
- Guillermo D. Olmo
- BBC News Mundo
- Tempo de leitura: 11 min
A Coreia do Norte vive, há décadas, o que especialistas internacionais chamam de crise de subsistência.
Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), cerca de 11 milhões de pessoas, o equivalente a 45% da população, sofrem de desnutrição em um país onde são denunciadas sistemáticas violações dos direitos humanos.
Anos de controle estatal da economia, isolamento em relação ao exterior e abandono dos serviços públicos em favor de um aparato de segurança repressivo levaram ao que o chefe de direitos humanos da ONU, Volker Türk, descreveu como uma "crise de direitos humanos".
Kim Jong-un, o terceiro integrante da família Kim a governar essa república comunista desde sua fundação, após a Segunda Guerra Mundial (1939-45), consolidou seu poder em um dos países mais fechados e isolados do mundo.
Com a pandemia de covid-19, em 2020, a situação se agravou ainda mais.
O impacto econômico provocado pelo coronavírus atingiu o mundo inteiro, mas foi especialmente duro para uma economia pouco desenvolvida e pouco integrada ao exterior.
Em meio a denúncias de escassez de alimentos e à pressão das sanções internacionais impostas ao regime norte-coreano, o líder retratado pela propaganda oficial como infalível apareceu na televisão visivelmente abatido para pedir desculpas à população.
"Lamento profundamente", afirmou Kim. "Meus esforços e minha sinceridade não foram suficientes para livrar nosso povo das dificuldades."
Mas a situação parece ter mudado desde então.
A pandemia ficou para trás, a pressão das sanções internacionais diminuiu, e a Coreia do Norte deu continuidade ao desenvolvimento de seu programa nuclear e estreitou sua aliança com a Rússia de Vladimir Putin. Pela primeira vez em décadas, a economia passou a dar sinais de recuperação.
Foi nesse contexto que Kim fez, em março, um discurso ao país durante uma sessão da Assembleia Legislativa, em tom bastante diferente do adotado anteriormente.
Kim afirmou que a Coreia do Norte viveu "uma transformação milagrosa" e declarou: "O nosso país já não é vulnerável às ameaças de outros".
Mas até que ponto a situação econômica da Coreia do Norte realmente melhorou?
A situação na Coreia do Norte
Fim do Promoção Agregador de pesquisas
É difícil saber o que realmente acontece na Coreia do Norte.
O governo reprime com rigor qualquer vazamento de informações para o exterior, e os meios de comunicação precisam recorrer aos relatos de norte-coreanos que conseguem deixar o país, a relatórios de serviços de inteligência estrangeiros, sobretudo os da Coreia do Sul, e aos depoimentos dos poucos ocidentais autorizados a visitar o país, sempre sob rígida vigilância das autoridades.
Ainda assim, essas fontes apontam uma recuperação recente em uma economia que permaneceu estagnada por décadas.
De acordo com estimativas do Banco Central da Coreia do Sul, o Produto Interno Bruto (PIB, soma de todos os bens e serviços produzidos no país) da Coreia do Norte cresceu 3,7% em 2024, a maior expansão em oito anos. Especialistas acreditam que a economia norte-coreana vive seu melhor momento desde que Kim Jong-un assumiu o poder.
"O regime está mais rico do que nunca", afirmou Stephen Haggard, pesquisador especializado na economia norte-coreana da Universidade da Califórnia em San Diego, nos Estados Unidos, em entrevista à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

As exportações de armas para a Rússia, destinadas à guerra na Ucrânia, o comércio com a China, o maior controle sobre os mercados informais e uma aplicação menos rigorosa das sanções internacionais contribuíram para encher os cofres do regime comandado por Kim.
Mas os analistas ressaltam que as duras condições de vida continuam marcando o cotidiano da população que vive longe da elite dirigente e da capital, Pyongyang.
Na capital, por outro lado, já é possível perceber sinais dessa melhora.
Quem visitou a cidade recentemente relata que há mais ruas iluminadas e que voltaram a operar algumas horas por dia os elevadores em prédios altos que antes não funcionavam por falta de eletricidade.
A análise de imagens de satélite realizada pelo Grupo de Observação da Terra da Escola de Minas do Colorado, nos EUA, equipe de pesquisa dedicada ao estudo da iluminação elétrica a partir do espaço, mostrou um aumento contínuo da iluminação da cidade de Pyongyang nos últimos anos.
Os poucos ocidentais que conseguiram entrar na Coreia do Norte também relataram mudanças que apontam para um aumento do consumo e da riqueza, como a proliferação de telefones celulares, carros elétricos importados e aplicativos de entrega de comida e de transporte.
O agente de viagens australiano Rowan Beard contou ao jornal americano Wall Street Journal que, em sua última visita a Pyongyang, depois de alguns anos sem ir ao país, ficou surpreso quando seu intérprete chamou um táxi por um aplicativo, e o veículo chegou em poucos minutos. "Tudo isso era completamente novo. Fiquei impressionado", disse Beard.
Outro indício de uma recuperação da economia, ainda que limitada, é o fato de o regime ter conseguido concluir alguns dos projetos que Kim transformou em bandeiras de seu governo, como a construção de grandes complexos turísticos, entre eles o de Wonsan Kalma, na província costeira de Kangwon.
Kim também anunciou iniciativas ambiciosas, como a chamada 20x10, que prevê a construção de 20 fábricas em todo o país ao longo de dez anos para estimular o desenvolvimento fora de Pyongyang.

