SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

domingo, 13 de setembro de 2026

Os números milionários de 'Dark Horse' que Flávio Bolsonaro prometeu a Vorcaro: cachê de 'Oppenheimer', bilheteria da Zendaya

 

Jim Caviezel trajando terno escuro e faixa verde e amarela, diante de um céu carregado de nuvens, em uma imagem de tom solene e dramático, no papel de Jair Bolsonaro.

Crédito,Divulgação

Legenda da foto,O ator americano Jim Caviezel como Jair Bolsonaro em cartaz do filme Dark Horse

O inquérito da Polícia Federal sobre o filme Dark Horse, que apura suspeitas de irregularidades no financiamento da produção, que recebeu recursos de Daniel Vorcaro, traz novos detalhes sobre o orçamento do longa-metragem.

O documento integra um dos inquéritos relacionados ao Banco Master tornados públicos na noite desta sexta-feira (11/9) por decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).

A decisão veio após o presidente da Corte, Edson Fachin, determinar a abertura dos documentos vinculados ao caso, atendendo a um pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR).

A planilha de custos previstos para o filme detalha o cachê que seu protagonista, o ator americano Jim Caviezel, receberia para interpretar o ex-presidente Jair Bolsonaro: US$ 4 milhões, ou cerca de R$ 20,48 milhões na cotação atual.

Embora Caviezel não seja mencionado explicitamente, as duas primeiras parcelas que o banqueiro deveria pagar, de US$ 2 milhões cada, aparecem descritas como "talento principal parte 1" e "talento principal parte 2".

"Talento", tradução literal de talent, é o termo usado pela indústria para se referir a um artista. Como o documento qualifica o profissional como o "talento principal", a referência seria ao protagonista.

Como a planilha registra apenas o orçamento, não é possível saber se o pagamento foi efetivamente realizado nem qual foi o custo final. Documentos do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontam que ao menos US$ 12,3 milhões (R$ 63 milhões) dos US$ 24 milhões (R$ 123 milhões) solicitados pelo senador Flávio Bolsonaro (PL) ao banqueiro foram efetivamente pagos.

A assessoria de imprensa de Flávio disse à BBC News Brasil que assuntos ligados a Dark Horse devem ser tratados com a produtora do filme, a Go Up Entertainment. A BBC questionou a empresa, por e-mail, mas não obteve retorno até a publicação. A reportagem não conseguiu localizar os representantes de Caviezel.

A Polícia Federal destaca, em seu relatório, o descompasso entre os valores de Dark Horse e aqueles observados no mercado audiovisual brasileiro. "Embora não caracterize por si só qualquer ilícito penal, reforça a necessidade de aprofundamento da investigação acerca da efetiva destinação dos recursos e da compatibilidade econômica da operação financeira identificada", diz o documento.

Montagem com cenas dos bastidores do filme Dark Horse.

Crédito,Reprodução

Legenda da foto,Montagem com cenas dos bastidores do filme Dark Horse

O diretor do filme, Cyrus Nowrasteh, se pronunciou no X. "A comparação de custos que a imprensa brasileira vem fazendo é falha. Nos Estados Unidos, os orçamentos de produção são divulgados sem incluir os custos de marketing. Já o valor referente a Dark Horse citado na cobertura jornalística inclui o marketing. Comparar um valor que engloba produção e marketing com custos apenas de produção é, simplesmente, um erro", ele escreveu.

No entanto, na planilha de custos apresentada a Vorcaro, à qual a PF teve acesso, não há menção a despesas de distribuição, categoria que inclui o marketing. Em um filme, a pós-produção reúne apenas os gastos necessários para editar e finalizar a obra.

Já a etapa que envolve os custos para levar a obra ao público — incluindo divulgação e distribuição nos cinemas — corresponde a ao menos 30% da soma de todas as demais despesas, entre elas cachês de elenco, roteiristas, produtores e de todos os outros profissionais envolvidos na produção.

O cachê de Caviezel para fazer Bolsonaro e o de Joaquin Phoenix como Coringa

Mesmo deixando de lado a conversão para o real, já que se trata de uma produção americana, os US$ 4 milhões são considerados exagerados por profissionais da indústria cinematográfica ouvidos pela BBC em caráter reservado.

