poder técnico-político, onde reside a possibilidade de resistência? A resposta, surpreendentemente, pode estar na própria filosofia quântica. 

A física quântica não apenas descreve o mundo; ela implode a ontologia clássica que sustenta o poder tradicional. A física e filósofa Karen Barad nos oferece ferramentas conceituais para pensar uma "resistência quântica" . 

  • Intra-ação e a Responsabilidade: Barad propõe o conceito de "intra-ação" em vez de interação. A interação pressupõe entidades pré-existentes que se encontram. A intra-ação, inspirada no emaranhamento quântico, sugere que as entidades (agências, sujeitos, objetos) não preexistem às suas relações; elas emergem através delas . Isso implica que nossa responsabilidade não é apenas com o outro que já está aí, mas com a própria maneira como o mundo e suas diferenças são constantemente constituídos. A resistência, aqui, é a recusa em aceitar as identidades e fronteiras fixas impostas pelo poder (o colonizador vs. colonizado, o amigo vs. inimigo), reconhecendo a nossa contínua co-criação do real. 

  • A Indeterminação como Abertura Política: O princípio da incerteza de Heisenberg não é apenas uma limitação, mas uma condição ontológica. O mundo é, em sua essência, indeterminado, cheio de potencialidades . O poder clássico busca fixar, determinar, prever e controlar (como nas "caças ao homem" de Chamayou). A resistência quântica, por outro lado, afirma a potência do indeterminado. Ela se alinha às narrativas de Balún Canán e Texaco, que contam a história não dos vencedores, mas das potencialidades de mundos que foram violentamente "colapsados" pela força colonial. A memória e a cultura dos povos originários e das diásporas são uma forma de manter viva a superposição de realidades que o poder hegemônico tentou reduzir a um único estado. 

  • A Medição e o Observador: Na física quântica, o ato de medir não é neutro; ele colapsa a função de onda, transformando a potencialidade em realidade. Transposto para a política, isso significa que a realidade que vivemos é, em parte, fruto de onde escolhemos olhar e como definimos o que é importante . O poder dominante tenta monopolizar os instrumentos de "medição" da realidade (a mídia, as estatísticas oficiais, a história contada pelos vencedores). A resistência, então, é o ato de se tornar um "observador ativo", de criar contra-narrativas e forçar a realidade a colapsar em direções mais justas e plurais . 


Confluências Literárias e a Urgência do Olhar 

Ao lermos a obra de Rosario Castellanos sobre as tensões entre indígenas e latifundiários em Chiapas, ou a epopeia de Chamoiseau sobre a criação de uma civilização crioula em Texaco, não estamos apenas testemunhando conflitos de classe ou raça. Estamos vendo o choque entre duas ontologias: a visão de mundo linear, extrativista e determinista do colonizador (a física clássica do poder) e a visão de mundo relacional, espiralada e profundamente ligada à terra e ao cosmos dos colonizados (que ressoa, em muitos aspectos, com a interdependência quântica). 

A física quântica, ironicamente, chega por um caminho técnico e matemático a uma visão de mundo que muitas culturas subjugadas sempre habitaram: um mundo de relações, de influências não-locais, onde o observador está sempre implicado no observado. 




Conclusão: A Dupla Revolução 

Estamos, portanto, diante de uma dupla revolução. A primeira, técnica e geopolítica, é a corrida quântica por poder, segurança e hegemonia, que ameaça aprofundar desigualdades e criar novas formas de controle e vigilância . É a revolução que se anuncia nos laboratórios de Big Tech e nos orçamentos de defesa das superpotências. 

A segunda, filosófica e política, é a resistência quântica. Ela emerge da compreensão de que a física que viabiliza essas novas tecnologias também nos oferece uma nova lente para enxergar o mundo, uma lente que deslegitima as certezas absolutas, os dualismos rígidos e as pretensões de controle total. Ela nos convoca a uma política da intra-ação, da responsabilidade radical e da abertura ao indeterminado. 

A "resistência quântica", nesse sentido, não é uma resistência que usa computadores quânticos, mas uma resistência que se inspira na ontologia quântica para lutar contra a captura do futuro. É a luta para garantir que o "colapso" da realidade não sirva apenas aos interesses dos mais fortes, mas seja um processo democrático e plural, onde as múltiplas histórias, as memórias subterrâneas e as visões de mundo silenciadas possam também participar da criação do mundo. 

A física quântica nos deu o poder de manipular a matéria em sua escala mais fundamental. O desafio político do nosso tempo, ecoado nas vozes de Castellanos, Chamoiseau e Chamayou, é saber se teremos a sabedoria para aplicar essa mesma potência à reconstrução de um tecido social mais justo, reconhecendo que, no fundo, estamos todos e tudo emaranhados.