SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Thom Yorke | Live at Sydney Opera House


 

Um novo compasso.

 




Findaram-se os olhos molhados
à espera de outro dia marcado.
Você não voltará
para tão longe de mim.
Leve, em alegria, agradeço:
ainda bem que Deus quis assim.

Decorei o nome de sua nova rua
como o som da sua voz.
De repente, nossas vidas se mesclam,
apertam-se os nós.

O tempo agora dança,
aprende um novo compasso.
Seus olhos brilhantes
lançam fora medos e enfados.

E os dias corridos,
sempre tão afobados,
abrem espaço aos sorrisos,
de prazer, enfim, coroados.

Transbordo na paz que a sua presença me traz.

Michel Foucault 1926: O Pensador que Desafiou o Estado, a Medicina e a Moral — e Pagou um Alto Preço


 

MUSE - Cryogen (Live from O2 Academy Brixton)

 


Alexandre Grothendieck: O Gênio que Reescreveu a Matemática e Desapareceu

 


A série de ataques que fez Reino Unido classificar antissemitismo como 'emergência de segurança nacional'

 

Uma cena de rua mostra membros da imprensa trabalhando perto de um cordão policial, em frente a carros da polícia e um ônibus estacionado, enquanto uma bandeira britânica tremula acima deles

Crédito,Reuters

    • Author,Anna Lamche
    • Author,Gabriela Pomeroy
  • Tempo de leitura: 7 min

O revisor independente do governo britânico para a legislação sobre terrorismo e ameaças do Estado, Jonathan Hall, afirmou que os ataques contra pessoas judias no Reino Unido se tornaram "a maior emergência de segurança nacional" desde 2017, em meio a uma série recente de incidentes — incluindo um esfaqueamento em Golders Green, no norte de Londres na última quarta-feira (29/4).

"Há britânicos em Londres, em particular, em Manchester, mas provavelmente em todo o país, que agora estão pensando que não podem viver uma vida normal. E não se trata de um único ataque, são múltiplos ataques", disse Hall à BBC.

No crime mais recente dois homens judeus foram esfaqueados em Golders Green em um incidente classificado como terrorismo pela Metropolitan Police. As vítimas, identificadas localmente como Shilome Rand, de 34 anos, e Moshe Shine, de 76, foram atendidas no local e estão em condição estável no hospital.

Um homem de 45 anos, cidadão britânico nascido na Somália, foi imobilizado com um taser antes de ser preso sob suspeita de tentativa de homicídio. Ele permanece sob custódia.

O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, classificou o episódio como um "ataque antissemita" "absolutamente revoltante" e afirmou: "Ataques contra a nossa comunidade judaica são ataques contra a Grã-Bretanha."

O caso ocorre em um contexto de pressão crescente sobre o governo para enfrentar o antissemitismo no país. O ataque em Golders Green é o mais recente de uma série de episódios recentes:

  • 27 de abril: Um suposto ataque incendiário foi realizado contra um muro memorial em Golders Green. O muro continha homenagens a manifestantes mortos pelo regime iraniano durante protestos antigoverno no início deste ano, além de uma seção dedicada às vítimas do ataque do Hamas a Israel em 2023.
  • 18 de abril: Uma garrafa contendo um tipo de acelerante foi lançada pela janela da Kenton United Synagogue, no noroeste de Londres.
  • 17 de abril: Itens suspeitos, posteriormente considerados não perigosos, foram encontrados perto da embaixada de Israel em Londres. Um vídeo publicado anteriormente nas redes sociais afirmava que a embaixada seria atacada por drones.
  • 15 de abril: Um tijolo e duas garrafas que se acredita conterem gasolina foram lançados contra a Finchley Reform Synagogue, no norte de Londres.
  • 23 de março: Quatro ambulâncias pertencentes a uma instituição de caridade judaica foram incendiadas no estacionamento de uma sinagoga em Golders Green.
  • 2 de outubro de 2025: Duas pessoas judias foram mortas e outras três ficaram em estado grave após um ataque com carro e facas do lado de fora de uma sinagoga em Manchester. Um dos homens foi morto por um disparo efetuado pela polícia.

