SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Trump afirma que 'uma civilização inteira morrerá esta noite' se o Irã não fechar acordo com EUA

 

Donald Trump

Crédito,EPA

Legenda da foto,Trump voltou a fazer ameaças ao Irã nesta terça-feira
    • Author,Anthony Zurcher
    • Role,Da BBC News nos EUA
  • Tempo de leitura: 5 min

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse nesta terça-feira (7/4) que "uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada".

Trump havia dado um prazo até às 20h desta terça pelo horário de Washington (21h de Brasília) para que o governo do Irã firmasse um acordo que permita a navegação pelo estreito de Ormuz. Depois disso, segundo o presidente americano, em apenas quatro horas, todas as pontes e usinas de energia do país serão "dizimadas".

Nesta terça, Trump publicou uma nova mensagem na sua rede Truth Social: "Eu não quero que isso [a destruição de uma civilização inteira] aconteça, mas provavelmente acontecerá. No entanto, agora que temos uma Mudança de Regime Completa e Total, onde mentes diferentes, mais inteligentes e menos radicalizadas prevalecem, talvez algo revolucionário e maravilhoso possa acontecer, QUEM SABE?

"Descobriremos esta noite, em um dos momentos mais importantes da longa e complexa história do mundo. 47 anos de extorsão, corrupção e morte finalmente chegarão ao fim. Deus abençoe o grande povo do Irã!"

Também nesta terça, um oficial americano disse à rede americana CBS News que as forças dos EUA realizaram ataques contra alvos militares na ilha iraniana de Kharg. Os EUA já haviam atacado a ilha em março, com o presidente Trump afirmando que os alvos militares foram "totalmente destruídos". Segundo o oficial, que preferiu não se identificar, a infraestrutura petrolífera não foi alvo do ataque, que teria acontecido na noite passada.

Nas últimas semanas, Trump estabeleceu prazos, fez exigências e lançou ameaças em meio à guerra conjunta de EUA e Israel contra o Irã. Mas raramente elas foram tão explícitas quanto agora.

Em uma entrevista coletiva na segunda-feira, Trump disse a repórteres que pode eliminar o Irã "em uma noite" caso o país não chegue a um acordo antes do prazo estipulado por ele. O presidente americano afirmou acreditar que líderes "razoáveis" do Irã estavam negociando de "boa fé", mas que o resultado permanece incerto.

Segundo o presidente, o Irã precisa firmar um acordo "que seja aceitável para mim". Um dos componentes do acordo deve incluir "tráfego livre de petróleo" pelo estreito de Ormuz.


Duas mulheres vestidas de preto dos pés à cabeça caminham diante de prédios destruídos e uma série de bandeiras vermelhas com inscrições em persa em amarelo.

Crédito,Getty Images

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À medida que as horas finais se aproximam, há poucos sinais de que o Irã esteja pronto para ceder ao ultimato de Trump.

Os líderes iranianos rejeitaram um cessar-fogo temporário e divulgaram sua própria lista de exigências, que um oficial do governo americano descreveu como "maximalista" (o que pode ser interpretado como ambiciosas demais ou irrealistas).

Isso coloca o presidente americano em uma posição delicada. Se não houver acordo, Trump pode estender seu prazo — pela quarta vez nas últimas três semanas. Mas recuar após emitir ameaças tão detalhadas, pontuadas por palavrões e alertas severos, pode prejudicar sua credibilidade enquanto a guerra se arrasta.

É possível que o Irã, e o restante do mundo, concluam que, apesar do poder militar e da habilidade tática dos EUA — demonstrados com clareza na operação realizada no fim de semana para resgatar dois pilotos abatidos dentro do território iraniano — o país não está negociando a partir de uma posição clara de força.

"Vencemos", insistiu Trump durante sua coletiva de imprensa na segunda-feira à tarde.

"Eles estão militarmente derrotados. A única coisa que têm é a psicologia de: 'Ah, vamos colocar algumas minas na água'."

Essa "psicologia" — a capacidade de impedir que petroleiros atravessem o estreito de Ormuz com drones, mísseis e minas — pode ser um trunfo iraniano mais poderoso do que os EUA têm estado dispostos a reconhecer.

Durante a coletiva de segunda-feira, Trump exaltou a precisão militar americana demonstrada no bombardeio "Midnight Hammer" do ano passado contra instalações nucleares do Irã, na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro em janeiro e na missão de resgate do fim de semana.

O presidente americano e sua equipe de segurança nacional celebraram esse esforço mais recente — que envolveu a coordenação de centenas de aeronaves e militares de elite, além do uso de despistagens e recursos tecnológicos avançados.

