SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

O professor que causa furor entre os adolescentes chineses (e a razão do seu sucesso)

 

O profesor Biao Xiang sentado em uma poltrona, falando ao microfone
Legenda da foto,Cerca de 500 pessoas ouviram Biao Xiang recentemente em Singapura
    • Author,Fan Wang
    • Role,BBC News 

Os jovens chineses têm um novo "ídolo", mas não se trata de um cantor pop, nem de um astro do cinema. Estamos falando do professor e antropólogo Biao Xiang, de 54 anos.

Ele passou a ser o guia inesperado de uma geração cada vez mais desiludida, graças aos temas que ele aborda: a ansiedade e como combatê-la.

"Uma estrela enviada do céu", descreve Zihan Han, sobre o homem que ela passou a admirar recentemente.

A economia e a tecnologia da China cresceram a um ritmo vertiginoso. Mas existem muitos motivos de preocupação entre os jovens da geração Z (nascidos entre 1996 e 2012). Eles incluem o emprego, as perspectivas de relacionamento amoroso e a imensa pressão para se manterem atualizados.

"A transição da escola para o mundo real gera muitas incertezas e as pessoas costumam se sentir ansiosas porque não sabem como enfrentá-las", segundo uma jovem chinesa recém-formada de 23 anos. Ela preferiu não revelar seu nome por receio de que conversar com a imprensa internacional pudesse prejudicar suas possibilidades de encontrar trabalho na China.

'Se está em dúvida, pergunte para Xiang'

"As pessoas precisam de um ponto de apoio na sua vida. E suas palavras nos fazem sentir que existe alguém que nos entende."

Ela e Zihan faziam parte de um grupo de cerca de 500 pessoas que se reuniram recentemente em um auditório em Singapura. A maior parte do grupo era composta por chineses que moram no exterior.

Xiang falou por mais de uma hora e respondeu perguntas em seguida. Ao final, dezenas de pessoas fizeram fila para conhecê-lo e tirar fotos com ele.

O professor descreveu o evento como um "encontro acadêmico com admiradores".

Importantes órgãos de imprensa chineses já entrevistaram Xiang, que viajou para universidades chinesas de prestígio para dar palestras. Uma delas foi a sua alma mater, a conceituada Universidade de Pequim.

Uma de suas palestras, no início do ano, foi transmitida ao vivo porque o auditório estava lotado. A expressão "em caso de dúvida, pergunte para Biao Xiang" se tornou um ditado popular, segundo a imprensa chinesa.

Jovem em pé ao lado de uma estátua do Ultraman em tamanho natural, em frente a uma loja
Legenda da foto,Os jovens chineses estão ansiosos em relação ao seu futuro, em um país de rápidas mudanças

Em Singapura, Xiang falou sobre o reconhecimento que buscam os jovens na China atual. Eles recorrem com frequência a sistemas de aprovação, como exames competitivos e empregos seguros.

Ele também comentou como essa aprovação se transforma em uma medida de autoestima, o que pode ser cansativo e prejudicial.

O antropólogo indicou que é mais saudável procurar significado e compreensão nos demais e utilizar isso para entender melhor a nós mesmos.

Estas soluções dificilmente são rápidas. Mas, em um país onde o descontentamento pode ser algo politicamente delicado e objeto de forte censura, Xiang é uma figura pública excepcional, que aborda o que ele chama de "ponto crítico de toda uma época".

"Todos sabem onde está o problema, mas se recusam a enfrentá-lo", comenta ele, durante um chá com a BBC em Singapura. "Às vezes, observá-lo é doloroso demais, ou eles não sabem como fazer."

"Mas, como acadêmico, não é aterrador se você puder descrever o problema. É assim que se analisa e administra."

Juventude insegura em um país poderoso

Xiang mora atualmente na Alemanha, onde dirige o Instituto Max Planck de Antropologia Social. Ele estuda as mudanças sociais na China e em outras partes da Ásia.

O professor acredita que a sociedade chinesa se encontra em um momento decisivo. As pessoas estão buscando sentido na vida, enquanto tentam compreender as rápidas mudanças sociais e econômicas.

Neste processo, Xiang observa contradições, como uma juventude insegura em um país poderoso e decidido; e desilusão, apesar dos enormes avanços. Seu trabalho, segundo ele próprio, consiste em desvendar as causas desta situação.

