SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

domingo, 31 de maio de 2026

Por que os comunistas perderam espaço na Índia após governar mais de 100 milhões de pessoas por décadas?

 

Ativistas do Partido Comunista da Índia (CPI) param veículos em uma estrada durante uma greve nacional contra as novas políticas trabalhistas introduzidas pelo governo central da Índia, em Calcutá.

Crédito,AFP via Getty Images

Legenda da foto,Os comunistas foram reduzidos a um único assento na assembleia de 294 membros em Bengala Ocidental
    • Author,Soutik Biswas
    • Role,Correspondente da BBC na Índia
  • Published
  • Tempo de leitura: 8 min

Pela primeira vez desde 1957, a Índia não tem mais nenhum governo estadual liderado por comunistas.

A derrota da Frente Democrática de Esquerda (LDF), liderada pelo Partido Comunista da Índia (Marxista), em Kerala, após uma década no poder, marcou o fim de uma das experiências mais duradouras do mundo em comunismo democrático.

No auge, os partidos comunistas da Índia governaram estados que se estendiam de Bengala Ocidental a Kerala e Tripura. Eles impactaram a vida de mais de 100 milhões de pessoas por meio de sindicatos, organizações camponesas, alas estudantis e redes disciplinadas de quadros.

Em Bengala Ocidental, a Frente de Esquerda governou continuamente de 1977 a 2011 — uma das administrações comunistas eleitas mais antigas do mundo. Em Tripura, a esquerda governou por 35 anos ao todo, incluindo um período ininterrupto de 25 anos antes de sua derrota pelo Partido Bharatiya Janata (BJP), do primeiro-ministro Narendra Modi, em 2018.

Kerala seguiu uma trajetória diferente. Desde 1957 — quando o Estado votou em um dos primeiros governos comunistas eleitos do mundo sob o político comunista EMS Namboodiripad —, o poder se alternou entre a esquerda e o Partido do Congresso, tornando os comunistas uma força duradoura, mas nunca permanentemente dominante.

Em 1996, Jyoti Basu, membro fundador do Partido Comunista da Índia (Marxista), ou CPI (M) na sigla em inglês, e depois ministro-chefe de Bengala Ocidental, esteve muito perto de se tornar primeiro-ministro da Índia como chefe de um governo de coalizão. Mas seu partido rejeitou a oferta — uma decisão que Basu mais tarde descreveria como um “erro histórico”.

Os comunistas moldaram a política de coalizão em Nova Déli de forma tão profunda que, em 2008, retiraram o apoio do governo do ex-primeiro ministro Manmohan Singh ao acordo nuclear civil histórico com os EUA. Na época, os partidos de esquerda ocupavam 62 assentos na câmara baixa do parlamento, o suficiente para forçar Singh a um voto de confiança antes de ele finalmente garantir o acordo.

Uma mulher sai de uma colônia residencial enquanto cartazes da campanha eleitoral do candidato da Frente Democrática Unida (UDF) Mohammed Shiyaz e do candidato da Frente Democrática de Esquerda (LDF) K J Maxy são exibidos ao longo de uma estrada antes da eleição para a Assembleia em Kochi, Índia, em 4 de abril de 2026.

Crédito,NurPhoto via Getty Images

Legenda da foto,Kerala elegeu um dos primeiros governos comunistas do mundo em 1957

Seu alcance se estendeu muito além do parlamento. Apesar da estagnação econômica em Bengala Ocidental e das preocupações com o declínio dos padrões educacionais sob o domínio da esquerda, os comunistas continuaram exercendo uma influência enorme sobre o pensamento econômico e a vida intelectual e cultural, muito além de suas bases eleitorais.

Muitos acreditam que a maior parte dessa influência já desapareceu.

A esquerda hoje sobrevive de forma desigual. Em Kerala, apesar de seu mais recente revés, a esquerda continua politicamente relevante. Em Tamil Nadu, ela sobrevive em grande parte por meio de alianças. Em Bihar, o Partido Comunista da Índia (Marxista-Leninista) emergiu como uma força popular ativa em alguns bolsões. Grupos estudantis apoiados pela esquerda continuam se saindo bem nas principais universidades.

Mas em Bengala Ocidental e Tripura — que já foram os grandes bastiões do poder de esquerda — os comunistas foram reduzidos a uma sombra do que eram antes. Nacionalmente, a participação do CPI (M) no voto popular caiu de mais de 6% em seu pico na década de 1980 para menos de 2% nas últimas eleições gerais.