O rabino-chefe do Reino Unido, Ephraim Mirvis, afirmou que o episódio "prova que, se você é visivelmente judeu, não está seguro e muito mais precisa ser feito".

Ele pediu "ações concretas" para enfrentar as "causas profundas" do antissemitismo. Já o Board of Deputies of British Jews declarou que o problema deve ser "enfrentado, punido e dissuadido com toda a força do Estado".

Após o ataque, o gabinete do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, afirmou que palavras "não são suficientes para enfrentar esse flagelo" de ataques em Londres.

O ataque em Golders Green

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A Polícia Metropolitana informou que seus agentes responderam às 11h16 no horário local — 7h16 em Brasília — de quarta-feira após receberem relatos de que pessoas haviam sido esfaqueadas.

Segundo a corporação, o suspeito também tentou esfaquear os policiais que atenderam à ocorrência, mas ninguém ficou ferido.

Um vídeo compartilhado nas redes sociais parece mostrar o momento da prisão. Dois agentes se aproximam do homem antes de um deles usar um taser, fazendo com que ele caia no chão.

O homem então parece segurar um objeto cortante contra o próprio peito com as duas mãos, enquanto os policiais e um transeunte tentam retirar o objeto. Durante a luta, os agentes podem ser vistos chutando o homem na cabeça várias vezes.

A Polícia Metropolitana divulgou imagens do incidente captadas pelas câmeras corporais dos agentes, nas quais é possível ouvi-los repetindo ordens para que o suspeito "se deite no chão" antes de ser atingido pelo taser e, em seguida, que "solte a faca".

"O suspeito se recusou a mostrar as mãos, foi violento e continuou representando uma ameaça clara", afirmou a corporação, acrescentando que ele "continuou tentando atacar e esfaquear" os policiais enquanto era contido.

O comissário da Polícia Metropolitana, Mark Rowley, elogiou a coragem dos agentes, dizendo: "Eles não eram policiais armados e temiam que ele estivesse carregando um dispositivo explosivo."

Ele acrescentou, em declaração no local na tarde de quarta-feira, que o suspeito tinha histórico de violência grave e problemas de saúde mental.

A Polícia Metropolitana informou posteriormente que agentes realizavam buscas em um endereço no sudeste de Londres. Detetives acreditam que o mesmo suspeito esteve envolvido em um incidente anterior na região.

A polícia foi acionada às 08h50 no horário local — 4h50 em Brasília — de terça-feira após relatos de que o suspeito esteve envolvido em uma altercação com o ocupante de um imóvel.

O morador sofreu "ferimentos leves", e os policiais que atenderam à ocorrência não conseguiram localizar o suspeito, que já havia deixado o local.

Uma testemunha, Daniela, fazia compras em Golders Green na manhã de quarta-feira quando ouviu pessoas gritando: "Ele está com uma faca, corram."

A mulher, de 29 anos, disse à BBC que se abrigou em uma livraria próxima e viu o suspeito passar correndo em direção a uma via importante da região.

"Naquele momento, não havia ninguém na rua — todos tinham corrido", afirmou. "Éramos um grupo de mães com carrinhos de bebê. O dono da loja trancou a porta. Ficamos sem palavras."

Imagens de câmeras de segurança parecem mostrar um homem avançando contra uma pessoa que estava próxima a um ponto de ônibus. Em outro vídeo, um homem com roupas semelhantes é visto correndo por uma rua antes de perseguir um pedestre.

O primeiro-ministro, Keir Starmer, agradeceu ao Shomrim — grupo de segurança judaico cujos voluntários inicialmente detiveram o suspeito —, assim como ao serviço de ambulâncias voluntário Hatzola e à polícia, por "agirem rapidamente".

O Shomrim afirmou que mobilizou voluntários após receber um chamado sobre um homem correndo pela Golders Green Road "armado com uma faca e tentando esfaquear membros judeus do público".

Ben Grossnass, coordenador da organização, disse à BBC que seus voluntários "foram os primeiros a chegar ao local".

O chefe do comando de contraterrorismo, o comissário assistente Laurence Taylor, declarou formalmente o ataque como um incidente terrorista.

