SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sábado, 6 de junho de 2026

As duas eleições que podem consolidar 'círculo de fogo' pró-Trump em torno do Brasil

 

Montagem mostra Roberto Sánchez, Ivan Cepeda, Keiko Fujimori e Abelardo de la Espriella

Crédito,Reuters e EPA

Legenda da foto,Os esquerdistas Sanchéz e Cepeda (esq.) ficaram em segundo no 1º turno no Peru e na Colômbia e terão Keiko Fujimori e De La Espriella (dir.), respectivamente, como adversários
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Neste mês de junho, dois países da América do Sul vizinhos ao Brasil vão decidir se querem ser governados pela direita ou pela esquerda nos próximos anos: Peru, neste domingo (7/6), e Colômbia, em 21 de junho.

Em ambos, as últimas eleições presidenciais foram vencidas pela esquerda. Mas agora, os candidatos da direita são favoritos após terminarem o primeiro turno na frente.

São eleições com potencial de inclinar o mapa político da América Latina de vez para uma direita alinhada ao governo de Donald Trump, nos Estados Unidos, e isso pode ter impacto direto no Brasil, segundo analistas.

"Os americanos estão fazendo um círculo de fogo em torno do Brasil, e isso já está pressionando o país", analisa Feliciano de Sá Guimarães, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP (Universidade de São Paulo).

Caso a esquerda saia vencedora, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pode sentir um alívio por manter algum aliado ideológico na região, mas o cenário já é complicado para o Brasil, diz Carolina Silva Pedroso, pesquisadora do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

"Uma vitória da esquerda nesses países, principalmente na Colômbia, vai ser obviamente comemorada pelo Planalto. Mas não significa que a vida do Lula vai ser mais fácil. Só que não vai piorar", diz Pedroso.

No caso do Peru, as últimas eleições, de 2021, foram vencidas pelo dirigente sindical Pedro Castillo, que foi destituído do cargo e preso após tentar dissolver o Congresso no fim de 2022.

Desde então, o país vive uma duradoura instabilidade política, com uma sequência de presidentes que foi da vice de Castillo, Dina Boluarte, a membros do Congresso de diferentes correntes ideológicas. O atual presidente é José María Balcázar Zelada, um deputado de esquerda que assumiu o poder em Lima em fevereiro.

No domingo, a direitista Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, condenado por violações de direitos humanos, tenta pela quarta vez se tornar presidente. Ela enfrenta Roberto Sánchez, ex-ministro de Castillo que reproduz o estilo do ex-presidente preso.

Já a Colômbia vai decidir no fim do mês se dará continuidade ao projeto político de Gustavo Petro, ex-guerrilheiro que fez história ao se tornar o primeiro presidente de esquerda do país, ao vencer as eleições de 2022.

Como o país não permite reeleição, Petro apoia o senador Ivan Cepeda, que terminou o primeiro turno em segundo lugar. Na frente, ficou Abelardo de la Espriella, político da direita radical que se inspira em figuras como os presidentes Javier Milei, da Argentina, e Nayib Bukele, de El Salvador.

Mas como os resultados dessas duas eleições podem influenciar os rumos da região e o que elas sinalizam sobre o estado atual das sociedades sul-americanas?

Onda conservadora e o efeito Trump

Fila de eleitores peruanos

Crédito,Connie FRANCE / AFP via Getty Images

Legenda da foto,Peruanos voltam às urnas neste domingo para escolher seu novo presidente

As últimas eleições na América do Sul mostram um sinal claro de um giro à direita na região.

Em novembro de 2023, o libertário Javier Milei tirou a esquerda do poder na Argentina, com um ambicioso projeto liberal para a economia do país.

Em abril de 2025, o liberal Daniel Noboa conseguiu ser reeleito presidente do Equador, após assumir um mandato tampão.

