Quando se fala em educação e saúde, tendemos a pensar em instituições, protocolos e saberes especializados. Mas há uma pergunta incômoda que atravessa essas estruturas: e se a própria técnica, a sociedade e o capitalismo, muitas vezes, adoecerem justamente aqueles que deveriam cuidar? O filme O Sentido da Vida (2026), de Ryusuke Hamaguchi, exibido em Cannes, leva essa questão ao centro de sua narrativa. A protagonista, diretora de um lar de idosos, tenta implantar um método de cuidado mais humano, o "Humanitude", baseado na aproximação e no vínculo, mas enfrenta a resistência de uma equipe exausta e de uma lógica institucional que prioriza a rentabilidade sobre o encontro. O longa coloca em cena uma pergunta que ecoa para além da ficção: "as pessoas saudáveis estão realmente vivas?"
Essa desconfiança em relação ao que se convencionou chamar de "normal" não é nova. Os pré-socráticos concebiam a physis não como matéria inerte a ser dissecada, mas como um sopro vital, um movimento perene que anima toda a existência e que, por sua própria natureza, ama esconder-se. A redução da natureza a um objeto mensurável veio depois, com Aristóteles e a ciência classificatória, e com ela perdemos a dimensão oculta e indomável da vida. Quando a técnica moderna tenta capturar a cura e o aprender dentro de protocolos, ela ignora que a força vital não se deixa aprisionar completamente. O filme de Hamaguchi parece intuir isso: a cura que Mari, a diretora teatral com câncer terminal, leva ao lar de idosos não vem de um novo medicamento, mas da arte, do jogo, da presença que não exige resultado.
Franco Basaglia já havia denunciado que o hospício não é um lugar de cuidado, mas de exclusão e controle. Para ele, a instituição psiquiátrica reflete uma organização fundada na exclusão do diferente, e o desafio é permitir que o paciente emerja como sujeito, e não como objeto de tutela. Foucault, por sua vez, mostrou como as instituições modernas — a clínica, a prisão, a escola — produzem corpos dóceis através de mecanismos disciplinares. O que Basaglia e Foucault revelam é que a "normalidade" frequentemente exige a renúncia à própria liberdade, ao próprio tempo e à própria vida. As pessoas consideradas normais, nesse arranjo, são muitas vezes as que mais cederam: abriram mão do ócio, da imaginação, da escuta de si e dos outros em nome de uma produtividade que não cura, apenas administra.
A pesquisa acadêmica sobre o modelo biomédico confirma essa limitação. O paradigma mecanicista que hegemonicamente informa a medicina contemporânea trata o corpo como máquina e a doença como defeito a ser corrigido, deixando pouco espaço para a dimensão subjetiva do adoecimento e para a medicalização da vida cotidiana sob a lógica do mercado. Quando a saúde se torna um produto e o cuidado uma técnica padronizada, perde-se justamente aquilo que o filme de Hamaguchi celebra: a possibilidade de estar ao lado do outro sem a pressa de torná-lo funcional.
O que resta, então? Talvez a aposta naquilo que escapa às caixas das ciências e das instituições: a arte, a escuta, o vínculo que não visa resultado, o tempo compartilhado sem utilidade. O filme sugere que a amizade entre Marie-Lou e Mari, assim como os exercícios teatrais aplicados aos idosos, não "resolvem" a doença ou a morte, mas devolvem algo que a técnica sozinha não alcança: a sensação de estar vivo. A pergunta final não é se a técnica é inútil, mas se estamos dispostos a reconhecer que ela é insuficiente. A força vital de aprender e de se curar não obedece a protocolos. Ela se esconde, como dizia Heráclito, e só se revela quando paramos de tentar controlá-la.

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