O declínio reflete o desaparecimento de uma linguagem política mais antiga: a luta de classes e a mobilização coletiva têm constantemente dado lugar a políticas de identidade, nacionalismo, líderes populistas e distribuição de benefícios sociais.

Mohammed Salim, secretário do CPI (M) em Bengala Ocidental, vê uma corrente histórica mais ampla em ação. Desde os anos 1990, ele argumenta, a ascensão do nacionalismo hindu e a liberalização de mercado produziram uma "ofensiva religiosa, política e econômica" que pressionou a esquerda por todos os lados.

"A classe média foi apresentada a esse campo verde", diz ele. "Desenvolvimento, modernização, infraestrutura — você terá uma parte disso. Gerou-se uma aspiração."

Jyoti Basu, membro fundador do Partido Comunista da Índia (Marxista) e ministro-chefe de Bengala Ocidental há muito tempo.

Crédito,Sondeep Shankar/Getty Images

Legenda da foto,Jyoti Basu, membro fundador do CPI(M), recebeu a oferta de se tornar primeiro-ministro da Índia em 1996

Os comunistas, segundo ele, tiveram dificuldades para enfrentar uma política cada vez mais organizada em torno de casta e religião, em vez de classe. "A política da divisão enfraqueceu a unidade de classe", diz Salim.

No entanto, especialistas argumentam que a esquerda não pode explicar seu declínio simplesmente por meio da ascensão do nacionalismo hindu, da política de castas e da política aspiracional.

Ao contrário da China ou do Vietnã, os partidos comunistas na Índia governavam apenas estados dentro de uma “economia política federal”, diz Sanjay Ruparelia, professor de política na Universidade Metropolitana de Toronto, no Canadá.

Isso os deixou sob crescente pressão para atrair investimentos privados e gerar crescimento. Em Bengala Ocidental, essa contradição explodiu de forma espetacular: o partido que havia surgido por meio de reformas agrárias foi subitamente acusado de desapropriar terras de camponeses em nome da indústria.

Apoiadores do Partido Comunista da Índia (Marxista) (CPI-M) participam de uma manifestação pública dirigida pelo chefe Prakash Karat, antes de sua conferência estadual de quatro dias em Agartala, capital do estado de Tripura, no nordeste da Índia, em 29 de janeiro de 2012.

Crédito,Reuters

Legenda da foto,Em Tripura, o governo da esquerda incluiu um período ininterrupto de 25 anos antes de sua derrota para o BJP em 2018

Kerala se destacou, ganhando atenção internacional, pelo planejamento descentralizado, altos indicadores sociais, alfabetização, redução da pobreza e um forte sistema de saúde pública.

Mas o modelo tinha tensões subjacentes. "Kerala continuou dependendo fortemente de remessas do exterior, que oscilaram, criando crescentes pressões fiscais e geração insuficiente de empregos, especialmente entre os jovens", diz Ruparelia.

O mais impressionante é que os próprios comunistas de Kerala adotaram o modelo econômico ao qual antes se opunham.

Um documento de política do CPI (M) de 2022 passou a endossar investimento privado, parcerias público-privadas, universidades privadas e serviços tecnológicos integrados globalmente.

Para cientistas políticos como Ruparelia, essa evolução destacou uma realidade mais ampla: os partidos comunistas da Índia eram frequentemente "melhor entendidos como sociais-democratas do que comunistas".

Em vez de buscar a revolução, eles funcionavam em grande parte como partidos parlamentares centrados no bem-estar, nos direitos trabalhistas e na redistribuição.

"A Índia era incomum por ter partidos da tradição comunista bem-sucedidos em eleições democráticas", afirma.

No entanto, argumenta MA Baby, secretário-geral da CPI (M), os governos estaduais sempre operaram dentro de restrições rígidas. “Eles têm poderes financeiros e administrativos limitados. O verdadeiro poder está em Nova Déli”, diz ele.

“Usamos governos estaduais para mostrar que, mesmo dentro da estrutura socioeconômica capitalista, políticas e alternativas pró-povo são possíveis, apesar dos poderes limitados.”

Mas a base social que sustenta esse modelo tem se corroído constantemente. O trabalho organizado sempre foi uma minoria na vasta economia informal da Índia. A política de bem-estar passou cada vez mais da mobilização de classes para transferências diretas de dinheiro e coalizões baseadas em identidade.