O regime também conseguiu se consolidar de fato como uma potência nuclear.
Nem as sanções internacionais nem a estratégia de aproximação adotada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, em seu primeiro mandato convenceram Kim a abandonar o programa de armas nucleares, que ele considera crucial para garantir a sobrevivência do regime diante de "ameaças" externas, como os EUA.
Com isso, a Coreia do Norte passou a contar com uma nova geração de mísseis. Analistas ocidentais acreditam ainda que o país trabalha no desenvolvimento de submarinos de propulsão nuclear e de mísseis balísticos intercontinentais capazes de atingir o território continental dos EUA.

A dura realidade dos norte-coreanos
Os norte-coreanos estão acostumados às dificuldades.
Entre 1994 e 1998, o país enfrentou uma grave crise humanitária conhecida no meio acadêmico como a "Grande Fome" e chamada pela propaganda estatal de "Marcha Árdua".
Embora o governo nunca tenha reconhecido oficialmente a tragédia, estima-se que centenas de milhares de pessoas tenham morrido de fome e de doenças relacionadas, em uma catástrofe provocada pela combinação da perda do apoio da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), da má gestão econômica e de desastres naturais.
Naquela época, assim como hoje, os norte-coreanos viviam sob o que organismos internacionais e ativistas descrevem como um Estado policial responsável por violações dos direitos humanos.
Relatos de desertores que conseguem fugir para a Coreia do Sul afirmam que as autoridades atiram para matar em quem tenta escapar e impõem punições severas, que podem chegar à pena de morte, por atos como ouvir K-pop ou assistir a séries sul-coreanas.
Qualquer forma de dissidência ou desobediência pode ser punida com a morte por fuzilamento, como ocorreu com Jang Song-thaek, tio de Kim, executado por ordem do líder em 2013.

Durante a pandemia, o controle foi endurecido e passou a alcançar também o mercado informal de importação de produtos chineses, privando muitos norte-coreanos de sua última forma de sustento.
"O mais difícil no governo de Kim Jong-un era que não podíamos ganhar dinheiro", disse ao jornal americano New York Times Kim Yu-mi, uma norte-coreana que conseguiu fugir para a Coreia do Sul.
Jongkyu Lee, especialista em Coreia do Norte do Instituto para o Desenvolvimento da Coreia, centro de pesquisa sediado em Seul, na Coreia do Sul, disse em entrevista à BBC News Mundo que, com o controle dos mercados informais, "as autoridades parecem adotar uma estratégia para submeter todas as atividades comerciais a uma supervisão mais rígida do Estado, dentro de um modelo econômico que o coloca no centro".
"O problema é que um maior controle do Estado não se traduziu em uma melhora das condições de vida", acrescentou Jongkyu.
O papel da Rússia e da China
A aproximação com a Rússia foi um dos principais fatores por trás dos sinais recentes de recuperação da economia norte-coreana.
Quando Putin lançou a invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022, Kim viu na guerra uma oportunidade.

Com os EUA voltados para outras prioridades — Trump não retomou, em seu segundo mandato, as tentativas de negociação com Kim —, o líder norte-coreano saiu em socorro de Putin na expectativa de receber apoio em troca.
Segundo diversos relatórios de serviços de inteligência ocidentais, a Coreia do Norte enviou cerca de 15 mil soldados para combater ao lado da Rússia na Ucrânia ou trabalhar na indústria russa, suprindo a escassez de mão de obra provocada pelo esforço de guerra.
O acordo com Putin fez com que fábricas norte-coreanas saíssem da estagnação e retomassem a produção de munições e armamentos para a Rússia.
Como demonstração da proximidade entre os dois países, Rússia e Coreia do Norte assinaram, em junho de 2024, uma Parceria Estratégica Abrangente que inclui uma cláusula de defesa mútua.
A entrada de recursos, armamentos e tecnologia russos nos últimos anos permitiu a Kim fortalecer sua capacidade militar e reativar alguns setores produtivos abandonados durante décadas.
"A recente expansão da cooperação militar com Moscou deu um impulso claro a setores como mineração, indústria pesada, fabricação de máquinas e indústria química. O aumento da demanda por munições e materiais também parece ter estimulado a produção nas indústrias controladas pelo Estado, contribuindo para uma recuperação expressiva do setor formal da economia", afirma Jongkyu, do Instituto para o Desenvolvimento da Coreia.
Mas Jongkyu vê limites para o que Putin pode fazer por Kim.
"A Rússia pode aliviar algumas das restrições econômicas mais imediatas da Coreia do Norte, mas sua capacidade de sustentar um desenvolvimento econômico amplo é muito mais limitada do que a da China", afirmou.

