Em 1979, o Nordeste brasileiro foi assolado por uma das secas mais devastadoras do século XX. Não foi um fenômeno climático: foi assassinato. A ditadura militar optou deliberadamente por deixar que os flagelados morressem de fome como moeda de troca com as oligarquias regionais. O Ibase — Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas — concluiu que 700 mil nordestinos foram exterminados entre 1979 e 1984. Hoje, quarenta anos depois, o Ceará segue enterrando seus filhos. Só que agora as vítimas não morrem mais de fome em massa: são executadas pelas balas da violência letal, pela pobreza estrutural, pela exclusão que o poder público administra com a mesma indiferença com que administrou a fome. O que mudou? As armas e o verniz democrático. O que permanece? O genocídio.
Em 2025, o Ceará registrou 3.022 assassinatos — uma média de mais de 8 mortes por dia. O estado segue entre os mais violentos da federação. Mas a violência não é aleatória. É direcionada. É seletiva. Atinge sobretudo jovens negros das periferias. Em 2021, só no Ceará, 1.808 jovens negros entre 15 e 29 anos foram assassinados. O genocídio da juventude negra cearense não é retórico: é política de Estado praticada na forma de bala. 98% das vítimas de homicídio na Grande Fortaleza são moradores de periferia. 80% são negros.
E a fome? Ela não desapareceu. Apenas se descentralizou. Hoje, 7,9% da população cearense vive na extrema pobreza — 624 mil pessoas. Novecentas mil pessoas na miséria absoluta. Crianças vão para a escola sem comer. E quando chegam, encontram um sistema educacional que as exclui. Mais de 37 mil crianças e adolescentes entre 4 e 17 anos estão fora da escola no Ceará. 60% dos cearenses não concluem o ensino médio. As escolas profissionalizantes — vendidas como case de sucesso — atendem majoritariamente a classe média do interior, enquanto os mais pobres permanecem jogados nas piores unidades da rede. Um case de marketing para esconder o fracasso. O sangue do povo cearense corre em três veias: a da bala, a da fome invisível e a da exclusão educacional. E o poder público? Cala-se. Sempre calou.
Essa é a máfia que domina o Ceará — uma organização que sequer precisa de capuz para operar. Ela atende pelo nome de oligarquia. E, como toda máfia que se preza, tem sua cúpula, seus operadores, suas divisões regionais e seus acordos espúrios. Não investiga. Não é investigada. Não há Polícia Federal que a alcance? Ao contrário do que ocorre no Rio de Janeiro, onde investigações sobre corrupção chegam a bom termo, no Ceará o silêncio prevalece. Os casos bilionários — Aquário, Tatuzões, Consignados — seguem impunes, varridos para debaixo do tapete por um pacto de cumplicidade entre Executivo, Legislativo e Judiciário.
O Caso Aquário é exemplar. Em 2009, o então governador Cid Gomes anunciou a construção do "maior aquário da América Latina" na Praia de Iracema. R$ 112 milhões depois e 14 anos de obras paradas, o projeto é um esqueleto de concreto acumulando água de chuva. Nunca recebeu um peixe. Nunca serviu ao povo. Serviu apenas para desviar dinheiro público. A obra, que deveria ter sido concluída antes da Copa de 2014, foi paralisada em 2017 e só agora, em 2024, o governo decidiu doar o esqueleto para a UFC. O dinheiro? Evaporou. E a UFC vai se calar para corrupção, enterrar corpos dos pobres, se curvar para corrupção e a Oligarquia de Cid Ferreira Gomes, Bismarck e Camilo Santana que roubaram o dinheiro em seus Governos.
Os Tatuzões contam uma história parecida. Quatro tuneladoras compradas em 2012 por 138 milhões para linha leste do Metro, nunca foram montadas. A base governista na Assembleia Legislativa, segundo o deputado Renato Roseno, lotou uma reunião da Comissão de Meio Ambiente justamente para impedir uma audiência pública sobre o tema. Para quê? O que a oligarquia teme que se descubra?
O esquema de emendas parlamentares liderado pelo deputado Júnior Mano (PSB) é um retrato em movimento do loteamento do estado. A Polícia Federal investiga o parlamentar por suspeita de desvio de 800 milhões. A investigação descreve uma organização criminosa que teria atuado na destinação, execução e desvio de recursos, com participação de operadores políticos, empresas e gestores municipais. O que intriga não é o crime: é a normalidade com que ele é tratado. Como se fosse aceitável. Como se ninguém se chocasse mais. O mais absurdo é que Senador Cid Gomes quer que ele seja candidato ao Senado algum acordo?
