SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Economia é Política!





Em resposta ao meu texto argumentando que a economia é política, alguém no Twitter/X perguntou retoricamente: o que há de político ou ideológico na lei da utilidade marginal decrescente ou na lei dos retornos à escala?


Essa questão reflete uma defesa comum da economia como uma ciência sem valores e não política, e é importante explicar por que essa defesa em si é política.

À primeira vista, essas leis podem parecer totalmente apolíticas. No entanto, elas moldam a lente através da qual estudamos a economia, e essa escolha de lente tem sérias implicações políticas.

A produção não é apenas uma questão de "eficiência", que a lei dos retornos enfatiza. Também é uma questão de classe, poder e relações sociais — dimensões que a economia dominante trata como secundárias ou fora de seu núcleo analítico.

Da mesma forma, o consumo não é apenas uma questão de preferências individuais de "utilidade" respondendo às quantidades, como enfatizado pela lei da utilidade marginal decrescente. Também está ligada à desigualdade, identidade e limites ecológicos — questões que, novamente, recebem atenção limitada na economia convencional.

Dessa forma, a economia dominante reflete prioridades políticas no que escolhe destacar e no que abstrai, muitas vezes recorrendo a um formalismo matemático simplificado para isso.

O que chama atenção não é apenas que essas prioridades raramente são reconhecidas nos livros de economia como tal, mas também que formas alternativas de entender a economia são frequentemente marginalizadas ou tratadas como não científicas.

É por isso que continuo dizendo que, hoje, estamos treinando economistas que podem construir modelos, mas que não realmente entendem a economia. https://lnkd.in/eJ6snPhy

Interior de São Paulo em Perspectiva: Desenvolvimento Econômico, Qualidade de Vida e a Conexão com o Plano de Governo de Egidio

 

O interior do estado de São Paulo representa um dos mais dinâmicos e complexos mosaicos econômicos e sociais do Brasil. As suas 20 maiores cidades, que incluem polos como Campinas, São José dos Campos, Ribeirão Preto, Sorocaba e São José do Rio Preto, não são apenas extensões da metrópole, mas sim motores autônomos de crescimento que ditam o ritmo do agronegócio, da indústria de alta tecnologia e do setor de serviços no país. Compreender a economia, os indicadores sociais e a qualidade de vida nesses municípios é fundamental para qualquer projeto de governança que almeje escala estadual ou nacional. É nesse contexto que se insere a análise do plano de governo de Egidio, apresenta propostas estruturantes que dialogam diretamente com os desafios e potencialidades compartilhados pelos grandes centros do interior paulista. 
 
## 1. Eixos Econômicos e Setoriais nas Principais Cidades do Interior Paulista 
 
A pujança econômica dessas 20 cidades não é homogênea, mas sim distribuída em vocações regionais muito claras. Enquanto Campinas e São José dos Campos formam um robusto complexo tecnológico e industrial, com ênfase nos setores aeroespacial, de defesa e de telecomunicações, cidades como Ribeirão Preto e Piracicaba são centros nevrálgicos do agronegócio, orbitando em torno da indústria sucroenergética e da produção de commodities. Já municípios como Sorocaba e Jundiaí destacam-se pela diversidade industrial e pela logística privilegiada, funcionando como centros distribuidores para todo o país. 
 
Essa especialização produtiva gera empregos qualificados e atrai investimentos, mas também impõe desafios específicos. A dependência de cadeias produtivas globais, a necessidade constante de inovação para manter a competitividade e a pressão sobre a infraestrutura de transporte e energia são pautas constantes. Os indicadores de trabalho nessas regiões geralmente superam as médias nacional e estadual, com taxas de formalidade mais altas, mas convivem com a exigência de mão de obra cada vez mais qualificada, o que expõe as deficiências dos sistemas de ensino técnico e superior. 
 
## 2. Indicadores de Trabalho, Educação e Saúde: Contrastes e Desafios 
 
A qualidade de vida nessas cidades é frequentemente avaliada como superior à da capital paulista, com melhores índices nos setores de saúde e educação. Muitas delas abrigam hospitais de referência nacional e universidades públicas de excelência, como a Unicamp, a USP e a UNESP, que funcionam como vetores de desenvolvimento e inovação. No entanto, o rápido crescimento populacional tensiona a capacidade de atendimento do sistema público de saúde e a oferta de vagas na educação básica. 
 