A recente visita — a primeira em sete anos — do presidente chinês, Xi Jinping, foi interpretada como mais um sinal do fortalecimento da influência econômica e geopolítica da Coreia do Norte sob Kim e como uma tentativa de contrabalançar sua aproximação com Putin.
Em 2017, a China apoiou o endurecimento das sanções defendido pelos EUA na ONU para conter o desenvolvimento do arsenal nuclear da Coreia do Norte. Desta vez, Xi evitou pedir a "desnuclearização" da península coreana, se afastando da posição que a China manteve durante anos e reduzindo a pressão sobre Kim.
Na prática, a confiança na eficácia das sanções começou a se dissipar após o fracasso da cúpula entre Trump e Kim, realizada em Hanói, no Vietnã, em 2019.
"A posição da China começou a mudar porque as sanções pareciam não estar funcionando, uma avaliação compartilhada por parte dos EUA", disse Haggard, da Universidade da Califórnia, em entrevista à BBC News Mundo.
Na Coreia do Norte, Xi defendeu elevar a relação bilateral "a outro nível" e reforçar a cooperação econômica.
"A trajetória da economia norte-coreana no longo prazo provavelmente continuará dependendo de sua relação com a China", conclui Jongkyu, do Instituto para o Desenvolvimento da Coreia.
Até onde a economia da Coreia do Norte pode chegar
Especialistas internacionais afirmam que, durante os anos de maior dificuldade, a Coreia do Norte desenvolveu mecanismos para abastecer os cofres do regime e continua recorrendo a eles, como a apropriação de parte das remessas enviadas por norte-coreanos que trabalham na China e a atuação de um exército invisível de hackers que conseguiu acumular uma enorme quantidade de criptomoedas.
Segundo um relatório da empresa americana Chainalysis, especializada na investigação do uso ilícito de criptomoedas, o regime da Coreia do Norte alcançou, em 2025, o recorde de US$ 2 bilhões (cerca de R$ 10,8 bilhões) roubados do ecossistema de criptoativos, ao qual recorre há anos para driblar as sanções internacionais e financiar seus programas de armamentos.
No entanto, essas estratégias não foram suficientes para aliviar de forma significativa a crise humanitária no país.
Enquanto ainda se aguarda saber até que ponto a renovada cooperação com a China, sinalizada pela recente visita de Xi, será benéfica para Kim, permanece a dúvida sobre até onde vai essa prosperidade propagandeada pelo regime.
E, sobretudo, se essa prosperidade chegará aos norte-coreanos que vivem longe de Pyongyang e da elite do país.
Também não se pode perder de vista o ponto de partida: a Coreia do Norte não divulga seus dados de PIB, mas a ONU estima que em 2024 esse valor era de US$ 15,2 bilhões (cerca de R$ 77,5 bilhões).
Isso colocaria a Coreia do Norte em números absolutos em patamar semelhante ao de um Estado brasileiro como Rondônia, segundo os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Se a comparação for do PIB per capita (o PIB é dividido pelo total de habitantes), o valor norte-coreano per capita estimado (cerca de R$ 2,900) estaria bem abaixo do Estado brasileiro com o menor PIB per capita, o Maranhão, de cerca de R$ 22 mil.
Além disso, a "transformação milagrosa" da qual Kim se orgulha ainda terá de superar muitos obstáculos.
Haggard, da Universidade da Califórnia, afirma que "há indícios de que o regime está investindo em desenvolvimento rural e habitação. Mas a desigualdade entre a capital e o restante do país continua muito grande. Além disso, permanece a dúvida sobre o quão frágil é esse boom. O projeto 20x10 tem financiamento suficiente? De onde virá a tecnologia necessária? E há ainda uma questão mais ampla: qual será o impacto dos gastos militares e se eles provocarão efeitos negativos no longo prazo".
Jongkyu, do Instituto para o Desenvolvimento da Coreia, também se mostra cético: "A situação atual se parece mais com um modelo de crescimento impulsionado pela guerra do que com um modelo sustentável. Embora a demanda militar possa sustentar a produção no curto prazo, sua sustentabilidade no longo prazo continua sendo duvidosa."
O analista faz ainda outro alerta importante: "Os benefícios desse crescimento ainda não chegaram ao cidadão comum."
