SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Quem está por trás da campanha que dissemina desconfiança da urna eletrônica às vésperas da votação?

 

Dois posts patrocinados com críticas às urnas eletrônicas
Legenda da foto,Posts patrocinados aparecem na biblioteca de anúncios da Meta e defendem formas de auditar votos
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Na reta final do primeiro turno das eleições no Brasil, aumentou o número de publicações que questionam a confiabilidade das urnas eletrônicas.

Elas circulam em vídeos no YouTube, posts no X, anúncios no Instagram e no Facebook e em mensagens encaminhadas por WhatsApp.

Ao analisar quem produz e distribui esse tipo de conteúdo, a BBC News Brasil encontrou até publicações patrocinadas de candidatos e pessoas ligadas a serviços de campanhas eleitorais declaradas ao TSE.

A Meta anunciou que suspenderá temporariamente "a criação, a edição e a veiculação de todos os anúncios sobre temas sociais, eleições ou política direcionados ao Brasil." A empresa diz que a mudança atende ao acordo feito junto ao TSE.

Parte dos anúncios que colocavam dúvida sobre as urnas também foi removida.

A reportagem partiu de dois levantamentos independentes para analisar o fenômeno das mensagens.

Um deles, do Instituto Democracia em Xeque (DX) identificou 1,3 mil publicações que classifica como ataques à integridade do processo eleitoral entre 15 de agosto e 20 de setembro.

Elas partiram de 873 perfis e somaram mais de 514 mil interações (ou seja: curtidas, comentários e compartilhamentos).

A média, segundo o levantamento, passou de 23 publicações por dia em agosto para quase 50 em setembro. O aumento também aparece nas interações diárias, que passaram de 8,4 mil em agosto para 18,6 mil em setembro.

No feriado da Independência, em 7 de setembro, o Democracia em Xeque registrou quase 58 mil interações.

Apesar do avanço, os ataques representavam uma parcela pequena das publicações políticas analisadas pelo instituto, inferior a 1% do material analisado.

Marcelo Alves, diretor de metodologia e inovação do instituto e professor da PUC-Rio, disse à BBC News Brasil que a persistência dessas mensagens ajuda a manter a suspeita sobre as urnas entre os apoiadores de um grupo político.

Ele descreve esse discurso como uma "salvaguarda discursiva", que pode ser acionada diante de uma derrota eleitoral ou de uma decisão judicial contrária aos interesses do grupo.

Levantamentos recentes têm indicado que uma parcela significativa da população desconfia das urnas.

Em fevereiro deste ano, pesquisa Genial/Quaest apontou que 43% desconfiam do sistema, segundo o jornal Valor Econômico. A maioria dos entrevistados (69%) que dizia desconfiar das urnas votou em Jair Bolsonaro no segundo turno das eleições em 2022, ainda de acordo com a pesquisa.

O outro levantamento feito a pedido da BBC é da Palver, empresa brasileira de tecnologia especializada em monitoramento e análise de redes sociais, que analisou mais de 100 mil mensagens transmitidas em quatro plataformas: WhatsApp, X/Twitter, Instagram e Telegram.

A empresa identificou as mensagens que tratavam de urnas eletrônicas e as classificou entre as que defendiam o sistema, as que o criticavam e as que apenas abordavam o tema.

Neste levantamento, o número de mensagens cresceu, mas a proporção das que desconfiam do sistema eleitoral oscilou para baixo no período analisado. No WhatsApp, por exemplo, passou de 79% para 68% das mensagens mapeadas.

Felipe Bailez, CEO da Palver, atribui parte dessa mudança ao crescimento das mensagens em defesa do sistema eleitoral.

Mas isso não quer dizer que os ataques tenham recuado em todos os lugares.

No X, a fatia de mensagens de desconfiança no total observado pela Palver subiu de 22% para 30%, enquanto a de defesa do sistema cresceu de 4% para 13%.

A presença desses discursos, diz Bailez, reflete a intensidade com que determinados grupos discutem o tema. "Quem desconfia da urna fala mais sobre esse assunto do que quem confia", afirma.

Bailez também identifica uma mudança no alvo das críticas. Na avaliação dele, os questionamentos ao funcionamento das urnas têm perdido espaço para a desconfiança no TSE e em seus ministros, em um debate que se aproxima das críticas ao Supremo Tribunal Federal.

'Urnas mágicas'

A discussão nas redes sobre urnas eletrônicas ganhou força em julho, quando Flávio Bolsonaro associou as eleições brasileiras à empresa Smartmatic, fabricante de tecnologia eleitoral usada em outros países.

Flávio disse que as máquinas brasileiras têm a mesma origem das urnas da Smartmatic e que um relatório da CIA teria mostrado que a empresa estaria envolvida em um plano de fraude do governo venezuelano nas eleições de 2012.

O TSE já desmentiu sobre o uso de urnas eletrônicas da empresa venezuelana.

Em nota em seu site, publicada originalmente em 2020 e replicada recentemente, o TSE esclareceu que a Smartmatic nunca forneceu urnas eletrônicas ou softwares utilizados em eleições no Brasil.

A campanha de Flávio nega, no entanto, que ele tenha questionado a integridade do sistema de votações no Brasil.

Em 2023, o ex-presidente Jair Bolsonaro, pai de Flávio, foi condenado pelo TSE em situaçào semelhante: em reunião com embaixadores, realizada no Palácio do Planalto em julho de 2022, repetiu suspeitas já desmentidas sobre eleições de 2018 e segurança das urnas eletrônicas.

Este discurso envolvendo a empresa venezuelana continua a ser repetido nas redes sociais e aplicativos de mensagem, mas não é o único.

Entre falas recorrentes estão as "urnas mágicas", a alegação falsa de fraude nas eleições em 2022 e a possibilidade de anulação da eleição ou de uma decisão "no tapetão".

"Lula não tem o povo, só as maquininhas mágicas", escreveu um perfil em 7 de setembro, captado pelo Instituto Democracia em Xeque, com 6,7 mil interações.

Para Alves, do DX, uma característica do debate deste ano é a reciclagem de alegações conhecidas. Afirmações já desmentidas reaparecem associadas a novos acontecimentos, como no caso da Smartmatic, que ele identifica em diferentes ciclos eleitorais.

O pesquisador também aponta uma mudança na linguagem depois das suspensões de contas e das punições relacionadas à eleição de 2022. Na avaliação dele, parte dos usuários passou a insinuar fraude por meio de expressões compreendidas pelos seus seguidores, sem fazer a acusação de forma explícita.

"Eles não vão dizer 'as urnas foram fraudadas', eles vão dizer 'essas caixinhas mágicas que inventam resultado, que mudam o resultado'", afirma.

A BBC News Brasil procurou a assessoria de Flávio Bolsonaro, mas não obteve retorno até o momento.

