O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) enfrenta em 2026, durante a elaboração do Sétimo Relatório de Avaliação (AR7), o desafio de incorporar a complexidade das interações ecológicas e evolutivas em seus modelos de impactos climáticos. Este artigo argumenta que o legado de Alfred Russel Wallace — cofundador da teoria da seleção natural, pioneiro da biogeografia e estudioso das interações entre clima, geografia e distribuição das espécies — oferece lições fundamentais para o IPCC. Wallace compreendeu, há mais de um século, que a distribuição da vida é moldada por mudanças climáticas passadas, migrações, extinções e coevolução em redes ecológicas. Em 2026, com o avanço da ecologia de redes e a urgência da crise climática, o pensamento wallaceano — integrador, histórico, biogeográfico e sistêmico — pode ajudar o IPCC a superar suas limitações atuais e a construir cenários mais realistas sobre os impactos das mudanças climáticas sobre a biodiversidade e as sociedades humanas.
Palavras-chave: Alfred Russel Wallace; IPCC; coevolução; redes ecológicas; mudanças climáticas; biogeografia; seleção natural.
Em 2026, o IPCC encontra-se em um momento crucial de seu ciclo de avaliação. A Reunião de junho sobre Clima, em Bonn, deu continuidade aos trabalhos do Sétimo Relatório de Avaliação (AR7), que inclui contribuições dos três Grupos de Trabalho, além de relatórios especiais sobre Cidades e sobre Fatores indutores Climáticos de Curta Duração. O AR6 já havia estabelecido, com alta confiança, que a influência humana sem precedentes está perturbando o sistema climático, causando impactos permanentes e, em alguns casos, irreversíveis.
Contudo, persiste uma lacuna significativa na biologia das mudanças climáticas: o estudo das respostas evolutivas em organismos complexos e de longa vida. O IPCC reconhece que populações microbianas podem se adaptar rapidamente a mudanças ambientais, mas a compreensão dos efeitos das mudanças climáticas sobre a coevolução em redes ecológicas — interações planta-polinizador, predador-presa, hospedeiro-parasita — ainda é incipiente.
Argumentamos que Alfred Russel Wallace (1823-1913), cujo trabalho integrou biogeografia, evolução, clima e geologia, oferece um quadro conceitual que pode enriquecer a abordagem do IPCC. Wallace não foi apenas o codescobridor da seleção natural; ele foi, como observam Carmo, Bizzo e Martins, um dos primeiros a compreender que a "distribuição geográfica dos seres vivos" é o resultado de "todas as mudanças anteriores, tanto da superfície da Terra quanto de seus habitantes". Essa visão histórica e integradora é precisamente o que falta nas avaliações do IPCC quando se trata de biodiversidade e ecossistemas.
2. Biografia de Alfred Russel Wallace
Alfred Russel Wallace nasceu em 8 de janeiro de 1823, em Usk, Monmouthshire, País de Gales, em uma família de classe média que enfrentou dificuldades financeiras. Autodidata, Wallace desenvolveu desde cedo um profundo interesse pela história natural, influenciado pelas leituras de obras como Vestígios da História Natural da Criação e pelos relatos de viajantes naturalistas.
Sua carreira profissional começou como agrimensor, mas logo se voltou para a coleta de espécimes. Entre 1848 e 1852, realizou sua famosa expedição à Amazônia, seguida, entre 1854 e 1862, por uma viagem pelo Arquipélago Malaio, que o consagraria como um dos maiores naturalistas do século XIX.
Foi durante um acesso de malária nas Ilhas Molucas, em fevereiro de 1858, que Wallace teve a "revelação" que o levaria à formulação independente da teoria da seleção natural. Ele enviou seu manuscrito a Charles Darwin, desencadeando a apresentação conjunta de seus trabalhos na Linnean Society de Londres em 1º de julho de 1858.
Wallace foi, contudo, muito mais que o "outro cara" da evolução. Ele dedicou grande parte de sua vida à biogeografia, publicando obras monumentais como A Distribuição Geográfica dos Animais (1876) e A Vida nas Ilhas (1880), nas quais explorou evidências de mudanças climáticas passadas e migrações de espécies. Foi também um ativo defensor do espiritualismo, do socialismo e dos direitos das mulheres — um pensador cuja "concepção interdisciplinar da evolução no espaço e no tempo" continua a inspirar a ciência da biodiversidade.
