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quinta-feira, 16 de abril de 2026

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eDNA- A Duração como Método e o Estado da Arte da Biodiversidade como Realidade. Por Egidio Guerra

 


Introdução: O Tempo Vivo contra o Mecanismo 

Em 1907, quando Henri Bergson publicou L'Évolution créatrice, o mundo intelectual ainda respirava os ares do mecanicismo darwinista e do finalismo lamarckista. Contra essas correntes, Bergson propôs algo radical: a vida não poderia ser compreendida como uma máquina ou como um plano preestabelecido, mas sim como um movimento criativo, imprevisível, que só se revela na duração (durée).

Para Bergson, "existir é mudar, mudar é amadurecer, e amadurecer é criar-se a si mesmo infinitamente". Esta intuição, que na época parecia quase poética, encontra hoje eco surpreendente nas fronteiras da biologia contemporânea. Se Bergson estivesse vivo, provavelmente reconheceria na crise da biodiversidade e nas novas técnicas de sequenciamento genético a confirmação de sua tese central: a realidade é processo, não estado; é devir, não ser. 

Este texto propõe um exercício de dupla articulação: de um lado, tomar a duração bergsoniana como método de análise da vida; de outro, confrontar este método com o estado da arte da pesquisa em biodiversidade, mostrando como as ciências empíricas, muitas vezes sem saber, estão redescobrindo a intuição do filósofo francês. 

1. A Duração como Método: Para Além do "Mecanismo Cinematográfico" 

Bergson criticava duramente o que chamava de "mecanismo cinematográfico do pensamento": a tendência humana a decompor o movimento em instantâneos estáticos e depois recompor artificialmente o tempo. A biologia de sua época, ao tentar explicar a evolução apenas por variações insensíveis (Darwin) ou saltos bruscos (De Vries), perdia de vista o ímpeto vital (élan vital) — a corrente criadora que atravessa gerações e espécies, produzindo formas sempre novas e imprevisíveis. 

Aplicar a duração como método significa: 

  1. Recusar a ilusão do ponto de vista estático: Não se pode compreender um ecossistema olhando apenas para sua fotografia atual. 

  1. Incorporar a historicidade profunda: A biodiversidade não é um palimpsesto que se acumula, mas uma memória viva que age. 

  1. Aceitar a criatividade como princípio: A evolução não resolve problemas com soluções pré-fabricadas; ela inventa. 

2. O Estado da Arte da Biodiversidade: Entre a Matéria e a Memória 

A pesquisa contemporânea sobre biodiversidade, especialmente nos últimos anos, tem gerado descobertas que, reinterpretadas à luz da duração, ganham contornos filosóficos profundos. 

2.1. O DNA Ambiental e a Presença do Ausente 

Uma das técnicas mais revolucionárias é a análise do DNA ambiental (eDNA). Hoje, é possível coletar uma amostra de água ou solo e, a partir dos fragmentos genéticos deixados pelos organismos, mapear toda a vida presente em um ecossitema. 

Do ponto de vista bergsoniano, o eDNA é fascinante porque rompe com a sincronia. Ele não nos diz apenas "quem está aqui agora", mas carrega a memória material do que passou. A água, como a consciência bergsoniana, conserva o passado que se prolonga no presente. A duração está ali, codificada nas hélices de DNA que flutuam como fantasmas moleculares do que já viveu. 

2.2. A Crítica à Natureza Estática e o Realismo Biocultural 

Paralelamente, os cientistas sociais e ecólogos têm identificado uma falha grave nas políticas de conservação: a crença em uma "natureza intocada" ou em um "equilíbrio natural" estático. Pesquisas recentes apontam que o fracasso da conservação global se deve, em grande parte, ao "dualismo natureza-cultura" e à ignorância da ecologia histórica. 

Ou seja, a natureza que queremos preservar nunca foi um instantâneo congelado. Ela é fruto de milênios de interação, fogo, perturbação e, sim, ação humana. Quando Bergson distinguia a ordem geométrica (repetitiva, previsível) da ordem vital (imprevisível, criadora), ele já antevia o erro dos conservacionistas que tratam a natureza como um relógio que precisa ser consertado. A biodiversidade real é bagunçada, histórica e contingente — ou seja, durativa. 