O candidato à presidência de direita Flávio Bolsonaro gesticula durante uma carreata com apoiadores em Goiânia, Brasil, em 27 de setembro de 2026
Legenda da foto,Flávio Bolsonaro disse que as máquinas brasileiras têm a mesma origem das urnas da Smartmatic e que um relatório da CIA teria mostrado que a empresa estaria envolvida em um plano de fraude do governo venezuelano nas eleições de 2012.

'Eu não garanto, tá, gente?'

A BBC News Brasil identificou, na Biblioteca de Anúncios da Meta (dona do Facebook, Instagram e Whatsapp), anúncios pagos que questionam a confiabilidade das urnas eletrônicas.

Um dos casos é da candidata ao Senado pelo PSD no Paraná, Cristina Graeml.

No vídeo, um corte de debate, ela rebate a afirmação de um candidato de que a urna eletrônica é séria: "Eu não garanto, tá, gente?".

Graeml alega que uma auditoria da eleição de 2014 teria concluído ser impossível auditar as urnas e defende o voto impresso.

"Quando não há possibilidade de auditagem, não há transparência", afirma.

A peça, identificada como propaganda eleitoral e encerrada com um pedido de voto, foi impulsionada de 16 a 18 de setembro e teve mais de 100 mil exibições.

A auditoria de 2014 foi solicitada pelo PSDB. Segundo o TSE, o partido não encontrou evidência de fraude.

A candidata disse, por meio de sua assessoria, que "reconhece que a Justiça Eleitoral dispõe atualmente de diferentes mecanismos de fiscalização e auditoria", mas que "a existência desses procedimentos, contudo, não impede que candidatos, partidos, especialistas e cidadãos defendam seu aperfeiçoamento ou a adoção de mecanismos adicionais de conferência."

Disse que "sua posição é favorável à existência de um registro físico conferível pelo eleitor e passível de auditoria, sempre preservado o sigilo do voto" e que não se trata de denúncia ou afirmação de ocorrência de fraude.

A publicação dela foi removida pela Meta por "não estar em conformidade" com suas normas de publicidade.

Há ainda publicações patrocinadas que defendem o que chamam de "voto auditável".

Um exemplo é do senador e candidato à reeleição pelo Progressistas em Santa Catarina, Esperidião Amin, que patrocinou um post, entre junho e agosto, em que diz que "defender o voto auditável é defender o direito do eleitor de ter segurança no processo."

A publicação foi vista pelo menos 150 mil vezes, segundo a biblioteca de anúncios da Meta.

Amin diz no texto que teve a oportunidade de reforçar essa defesa "como testemunha no julgamento de Anderson Torres, na ação do STF sobre a suposta tentativa de golpe."

Torres foi ministro da Justiça no governo de Jair Bolsonaro e secretário de Segurança no Distrito Federal, inclusive durante os ataques de 8 de janeiro de 2023.

Segundo a Polícia Federal, foi encontrada na casa dele uma minuta que sugeria a decretação de estado de Defesa para intervenção após a derrota de Bolsonaro nas eleições. Ele foi condenado a 24 anos de prisão.

O post de Amin também foi removido pela Meta. Procurado, ele não se manifestou.

A defesa do voto impresso já aparecia em outras publicações anteriores ao período eleitoral.

Em maio, Fernanda Barth (PL), hoje candidata a deputada federal pelo Rio Grande do Sul, impulsionou um vídeo em que contesta a segurança do sistema por não imprimir o voto.

Ela rebate uma declaração que atribui à ministra do STF Cármen Lúcia, de que a urna seria "impossível de fraudar":

"Bom, se a Pilili não cospe papelzinho, então essa frase não serve. Ela não é real."

Pilili é o mascote da urna eletrônica apresentado pelo TSE. Segundo a Biblioteca de Anúncios da Meta, o anúncio circulou no Facebook e no Instagram e teve mais de 150 mil exibições.

Os candidatos foram acionados pela BBC News Brasil por meio dos contatos que disponibilizaram em suas redes sociais, mas não responderam até o fechamento desta reportagem. O espaço segue aberto.

"Não é crime simplesmente manifestar dúvidas sobre o sistema eletrônico de votação", afirma Nicolo Zingales, professor da FGV Direito Rio.

Segundo ele, a situação é diferente quando uma publicação apresenta como fato uma informação falsa ou sem comprovação técnica.

Zingales cita como exemplo a alegação de que a urna eletrônica não pode ser auditada: essa afirmação, diz, pode ser verificada nas informações publicadas pelo TSE e, dependendo do caso, levar à remoção do conteúdo e à apuração de responsabilidades.

Fernanda Bath em publicidade na Meta
Legenda da foto,Candidata a deputada federal critica mascote das eleições 2026, que avalia como ofensivo

Meta remove posts pagos e suspende novos anúncios

Meta suspendeu anúncio de candidata ao Senado e outros posts que colocavam dúvida sobre urnas eletrônicas, alegando que não seguem padrões
Legenda da foto,Meta suspendeu anúncio de candidata ao Senado e outros posts que colocavam dúvida sobre urnas eletrônicas, alegando que não seguem padrões

A propaganda política paga está sujeita a regras específicas do TSE.

As regras exigem que plataformas mantenham uma biblioteca de anúncios políticos com dados sobre conteúdo, gastos, alcance e responsáveis pelo pagamento.

A resolução também estabelece medidas contra a circulação de informações falsas ou gravemente descontextualizadas capazes de atingir a integridade da eleição.

Alves, do DX, defende maior responsabilidade das plataformas pelo conteúdo que distribuem mediante pagamento. Ele destaca que, nesses casos, as empresas também recebem dinheiro para ampliar a circulação dessas mensagens.

A Meta afirma que exige a verificação da identidade dos anunciantes políticos, mantém esses anúncios em sua Biblioteca de Anúncios e remove conteúdos que violem suas regras.

A empresa também anunciou, em resposta à BBC News Brasil, que suspenderá temporariamente a criação, a edição e a veiculação de todos os anúncios sobre temas sociais, eleições ou política direcionados ao país.

A suspensão, diz a empresa, atende ao acordo feito com o TSE.

"Em conformidade com o Artigo 16 da Portaria nº 463/2026/TSE, bem como o Artigo 29, § 11, da Resolução nº 23.610/2019/TSE, a Meta está preparada para implementar as restrições do período de silêncio eleitoral, impedindo que candidatos e partidos veiculem anúncios do tipo SIEP no Brasil com base nos períodos designados pela Regulamentação Eleitoral."

A empresa diz que a medida será aplicada em ambos os turnos de votação, entre 2 e 5 de outubro de 2026 e 23 e 26 de outubro de 2026.