Jason Roberts, em Todos los seres vivos, recupera a figura de Wallace como um viajante incansável e um pensador original, cuja trajetória frequentemente foi ofuscada pela sombra de Darwin. Roberts mostra como Wallace, diferentemente de Darwin, construiu sua teoria a partir da observação direta da distribuição geográfica das espécies nos trópicos — uma abordagem que o levou a compreender a evolução não apenas como um processo temporal, mas também espacial. Gerard Helferich, em O Cosmos de Humboldt, situa Wallace na tradição de Alexander von Humboldt, para quem a natureza era um todo integrado, no qual clima, geologia, solo e vida se interconectam. Wallace herdou essa visão sistêmica e a aplicou à biogeografia e à evolução.
Sunil Amrith, em The Burning Earth, oferece um contraponto contemporâneo: a história ambiental do planeta é também uma história de exploração e desigualdade. Amrith mostra que as mudanças climáticas não são um fenômeno novo, mas que a escala e a velocidade das transformações atuais são inéditas — exatamente o que Wallace, com sua sensibilidade histórica, provavelmente reconheceria como o maior desafio já enfrentado pela vida na Terra.
3. A Viagem ao Brasil e sua Importância Científica
Entre 1848 e 1852, Wallace embarcou em uma expedição à Amazônia com o amigo Henry Walter Bates, que se tornaria um dos principais entomologistas da época. A viagem, documentada em seu livro Viagens pela Amazônia e Rio Negro (1853), foi marcada por perigos, doenças e descobertas.
Wallace coletou milhares de espécimes de aves, insetos, peixes e plantas, muitos dos quais nunca haviam sido descritos pela ciência. Mais importante, ele observou padrões de distribuição geográfica que o intrigaram profundamente: por que certas espécies apareciam em uma margem do rio e não na outra? Por que a fauna da Amazônia oriental era diferente da ocidental? Essas perguntas o levaram a formular as primeiras hipóteses sobre o papel das barreiras geográficas na especiação.
A viagem ao Brasil também teve um desfecho trágico: no retorno à Inglaterra, o navio em que Wallace viajava pegou fogo, e ele perdeu quase toda a sua coleção, incluindo diários e desenhos. Apesar dessa perda, Wallace conseguiu reconstituir parte de suas observações e publicar seus resultados, que já continham os germes de suas futuras contribuições à biogeografia e à teoria evolutiva.
A importância da viagem ao Brasil para a ciência de Wallace é tripla: primeiro, ela o expôs à imensa biodiversidade tropical e à complexidade dos padrões de distribuição; segundo ela lhe forneceu o método comparativo que aplicaria posteriormente no Arquipélago Malaio; terceiro, ela plantou as sementes de sua compreensão de que a geografia e o clima são os principais moldadores da evolução da vida.
4. O que é Especiação e por que Wallace falou mais sobre a Origem das Espécies do que Darwin?
Especiação é o processo evolutivo pelo qual novas espécies surgem a partir de populações ancestrais, geralmente como resultado de isolamento reprodutivo e divergência adaptativa. Embora Darwin tenha dedicado grande parte de A Origem das Espécies (1859) à demonstração da descendência com modificação, ele não ofereceu uma teoria clara sobre como as espécies realmente se formam — o que ficou conhecido como o "mistério dos mistérios".
Wallace, ao contrário, dedicou-se intensamente ao problema da especiação, especialmente em seu trabalho biogeográfico. Ele compreendeu que a distribuição geográfica das espécies era a chave para entender como novas espécies surgem. No Arquipélago Malaio, Wallace observou que ilhas próximas, com climas e terrenos semelhantes, abrigavam faunas completamente diferentes, separadas por estreitos profundos. Essa observação o levou a propor que barreiras geográficas — como oceanos, cadeias de montanhas e rios — isolam populações, permitindo que elas evoluam independentemente.
Por que Wallace falou mais sobre a origem das espécies do que Darwin? Primeiro, porque Wallace era essencialmente um biogeógrafo: seu ponto de partida era a distribuição espacial da vida, não a domesticação ou a seleção artificial, como no caso de Darwin. Segundo, porque Wallace viveu mais tempo que Darwin e continuou a publicar sobre biogeografia e especiação até o final de sua vida, enquanto Darwin, após A Origem das Espécies, dedicou-se a outros temas, como a evolução humana e a expressão das emoções.
Como observam Carmo, Bizzo e Martins (2009), Wallace e Darwin chegaram à seleção natural por caminhos diferentes: Darwin pela analogia com a seleção artificial, Wallace pela observação da luta pela existência na natureza e da distribuição geográfica. Essa diferença de abordagem explica por que Wallace deu mais ênfase à especiação e à biogeografia, enquanto Darwin focou na descendência comum e na seleção natural como mecanismo geral.
