
Flávio Bolsonaro (PL) é o grande perdedor com as novas ameaças comerciais do presidente americano Donald Trump ao Brasil, avaliam cientistas políticos.
Segundo analistas, as ameaças ao Pix e de novas tarifas retaliatórias de 25% contra produtos brasileiros devolvem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) o discurso de soberania nacional que fez subir sua aprovação em meados de 2025.
Esse efeito eleitoral positivo deve superar eventuais impactos econômicos negativos das medidas dos EUA, avaliam estes observadores políticos. E pode ser o diferencial que dará a Lula a vitória numa corrida eleitoral que deverá ser disputada "cabeça a cabeça".
As novas ameaças de Trump também podem fortalecer candidatos alternativos no campo da direita, com Ronaldo Caiado (PSD) mais bem posicionado no momento atual para colher os benefícios de um enfraquecimento de Flávio, dizem os analistas.
O governo dos Estados Unidos concluiu nesta segunda-feira (1/6) uma investigação comercial iniciada contra o Brasil em julho do ano passado, avaliando que certas práticas do governo brasileiro são "irrazoáveis" e "oneram ou restringem o comércio dos EUA".
O documento propõe um novo tarifaço de 25% contra produtos brasileiros e traz o Pix entre as práticas consideradas abusivas pelo governo americano. Mas eventuais medidas a serem tomadas a partir do resultado da investigação deverão ser discutidas entre os países nas próximas semanas.
Para a cientista política Denilde Holzhacker, professora de Relações Internacionais da ESPM, a conclusão da investigação comercial americana tem um lado negativo para o governo Lula, que vinha negociando com o governo americano na tentativa de manter um diálogo.
"Do ponto de vista do governo, é uma medida ruim porque tem um impacto econômico num momento eleitoral", diz Holzhacker.
"Por outro lado, do ponto de vista de campanha, o governo ganha novamente a força da narrativa da soberania, de um governo que enfrenta uma potência como os Estados Unidos, e que está buscando diálogo, mas o outro lado não busca."
"Então, Lula ganha força, inclusive do ponto de vista da opinião pública", acredita.

Fim do Promoção Agregador de pesquisas
Já para Flávio Bolsonaro, o efeito é o oposto, depois de uma semana em que ele buscou mostrar ter influência sobre a Casa Branca, ao se reunir com Trump pouco antes do anúncio da decisão dos EUA de classificar as facções criminosas PCC e Comando Vermelho como terroristas.
A movimentação buscou criar uma agenda positiva para Flávio, após as notícias de que ele negociou R$ 134 milhões com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, sobre a vida de Jair Bolsonaro (PL).
Nesta terça-feira, pouco depois do anúncio da nova ameaça de tarifaço, Flávio buscou se distanciar da medida do governo americano, publicando nas redes sociais um vídeo em que diz que pediu a Trump, ao vice-presidente J.D. Vance e ao secretário de Estado americano Marco Rubio que não taxassem produtos brasileiros.
"Sempre defendi as empresas brasileiras e, em qualquer oportunidade que tiver, vou continuar a defender nosso setor produtivo. Pedi expressamente ao presidente Trump para não taxar nossas empresas. Tarifa não é solução", disse Flávio.
Para Holzhacker, a ameaça dos EUA de impor novo tarifaço ao Brasil, logo após a visita de Flávio em que ele supostamente pediu a Trump o contrário, expõe a fragilidade do poder de influência do candidato bolsonarista.
"Flávio sai numa posição em que, primeiro, fica parecendo que a capacidade dele de influenciar Trump não é tão grande assim", diz a analista.
"E, segundo, ele dá munição ao PT e ao próprio governo para dizerem que ele é um candidato que não pensa nos interesses dos brasileiros, mas apenas no seu interesse de ganhar a eleição."
Já na manhã desta terça, Lula começou a alinhar seu discurso nesse sentido, associando o relatório comercial dos EUA à família Bolsonaro.
"Esses filhos do Bolsonaro conseguem ser pior do que ele e são, na verdade, vendilhões da pátria, foram pedir para que um país estrangeiro se intrometesse nas decisões brasileiras. É isso que vocês têm que dizer em alto e bom som. São traidores. [...]. O que merecem os traidores da pátria que vão pedir intervenção de um país no nosso povo?", disse, durante discurso em evento em Catalão (GO).
Aumento na rejeição
Rafael Cortez, cientista político e sócio da Tendências Consultoria, avalia que o relatório dos EUA traz uma mudança de agenda, de um debate que se encaminhava para ter a segurança pública como foco, para um novo momento, em que a questão comercial volta ao centro.
Embora isso seja claramente positivo para Lula, ele avalia que não deve ser uma "grande revolução" no capital político do presidente.
"Lula está muito próximo ao seu capital político máximo numa sociedade que, grosso modo, está dividida", diz Cortez.
"Mas são elementos que, numa disputa que promete ainda ser muito acirrada, podem resultar na vitória do presidente Lula."
O cientista político observa que um novo tarifaço dos EUA pode dificultar a tarefa de Flávio de conquistar o eleitor antipetista, mas não convictamente bolsonarista, algo que seria fundamental para ele conseguir a vitória sobre Lula.

