SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

'Entrevistei Christa Pike há 20 anos e não consigo parar de pensar nela'

 

Helen Roberts aparece em primeiro plano na fotografia, com Christ Pike atrás dela. Os dois estão separados por uma janela de vidro e ambos têm cabelos castanhos cacheados e olhos castanhos.
Legenda da foto,A jornalista Helen Roberts entrevistou Christa Pike, uma detenta do corredor da morte no Tennessee, há 20 anos
    • Author,Charlie Buckland
    • Role,Da BBC no País de Gales
  • Published
  • Tempo de leitura: 8 min

Duas décadas atrás, Helen Roberts conheceu Christa Pike, uma detenta do corredor da morte no Tennessee, para tentar entender a mulher por trás do brutal assassinato de Colleen Slemmer.

Aos 30 anos, Pike havia cumprido 11 anos no corredor da morte e era a mulher mais jovem a receber essa pena nos Estados Unidos quando Roberts a entrevistou como editora de uma revista de estilo de vida feminina.

Roberts, que tem acompanhado os desdobramentos do caso, refletiu sobre seu encontro conflituoso com Pike e como isso a marcou tanto como jornalista quanto como ser humano.

"Às vezes era muito difícil conciliar a mulher à minha frente com o crime que ela havia cometido", disse ela.

"Eram como duas pessoas completamente diferentes. Eu não conseguia imaginar que a pessoa que conheci pudesse ser tão horrivelmente violenta."

Coisas em comum

Roberts ingressou na prisão de segurança máxima feminina do Tennessee, agora conhecida como Centro de Reabilitação Debra K. Johnson, em Nashville, em dezembro de 2006.

"Eu nunca tinha estado numa prisão, muito menos numa prisão de segurança máxima, então estava bastante nervosa e um pouco insegura sobre como ia ser, um pouco intimidada, eu diria", recordou ela.

Roberts, de Conwy, no norte do País de Gales, trabalhava para a revista More e viajou aos EUA para a entrevista.

Após passar pelas verificações de segurança e por várias portas, ela encontrou Pike através de uma janela de vidro e fez a entrevista pelo telefone da cabine.

A diferença de idade entre elas era pequena, apenas alguns anos, e Roberts disse que tentou encarar a situação sem nenhum tipo de julgamento, mas admitiu que esperava encontrar uma "mulher muito honesta e brutal".

Mas a pessoa que ela conheceu era muito diferente.

"Eu estava na casa dos 25 anos na época", disse Roberts, acrescentando: "Eu tinha uma idade parecida [com a de Pike], mais ou menos, e havia algumas coisas em comum entre nós."

Ela se lembrou de Pike como uma pessoa muito bem arrumada, com cabelos cacheados semelhantes aos seus, e sentiu que essas pequenas semelhanças lhes davam um ponto em comum.

Pike parecia afável e "ansiosa para agradar", disse Roberts, e estava rindo, sorrindo e atenta a tudo.

"Eu não queria que ela se sentisse intimidada e, em poucos minutos, ela apareceu no parapeito da janela, do lado dela, para ficar mais perto de nós."

Uma foto tirada em 4 de dezembro de 2007 mostra a detenta do corredor da morte Christa Pike entrando no Tribunal Criminal do Condado de Knox, em Knoxville, Tennessee, EUA. Pike veste um uniforme vermelho de presidiária e uma camiseta branca. Ela tem olhos castanhos e cabelos castanhos.
Legenda da foto,A execução de Pike já havia sido objeto de uma batalha judicial de grande repercussão

"Não tínhamos muito tempo... ela sabia disso, e tínhamos muita coisa para falar", disse Roberts.

"Ela foi direta ao ponto, não se mostrou defensiva, não foi difícil, nem evasiva. Para ser sincera, ela respondeu a todas as minhas perguntas de forma bastante articulada e aberta."

Ela disse que Pike manteve "muito contato visual" e "foi muito comunicativa".

"Ela estava ansiosa para responder. Só que, às vezes, ela parecia uma pessoa bastante comum."

"Não a recebi com nenhuma animosidade... ela obviamente percebeu, eu acho, que seria tudo muito tranquilo e apenas conversaríamos."