O desafio da gestão municipal nos próximos quatro anos será duplo: manter a qualidade dos serviços para uma população que envelhece e demanda mais cuidados, ao mesmo tempo em que precisa absorver os jovens em idade escolar e prepará-los para um mercado de trabalho em transformação. A tecnologia, que é um motor econômico nessas cidades, também precisa ser uma aliada na gestão pública, otimizando filas de espera na saúde, monitorando a qualidade do ensino e promovendo a transparência. 
 
## 3. Qualidade de Vida e os Desafios Comuns para os Próximos 4 Anos 
 
A despeito das particularidades locais, as 20 maiores cidades do interior paulista compartilham desafios comuns para o quadriênio 2025-2028: 
 
- **Mobilidade Urbana e Logística:** O crescimento da frota de veículos e a dependência do modal rodoviário para o escoamento da produção exigem investimentos perenes em vias urbanas, contornos rodoviários e sistemas de transporte público eficientes e sustentáveis. 
- **Segurança Pública:** A sensação de insegurança tem crescido mesmo em cidades de médio porte, demandando políticas que vão além da repressão, incluindo prevenção social e uso de tecnologia para monitoramento. 
- **Resiliência Climática:** Eventos climáticos extremos, como enchentes e tempestades, têm afetado também o interior, exigindo planos diretores mais robustos e investimentos em defesa civil e infraestrutura de drenagem. 
- **Gestão do Crescimento:** Planejar o crescimento urbano para evitar a favelização, garantir a oferta de moradias dignas e preservar áreas verdes é um desafio que coloca à prova a capacidade de planejamento de longo prazo dos gestores. 
 
## 4. Integrando com o Plano de Governo de Egidio para o Interior Paulista 
 
É neste ponto que o plano de governo de **Egidio encontra eco nas necessidades do interior de São Paulo . Embora sejam realidades distintas, a abordagem prática e focada em resultados proposta por Egidio oferece insights valiosos para qualquer gestão municipal de grande porte. 
 
Egidio estrutura sua campanha em torno de soluções concretas para problemas que são universais nos centros urbanos. A segurança é um fator crítico para a qualidade de vida e para a atratividade de investimentos, e a modernização das guardas municipais é um debate já maduro em muitas câmaras do interior de São Paulo. 
 
Além disso, a experiência de Egidio com as enchentes confere a ele uma autoridade moral e técnica para tratar de **resiliência climática**, um tema absolutamente central para cidades paulistas cortadas por rios como o Tietê, o Piracicaba ou o Pardo. Seu plano de fortalecer a Defesa Civil e de investir em obras estruturais como diques e contenções, conversa diretamente com a necessidade de adaptação das cidades do interior paulista às mudanças climáticas e à prevenção de desastres. 
 
Por fim, as menções de Egidio à ampliação do **ensino integral e do serviço de saúde** , alinhadas com o governo federal para garantir eficiência, refletem a necessidade de uma governança cooperativa. No interior de São Paulo, a relação entre prefeitos e o governo estadual é igualmente vital para financiar hospitais regionais, construir escolas técnicas e duplicar rodovias. O modelo de gestão proposto por Egidio, que busca resultados por meio da integração entre as esferas de poder, é exatamente o que se espera dos prefeitos das 20 maiores cidades do interior paulista para superar os desafios dos próximos quatro anos. 
 
Portanto, a trajetória e o plano de governo de Egidio, oferecem um interessante estudo de caso sobre prioridades de gestão. Suas ênfases em segurança, preparo para eventos climáticos e busca por eficiência nos serviços públicos são espelhos das demandas da população das pujantes e complexas cidades do interior de São Paulo. O desenvolvimento integrado e a qualidade de vida nessa região dependerão, em grande medida, da capacidade de seus gestores de traduzirem esses desafios em ações concretas. 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

A ATUAL HERDEIRA por Egidio Guerra



Uma releitura contemporânea de Dona Bárbara e Martin Eden 

PRIMEIRA PARTE: O RAPAZ QUE QUERIA MORRER DE PÉ 

Capítulo 1 — A fome que não se sacia com pão 

Martin Eden não morreu no mar. Isso foi invenção dos que precisam de finais limpos. 

O verdadeiro Martin Eden — o nosso, o de 2026 — chama-se Pedro, tem vinte e três anos e vive na periferia de Lisboa, num bairro onde as casas são de tijolo à vista e os sonhos são de coisas vistas no ecrã. É pescador, como o pai, mas à noite, quando o Tejo cheira a gasóleo e solidão, ele lê. Lê tudo o que lhe cai nas mãos: livros deixados em caixotes na feira, artigos da National Geographic que alguém deitou fora, poesia brasileira em edições velhas. 

