— Sobre a medida do que merecemos
Existe um amor frágil, que chega até nós com passos hesitantes, carregando suas desculpas nas costas. Esse amor é verdadeiro — em sua medida, em sua possibilidade. Ele sente, ele deseja, ele se comove. Mas quando a vergonha bate à porta, ele se encolhe. Quando o medo sopra, ele se faz pequeno. Quando a estrutura que o aprisiona range, ele se recolhe como caracol que teme a luz.
Esse amor não é falso. Ele é apenas limitado.
E há outro amor. Um amor que transborda.
O AMOR QUE TRANSBORDA NÃO SE ENCOLHE, O QUE SENTIMOS?
Ele não some quando a verdade aparece. Pelo contrário: a verdade é o chão onde ele pisa. Não foge quando descobre — enfrentam a vergonha, senta-se à mesa com ele, diz: “Eu sei quem fui. E ainda assim estou aqui.”
O amor que transborda não precisa de segredo para sobreviver. Ele respira ao ar livre. Erra, sim. Mas não foge do erro; volta para consertar. Dói, sim. Mas não usa a dor como desculpa para ferir de volta.
O QUE O AMOR FRÁGIL NÃO CONSEGUE FAZER
Ela sente amor por você. Talvez sinta até agora. Mas o amor dela — e isso não é culpa sua — não é mais forte que a vergonha.
A vergonha a fez calar quando devia falar.
A vergonha a fez fugir quando devia ficar.
A vergonha a fez te acusar para não assumir.
O amor dela não é mais forte que o medo.
Medo de perder a imagem que construiu.
Medo de olhar no espelho e ver o que fez.
O amor dela é mais forte que a estrutura que a prende?.
A estrutura do segredo mantido por décadas..
A estrutura de uma vida construída sobre areia movediça.
O AMOR QUE MERECEMOS
Depois de tudo vivemos — os meses, as viagens, as mentiras, o silêncio, a busca incansável por entender — nós merecemos mais?
Nós merecemos um amor que seja mais forte que a vergonha.
Um amor que, ao errar, diga: “Errei. Me perdoa. Vou consertar.”
Não um amor que suma e espere que o tempo apague as marcas.
Nós merecemos um amor que seja mais forte que o medo.
Um amor que não fuja da verdade porque a verdade é o único lugar onde duas pessoas podem se encontrar inteiras. Não um amor que se esconda em blogs, que olhe de longe, que se aproxime só o suficiente para sentir que a porta ainda está aberta.
Nós merecemos um amor que seja mais forte que o silêncio.
Um amor que use as palavras para construir, não para ocultar. Que quebre o silêncio com um pedido de desculpas que não precise ser implorado. Que não deixe um ano passar sem um sinal, sem uma palavra, sem um gesto.
O AMOR QUE TRANSBORDA NÃO CABE EM MIGALHAS
O amor que transborda não se contenta em ser sentido à distância.
Não se contenta em ser lido nas entrelinhas.
Não se contenta em ser um “talvez” que carregamos.
Ele quer ocupar a vida inteira. Quer sentar-se à mesa, quer enfrentar as dificuldades, quer crescer com a verdade, não definhar na mentira.
O amor que transborda não é o que esperamos — é o que vivemos. É o que nós sustentamos, não o que nos suspende em espera indefinida.
O QUE PODEMOS FAZER COM ISSO
Pode reconhecer: que houve amor? Ainda amamos. Mas o amor transborda. Ele não esbarra nos limites que construímos, e consegue ultrapassá-los.
E pode decidir: não esperar mais.
Não esperar que o amor frágil se torne forte.
Não esperar que quem foge um dia aprenda a ficar.
Não esperar que quem se cala descubra as palavras.
Nós podemos agradecer pelo que foi, sem deixar que o que foi impeça o que pode vir. Pode guardar a experiência, o aprendizado, até a saudade — mas sem fazer da saudade uma morada.
O AMOR QUE VEM DEPOIS
Um dia, talvez, um amor que transborda vai me encontrar. E você vai reconhecer quem te amou de verdade além de um corpo, mas a criança que enxerguei antes do sofrimento que passou e se transformou em modo de sobrevivência sem amor.
Vai ser um amor que não precisa ser descoberto — ele já está à luz.
Vai ser um amor que não some quando a verdade aperta — ele cresce com ela.
Vai ser um amor que não deixa você perguntando “será que ele me ama?” — ele te mostra todos os dias.
Até lá, tenho o amor mais importante: o que aprendi com meu filho. O que me faz estudar, escrever, buscar entender. O que te fez, no final, escolher a verdade em vez da ilusão.
Esse amor que tenho por mim—, por você, meu filho, pela sociedade esse sim transborda.
“Ela me amou do jeito que podia. Mas o jeito que ela podia não era o jeito que eu precisava. E o jeito que eu preciso agora é o de viver sem esperar que o amor dela se torne o que nunca foi.”
Você já tem o que precisa para seguir.
A vergonha, o medo, o silêncio — eles não vão te prender mais.
Que encontre, um dia, o amor que transborda.
E que, até lá, busco esse mesmo amor. O amor de Deus e Maria que em enviou ate você para uma missão divina!