Publicado em 2016 pela Princeton University Press, A Culture of Growth: The Origins of the Modern Economy é a obra mais ambiciosa do historiador econômico Joel Mokyr, professor da Northwestern University. O livro aborda uma das perguntas centrais da história econômica: por que o crescimento econômico moderno — sustentado, permanente e acompanhado de inovação contínua — emergiu na Europa e não em outras partes do mundo, como a China?
Mokyr argumenta que a resposta não está em fatores geográficos, institucionais ou em dotações de fatores (como a famosa tese de Robert Allen sobre salários altos e carvão barato na Inglaterra), mas sim em uma mudança cultural profunda que ocorreu na Europa entre 1500 e 1700. Para Mokyr, foram as mudanças nas crenças, valores e preferências — o que ele chama coletivamente de "cultura" — que criaram as condições para o avanço científico e tecnológico que desencadearia a Revolução Industrial e o subsequente "Grande Enriquecimento".
2. Estrutura e Método
O livro está organizado em 17 ensaios interconectados, divididos em quatro partes principais:
Evolução, cultura e história econômica — onde Mokyr apresenta seu arcabouço teórico, combinando teoria da evolução cultural, economia institucional e teoria do crescimento.
Empreendedores culturais e mudança econômica (1500-1700) — com estudos de caso sobre Francis Bacon e Isaac Newton como figuras centrais na transformação cultural.
Inovação, competição e pluralismo na Europa (1500-1700) — analisando como a fragmentação política europeia criou um "mercado de ideias" competitivo.
Mudança cultural no Oriente e no Ocidente — um exercício comparativo entre Europa e China.
Metodologicamente, Mokyr combina insights da teoria da evolução cultural (adaptada de Darwin, mas com ênfase em processos baseados em escolha consciente) com elementos da teoria econômica (ideias smithianas, schumpeterianas e da "nova teoria do crescimento"). Ele adverte, porém, contra a simples transposição de conceitos biológicos para a história econômica.
3. Principais Argumentos
3.1. A "Cultura do Crescimento" como Fator Decisivo
O argumento central de Mokyr é que o crescimento econômico moderno não pode ser explicado apenas por instituições formais — propriedade privada, contratos enforceáveis, Estado de direito etc. Embora necessárias, essas instituições são insuficientes. O que faltava em outras sociedades era uma cultura que valorizasse a investigação da natureza e a aplicação do conhecimento útil à produção.
Mokyr define cultura como "um conjunto de crenças, valores e preferências, capazes de afetar o comportamento, que são transmitidos socialmente (não geneticamente) e compartilhados por algum subconjunto da sociedade". A "cultura do crescimento" específica da Europa ilustrada caracterizava-se por:
Uma crença de que os seres humanos podiam melhorar sua condição por meio da ciência e da razão.
Uma disposição para investigar os segredos da natureza por meio da experimentação.
Uma atitude de progresso — a ideia de que o conhecimento se acumula e que as gerações futuras saberão mais que as passadas.
3.2. O Papel dos "Empreendedores Culturais"
Mokyr atribui um papel fundamental a figuras como Francis Bacon e Isaac Newton, que atuaram como "empreendedores culturais". Bacon, com sua defesa de que "a verdadeira e legítima meta de todas as ciências é dotar a vida humana de novas invenções e riquezas", estabeleceu a conexão entre conhecimento científico e utilidade prática. Newton demonstrou que o universo opera segundo "regras" matemáticas que podem ser descobertas, tornando a natureza previsível e manipulável.
Esses empreendedores não agiram sozinhos; eles operaram em um contexto de "mercado de ideias" competitivo, onde propostas podiam ser disseminadas, contestadas, corrigidas e aprimoradas.
3.3. Fragmentação Política e Competição
Um dos elementos mais originais do livro é a ênfase na fragmentação política da Europa como fator positivo. Diferentemente da China unificada, a Europa era composta por múltiplos Estados em competição. Essa fragmentação:
Criou um "mercado de ideias" onde intelectuais perseguidos em um país podiam encontrar refúgio em outro.
Fomentou a competição entre Estados por conhecimento e inovação, especialmente em áreas como navegação e armamentos.
Impediu que uma única autoridade (política ou religiosa) suprimisse ideias heterodoxas.
3.4. A "República das Letras" e a Difusão do Conhecimento
Mokyr destaca o papel da "República das Letras" — uma rede informal de acadêmicos e intelectuais que se correspondiam por toda a Europa. Essa rede, facilitada pela imprensa, reduziu os custos de transmissão de informação e ampliou os benefícios da alfabetização. A circulação de ideias permitiu que descobertas feitas em um local fossem rapidamente conhecidas, debatidas e aplicadas em outros.
3.5. O Paradoxo China-Europa
Mokyr dedica espaço considerável à comparação entre Europa e China. A China, argumenta ele, era tecnologicamente avançada e tinha instituições em muitos aspectos superiores às europeias até certo ponto. No entanto, faltou à China a "cultura do crescimento" — em particular, a fragmentação política que gerava competição e o espírito de investigação que caracterizou o Iluminismo europeu. A unificação política chinesa, paradoxalmente, criou um ambiente onde ideias heterodoxas podiam ser mais facilmente suprimidas.
4. Citações Notáveis
"Economists have traditionally been leery at mentalités as a..."
"Not so much a trickle down as a dragging-along." — uma observação sobre como o progresso tecnológico arrasta consigo amplos segmentos da população, em contraste com a noção de "gotejamento" da riqueza.
