SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

O que quebra de sigilo de documentos sobre morte do 1º presidente eleito pós-ditadura pode revelar

 

Tancredo, em foto de 1984, recebe beijo de mulher em foto em preto e branco
Legenda da foto,Presidente eleito do Brasil, Tancredo Neves foi internado antes de tomar posse
    • Author,Edison Veiga
    • Role,De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
  • Published

Mais um capítulo está sendo escrito sobre a morte do então presidente eleito do Brasil Tancredo Neves (1910-1985), ocorrida em 21 de abril de 1985 — o primeiro civil que comandaria o país, se tivesse tomado posse, depois da ditadura militar.

Depois de 12 anos sem trâmite, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) reconheceu o direito da família de ter acesso aos documentos e procedimentos relacionados aos tratamentos médicos que antecederam seu óbito.

Este é o resultado de um pedido de habeas data referente aos prontuários médicos do então presidente. A decisão foi proferida no último dia 26 de outubro.

Em outras palavras, a Justiça atendeu ao pedido dos familiares e quebrou o sigilo médico sobre os prontuários referentes aos atendimentos, procedimentos e cirurgias do político desde o dia 14 de março daquele ano.

Naquela data, véspera da cerimônia de posse presidencial, Tancredo se sentiu mal e foi atendido no Hospital de Base em Brasília com . Tancredo Neves foi internado na véspera da posse presidencial com uma inflamação na região do intestino grosso – e recebeu, inicialmente, tratamento para apendicite aguda e, depois, para diverticulite. Ele morreu de septicemia, um mês depois, em 21 de abril de 1985.

Os registros agora liberados vão até a morte do político, mais de um mês depois, no Hospital das Clínicas de São Paulo.

Mais importante: podem vir a ser conhecidos os entendimentos do Conselho Federal de Medicina, bem como da unidade de Brasília do Conselho Regional de Medicina, acerca do caso.

De acordo com a advogada que representa a família de Neves, Juliana Porcaro, o interesse é em saber quais argumentos a instituição profissional utilizou para advertir os médicos envolvidos nos procedimentos realizados nos últimos dias do então presidente eleito.

Segundo a advogada, a decisão judicial não é apenas uma "vitória jurídica".

"É uma vitória da memória, do direito à informação e da busca pela verdade histórica", declara ela.

Porcaro afirma que a decisão não significa o encerramento de uma história, mas sim a conquista da "possibilidade de conhecer as páginas que ainda faltam".

Quando a saúde pessoal deixa de ser questão privada

O processo judicial contra as entidades médicas foi apresentado em fevereiro de 2012.

Estava tramitando até 2014, sem julgamento do mérito. A ação, de 2012, tem o filho do político, o advogado Tancredo Augusto Tolentino Neves como autor e pede que os conselhos de medicina apresentem todos os "prontuários, processos, procedimentos e demais documentos" referentes aos atendimentos aos quais se submeteu o então presidente eleito Tancredo Neves nos dias que antecederam à sua morte.

O objetivo, diz a petição, seria esclarecer as circunstâncias do estado clínico, da internação e da causa mortis do ilustre paciente.

A tese jurídica que embasa o pedido é de que mesmo o sigilo médico não deve ser um valor absoluto e tem de "ceder espaço ao interesse específico do impetrante e sua família, bem como à própria história do pais" — que, segundo a petição, "reclama por explicações convincentes sobre o inesperado e rápido perecimento do primeiro presidente da República eleito após a ditadura".

O texto ainda ressalta que, no caso de um presidente da República, a saúde pessoal deixa de ser uma questão privada, já que repercute no "funcionamento das instituições" e nos "interesses da sociedade".

Depois de ficar parado de 2014 até o início do ano passado, o gabinete de um desembargador do TRF consultou as partes sobre o interesse ou não na retomada do caso.

Em resposta à Justiça, a advogada Porcaro afirmou que desejava prosseguir. "Negar acesso a documentos médicos de um ex-presidente falecido […] é impedir o resgate de fatos que pertencem à história nacional", argumentou a advogada. Também de forma oficial, o conselho médico disse não se opor à ocorrência do julgamento.

Em conversa com a reportagem, Porcaro afirmou que, embora hoje se saiba que a morte de Neves foi ocasionada por uma sucessão de erros médicos, segue havendo interesse em saber "o que tem nesse processo" — no caso, o processo interno do Conselho Federal de Medicina.

"Há alguma coisa a que se atribui o erro médico", suspeita. "A gente quer saber o que o conselho considerou de errado na conduta dos médicos."