O comissário da Polícia Metropolitana, Mark Rowley, disse que seus "primeiros pensamentos" estavam com as vítimas, que foram atacadas "enquanto realizavam suas atividades diárias, algo que deveriam poder fazer de forma livre e segura".

Enquanto o chefe da polícia falava, ele foi vaiado por pessoas no local, que gritaram "vergonha" e "vocês falharam", além de pedirem sua renúncia. A deputada local, Sarah Sackman, também foi alvo de protestos.

Sackman, que é ministra da Justiça, disse compreender a raiva dos manifestantes e afirmou que combater o antissemitismo é "uma luta que precisa ser enfrentada por toda a sociedade".

Em entrevista à BBC, ela afirmou que o ataque demonstra que "as ameaças às pessoas judias neste país são muito reais", mas acrescentou: "não podemos garantir que todos estarão seguros".

A ministra, que também é judia, disse: "Quando levo meus filhos à sinagoga na minha região, me pego segurando a mão deles um pouco mais forte. Sei que não estou sozinha nisso."

Em uma declaração na rede X, o escritório do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, afirmou que palavras "não são suficientes para enfrentar esse flagelo" de ataques em Londres.

Nos últimos meses, houve uma série de incidentes contra comunidades judaicas, incluindo um ataque incendiário a ambulâncias comunitárias e ocorrências em duas sinagogas de Londres.

O prefeito de Londres, Sadiq Khan, disse estar "irritado", "chocado" e "indignado" com o fato de que pessoas judias estejam "vivendo suas vidas com medo".

O rei Charles 3º ficou "naturalmente profundamente preocupado" com o ataque de quarta-feira, afirmou um porta-voz do Palácio de Buckingham.

"Seus pensamentos e orações estão com os dois indivíduos feridos, e ele expressa sua sincera gratidão àqueles que correram para ajudá-los de forma tão altruísta", acrescentou.

Questionado sobre se o governo está fazendo o suficiente para manter os judeus britânicos seguros, Starmer disse que quer "avaliar medidas de segurança reforçadas" e aumentar o financiamento já existente para proteger comunidades judaicas.

Ele acrescentou que também são necessárias medidas "para lidar com atores estatais mal-intencionados". Vários ataques antissemitas anteriores foram ligados a regimes hostis.

Os comentários do primeiro-ministro ocorreram após ele presidir uma reunião de emergência sobre o ataque.

A líder do Partido Conservador, Kemi Badenoch, afirmou que há agora "uma epidemia de violência contra pessoas judias", que se tornou "uma emergência nacional".

O líder do Reform UK, Nigel Farage, disse que o ataque foi "abominável, chocante, mas infelizmente agora totalmente previsível", acrescentando: "É temporada aberta contra pessoas judias neste país."

O líder dos Liberal Democratas, Ed Davey, afirmou que o incidente foi "horrível" e pediu que o governo "enfrente o antissemitismo onde quer que ele apareça".

Zack Polanski, líder do Partido Verde, descreveu o ataque como "horrendo" e disse estar "pensando nas vítimas, em suas famílias e em todos que, mais uma vez, serão abalados por esse ataque".

A Luta pela Independência do Brasil: Do Passado às Trincheiras do Presente . Por Egidio Guerra.





A independência do Brasil não foi um grito dado num dia de sol às margens do Ipiranga. Foi uma costura de espadas, medos e interesses, onde D. Pedro I oscilou entre Lisboa e a vontade das elites locais. Hoje, um novo campo de batalha se desenha, e dois exércitos se enfrentam não mais por rios ou fronteiras, mas por modelos de nação. 

De um lado, J. J Lampião (o espírito de revolta do cangaço) montam suas hostes com os que sempre foram carne de canhão da história: os pobres, os que ganham menos de cinco mil por mês, os que sonham com o fim da escala 6x1 para ter um sopro de vida, os Sem Terra e os Sem Teto que ocupam latifúndios e calçadas, e os que morrem nas estatísticas da violência e da desigualdade. Seu quartel-general é nas ruas, nos acampamentos, o chão de fábrica, Escolas, Universidades e os becos da periferia. 