A fome que sente não é de pão. É de palavras. É de pertencer a um mundo que o ignora. 

 

Capítulo 2 — A mulher que compra o vento 

Bárbara não é uma fazendeira dos llanos. É uma portuguesa que fez fortuna na tecnologia, uma self-made woman que começou a vender bijuteria na feira e agora tem uma holding que investe em startups de impacto social — ironia que ela própria reconhece, nos dias de pouca luz. 

O seu poder não vem da terra, mas dos dados. Não domina pela violência, mas pela influência. Tem um podcast sobre empreendedorismo, um consultor de imagem, um ex-marido que a processa por difamação, e uma equipa de advogados que transforma qualquer problema em pó. 

Mas Bárbara, como a Dona Bárbara original, carrega uma ferida. 

Ninguém sabe. Ela própria tenta esquecer. Aos catorze anos, foi abusada por um tio enquanto a mãe fazia limpezas no escritório dele. O dinheiro, para ela, nunca foi luxo. Foi o muro que construiu à volta do seu corpo. Foi a promessa de que ninguém mais a tocaria sem a sua permissão. 

— Aprendi — diz ela, no episódio trinta do podcast — que a única nobreza que importa é a que podemos comprar. A outra, a de sangue, é para quem tem estômago para esperar. 


SEGUNDA PARTE: O ENCONTRO 

Capítulo 3 — A praia dos afogados 

Conhecem-se na Ericeira, numa vila de pescadores ameaçada por um projeto imobiliário. 

Pedro está lá porque a associação local o convidou — ele, o rapaz que lê, que escreve textos sobre o mar que ninguém publica, que sonha ser escritor. Bárbara está lá porque o projeto pertence a um fundo de investimento que ela avalia. 

Ela chega num carro preto. Ele chega a pé, com os sapatos a deixar areia pelo chão da junta de freguesia. 

— O senhor é o pescador que escreve? — pergunta ela, quando os apresentam. 

— Sou o que pesca e escreve — responde ele. — Mas não sou senhor. 

Bárbara sorri. Não é um sorriso comercial. É qualquer coisa mais antiga. 

Capítulo 4 — A educação de Pedro 

Começa como começou com Martin Eden e Ruth: ele quer aprender. Quer saber que livros ela leu, que cidades conhece, que palavras se usam quando se fala de arte sem parecer ridículo. 

Ela empresta-lhe livros. Ele devolve-os com sublinhados, com perguntas nas margens, com uma fome que a comove e a assusta. 

— Porque é que queres tanto aprender? — pergunta ela, numa noite, no terraço dela em Lisboa, a cidade a brilhar lá em baixo. 

— Porque quero ser digno de ti — responde ele. 

E é verdade. E é trágico. Porque ela sabe, como Ruth sabia, que essa dignidade não se aprende nos livros. 

TERCEIRA PARTE: O DINHEIRO E A NOBREZA 

Capítulo 5 — O que Bárbara ensina a Pedro 

Bárbara ensina-lhe o que sabe: que o mundo não se move a ideais, move-se a contactos. Ensina-lhe a apertar uma mão sem medo, a escolher um fato barato mas bem contado, a falar devagar para parecer profundo. 

Ensina-lhe, sobretudo, que a nobreza é uma invenção. 

— Os condes e duquesas com quem janto — diz ela — compraram os títulos ou casaram com eles. A minha nobreza, a tua, temos de a construir. Tijolo a tijolo. Euro a euro. 

Pedro. Escreve. Transforma tudo em literatura. 

Mas há algo que Bárbara não lhe ensina: como continuar a amá-la quando descobrir que ela é, também, a mulher que financia o projeto imobiliário que ameaça a sua vila. 

Capítulo 6 — O que Pedro ensina a Bárbara 

Pedro ensina-lhe o que ela tinha esquecido: o cheiro da terra depois da chuva, o nome das aves, a dignidade de um homem que pesca para comer e não para vender. 

Uma noite, lê-lhe um poema que escreveu sobre o mar: 

O mar não tem memória, 
mas tem paciência. 
Espera que os barcos voltem, 
que os afogados subam, 
que os vivos aprendam a morrer. 

Bárbara chora. Não chora há vinte anos. 

— Não chores — diz ele. — O mar não merece. 

— Não choro por mim — mente ela. — Choro pelo poema. 

QUARTA PARTE: O FOGO 

Capítulo 7 — A verdade 

A verdade chega como chegam as piores verdades: por um e-mail anónimo. 