Em outubro do mesmo ano, Rodrigo Paz, considerado de centro-direita, pôs fim aos quase 20 anos de poder do Movimento ao Socialismo de Evo Morales na Bolívia.

E, em dezembro, foi a vez de José Antonio Kast vencer a esquerda no Chile.

A exceção na região veio do Uruguai, que trocou a direita pela esquerda com a vitória de Yamandú Orsi, em novembro de 2024.

A esquerda ainda segue no poder na Venezuela. As contestadas eleições de 2024 deram vitória a Nicolás Maduro, que, no início deste ano, foi capturado pelo governo Trump em Caracas.

Desde então, a Venezuela é presidida por sua vice, Delcy Rodriguez, que tem mantido relações com os EUA e vem desmantelando o modelo econômico chavista.

Os dois países menos populosos da região e que não fazem parte da América Latina também são administrados por partidos ligados à esquerda: Guiana e Suriname.

Na América Latina, para além das fronteiras do Sul, a direita ainda obteve vitórias recentes nas eleições em El SalvadorHonduras, Panamá, República Dominicana e Costa Rica. A esquerda venceu no México e na Guatemala.

Com esse cenário, as eleições do Peru e da Colômbia podem fazer pender ainda mais o quadro político do continente para a direita, em um movimento que pode ser comparado com a chamada "onda rosa", quando diversos governos de esquerda passaram a governar países sul-americanos no início dos anos 2000.

"Se você olhar na história da América Latina dos últimos 20 anos, você nota esses movimentos para a direita e a esquerda. Agora, você tem uma maioria de governos de direita sendo eleitos na região, mas é sempre bom olhar para as especificidades de cada um dos países", diz Feliciano de Sá Guimarães.

Mas um fator essencial e em comum para esta onda de agora é a eleição de Trump nos EUA, em 2016 e 2024, segundo os analistas.

"Em termos históricos, é a esquerda quem tradicionalmente se organiza de forma internacional, mas com Trump foi se formando uma integração clara entre a direita na região", explica Pedroso.

"Isso agora está num processo de quase dez anos de consolidação de uma integração entre essa direita que acaba se influenciando mutuamente", avalia a professora, que aponta a vitória de Milei na Argentina como o ponto de virada dessa nova guinada à direita na América do Sul.

Para Sá Guimarães, além do fator Trump, a América Latina sofre de um problema estrutural que ele chama de "praga da incumbência".

"Aqueles que têm poder têm tido mais dificuldade de serem reeleitos", diz o pesquisador.

"É o descompasso de expectativas entre aquilo que os eleitores da América Latina esperam dos seus governos e a capacidade de os Estados frágeis entregarem benesses econômicas, sociais e políticas para os cidadãos."

No caso do Brasil, o presidente Lula enfrenta uma rejeição alta e uma dificuldade de reduzi-la, apesar de alguma melhora nas pesquisas mais recentes. Segundo o levantamento da Quaest em maio, 53% dos eleitores o rejeitavam.

Lula lidera as intenções de voto nas pesquisas eleitorais até agora, mas os levantamentos apontam para uma disputa acirrada em um eventual segundo turno entre o petista e os candidatos da direita que se apresentaram até agora.

Segundo o Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, Lula tem 46% das intenções de voto no segundo turno, contra 41% do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o adversário do presidente que aparece com folga como o melhor posicionado nos levantamentos do primeiro turno até agora.

Essa dificuldade de presidentes se reelegerem ou de fazerem seus sucessores explica, segundo Sá Guimarães, por que a balança de poder na América Latina tem variado rápido.

Em 2022, por exemplo, falava-se de uma onda à esquerda, após as eleições seguidas de vitórias desse campo político no México, Argentina, Bolívia, Peru, Honduras, Chile, Colômbia e Brasil. Agora, a onda rapidamente mudou.

Na avaliação do pesquisador, mesmo que a esquerda perca as eleições no Peru e na Colômbia, é preciso lembrar que as duas maiores economias da América Latina, Brasil e México, estarão, pelo menos até o fim do ano, nas mãos de governos de esquerda.