Um produtor que transita entre os mercados brasileiro e americano há mais de uma década lembra que Robert Downey Jr., um dos atores mais populares da atualidade, por ter interpretado o Homem de Ferro, recebeu a mesma quantia em Oppenheimer, sobre o criador da bomba atômica, o físico Robert Oppenheimer.

Ainda que Downey Jr. não tenha interpretado o protagonista, seu papel foi central para a história. Ele deu vida a Lewis Strauss, membro fundador e ex-presidente da Comissão de Energia Atômica dos Estados Unidos, um dos personagens com maior presença em cena, atrás de Cillian Murphy, que teria recebido US$ 10 milhões para interpretar Oppenheimer.

Mas as comparações não param por aí. Mesmo se limitada a referência a protagonistas, Joaquin Phoenix recebeu US$ 4,5 milhões para interpretar Coringa no filme sobre o antagonista do Batman.

Os valores neste mercado podem variar bastante. Phoenix, por exemplo, recebeu cerca de US$ 20 milhões pela continuação de Coringa (Coringa: Delírio a Dois), mas só depois de o primeiro filme se tornar um arrasa-quarteirão e ultrapassar US$ 1 bilhão nas bilheterias.

É um valor dez vezes maior do que o que os produtores de Dark Horse projetam arrecadar no cenário mais otimista: US$ 100 milhões.

Esse valor, aliás, também é questionado nos bastidores da indústria de cinema brasileira. Para se ter uma ideia, Rivais, um dos filmes mais recentes de Zendaya, uma das maiores estrelas pop de sua geração, arrecadou esse mesmo valor.

Joaquin Phoenix caracterizado como Coringa, usando terno vermelho, camisa verde e colete amarelo, diante de um espelho com a frase “put on a happy face”, traduzido como faça cara de feliz, escrita em batom.

Crédito,Warner Bros. Pictures/Divulgação

Legenda da foto,Joaquin Phoenix como Coringa em cena do primeiro filme da franquia

Em geral, os cachês de atores são mantidos em sigilo, e raramente os artistas ou seus agentes os tornam públicos, motivo pelo qual é difícil traçar muitas comparações. Ainda assim, esses casos são ilustrativos, na visão dos especialistas ouvidos pela BBC.

Ambos os filmes comparados estiveram entre as principais bilheterias dos anos em que foram lançados. Coringa, como dito, arrecadou cerca de US$ 1 bilhão em 2019, e Oppenheimer fez US$ 976 milhões em 2023.

São produções distribuídas pelas principais empresas de cinema do mundo — o primeiro, pela Warner Brothers; o segundo, pela Universal Pictures — e lançadas em 44 e 80 países, respectivamente.

Essas cifras ilustram o caráter amplamente comercial das duas produções, em contraste com o momento atual da carreira de Caviezel.

Seu projeto mais famoso foi Paixão de Cristo, no qual interpretou Jesus e que arrecadou US$ 612,1 milhões nas bilheterias. Desde então, porém, sua carreira foi marcada por papéis e projetos menores.

A exceção foi O Som da Liberdade, em 2023, que no Brasil mobilizou sobretudo evangélicos e bolsonaristas, mas ainda assim teve uma bilheteria global de US$ 250,5 milhões, bem inferior à de Paixão de Cristo — ou, é claro, dos sucessos de Downey Jr. e Phoenix.

Uma bancada de cinema exibe baldes de pipoca e produtos promocionais diante de um pôster iluminado do filme A Paixão de Cristo. A imagem tem tons quentes e escuros, criando uma atmosfera dramática que remete ao clima intenso e religioso do longa-metragem.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Jim Caviezel, que agora interpreta Jair Bolsonaro em Dark Horse, fez Cristo em A Paixão de Cristo, filme dirigido por Mel Gibson lançado em 2004

A comparação é relevante porque, enquanto a história do inimigo do Batman e a do criador da bomba atômica despertam interesse mundial, já que são personagens conhecidos há gerações, a de Bolsonaro dificilmente interessaria às massas de qualquer mercado que não o Brasil, dizem os produtores e diretores ouvidos pela BBC.