O presidente chinês, Xi Jinping, também reconheceu a situação. Ele afirmou que "a principal contradição" está "entre as crescentes necessidades do povo para uma vida melhor e o desenvolvimento desequilibrado e insuficiente".

Estudantes universitários procuram trabalho em uma feira do emprego de primavera na praça Siyuan, no campus de Xiangshan da Universidade Normal de Huaibei, na China, no dia 21 de março de 2024
Legenda da foto,Para Xiang, os jovens se sentem perdidos em uma China altamente competitiva

Xiang usa nomes criativos para descrever as causas desta situação.

"Flutuando" é a forma como ele descreve as pessoas que trabalham sem descanso, apenas para sobreviver, como um beija-flor que bate suas asas incessantemente para se manter no ar.

"O próximo" indica aquilo que está imediatamente à nossa volta. Xiang defende que as pessoas se preocupam com o "muito próximo" (elas próprias) e o "muito distante" (o mundo) e se descuidam com o espaço intermediário, "o próximo". Este é o motivo da sua sensação de desconexão.

Suas palavras parecem estar repercutindo fortemente entre os jovens que procuram respostas.

Um usuário da rede social chinesa RedNote escreve que "ele sempre analisa os problemas do ponto de vista dos vulneráveis, atribui o estresse pessoal a causas macro e incentiva as pessoas a participar ativamente da vida; é realmente maravilhoso".

Outro comenta que Xiang "nunca solta frases vazias e superficiais; na verdade, ele enfrenta os dilemas da vida real junto conosco".

Para Zihan, tudo se resume na disposição do professor de falar abertamente sobre estes temas.

"Aqueles que disseram algo similar não são geniais como o professor Xiang, mas outras pessoas tão geniais quanto ele não disseram essas coisas."

Biao Xiang dando autógrafos
Legenda da foto,Xiang ficou famoso entre os chineses pelas suas conferências sinceras

Nascido em 1972, Xiang atingiu a maioridade durante outro momento crucial. Na época, a China emergia do caos brutal do regime de Mao Tsé-Tung (1893-1976) para fazer comércio com o resto do mundo.

O país se urbanizou, os cidadãos comuns se tornaram empreendedores e, pela primeira vez no país comunista, os negócios dispararam.

Xiang cresceu na cidade de Wenzhou, no sudeste do país, que passou a ser um porto industrial. Ali, ele testemunhou diretamente o processo.

"Era um vasto cenário de pequenos empresários", recorda ele. "A maioria das pessoas não se importava muito com a educação. Eles se concentravam em assuntos práticos — especificamente, como ganhar dinheiro."

Muitas pessoas atingiram este objetivo. Seus filhos cresceram em uma época de ouro, com crescimento econômico de dois dígitos. Mas a economia se enfraqueceu durante a pandemia e ainda não se recuperou.

A velha equação "trabalho duro = emprego seguro" não funciona mais e os jovens buscam um novo panorama, segundo Xiang.

A 'maldição dos 35'

O desemprego entre os jovens chineses atingiu 21,3%, mas o governo do país deixou de publicar os dados em meados de 2023. E os jovens que têm "bons empregos" (como funcionários públicos, empregados de companhias e engenheiros) estão preocupados em perdê-los.

Eles se queixam constantemente na internet sobre as longas e esgotadoras jornadas de trabalho, o ambiente tóxico do escritório e o receio da "maldição dos 35", a idade limite de muitos anúncios de emprego. Depois dos 35 anos, é mais difícil encontrar um novo trabalho.

A censura dificulta conhecer o verdadeiro alcance desses sentimentos. Mas a sensação de opressão se infiltra no discurso público de outras formas.

Esta ansiedade se transforma rapidamente em fúria nos debates online, seja sobre o vestibular para entrar na universidade, o dote matrimonial ou os escândalos de segurança alimentar.

Pessoas seguram incenso enquanto rezam no monastério de Yonge, em Pequim
Legenda da foto,Jovens rezam em um templo de Pequim, pedindo boas perspectivas de trabalho e casamento

Os termos associados a este estado de espírito passaram a ser tendência nos últimos anos.