"Então, eu acho improvável que você tenha uma captura total à direita ou uma captura total da esquerda", diz Sá Guimarães.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está ao lado de (da esquerda para a direita) Luis Abinader, presidente da República Dominicana; Rodrigo Paz Pereira, presidente da Bolívia; Nayib Bukele, presidente de El Salvador; Javier Milei, presidente da Argentina; José Raúl Mulino, presidente do Panamá; Mohamed Irfaan Ali, presidente da Guiana; e Nasry “Tito” Asfura, presidente de Honduras, durante uma foto em grupo no início da “Cúpula Escudo das Américas”

Crédito,Roberto Schmidt/Getty Images

Legenda da foto,Trump promoveu em março o evento "Cúpula Escudo das Américas", encontro com chefes de Estado de países aliados na região, com figuras como Bukele e Milei

O movimento atual, porém, tem um componente diferente e essencial para entender o estado atual das sociedades sul-americanas: a polarização e a direita indo mais para o extremo, rompendo com grupos tradicionais deste campo que governaram a maioria dos países por décadas.

"As eleições são um reflexo de algo que está mais presente na sociedade, que é esse radicalismo que tem pendido muito mais para a direita", explica Pedroso.

É o caso da ascensão dos chamados outsiders, figuras de grupos não tradicionais da política que chegam ao poder "implodindo" o sistema, como é o caso de Milei ou Bukele, com muita força nas redes sociais e sem serem bem captados em pesquisas de intenção de voto.

O novo representante desse grupo é justamente de La Espriella, na Colômbia.

"Há realmente uma dificuldade analítica de entender qual é a profundidade desse fenômeno dos outsiders na América Latina, porque as ferramentas tradicionais não conseguem detectar, mas está cada vez mais presente em todas as eleições", diz Pedroso.

Os impactos no Brasil

Há dez anos, Feliciano de Sá Guimarães estuda como os brasileiros acompanham a política internacional e que influência ela tem nas eleições.

"Temos mostrado aqui nas pesquisas da USP que política externa cada vez mais é um tema eleitoral, não é um tema decisivo, mas importante", diz o pesquisador.

Na sua avaliação, porém, o fator Trump é o assunto mais relevante neste contexto, com pouca influência para o que acontece nos países vizinhos do Brasil.

"Claro, a direita brasileira vai utilizar essas vitórias, caso elas ocorram, como uma tentativa de mobilização para mostrar que a direita está ganhando na região. Mas é mais importante o Trump do que essas duas eleições", diz Sá Guimarães.

Mesmo que os resultados colombianos e peruanos não influenciem o voto brasileiro, certamente haverá influência na forma como Lula ou um próximo presidente conduzirá sua política externa ou terá força no cenário internacional, ressalta Pedroso.

Caso Lula perca a eleição para um nome da direita, ainda assim Pedroso acredita que os resultados dessas duas eleições — e o tamanho da influência de Trump sobre a América Latina — terão impacto no próximo governo brasileiro.

"É um novo cenário complexo, em que os Estados Unidos entram de forma muito mais agressiva, não só com medidas econômicas, mas também com presença militar na região", diz.

Em segundo lugar nas pesquisas, o senador Flávio Bolsonaro tem se mostrado parte de uma direita latino-americana bastante alinhada a Trump, assim como Keiko Fujimori, no Peru, ou de la Espriella, na Colômbia.

Em maio, Flávio se encontrou com o presidente americano na Casa Branca, que o chamou de "um jovem que ama o Brasil". Logo após o encontro, o governo Trump classificou facções brasileiras como grupos terroristas, uma medida defendida pela família Bolsonaro junto ao governo americano há mais de um ano.

Mas os EUA também concluíram uma investigação que ameaça o Brasil com novas tarifas comerciais. Flávio negou ter sugerido essa medida e enviou uma carta a Trump pedindo que ele não taxasse o Brasil.

