SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

terça-feira, 10 de março de 2026

O QUE O MAPA DA DOCÊNCIA ESCONDE?

 



​Os dados recém-saídos do Censo Escolar 2025 desenham um Brasil de abismos pedagógicos.

À primeira vista, o mapa da rede estadual sugere uma vitória da estabilidade na Bahia, com expressivos 94,1% de professores efetivos.

Entretanto, ao afastar a lente da estatística isolada, percebemos que a segurança do vínculo empregatício é apenas uma das faces de uma moeda complexa e, por vezes, contraditória.

​A realidade nacional é um mosaico de negligência.

Enquanto o estado baiano e o Ceará mantêm percentuais elevados de concursados, o coração econômico e político do país patina em modelos de contratação frágeis.

Em estados como Minas Gerais, a taxa de efetivos mal alcança os 20%, revelando uma dependência crônica de contratos temporários que fragmentam o projeto pedagógico e fragilizam a relação entre mestre e aprendiz.

​A estabilidade baiana, embora louvável do ponto de vista do direito trabalhista, convive com um paradoxo de formação.

Segundo os indicadores de fluxo e qualidade do Inep, a Bahia ainda luta para elevar o índice de docentes com graduação completa e formação específica na área em que lecionam (77,3%).

​Isso levanta uma provocação necessária, de que serve o concurso se ele não vier acompanhado de uma política contínua de formação e valorização intelectual?

A efetividade no cargo garante que o professor esteja lá amanhã, mas não assegura, por si só, que as ferramentas pedagógicas acompanhem as demandas de um século XXI cada vez mais digital e excludente.

​A despeito dos gargalos, há avanços que não podem ser ignorados.

A Bahia consolidou-se como o 4º estado com maior número de matrículas em tempo integral em 2025, atingindo 34% da rede estadual.

Este movimento exige não apenas "estar na escola", mas uma reestruturação do que significa o fazer educativo.

​O cenário atual aponta para:

- ​Aceleração da conectividade: 94,5% das escolas brasileiras agora possuem acesso à rede, embora a qualidade da banda larga no interior profundo continue a ser uma promessa distante. ​

- Transição demográfica: o Censo registrou um milhão de matrículas a menos em comparação ao ano anterior, um reflexo do envelhecimento populacional que deveria, em tese, permitir um investimento maior por aluno, se a prioridade política assim o permitisse.

​Olhar para o mapa de 2025 é compreender que a educação brasileira vive sob um regime de "puxadinhos" institucionais.

Onde há concurso, falta formação; onde há tecnologia, falta o vínculo estável.

A Bahia mostra o caminho da estabilidade, mas o Brasil ainda precisa aprender que a escola pública de qualidade não se faz apenas com a caneta da nomeação, mas com o sustento de uma carreira que permita ao professor ser, de fato, o intelectual da sala de aula.

A Guerra e a Crise Permanente: Uma Análise a Partir da Geopolítica, da Tecnologia e dos Instintos Tribais. Por Egidio Guerra





A percepção de que o mundo contemporâneo está preso em um ciclo interminável de crises – sanitárias, climáticas, bélicas e políticas – deixou de ser um alarmismo retórico para se tornar uma tese central da análise geopolítica. O assassinato do líder supremo do Irã, Ayatollah Ali Khamenei, em uma operação atribuída a Israel e aos Estados Unidos em fevereiro de 2026, e a consequente escalada para uma guerra regional que ameaça o fluxo de energia global , é apenas o mais recente sintoma de uma condição sistêmica mais profunda. 

Para compreender esta nova era, é necessário um esforço multidisciplinar que a obra de três autores contemporâneos nos permite realizar. Robert D. Kaplan, em Waste Land: A World in Permanent Crisis , fornece o diagnóstico histórico e filosófico do colapso da ordem. Raj M. Shah e Christopher Kirchhoff, em Unit X: How the Pentagon and Silicon Valley Are Transforming the Future of War, detalham a transformação tecnológica e organizacional que está remodelando o campo de batalha e a própria natureza do poder. Por fim, Michael Morris, em Tribal: How the Cultural Instincts That Divide Us Can Help Bring Us Together, oferece uma chave para entender as dinâmicas sociais e psicológicas que, em tempos de crise, podem tanto aprofundar divisões quanto forjar novas solidariedades. Juntos, eles pintam um retrato assustador, mas instrutivo, da "crise permanente". 