Os protestos dos agricultores que eclodiram em 2020 contra as leis agrícolas do primeiro-ministro Narendra Modi expuseram o quanto a política rural havia mudado.

A esquerda permanece como parte do movimento — “a voz da consciência”, como diz a analista Shikha Mukherjee —, mas não é mais a líder. Partidos regionais e sindicatos agrícolas independentes ocuparam esse espaço.

Saira Shah Halim, candidata do CPI (M) para o distrito eleitoral de Lok Sabha, no sul de Calcutá, com a líder da CPI (M), Aishe Ghosh, em um comício de campanha no Golpark em 27 de abril de 2024 em Calcutá, na Índia.

Crédito,Samir Jana/Hindustan Times via Getty Images

Legenda da foto,Ansioso para abandonar sua imagem de um partido envelhecido, o CPI (M) em Bengala começou a promover uma geração mais jovem de líderes

"A esquerda perdeu seu lugar como a principal voz dos direitos e das garantias. Ela tem dificuldades para se adaptar à economia moderna, e a confusão ideológica está no cerne do movimento", diz Mukherjee.

A Índia hoje é marcada pela crescente desigualdade, pelo desemprego crônico dos jovens e pelo aprofundamento da insegurança econômica — condições nas quais se esperava que a política marxista florescesse. Como observa Ruparelia, “as condições objetivas, como os esquerdistas costumam dizer, devem beneficiá-los”.

"A esquerda deveria estar nas ruas. Onde eles estão?", questiona Mukherjee.

O paradoxo não é exclusivo da Índia. Após a crise financeira de 2008, a Europa também viu o surgimento de novos partidos de esquerda. Mas muitos enfrentaram dificuldades diante de populistas nacionalistas que mobilizaram trabalhadores por meio da "política da imigração e do etnonacionalismo, em vez da solidariedade de classe", diz Ruparelia.

A esquerda indiana, argumenta Mukherjee, enfrentou um desafio semelhante com o BJP. Ainda assim, escrever obituários para movimentos políticos é prematuro.

Várias organizações comunistas de estudantes e cidadãos realizam uma manifestação em Calcutá, na Índia, em 1º de setembro de 2025, contra Israel e a agressão americana à Palestina e a guerra tarifária de Trump contra a Índia.

Crédito,NurPhoto via Getty Images

Legenda da foto,O comunismo indiano sobreviveu a divisões, repressão estatal e colapso eleitoral

O comunismo indiano sobreviveu a divisões, repressão estatal e colapso eleitoral. Suas redes organizacionais, embora reduzidas, ainda existem em partes do país.

Se a esquerda consegue transformar essa presença residual em renovação política é outra questão. “O CPI (M) precisa se reinventar — trabalhar dentro do sistema econômico que a liberalização criou, não simplesmente se opor a ele”, diz Mukherjee.

Em Bengala Ocidental, Salim insiste que o partido está novamente “se reagrupando, reposicionando e rejuvenescendo”.

Com vontade de se livrar da imagem de envelhecido e resistente à mudança, tem promovido uma geração mais jovem de líderes à linha de frente. “Os comunistas devem se rejuvenescer constantemente. A única constante é a mudança em si”, diz Baby.

Mas a escala do declínio da esquerda continua alta. Na eleição de Bengala, o CPI (M) ganhou apenas um assento na assembleia de 294 membros e obteve pouco mais de 4% dos votos.

Kerala, no entanto, conta uma história diferente: mesmo na derrota, o LDF manteve cerca de um terço dos votos, sublinhando que os comunistas continuam sendo uma força política significativa ali. Em Tripura, um retorno ao poder ainda parece distante.

No entanto, os líderes partidários insistem que o declínio eleitoral da esquerda não captura totalmente sua relevância social e política. “Estamos esperançosos? Claro”, diz Baby. “Na verdade, perguntamos: sem nós, que futuro existe? Os assentos são importantes, mas nosso lugar no coração das pessoas é mais importante.”

'Achava que minha família tinha resistido a Hitler, até descobrir que meu bisavô era nazista'

 

Uma imagem composta de dois soldados nazistas observando milhares de tropas em formação em um estádio na Polônia. Um documento de filiação assinado está sobreposto no canto inferior direito da imagem, e um formulário nazista em branco está sobreposto no canto superior direito.