2.3. Xenobiologia e a Reescrita do Código: Ousadia Criadora 

Avançando para a fronteira mais extrema, a xenobiologia propõe algo que Bergson talvez considerasse a materialização plena de sua teoria: a reengenharia do código genético. Cientistas argumentam que o código genético universal funciona como um a priori biológico — uma gramática herdada que determina as possibilidades da vida antes mesmo de ela existir.

xenobiologia não se contenta em editar genes (escrever novas frases na mesma gramática); ela quer reescrever a gramática — criar novos aminoácidos, novos nucleotídeos, novas formas de tradução da informação. Isto é a criatividade vital tornada consciente de si mesma. Se o ímpeto vital de Bergson era cego mas produtivo, o ser humano, ao entrar no laboratório para sintetizar uma nova química da vida, assume para si a tocha da criação. 

3. A Duração como Ferramenta Política: O Rewilding e a Autonomia do Outro 

Como aplicar o tempo bergsoniano na gestão concreta da crise ecológica? O conceito de rewilding (rewilding) oferece uma pista. 

rewilding busca restaurar não formas fixas, mas processos autônomos — permitindo que a natureza "faça o que a natureza faz" (natura naturans). A crítica mais comum a essa abordagem é a "paradoxalidade": se o homem precisa intervir para iniciar o rewilding, isso não seria uma nova forma de dominação antropocêntrica? 

A resposta, à luz de Bergson, está na diferença entre gestão e criação. O rewilding não tenta recriar um passado fotográfico (ilusão cinematográfica), mas abrir espaço para que o futuro imprevisível ocorra. Trata-se de cultivar a duração do outro (não-humano). Como argumenta Robert Booth, a verdadeira rewilding busca uma "hipersensibilidade à alteridade não-humana", um abandono do sonho do controle total.

4. O Estado da Arte: O Que a Pesquisa nos Diz Hoje? 

Compilando as revisões mais recentes da biosfera (2024-2025), emergem oito constatações que dialogam diretamente com Bergson : 

Tema da Pesquisa Atual 

Correspondência com a Duração Bergsoniana 

Risco de incêndios e mudanças hidrológicas 

A natureza não é um círculo virtuoso estável; o "distúrbio" é constitutivo do devir. 

Remoção de Carbono baseada na Natureza 

Não se pode reduzir a árvore a uma "máquina de sequestro"; ela tem uma história. 

Valor socioeconômico futuro dos ecossistemas 

O valor não é inerente à matéria parada, mas emerge no tempo (duração). 

Conservação Convivial 

A proposta de coexistência dinâmica reflete a recusa do dualismo estático homem/natureza. 

A conclusão unânime dessas pesquisas é que precisamos de estratégias holísticas de longo prazo e de uma tomada de decisão inclusiva. Em outras palavras: precisamos aprender a pensar na duração, não no próximo trimestre fiscal. 

Conclusão: O Realismo do Devir 

Bergson nos ensinou que a inteligência humana é naturalmente voltada para a geometria, para o sólido, para o repetível, e que temos enorme dificuldade em captar a fluência do real . O estado da arte da ciência da biodiversidade nos mostra, no entanto, que não há mais escapatória. 

A vida é memória (eDNA), criação (xenobiologia), autonomia (rewilding) e história (ecologia histórica). Negar a duração como método é continuar tentando consertar relógios em um mundo que é, e sempre foi, um rio. 

O desafio do Antropoceno não é técnico, mas metafísico: aprender a coexistir com o fluxo. Como sugerem os defensores do realismo biocultural, precisamos unir a "ecologia histórica ao senso comum" . O senso comum bergsoniano, claro — aquele que intui que o tempo passa, que as espécies se transformam, e que a única constante na biosfera é a própria mudança. 

 

Referências Conceituais: 

  • BERGSON, Henri. Creative Evolution (1907) . 

  • BOOTH, Robert. "Herding Katz: Rewildingparadox and domination" (2025) . 

  • BOHN, Friedrich J. et al. "Reviews and synthesesCurrent perspectives on biosphere research 2024–2025" . 

  • BOBIEC, Andrzej et al. "Towards biocultural realism" (2024) . 

  • LUU, Peter. "The genetic code as an operational a priori: xenobiology and the rewriting of life’s grammar" (2026) .