SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Quanto a província de Alberta gera de riqueza para o Canadá e o que aconteceria se ela conquistasse a independência?

 

Um homem está parado na calçada, acenando com uma bandeira azul de Alberta. Apoiada na grama à sua frente, está uma grande placa da mesma cor azul, com o brasão da província, onde se lê "Soberania de Alberta Já!".
Legenda da foto,Os habitantes de Alberta votarão nesta segunda-feira sobre a realização de um referendo sobre a independência no futuro
    • Author,Nadine Yousif
    • Role,Da BBC News no Canadá
  • Published

Para Keith Wilson, a província canadense de Alberta, no oeste do país, é um caso à parte.

Alberta conta com enormes reservas de petróleo e gás, um setor agrícola de peso e uma mão de obra jovem e qualificada, o que faz de sua economia uma potência que não pode ser ignorada, diz Wilson — que apoia a independência da província.

A província realiza um plebiscito nesta segunda-feira (19/10), oferecendo aos moradores duas opções: votar pela permanência no Canadá ou votar para dar início ao processo de preparação de um referendo sobre a independência em uma data futura.

Embora a consulta não seja uma escolha direta entre "ficar ou sair", ela ainda tem potencial para se tornar um dos acontecimentos mais significativos da história recente do Canadá e um importante teste para a unidade nacional.

Uma questão fundamental é central no debate: Alberta seria mais rica se fosse um país independente?

Para Wilson, a resposta é sim.

"A economia de Alberta é única. É fundamentalmente diferente do resto do Canadá — temos as pessoas, as instituições e a infraestrutura necessárias para prosperar", afirma ele.

Os separatistas de Alberta argumentam há muito tempo que a província tem sido prejudicada por fazer parte do Canadá e que uma maior parte da riqueza proveniente do petróleo e do gás deveria permanecer dentro de suas fronteiras, em vez de ser compartilhada com o governo federal em Ottawa, o que geraria uma economia de dezenas de bilhões de dólares.

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Fim da Promoção Agregador de pesquisasMas muitos discordam desses cálculos.

A primeira-ministra de Alberta, Danielle Smith, que se opõe à independência, prevê um desfecho mais sóbrio. Ela afirma que a província poderia ter de arcar com cerca de 400 bilhões de dólares canadenses (R$ 1,4 trilhões) apenas em custos de transição, além de perder bilhões em investimentos e comércio devido à turbulência política.

Um relatório encomendado pelo governo de Danielle Smith e divulgado no início deste mês estimou que os custos da separação ficariam entre 50 bilhões e 170 bilhões de dólares canadenses (R$ 180 bilhões e R$ 610 bilhões) ao longo de cinco anos, além de apontar perspectivas altamente imprevisíveis para o longo prazo.

O relatório adverte que uma Alberta independente teria pela frente uma extensa lista de medidas a implementar, a um custo elevado.

O governo teria que criar agências para administrar impostos e segurança nacional, desenvolver sua própria constituição, sistemas jurídico e judicial, e planos de pensão, além de negociar a divisão de ativos federais, como parques nacionais e bases militares.

Lennie Kaplan, ex-funcionário da área financeira de Alberta, afirma que se espera que a província assuma uma parcela da dívida nacional do Canadá, entre muitos outros desafios e responsabilidades fiscais.

Um relatório sobre a independência de Alberta, elaborado pela CanadaWest Foundation, um centro de estudos sem fins lucrativos com sede em Alberta, estima que a província poderá ficar com uma dívida adicional que varia entre 258 bilhões e 333 bilhões de dólares canadenses (R$ 925 bilhões e R$ 1,2 trilhões).

Com o impacto projetado sobre o PIB de Alberta e os custos adicionais envolvidos, o relatório estima que a separação poderia afetar diretamente o bolso dos moradores da província, reduzindo sua renda disponível em média em 5,8%.

"Por que precisamos criar toda essa incerteza que pode impactar e prejudicar a situação fiscal da província no futuro? Por que não trabalhamos internamente no Canadá para resolver esses problemas?", questiona Kaplan.

Pesquisas de opinião indicam que entre 20% e 25% dos moradores de Alberta pretendem votar a favor do avanço para um referendo sobre a separação, com níveis de apoio mais elevados entre eleitores mais jovens, residentes de áreas rurais e conservadores.

Por trás do movimento separatista está a crença de que Alberta é incompreendida e negligenciada pelos tomadores de decisão do governo federal em Ottawa. Durante décadas, esse sentimento alimentou a sensação de que as províncias do oeste do país são ignoradas pelo governo central

Mapa do Canadá

Durante muito tempo restrito às margens da política provincial, o movimento separatista ganhou força por diversos motivos. Entre eles, a revolta gerada pela resistência política e ambiental que inviabilizou projetos de oleodutos para escoar o petróleo de Alberta — que não tem acesso ao mar — até portos na costa do país.