O Deputado Idilvan Alencar, ex- secretário de Educação de Fortaleza, foi secretário de Cid Gomes e construiu carreira aparelhando escolas para obter votos, com nomeações irregulares cabe ao Tribunal Regional Eleitoral investigar. A gestão dele foi objeto de repúdio por retrocessos na política educacional. Mas ninguém fala. Porque, no Ceará, falar é perigoso. E calar é vantajoso.
Mais gritante ainda é o papel do senador Cid Ferreira Gomes Júnior, herdeiro da principal dinastia política do estado e arquiteto do atual sistema de poder. Foi em seu governo que ocorreram os casos mais emblemáticos de corrupção — Aquário, Tatuzões, Consignados. A Polícia Federal já o investigou por fraudes na licitação do Estádio Castelão, ao lado dos irmãos Ciro e Lúcio Gomes. Segundo as investigações, há "suspeita razoável" sobre a cobrança de vantagens indevidas por parte dos irmãos Gomes para favorecimento da empresa vencedora. Cid comanda atualmente o partido com mais poder no estado e divide o território cearense entre seus operadores como se fosse uma propriedade privada.
E o irmão Ciro Ferreira Gomes — o mesmo que hoje se alia ao PL de Bolsonaro e chama seus aliados bolsonaristas de "homens honrados e limpos" — vai acusar Cid de corrupção? O mesmo Ciro que foi assessor e secretário do irmão no governo cearense? Não viu nada? A hipocrisia não tem limites. Ciro Gomes, que em 2021 disse que a busca da PF em sua casa era "perseguição política de Bolsonaro", agora faz palanque com os herdeiros do bolsonarismo. A oligarquia não tem ideologia. Tem apenas um objetivo: permanecer no poder. De esquerda ou de direita, tanto faz. O que importa é a perpetuação.
E por usaram 10 partidos durante a vida, buscam sempre controlar situação e oposição no Ceará, agora o PT. Esquerda e direita se calam diante da corrupção em troca de moedas e da manutenção de mandatos. Todos obedecem à máfia — um pacto sinistro entre oligarquia e bilionários que não pagam impostos com incentivos fiscais. A conta, como sempre, fica com os pobres.
É essa aliança perversa que financia o ciclo de morte e exclusão.
Enquanto isso, pedimos ajuda ao presidente Lula, ao ministro Guimarães, e Deputados da Esquerda — e nada. O Banco do Nordeste, presidido por Paulo Câmara, é alvo de denúncias sobre licitações bilionárias sem critérios claros.
A Senadora Soraya Thronicke denunciou ao Senado que a proposta vencedora de 329 milhões foi três vezes superior à de concorrentes e que a empresa foi constituída apenas três meses após a posse do atual presidente do banco. O dinheiro público — o dinheiro do povo cearense — segue sendo sangrado enquanto famílias passam fome e jovens negros são executados nas periferias. Um contrato de bilhões durante décadas sem licitação é entregue a uma ONG de funcionários do Banco do Nordeste para gerir o Credi amigo com volume muito maiores que o Banco Master.
O governador Elmano de Freitas? Cala-se. O senador Camilo Santana? O mesmo que acumula investigações por rombo bilionário na gestão do MEC e por suposto superfaturamento na compra de carteiras escolares com preços 50% superiores ao mercado, é o principal fiador do silêncio. Todos se calam. Deputados de Esquerda se calam? Porque todos se beneficiam.
Em 1979-1984, 700 mil nordestinos morreram de fome enquanto o Brasil olhava para o lado. Hoje, mais 150 mil cearenses morreram de violência homicida desde então — número superior ao total de vítimas da ditadura em toda a América do Sul. Somam-se a essas vítimas as centenas de milhares ceifadas pela pobreza estrutural, pela mortalidade infantil evitável, pela evasão escolar crônica e pelo desemprego que nunca vai embora. O genocídio cearense é uma ferida aberta na história do Brasil.
E a pergunta que ecoa dos sertões e das periferias — as mesmas que as crianças e jovens assassinados não puderam fazer — continua aguardando uma resposta que não virá das autoridades. Virá de nós. Do nosso grito. Da nossa denúncia. Do nosso voto. E, se necessário, das nossas ruas.
O silêncio nunca foi neutro. Ele é sempre cúmplice. Calar-se diante da máfia que enterra o Ceará é consentir com o extermínio. Porque a inocência nunca protegeu ninguém no Ceará. Mas a memória pode ser o começo da reparação.
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