Os mais famosos são "desconectar-se", quando as pessoas decidem evitar por completo o excesso de trabalho, e "involução", um termo um tanto sórdido que, agora, é comumente empregado para descrever uma concorrência forte que gera poucas recompensas.

Xiang acredita que dois fatores exacerbaram esta ansiedade: o mercado imobiliário e o sistema de educação superior.

O auge do setor imobiliário, impulsionado pela dependência dos governos locais sobre a venda de terras, vinculou a sensação de segurança e sucesso das famílias ao valor das suas residências.

Além disso, o rápido aumento das matrículas na universidade elevou os níveis de exigência acadêmica, intensificando a competição.

O resultado, segundo ele, é uma fórmula universal: obter um bom título universitário, encontrar um trabalho estável, casar-se e comprar uma casa.

Involução

"Quando 1,4 bilhão de pessoas concorrem na mesma carreira, surge a involução", segundo Xiang.

Cerca de três anos atrás, o professor ficou sabendo que um acampamento para nômades digitais onde ele havia dado uma palestra aumentou os preços após sua visita. Foi ali que ele percebeu que "não era mais conhecido apenas nos círculos acadêmicos".

Segundo Xiang, muitos dos seus colegas priorizam a publicação de pesquisas e se mostram bastante indiferentes em relação aos seus métodos. Alguns o advertiram sobre a importância de "cuidar da reputação".

Mas ele se sente incentivado pela sua popularidade.

"Se alguém me chama de influenciador, tomo como elogio. Porque a verdadeira influência que posso ter é a de fazer com que as pessoas pensem por si próprias."

O que é o mistério da assimetria da vida que rendeu Nobel de Química a cientistas

 

Medalha de ouro em fundo azul com um desenho do Prêmio Nobel recortado da moeda e numerais romanos à direita.
Legenda da foto,Os vencedores recebem a medalha do Prêmio Nobel e uma parte de 12 milhões de coroas suecas (R$ 6,2 milhões)
    • Author,Victoria Gill e Esme Stallard
    • Role,Repórteres de Ciência da BBC News
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O Prêmio Nobel de Química foi concedido ao cientista francês Henri B. Kagan e ao japonês Kenso Soai por terem ajudado a explicar o mistério químico da assimetria da vida.

Os pesquisadores descobriram como a natureza produz exclusivamente a versão correta de uma molécula, em vez de sua imagem espelhada.

Por exemplo, as moléculas de aminoácidos, os blocos de construção das proteínas, existem em duas formas que são imagens espelhadas uma da outra.

Mas os organismos vivos na Terra funcionam apenas com uma dessas formas. Os laureados com o Prêmio Nobel responderam à pergunta: por que a vida favorece apenas uma dessas moléculas em imagem espelhada em detrimento da outra?

Henri Kagan y Kenso Soai
Legenda da foto,Henri Kagan e Kenso Soai

Na química orgânica, essa propriedade é conhecida como quiralidade; assim, moléculas quirais podem existir em versões "destras" e "canhotas", que são imagens espelhadas uma da outra.

Assim, uma versão pode ter propriedades de combate a doenças, enquanto a outra não faz nada ou até mesmo causa danos.

O desenvolvimento do medicamento Talidomida é um exemplo disso. Na década de 1950, ele era prescrito para mulheres grávidas que sofriam de enjoos matinais. Mas trata-se de uma molécula quiral – a versão "destra" é um tratamento eficaz, enquanto a "canhota" é tóxica.

O medicamento original administrado era uma mistura dos dois, e descobriu-se posteriormente que o corpo era capaz de convertê-los. Como resultado, milhares de crianças, filhas de mulheres que tomaram o medicamento, desenvolveram deficiências graves.

Em entrevista coletiva por telefone esta manhã, durante a coletiva de imprensa do Prêmio Nobel, Kenso Soai disse: "Este é um dos dias mais emocionantes da minha vida."


Um homem de terno cinza e gravata preta está à esquerda da imagem, com as duas mãos erguidas. Atrás dele, há uma tela com o título em sueco e inglês "Prêmio Nobel de Química 2026". Abaixo, estão duas fotos: à esquerda, de um homem de terno preto e gravata azul - Henri Kagan - e à direita, de um homem também de terno preto e gravata azul - Kenso Soai.
Legenda da foto,O presidente do Comitê Nobel de Química, Heiner Linke, explica como as moléculas quirais têm formas especulares semelhantes às nossas mãos

Ao desvendar o mistério da quiralidade, Henri Kagan e Kenso Soai descobriram como projetar reações químicas para produzir muito mais da versão desejada de uma molécula.