Do outro lado, organiza-se o exército bolsonarista sob o comando simbólico de Léo Miguel Trump – herdeiro das fake news e das tarifas brutais. Suas tropas são variegadas e barulhentas: os zambelis do ativismo digital, os malucos que tentaram o golpe com fogos de artifício e planos de papel, os que se pregaram no vidro do caminhão – em direção ao hospício de Narcisistas – mensagens de ódio e terra arrasada. A essa legião somam-se os ladrões do Master, que desviaram milhões enquanto pregavam moral, e os disseminadores do PIX como arma política, numa tentativa de criar caos financeiro e sabotar a economia popular. 

Trump, lá de suas trincheiras americanas, já ensaiou o golpe contra a própria democracia dos EUA em 6 de janeiro, e contra o mundo com sua política de tarifação abusiva. Tentou enfraquecer o Brasil com ataques ao PIX e à soberania do Real, numa pirataria financeira que lembra os cercos econômicos do período colonial. Como se fôssemos ainda colônia a ser achacada. 

Mas a história tem destas ironias: enquanto os golpistas digitam frenéticos, o exército de Lula cresce em São Paulo, nas periferias que aprenderam a se organizar; no Rio, onde o mito do herói solitário caiu diante da luta coletiva; em Minas, berço de tantas conspirações que agora se rende à pão e justiça social; no Rio Grande do Sul, onde a tradição farroupilha se renova na luta por dignidade; e em Santa Catarina, que vê na memória das guerras do contestado a alma de um povo que não aceita mais coronelismo digital se soma a maioria do povo nordestino.  

E, como na madrugada de 1822, quando o grito silenciou os lusitanos, a vitória não virá de um só homem – mas da multidão que ocupa as ruas com fome de futuro. E essa multidão, cansada de cloroquina, fake news e arroubos golpistas, vence. Pela força dos que vivem, não dos que ameaçam viver. Pela democracia que respira, não pela que se posta com tanques de mentira. No fim, a independência de verdade é sempre dos que plantam, não dos que queimam a colheita. 

 

Aos 54 anos do Capitão Luiz Henrique

 




Há mais de 35 anos, no gramado de terra do Cearense Marista, um time se encontrava não apenas nas camisas, mas na alma. E ali, no centro do nosso losango, havia um capitão chamado Luiz Henrique. 

Você, Luiz, não usava apenas a braçadeira. Você era a costura invisível que impedia o time de se rasgar. Sabia ouvir o silêncio de cada um e transformar desencontro em jogada. Liderava com a calma de quem entende que um time unido é mais forte que qualquer esquema tático. E assim nos manteve inteiros, dentro e fora das quatro linhas. 

Mas você sempre foi mais que um líder: você é um construtor. Assim como assentou tijolos em suas obras, você cravou o alicerce daquele time. Cada treino, cada conversa na beira do campo, cada gesto firme foi uma coluna erguida. E, graças a essa base sólida, pudemos jogar sem medo de desmoronar. 

E como esquecer do empreendedor dentro de campo? Você driblava o risco como quem drible na marcação – sem hesitar. Encarava o negócio novo como uma jogada ousada: com coragem de quem sabe que a bola pode queimar, mas também pode entrar no ângulo. Seus gols e passes sempre tinham um traço de audácia, porque você nunca teve medo de errar o lance. Tinha medo era de não tentar. 

Hoje, ao soprar essas 54 velas, vejo que a partida não acabou. Você apenas trocou de camisa, entrou num novo campeonato – mais longo, mais poético, iluminado por desafios maiores. 

Que os próximos 54 anos sejam como uma prorrogação bem jogada: com novos projetos a construir, novos riscos a abraçar, novos líderes a formar. Que a bola continue rolando para você, e que os campos que agora pisa sejam tão verdes quanto a saudade que deixou no Marista. 

Porque capitão não para. Capitão rebola, reinventa, ensina. E você, Luiz Henrique, segue sendo o nosso eterno camisa 10 da vida. 

Um abraço forte do time que, graças a você, nunca esqueceu como se joga em equipe. Parabéns pelos seus 54 anos, e que venham muitos campeonatos pela frente. 