"Durante esses períodos, além de desativar todos os Anúncios SIEP no Brasil, a Meta monitorará anúncios em veiculação no Brasil, através de detecção automatizada e revisão humana, buscando anúncios que possam ter sido criados em violação à nossa política de publicidade SIEP descrita acima e que possam tentar contornar os períodos de silêncio eleitoral."

'Urna eletrônica, você confia?'

Homem aparece atrás de uma urna eletrônica e com a pergunta "Você confia?" exibida na tela, ao lado do logotipo da empresa GoBuzz
Legenda da foto,Página de prestador de serviço em campanhas eleitorais publicou vídeos em que questiona se as espectadores confiam na urna eletrônica

Entre 20 e 21 de setembro, uma empresa que presta serviços a candidatos na eleição atual, a GoBuzz Serviços de Internet, pagou para divulgar um vídeo apresentado por seu sócio-administrador, Rafael Bergamo Gonçalves.

A chamada pergunta: "Urna eletrônica, você confia?"

No vídeo, publicado na página Rafa GoBuzz no Facebook em 20 de setembro, ele afirma: "É claro que nenhum sistema é 100%".

Rafael propõe então que a urna imprima o voto e permita ao eleitor conferi-lo.

Ao menos duas campanhas declararam gastos com a empresa GoBuzz ao TSE até o momento: Clau Camargo (PSD-SP), apresenta uma despesa de R$ 11.853 com a agência. A campanha de Jeferson Modesto (PL-SP) declarou outra, de R$ 300.

Não há evidência de participação dos candidatos no anúncio sobre urnas.

Rafael disse à BBC que o vídeo foi uma iniciativa sua, publicada em seu perfil pessoal, "com o objetivo de propor uma discussão sobre segurança, transparência e mecanismos adicionais de conferência do sistema de votação."

Ele afirmou que o impulsionamento não teve "qualquer participação financeira, solicitação ou orientação de clientes."

Reforçou ainda que confia no sistema de votação utilizado atualmente no Brasil e que não tem conhecimento de evidências que o levem a afirmar que as eleições realizadas por meio das urnas eletrônicas tenham sido fraudadas.

"O que defendo é que sistemas de votação devem ser permanentemente aprimorados em seus mecanismos de segurança, proteção, auditoria e transparência. É uma evolução natural de qualquer sistema de segurança", afirma.

A candidata Clau Camargo disse, em nota, que confia "plenamente no funcionamento legal das urnas eletrônicas e não se responsabiliza por declarações de terceiros sobre o tema."

A reportagem procurou o candidato Jeferson Modesto, mas não obteve resposta até o momento.

TSE contesta necessidade de voto impresso

Urna eletrônica sobre mesa, com a palavra FIM exibida na tela
Legenda da foto,TSE faz demonstração de como votar na urna eletrônica na Rodoviária de Brasília

O TSE contesta a necessidade de voto impresso.

O tribunal diz que a votação no Brasil é um processo "plenamente auditável" e que a adoção do voto impresso não é necessária nem viável.

O tribunal reforça que a urna não tem nenhum tipo de conexão com a internet ou rede de dados.

Em uma entrevista publicada em agosto de 2026 no site do próprio TSE, o secretário de Tecnologia da Informação Júlio Valente diz que, em 30 anos, nunca surgiu evidência de fraude no processo eleitoral, diferentemente do modelo de votação por meio de cédulas de papel, que existia antes.

"No modelo de votação por cédula, nós temos casos comprovados e historizados de fraudes no processo de coleta", disse.

"Quando as urnas eletrônicas foram incluídas em 1996, desde então, nós não temos nenhum caso de fraude em nenhum desses processos."

Em nota à BBC News Brasil sobre as publicações citadas na reportagem e nos levantamentos de dados, o TSE disse que "não cabe ao Tribunal antecipar interpretações sobre a norma ou se manifestar sobre casos concretos."

Piketty prevê fim do dólar como moeda global: 'Muito em breve'

 

Piketty gesticula enquanto fala no microfone, aparentemente em evento em frente a construção histórica
Legenda da foto,Para Thomas Piketty, mundo piorou 'em muitos sentidos' nos últimos cinco anos
    • Author,Vinícius Mendes
    • Role,Da BBC News Brasil em São Paulo
  • Published
  • Tempo de leitura: 13 min

Cinco anos atrás, uma percepção do economista francês Thomas Piketty, 55 anos, rodou o planeta. Ela defendia que o mundo estava em condições parecidas às que desaguaram na Revolução Francesa, no fim do século 18: uma desigualdade extrema em que elites riquíssimas (a nobreza daquela França) viviam às custas de uma multidão de pessoas em situações precárias.

Era mais um alerta do que uma comparação, porque, sempre que isso aconteceu na história, o resultado foi uma grave crise política capaz de mudar o rumo das coisas.

"Em muitos sentidos, [a situação] piorou" nesse intervalo de meia década, sentencia ele agora à BBC News Brasil.

"Estamos em um período repleto de distopias. Os tecnobilionários, os tecnonacionalistas estão elaborando visões malucas sobre o futuro", diz ele, alertando para "uma visão trumpista do futuro que não está funcionando, que não resolve problemas de desenvolvimento, de meio ambiente, que precisamos resolver".

Piketty retornou à cena global em junho com um conjunto audacioso de propostas reunidas no Relatório de Justiça Global. É o resultado do esforço conjunto de uma equipe liderada por ele, no World Inequality Lab, da Paris School of Economics, na capital francesa, que se debruçou sobre dados sociais e econômicos de vários países ao longo dos últimos anos.

Piketty prevê fim do dólar como moeda global: 'Muito em breve'

Piketty gesticula enquanto fala no microfone, aparentemente em evento em frente a construção histórica
Legenda da foto,Para Thomas Piketty, mundo piorou 'em muitos sentidos' nos últimos cinco anos
    • Author,Vinícius Mendes
    • Role,Da BBC News Brasil em São Paulo
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Cinco anos atrás, uma percepção do economista francês Thomas Piketty, 55 anos, rodou o planeta. Ela defendia que o mundo estava em condições parecidas às que desaguaram na Revolução Francesa, no fim do século 18: uma desigualdade extrema em que elites riquíssimas (a nobreza daquela França) viviam às custas de uma multidão de pessoas em situações precárias.

Era mais um alerta do que uma comparação, porque, sempre que isso aconteceu na história, o resultado foi uma grave crise política capaz de mudar o rumo das coisas.

"Em muitos sentidos, [a situação] piorou" nesse intervalo de meia década, sentencia ele agora à BBC News Brasil.

"Estamos em um período repleto de distopias. Os tecnobilionários, os tecnonacionalistas estão elaborando visões malucas sobre o futuro", diz ele, alertando para "uma visão trumpista do futuro que não está funcionando, que não resolve problemas de desenvolvimento, de meio ambiente, que precisamos resolver".