Segundo a advogada, "depois de tantos anos", só resta "o interesse histórico" — já que, diz ela, "não há mais tempo para punir" os envolvidos.

A justificativa é de que o interesse persiste porque o episódio ultrapassaria o interesse familiar, envolvendo a preservação da memória institucional e o esclarecimento de um fragmento da história recente do país, portanto.

O Conselho Federal de Medicina foi procurado pela reportagem, mas não retornou aos questionamentos. Em nota divulgada à imprensa nesta semana, o órgão comunicou que ainda não havia sido notificado oficialmente pela Justiça.

Presidente da Comissão de Saúde, Bioética e Biodireito da seção do Distrito Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, a advogada Thais Maia acredita que o caso trará discussões interessantes para a área, com argumentos que depois possam fundamentar casos futuros.

Segundo ela, acesso a prontuários é um tema que "gira em torno do equilíbrio entre o direito à privacidade do paciente e a relevância do interesse público e histórico envolvendo a saúde", no caso, de um presidente que "foi muito simbólico do processo de redemocratização" do país.

Ela lembra ainda que há três arcabouços a serem debatidos no entorno de tal julgamento.

Em primeiro lugar, o direito constitucional à privacidade. Além disso, o sigilo médico — que protege todos os pacientes. Por fim, a recente Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), de 2018, que qualifica informações do tipo como "sensíveis".

"Mas há o entendimento de que não existem direitos absolutos", diz Maia. "Aí vem o interesse público e histórico em relação à dimensão política de um paciente como este."

'Não tenho mais interesse'

O filho de Tancredo Neves, representado por Porcaro, não demonstra a mesma disposição. Em conversa com a BBC News Brasil em julho, o hoje advogado aposentado Tancredo Augusto Tolentino Neves argumenta que não tem mais interesse em acessar o material.

"A gente não precisa mais, não", afirmou. "Não tenho mais interesse. Esse assunto está encerrado."

De acordo com Tolentino Neves, as teorias da conspiração que pairavam sobre a morte de seu pai — de envenenamento a tiro — caíram por terra com a publicação do livro O Paciente - O Caso Tancredo Neves, escrito pelo médico e pesquisador Luís Mir e publicado em 2010 pela Editora de Cultura.

Para escrever a obra, Mir teve acesso a mais de 900 documentos, inclusive prontuários médicos, a fim de reconstituir aqueles derradeiros dias de Tancredo Neves. Sua conclusão foi que a morte ocorreu devido a uma sucessão de erros médicos, culminando com um quadro de septicemia — e a morte por infecção generalizada.

"Ele fez um levantamento. E é médico, além de ser escritor. Seu livro é um libelo fantástico", comentou Tolentino Neves. "Na época saiu muita conversa fiada, que ele teria sido envenenado, que teria levado um tiro, que foi isso, que foi aquilo…"

"O Luís Mir fez um livro técnico. O que me interessava [no caso] ele fez: porque no certificado de óbito do meu pai diz que foi [morto por] septicemia. Mas a septicemia foi em função dos erros que eles cometeram nas sete operações. Todos os médicos."

Caixão com corpo de Tancredo é velado
Legenda da foto,Conclusão de livro foi que a morte de Tancredo ocorreu devido a uma sucessão de erros médicos, culminando com um quadro de septicemia

O processo judicial aberto em 2012 foi motivado tanto pela repercussão da obra de Mir quanto por interesse deste. Tolentino Neves havia dado ao médico e escritor uma procuração para que ele solicitasse documentos médicos em nome da família — e assim pudesse pesquisar para o livro.

Foi desta forma que Mir teria conseguido os prontuários. A negativa, contudo, surgiu quando ele buscou saber dos entendimentos do Conselho de Medicina.

A peça jurídica em tramitação cita, inclusive, que o acesso a tais informações seria importante para uma nova edição do livro de Mir.

O filho de Tancredo Neves esclareceu que, na verdade, nunca tomou a frente dessa batalha judicial pelo acesso pleno às fichas médicas do pai. Se o seu nome aparece nos autos, justificou ele, é por conta da procuração que deu a Mir.

Em conversa com a reportagem também no mês de julho, Mir confirmou o interesse — mas revelou que desconhecia a informação de que o processo tivesse sido retomado. O filho de Tancredo Neves também não estava completamente informado a respeito do andamento do processo. "Eu soube [da reabertura do caso] via WhatsApp. Amigos me mandaram", contou Tolentino Neves.