"Eu queria conhecer Christa Pike, a mulher, entender sua vida, as más decisões que ela tomou e como ela estava lidando com a vida que levava."

Christa Pike quando criança. Ela tem cabelo castanho curto e encaracolado e está usando um suéter vermelho. O fundo parece mostrar parte de um veículo branco.
Legenda da foto,Christa Pike sofreu negligência e abusos por parte dos pais

Em 1995, Pike tinha 18 anos quando ela e seu então namorado, Tadaryl Shipp, espancaram, torturaram e assassinaram Slemmer, um jovem de 19 anos que conheceram em um acampamento de treinamento profissional para adolescentes problemáticos.

Ela acusou Slemmer de insultá-la e tentar roubar seu namorado. Dois outros moradores do acampamento testemunharam posteriormente que Pike se gabou do assassinato, e mostrou-lhes um pedaço do crânio de Slemmer.

Pike foi condenada à pena de morte em 1996, mas Shipp, que tinha 17 anos, recebeu uma sentença de prisão perpétua com possibilidade de liberdade condicional e segue ainda hoje na prisão.

Roberts disse que Pike explicou que não tinha noção da magnitude do que estava acontecendo durante o julgamento, mas gostava de ser o centro das atenções, "porque nunca tinha sido".

Quando chegou a hora de discutir os detalhes do assassinato com Roberts, Pike não hesitou.

"Não houve nenhuma emoção diferente", disse Roberts, acrescentando que Pike "foi muito pragmática em relação a isso".

"Ela já estava no corredor da morte havia 11 anos, e provavelmente já havia passado muito tempo sozinha, processando e assimilando o que tinha feito."

"Ela falava de si mesma como se fosse uma pessoa completamente diferente. Disse que perdeu a cabeça na noite em que matou Colleen. Disse que foi como uma experiência extracorpórea, que não tinha noção do que estava fazendo e que era como se alguém tivesse tomado posse dela."

Pike disse a Roberts que lamentava profundamente o que havia feito, mas que não acreditava que nada que dissesse pudesse compensar o ocorrido.

Um retrato de Colleen Slemmer, tirado no que parece ser um estúdio fotográfico com um fundo decorativo. Ela veste um moletom listrado laranja e branco, brincos de argola dourados e sorri para a câmera. Ela tem cabelos castanho-avermelhados e franja.
Legenda da foto,A estudante Colleen Slemmer foi torturada e brutalmente assassinada em 1995

Abusos na infância

Pike cresceu em Beckley, uma pequena cidade operária no sul da Virgínia Ocidental, e seus pais, Carissa Hansen e Glenn Pike, eram alcoólatras e a negligenciavam.

Ela disse a Roberts que não tinha "nenhum amor", além do da avó, que morreu de câncer quando ela tinha 12 anos, o que desencadeou uma fúria em Pike, juntamente com pensamentos suicidas.

"Ela foi estuprada aos 11 anos por um vizinho e novamente aos 17 por um estranho que, segundo ela, a arrastou para o bosque. Ela passou por diferentes períodos de negligência e abuso", disse Roberts.

Pike passou por várias escolas antes de ingressar no Knoxville Job Corps aos 18 anos — o que deveria ser um novo começo.

Ela disse a Roberts que tinha esperança de se tornar enfermeira.

Os advogados de Pike, que apresentaram um pedido de clemência de 226 páginas, esperavam um adiamento de última hora da sua execução, mas o pedido foi rejeitado, enquanto especialistas em direitos humanos das Nações Unidas também pediram a suspensão da execução.

"Ela ainda tinha esperança", disse Roberts, acrescentando que Pike esperava que alguém pudesse intervir e ajudá-la, "percebendo" o impacto de sua infância e de sua saúde mental em suas ações.

"Ela sabia que as duas opções eram pena de morte ou prisão perpétua, mas definitivamente queria prisão perpétua e uma morte tranquila", disse Roberts.

Roberts descreveu a última semana como "bizarra", apesar de saber que a execução estava próxima.

"Passei o dia inteiro na quarta-feira sem conseguir ficar longe dela, pensando constantemente no que aconteceria."

"Eu tinha lido que ela havia recusado sua última refeição... Não consigo nem imaginar o que ela estava pensando, como se sentia e como alguém se prepara sabendo que vai morrer."

