Laurens van der Post passou a vida tentando traduzir um abismo. Ao sentar-se ao redor da fogueira com os bosquímanos, ele percebeu que o céu noturno não era para eles um mapa, mas um eco. Quando perguntaram "por que você não consegue ouvir as estrelas?", não estavam se referindo a uma frequência sonora inaudível ao ouvido ocidental. Estavam se referindo a uma frequência da alma.
Para o povo San, o universo não é mudo. A natureza é uma entidade viva que narra a si mesma constantemente. Se não ouvimos as estrelas, é porque esquecemos a língua original.
Como Ouvimos as Estrelas?
Ouvimos as estrelas não com o tímpano, mas com a presença. Os bosquímanos passavam horas em silêncio — não um silêncio vazio, mas um silêncio receptivo. Era nesse estado que o cosmos deixava de ser um cenário e se tornava um interlocutor.
Ouvir as estrelas, nesse contexto, é perceber a ordem invisível que rege a noite. É sentir que aquele pontinho de luz é o mesmo que guiava as migrações dos antílopes, que marcava o tempo de plantar ou a história de um ancestral transformado em constelação.
Van der Post observou que, para eles, o canto das estrelas era uma vibração que subia da terra e descia do céu simultaneamente. Era o som da continuidade da vida. Quando a hiena ria, as estrelas tremiam. Quando uma criança nascia, uma nova estrela sussurrava seu nome no vento. Ouvir, portanto, é estar em sintonia com essa malha invisível de significados.
Como Conversamos com as Estrelas?
A conversa não acontece em palavras articuladas, mas em ritos e histórias. Os bosquímanos não oravam às estrelas como deuses distantes; eles dialogavam com elas como se fossem anciãos da tribo.
Um caçador, antes de partir, olhava para Sirius e pedia permissão ou sorte. A resposta vinha na forma de um pressentimento, no comportamento de um animal ou na direção do vento. Essa era a réplica da estrela.
Para eles, conversar com as estrelas era manter viva a "Grande História" . A Via Láctea não era um aglomerado de gases quentes; eram as cinzas das fogueiras ancestrais, as raízes de uma árvore cósmica. Quando contavam essas histórias para as crianças, estavam traduzindo a voz do céu para a linguagem humana. Quando dançavam a dança da girafa ou do leão, estavam encenando a coreografia que aprenderam ao observar as constelações.
A maior lição que van der Post nos deixou foi a percepção de que a desconexão moderna é uma forma de surdez espiritual. O progresso nos ensinou a falar sobre as estrelas (científica ou poeticamente), mas nos fez esquecer como falar com elas.
Conversar com as estrelas, no final das contas, é lembrar que não somos visitantes deste universo. Somos feitos da mesma matéria que ele, e a matéria, quando está viva, vibra. Cabe a nós parar o fluxo de ruídos humanos por tempo suficiente para perceber que a noite, lá no fundo do Kalahari ou no meio da cidade grande, está sempre cantando.
Ouvir é aceitar que fazemos parte de algo maior. Conversar é agradecer por isso.