Tolentino Neves disse acreditar que, se seu pai não tivesse se tornado presidente, ele teria sobrevivido — os erros seriam consequência da ânsia de deixarem-no apto à posse rapidamente. "Fizeram incisões erradas, deram anestesia por um tubo mais grosso, enfim, foi uma série de erros", salienta.

A reportagem buscou contatar outros familiares de Tancredo Neves, mas eles ou não responderam ou direcionaram a Tolentino Neves — foi esta, inclusive, a conduta do neto de Tancredo, o atual deputado federal Aécio Neves (PSDB-MG), por meio de sua assessora de imprensa.

Imagem oficial do presidente Tancredo Neves
Legenda da foto,Tancredo Neves morreu em 21 de abril de 1985, sem jamais ter sido empossado

A morte do presidente

Eleito em janeiro de 1985, de forma indireta, pelo colégio eleitoral, Tancredo Neves, era o nome da oposição ao regime militar que seria o primeiro presidente civil depois do golpe de 1964. Ele passou mal no dia 14 de março, depois de um evento religioso em Brasília, véspera da data da posse. Com intensas dores abdominais, foi internado no Hospital de Base do Distrito Federal.

Foi um baque. A posse de Tancredo, afinal, era o aguardado fim simbólico para o período da ditadura.

Relatos da época dão conta que o próprio Tancredo Neves vinha adiando a busca por cuidados médicos, já que os sintomas vinham sendo frequentes mas ele queria ser empossado antes de se tratar. Ele tinha um tumor no intestino e, segundo Mir aponta em seu livro, os médicos que o receberam em março daquele ano confundiram o quadro, inicialmente o tratando como apendicite aguda.

No dia 15 de março, até mesmo para acalmar os ânimos políticos do país, o vice-presidente José Sarney recebeu a faixa presidencial e foi empossado no cargo.

Naquelas semanas, a agonia de Tancredo Neves foi midiática. No dia 25, por exemplo, pretendendo uma suposta normalidade, foi divulgada uma foto de Tancredo Neves sentado no sofá do hospital, com nítida dificuldade. Na cena, ele aparece rodeado por médicos, ostentando sorrisos, como se o ambiente fosse de tranquilidade.

Tancredo Neves passaria por sete cirurgias e morreria, em 21 de abril. Jamais foi empossado.

Translucência

 

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Fui outrora
tão
pequenina,
tão diáfana,
uma miudez de
semente,
quase um espectro.

Hoje
espanto-
me
com a minha dimensão,
não por me haver alargado de
repente,

Mas porque um Jardineiro
achou-me no seio do nada,
regou-me,
cultivou-me


Deitou-me
em terra fecunda.

E ainda me elevo
à altura em que possa tocá-
Lo
e finalmente contemplar-Lhe o rosto.

Cresço para a Luz que me nutre,
para Aquele que primeiro
me enxergou
e me fez desabrochar.

sábado, 31 de outubro de 2026

O Amor venceu o ódio em 2026!

 


A vitória de Lula em 2022, com margem apertada de 50,9% a 49,1% dos votos válidos, não representou apenas uma alternância de poder, mas um sintoma de um Brasil profundamente dividido que exige novas formas de habitar o mundo. A partir desse marco, a construção de "novas formas de ser, viver e governar" exige articulação entre a concretude das políticas públicas, a crítica à fragmentação digital e uma pedagogia da convivência que nos retire das bolhas e nos insira em ecossistemas plurais. Mas a eleição de 2026 não repetiu o roteiro de 2022. Em 25 de outubro de 2026, Lula venceu o segundo turno com 51,79% dos votos válidos (64.256.232 votos), derrotando Flávio Bolsonaro, que obteve 48,21% (59.826.041 votos). Mas o dado decisivo está no primeiro turno: Flávio liderou com 47,03% contra 45,16% de Lula — vantagem de cerca de 2,2 milhões de votos. Lula tornou-se, assim, o primeiro presidente desde a redemocratização a perder o primeiro turno e virar no segundo, numa virada de mais de 4,4 milhões de votos. No segundo turno, Lula cresceu em todos os 26 estados e no Distrito Federal, somando mais de 10 milhões de votos em relação ao primeiro turno — 2,6 milhões só em São Paulo, 1,1 milhão em Minas Gerais (onde virou o placar) e 872 mil no Rio de Janeiro, território político de Flávio.

O Desafio Antropológico: Sair da "Curadoria do Eu" para o Ecossistema

A eleição evidenciou um fenômeno que a pesquisadora Catharina Vale chama de "curadoria do eu": a tendência de jovens e cidadãos de filtrarem radicalmente o conteúdo que consomem nas redes sociais como forma de proteção contra o cansaço da polarização. Se, por um lado, essa blindagem protege o indivíduo de agressões virtuais, por outro, ela cria bolhas onde o outro desaparece, impedindo o diálogo social.