Isso mostraria como, mesmo sendo aliado e na hipótese de chegar ao Planalto, Flávio precisaria lidar com uma relação muito mais intrincada com os EUA, como explica Feliciano de Sá Guimarães.

"O objetivo americano é reduzir a crescente influência chinesa na América do Sul. E a maneira mais barata para eles é ter presidentes aliados aqui", diz o pesquisador.

"Mas acho que Flávio se engana muito se acredita que terá no presidente Trump um aliado de primeira hora. Existem questões estruturais do Brasil (como a relação com a China) que independem do presidente Trump ou de quem quer que esteja no poder nos EUA."

O presidente do Chile, Gabriel Boric Font (C), é visto com os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (E2); da Espanha, Pedro Sánchez (D2); do Uruguai, Yamandú Orsi (E); e da Colômbia, Gustavo Petro (D)

Crédito,Cristobal Basaure Araya/SOPA Images/LightRocket via Getty Images

Legenda da foto,Em 2025, evento no Chile reuniu líderes de esquerda. No fim do ano, Gabriel Boric, ao centro, deixou o poder chileno sem fazer seu sucessor - algo que pode acontecer com Gustavo Petro, na Colômbia, na direita na foto

Em caso da permanência de Lula no Planalto, para a professora Pedroso, uma mudança no Peru seria "bem menos dramática para o Brasil" do que uma mudança na Colômbia.

Ela cita como exemplo as críticas constantes nas redes sociais que o atual presidente colombiano, Petro, faz a Trump e aos EUA.

"Isso, de certa forma, fortalece a posição do Brasil, porque, se o Lula não pode diretamente fazer esse tipo de crítica, tem um vizinho que faz", diz Pedroso.

"Os resultados acabam refletindo na forma como os nossos países vão lidar com essas questões todas que estão colocadas no mundo com a presença mais incisiva dos Estados Unidos", completa a pesquisadora.

Pedroso ressalta ainda que o que está em jogo também são questões que vão além da disputa político-ideológica, com os chamados "fenômenos transnacionais", que não respeitam as fronteiras.

Colômbia e Peru são países fronteiriços na Amazônia, com forte presença do crime organizado e narcotráfico. Ou seja, é preciso ter alguma afinidade entre governos para tratar de um problema comum.

Para Sá Guimarães, um eventual cenário de isolamento ideológico do Brasil teria fortes consequências na forma como o país consegue resistir à política de Trump para o continente.

"Uma coisa é você ter um adversário na Bolívia ou na Argentina. Outra coisa é você ter dez adversários. O fator agora são os Estados Unidos. E o presidente Trump procura isolar o Brasil", diz o pesquisador.

O que representa para Cuba a saída das principais multinacionais hoteleiras que operavam no país

 

Hotel em Cuba

Crédito,Getty Images

    • Author,Atahualpa Amerise
    • Role,BBC News Mundo
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A saída parcial das principais redes de hotéis estrangeiras traz um novo revés para Cuba, que atravessa uma das piores crises da sua história recente.

A rede espanhola Meliá anunciou na quarta-feira (3/6) o término imediato das operações de 15 dos seus 34 hotéis, especificamente os vinculados à rede turística Gaviota, controlada pelo conglomerado militar cubano Gaesa.

Pouco antes, a Iberostar renunciou a 12 dos seus 16 estabelecimentos operados na ilha. Já a canadense Blue Diamond informou o abandono de todas as suas operações no país, "com efeito imediato".

Somou-se a elas o maior grupo hoteleiro privado do sudeste asiático, a Archipelago International. A empresa retirou sua marca Aston de vários hotéis em Cuba, incluindo alguns dos mais modernos e luxuosos da capital, Havana.

A saída destas empresas ocorreu após um novo aperto do governo do presidente americano, Donald Trump, sobre a economia da ilha.