Pedro descobre que o fundo que quer construir o resort na Ericeira — o resort que vai expulsar os pescadores, destruir as rochas, apagar a vila — é avaliado por Bárbara. Que ela ganha comissão. Que ela sabe, desde o primeiro dia, quem ele é e o que está em jogo. 

— Usaste-me — diz ele, quando a confronta. — Como usas tudo. 

— Não usei — responde ela. — Amei-te. Ainda te amo. Mas o que sou não desaparece porque te amo. 

— E o que sou eu? — pergunta ele. — Um projeto de resgate? Uma peça de arte popular que colecionaste? 

Bárbara não responde. Não sabe. Ou sabe, e não tem coragem de dizer. 

Capítulo 8 — O naufrágio 

Pedro afunda-se. Como Martin Eden, como Santos Luzardo quando percebe que a barbárie também está dentro de si. 

Escreve furiosamente. Publica um romance sobre uma mulher que vende a alma para comprar o mundo. O livro é um sucesso. Chamam-lhe génio. Convidam-no para festas, para mesas redondas, para programas de televisão. 

Mas ele já não quer nada disso. 

— O que procuras? — perguntam-lhe os jornalistas. 

— Procurava uma mulher — responde. — Agora procuro o sítio onde a perdi. 

Bárbara lê as entrevistas. Lê o romance. Reconhece-se em cada página, em cada gesto descrito, em cada ferida exposta. 

— Tu amaste-me — diz-lhe, num telefonema, tarde da noite. — O livro prova. 

— O livro prova que te conheci — responde ele. — Amar é outra coisa. 

QUINTA PARTE: O QUE RESTA 

Capítulo 9 — A escolha de Bárbara 

Bárbara tem uma escolha a fazer. 

Pode continuar com o projeto, ganhar milhões, manter o muro à volta do corpo. Ou pode retirar-se, perder dinheiro, enfrentar os accionistas, e talvez — talvez — ganhar qualquer coisa que não tem nome. 

Numa cena que evoca o final de Dona Bárbara, ela vai à Ericeira. Sozinha. Sem carro preto, sem assessores. Vê o mar. Vê as casas dos pescadores. Vê um rapaz, parecido com Pedro, a ler um livro à porta de uma tasca. 

Lembra-se do tio. Lembra-se da promessa que fez a si própria: nunca mais ser vulnerável. 

E, pela primeira vez, pergunta-se: e se a vulnerabilidade for o único luxo que realmente importa? 

Capítulo 10 — O regresso 

Não há reencontro romântico. Não há final feliz. Há só o que resta depois do fogo. 

Pedro vive agora numa ilha grega, pequena, onde ninguém o conhece. Escreve poemas que ninguém lê. Pescam. Às vezes pensa nela. 

Bárbara desistiu do projeto. Perdeu dinheiro, perdeu accionistas, ganhou inimigos. Mas, numa entrevista recente, disse: 

— Aprendi que a nobreza não se compra. Aprendi que o dinheiro é um péssimo escudo. Aprendi, tarde, que o amor não precisa de ser digno. Precisa só de ser. 

Pedro lê a entrevista. Dobra o jornal. Olha o mar. 

O mar, como sempre, não tem memória. 

Mas tem paciência. E a história na vida real termina assim ?




NOTAS FINAIS: A POÉTICA DO REAL 

Esta releitura bebe de várias fontes contemporâneas para atingir o equilíbrio entre poesia e realismo: 

  • A ambiguidade moral de Normal People (Sally Rooney): Bárbara não é vilã; Pedro não é santo. Ambos são produtos das suas feridas, e o amor não as cura — apenas as ilumina. 

  • A fragmentação de Love Novel (Ivana Sajko): As pressões económicas (o dinheiro, a classe, o trabalho) não são pano de fundo, são a própria matéria do conflito amoroso. 

  • A densidade poética de Heart the Lover (Lily King): A natureza (o mar, a terra, os barcos) não é cenário, é personagem. Fala, testemunha, acolhe. 

  • A crueza de Love & Virtue (Diana Reid): A exploração da moralidade sexual e de classe, do que significa ser "boa pessoa" num mundo que recompensa a falta de escrúpulos. 

No final, A Herdeira pergunta: o que resta de nós quando perdemos tudo o que julgávamos ser? Para Martin Eden, restava o mar. Para Dona Bárbara, restava o llano. Para Pedro e Bárbara, resta a memória do que poderiam ter sido — e a estranha paz de saberem que, pelo menos, amaram um ao outro. 

Mesmo que isso não baste.