Em outras palavras, é difícil imaginar, na visão desses profissionais, que o mercado pagaria a Caviezel, para interpretar Bolsonaro em um filme de circulação virtualmente restrita ao mercado brasileiro, valores tão altos como os recebidos por nomes como Downey Jr. e Phoenix em blockbusters de Hollywood.

Principalmente na situação atual do mercado de cinema, que encolheu desde que as plataformas de streaming se popularizaram, as redes sociais e os vídeos curtos se tornaram onipresentes e a disputa por atenção se intensificou durante a pandemia de coronavírus.

A bilheteria é uma evidência disso. Em 2019, antes da pandemia, os cinemas arrecadaram US$ 42,3 bilhões no mundo. Em 2025, mesmo no melhor resultado desde 2019, a bilheteria global registrou US$ 33,6 bilhões — uma queda de 20,6%, segundo a Gower Street Analytics, que monitora a indústria cinematográfica.

No Brasil, o principal mercado para Dark Horse, a situação é ainda mais delicada. Segundo a Ancine, a Agência Nacional do Cinema, o público que foi às salas despencou cerca de 36,5% entre 2019 e 2025.

Flávio Bolsonaro, de terno e gravata azul, em pé, ao telefone.

Crédito,Adriano Machado/Reuters

Legenda da foto,Em um áudio de 8 de setembro de 2025, o senador Flávio Bolsonaro (PL) cobrou pagamentos de Daniel Vorcaro

Caviezel, aliás, foi mencionado nas cobranças que Flávio fez a Vorcaro, segundo a polícia.

Em um áudio de 8 de setembro de 2025, o senador cobrou pagamentos e demonstrou preocupação com um possível inadimplemento perante o ator e o diretor Cyrus Nowrasteh.

Em 22 de outubro, um mês antes da prisão de Vorcaro, o senador afirmou que a produção estava "no limite", pediu que Vorcaro o avisasse caso não pudesse fazer o aporte e o convidou para um jantar com os artistas.

Expectativa de bilheteria também é vista pelo setor como ambiciosa demais

Outro elemento que chamou a atenção dos produtores e diretores consultados pela BBC, quando confrontados com as tabelas vistas no inquérito da Polícia Federal: a expectativa de arrecadação de Dark Horse.

O plano de negócios enviado a Vorcaro, que também consta do inquérito, projetava uma bilheteria — ou receita bruta — de US$ 45 milhões no cenário pessimista, US$ 70 milhões no cenário conservador e US$ 100 milhões no cenário otimista.

Números brutos podem não dizer muita coisa, especialmente para quem não conhece o mercado. Por isso, comparações ajudam a dimensionar o tamanho da expectativa que os produtores de Dark Horse apresentaram ao dono do Banco Master.

Mesmo no pior cenário, a previsão colocaria o filme sobre Bolsonaro acima da bilheteria de Minha Mãe É uma Peça 3, estrelado pelo comediante Paulo Gustavo, o filme brasileiro de maior bilheteria da história do país, que arrecadou R$ 180 milhões — algo próximo de US$ 35 milhões pela cotação atual.

Zendaya, mulher de cabelos longos e ondulados, usando um vestido branco com detalhes prateados, diante de um fundo em tons claros de azul e amarelo.

Crédito,Lia Toby/Getty Images

Legenda da foto,Zendaya, uma das maiores estrelas jovens da atualidade, no lançamento do último filme da franquia Homem-Aranha

Já os US$ 100 milhões do cenário otimista colocariam Dark Horse em um patamar em que comparações com bilheterias brasileiras nem sequer podem ser feitas.

É uma receita semelhante à de Rivais, o filme de 2024 estrelado por Zendaya, que vinha de sucessos como a série Euphoria, da HBO, a franquia de ficção científica Duna e a de super-heróis Homem-Aranha, na qual interpreta a namorada do protagonista.

Distribuído internacionalmente pela Warner Brothers, um dos maiores estúdios de Hollywood, Rivais arrecadou US$ 96,1 milhões no mundo, sendo US$ 50,1 milhões nos Estados Unidos e no Canadá, o que ilustra a importância do mercado norte-americano para o sucesso de um filme.

Em outras palavras, a história de Jair Bolsonaro precisaria ser tão pop quanto a de Zendaya, ou até mais do que isso, para cumprir o cenário previsto pelos produtores, afirmam os profissionais de cinema à BBC.