Heiner Linke, presidente do Comitê Nobel de Química, explicou: "Henri Kagan e Kenso Soai forneceram uma solução para um mistério químico com mais de um século: como a homoquiralidade - a produção seletiva da versão correta de uma molécula - pode surgir espontaneamente."

"As reações químicas que eles desenvolveram são espetaculares."

Henri Kagan, da Universidade Paris-Sud, descobriu uma nova forma de manipular reações químicas em 1986. Isso permitiu que ele criasse um excesso maior de uma das imagens espelhadas do que se acreditava ser possível anteriormente.

Kenso Soai, da Universidade de Ciências de Tóquio, deu o próximo passo em 1995. Ele publicou um artigo científico na revista Nature descrevendo a primeira reação química com potencial para ser homoquiral – produzindo apenas a versão desejada de uma molécula orgânica.

Em 2003, ele finalmente conseguiu controlar uma reação na qual apenas uma das duas imagens espelhadas possíveis era formada.

"Além da própria vida", afirmou o Comitê Nobel em comunicado, "ninguém havia alcançado esse feito anteriormente".

Na coletiva de imprensa de quarta-feira, Kenso Soai elogiou os "muitos e muitos excelentes pesquisadores" nesta área.

O professor Robert Mokaya, presidente da Royal Society of Chemistry do Reino Unido, afirmou que este é um "exemplo poderoso de como a química fundamental pode sustentar soluções para alguns dos maiores desafios que a sociedade enfrenta".

"Diferentes isômeros (ou versões de moléculas) podem ter efeitos biológicos e físicos completamente diferentes, por isso são cruciais para encontrar medicamentos eficazes para tratar todos os tipos de doenças", acrescentou.

Um caracol empoleirado sobre o outro, virado para o lado oposto, sobre uma rocha cinzenta salpicada de líquen.
Legenda da foto,A quiralidade é a base das características animais, como a forma como as conchas dos caracóis se enrolam para a direita

O professor Angus Davison, da Universidade de Nottingham, estuda a biologia da quiralidade e afirmou que a química premiada com o Nobel pode ajudar a revelar como e por que a vida favorece a "lateralidade".

"De maneiras que ainda não compreendemos totalmente, a quiralidade dos blocos básicos da vida acaba criando corpos que também são quirais", disse ele à BBC News.

Ele explicou que essa era a base da ideia de nossos corações estarem no lado esquerdo do corpo e das conchas de caracol se enrolarem para a direita.

Peter Somfai, membro do Comitê Nobel de Química, afirmou que a pesquisa premiada este ano tornou-se parte de "nossa compreensão básica de como a química funciona".

Ele disse que mostrar como uma imagem espelhada é criada é "provavelmente a questão mais fundamental da vida - porque de alguma forma isso aconteceu há quatro bilhões de anos, quando a vida foi criada. E agora, pela primeira vez, conseguimos reproduzir isso em laboratório".

Deputada estadual mais votada de SP apresentou projetos de lei que repetem textos de outros políticos e erra até a própria cidade

 

A deputada estadual eleita pelo PL Eduarda Campopiano
Legenda da foto,Deputada estadual mais bem votada de SP, Eduarda Campopiano atua como vereadora em Praia Grande, pelo PL
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  • Tempo de leitura: 7 min

Projetos que Eduarda Campopiano (PL), eleita a deputada estadual mais votada de São Paulo nesta eleição, com 1,96 milhão de votos, apresentou enquanto vereadora na Câmara Municipal de Praia Grande, no litoral paulista, reproduzem artigos e justificativas de propostas que já circulavam em outras casas legislativas, aponta análise da BBC News Brasil.

Em dois documentos, a adaptação deixou até mesmo referências a lugares diferentes da cidade em que a parlamentar atuava: um programa de educação financeira destinado a Praia Grande fala em beneficiar cidadãos paulistanos; já uma proposta sobre multas pelo consumo de maconha destina recursos a organizações no município da Serra, no Espírito Santo, a mais de 700 quilômetros de distância da cidade em que ela atuava como vereadora.