Piketty retornou à cena global em junho com um conjunto audacioso de propostas reunidas no Relatório de Justiça Global. É o resultado do esforço conjunto de uma equipe liderada por ele, no World Inequality Lab, da Paris School of Economics, na capital francesa, que se debruçou sobre dados sociais e econômicos de vários países ao longo dos últimos anos.

E aí que, para ele, o Brasil exerce um papel central. Em 2024, durante a reunião do G20, no Rio de Janeiro, o país conseguiu incluir uma menção inédita à importância de tributar os super-ricos no comunicado final da Cúpula, apesar da dura resistência argentina.

Nos fóruns que se seguiram, a diplomacia brasileira seguiu reforçando o projeto, como nas rodadas de negociação, no âmbito da ONU, por um sistema tributário internacional. A próxima reunião do grupo será realizada entre novembro e dezembro, no Quênia.

"Será muito triste para o próprio país tanto quanto para o mundo se o Brasil seguir na direção desse nacionalismo trumpista em algumas semanas [nas eleições]. Precisamos do Brasil contribuindo para reconstruir o sistema monetário, econômico internacional em um sentido mais inclusivo, igualitário, democrático e consciente sobre o clima", diz.

A seguir, trechos da entrevista que Thomas Piketty concedeu à BBC News Brasil alguns dias antes do primeiro turno da eleição presidencial brasileira.

BBC News Brasil - Como acomodar pretensões globais tão robustas em um mundo atravessado por conflitos e por Estados nacionais mais voltados aos seus interesses particulares?

Thomas Piketty - Estamos em um período repleto de distopias. Os tecnobilionários, os tecnonacionalistas estão elaborando visões malucas sobre o futuro, como instalar data centers em todos os lugares possíveis — no planeta Terra ou em Marte — e estão fazendo guerras para extrair ainda mais combustíveis fósseis pelo mundo. É uma visão trumpista do futuro que não está funcionando, que não resolve problemas de desenvolvimento, de meio ambiente, que precisamos resolver. É hora de discutir uma outra perspectiva. Não podemos ficar só assistindo a isso, pessimistas, esperando para ver o que acontecerá.

Além do mais, a agenda tecnonacionalista, tecnocapitalista, sequer durará para sempre. Não vai entregar o que promete, embora tenha um longo caminho pela frente. Vamos ver o que acontece nas eleições (de meio de mandato) nos Estados Unidos [em novembro] e no Brasil.

Corredor de um datacenter
Legenda da foto,'Tecnobilionários' estão tentando espalhar data centers do planeta Terra a Marte, afirma Piketty

BBC News Brasil - Alguns anos atrás, o senhor disse que a situação do mundo era semelhante àquela que culminou na Revolução Francesa. Algo mudou desde então?

Piketty - Eu diria que, em muitos sentidos, ela piorou. Mas sejamos otimistas: a longo prazo, as forças democráticas e as lutas sociais estarão prontas para transformar as instituições e fazer do mundo um lugar mais igualitário e próspero. É perfeitamente possível seguir nessa direção.

BBC News Brasil - Entre todas as propostas, há alguma que o senhor considera mais urgente?

Piketty - A ideia do relatório é pensar em que tipo de prosperidade compartilhada nós podemos ter em um planeta finito. Se todos os países alcançassem um alto nível de prosperidade no futuro, como o mundo seria? Essa é a questão que estamos fazendo ali. Mas depende de muitas condições. A transformação do sistema energético é uma delas. Outra é uma mudança estrutural nos modelos de produção. É preciso ainda diminuir a desigualdade global para conseguirmos arcar com investimentos climáticos, educacionais e de acesso à saúde.

Essas propostas estão alinhadas ao que países do Sul global têm dito nos últimos anos. Basta lembrarmos que, na reunião do G20, em 2024, o presidente Lula propôs o imposto global sobre as fortunas dos bilionários que foi apoiada pela África do Sul e por vários outros países. Claro que não é suficiente. Era difícil convencer os 20 países que estavam ali, mas o fato de ter sido discutido no âmbito do G20 foi interessante. Mostra que essa demanda por justiça econômica e climática está presente.

BBC News Brasil - O senhor acha que a proposta de taxar fortunas tem possibilidade de se concretizar?

Piketty - Está claro, para mim, que, em um futuro relativamente próximo, haverá um grupo de países se movendo juntos para taxar os bilionários e para criar um sistema monetário internacional, porque eles sabem que o modelo atual não está funcionando.

BBC News Brasil - Por quê?

Piketty - A economia do Estados Unidos está ficando pequena em comparação ao tamanho da economia global. Ela era maior no contexto do pós-Segunda Guerra Mundial, mas vem diminuindo gradativamente — e ficará cada vez menor. Logo, não é mais possível ter o dólar operando como moeda internacional em um mundo em que a economia dos EUA é apenas uma pequena fração do PIB global. Essa não é uma notícia tão boa ao mundo, mas tampouco é para os Estados Unidos, porque esse sistema está sobrevalorizando o dólar e contribuindo para o enorme déficit comercial deles.

E, então, sabemos: se há desequilíbrios internacionais, vem consequências geopolíticas. As políticas atuais de Donald Trump são só uma reação que não estão resolvendo esse problema.

BBC News Brasil - Por serem políticas bélicas?

Piketty - A mensagem dele é basicamente a seguinte: "Eu vou colocar as minhas armas na mesa, pegar petróleo na Venezuela, no Irã ou na Groelândia e reduzir o meu déficit interno". Mas nós acreditamos em uma mudança estrutural no sistema monetário internacional.

Em uma economia mundial multipolar, isto é, em que não há um país com hegemonia sobre o PIB global, temos que ter uma moeda internacional baseada em uma cesta de moedas — dos EUA, da China, da Índia, do Brasil, seja lá de quem for — que colabore para financiar o desenvolvimento dos países e para fazer investimentos climáticos. Isso não será possível com o sistema de hoje. E eu acredito que isso acontecerá mais cedo do que as pessoas imaginam.

Piketty sorrindo, sentado e com livro apoiado no colo
Legenda da foto,Piketty ganhou visibilidade nos anos 2010 com o livro O capital no século XXI

BBC News Brasil - O senhor mencionou a proposta de criar uma moeda internacional administrada pela ONU, mas vários líderes mundiais, como o próprio Lula, acabaram de criticar toda a estrutura da instituição na Assembleia Geral, em Nova York. Eles dizem que ela tem sido incapaz de "manter o mundo em ordem". Para esse objetivo, prosperar, seria necessário criar uma entidade global nova ou bastaria reformar a ONU?

Piketty - Seria melhor se houvesse um consenso, entre membros da ONU, de transformá-la — e também o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. Como não é viável, seria necessário, pelo menos durante um período intermediário, criar o que chamamos de "coalizão incompleta", isto é, uma coalizão de países que não cubra o mundo inteiro — em alguns casos não cubra mesmo os Estados Unidos —, mas que consiga ir na direção certa.