Ela disse que acordar com a notícia de que Pike havia sobrevivido às injeções foi "como assistir a um filme de terror".

"Não consigo compreender, não consigo entender. É absolutamente bárbaro."

"E depois a ironia do Estado tentar matá-la e, em seguida, ela ser levada para o hospital para tentar salvá-la. Não faz o menor sentido."

Fotografia de Helen Roberts, que tem cabelos castanhos na altura dos ombros e olhos castanhos.
Legenda da foto,Roberts afirma que a infância da mulher "a levou a se tornar a Christa Pike de 1995 e ao crime que ela cometeu"

Na época em que Roberts entrevistou Pike, ela ficava encarcerada por pelo menos 23 horas por dia, sendo liberada apenas para uma caminhada de uma hora em alguns dias.

Ela era a única mulher no corredor da morte, então não podia conviver com os outros, mas Roberts disse que Christa tinha certa rotina, encontrando conforto na leitura, assistindo à TV e escrevendo para amigos por correspondência.

Pouco tempo depois do encontro, Roberts recebeu um cartão feito à mão por Pike, agradecendo-lhe pela forma como a tratou.

"Lembro-me que era um papel roxo em forma de borboleta, e ela tinha escrito dentro 'obrigada por ser gentil, obrigada por me tratar como uma mulher' e foi só isso", disse ela.

"Foi realmente comovente."

Impressão de uma entrevista na revista More com a seguinte legenda: "Histórias reais, exclusiva para o Reino Unido: 'Estou no corredor da morte'", acompanhada de uma foto de Christa Pike.
Legenda da foto,O artigo foi escrito por Helen Roberts e publicado pela revista More em 2006

"Independentemente do que eu tenha dito sobre Christa Pike, de forma alguma estou minimizando o crime que ela cometeu", acrescentou Roberts.

"Ela merecia estar na prisão, claro que sim. Ela cometeu um crime, tirou a vida de outra mulher e tinha que ser punida por isso."

"No entanto, é impossível não pensar: se ela tivesse recebido ajuda quando precisou, será que teria feito o que fez?"

Ela continuou: "Não posso negar a mulher que conheci, a mulher que estava na minha frente, a conexão que criei com ela, como ela reagiu a mim e como respondeu às minhas perguntas."

"Ela continua sendo um ser humano. Não havia como eu tê-la conhecido e isso não ter me impactado."

"Acho que ela sabe que desperdiçou a vida, e acho que ela sabe que poderia ter feito coisas boas na vida, mas não fez."

O professor que causa furor entre os adolescentes chineses (e a razão do seu sucesso)

 

O profesor Biao Xiang sentado em uma poltrona, falando ao microfone
Legenda da foto,Cerca de 500 pessoas ouviram Biao Xiang recentemente em Singapura
    • Author,Fan Wang
    • Role,BBC News 

Os jovens chineses têm um novo "ídolo", mas não se trata de um cantor pop, nem de um astro do cinema. Estamos falando do professor e antropólogo Biao Xiang, de 54 anos.

Ele passou a ser o guia inesperado de uma geração cada vez mais desiludida, graças aos temas que ele aborda: a ansiedade e como combatê-la.

"Uma estrela enviada do céu", descreve Zihan Han, sobre o homem que ela passou a admirar recentemente.

A economia e a tecnologia da China cresceram a um ritmo vertiginoso. Mas existem muitos motivos de preocupação entre os jovens da geração Z (nascidos entre 1996 e 2012). Eles incluem o emprego, as perspectivas de relacionamento amoroso e a imensa pressão para se manterem atualizados.

"A transição da escola para o mundo real gera muitas incertezas e as pessoas costumam se sentir ansiosas porque não sabem como enfrentá-las", segundo uma jovem chinesa recém-formada de 23 anos. Ela preferiu não revelar seu nome por receio de que conversar com a imprensa internacional pudesse prejudicar suas possibilidades de encontrar trabalho na China.

'Se está em dúvida, pergunte para Xiang'

"As pessoas precisam de um ponto de apoio na sua vida. E suas palavras nos fazem sentir que existe alguém que nos entende."