Uma década de governo liberal em Ottawa também causou frustração na tradicionalmente conservadora Alberta. Além disso, persiste a desconfiança em relação ao governo federal devido ao que alguns habitantes de Alberta consideraram lockdowns excessivos durante a pandemia de covid-19.

Ao longo do último ano, organizadores do movimento separatista realizaram assembleias públicas em toda a província para avaliar o interesse da população. Em seguida, lançaram uma petição popular pela separação no início deste ano, que obteve mais de 300 mil assinaturas.

Smith, a primeira-ministra, decidiu no início deste ano que autorizaria uma votação.

Alberta abriga o setor de petróleo e gás do Canadá, com reservas de petróleo estimadas como as quartas maiores do mundo. O petróleo bruto é, de longe, o produto de exportação mais lucrativo do Canadá, representando 142 bilhões de dólares canadenses (R$ 500 bilhões) somente em 2025.

A maior parte é vendida para refinarias nos EUA.

A província possui o maior PIB per capita do país e contribui com bilhões anualmente para a arrecadação de impostos federais devido à sua economia forte.

A província não recebe pagamentos de "equalização" desde 1965. Esses repasses são transferências feitas pelo governo federal às chamadas províncias "menos favorecidas", ou seja, aquelas com menor capacidade de arrecadação e riqueza.

Cálculos realizados por Tegan Hill e Nathaniel Li, economistas do centro de estudos Fraser Institute, mostram que a contribuição líquida total de Alberta para Ottawa desde 2007 foi de 322 bilhões de dólares canadenses.

"Isso é quase quatro vezes mais do que na Colúmbia Britânica, mais de quatro vezes mais do que em Ontário", disse Hill à BBC. "As outras sete províncias foram beneficiárias líquidas, o que significa que Ottawa gastou ou transferiu mais dinheiro para essas províncias do que arrecadou."

Hill explica que o montante que Alberta contribui para o resto do Canadá é uma das principais frustrações citadas por aqueles que são a favor da separação.

O sentimento, segundo ela, é: "Estamos pagando para sustentar essas outras províncias, e se seguíssemos nosso próprio caminho, poderíamos ficar com toda essa riqueza para nós mesmos."

Dinheiro

Essa crença está no cerne das projeções econômicas do Alberta Prosperity Project, um dos principais grupos que se organizam em favor da independência.

Em seu plano fiscal, divulgado no ano passado, eles estimam que Alberta economizará até 47 bilhões de dólares canadenses (R$ 170 bilhões) anualmente se deixar de pagar impostos federais.

O plano reconhece que os custos de Alberta seriam maiores se a província fosse independente, pois teria que arcar com despesas como defesa nacional e diplomacia internacional, estimando esses custos em até 31,6 bilhões de dólares canadenses (R$ 130 bilhões) anualmente.

Isso seria um adicional ao pagamento de serviços que Alberta, como província, já cobre, como saúde e educação, que custam cerca de 75 bilhões de dólares canadenses (R$ 270 bilhões) ao ano.

Após o pagamento de todas as despesas essenciais, o Projeto de Prosperidade de Alberta estima um superávit de 24 bilhões a 46 bilhões de dólares canadenses (R$ 86 bilhões a R$ 164 bilhões) por ano.

Com todo esse dinheiro extra, os defensores da separação argumentam que Alberta poderia reduzir os impostos individuais em mais de 10 mil dólares canadenses (R$ 35 mil) por ano, investir em infraestrutura ou aplicar o excedente no fundo soberano da província.

Mas vários economistas argumentam que essas projeções carecem de clareza e provavelmente superestimam o retorno financeiro.

O primeiro-ministro Mark Carney costuma apontar o Brexit — a votação para separar o Reino Unido da União Europeia — como um exemplo de advertência para Alberta.

Segundo um relatório publicado no início deste ano, a economia do Reino Unido sofreu uma queda de 6% devido aos efeitos do Brexit. Se a economia de Alberta sofrer um destino semelhante após a independência, poderá encolher em 62 bilhões de dólares canadenses (R$ 222 bilhões) anualmente, de acordo com uma projeção do economista Trevor Tombe, de Calgary.

Ele estimou que isso também resultaria em uma redução de 175 mil empregos.

Wilson rejeita essa comparação, argumentando que "a dinâmica fundamental é completamente diferente".