Trump assinou, em 1º de maio, uma ordem executiva determinando sanções contra pessoas e empresas que mantiverem vínculos econômicos com a Gaesa. A medida serviu de ultimato para que as companhias estrangeiras encerrassem suas operações com a holding cubana antes do dia 5 de junho.

Sem atribuir a saída exclusivamente aos Estados Unidos, as redes hoteleiras apontaram uma combinação de fatores, que incluem os receios jurídicos, a deterioração das condições de operação e a crise energética enfrentada pela ilha caribenha.

De qualquer forma, a saída das empresas dificulta ainda mais o futuro de um setor considerado fundamental para a captação de divisas e, por extensão, para a própria sobrevivência da economia cubana.

Vista da praia de Havana, com os hotéis dos grupos Iberostar e Meliá ao fundo

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Os modernos hotéis das redes Iberostar e Meliá se destacam entre os edifícios antigos de Havana

Como funciona o modelo turístico cubano

Diferentemente do que acontece em muitos outros destinos turísticos, os hotéis em Cuba costumam ser de propriedade de empresas estatais, como a Gaviota.

"Os hotéis continuam sendo da Gaesa, mas sua administração é concedida por contrato a uma empresa estrangeira", explica o economista Pavel Vidal à BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC).

As redes estrangeiras fornecem a marca, os sistemas de reservas, a promoção internacional, os acordos com operadoras de turismo e boa parte dos padrões de gestão e qualidade que, até pouco tempo atrás, atraíam para Cuba milhões de visitantes da Europa, Canadá e outras regiões.

"A partir daí, define-se qual participação ela terá nos lucros obtidos pelo hotel", destaca o economista Ricardo Torres.

Este é o modelo principal, mas também existem companhias mistas entre o Estado cubano e empresas estrangeiras para desenvolver, gerenciar e explorar instalações turísticas.

Também foi recentemente proposto um modelo de leasing, que permite a uma empresa estrangeira alugar a instalação, dispondo de maior autonomia na operação.

A saída das redes estrangeiras não significa que os hotéis serão automaticamente fechados, pois eles podem continuar sendo operados por empresas estatais cubanas.

Na verdade, a questão não é só quem irá administrar os estabelecimentos, mas quem conseguirá receber hóspedes.

Em um país com cerca de 80 mil quartos em hotéis que eram gerenciados, em grande parte, por operadoras estrangeiras, a perda das redes comerciais fornecidas pela Meliá, Iberostar, Blue Diamond e Archipelago pode representar um golpe muito forte.

Vista do hotel Grand Aston, em Havana

Crédito,Reuters

Legenda da foto,Hotéis como o Grand Aston são operados pela Gaviota, empresa do conglomerado cubano Gaesa

Golpe para um setor quase falido

A saída das principais redes hoteleiras estrangeiras chega em meio a um total colapso do setor turístico de Cuba. O país nunca conseguiu retornar aos níveis anteriores à pandemia de 2020, quando costumava receber entre 4 e 5 milhões de visitantes por ano.

Cuba recebeu apenas 328.608 turistas internacionais entre janeiro e abril de 2026. Este número representa 55,8% a menos que o mesmo período do ano anterior, segundo dados do Escritório Nacional de Estatística e Informações de Cuba (Onei, na sigla em espanhol).

A redução se acelerou principalmente a partir de fevereiro, com o agravamento da crise energética e de abastecimento vivida pela ilha, com apagões diários de várias horas e extrema escassez de combustível.

Tudo isso prejudicou mercados fundamentais, como o Canadá e a Espanha, responsáveis por grandes fluxos de turistas. Grande parte das rotas aéreas para Cuba foram suspensas, devido às dificuldades enfrentadas pelas companhias aéreas para reabastecer seus aviões nos aeroportos da ilha.