 

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Gente independente cantam com os Peixes . Por Egidio Guerra




Originalmente publicado em 1957, este romance lírico é uma comovente história de amadurecimento que contrasta a simplicidade da vida humilde com o vazio do estrelato. 

Resumo Detalhado 

A história é narrada por Álfgrímur ("Hansson", por ser filho de pai desconhecido), um órfão que é criado pelos avós adotivos em Brekkukot, uma modesta cabana de turfa e pedra situada nos arredores de Reykjavík. A cabana é descrita como uma "casa de hóspedes livre e sempre aberta para qualquer pessoa que precisasse de abrigo", um refúgio acolhedor para os marginalizados e desabrigados. 

O avô, Björn, é um ex-pescador silencioso e onisciente, cuja presença constante oferece segurança e estabilidade. A avó, frágil e curvada, carrega consigo a sabedoria das tradições antigas. O ambiente de Brekkukot é simples, porém rico em afeto, valores como tolerância, cooperação e respeito ao próximo são ensinados naturalmente, sem imposições. Um elemento central da narrativa é o relógio da família, um artefato do século XVIII que, em seu tique-taque, parece sussurrar a palavra "eternidade". É nesse mundo pequeno, porém mágico, que Álfgrímur descobre sua voz extraordinária para o canto. 

A trama se complica com a figura de Garðar Hólm (cujo nome de batismo é o mesmo de Álfgrímur: Georg Hansson), um cantor de ópera islandês que se tornou uma celebridade internacional. Para a pequena e insegura Islândia, Garðar é um herói, um "peixe que canta" – uma raridade que precisa ser exibida com orgulho, mesmo que ninguém o tenha realmente ouvido cantar. 

Garðar retorna à Islândia, frustrado, desiludido e fugindo do próprio mito que a imprensa e os empresários criaram em torno de sua imagem. Ele se aproxima de Álfgrímur, reconhecendo nele o mesmo talento que um dia possuiu. Enquanto o comerciante local, Gúðmúnsen (um mecenas inescrupuloso), tenta manipular Álfgrímur para transformá-lo no próximo "peixe" do país, o jovem presencia o trágico destino de seu ídolo. 

Garðar é descrito como um homem fantasma, assombrado pela fama que o aprisiona. Ele confessa a Álfgrímur que há "uma única nota" pura e verdadeira, e que "aquele que a ouviu nunca mais canta". Incapaz de sustentar a mentira de sua existência pública e consumido pela solidão, Garðar comete suicídio na noite em que deveria se apresentar, deixando Álfgrímur para ocupar seu lugar vazio. 

Análise e Temas Centrais 

  • A Celebridade como Ilusão: Laxness desconstrói a ideia de sucesso e fama. Garðar é uma marionete das aparências, um artista que perdeu a si mesmo para agradar aos outros. 

  • O Conflito entre o Velho e o Novo: O livro retrata a Islândia na virada do século, saindo do isolamento rural para a modernidade, mas critica a perda da autenticidade e da comunidade em troca do comercialismo. 

  • Vida Simples versus Vaidade: A grande lição do livro é que a verdadeira "riqueza" está em Brekkukot, não nos palcos da Europa. A recusa de Álfgrímur em seguir o caminho patrocinado por Gúðmúnsen, optando por estudar para a igreja (e, posteriormente, aceitando a música por amor, não por negócio), simboliza a vitória da integridade sobre a vaidade. 

  • A "Nota Única": A "nota pura" representa a busca pela verdade absoluta na arte ou na existência. O romance sugere que, embora essa nota possa silenciar o artista, a busca por ela é o que dá sentido à vida. 

 

⛰️ Gente Independente (Independent People) 

Publicado em 1934-35, este é o épico máximo de Laxness. A história se passa no início do século XX e acompanha a luta desesperada de um homem contra a natureza e contra a dependência econômica. 

Resumo Detalhado 

Bjartur de Casa Estival (ou Guðbjartur Jónsson) é um camponês que passou 18 anos na servidão trabalhando para outro homem. Quando finalmente consegue economizar o suficiente para comprar seu próprio pedaço de terra (a desolada fazenda de Casa Estival), ele acredita ter alcançado a verdadeira independência. 