Ele diz que algumas das projeções do lado que defende a permanência são todas "apocalípticas", brincando que o único ponto negativo possível que eles não incluíram é "um grande asteroide atingindo o Canadá".

"Somos uma economia baseada em recursos naturais. Temos poder de negociação. Temos produtos que o mundo deseja. É por isso que o investimento vem para cá, apesar das restrições impostas por Ottawa", afirma.

Um moleque playboy X Presidente Idoso.



O texto abaixo é uma reação indignada ao que foi o debate da Band no último domingo (18/10), entre o presidente Lula e Flávio Bolsonaro. É um desabafo sobre a postura do candidato do PL, que transformou o confronto em um espetáculo de cortes para redes sociais, fugiu de todas as acusações sérias e desrespeitou um homem de 80 anos.


Que vergonha alheia. Flávio Bolsonaro não foi a um debate presidencial; ele foi gravar conteúdo para o TikTok.

O sujeito passou o programa inteiro trabalhando para a timeline, não para o país. A estratégia, treinada com o marqueteiro Duda Lima, com Pablo Marçal e com Nikolas Ferreira, era clara: circular atrás de Lula, fazer caras e bocas, gesticular, virar o debate inteiro em cortes para viralizar nas redes sociais. Não apresentou uma proposta. Não mostrou nenhuma postura de um presidente que precisa lidar com líderes do mundo inteiro, grande parte deles idosos, com educação e valores. Flávio Bolsonaro não debateu o Brasil: ele só queria o frame perfeito para o Instagram.

E o desrespeito? Foi a tônica. Um homem de 45 anos, debochando, ironizando e tentando desestabilizar um presidente de 80 anos. A campanha do próprio PT classificou a postura como “desrespeitosa” e “infantil” com “um senhor”. Flávio não discutiu propostas e foi desrespeitoso com um homem idoso, resumiu um ministro de Lula. E não foi só a idade: foi a postura de moleque mesmo, de quem não tem argumento e apela para a piada, para o deboche, para a pirotecnia. A consequência disso é grave: ao apostar repetidamente no deboche diante de um adversário idoso — Lula tem 80 anos —, Flávio corre o risco de transmitir uma imagem de imaturo e, sobretudo, desrespeitoso.

Agora, o mais grave: o silêncio. Lula fez acusações sérias, uma a uma. E Flávio, simplesmente, fugiu de todas. Não respondeu sobre os R$ 134 milhões ligados ao filme “Dark Horse” e ao banqueiro Daniel Vorcaro — Lula chamou a resposta evasiva de “desfaçatez de miliciano”. Não explicou a rachadinha, o esquema de corrupção no seu gabinete na Assembleia do Rio. Não esclareceu a milícia, a relação com o crime organizado. Não respondeu sobre a garota de 5 anos, o caso em que atuou como advogado de um policial militar que matou uma criança com um tiro de fuzil. Não aceitou o desafio de abrir os sigilos bancários e telefônicos para provar quem é corrupto — desconversou. 

Flávio Bolsonaro é o retrato de uma estratégia que Steve Bannon popularizou: inundar o ambiente com bobagem, com provocação, com “lacração”, para que o eleitor não preste atenção no que realmente importa. O debate não foi sobre o país. Foi sobre o corte. Foi sobre o engajamento. Foi sobre esconder, atrás de uma dancinha e de uma palavra escrita na palma da mão, a falta de projetos, o golpe, a corrupção, o envolvimento com a milícia e o fato de ter sido advogado de um assassino.

Enquanto isso, o candidato que deveria apresentar propostas para o Brasil se comportou como um influencer de quinta categoria, brincando atrás do presidente, sem responder a nenhuma das acusações sérias. E depois do debate? Ainda teve a cara de pau de fazer uma dancinha, como se tudo não passasse de um jogo, de uma brincadeira, de mais um conteúdo para as redes.

Não é sobre idade. É sobre respeito. É sobre decência. É sobre a diferença abissal entre quem tem propostas e quem tem apenas cortes. Flávio Bolsonaro mostrou, mais uma vez, que não está pronto para o cargo que disputa. E o pior: mostrou que não está pronto nem para o mínimo — o mínimo de respeito por um idoso, por um adversário e pelo próprio debate democrático.


domingo, 18 de outubro de 2026

A 'história esquecida' dos vikings que chegaram à América 500 anos antes de Cristóvão Colombo

 

Ilustração de vikings ao lado de um vinhedo
Legenda da foto,Os vikings chamaram de Vinlândia (Vinland), a "terra das videiras", uma das regiões que exploraram na América do Norte
    • Author,Fiona Macdonald
    • Role,BBC Culture*
  • Published
  • Tempo de leitura: 7 min

Cristóvão Colombo pode ter atravessado o oceano em 1492 — quando chegou às Bahamas em 12 de outubro daquele ano. Mas ele não foi o primeiro europeu a alcançar o território que hoje conhecemos como América.