I. O Diagnóstico da "Terra Devastada": O Fim da Ordem Liberal 

O ponto de partida para qualquer análise sobre a crise permanente é o reconhecimento de que o mundo pós-1945, ou mesmo pós-1991,chegou ao fim. Robert Kaplan, inspirando-se no poema de T.S. Eliot, argumenta que a humanidade adentrou um "túnel escuro" moldado por guerras, deterioração climática, pandemias e tecnologias disruptivas. Para Kaplan, a geografia, que antes era fonte de vantagem estratégica, tornou-se um campo de competição saturado e sem margem para manobras fáceis. O sistema internacional não enfrenta mais crises episódicas; ele "lurch from crisis to crisiseach overlapping with the nextforming a mesh of irresolvable tensions" . 

Kaplan recorre à história para fundamentar seu pessimismo, traçando um paralelo direto entre o momento atual e a República de Weimar (1918-1933). A Alemanha de Weimar, explica, "operated in a world beset by multiple crises, 'divided and alienated from itself, led by weak or reluctant politiciansconfronted by problems including catastrophic inflation and depression that would have daunted a Bismarck". Assim como Weimar, o mundo de hoje enfrenta crises globais que corroem a autoridade dos governos e criam um vácuo fértil para extremismos. A diferença crucial, alerta Kaplan, é que a tecnologia digital acelerou essa dinâmica, "multiplying crises, amplifying mass anxietymanipulating public sentimentand fragmenting collective capacity for coherent response". As instituições internacionais, outrora pilares da ordem, persistem apenas em "forma esquelética", incapazes de impor acordos ou resolver disputas. A crise, portanto, não é um intervalo entre períodos de estabilidade; ela é a própria paisagem. 

II. A Resposta Tecnológica: "Unit X" e a Transformação da Guerra 

É nessa paisagem de incerteza e fragmentação institucional que a guerra está sendo reinventada. Raj Shah e Christopher Kirchhoff, em Unit X, oferecem um relato privilegiado de como o Pentágono tentou responder a esse novo mundo criando uma ponte com o Vale do Silício. A premissa do Defense Innovation Unit (DIU), ou Unit X, era simples e revolucionária: substituir a lentidão dos processos burocráticos e dos grandes conglomerados bélicos (os "primes", como Lockheed e Boeing) pela agilidade das startups de tecnologia. 

Os autores descrevem uma transformação tão profunda quanto a invenção da pólvora ou a era nuclear. De aplicativos para centros de comando a enxames de drones alimentados por inteligência artificial e microssatélites capazes de monitorar mísseis, a guerra está se tornando digital, rápida e centrada em software. O exemplo da Ucrânia, citado no livro, é paradigmático: o campo de batalha moderno é um laboratório onde tecnologias comerciais são adaptadas para fins letais em uma velocidade impressionante. 

No entanto, o drama de Unit X não está apenas na inovação, mas na resistência a ela. Shah e Kirchhoff falam dos "anticorpos" do sistema – a burocracia do Pentágono e a política congressional – que constantemente ameaçam bloquear o progresso. Esta tensão interna reflete o diagnóstico mais amplo de Kaplan: em um mundo em crise permanente, as próprias estruturas criadas para garantir a segurança (como o complexo militar-industrial) tornam-se lentas demais para reagir, forçando a criação de "ilhas de inovação" como a Unit X. A urgência é acentuada pela competição com a China, que, diferentemente dos EUA, ordenou que todas as suas empresas comerciais compartilhem suas descobertas tecnológicas com os militares. A guerra do futuro não será apenas de tropas e tanques, mas de algoritmos e capacidade de processamento de dados, e a nação que não conseguir integrar tecnologia e defesa em velocidade de startup estará em desvantagem fatal. 

III. A Base Cultural: Instintos Tribais em Tempos de Guerra 

Mas a guerra e a crise não se desenrolam apenas no campo de batalha ou nos laboratórios de alta tecnologia; elas são vividas, interpretadas e impulsionadas por seres humanos em sociedade. É aqui que a obra de Michael Morris, Tribal, oferece uma lente fundamental para entender a dinâmica da "Terra Devastada". Morris rejeita a noção popular de que o tribalismo é inerentemente tóxico ou baseado no ódio ao "outro". Para ele, "our tribal instincts are humanity's secret weapon" . Eles são "instincts for solidaritynot for hostility", que evoluíram para permitir a cooperação em grande escala. 

Morris identifica três instintos tribais fundamentais: 

  1. O Instinto do Par (Peer Code): A tendência de se conformar com o comportamento da maioria para pertencer ao grupo. 

  1. O Instinto do Herói (Hero Code): A aspiração de emular figuras de prestígio e contribuir de forma exemplar para o grupo, buscando estima e tributo. 