Comparações com cinebiografias internacionais são questionadas

Também chama a atenção dos especialistas as comparações que os produtores do filme de Bolsonaro fizeram para justificar o investimento de US$ 24 milhões solicitados a Vorcaro por Flávio.

Segundo uma análise dos produtores que consta do inquérito da polícia, esse orçamento estaria dentro da ordem de grandeza de cinebiografias internacionais de políticos e figuras públicas, como A Dama de Ferro, sobre a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, que consumiu US$ 14 milhões.

A lista inclui ainda A Rainha (US$ 15 milhões), sobre a rainha Elizabeth 2ª; Selma: Uma Luta pela Igualdade (US$ 20 milhões), sobre a campanha de Martin Luther King Jr. pelos direitos civis; e Estrelas Além do Tempo (US$ 25 milhões), sobre três matemáticas negras pioneiras da Nasa, a agência espacial americana.

Também aparecem Frost/Nixon (US$ 29 milhões), sobre a entrevista do jornalista David Frost com o ex-presidente americano Richard Nixon; Mandela: Longo Caminho para a Liberdade (US$ 35 milhões), cinebiografia de Nelson Mandela; e JFK (US$ 40 milhões), sobre a investigação do assassinato do presidente americano John F. Kennedy.

Meryl Streep no papel de Margaret Thatcher no filme A Dama de Ferro

Crédito,20th Century Fox/Divulgação

Legenda da foto,Meryl Streep no papel de Margaret Thatcher no filme A Dama de Ferro

Para os diretores e produtores ouvidos pela BBC, porém, a comparação faz pouco sentido. Não se trata apenas de colocar lado a lado histórias de personagens políticos de contextos e projeções internacionais diferentes, mas também estrelas de popularidades que podem ser completamente opostas.

A Dama de Ferro, por exemplo, tinha Meryl Streep no papel de Thatcher. Uma das atrizes mais reconhecidas de Hollywood, ela já venceu três prêmios Oscar — sendo dois deles antes de este filme estrear.

A Rainha era estrelado por Helen Mirren, uma das atrizes mais conhecidas e respeitadas do Reino Unido e que também ganhou um Oscar pela interpretação da monarca.

Caviezel, embora tenha reconhecimento, está em um patamar diferente de exposição e poder de atração de público dessas estrelas. Seu maior sucesso, vale lembrar, foi lançado há 22 anos.

Uma comparação que faria mais sentido, até por se tratar de outro político, seria O Aprendiz, cinebiografia sobre os primeiros anos de Donald Trump como empresário do setor imobiliário em Nova York.

Estrelado por Sebastian Stan como Trump e Jeremy Strong no papel do advogado Roy Cohn, mentor de Trump, O Aprendiz teve orçamento estimado em US$ 16 milhões e arrecadou cerca de US$ 17,3 milhões no mundo.

Divisão de custos é pouco convencional, dizem profissionais do cinema

Outro elemento que chamou atenção dos profissionais de cinema é a maneira como os produtores distribuíram os custos de Dark Horse.

Na tabela de investimento apresentada a Vorcaro, a maior fatia iria para a pós-produção, com 34,7% do orçamento, o que não faz sentido, por se tratar de um filme que não depende de efeitos visuais em larga escala, como uma aventura ou uma ficção científica, diz uma diretora de franquias de sucesso no Brasil.

Em seguida aparece a pré-produção, com 27,8%. O cachê do protagonista vem depois, com 16,7%, enquanto as filmagens receberiam apenas 13,9%, e o desenvolvimento, 6,9%.

Os 13,9% para as filmagens é o que mais causa estranheza a esses especialistas. Segundo eles, uma divisão mais usual seria de 10% para desenvolvimento, 25% para pré-produção, 50% para filmagem e 15% para pós-produção.

O FIM DE TRUMP! HORA DE SALVAR O PLANETA E OS POBRES!





Infelizmente as eleições de meio de mandato de 2026 terão capacidade limitada de restringir diretamente o poder de Trump, mas o forçarão a adotar uma política externa ainda mais unilateral e dura; países afetados como o Brasil precisarão equilibrar diversificação comercial e defesa da democracia; o restante do mandato de Trump continuará avançando pelo modelo de "governar por decreto", com possibilidade mínima de responsabilização legal.