5. Wallace, o Pai da Biogeografia
Wallace é justamente denominado o pai da Biogeografia porque elevou o estudo da distribuição geográfica dos seres vivos a um nível científico sem precedentes. Enquanto Darwin via a biogeografia como uma evidência acessória da evolução, Wallace a via como o próprio palco onde a evolução ocorria.
A principal contribuição de Wallace para a biogeografia foi a integração de dados geológicos, climáticos e biológicos em uma síntese coerente. Ele reconheceu que a distribuição das espécies não podia ser entendida sem considerar as mudanças climáticas passadas — glaciações, flutuações do nível do mar, alterações na vegetação. Em A Vida nas Ilhas (1880), Wallace explorou evidências de "mudanças climáticas massivas" e investigou a migração de espécies em resposta a essas mudanças.
Wallace também foi o primeiro a dividir o mundo em regiões biogeográficas — as chamadas "regiões wallaceanas" — que ainda hoje são utilizadas pela biogeografia moderna. Ele percebeu que a distribuição dos animais não seguia simplesmente as zonas climáticas ou os continentes atuais, mas refletia histórias evolutivas profundas, moldadas por eventos geológicos e climáticos do passado.
A importância dos estudos biogeográficos de Wallace para a ciência contemporânea é imensa. Como mostram Carmo, Martins e Bizzo (2012), Wallace estabeleceu as bases para a compreensão de que a biodiversidade atual é o resultado de processos históricos — migrações, extinções, especiações — que ocorreram em resposta a mudanças ambientais, incluindo mudanças climáticas.
6. O que o IPCC pode aprender com Wallace em 2026
6.1. A dimensão histórica e biogeográfica das mudanças climáticas
O IPCC, em seus relatórios de avaliação, tende a tratar as mudanças climáticas como um fenômeno principalmente futuro e quantitativo: projeções de temperatura, aumento do nível do mar, frequência de eventos extremos. Wallace nos lembra que as mudanças climáticas são, acima de tudo, processos históricos que já moldaram a distribuição da vida na Terra por milhões de anos.
Laura Poppick, em Strata: Stories from Deep Time (2025), nos ensina que "os sedimentos são como um poema épico da Terra". Wallace, em certo sentido, já lia esse poema: ele sabia que as glaciações do passado, as flutuações do nível do mar e as mudanças na vegetação haviam remodelado a biogeografia do planeta. O IPCC poderia se beneficiar de uma abordagem mais histórica, que incorpore não apenas cenários futuros, mas também lições do passado profundo — como as quatro grandes transformações descritas por Poppick: o acúmulo de oxigênio, as glaciações da "Terra Bola de Neve", a ascensão das plantas e o mundo-estufa dos dinossauros.
6.2. A coevolução e as redes ecológicas
Wallace foi um dos primeiros naturalistas a compreender a importância das interações ecológicas na evolução. Embora o termo "coevolução" só tenha sido cunhado muito depois, Wallace observou exemplos notáveis de adaptação recíproca — como a relação entre flores e insetos polinizadores, e entre presas e predadores.
Em 2026, a ecologia de redes avançou consideravelmente, mostrando que as comunidades ecológicas são redes complexas de interações — mutualismos, competições, parasitismos — cuja estabilidade depende da integridade de toda a teia. Estudos recentes demonstram que a arquitetura da rede desempenha um papel fundamental na coevolução e na adaptação, com consequências assimétricas para exploradores e vítimas.
O IPCC, no entanto, ainda não incorpora plenamente a dinâmica das redes ecológicas em seus modelos de impacto. Como mostram as avaliações do IPBES-IPCC, há uma lacuna significativa na integração entre biodiversidade e clima. Wallace nos ensina que a distribuição das espécies não é aleatória, mas reflete histórias de interação e coadaptação. Ignorar essas histórias significa subestimar os impactos das mudanças climáticas sobre a biodiversidade.
Carl Zimmer, em Air-Borne: The Hidden History of the Life We Breathe (2025), revela que o ar é um "ecossistema dinâmico e densamente povoado — o aerobioma". Wallace, que coletou insetos e estudou a dispersão de sementes pelo vento, certamente apreciaria essa visão do ar como um vetor de vida. O IPCC, ao focar nas emissões de gases de efeito estufa, frequentemente esquece que o ar também é um meio de dispersão de organismos — e que as mudanças climáticas afetam essa dispersão, alterando as redes ecológicas em escalas continentais.
6.3. A migração e o deslocamento como respostas às mudanças climáticas
Wallace dedicou grande atenção à migração de espécies como resposta a mudanças ambientais. Em A Vida nas Ilhas, ele mostrou como as flutuações do nível do mar durante as glaciações permitiram a migração de espécies entre continentes, moldando a biogeografia atual.