Mas o objetivo desse esforço, embora impressionante, foi evitar o que o secretário de Defesa Pete Hegseth reconheceu ser uma possível "tragédia em potencial".

Mesmo que a tragédia tenha sido evitada, o resgate triunfante ressaltou os riscos que as forças americanas ainda enfrentam no Irã. E o presidente pode estar aprendendo que o poder militar dos EUA tem seus limites.

"Podemos bombardeá-los sem piedade", disse ele. "Podemos deixá-los desnorteados. Mas, para fechar o estreito, basta um terrorista."

A outra opção é Trump cumprir suas ameaças. Em várias ocasiões na segunda-feira, ele afirmou que esse era um caminho que não desejava seguir.

Embora Trump tenha dito que o povo iraniano estaria disposto a suportar a campanha militar americana — e acolheria as bombas caindo sobre suas cidades — ele também reconheceu que tudo o que os EUA destruírem agora teria de ser reconstruído, e que o país poderia eventualmente contribuir com esse esforço.

"Eu quero destruir a infraestrutura deles? Não", afirmou. "Neste momento, se formos embora hoje, levará 20 anos para eles reconstruírem seu país."

Ele acrescentou que, se seguisse adiante com suas ameaças de bombardeio, o esforço de reconstrução levaria um século.

Não é exatamente a "idade da pedra" à qual ele advertira que o Irã seria reduzido, mas a crise humanitária resultante — incluindo o impacto regional da retaliação "arrasadora" que o Irã prometeu — poderia ser devastadora.

Mesmo com a proximidade do prazo de seu ultimato, Trump ainda espera um avanço.

"Temos um participante ativo e disposto do outro lado", disse. "Eles gostariam de poder fechar um acordo. Não posso dizer mais do que isso."

Com os riscos tão elevados como estão, a falta de transparência do presidente é notável. Ele tem um plano — "cada detalhe foi pensado por todos nós", disse na segunda-feira —, mas não o divulga.

Isso pode indicar que, nos bastidores, as negociações estão mais avançadas do que foi reconhecido publicamente. Ou pode ser uma combinação de blefe e otimismo exagerado.

"Eles têm até amanhã", disse Trump. "Vamos ver o que acontece. Acredito que estejam negociando de boa-fé. Acho que vamos descobrir."

A China está vencendo uma corrida pela IA, os EUA outra — mas qualquer um dos dois pode conseguir dianteira

 

Uma ilustração mostra um trabalhador com uma bandeira da China no peito operando um robô com a inscrição “Made in China” na parte frontal. Pequenas figuras humanas, sob uma bandeira dos EUA, aparecem dentro do “cérebro” do robô
Legenda da foto,Os Estados Unidos disputam com a China a liderança tecnológica, especialmente no campo da Inteligência Artificial (IA)
    • Author,Misha Glenny
    • Author,Luke Mintz
  • Tempo de leitura: 10 min

Na segunda metade do século 20, a corrida pelo desenvolvimento de armas nucleares mobilizou algumas das mentes mais brilhantes dos Estados Unidos e da União Soviética.

Mas hoje, os EUA se encontram em uma disputa de natureza diferente e com outro adversário: a China. O objetivo é dominar a tecnologia, em especial a Inteligência Artificial (IA).

É uma luta travada em laboratórios de pesquisa, campi universitários e escritórios de startups de ponta — acompanhada de perto por líderes de algumas das empresas mais valiosas do mundo e pelos mais altos níveis de governo. É um esforço que movimenta trilhões de dólares.

Cada um dos lados tem seus pontos fortes — algo que Nick Wright, pesquisador em neurociência cognitiva da University College London, no Reino Unido, resume como uma batalha entre "cérebros" e "corpos". Os EUA tradicionalmente lideram nos chamados "cérebros" da IA: chatbots, microchips e grandes modelos de linguagem (LLMs, na sigla em inglês). Já a China tem se destacado no quesito "corpos" de IA: robôs — especialmente os robôs "humanoides", que se parecem assustadoramente com pessoas.

Mas, agora, com ambos os lados empenhados em não deixar o rival assumir a liderança, essas vantagens podem não durar — e a corrida ainda deve passar por novas transformações nos próximos anos.

A disputa pelo domínio dos LLMs

Em 30 de novembro de 2022, a empresa de tecnologia OpenAI, com sede na Califórnia, lançou seu novo chatbot. Em um comunicado de seis frases, a empresa anunciou ter treinado um novo modelo "que interage de forma conversacional".