 

I. O poder real de restrição das eleições de meio de mandato

 

Embora as pesquisas indiquem que os democratas têm boas chances de recuperar a Câmara dos Representantes, mesmo controlando uma ou ambas as casas, a restrição ao poder presidencial em política externa se dá principalmente por meio de alavancas fiscais e rejeição de nomeações. Se o Senado for conquistado pelos democratas, poderá bloquear nomeações para a Suprema Corte ou o Federal Reserve; a Câmara pode usar a negociação do orçamento governamental e do teto da dívida como instrumento de pressão.

 

No entanto, o presidente possui amplos poderes constitucionais em matéria de política externa e militar, e o Congresso dificilmente conseguirá limitá-lo substancialmente. O verdadeiro risco está no fato de que o teto da dívida, já elevado em 5 trilhões de dólares em 2025, deve se esgotar em meados de 2027. Se, após as eleições de meio de mandato, o Congresso entrar em impasse, o risco de paralisação do governo ou de default da dívida aumentará significativamente.

 

Referências históricas mostram: após perder a Câmara em 2018, Trump voltou-se para a guerra comercial com a China e a aplicação rigorosa das leis de imigração; após perder o Congresso em 2006, George W. Bush voltou-se para o aumento de tropas no Iraque. A política externa se tornará o palco principal do restante do mandato de Trump.

 

II. O desaparecimento da responsabilização legal

 

As quatro acusações criminais enfrentadas por Trump foram basicamente "dissolvidas politicamente". A condenação por 34 crimes graves no caso de pagamento de dinheiro secreto em Nova York não resultará em prisão efetiva — como réu primário e de idade avançada, somado ao status presidencial, é impossível que cumpra pena durante o mandato. Os casos de interferência eleitoral federal e de documentos confidenciais serão encerrados por funcionários do Departamento de Justiça nomeados por Trump, e o próprio procurador especial Jack Smith enfrenta demissão. O caso da Geórgia será adiado por pelo menos quatro anos. Um promotor afirmou diretamente: "Vencer é uma carta de impunidade".

 

III. O impacto econômico real da guerra tarifária

 

O Brasil foi alvo de tarifas de até 50%; o Senado aprovou em outubro de 2025, por 52 a 48, uma resolução para tentar revogá-las, mas a Câmara, controlada por aliados de Trump, torna a revogação praticamente impossível. Dados reais mostram que, nos três primeiros trimestres de 2025, as exportações brasileiras de automóveis para os EUA cresceram 22,8%, e as de matérias-primas industriais, 2,4%, revelando uma "resiliência inesperada". Mas produtos agrícolas centrais como café e carne bovina continuam afetados, e o Brasil acelera a diversificação de exportações para os BRICS, a Ásia e a União Europeia.

 

O Canadá enfrenta tarifas de 35% sobre aço, alumínio e produtos agrícolas; o governo de Trudeau implementou "retaliação espelhada" e recorreu à OMC. O primeiro-ministro Carney disse pessoalmente a Trump na Casa Branca que "o Canadá nunca estará à venda" e declarou que "a antiga relação com os Estados Unidos acabou".

 

IV. O custo estratégico do episódio da Groenlândia

 

Trump nomeou o governador da Louisiana, Landry, como "enviado voluntário" encarregado de "assumir a Groenlândia", provocando convocação do embaixador americano pela Dinamarca em protesto. Os serviços de inteligência dinamarqueses já descrevem explicitamente os Estados Unidos como "risco de segurança nacional para a Dinamarca e a Europa". Essa aventura acabou estimulando o partido independentista groenlandês Naleraq a saltar de 12,2% para 24,6% dos votos nas eleições parlamentares dinamarquesas de março de 2026, conquistando sua primeira cadeira. O primeiro-ministro da Groenlândia declarou explicitamente "escolher Copenhague, não Washington".