Para governar e viver agora, é preciso transmutar essa lógica de isolamento em ecossistemas sociais. Isso significa compreender a sociedade não como uma soma de identidades isoladas, mas como uma rede de interdependência. O desafio antropológico é resgatar a ideia de que a sobrevivência do "eu" depende da vitalidade do "nós". A vitória nas urnas, embora tenha sido celebrada nas ruas e nas redes por parte da população, só se sustenta politicamente se houver a coragem de romper as bolhas e criar espaços de convivência onde a diversidade não seja uma ameaça, mas um nutriente para a inovação social e política.

A Dimensão Espiritual e Educacional: O Amor como Prática Política

A transição do ódio para o amor, mencionada como força motriz da vitória, encontra ressonância em pensadores como Howard Thurman e Thich Nhat Hanh. Thurman argumentava que o amor não é uma sentimentalidade fraca, mas uma disciplina espiritual radical que exige compreender as raízes da raiva no outro e em si mesmo para, só então, ser capaz de transformar a realidade. Nhat Hanh complementa ao afirmar que "matar a raiva" é a única guerra justa, pois remove o sofrimento e traz paz.

No campo educacional, Edgar Morin oferece a bússola metodológica para essa transformação. Sua crítica à "cabeça bem cheia" (acúmulo de informações fragmentadas) em favor da "cabeça bem-feita" (capacidade de contextualizar e ligar saberes) é crucial. Para governar com o povo e transformar a pobreza e as violências, a educação precisa ser um exercício de complexidade. Não basta ensinar fatos; é preciso ensinar a condição humana, a compreensão e a ética do gênero humano. Isso implica uma pedagogia que una a espiritualidade (o cuidado com o outro) à sustentabilidade ambiental e à justiça social, formando cidadãos capazes de habitar os "ecossistemas" mencionados sem medo.

O Governar com o Povo: Sustentabilidade e Reconstrução

No plano concreto da gestão, as "novas formas de governar" anunciadas no discurso de posse apontam para uma tentativa de reverter o desmonte das políticas públicas e reintegrar o Brasil ao circuito da sustentabilidade. A promessa de desmatamento zero e a revogação de decretos armamentistas sinalizam uma mudança de paradigma: o Estado deixa de ser um facilitador da destruição (ambiental e social) para se tornar um garantidor da vida.

Contudo, para que isso se torne um "mundo novo" economicamente sustentável e justo, a governança precisa incorporar a dimensão do cuidado. Isso significa olhar para a pobreza não apenas como falta de renda, mas como falta de acesso a ecossistemas saudáveis (saneamento, cultura, segurança alimentar). A reconstrução do Estado é, portanto, indissociável da reconstrução do tecido social. Governar "com o povo" exige canais de participação que não sejam apenas digitais (e, portanto, sujeitos a algoritmos), mas presenciais e comunitários, onde o "bem, o belo e o justo" possam ser debatidos e experienciados na prática cotidiana.

Em síntese, a eleição de Lula abriu uma janela para a reinvenção, mas a arquitetura desse novo mundo depende de uma síntese inédita: a espiritualidade que nutre a resistência não violenta, a educação que complexifica o olhar para além das bolhas, e a política que traduz essa complexidade em políticas públicas de sustentabilidade e cuidado com os vulneráveis. O caminho da sabedoria, nesse contexto, é a recusa constante da simplificação (seja a das redes sociais ou a dos discursos de ódio) em favor da construção paciente de ecossistemas onde a vida — em sua diversidade biológica, cultural e espiritual — seja o centro das decisões.


sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Quando o denunciante adoece e a oligarquia dorme!




Dizem que o corpo fala quando a boca é calada. E que psiquismo nenhum suporta o peso de uma verdade que exige o sacrifício da própria sanidade. Hoje, enquanto a corrupção ri nos corredores do poder, quem a denúncia é internado, medicado, ameaçado de morte e perseguido até o osso. A perseguição não é mais a masmorra úmida; é o bombardeio de violências, o assédio moral travestido de legalidade, a difamação sistemática que corrói o sono e implanta o pânico. Jornalistas e delatores adoecem de ansiedade, depressão e pânico; seus algozes, de cinismo. É a mesma engrenagem que, noutros tempos e latitudes, quebrou homens e mulheres com métodos que a humanidade jurava ter enterrado.