O nome era ChatGPT. E, de imediato, o setor de tecnologia ficou deslumbrado.

"Você podia entrar em qualquer rede social e havia uma enxurrada de publicações de pessoas falando sobre as diferentes formas como estavam usando essa nova caixinha de texto que apareceu na internet", diz Parmy Olson, colunista da Bloomberg e autora de Supremacy: AI, ChatGPT, and the Race That Will Change the World (Supremacia: IA, ChatGPT e a corrida que vai mudar o mundo, em tradução livre).

Era o nascimento do primeiro grande modelo de linguagem de grande escala, ou LLM. Um LLM analisa enormes volumes de texto e dados já existentes na internet e aprende padrões de como as ideias são expressas.

Hoje, especialistas concordam, de modo geral, que, no campo dos chamados "cérebros" da IA, os EUA têm vantagem.

A OpenAI afirma que mais de 900 milhões de pessoas usam o ChatGPT semanalmente — quase 1 em cada 8 pessoas no planeta. Outras empresas de tecnologia americanas, como Anthropic, Google e Perplexity, correram para acompanhar o ritmo, investindo bilhões de dólares na criação de sistemas LLM concorrentes.

Essas empresas de IA sabem que, se acertarem, os LLMs poderão assumir muitas das funções hoje desempenhadas por profissionais do mundo corporativo — e que o sucesso comercial se traduz em muito dinheiro fácil.

Como os americanos apostam suas fichas

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Mas nos EUA, a atenção também se volta para outra questão: como tudo isso afetará a disputa dos EUA com a China pela primazia global?

Segundo um alto funcionário americano ouvido pela BBC, a chave da vantagem estratégica americana está menos na sofisticação dos algoritmos e mais no hardware que sustenta o enorme poder de computação: em especial, os microchips.

Em resumo, a maior parte dos chips de computador mais avançados do mundo — aqueles usados por empresas do Vale do Silício para impulsionar o desenvolvimento de LLMs — está sob controle dos EUA. Aliás, a maioria deles é projetada por uma única empresa sediada na Califórnia: a Nvidia. Em outubro, a Nvidia se tornou a primeira empresa do mundo a atingir um valor de mercado de US$ 5 trilhões (cerca de R$ 25 trilhões). Segundo Stephen Witt, autor de A Máquina que Pensa (Ed. Intrínseca, 2025), ela pode ser a empresa mais valiosa de todos os tempos.

Os EUA utilizam um rígido sistema de controles de exportação para impedir que a China tenha acesso a esses chips avançados. Essa política remonta, em linhas gerais, aos anos 1950, quando os EUA bloquearam a exportação de eletrônicos avançados para países aliados da União Soviética. Mas foi significativamente reforçada em 2022 pelo então presidente americano Joe Biden, à medida que a disputa pela inteligência artificial se intensificava.

Christophe Fouquet, diretor-executivo da ASML Holding NV, segura um modelo de uma máquina de litografia de semicondutores

Crédito,Bloomberg via Getty Images

Legenda da foto,Os Estados Unidos impedem que máquinas da empresa holandesa ASML cheguem à China

Os EUA podem exercer pressão por meio de controles de exportação, mesmo que a maioria desses chips avançados nem seja fabricada no país. Na verdade, muitos deles são produzidos em Taiwan (aliado dos EUA) pela Taiwan Semiconductor Manufacturing Company.

Os EUA garantem que pouquíssimos desses chips de ponta fabricados em Taiwan chegam à China. Isso é feito por meio da chamada "Regra de Produto Estrangeiro Direto", que obriga empresas de outros países a seguir as normas americanas quando os bens exportados contêm componentes dos EUA ou são derivados de tecnologia americana.

A fábrica de microchips taiwanesa está praticamente à vista do território continental chinês. Dá para entender por que a ilha é vista como um alvo estratégico pelo governo da China.

Mas por que a China não começa a produzir esses chips avançados por conta própria? Não é tão simples. Para fabricá-los, é necessário um equipamento de litografia ultravioleta. Apenas uma empresa no mundo fabrica essas máquinas: a ASML, sediada em uma pequena cidade na Holanda. Os EUA utilizam a mesma estratégia de restrição para impedir que essa empresa holandesa exporte essas máquinas para a China.

Essa política protecionista parecia ter sido, em grande parte, bem-sucedida ao ajudar os EUA a manter sua vantagem nos chamados "cérebros" da IA.

Mas agora a China reagiu.

O contra-ataque do DeepSeek

Em janeiro de 2025, na mesma semana em que Donald Trump tomou posse para um segundo mandato como presidente dos EUA, cercado por bilionários do setor de tecnologia, a China lançou seu próprio chatbot com inteligência artificial: o DeepSeek.