BBC News Brasil - Teria um exemplo de como isso funcionaria?

Piketty - Está acontecendo agora uma convenção, no âmbito da ONU, de cooperação global para um imposto sobre os ricos. Haverá uma sessão de negociações entre representantes dos governos em Nairóbi, no Quênia, em novembro, em que o Brasil participará ao lado de outros países que já se mostraram favoráveis.

A agenda existe para incluir mais atores no sistema tributário internacional — em especial países do Sul global que não querem ver as riquezas serem extraída dos mais pobres em benefício de interesses econômicos das economias do Norte. É uma questão de soberania. Essa é apenas uma das questões.

Nós já sabemos que alguns países, em particular os Estados Unidos, vão votar contra a convenção, mas ela está sendo construída para adotar a fórmula da maioria, o que será muito importante em comparação a outras convenções, como a do clima, que se baseia na unanimidade.

BBC News Brasil - As convenções do clima (COPs), então, não funcionam mais?

Piketty - Eu não diria que são um fracasso, mas tampouco são um tremendo sucesso: ainda que ocorram anualmente, elas não conseguem tomar decisões, porque se baseiam nesse modelo de unanimidade.

Esse desenho do projeto da convenção tributária da ONU será definido no ano que vem, mas já está claro que as decisões serão tomadas com base na maioria qualificada, porque é importante levar em conta os tamanhos das populações nacionais. Não dá para ter países pequenos, por exemplo, com os direitos de voto iguais a um Brasil, mas tampouco queremos ver os países ricos capturando esse processo.

BBC News Brasil - Mas e se países ricos e grandes, como os EUA, não quiserem participar?

Piketty - Nós sabemos que os EUA não vão querer participar, tanto quanto sabemos que, para a reforma do sistema monetário internacional, eles seriam necessários. Mas a proporção da população norte-americana em relação à global, ou mesmo a participação deles no PIB mundial, já está começando a cair. Eles podem perder seu poder de veto.

Aliás, sabe uma coisa que ninguém fala e nós destacamos no relatório? O FMI tem uma regra de que, se um país reúne 15% dos direitos de voto, seja pela população que tem ou pelo tamanho da economia, pode vetar qualquer decisão importante, como a criação de "direitos especiais de saque" (Special Drawing Rights, SDRs em inglês), que são, nada mais nada menos, que o embrião de uma... moeda internacional. Mas, como os EUA têm esses 15% de direitos de voto, eles vetam. Os governos republicanos sempre o fizeram.

Mas, após a crise financeira de 2008 e da pandemia, governos democratas permitiram ao FMI criar alguns SDRs distribuídos pelo PIB do país ou pela proporção dos direitos de votos. Não foi um grande avanço, porque eu entendo que é melhor distribuí-los pelo tamanho da população de cada país ou os danos climáticos que ele gera.

BBC News Brasil - Isso mudará, então, quando os EUA perderem o poder de veto?

Piketty - Eles vão perder esse poder de veto muito em breve, porque, se hoje os EUA detêm cerca de 15% do PIB mundial e, por consequência, dos direitos de voto no FMI, logo eles vão cair para perto de 10%. Eu diria que isso vai acontecer pelos próximos 10 ou 20 anos. Poderemos ver uma mudança na estrutura do fundo.

Então, para responder à pergunta lá do início: precisamos ser muito pragmáticos. Em alguns casos, será necessário criar novas instituições com aquela "coalizão incompleta", como para cooperação tributária internacional ou, talvez, para criar um imposto global sobre a riqueza para custear as reparações climáticas, por exemplo.

Esse nervosismo que vemos, hoje, em Washington, para dizer o mínimo, tem a ver com o fato de os EUA estarem perdendo o controle sobre o mundo. Daí, os nacionalistas, como Trump, reagem desesperados, colocando as armas na mesa. Elas são mais um sinal de fraqueza do que de força.

Trump com olhar sério, observando algo dentro de salão
Legenda da foto,'A visão trumpista do futuro não está funcionando', avalia o economista francês

BBC News Brasil - Qual é o papel do Brasil em tudo isso?

Piketty - Países como o Brasil têm o papel de remoldar o balanço global de poder, de colocar essa conversa global na direção certa. O Brasil contribuiu muito com isso no passado, e será muito triste para o próprio país tanto quanto para o mundo se o Brasil seguir na direção do nacionalismo trumpista daqui algumas semanas.

Precisamos do Brasil contribuindo para reconstruir o sistema monetário, econômico internacional em um sentido muito mais inclusivo, igualitário, democrático e consciente sobre o clima. Sob o governo Lula, houve um papel importante de propor um imposto a bilionários na agenda do G20. Ela quase foi adiante. Eu acredito que, se houvesse um apoio mais firme da Índia ali, em particular, teria se criado uma coalizão do Sul global que tornaria a resistência do Norte a ficar muito mais difícil. Mesmo sem esse apoio, muitos países europeus já ficaram constrangidos em negar a proposta. Não apoiaram, mas não souberam dizer "não".

BBC News Brasil - Por quê?

Piketty - Porque é uma situação difícil para eles. De um lado, eles não querem pagar pela reparação climática, mas, de outro, eles sabem que carregam a responsabilidade histórica enorme das suas emissões de carbono. É impossível negá-la. Mais do que isso: eles sabem que não podem cobrar mais impostos — para pagar reparação — de suas classes trabalhadores ou das suas classes médias. Logo, em algum momento, terão que aceitar que são os mais ricos, em especial bilionários, os que deverão arcar com essa conta. Isso vale, é importante dizer, tanto para bilionários do Norte quanto do Sul. Se um país tal como o Brasil — ou como uma África do Sul, uma Índia, uma Indonésia — coloca pressão sobre as questões climáticas ou de justiça econômica, fica impossível resistir.

Eu vejo o Brasil pronto para articular isso, não só como parte do Sul, mas também por ser um país grande. Será triste se ele perder a dimensão internacionalista, progressista e colocar, no lugar, uma visão estreita, tecnocapitalista e tecnonacionalista. Ela não vai resolver os problemas do mundo nem os do Brasil. Eu acho, inclusive, que essa agenda já vai ser derrotada na eleição que se aproxima nos EUA e nos próximos anos também. Assim, vai ser estranho o Brasil se mover em uma direção errada no momento errado.

BBC News Brasil - Ao mesmo tempo, as agendas das direitas radicais globais se baseiam no mérito individual como verdadeiro produtor de justiça econômica, e não a redistribuição de renda (defendida pela esquerda). Essas agendas são populares – como se vê no Brasil, por exemplo. (Para a esquerda), não seria necessário fazer a agenda da redistribuição voltar a ter apelo popular?