A chegada desses outros europeus não foi marcada por grandes celebrações. Não houve proclamações reais nem multidões nas ruas para recebê-los na volta. Tampouco atravessaram o imenso oceano Atlântico diretamente de um continente a outro.

Em vez disso, fizeram a viagem por etapas, usando a Islândia e a Groenlândia como pontos de parada. As expedições deles foram narradas séculos depois em sagas, relatos mais próximos da literatura épica do que dos livros de história.

Esses navegadores chegaram ao continente americano 500 anos antes de Cristóvão Colombo.

Flateyjarbók

Uma página antiga, com letras pretas e traços grossos
Legenda da foto,Flateyjarbók é considerado um dos registros antigos que comprovam a chegada dos vikings à América do Norte

As sagas nórdicas, histórias dos vikings registradas por seus descendentes, passaram a ser reconhecidas como fontes históricas confiáveis.

Em 1966, o apresentador da BBC Magnus Magnusson descreveu o Flateyjarbók (Livro de Flatey ou Livro da Ilha Plana), manuscrito do século 14, como "um dos mais valiosos manuscritos islandeses que existem".

O livro é tão valioso, disse Magnusson, que, em 1893, quando os organizadores da Exposição Universal de Chicago pediram o manuscrito emprestado para comemorar, com um ano de atraso, os 400 anos da viagem de Colombo, "ofereceram enviar um navio de guerra à Dinamarca para buscá-lo, transportá-lo pelos Estados Unidos em um trem blindado e contratar um seguro de US$ 1 milhão [cerca de R$ 5 milhões, na cotação atual sem correção monetária]. Mesmo com todas essas garantias, os dinamarqueses não quiseram correr o risco".

Mas por que os americanos faziam tanta questão de ter o manuscrito?

Uma embarcação Viking, com uma grande vela e vários remos
Legenda da foto,Os vikings navegaram pelo Atlântico Norte e chegaram à costa da América do Norte
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Porque ele contém "o relato da colonização nórdica da Groenlândia no século 10 e, o que é ainda mais surpreendente, a história da descoberta da América do Norte pelos nórdicos e da tentativa de colonizar a região poucos anos depois, cinco séculos antes de Colombo".

Em 1960, foi descoberto um acampamento usado pelos nórdicos como ponto de parada em L'Anse aux Meadows, na ilha de Terra Nova, no Canadá.

Em 2021, pesquisadores que utilizaram uma nova técnica de datação descobriram que os vikings haviam ocupado o local cerca de mil anos antes.

Acredita-se que o acampamento tenha servido de base para expedições a outras regiões da América do Norte.

"Este é o começo de uma história esquecida: os séculos em que europeus visitaram a América em viagens que não deixaram registros escritos, apenas rastros nas águas", afirmou Robin Ellis em um episódio de 1997 da série documental Timewatch, da BBC.

Os nórdicos chegaram à Islândia por volta do ano 870 e à Groenlândia cerca de cem anos depois.

De lá, bastava atravessar cerca de 320 km pelo estreito de Davis para chegar à ilha de Baffin, no atual Canadá. Eles chamaram a região de Helluland, a "terra das lajes de pedra".

Segundo as sagas, os navegadores seguiram pela costa em direção ao sul até Labrador, região que chamaram de Markland, a "terra das florestas". Depois, avançaram ainda mais ao sul, até uma área que batizaram de Vinland, a "terra das videiras".

"As sagas mostram que esses homens não pararam em um único lugar, mas passaram por vários", afirmou Emily Lethbridge, da Universidade da Islândia, ao programa Timewatch, em 2016.

"E passaram vários anos longe de casa. Tinham todo um mundo novo para explorar."

Erik, o Vermelho

Uma ilustração do rosto de Erik, o Vermelho
Legenda da foto,Acredita-se que, Erik, o Vermelho, chegou à Islândia por volta do ano 960

Segundo as sagas, o mais famoso dos colonizadores nórdicos, Erik, o Vermelho, chegou à Islândia por volta do ano 960, depois que seu pai foi expulso da Noruega por assassinato.

Em 932, os islandeses haviam criado um parlamento, o Althing. Era uma assembleia nacional realizada ao ar livre, durante duas semanas a cada verão, para discutir leis e julgar conflitos. Os encontros aconteciam em um lugar extraordinário: um desfiladeiro que formava um impressionante anfiteatro natural.