Lembremos Dreyfus. Em 1894, um capitão judeu foi condenado por traição com base num dossiê forjado. A França inteira gritou "morte ao traidor". Ele foi degradado, enviado a prisão, e a nação assistiu ao linchamento moral de um inocente enquanto a razão de Estado exigia silêncio. A peça central não foi a espada, mas a mentira institucionalizada. Zola precisou fugir para não ser preso por dizer a verdade. O psiquismo de Dreyfus, o que restou dele após cinco anos de ilha do Diabo, ninguém mediu. A República só o reabilitou em 1906, quando a ferida já era gangrena.

Na Itália, a máfia não processa; ela explode. Giovanni Falcone, juiz que ousou tocar no intocável, foi assassinado em 1992 com 500 quilos de explosivo na autoestrada de Capaci. Com ele morreram a esposa e três agentes. Falcone não sofreu de depressão; foi desintegrado. O terror como resposta à denúncia é a forma mais brutal de censura: o silêncio feito de carne carbonizada. E Paolo Borsellino, seu parceiro, morreu semanas depois. O Estado italiano, que hoje os chora, conviveu com a máfia por décadas. A violência não é acidente: é o preço que se cobra de quem vê o que não devia.

Na América Latina, as ditaduras dos anos 1970 e 1980 transformaram o Estado em máquina de desaparecimento. No Chile de Pinochet, na Argentina de Videla, no Uruguai de Bordaberry, opositores eram jogados de aviões, torturados em centros clandestinos, enterrados como "NN". A psiquiatria política não existia: o trauma era a regra, não a exceção. Quem sobreviveu carregou no corpo e na mente o peso de uma noite que não terminou. E quantos denunciaram a corrupção militar? Foram chamados de subversivos e tratados como tal. A lógica é idêntica à de hoje: quem ameaça o sistema é patologizado, criminalizado, eliminado.

Stalin fez escola. Os expurgos dos anos 1930 não visavam apenas inimigos reais; visavam qualquer um que pudesse, um dia, sussurrar uma verdade inconveniente. O terror era sistêmico, calculado, burocrático. Milhões passaram pelos gulags, e os que saíram vivos — quando saíram — não eram mais os mesmos. Havel descreveu o comunismo tardio como uma "ausência de lei de luvas de pelica", que trocou as câmaras de tortura por escritórios acarpetados de burocratas sem rosto. A doença mental como efeito colateral do medo constante era esperada. O regime não precisava matar todos: bastava quebrar os que falavam. 

No Leste Europeu, a Stasi mantinha arquivos sobre o psiquismo alheio. Denunciar corrupção partidária era entregar-se à vigilância, à chantagem, ao isolamento social. A censura não era só externa; era internalizada. O sujeito adoecia porque a realidade era insuportável e a fala, proibida.

No Oriente Médio, regimes de terror fizeram da delação uma indústria e da psique humana um campo de batalha. Jornalistas iranianos, sírios, egípcios que denunciaram corrupção conhecem a tortura, a prisão perpétua, o exílio forçado. A violência não é metáfora: é cotidiana, e o sofrimento psíquico, inevitável.

Brecht escreveu sobre os que lutam no escuro. Shakespeare mostrou Hamlet enlouquecendo diante da podridão de um reino. A literatura sabe o que os tribunais ignoram: a injustiça adoece. Mas os algozes de hoje não querem ser chamados de algozes. Preferem o eufemismo: "famílias políticas", "alianças", "regulação da liberdade". Enquanto isso, o denunciante toma antidepressivo, muda de cidade, vê a família ameaçada.

A revolta é esta: o mundo condenou Dreyfus, chorou Falcone, enterrou os desaparecidos da América Latina, jurou "nunca mais" diante dos gulags. E, no entanto, a mesma engrenagem segue operando — agora com toga, com algoritmo, com mandatos comprados por emendas e corrupção. Quem luta contra a corrupção não morre mais só de bala. Morre de exaustão, de pânico, de solidão. E a sociedade, anestesiada, chama isso de normalidade.

Enquanto isso nas redes sociais, o mal impera com campanhas políticas que propagam o ódio, a mentira, a ignorância sem ciência, o preconceito, as violências, um mundo que tenta apagar a História e a memória da humanidade para atingir a META de idiotas! 64 % das pessoas que acessam facebook/ instagram se tornam extremistas, compartilhando coisas que te deixam com raiva. É hora de enfrentar os poderosos, elites e oligarquias, nas redes sociais e nas ruas em nome do bom, belo, justo economicamente sustentável.