Piketty - A esquerda perdeu suas ambições de fazer propostas para reduzir desigualdades, para redistribuir a riqueza. Veio um consenso em torno da liberalização dos mercados e de diminuir a progressividade dos impostos, o que prejudicou muito as classes com renda baixa tanto quanto as médias. Em muitos casos, esquerdas e centro-esquerdas estão se associando a políticas pró-corporações. É uma abertura para retóricas nacionalistas. Às vezes, elas são mais pró-capitalismo que os próprios partidos centristas. Elas fazem isso para atrair eleitores das classes baixas, médias, e enfatizando a dimensão nacionalista que, como eu disse, não vai resolver os problemas.

Inclusive, nem os eleitores estão tão confiantes na agenda trumpista. Eles sabem que os partidos estão propondo um mesmo modelo de desenvolvimento que não integra a desigualdade, mas não veem alternativa. Essa é a principal explicação.

BBC News Brasil - É uma questão de repetição das propostas, portanto?

Piketty - Se você passa anos a fio dizendo para a opinião pública que não há políticas econômicas alternativas, que os governos precisam todos seguir a mesma agenda pró-corporações e que a única coisa que eles podem realmente fazer é controlar suas fronteiras, depois de 20, 30 anos, o resultado é um debate político que se resume em controle fronteiriço e identidade.

Abandonamos as discussões sobre políticas econômicas, sobre a estrutura de classes, sobre as desigualdades socioeconômicos. Mas, se a gente reabri-las, as coisas vão começar a mudar, porque, na prática, se você olhar para os governos nacionalistas no poder hoje, depois de alguns anos a opinião pública já não estará tão satisfeita com eles. Basta olhar para as taxas de popularidade de Trump nos EUA. É isso que me deixa otimista, a longo prazo, com a volta de soluções internacionalistas, democráticas e mais igualitárias — como as que apresentamos no relatório. Não será fácil.

BBC News Brasil - Mas haverá algum ponto de ruptura, na sua opinião?

Piketty - Não dá para prever que tipo de catástrofe política, que tipo de crise levará à transição, mas é importante discutir como queremos nos reorganizar antes que aconteça. Temos que estar prontos para, no momento, apresentar uma alternativa.

Eu escrevi um livro sobre história da desigualdade (Uma breve história da igualdade, Intrínseca, 2022) e, uma coisa que eu aprendi é que, em períodos críticos, em que as sociedades precisam mudar o sistema, fazer mudanças institucionais, elas devem estar prontas para fazê-lo. Foi assim que surgiram a seguridade social, os serviços públicos, a educação universal e gratuita, o sufrágio, os direitos trabalhistas, a decolonização, todas coisas que criaram mais prosperidade junto a mais igualdade. Não será fácil. Passaremos por mais crises, catástrofes, batalhas pelo poder, mas, no fim do dia, o caminho em direção à igualdade, democracia e prosperidade vai prevalecer.

BBC News Brasil - Em um cenário em que nada disso aconteça, em que as propostas do relatório nunca sejam implementadas, como o senhor vê o mundo daqui a 50 anos?

Piketty - Se o curso não mudar, o mundo ficará mais desigual e mais quente. Por consequência, mais instável que o atual. Mas esse futuro distópico não vai acontecer, eu acredito nisso. As forças tecnonacionalistas até podem ganhar algumas eleições, mas, como elas não sabem como resolver os problemas estruturais do mundo, o futuro será multipolar com uma prevalência das forças democráticas. E isso, principalmente, pela pressão que sairá do Sul global.E aí que, para ele, o Brasil exerce um papel central. Em 2024, durante a reunião do G20, no Rio de Janeiro, o país conseguiu incluir uma menção inédita à importância de tributar os super-ricos no comunicado final da Cúpula, apesar da dura resistência argentina.

Nos fóruns que se seguiram, a diplomacia brasileira seguiu reforçando o projeto, como nas rodadas de negociação, no âmbito da ONU, por um sistema tributário internacional. A próxima reunião do grupo será realizada entre novembro e dezembro, no Quênia.

"Será muito triste para o próprio país tanto quanto para o mundo se o Brasil seguir na direção desse nacionalismo trumpista em algumas semanas [nas eleições]. Precisamos do Brasil contribuindo para reconstruir o sistema monetário, econômico internacional em um sentido mais inclusivo, igualitário, democrático e consciente sobre o clima", diz.

A seguir, trechos da entrevista que Thomas Piketty concedeu à BBC News Brasil alguns dias antes do primeiro turno da eleição presidencial brasileira.

BBC News Brasil - Como acomodar pretensões globais tão robustas em um mundo atravessado por conflitos e por Estados nacionais mais voltados aos seus interesses particulares?

Thomas Piketty - Estamos em um período repleto de distopias. Os tecnobilionários, os tecnonacionalistas estão elaborando visões malucas sobre o futuro, como instalar data centers em todos os lugares possíveis — no planeta Terra ou em Marte — e estão fazendo guerras para extrair ainda mais combustíveis fósseis pelo mundo. É uma visão trumpista do futuro que não está funcionando, que não resolve problemas de desenvolvimento, de meio ambiente, que precisamos resolver. É hora de discutir uma outra perspectiva. Não podemos ficar só assistindo a isso, pessimistas, esperando para ver o que acontecerá.

Além do mais, a agenda tecnonacionalista, tecnocapitalista, sequer durará para sempre. Não vai entregar o que promete, embora tenha um longo caminho pela frente. Vamos ver o que acontece nas eleições (de meio de mandato) nos Estados Unidos [em novembro] e no Brasil.

Corredor de um datacenter
Legenda da foto,'Tecnobilionários' estão tentando espalhar data centers do planeta Terra a Marte, afirma Piketty

BBC News Brasil - Alguns anos atrás, o senhor disse que a situação do mundo era semelhante àquela que culminou na Revolução Francesa. Algo mudou desde então?

Piketty - Eu diria que, em muitos sentidos, ela piorou. Mas sejamos otimistas: a longo prazo, as forças democráticas e as lutas sociais estarão prontas para transformar as instituições e fazer do mundo um lugar mais igualitário e próspero. É perfeitamente possível seguir nessa direção.

BBC News Brasil - Entre todas as propostas, há alguma que o senhor considera mais urgente?

Piketty - A ideia do relatório é pensar em que tipo de prosperidade compartilhada nós podemos ter em um planeta finito. Se todos os países alcançassem um alto nível de prosperidade no futuro, como o mundo seria? Essa é a questão que estamos fazendo ali. Mas depende de muitas condições. A transformação do sistema energético é uma delas. Outra é uma mudança estrutural nos modelos de produção. É preciso ainda diminuir a desigualdade global para conseguirmos arcar com investimentos climáticos, educacionais e de acesso à saúde.