Crédito,Getty Images / Die Zeit / BBC News

    • Author,Liza Fokht
    • Role,BBC News Russian
    • Reporting from,Berlin
  • Published
  • Tempo de leitura: 9 min

"Cresci acreditando, e com orgulho, que vinha de uma linhagem de antifascistas", conta Rosa, de 57 anos, moradora de Berlim, ao BBC News Rússia.

Mas, com o tempo, Rosa — que pediu para ter o nome modificado pela BBC — acabou descobrindo a verdade: o fascismo estava profundamente enraizado em toda a sociedade alemã do início do século 20, sob o regime nazista.

Isso a levou a uma jornada para investigar o envolvimento de seus antepassados no regime de Adolf Hitler.

Essa busca se aproximou de uma conclusão com a divulgação, na Alemanha, de milhões de documentos sobre antigos membros do Partido Nazista, disponibilizados pelo jornal Die Zeit.

Embora Rosa diga que isso lhe trouxe uma sensação de encerramento, o banco de dados reacendeu o debate sobre como o país lembra seu passado brutal.

Ela cresceu ao norte de Berlim, na Alemanha Oriental. O país, formado em 1949, foi oficialmente chamado de República Democrática Alemã — parte da Europa Oriental sob influência de Moscou.

Imagem mostra cerca de 100 folhas de papel, cada uma contendo o resultado de busca de um membro do Partido Nazista, do banco de dados do Die Zeit sobre a filiação ao nazismo.

Crédito,Die Zeit

Legenda da foto,O banco de dados do jornal Die Zeit permite que usuários pesquisem antigos nazistas por nome, data e local de nascimento

Após a derrota dos nazistas em 1945, a Alemanha foi dividida em quatro zonas pelos Aliados da Segunda Guerra Mundial: Estados Unidos, Reino Unido, França e União Soviética (URSS).

Com o início da Guerra Fria, a Alemanha se dividiu em duas — o Ocidente ficou alinhado com as nações ocidentais, enquanto o Oriente ficou alinhado com a União Soviética.

Após o colapso da URSS no fim da Guerra Fria, as duas Alemanhas foram reunificadas.

Linhas férreas que levavam ao campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, em Oświęcim, na Polônia, filmadas em 1º de janeiro de 2004. Ao fundo, no fim da linha férrea, está a entrada do campo: um edifício de tijolos com telhado inclinado e uma torre sobre os trilhos.

Crédito,Auschwitz: os nazistas e a Solução Final/BBC

Legenda da foto,Os nazistas assassinaram seis milhões de judeus, muitos deles em campos de concentração como Auschwitz-Birkenau, na Polônia

Narrativa falsa

Quando Rosa crescia na década de 1970, todos os aspectos da vida na Alemanha Oriental estavam sob rígido controle do Estado.

"Nos diziam que os alemães orientais eram, em grande parte, descendentes de antifascistas, enquanto os 'vilões' vinham do Ocidente", lembra Rosa.

As crianças da escola de Rosa cresciam lendo livros sobre os soldados soviéticos libertadores.

Muro de Berlim feito de concreto branco em 1º de março de 1982, com grafites espalhados por sua superfície. Do outro lado do muro há uma faixa de terra árida, com dois guardas da Alemanha Oriental, uma cerca de metal, outro muro de concreto branco e, em seguida, edifícios em Berlim Oriental.

Crédito,Sahm Doherty / Getty Images

Legenda da foto,Quando Rosa era criança, Berlim era dividida por um muro que a Alemanha Oriental construiu para impedir que seus habitantes deixassem o território controlado pela União Soviética

Ela própria via o regime soviético como um amigo — um "irmão mais velho". Como resultado, algumas histórias de família sobre a Segunda Guerra Mundial a confundiam.

Durante anos, Rosa não conseguia entender por que sua avó "teve de fugir do Exército Vermelho [da URSS]".

Crianças jogam futebol em uma rua com o Muro de Berlim passando pelo meio, impedindo o acesso ao outro lado, no Leste. Um homem idoso está parado ao lado de um prédio de tijolos que corre paralelamente ao muro.

Crédito,ullstein bild / Getty Images

Legenda da foto,As pessoas que viviam do lado ocidental do Muro de Berlim tinham acesso à mídia internacional e eram informadas de forma mais precisa sobre a extensão da participação dos alemães no regime de Hitler

Investigando a fundo a história da família

Quando Rosa tinha 16 anos, uma delegação judaica dos Estados Unidos visitou sua escola para uma palestra Children of survivors meet children of perpetrators (Filhos de sobreviventes encontram filhos de perpetradores, na tradução para o português).