Os apagões prolongados, a escassez de energia e a deterioração dos serviços básicos também prejudicaram a atratividade do país. Nos últimos tempos, Cuba oferecia praias vazias, hotéis semidesertos e poucas opções de lazer.

Neste contexto, os economistas consultados pela BBC consideram que a saída das redes hoteleiras Meliá, Iberostar, Blue Diamond e outras representa mais um golpe para um setor que já estava gravemente enfraquecido.

"Os poucos visitantes que ainda conseguiam ir, agora, irão pensar duas vezes", explica Ricardo Torres.

"A empresa estrangeira sempre oferecia uma certa garantia de qualidade à operação de um hotel. Agora, esta garantia desapareceu."

Em pleno colapso turístico, os poucos clientes dos hotéis poderão ser, em grande parte, moradores de Cuba (sejam eles cubanos com receita proveniente do exterior ou diplomatas estrangeiros) ou cidadãos cubano-americanos em visita aos seus familiares.

Estes frequentemente se hospedam em residências privadas, mas também costumam passar férias com seus parentes em hotéis das praias de Varadero ou em alguma das ilhas próximas.

O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, segura uma bandeira cubana vestindo uniforme militar, ao lado de outros oficiais do exército do país

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,O conglomerado militar Gaesa foi considerado um poder à parte dentro do governo liderado pelo presidente cubano Miguel Díaz-Canel.

Os efeitos sobre a economia

O novo golpe imposto ao turismo cubano revela a dificuldade cada vez maior do país de manter vínculos com investidores, fornecedores e empresas estrangeiras, em vista do aprofundamento das sanções americanas. Os Estados Unidos aplicam à ilha um embargo comercial que já dura mais de seis décadas.

Na quinta-feira (3/6), as autoridades cubanas anunciaram a suspensão dos pagamentos eletrônicos da Visa e Mastercard a partir do dia 6 de junho, devido às sanções impostas por Washington.

A maioria das cadeias hoteleiras que abandonaram Cuba operavam estabelecimentos vinculados à Gaviota, o braço turístico do conglomerado militar Gaesa, que domina vastos setores da economia cubana.

As novas medidas tomadas por Washington buscam exatamente isolar o grupo empresarial, obrigando as empresas estrangeiras a romper relações com ele ou se sujeitar a sanções.

"Isso está levando não só as redes hoteleiras, mas praticamente tudo o que restava de investimento estrangeiro em Cuba, a se retirar, incluindo fornecedores, bancos e companhias de navegação", afirma Torres.

O economista vai além e defende que as sanções não buscam apenas pressionar o governo cubano, mas também retirar as empresas espanholas e canadenses, frente a uma eventual mudança de regime ou transformação profunda do sistema.

"O caminho está sendo aberto, deixando a economia disponível para que, durante uma negociação com os Estados Unidos, entrem os capitais americanos", opina ele.

Autoridades de Washington e de Havana se reuniram nas últimas semanas para debater assuntos relativos ao futuro da ilha, mas não se sabe especificamente qual foi o conteúdo dessas negociações.

Vidal acredita que a ofensiva norte-americana contra a Gaesa "pode causar uma reconfiguração da geografia dos capitais internacionais, na qual Cuba vai se inserindo".

A saída das multinacionais turísticas também traz um problema logístico para as autoridades cubanas: o que fazer com uma enorme rede hoteleira construída durante anos de expansão do turismo, se o número de visitantes foi reduzido ao mínimo?

Uma opção, para Ricardo Torres, seria concentrar os poucos visitantes em menos instalações.

"Para que ter tantos hotéis abertos, se não há visitantes?", questiona ele.

Outro desafio é a preservação das instalações, com seus altos custos fixos de manutenção, eletricidade e pessoal, que dificilmente serão assumidos pelo Estado cubano.

"Se esta situação se prolongar ao longo do tempo, as instalações inevitavelmente irão se deteriorar, pois os recursos para sua manutenção simplesmente não existem", conclui Torres.