Jake Bittle, em The Great Displacement (2023), documenta que a migração climática não é uma ameaça futura, mas uma realidade presente: entre 2016 e 2020, mais de seis milhões de americanos perderam suas casas devido a desastres climáticos. Bittle mostra que as "consequências do aquecimento global são amplificadas por sistemas humanos frágeis" — exatamente o tipo de interação entre sistemas naturais e humanos que Wallace, com sua visão integradora, reconheceria.
O IPCC poderia aprender com Wallace a tratar a migração não como um fracasso da adaptação, mas como uma resposta evolutiva e ecológica a mudanças ambientais. Assim como as espécies migraram no passado em resposta a glaciações, as populações humanas estão migrando hoje em resposta a incêndios, furacões e elevação do nível do mar. A pergunta de Bittle — "para onde iremos?" — é também a pergunta que Wallace se fez ao observar a dispersão de espécies pelas ilhas do Arquipélago Malaio.
6.4. A água, o fogo e o poder: lições de Wallace para a governança climática
Wallace não foi apenas um naturalista; foi também um observador agudo das sociedades humanas e de suas relações com o ambiente. Ele denunciou a exploração colonial e defendeu reformas sociais — uma faceta de seu pensamento que o conecta às análises contemporâneas sobre justiça climática.
Jeff Goodell, em The Water Will Come, documenta a inevitável ascensão dos mares e a miopia do planejamento urbano. John Vaillant, em Fire Weather, narra o incêndio de Fort McMurray e aplica o "Problema de Lucrécio" para explicar a falha de imaginação das autoridades. Jonathan Blitzer, em Everyone Who Is Gone Is Here, revela como as intervenções geopolíticas geram ondas migratórias.
Wallace, que viveu em uma era de expansão imperial e exploração ambiental, certamente reconheceria a conexão entre poder, desigualdade e crise ecológica. Como observa Amrith em The Burning Earth, a história ambiental é também uma história de exploração e injustiça. O IPCC, ao avaliar impactos, vulnerabilidades e adaptação, precisa incorporar essa dimensão política — algo que Wallace, com sua sensibilidade social, provavelmente endossaria.
Robert Macfarlane, em Is a River Alive? (2025), nos convida a adotar uma "gramática de animação" — referir-se aos rios como "quem" em vez de "o quê". Wallace, que via a natureza como um todo integrado e vivo, certamente apreciaria essa perspectiva. O movimento dos Direitos da Natureza, que já reconheceu rios como o Whanganui, o Ganges e o Mutehekau Shipu como "entidades vivas", é uma extensão contemporânea da visão wallaceana de que a natureza não é um mero recurso, mas uma comunidade da qual fazemos parte.
7. Conclusão: Wallace, o IPCC e o futuro da vida na Terra
Em 2026, enquanto o IPCC avança na elaboração do AR7, enfrenta o desafio de integrar conhecimentos de disciplinas que Wallace já havia conectado há mais de um século: biogeografia, evolução, clima, geologia e ecologia. Wallace nos legou uma visão integradora da vida na Terra — uma visão que reconhece que a distribuição das espécies, sua evolução e sua extinção são moldadas por mudanças climáticas, eventos geológicos e interações ecológicas.
O que o IPCC pode aprender com Wallace? Pode aprender a historicizar as mudanças climáticas, reconhecendo que o presente é apenas o último capítulo de uma longa história de transformações ambientais. Pode aprender a espacializar seus modelos, incorporando a biogeografia e as redes ecológicas como variáveis centrais, não periféricas. Pode aprender a humanizar suas avaliações, reconhecendo que a migração, o deslocamento e a adaptação são respostas evolutivas a mudanças ambientais. E pode aprender a politizar suas conclusões, reconhecendo que a crise climática é também uma crise de poder, desigualdade e imaginação.
Wallace, em sua longa vida, testemunhou transformações profundas no conhecimento humano sobre a natureza. Ele viu a teoria da evolução ser aceita, a biogeografia se estabelecer como ciência e as primeiras evidências de mudanças climáticas induzidas pelo homem começarem a emergir. Em 2026, o IPCC tem a oportunidade de honrar esse legado, incorporando a visão wallaceana em seus relatórios e ajudando a construir um futuro em que a vida na Terra — em toda a sua diversidade e complexidade — possa não apenas sobreviver, mas florescer.
Como escreve Poppick, "os sedimentos são como um poema épico da Terra". Wallace leu partes desse poema. Cabe ao IPCC, em 2026, ler o poema inteiro — e agir de acordo.
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