A fazenda fica em um vale inóspito, supostamente assombrado por Kólumkilli (um feiticeiro irlandês) e Gunnvör (uma mulher-vampira local) . Ignorando as superstições da comunidade e a geografia congelante, Bjartur move-se para lá com sua primeira esposa, Rósa. A vida é brutal: Rósa morre ao dar à luz uma filha, Ásta Sóllilja, fruto de um suposto caso que ela teve antes do casamento. Orgulhoso, Bjartur decide criar a menina mesmo assim – não por amor, mas como um ato de desafio contra a ideia de que uma criança poderia atrapalhar sua independência. 

Bjartur casa-se novamente com Finna, uma mulher doente e mais sensível. Eles têm vários filhos, mas apenas três meninos sobrevivem à infância (HelgiGvendur e Nonni). A vida em Casa Estival é de extremo isolamento e pobreza. A família vive de mingau de aveia, peixe seco e café (tomado em quantidades absurdas), enquanto as ovelhas (a verdadeira obsessão de Bjartur) morrem de vermes e frio. 

Os anos passam, e o mundo externo (Primeira Guerra Mundial, cooperativismo, socialismo) começa a invadir o isolamento de Bjartur . Para conseguir pagar as dívidas e a construção de uma nova casa, Bjartur vai trabalhar em Vik (Reykjavík). Durante sua ausência, contrata um professor para ensinar as crianças, mas o homem estupra Ásta, deixando-a grávida. Quando Bjartur descobre, sem saber ouvir as explicações da enteada (pois sua visão de mundo é rígida demais para lidar com a complexidade humana), ele a expulsa de casa. 

A narrativa atinge seu clímax quando a crise econômica pós-guerra atinge a Islândia. Bjartur havia se aventurado no mercado (como muitos), mas a cooperativa local toma sua terra em um leilão. Após uma vida inteira dedicada a "não dever nada a ninguém", Bjartur perde tudo. 

Análise e Temas Centrais 

  • A Obsessão pela Independência: O livro é uma crítica feroz ao individualismo extremo. A "independência" de Bjartur é uma prisão autoimposta. Ele está tão preocupado em não dever dinheiro ou favores que se torna incapaz de amar, de se conectar com os filhos ou de aceitar ajuda. Sua liberdade custa a felicidade de todos ao seu redor. 

  • Realismo Social e Saga Islandesa: Laxness mistura a prosa dura do realismo social (descrevendo a pobreza extrema e a exploração econômica) com o tom das antigas sagas nórdicas (lendas de fantasmas, discursos poéticos e um senso de destino trágico). 

  • A Riqueza do Espírito vs. a Riqueza Material: Apesar de ser um romance político que critica o capitalismo, "Gente Independente" também é profundamente humano. Personagens como Ásta Sóllilja (que escreve cartas poéticas do além) e o velho cão da família representam a ternura e a beleza que o sistema de valores de Bjartur não consegue enxergar. 

  • O Anti-HeróiBjartur é rude, machista, cruel com os filhos e cego para as necessidades emocionais da esposa. No entanto, ele também é corajoso, trabalhador e tem uma estranha dignidade. O leitor oscila entre a raiva e a admiração por ele o tempo todo. 

 

Considerações finais 

Ler Os Peixes Também Sabem Cantar e Gente Independente é conhecer as duas faces da mesma moeda. Enquanto Bjartur se mata de trabalhar para possuir a terra e falha por sua rigidez, Álfgrímur descobre que a verdadeira posse é imaterial: o amor de uma comunidade (Brekkukot) é a única fortuna que não pode ser confiscada. 

Ambos os livros defendem a dignidade do homem comum (os "Povos Escondidos" da Islândia) e ridicularizam a ganância dos poderosos e a idiotice da vaidade. Se você busca uma história de luta épica e paisagens desoladas, escolha Gente Independente. Se busca uma leitura melancólica, doce e filosófica sobre o que realmente importa na vida, escolha Os Peixes Também Sabem Cantar. Ambos são clássicos indispensáveis da literatura mundial.