Essas propostas estão alinhadas ao que países do Sul global têm dito nos últimos anos. Basta lembrarmos que, na reunião do G20, em 2024, o presidente Lula propôs o imposto global sobre as fortunas dos bilionários que foi apoiada pela África do Sul e por vários outros países. Claro que não é suficiente. Era difícil convencer os 20 países que estavam ali, mas o fato de ter sido discutido no âmbito do G20 foi interessante. Mostra que essa demanda por justiça econômica e climática está presente.

BBC News Brasil - O senhor acha que a proposta de taxar fortunas tem possibilidade de se concretizar?

Piketty - Está claro, para mim, que, em um futuro relativamente próximo, haverá um grupo de países se movendo juntos para taxar os bilionários e para criar um sistema monetário internacional, porque eles sabem que o modelo atual não está funcionando.

BBC News Brasil - Por quê?

Piketty - A economia do Estados Unidos está ficando pequena em comparação ao tamanho da economia global. Ela era maior no contexto do pós-Segunda Guerra Mundial, mas vem diminuindo gradativamente — e ficará cada vez menor. Logo, não é mais possível ter o dólar operando como moeda internacional em um mundo em que a economia dos EUA é apenas uma pequena fração do PIB global. Essa não é uma notícia tão boa ao mundo, mas tampouco é para os Estados Unidos, porque esse sistema está sobrevalorizando o dólar e contribuindo para o enorme déficit comercial deles.

E, então, sabemos: se há desequilíbrios internacionais, vem consequências geopolíticas. As políticas atuais de Donald Trump são só uma reação que não estão resolvendo esse problema.

BBC News Brasil - Por serem políticas bélicas?

Piketty - A mensagem dele é basicamente a seguinte: "Eu vou colocar as minhas armas na mesa, pegar petróleo na Venezuela, no Irã ou na Groelândia e reduzir o meu déficit interno". Mas nós acreditamos em uma mudança estrutural no sistema monetário internacional.

Em uma economia mundial multipolar, isto é, em que não há um país com hegemonia sobre o PIB global, temos que ter uma moeda internacional baseada em uma cesta de moedas — dos EUA, da China, da Índia, do Brasil, seja lá de quem for — que colabore para financiar o desenvolvimento dos países e para fazer investimentos climáticos. Isso não será possível com o sistema de hoje. E eu acredito que isso acontecerá mais cedo do que as pessoas imaginam.

Piketty sorrindo, sentado e com livro apoiado no colo
Legenda da foto,Piketty ganhou visibilidade nos anos 2010 com o livro O capital no século XXI

BBC News Brasil - O senhor mencionou a proposta de criar uma moeda internacional administrada pela ONU, mas vários líderes mundiais, como o próprio Lula, acabaram de criticar toda a estrutura da instituição na Assembleia Geral, em Nova York. Eles dizem que ela tem sido incapaz de "manter o mundo em ordem". Para esse objetivo, prosperar, seria necessário criar uma entidade global nova ou bastaria reformar a ONU?

Piketty - Seria melhor se houvesse um consenso, entre membros da ONU, de transformá-la — e também o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. Como não é viável, seria necessário, pelo menos durante um período intermediário, criar o que chamamos de "coalizão incompleta", isto é, uma coalizão de países que não cubra o mundo inteiro — em alguns casos não cubra mesmo os Estados Unidos —, mas que consiga ir na direção certa.

BBC News Brasil - Teria um exemplo de como isso funcionaria?

Piketty - Está acontecendo agora uma convenção, no âmbito da ONU, de cooperação global para um imposto sobre os ricos. Haverá uma sessão de negociações entre representantes dos governos em Nairóbi, no Quênia, em novembro, em que o Brasil participará ao lado de outros países que já se mostraram favoráveis.

A agenda existe para incluir mais atores no sistema tributário internacional — em especial países do Sul global que não querem ver as riquezas serem extraída dos mais pobres em benefício de interesses econômicos das economias do Norte. É uma questão de soberania. Essa é apenas uma das questões.

Nós já sabemos que alguns países, em particular os Estados Unidos, vão votar contra a convenção, mas ela está sendo construída para adotar a fórmula da maioria, o que será muito importante em comparação a outras convenções, como a do clima, que se baseia na unanimidade.

BBC News Brasil - As convenções do clima (COPs), então, não funcionam mais?

Piketty - Eu não diria que são um fracasso, mas tampouco são um tremendo sucesso: ainda que ocorram anualmente, elas não conseguem tomar decisões, porque se baseiam nesse modelo de unanimidade.

Esse desenho do projeto da convenção tributária da ONU será definido no ano que vem, mas já está claro que as decisões serão tomadas com base na maioria qualificada, porque é importante levar em conta os tamanhos das populações nacionais. Não dá para ter países pequenos, por exemplo, com os direitos de voto iguais a um Brasil, mas tampouco queremos ver os países ricos capturando esse processo.

BBC News Brasil - Mas e se países ricos e grandes, como os EUA, não quiserem participar?

Piketty - Nós sabemos que os EUA não vão querer participar, tanto quanto sabemos que, para a reforma do sistema monetário internacional, eles seriam necessários. Mas a proporção da população norte-americana em relação à global, ou mesmo a participação deles no PIB mundial, já está começando a cair. Eles podem perder seu poder de veto.

Aliás, sabe uma coisa que ninguém fala e nós destacamos no relatório? O FMI tem uma regra de que, se um país reúne 15% dos direitos de voto, seja pela população que tem ou pelo tamanho da economia, pode vetar qualquer decisão importante, como a criação de "direitos especiais de saque" (Special Drawing Rights, SDRs em inglês), que são, nada mais nada menos, que o embrião de uma... moeda internacional. Mas, como os EUA têm esses 15% de direitos de voto, eles vetam. Os governos republicanos sempre o fizeram.

Mas, após a crise financeira de 2008 e da pandemia, governos democratas permitiram ao FMI criar alguns SDRs distribuídos pelo PIB do país ou pela proporção dos direitos de votos. Não foi um grande avanço, porque eu entendo que é melhor distribuí-los pelo tamanho da população de cada país ou os danos climáticos que ele gera.

BBC News Brasil - Isso mudará, então, quando os EUA perderem o poder de veto?

Piketty - Eles vão perder esse poder de veto muito em breve, porque, se hoje os EUA detêm cerca de 15% do PIB mundial e, por consequência, dos direitos de voto no FMI, logo eles vão cair para perto de 10%. Eu diria que isso vai acontecer pelos próximos 10 ou 20 anos. Poderemos ver uma mudança na estrutura do fundo.