Somente perto do fim da discussão ela percebeu que pertencia ao segundo grupo, e não ao primeiro.

"De repente, tudo fez sentido: [eu percebi que] os alemães eram considerados o inimigo."

Ela lembra daquele momento como "a abertura de uma comporta" — uma mudança súbita de entendimento.

"Foi quando comecei a investigar a fundo minha história familiar."

Rosa passou a consultar arquivos e pediu aos pais e a parentes mais velhos que recontassem o passado.

Ao longo dos anos, ela descobriu que o irmão de sua avó se alistou no exército aos 18 anos, tornando-se piloto de bombardeiro, e foi abatido sobre a Grécia antes de completar 21 anos.

Foto em preto e branco mostra milhares de soldados com capacetes pretos, voltados para um grande palco com três grandes colunas. O Partido Nazista realizava comícios semelhantes aqui todos os anos entre 1933 e 1938.

Crédito,Bettmann / Getty Images

Legenda da foto,Tropas em posição de sentido enquanto Hitler faz um discurso em Nuremberg, em 1936

Um de seus bisavós era um funcionário que apoiava os nazistas, embora sua posição exata permaneça desconhecida.

O outro bisavô, Otto, está no radar de Rosa há décadas.

"Ele era policial na cidade polonesa de Białystok, perto da fronteira com Belarus."

A cidade foi palco de muitos episódios horríveis do Holocausto, incluindo centenas de pessoas queimadas vivas dentro de uma sinagoga.

Com a divulgação do banco de dados de membros do Partido Nazista, Rosa começou imediatamente a procurar Otto.

Esquina de uma rua com um prédio de telhado inclinado e uma torre. Várias pessoas caminham pela rua, que parece estar coberta por neve.

Crédito,ullstein bild Dtl / Getty Images

Legenda da foto,A cidade polonesa de Białystok em 1940, onde o bisavô de Rosa era policial

Milhares de buscas

"Eu imediatamente encontrei o cartão de filiação dele. Ele entrou para o partido ainda em 1933, o ano em que os nazistas chegaram ao poder. Fiquei surpresa? Não, não naquele ponto. Foi simplesmente a confirmação final. Eu queria isso, e consegui", diz Rosa.

"Foi como encerrar uma longa história."

As buscas de Rosa estão entre as milhares realizadas no banco de dados desde o seu lançamento em fevereiro.

Um cartão em cima de uma pilha de pedidos de filiação ao Partido Nazista nos Arquivos Federais da Alemanha, em Berlim, em 17 de abril de 2007.

Crédito,Reuters

Legenda da foto,Os Arquivos Federais da Alemanha, em Berlim, guardam cópias físicas dos pedidos de filiação ao Partido Nazista

Até recentemente, consultar a filiação de um parente ao Partido Nazista exigia fazer um pedido aos Arquivos Federais da Alemanha.

Mas o banco de dados digitalizado, publicado inicialmente pelos Arquivos Nacionais dos Estados Unidos e depois transformado em uma ferramenta de busca pelo jornal Die Zeit neste ano, tornou a pesquisa muito mais rápida.

Judith Busch, porta-voz da Die Zeit, afirma à BBC que a ferramenta já foi acessada milhares de vezes, gerando inúmeros comentários e mensagens.

Filiação ao Partido Nazista

Coleção de cartões de filiação ao Partido Nazista, extraídos do banco de dados do jornal Die Zeit.

Crédito,Die Zeit / BBC News

Legenda da foto,Cartões de filiação ao Partido Nazista no banco de dados do jornal Die Zeit, que permite que pessoas pesquisem a história de seus antepassados

O partido nazista de Hitler era oficialmente chamado de Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP). Ele tinha mais de 10 milhões de membros antes de ser derrotado pelos Aliados na Segunda Guerra Mundial, em 1945.

O arquivo de membros, mantido em Munique, quase foi destruído no fim da guerra: 50 toneladas de documentos foram enviadas para uma fábrica de papel, mas o diretor da fábrica desobedeceu às ordens e entregou o material às forças dos Estados Unidos.

A filiação ao Partido Nazista tem sido um tema controverso na Alemanha desde a queda do regime.