Para o usuário, a experiência é bastante semelhante à do ChatGPT. Ele responde a perguntas, escreve código e é gratuito.

O ponto crucial é que o DeepSeek teria custado apenas uma fração do valor investido em modelos americanos como ChatGPT e Claude.

Isso gerou um grande impacto. Em 27 de janeiro de 2025, a Nvidia sofreu a maior perda de valor de mercado em um único dia na história da bolsa americana: cerca de US$ 600 bilhões (cerca de R$ 3 trilhões).

"Foi extremamente desorientador para os EUA", diz Karen Hao, jornalista especializada em IA. Para ela, a política americana de controle de exportações pode ter tido efeito contrário: sem acesso aos chips mais avançados, os desenvolvedores chineses foram forçados a inovar. "Isso acabou… acelera[ndo] a autossuficiência da China", afirma.

O aplicativo DeepSeek aparece com a frase: “Como posso ajudar?”

Crédito,Reuters

Legenda da foto,O DeepSeek mostrou que a China também pode desenvolver os "cérebros" da IA

"A principal característica do DeepSeek é que, na época, ele apresentava capacidades semelhantes às dos modelos americanos, como os da OpenAI e da Anthropic, mas utilizando uma quantidade muito menor de chips para seu treinamento."

Na China, por sua vez, havia um otimismo evidente, afirma Selina Xu, pesquisadora de políticas de IA na China e integrante da equipe do ex-chefe do Google Eric Schmidt. "Todo mundo tentava entender: 'Como o DeepSeek conseguiu isso?'. E acabou sendo um catalisador muito positivo para o ecossistema de IA chinês."

O episódio também evidenciou uma diferença marcante na forma como os países operam. Nos EUA, empresas de IA protegem rigorosamente sua propriedade intelectual. Já na China, há uma abordagem mais voltada ao "código aberto". Para acelerar a adoção e a inovação, empresas chinesas frequentemente publicam seus códigos online, permitindo que desenvolvedores de outras companhias os utilizem.

"Isso significa que empresas de tecnologia na China, ao desenvolver um novo modelo de IA, não precisam começar do zero", afirma Olson. "Elas podem pegar esse modelo, aprimorá-lo e torná-lo melhor."

Com isso, a disputa pelos "cérebros" da IA já não é tão simples. Os EUA viam os LLMs como uma ferramenta estratégica fundamental; agora, a China também consegue desenvolvê-los.

"Os modelos fechados e proprietários dos EUA provavelmente ainda são melhores, mas talvez não por uma margem tão grande", diz Selina Xu. "O modelo chinês pode ser cerca de 90% tão bom, mas custa apenas 10% do preço."

A vantagem da China na guerra dos robôs

E, quando se trata dos "corpos" da IA — o universo de drones e robótica —, a China historicamente leva vantagem.

Desde a década de 2010, o governo chinês ampliou fortemente o apoio ao desenvolvimento de robôs. Financiou pesquisas e concedeu bilhões de dólares em subsídios a fabricantes do setor. Hoje, estima-se que haja cerca de dois milhões de robôs em operação no país — mais do que no resto do mundo inteiro.

Segundo Olson, parte desse sucesso se deve ao fato de a China ser uma economia industrial. "Há toda essa expertise na fabricação de eletrônicos, que é aproveitada e impulsiona startups de robótica muito avançadas."

Visitantes estrangeiros em cidades como Shenzhen e Xangai frequentemente se surpreendem com a integração dos robôs ao cotidiano, afirma Xu, como entregas de comida feitas por drones.

Uma mulher recolhe compras entregues por um robô da Zhen Robotics em um condomínio residencial

Crédito,AFP via Getty Images

Legenda da foto,Entregas de compras por robôs avançaram rapidamente na China

A China também se destaca em robôs chamados "humanoides", projetados para se parecer e agir como pessoas.

O Centro para Estudos Internacionais e Estratégicos, um think tank (centro de pesquisa e debates) bipartidário dos EUA, relatou a existência de uma "fábrica escura" em Chongqing, no sul do país. A planta conta com 2 mil robôs e veículos autônomos que, juntos, seriam capazes de produzir um carro por minuto. O nome vem do fato de ser totalmente automatizada e poder, em teoria, operar no escuro, sem presença humana.

A China também está atenta ao rápido envelhecimento da população, afirma Xu. O governo vê os robôs humanoides como uma forma de suprir a escassez de trabalhadores à medida que pessoas se aposentam, especialmente em áreas de cuidado. "Por volta de 2035, o número de pessoas com 60 anos ou mais na China deve superar toda a população dos EUA", diz.

