Escrevo esta carta em nome dos milhões que morreram de pobreza, de ausência de políticas públicas e de violência. Vocês não podem se calar. Diante de tantas tragédias, qualquer pacto de silêncio para se manter no poder é um segundo assassinato dos mortos.
A política do Ceará não é política, é um negócio de família que dura quarenta anos. A família Ferreira Gomes, a família Acilon Gonçalves e tecnocratas como Idilvan Alencar trocam de partido como quem troca de camisa; a única coisa que não muda é o controle da máquina estadual. Cid Gomes agora se filia ao PSB e leva Júnior Mano para a disputa — e Júnior Mano é aliado de Bolsonaro, investigado pela Polícia Federal por milhões em emendas eleitorais. Ao mesmo tempo, Cid convida Acilon Gonçalves para candidato a deputado federal — mais uma família que vive há décadas da corrupção.
Vou colocar os nomes e os números na mesa, porque a Assembleia Legislativa silenciosa não fará isso.
O "Aquário" de Cid Gomes: 112 milhões de reais, zero peixes. A obra começou em 2009, nunca foi concluída e o terreno acabou cedido à UFC. Os "Tatuzões": 138 milhões de reais em quatro tatuzões (shield machines) comprados, nenhum metro de túnel escavado, peças roubadas, viraram sucata. Arena Castelão: a Operação Colosseum da Polícia Federal apontou 11 milhões de reais em propinas a Cid e Ciro Gomes em troca da vitória da Galvão Engenharia na licitação.
No governo Camilo Santana, o "Escândalo dos banheiros" desviou recursos que deveriam construir banheiros públicos — que nunca foram entregues — e Camilo teve bens bloqueados pela Justiça. Em oito anos de governo, gastou cerca de 1,1 bilhão de reais em publicidade e mais de 15 milhões de reais por ano em aluguel de jatinhos e helicópteros.
A família Acilon Gonçalves: o TCU abriu representação sobre repasses federais ao município de Eusébio, apontando fraude em licitações e desvio de recursos públicos em obras de habitação, sistema de saúde e centros de convivência. O filho Bruno Gonçalves aparece em áudio oferecendo de 150 mil a 250 mil reais a um pré-candidato para comprar apoio partidário, dizendo "pedi 2,5 milhões a Roberto Cláudio" e mencionando "na eleição passada ele deu 1,2 milhão". O Ministério Público instaurou procedimento. O capitão Wagner chamou Bruno publicamente de "criminoso" e acionou a mãe dele, Marta Gonçalves, na Justiça.
Idilvan Alencar: de auditor fiscal da SEFAZ a secretário de Educação e depois deputado federal. Usa a COGEP para perseguir professores, libera mestrados antecipados para correligionários, nomeia quem não cumpriu estágio probatório. O dinheiro da educação vai para construtoras e editoras de livros. Isso não é gestão educacional, é máquina eleitoral.
Júnior Mano: relatório da Polícia Federal revela um esquema suspeito envolvendo 800 milhões de reais em emendas que pode ter atingido pelo menos 50 campanhas municipais, com crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro e crimes eleitorais. Diálogos com o prefeito cassado de Choró, Bebeto Queiroz, mostram retenção de 12% a 15% das emendas como "taxa".
Tudo isso sob o silêncio da Assembleia Legislativa. Como no Rio de Janeiro de Sérgio Cabral e Pezão, quando os tribunais e o parlamento também se calaram. O Ceará não é exceção; o Ceará é outro Rio, só que mais pobre e com mais mortos.
E Flávio Bolsonaro tem que ser julgado e preso como o pai. Ele está envolvido no golpe de 8 de janeiro, no tarifaço contra os Estados Unidos, na "rachadinha", nos depósitos em dinheiro da loja de chocolates, no Banco Master de Daniel Vorcaro — a quem pediu 61 milhões de reais para o filme biográfico do pai, "Dark Horse" —, na compra de pelo menos 51 imóveis em dinheiro e na concessão de medalha ao miliciano Adriano da Nóbrega. Não são "acusações": são fatos registrados pela Polícia Federal e pela Justiça.
Mas não podemos apenas esperar os tribunais. Temos que aprender a cortar na pele essas oligarquias — que trocam de partido, de aliança, de máscara, e a única coisa que não trocam é a posse do Estado. Luizianne, Elmano: ou vocês dizem esses nomes e enfrentam essas estruturas, ou são signatários do pacto de silêncio. Os mortos do Ceará não votam, mas os vivos lembrarão quem escolheu calar e quando.
Nós precisamos ter a coragem de Jones Manoel, Erika Hilton, Ana Elisa e de outros militantes da esquerda que se elegeram este ano: a coragem de enfrentar as reais estruturas de poder, as oligarquias e tecnocratas corruptos e dar os nomes, aos aliados do Bolsonaro no Ceara como Acylon, Idilvan, Ferreira Gomes e outros. É imperativo que sejamos corajosos como São Paulo e outros estados brasileiros têm sido, nas ruas com a juventude e o povo enfrentando as oligarquias com seus 01, 02, 03, 04...como a família Bolsonaro.
Um dos milhões de mortos pela pobreza, pela violência e pela ausência de políticas públicas geradas pela ditadura da corrupção da oligarquia dos Ferreira Gomes, dos Acilon Gonçalves e de outros.

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