"Não é apenas a acústica que torna esse lugar especial", afirmou Lethbridge à BBC. "É uma falha geológica natural. Estamos no ponto de encontro das placas tectônicas da América do Norte e da Eurásia."

Assim, os primeiros europeus a explorar a América do Norte estabeleceram um de seus parlamentos em um vale formado pela separação das placas tectônicas dos dois continentes.

Nesse parlamento, segundo Lethbridge, da Universidade da Islândia, "eram decretadas penas de banimento contra pessoas que haviam transgredido gravemente todas as regras da sociedade. Elas podiam ir para qualquer outro lugar, mas estavam proibidas de pisar na Islândia enquanto durasse a punição".

Em 982, o Althing expulsou Erik, o Vermelho, da Islândia após uma disputa violenta com um fazendeiro vizinho. Seu exílio deu início a um capítulo extraordinário da exploração viking.

"Erik, o Vermelho, foi o primeiro islandês a descobrir a Groenlândia e estabelecer um povoado permanente na região", afirmou Lethbridge.

Ele fundou uma colônia na Groenlândia que duraria cerca de 500 anos e serviria de ponto de partida para as expedições nórdicas à América do Norte.

"Eram pessoas dispostas a correr riscos e enfrentar enormes desafios físicos, como atravessar o Atlântico em embarcações abertas para descobrir o que havia do outro lado", disse Lethbridge.

A presença nórdica na Groenlândia se manteve até o início do século 15. Nesse período, os vikings, liderados por Leif Eriksson, filho de Erik, aparentemente fizeram não apenas uma, mas várias travessias marítimas até a América do Norte.

"A maioria das pessoas imagina que, depois que Leif Eriksson e seus companheiros chegaram a Vinland, desistiram e foram embora, nunca mais se ouviu falar do Novo Mundo", afirmou Robert McGhee, arqueólogo do Museu Canadense da Civilização, ao programa Timewatch.

"Mas temos evidências arqueológicas de que os nórdicos continuaram fazendo viagens ocasionais ao Novo Mundo durante os dois ou três séculos seguintes", disse McGhee.

Colombo sabia da existência de Vinlândia?

Cristóvão Colombo em um barco chegando ao território que ele chamou de San Salvador
Legenda da foto,Quando Cristóvão Colombo chegou às Bahamas em 1492, os vikings já tinham viajado para as Américas há quase 500 anos

"Temos inúmeras evidências de que, durante toda a Idade Média, foram realizadas viagens entre as regiões que hoje conhecemos como Groenlândia e América do Norte", afirmou Kirsten Seaver, historiadora especializada em navegação medieval, ao programa Timewatch.

"Sabemos que, por volta de 1480, houve uma tentativa deliberada de navegar até a América do Norte, ou até o que eles chamavam de "ilha de Brasil". Não devemos considerar essa a primeira viagem à região, mas a primeira tentativa de chegar lá diretamente, sem passar pela Groenlândia, que era a referência habitual dos navegadores."

Seaver também mencionou um documento que indica que o próprio Colombo sabia dessas viagens. "No inverno de 1497 a 1498, um inglês chamado John Day escreveu a Cristóvão Colombo para contar sobre a viagem bem-sucedida de John Cabot à América do Norte, em 1497. Entre outras coisas, mencionou como algo de conhecimento geral que, como Colombo sabia, navegadores de Bristol [na Inglaterra] já faziam aquela viagem rumo ao norte havia muitos anos."

Quando Colombo chegou às Bahamas, em 1492, é possível que já soubesse da existência da região que os vikings chamavam de Vinlândia.

Há até teorias de que o navegador teria tentado evitar deliberadamente uma terra que sabia já ter sido descoberta por outros europeus.

"Colombo sabia, assim como qualquer navegador sabe hoje, que, para atravessar oceanos no Hemisfério Norte, é preciso seguir para o norte, onde a distância a percorrer é menor, fazer a travessia rapidamente e depois descer novamente", afirmou McGhee, do Museu Canadense da Civilização, ao programa Timewatch.

"Mas Colombo fez o contrário: escolheu a rota mais longa, atravessando diretamente o oceano. Talvez estivesse tentando evitar o Canadá. Talvez quisesse evitar a Vinlândia, que não era o que ele procurava. Acredito que a intenção era contornar a América para tentar chegar às riquezas do Extremo Oriente."

Assim, embora muitos cidadãos dos EUA celebrem o Dia de Colombo (12/10) todos os anos, não devem se esquecer das travessias do Atlântico que aconteceram antes da viagem do navegador.

*Esta é uma adaptação para o português de uma reportagem publicada originalmente pela BBC Culture (em inglês).