A China não apenas desenvolve robôs para atender sua própria e enorme população, ela também já responde por 90% das exportações globais de robôs humanoides.

O fantasma na máquina

Só que há um porém.

A China lidera na construção dos "corpos" dos robôs. Mas cada um desses corpos ainda precisa de um "cérebro" — um sistema operacional, ou software, que determina o que as diferentes partes devem fazer.

Se o robô precisa realizar apenas tarefas repetitivas — como as de uma fábrica de automóveis em Chongqing —, basta um sistema relativamente simples. A China consegue produzir isso.

Mas, para realizar tarefas variadas e complexas, é necessário um cérebro mais sofisticado, baseado em um tipo diferente de IA, chamado IA agêntica. Trata-se de um sistema que atua de forma mais autônoma, executando tarefas com múltiplas etapas.

Nesse campo, dos "cérebros" mais avançados, os EUA ainda têm vantagem.

"Os EUA ainda lideram claramente quando se trata dos cérebros dos robôs", afirma Wright, pesquisador da University College London. "Isso envolve os chips e o software de IA que permitem ao robô executar tarefas reais. E é importante lembrar que cerca de 80% do valor de um robô está no seu cérebro."

De cães-robô a drones

EUA e China agora disputam a integração entre robôs e IA com agentes, e uma empresa americana já demonstrou que as companhias chinesas não são as únicas capazes de produzir robôs eficazes. Trata-se de uma tecnologia com potencial tanto promissor quanto inquietante.

A empresa de engenharia Boston Dynamics já utiliza esse tipo de tecnologia. Seu robô em forma de cão, o Spot, tornou-se um ícone entre entusiastas de tecnologia, com milhões de visualizações no YouTube. O robô conta com "olhos" avançados (câmeras com visão térmica) e "ouvidos" (sensores acústicos).

Spot, o cão-robô da Boston Dynamics, no centro do palco

Crédito,Web Summit via Getty Images

Legenda da foto,O Spot usa IA agêntica para realizar inspeções

O Spot já consegue realizar inspeções em instalações industriais, identificando problemas como superaquecimento de equipamentos, vazamentos de gás ou derramamentos. Essas informações são então enviadas para sistemas de IA industrial, como os da empresa IFS, que analisam os dados e podem tomar decisões — possivelmente sem intervenção humana — para resolver as falhas.

No lado mais preocupante, Wright aponta outro uso dessa combinação entre robótica e IA agêntica: drones militares.

No verão passado, a Ucrânia começou a usar o Gogol-M, um drone aéreo do tipo "nave-mãe", capaz de voar centenas de quilômetros dentro do território russo antes de liberar dois drones menores de ataque. Sem controle humano direto, esses drones utilizam IA para analisar o terreno, identificar alvos e, em seguida, avançar e detonar explosivos.

Quem vai vencer?

É difícil prever quem vencerá essa corrida, sobretudo porque não está claro qual seria a linha de chegada, afirma Greg Slabaugh, professor de visão computacional e IA na Queen Mary University of London, no Reino Unido.

"A 'vitória' provavelmente não será um momento único, como o pouso na Lua", diz. "O que importa é a vantagem sustentada: quem lidera em capacidade, quem incorpora a IA de forma mais eficaz na economia e quem define os padrões globais."

Segundo Slabaugh, em tecnologias como eletricidade e computação, o mais relevante não foi quem as desenvolveu primeiro, mas quem conseguiu aplicá-las de forma mais ampla e eficiente na economia.

"O mesmo pode acontecer com a IA."

Não sabemos para onde a IA está nos levando. Grandes empresas de tecnologia dos EUA querem avançar rapidamente nesse futuro incerto, sem muitas restrições; já o Partido Comunista Chinês defende que o Estado supervisione essa pesquisa.

Um modelo aponta para uma versão intensificada do capitalismo de consumo; o outro, para um cenário em que o Estado determina o que pode ou não ser feito com essa tecnologia.

"Cada lado está mais bem posicionado para prevalecer dentro das suas próprias regras", afirma Mari Sako, da Saïd Business School, da Universidade de Oxford, no Reino Unido. "Quando dois atores competem com regras diferentes, suspeito que aquele que conquistar o público mais amplo — usuários, adotantes etc. — tende a levar vantagem."

E o que está em jogo é alto. Ainda não está claro se EUA ou China sairão mais fortes do século 21. A corrida pela IA pode ser decisiva.