Então, para responder à pergunta lá do início: precisamos ser muito pragmáticos. Em alguns casos, será necessário criar novas instituições com aquela "coalizão incompleta", como para cooperação tributária internacional ou, talvez, para criar um imposto global sobre a riqueza para custear as reparações climáticas, por exemplo.

Esse nervosismo que vemos, hoje, em Washington, para dizer o mínimo, tem a ver com o fato de os EUA estarem perdendo o controle sobre o mundo. Daí, os nacionalistas, como Trump, reagem desesperados, colocando as armas na mesa. Elas são mais um sinal de fraqueza do que de força.

Trump com olhar sério, observando algo dentro de salão
Legenda da foto,'A visão trumpista do futuro não está funcionando', avalia o economista francês

BBC News Brasil - Qual é o papel do Brasil em tudo isso?

Piketty - Países como o Brasil têm o papel de remoldar o balanço global de poder, de colocar essa conversa global na direção certa. O Brasil contribuiu muito com isso no passado, e será muito triste para o próprio país tanto quanto para o mundo se o Brasil seguir na direção do nacionalismo trumpista daqui algumas semanas.

Precisamos do Brasil contribuindo para reconstruir o sistema monetário, econômico internacional em um sentido muito mais inclusivo, igualitário, democrático e consciente sobre o clima. Sob o governo Lula, houve um papel importante de propor um imposto a bilionários na agenda do G20. Ela quase foi adiante. Eu acredito que, se houvesse um apoio mais firme da Índia ali, em particular, teria se criado uma coalizão do Sul global que tornaria a resistência do Norte a ficar muito mais difícil. Mesmo sem esse apoio, muitos países europeus já ficaram constrangidos em negar a proposta. Não apoiaram, mas não souberam dizer "não".

BBC News Brasil - Por quê?

Piketty - Porque é uma situação difícil para eles. De um lado, eles não querem pagar pela reparação climática, mas, de outro, eles sabem que carregam a responsabilidade histórica enorme das suas emissões de carbono. É impossível negá-la. Mais do que isso: eles sabem que não podem cobrar mais impostos — para pagar reparação — de suas classes trabalhadores ou das suas classes médias. Logo, em algum momento, terão que aceitar que são os mais ricos, em especial bilionários, os que deverão arcar com essa conta. Isso vale, é importante dizer, tanto para bilionários do Norte quanto do Sul. Se um país tal como o Brasil — ou como uma África do Sul, uma Índia, uma Indonésia — coloca pressão sobre as questões climáticas ou de justiça econômica, fica impossível resistir.

Eu vejo o Brasil pronto para articular isso, não só como parte do Sul, mas também por ser um país grande. Será triste se ele perder a dimensão internacionalista, progressista e colocar, no lugar, uma visão estreita, tecnocapitalista e tecnonacionalista. Ela não vai resolver os problemas do mundo nem os do Brasil. Eu acho, inclusive, que essa agenda já vai ser derrotada na eleição que se aproxima nos EUA e nos próximos anos também. Assim, vai ser estranho o Brasil se mover em uma direção errada no momento errado.

BBC News Brasil - Ao mesmo tempo, as agendas das direitas radicais globais se baseiam no mérito individual como verdadeiro produtor de justiça econômica, e não a redistribuição de renda (defendida pela esquerda). Essas agendas são populares – como se vê no Brasil, por exemplo. (Para a esquerda), não seria necessário fazer a agenda da redistribuição voltar a ter apelo popular?

Piketty - A esquerda perdeu suas ambições de fazer propostas para reduzir desigualdades, para redistribuir a riqueza. Veio um consenso em torno da liberalização dos mercados e de diminuir a progressividade dos impostos, o que prejudicou muito as classes com renda baixa tanto quanto as médias. Em muitos casos, esquerdas e centro-esquerdas estão se associando a políticas pró-corporações. É uma abertura para retóricas nacionalistas. Às vezes, elas são mais pró-capitalismo que os próprios partidos centristas. Elas fazem isso para atrair eleitores das classes baixas, médias, e enfatizando a dimensão nacionalista que, como eu disse, não vai resolver os problemas.

Inclusive, nem os eleitores estão tão confiantes na agenda trumpista. Eles sabem que os partidos estão propondo um mesmo modelo de desenvolvimento que não integra a desigualdade, mas não veem alternativa. Essa é a principal explicação.

BBC News Brasil - É uma questão de repetição das propostas, portanto?

Piketty - Se você passa anos a fio dizendo para a opinião pública que não há políticas econômicas alternativas, que os governos precisam todos seguir a mesma agenda pró-corporações e que a única coisa que eles podem realmente fazer é controlar suas fronteiras, depois de 20, 30 anos, o resultado é um debate político que se resume em controle fronteiriço e identidade.

Abandonamos as discussões sobre políticas econômicas, sobre a estrutura de classes, sobre as desigualdades socioeconômicos. Mas, se a gente reabri-las, as coisas vão começar a mudar, porque, na prática, se você olhar para os governos nacionalistas no poder hoje, depois de alguns anos a opinião pública já não estará tão satisfeita com eles. Basta olhar para as taxas de popularidade de Trump nos EUA. É isso que me deixa otimista, a longo prazo, com a volta de soluções internacionalistas, democráticas e mais igualitárias — como as que apresentamos no relatório. Não será fácil.

BBC News Brasil - Mas haverá algum ponto de ruptura, na sua opinião?

Piketty - Não dá para prever que tipo de catástrofe política, que tipo de crise levará à transição, mas é importante discutir como queremos nos reorganizar antes que aconteça. Temos que estar prontos para, no momento, apresentar uma alternativa.

Eu escrevi um livro sobre história da desigualdade (Uma breve história da igualdade, Intrínseca, 2022) e, uma coisa que eu aprendi é que, em períodos críticos, em que as sociedades precisam mudar o sistema, fazer mudanças institucionais, elas devem estar prontas para fazê-lo. Foi assim que surgiram a seguridade social, os serviços públicos, a educação universal e gratuita, o sufrágio, os direitos trabalhistas, a decolonização, todas coisas que criaram mais prosperidade junto a mais igualdade. Não será fácil. Passaremos por mais crises, catástrofes, batalhas pelo poder, mas, no fim do dia, o caminho em direção à igualdade, democracia e prosperidade vai prevalecer.

BBC News Brasil - Em um cenário em que nada disso aconteça, em que as propostas do relatório nunca sejam implementadas, como o senhor vê o mundo daqui a 50 anos?

Piketty - Se o curso não mudar, o mundo ficará mais desigual e mais quente. Por consequência, mais instável que o atual. Mas esse futuro distópico não vai acontecer, eu acredito nisso. As forças tecnonacionalistas até podem ganhar algumas eleições, mas, como elas não sabem como resolver os problemas estruturais do mundo, o futuro será multipolar com uma prevalência das forças democráticas. E isso, principalmente, pela pressão que sairá do Sul global.