 

V. A fuga de talentos do governo federal

 

Em 2025, o número de funcionários federais diminuiu cerca de 220 mil (quase 10%), com redução líquida de 33,2% entre servidores experientes de 20 a 30 anos, configurando uma grave "fuga de cérebros". Demissões em massa atingiram EPA, Departamento de Educação, USAID, NOAA e outras agências, e tribunais federais chegaram a considerar tais atos ilegais. O programa de demissão incentivada "Fork in The Road" cobriu mais de 2 milhões de servidores, com os contribuintes pagando cerca de 15 bilhões de dólares para que funcionários "ficassem em casa sem trabalhar até 30 de setembro".

 

VI. Retrocesso abrangente na política climática

 

Os EUA saíram do Acordo de Paris, cancelaram 4 bilhões de dólares em contribuições ao Fundo Verde para o Clima e desmantelaram projetos climáticos da USAID. Mais de 1 bilhão de acres de terras e águas federais foram abertos à exploração de petróleo e gás, com revogação de limites de emissão de mercúrio de usinas a carvão, padrões de emissão veicular e proteções de zonas úmidas. Em 2025, empresas cancelaram mais de 32 bilhões de dólares em investimentos em energia limpa. A EPA deixou de calcular economias com saúde e mortes evitadas nas regras de poluição do ar, contabilizando apenas custos industriais. O conjunto de dados de desastres climáticos bilionários da NOAA foi excluído, o Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica foi desmantelado e os EUA se retiraram do trabalho de avaliação do IPCC.

 

VII. Aplicação da lei pelo ICE e mortes de imigrantes

 

Em julho de 2026, o ICE realizou 49.571 prisões em um único mês, recorde do segundo mandato, várias vezes mais que a média mensal de pouco mais de 8 mil antes da posse de Trump. Pelo menos 20 pessoas foram baleadas em ações do ICE/CBP, com 8 mortes e 12 feridos. Em vários casos, testemunhas contradizem fortemente a versão oficial do DHS — a enfermeira Pretti, de Minneapolis, foi descrita como "resistindo violentamente", mas vídeos de espectadores mostram que ela não portava arma nem agiu com violência; o trabalhador da construção Salgado Araujo, de Houston, foi acusado de "usar o carro para atacar veículo do ICE", e passageiros do mesmo carro disseram que "isso é mentira, ele estava se rendendo".

 

VIII. Impasse diplomático e guerras travadas

 

Trump prometeu "não mais guerras permanentes", mas ao mesmo tempo se envolveu em três conflitos: Irã, Gaza e Ucrânia. A guerra com o Irã elevou o preço da gasolina, a inflação persiste, e pesquisa no Missouri (estado profundamente republicano) mostra a aprovação de Trump caindo abaixo de 50% pela primeira vez, com aprovação nacional de apenas 33% e 60% dos americanos considerando-o "desonesto e não confiável". O plano de paz para Gaza está paralisado porque Israel insiste que "o Hamas deve primeiro se desarmar", e a guerra na Ucrânia "está longe de terminar".

  

IX. Intervenção direta nas eleições brasileiras 

  

Trump já pressiona publicamente o Brasil por meio de tarifas, sanções e cassação de vistos, apoiando explicitamente Flávio Bolsonaro. O cientista político alemão Peter Birle adverte: "Esse tipo de interferência frequentemente funciona", citando o caso argentino — Trump condicionou ajuda à exigência de que eleitores apoiassem Milei, e funcionou. Analistas brasileiros apontam que, em ambiente de extrema polarização, a ameaça externa não mais "une o país", mas aprofunda a divisão ao longo das linhas de fratura ideológicas internas. Trump perguntou diretamente a Lula sobre as eleições brasileiras em telefonema e, em campo de golfe, sondou o banqueiro André Esteves sobre o cenário eleitoral. 

  

X. O que esperar dos próximos dois anos 

  

Nos EUA: Trump continuará avançando sua agenda por decretos, com a política externa como campo principal. A crise do teto da dívida pode explodir em 2027, elevando o risco de paralisação do governo. Se os democratas vencerem as eleições de meio de mandato, investigações e intimações aumentarão, mas a resistência por privilégio executivo fará com que a maioria das investigações termine sem resultado. 

  

No Brasil: enfrentará pressão externa contínua e risco de interferência eleitoral. Se Flávio for eleito, pode haver alinhamento "quase automático" com os EUA, mas os vínculos econômicos com a China dificilmente serão rompidos. Se Lula for reeleito, o Brasil manterá a estratégia de "hedge", aprofundando a diversificação com a Ásia.