Ela e Zihan faziam parte de um grupo de cerca de 500 pessoas que se reuniram recentemente em um auditório em Singapura. A maior parte do grupo era composta por chineses que moram no exterior.

Xiang falou por mais de uma hora e respondeu perguntas em seguida. Ao final, dezenas de pessoas fizeram fila para conhecê-lo e tirar fotos com ele.

O professor descreveu o evento como um "encontro acadêmico com admiradores".

Importantes órgãos de imprensa chineses já entrevistaram Xiang, que viajou para universidades chinesas de prestígio para dar palestras. Uma delas foi a sua alma mater, a conceituada Universidade de Pequim.

Uma de suas palestras, no início do ano, foi transmitida ao vivo porque o auditório estava lotado. A expressão "em caso de dúvida, pergunte para Biao Xiang" se tornou um ditado popular, segundo a imprensa chinesa.

Jovem em pé ao lado de uma estátua do Ultraman em tamanho natural, em frente a uma loja
Legenda da foto,Os jovens chineses estão ansiosos em relação ao seu futuro, em um país de rápidas mudanças

Em Singapura, Xiang falou sobre o reconhecimento que buscam os jovens na China atual. Eles recorrem com frequência a sistemas de aprovação, como exames competitivos e empregos seguros.

Ele também comentou como essa aprovação se transforma em uma medida de autoestima, o que pode ser cansativo e prejudicial.

O antropólogo indicou que é mais saudável procurar significado e compreensão nos demais e utilizar isso para entender melhor a nós mesmos.

Estas soluções dificilmente são rápidas. Mas, em um país onde o descontentamento pode ser algo politicamente delicado e objeto de forte censura, Xiang é uma figura pública excepcional, que aborda o que ele chama de "ponto crítico de toda uma época".

"Todos sabem onde está o problema, mas se recusam a enfrentá-lo", comenta ele, durante um chá com a BBC em Singapura. "Às vezes, observá-lo é doloroso demais, ou eles não sabem como fazer."

"Mas, como acadêmico, não é aterrador se você puder descrever o problema. É assim que se analisa e administra."

Juventude insegura em um país poderoso

Xiang mora atualmente na Alemanha, onde dirige o Instituto Max Planck de Antropologia Social. Ele estuda as mudanças sociais na China e em outras partes da Ásia.

O professor acredita que a sociedade chinesa se encontra em um momento decisivo. As pessoas estão buscando sentido na vida, enquanto tentam compreender as rápidas mudanças sociais e econômicas.

Neste processo, Xiang observa contradições, como uma juventude insegura em um país poderoso e decidido; e desilusão, apesar dos enormes avanços. Seu trabalho, segundo ele próprio, consiste em desvendar as causas desta situação.

O presidente chinês, Xi Jinping, também reconheceu a situação. Ele afirmou que "a principal contradição" está "entre as crescentes necessidades do povo para uma vida melhor e o desenvolvimento desequilibrado e insuficiente".

Estudantes universitários procuram trabalho em uma feira do emprego de primavera na praça Siyuan, no campus de Xiangshan da Universidade Normal de Huaibei, na China, no dia 21 de março de 2024
Legenda da foto,Para Xiang, os jovens se sentem perdidos em uma China altamente competitiva

Xiang usa nomes criativos para descrever as causas desta situação.

"Flutuando" é a forma como ele descreve as pessoas que trabalham sem descanso, apenas para sobreviver, como um beija-flor que bate suas asas incessantemente para se manter no ar.

"O próximo" indica aquilo que está imediatamente à nossa volta. Xiang defende que as pessoas se preocupam com o "muito próximo" (elas próprias) e o "muito distante" (o mundo) e se descuidam com o espaço intermediário, "o próximo". Este é o motivo da sua sensação de desconexão.

Suas palavras parecem estar repercutindo fortemente entre os jovens que procuram respostas.

Um usuário da rede social chinesa RedNote escreve que "ele sempre analisa os problemas do ponto de vista dos vulneráveis, atribui o estresse pessoal a causas macro e incentiva as pessoas a participar ativamente da vida; é realmente maravilhoso".

Outro comenta que Xiang "nunca solta frases vazias e superficiais; na verdade, ele enfrenta os dilemas da vida real junto conosco".