  1. O Instinto Ancestral (Ancestor Code): A inclinação a preservar as tradições e os costumes das gerações passadas, encontrando conforto e continuidade em rituais. 

Em um cenário de crise permanente, esses instintos podem ser exacerbados de maneiras perigosas. Quando as instituições formais falham (como Kaplan descreve), as pessoas se agarram mais fortemente as suas "tribos" – sejam eles nações, etnias, religiões ou mesmo comunidades digitais. A fragmentação da mídia e a velocidade da informação digital, apontadas por Kaplan, atuam como catalisadores, enviando "sinais de prevalência" (peer code) que podem normalizar visões extremas ou desinformação dentro de um grupo. 

No entanto, o otimismo de Morris reside no fato de que esses mesmos instintos podem ser usados para curar divisões. A guerra no Oriente Médio, desencadeada pelo assassinato de Khamenei, é um exemplo claro de como o "hero code" e o "ancestor code" podem ser manipulados por lideranças de ambos os lados para justificar o conflito em nome da defesa do grupo e de suas tradições. Ao mesmo tempo, líderes que buscam a paz precisariam apelar a esses mesmos instintos, criando novos símbolos de prestígio (heróis da paz) e novos rituais de reconciliação (tradições compartilhadas) para unir facções outrora antagônicas. A compreensão desses mecanismos psicológicos, argumenta Morris, é essencial para qualquer estratégia que almeje não apenas vencer guerras, mas construir uma paz duradoura. 

IV. A Síntese: A Crise Permanente como o Novo Normal 

A interseção das três obras nos permite compreender a complexidade do momento histórico. O assassinato do líder iraniano e a consequente crise no Golfo Pérsico podem ser analisados sob esta perspectiva tripla: 

  1. Sob a ótica de Kaplan, o evento é um exemplo perfeito de como uma ação localizada pode desencadear "tremores globais" – interrupção de cadeias de suprimentos, choques nos preços de energia (como o petróleo) e o aprofundamento das rivalidades entre grandes potências (EUA vs. Rússia/China), expondo a paralisia da ONU e a fragilidade da ordem internacional. É a materialização da "Terra Devastada" onde o perigo é onipresente e difuso. 

  1. Sob a ótica de Shah e Kirchhoff, a crise é um teste de estresse para a nova arquitetura de defesa. Como os enxames de drones e a inteligência artificial da Unit X se comportariam diante de um fechamento do Estreito de Ormuz? A guerra assimétrica do Irã, com mísseis e ataques a bases, é exatamente o tipo de ameaça híbrida para a qual a agilidade do Vale do Silício foi projetada para combater. A resposta a esta crise definirá o futuro da inovação militar. 

  1. Sob a ótica de Morris, a guerra inflama os instintos tribais em escala global. A população iraniana pode se unir em torno do "ancestor code" e do "hero code" em resposta ao ataque externo, enquanto em Israel e nos EUA, o discurso de guerra apela para a solidariedade interna e a desconfiança do "outro". Simultaneamente, na Nigéria, o impacto econômico do conflito reacende tensões internas e pode fortalecer identidades religiosas ou regionais. A crise revela como os instintos de solidariedade podem ser facilmente convertidos em instrumentos de divisão quando não há uma liderança que os canalize para um propósito inclusivo. 

Em última análise, os três livros convergem para um ponto central: a "crise permanente" não é uma aberração, mas a nova textura da realidade. Kaplan nos adverte que "the solutions lie in prioritizing order in governing systems, arguing that stability and historic liberalism rather than mass democracy per se will save global populations from an anarchic future". Shah e Kirchhoff demonstram que essa ordem, para ser viável, precisa incorporar a velocidade e a disrupção do setor de tecnologia, superando seus próprios "anticorpos" burocráticos. E Morris nos lembra que, no centro dessa turbulência, estão seres humanos governados por instintos ancestrais de pertencimento, que podem tanto destruir quanto reconstruir. 

A "Terra Devastada" de Eliot encontrou sua expressão máxima no campo de batalha high-tech da Ucrânia e na crise energética do Golfo. Navegar por este novo mundo exigirá não apenas generais e políticos, mas também engenheiros, psicólogos e, acima de tudo, líderes que compreendam a trágica, porém potencialmente heróica, condição de ser tribal em um planeta hiperconectado e em perpétua crise.