  

No plano global: a guerra tarifária e o retrocesso climático continuarão, e o papel dos EUA nas instituições internacionais será ainda mais enfraquecido. O episódio da Groenlândia já danificou substancialmente a confiança dos EUA com aliados europeus; o fato de a Dinamarca considerar os EUA um risco de segurança marca uma fissura profunda nas relações transatlânticas. 


Conclusão: O terceiro processo de impeachment de Trump tornou-se praticamente inevitável após as eleições de meio de mandato, mas as chances de condenação e remoção permanecem extremamente baixas.


Fundamentos e acusações do impeachment


Em abril de 2026, o deputado democrata John Larson apresentou uma resolução de impeachment contendo 13 artigos, acusando Trump de "crimes graves e contravenções". As acusações incluem:

 

Crimes de guerra e pirataria: iniciar inconstitucionalmente guerras contra Irã, Iêmen, Líbano, Síria, Nigéria e Gaza, ameaçar usar força militar contra Panamá, Colômbia, Cuba e Groenlândia

· Militarização da aplicação da lei doméstica: uso da Guarda Nacional em cidades americanas

· Detenções e deportações inconstitucionais em série

· Retaliação contra discurso ou associação protegidos constitucionalmente

· Abuso do poder de perdão: sabotagem do Estado de direito

· Confisco inconstitucional do poder orçamentário do Congresso

· Contempto ao Congresso: governo secreto

· Desvio da aplicação da lei: perseguição de oponentes políticos e benefício a aliados

· Violação da Seção 1 da 14ª Emenda

· Falsa emergência nacional: designação de organizações terroristas estrangeiras


Pressão bipartidária sem precedentes


Pesquisa de abril de 2026 mostrou que 52% dos eleitores americanos apoiam o impeachment. Especificamente:


· 84% dos democratas apoiam a remoção

· 55% dos independentes apoiam

· 14% dos republicanos (um em cada sete) apoiam a remoção — o pesquisador John Bonifaz chamou isso de "resultado sem precedentes tão cedo em um mandato presidencial"


O único outro presidente de dois mandatos a receber apoio majoritário para impeachment foi Richard Nixon, mas isso só ocorreu tardiamente em seu segundo mandato, após o escândalo Watergate.

 

Status atual e perspectiva


Trump já sofreu impeachment duas vezes no primeiro mandato (2019 e 2021), sendo absolvido pelo Senado nas duas ocasiões. Após as eleições de meio de mandato de novembro de 2026, os democratas têm 68% de chance de recuperar a Câmara.

 

O líder da minoria democrata na Câmara, Hakeem Jeffries, não descartou buscar o impeachment, afirmando que "não confirmamos nem descartamos nada sobre impeachment" e que seguirá "os fatos, aplicará a lei e deixará a Constituição guiar".


No entanto, mesmo que os democratas recuperem a Câmara, o caminho para condenação é extremamente difícil. O Senado precisa de uma maioria de dois terços (67 votos) para condenar e remover o presidente. Como o Senado permanece sob controle republicano com alta probabilidade, a tentativa democrata pode se tornar apenas "uma formalidade" — "um impeachment rápido e fracassado pode na verdade ajudar Trump a unir seu partido em torno de si".


Possibilidade de aplicação da 25ª Emenda

 

Mais de 70 democratas apelaram para que o gabinete de Trump invoque a 25ª Emenda, declarando-o incapaz de exercer as funções presidenciais. A ameaça de Trump de "extinguir toda a civilização" do Irã foi considerada por alguns parlamentares como "a gota d'água". Mas a 25ª Emenda exige que o vice-presidente e a maioria do gabinete ajam em conjunto, o que na prática é quase impossível.

 

Avaliação central


Um artigo do The Hill resume com precisão: "A questão real não é se Trump sofrerá impeachment novamente, mas se será apenas mais um show ou algo que realmente derrame sangue." Dado que o Senado continua sob controle republicano, a terceira tentativa de impeachment provavelmente terminará como as duas anteriores — com Trump sendo absolvido ou não ? com a vitoria esmagadora dos Democratas agora nas eleições para o Congresso e o Senado.