Para Zihan, tudo se resume na disposição do professor de falar abertamente sobre estes temas.

"Aqueles que disseram algo similar não são geniais como o professor Xiang, mas outras pessoas tão geniais quanto ele não disseram essas coisas."

Biao Xiang dando autógrafos
Legenda da foto,Xiang ficou famoso entre os chineses pelas suas conferências sinceras

Nascido em 1972, Xiang atingiu a maioridade durante outro momento crucial. Na época, a China emergia do caos brutal do regime de Mao Tsé-Tung (1893-1976) para fazer comércio com o resto do mundo.

O país se urbanizou, os cidadãos comuns se tornaram empreendedores e, pela primeira vez no país comunista, os negócios dispararam.

Xiang cresceu na cidade de Wenzhou, no sudeste do país, que passou a ser um porto industrial. Ali, ele testemunhou diretamente o processo.

"Era um vasto cenário de pequenos empresários", recorda ele. "A maioria das pessoas não se importava muito com a educação. Eles se concentravam em assuntos práticos — especificamente, como ganhar dinheiro."

Muitas pessoas atingiram este objetivo. Seus filhos cresceram em uma época de ouro, com crescimento econômico de dois dígitos. Mas a economia se enfraqueceu durante a pandemia e ainda não se recuperou.

A velha equação "trabalho duro = emprego seguro" não funciona mais e os jovens buscam um novo panorama, segundo Xiang.

A 'maldição dos 35'

O desemprego entre os jovens chineses atingiu 21,3%, mas o governo do país deixou de publicar os dados em meados de 2023. E os jovens que têm "bons empregos" (como funcionários públicos, empregados de companhias e engenheiros) estão preocupados em perdê-los.

Eles se queixam constantemente na internet sobre as longas e esgotadoras jornadas de trabalho, o ambiente tóxico do escritório e o receio da "maldição dos 35", a idade limite de muitos anúncios de emprego. Depois dos 35 anos, é mais difícil encontrar um novo trabalho.

A censura dificulta conhecer o verdadeiro alcance desses sentimentos. Mas a sensação de opressão se infiltra no discurso público de outras formas.

Esta ansiedade se transforma rapidamente em fúria nos debates online, seja sobre o vestibular para entrar na universidade, o dote matrimonial ou os escândalos de segurança alimentar.

Pessoas seguram incenso enquanto rezam no monastério de Yonge, em Pequim
Legenda da foto,Jovens rezam em um templo de Pequim, pedindo boas perspectivas de trabalho e casamento

Os termos associados a este estado de espírito passaram a ser tendência nos últimos anos.

Os mais famosos são "desconectar-se", quando as pessoas decidem evitar por completo o excesso de trabalho, e "involução", um termo um tanto sórdido que, agora, é comumente empregado para descrever uma concorrência forte que gera poucas recompensas.

Xiang acredita que dois fatores exacerbaram esta ansiedade: o mercado imobiliário e o sistema de educação superior.

O auge do setor imobiliário, impulsionado pela dependência dos governos locais sobre a venda de terras, vinculou a sensação de segurança e sucesso das famílias ao valor das suas residências.

Além disso, o rápido aumento das matrículas na universidade elevou os níveis de exigência acadêmica, intensificando a competição.

O resultado, segundo ele, é uma fórmula universal: obter um bom título universitário, encontrar um trabalho estável, casar-se e comprar uma casa.

Involução

"Quando 1,4 bilhão de pessoas concorrem na mesma carreira, surge a involução", segundo Xiang.

Cerca de três anos atrás, o professor ficou sabendo que um acampamento para nômades digitais onde ele havia dado uma palestra aumentou os preços após sua visita. Foi ali que ele percebeu que "não era mais conhecido apenas nos círculos acadêmicos".

Segundo Xiang, muitos dos seus colegas priorizam a publicação de pesquisas e se mostram bastante indiferentes em relação aos seus métodos. Alguns o advertiram sobre a importância de "cuidar da reputação".

Mas ele se sente incentivado pela sua popularidade.

"Se alguém me chama de influenciador, tomo como elogio. Porque a verdadeira influência que posso ter é a de fazer com que as pessoas pensem por si próprias."