Adolf Hitler está diante de milhares de jovens em um estádio ao ar livre em 12 de setembro de 1938. Atrás dele estão Baldur von Schirach, líder da Juventude Hitlerista, e Rudolf Hess, seu vice.

Crédito,Topical Press Agency / Getty Images

Legenda da foto,Os nazistas recrutavam crianças, como se vê nesta foto quando Hitler discursou para membros do movimento Juventude Hitlerista em Nuremberg, em 1938

Todas as pessoas que falaram com a BBC pediram para permanecer anônimas para não correr o risco de críticas ou vergonha, caso outras pessoas descobrissem ligações familiares com os nazistas.

Seus nomes foram alterados nesta reportagem para proteger suas identidades.

"Acho que isso está ligado ao sentimento de lealdade que as pessoas têm em relação aos seus familiares, mesmo que essas pessoas já não estejam vivas", afirma Johannes Spohr, historiador alemão especializado em história familiar.

"Durante muito tempo, esse tema foi um tabu enorme", afirmou.

"Todo mundo que eu conheço que pesquisou encontrou familiares nesses arquivos", diz Hertha.

Ela encontrou dois bisavôs — um policial e um professor — no banco de dados, mas acredita que eles não tenham cometido crimes.

"Ser filiado ao Partido Nazista não era incomum na época, e algumas pessoas até precisavam fazer parte dele simplesmente por causa de seus empregos."

Uma mulher de cabelos loiros trançados olha com admiração para Hitler enquanto ele fala com ela, cercado por homens em uniformes militares.

Crédito,Hulton Archive /Getty Images

Legenda da foto,Hitler encontrando uma apoiadora em 1937

'Nunca se filie a nenhum partido político'

Martin também encontrou o nome de seu bisavô nos arquivos.

"Pra mim, foi bem chocante. Meu pai disse que meu bisavô costumava dizer: 'Nunca se filiem a nenhum partido político. Eu uma vez me filiei a um, mas depois percebi que era o partido errado.'"

Em geral, os historiadores concordam que ninguém se filiava ao partido "automaticamente" — a adesão exigia um pedido pessoal e aprovação.

"Nem todos os membros do partido estiveram pessoalmente envolvidos em crimes", enfatiza Christian Staas, chefe de história do jornal Die Zeit.

"Mas todos que escolheram se filiar ao NSDAP, dessa forma, apoiaram o regime nazista, responsável pela guerra, pelo Holocausto e por muitos outros crimes contra a humanidade."

Contudo, um cartão de filiação por si só não mostra o quão ativa uma pessoa era nem se ela cometeu crimes — isso exige pesquisa adicional.

Rosa ainda não tem detalhes sobre o que o bisavô Otto fez em Bialystok.

Dezenas de milhares de detidos judeus passaram pela cidade, onde registros de execuções em massa e outras atrocidades foram encontrados após a guerra.

Depois de confirmar sua suspeita de que Otto era membro do Partido Nazista, Rosa diz sentir "uma sensação de responsabilidade para garantir que isso não aconteça novamente".

Um grupo de homens segurando faixas. Alguns estão usando boinas, enquanto a maioria veste paletós e gravatas.

Crédito,Imagno / Getty Images

Legenda da foto,Apoiadores nazistas marcham em Berlim em 1938 durante uma manifestação contra o Tratado de Versalhes, que encerrou a Primeira Guerra Mundial e impôs duras restrições e reparações à Alemanha

'Violação de privacidade'

Enquanto alguns estão recorrendo ao banco de dados, outros criticam a divulgação.

Eles argumentam que a publicação desses dados viola a privacidade. Outros acreditam que revisitar os erros e traumas do passado impede que a Alemanha siga em frente.

"É verdade que alguns alemães estão cansados dessas discussões", diz Rosa.

"Alguns dizem que deveríamos 'traçar uma linha' agora." Ela afirma que isso seria como apagar a história.

"Não podemos parar de ensinar isso às crianças", diz ela.

Johannes Spohr levanta dúvidas sobre se o estudo da história familiar ajuda a evitar a repetição de erros do passado. Mas ele afirma que lidar com o passado pode promover maturidade e senso de responsabilidade.

"É importante nos emanciparmos de todos os mitos e até das mentiras com as quais crescemos — aquelas que também moldam a sociedade alemã — para entender quem somos e o que nossos antepassados fizeram."

Edição de Andrew Webb, BBC World Service