"Para ganhar uma disputa eleitoral, a oposição precisa não só que o governo seja mal avaliado, mas que ela seja percebida como um porto seguro para esse eleitor descontente. Então, Flávio não só tem que mobilizar esse eleitorado antipetista que desaprova o governo, mas também recuperar um eleitor que está cansado da polarização", diz Cortez.
"A questão do tarifaço e seus desdobramentos contrata uma mobilização maior do eleitorado bolsonarista, mas, ao fazer esse movimento, a rejeição de Flávio fica num patamar muito próximo da de Lula", avalia.
"E aí, esse eleitor descontente com o antipetismo, mas descontente também com a polarização vai permanecer como está, dando a Lula um cenário de ligeiro favoritismo."
Cortez lembra que associar-se a Trump tem tido um efeito negativo para candidatos em diversas partes do mundo, enfraquecendo políticos conservadores em países como México, Canadá e Austrália.
"Sempre que Trump mobilizou uma agenda bilateral, ele beneficiou candidatos de oposição, distantes do seu vínculo ideológico. Não faltam episódios de Trump gerar um efeito eleitoral de enfraquecimento dos conservadores."
Caiado beneficiado
O cientista político Marco Antonio Carvalho Teixeira, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), observa que a inclusão do Pix entre as ameaças citadas pelo governo americano pode ser o elemento mais relevante para o debate eleitoral, já que o meio de pagamento é muito popular.
"Por conta do Pix sobretudo, a população vai acompanhar esse debate enormemente, eu não tenho dúvida", afirma.
"E não só o Lula pode se beneficiar eleitoralmente, mas é preciso acompanhar bastante a movimentação do candidato [Ronaldo] Caiado, que já está numa posição muito boa de segundo turno. Então, o desgaste do Flávio é fundamental para ele também."

Teixeira cita pesquisa Realtime BigData publicada na segunda-feira (1/6), que mostrou Caiado como o adversário mais competitivo contra Lula num segundo turno, com ambos empatados com 43% das intenções de voto, ante distância de cinco pontos de Lula sobre Flávio (45% a 40%) e de três pontos sobre Zema (43% a 40%).
"Isso pode significar que o teto de Caiado é maior [do que o de Flávio]", diz Teixeira, lembrando ainda que Caiado precisa definir seu vice, com nomes como Gilberto Kassab (PSD) e a apresentadora Silvia Abravanel, filha de Silvio Santos, entre os cogitados.
Essa definição e novas notícias negativas para Flávio podem ajudar a criar momento para o ex-governador de Goiás, que já tem atraído o voto do agronegócio, observa Teixeira.
"As próximas pesquisas vão dar o tom desse processo e vão dizer qual é a dimensão disso [a migração de votos entre os candidatos da direita]. Mas é muito difícil o Flávio não se desgastar mais."

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