Mokyr argumenta que "o crescimento econômico moderno dependeu de um conjunto de mudanças radicais nas crenças, valores e preferências — um conjunto ao qual ele se refere coletivamente como 'cultura' — e que os fundamentos culturais para o crescimento moderno foram estabelecidos no período de 1500 a 1700".
Sobre Bacon: "Sua influência e a influência de seus seguidores no Iluminismo desempenhou um papel fundamental no surgimento da crença de que as 'investigações naturais' por meio de experimentos são necessárias para o crescimento da economia e do bem-estar humano".
"A Europa politicamente fragmentada fomentou um 'mercado de ideias' competitivo e uma disposição para investigar os segredos da natureza".
5. Críticas e Debates Acadêmicos
O livro gerou um debate acadêmico significativo, incluindo uma mesa-redonda na Conferência Anual da ESHET (European Society for the History of Economic Thought) e um simpósio na ASA Culture Section. As principais críticas podem ser agrupadas em várias categorias:
5.1. Ênfase Excessiva em Elites e Empreendedores Culturais
Geoffrey M. Hodgson, em uma resenha no Journal of Institutional Economics, argumenta que Mokyr coloca peso explicativo excessivo em poucas pessoas extraordinárias (Bacon, Newton). Para Hodgson, a ênfase em "empreendedores culturais" e nos "retroalimentações positivas" na procreação de ideias é insuficiente para explicar as origens do crescimento econômico moderno. Hodgson propõe que a análise de Mokyr deveria ser estendida para incluir a evolução das instituições em um nível adicional, além da evolução cultural, e dar mais peso à rivalidade entre Estados e aos choques exógenos.
5.2. Problemas de Causalidade e Magnitude
David Mitch, em comentário publicado no ASA Culture Section, observa que o gênero da síntese histórica — do qual Mokyr é mestre — tem limitações inerentes para estabelecer causalidade ou magnitude de impacto. A extensa lista de exemplos, argumenta Mitch, pode deixar o leitor com a impressão de que contraexemplos não foram adequadamente considerados. Além disso, há um problema de descompasso temporal: desenvolvimentos intelectuais dos séculos XVII e XVIII só se manifestaram plenamente em avanços tecnológicos mais de um século depois, o que torna difícil estabelecer relações causais diretas.
5.3. A Relação entre Conhecimento Proposicional e Prescritivo
Mitch também aponta uma tensão no argumento de Mokyr: embora ele enfatize a importância do conhecimento proposicional (científico, teórico) para o crescimento, ele reconhece que o conhecimento prescritivo (técnico, prático) interage com ele de forma complexa. Em sua própria resenha do livro de Gillian Cookson sobre a indústria têxtil de Yorkshire, Mokyr admite que, para aquele caso específico, o conhecimento proposicional pode ter tido papel menor — mas insiste que "o argumento certamente não é verdadeiro nesta forma forte para a Revolução Industrial britânica como um todo". Essa ambiguidade, segundo Mitch, não é totalmente resolvida no livro.
5.4. O Problema do Termo "Crescimento Econômico"
Mitch observa que o termo "crescimento econômico" é anacrônico para o período estudado (1500-1700). O termo "progresso", empregado no Capítulo 14, seria mais apropriado, e a evolução desse conceito até a noção moderna de crescimento mereceria mais atenção.
5.5. Subestimação das Ciências Sociais Emergentes
Uma resenha publicada no TSEG (Low Countries Journal of Social and Economic History) critica Mokyr por ignorar os primeiros brotos das ciências sociais, que também contribuíram para a transformação cultural da Europa.
5.6. Definição de Cultura
Ted McAllister, em resenha para o Library of Law & Liberty, nota que Mokyr dedica pouco espaço a definir cultura. Reconhecendo que o termo é contestado, Mokyr simplesmente estipula sua definição básica sem muita defesa. McAllister também observa que Mokyr nega a superioridade da civilização europeia, mas ao mesmo tempo adota uma explicação eurocêntrica — o que McAllister considera uma tensão não totalmente resolvida.
6. A Resposta de Mokyr
Em sua resposta aos críticos no European Journal of the History of Economic Thought, Mokyr defendeu sua abordagem, reafirmando que a combinação de teoria da evolução cultural e história intelectual é a ferramenta mais adequada para explicar a "ruptura cultural" que precedeu a Revolução Industrial. Ele também insistiu que seu argumento não nega a importância das instituições, mas sim que instituições sem a cultura adequada são insuficientes para gerar inovação sustentada.
7. Avaliação Geral
A Culture of Growth é amplamente reconhecido como uma contribuição monumental para a história econômica e para o debate sobre as origens do crescimento moderno. Sua força reside na erudição enciclopédica de Mokyr, na capacidade de sintetizar literaturas díspares (história da ciência, teoria econômica, evolução cultural) e na ousadia de propor uma explicação cultural para um fenômeno que muitos tratam como puramente material ou institucional.
As críticas, no entanto, apontam para limitações importantes: a dificuldade de estabelecer causalidade em narrativas históricas de larga escala, a ênfase talvez excessiva em figuras individuais em detrimento de forças estruturais mais amplas, e a necessidade de integrar mais plenamente a evolução institucional ao modelo explicativo.
O livro, contudo, não pretende ser a palavra final sobre o assunto, mas sim abrir novas agendas de pesquisa. Ao colocar a cultura — e não apenas as instituições ou a geografia — no centro do debate sobre o "Grande Divergência", Mokyr forçou historiadores e economistas a repensarem suas premissas e a levarem mais a sério o papel das ideias, valores e crenças na formação do mundo moderno.