Entre os textos reaproveitados estão também propostas do vereador Lucas Pavanato (PL), seu aliado na campanha de 2026, e da deputada estadual Ana Campagnolo (PL-SC), que Campopiano aponta como inspiração política, ao lado do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG).

A proximidade com esse grupo marca a trajetória da vereadora, que recebeu apoio eleitoral de Nikolas e fez campanha associada a Pavanato, os dois deputados federais mais bem votados nas eleições deste ano.

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Deputada 'ideológica'

A atuação pública de Campopiano começou nas redes sociais ainda aos 18 anos, segundo a biografia do site de campanha.

Ela ganhou projeção fazendo oposição ao feminismo e ao aborto e defendendo o acesso de mulheres a armas de fogo. Também é crítica às cotas raciais.

Aos 21 anos, foi eleita vereadora de Praia Grande pelo PL com 3.583 votos, em 2024. Dois anos depois, recebeu 1.956.238 votos, a maior votação para deputado estadual em São Paulo.

Em entrevista ao UOL, a deputada eleita afirmou que sua candidatura e seu trabalho parlamentar são "ideológicos".

"A minha legislatura como deputada na Alesp [Assembleia Legislativa de São Paulo] será muito mais ideológica do que a que foi de vereadora. Vamos intensificar nosso combate cultural. Acho que tudo que vira política, que se torna política pública um dia, já foi uma ideia em algum momento, já foi cultura, ideologia, uma discussão sobre moral, sobre o que é certo e errado."

Ela disse, na entrevista, que quer combater o que chama de "bandidolatria" no Brasil, "seja com bandidos de colarinho branco, seja no combate ao crime do dia a dia" e afirmou também que não quer que o aborto seja apenas proibido, mas "impensável".

"Quero viabilizar a ajuda para mulheres que engravidam em decorrência de violência sexual, para que elas não precisem matar o próprio filho, que nada tem a ver com o crime que foi cometido. E para que o verdadeiro monstro que cometeu o crime contra essa mulher apodreça na cadeia, coisa que não acontece hoje."

Texto de PL apresentado em Praia Grande (SP) cita como beneficiário de recursos a cidade de Serra (ES)
Legenda da foto,Texto de PL apresentado em Praia Grande (SP) cita como beneficiário de recursos a cidade de Serra (ES)

Projetos de lei para 'cidadãos paulistanos', recursos para município de outro Estado e referência ao ChatGPT

O levantamento da BBC News Brasil comparou as versões originalmente apresentadas dos 20 projetos de lei da vereadora com documentos de outras câmaras e assembleias legislativas.

Em ao menos 14, foram identificadas correspondências textuais, de artigos específicos a conjuntos extensos de dispositivos e justificativas. A extensão varia: há passagens idênticas e dispositivos com adaptações.

O Projeto de Lei (PL) 64/2026, apresentado por Campopiano em 30 de abril de 2026, propõe criar um programa de educação financeira nas escolas municipais de Praia Grande. Ele reproduz trechos inteiros do PL 875/2021, do vereador de São Paulo, de Rubinho Nunes (União Brasil), que criava o programa Jovem Capitalista.

Na versão de Campopiano, a iniciativa passou a se chamar Programa de Educação Financeira, mas a justificativa manteve menções ao Jovem Capitalista.

No encerramento, preservou a afirmação de que o programa "viabiliza uma realidade mais agradável e um futuro mais próspero aos cidadãos paulistanos", sem trocar o termo usado no projeto de São Paulo.

A redação e a sequência de diversos artigos também coincidem.

"Este projeto de lei dispõe sobre a implantação do Programa Jovem Capitalista, voltado à garantia do desenvolvimento intelectual, físico, emocional, social e cultural dos alunos da rede pública municipal de ensino", diz a justificativa de ambos os textos.

Outro caso é o PL 68/2026, protocolado por Campopiano em 11 de maio de 2026. Ele prevê multas administrativas pelo consumo de maconha na presença de crianças e adolescentes e em espaços públicos.

Há passagens semelhantes às de uma proposta da Câmara Municipal de Serra (ES), assinada em 23 de janeiro de 2025 pelos vereadores Pastor Dinho (PL) e Agente Dias (Republicanos).

Um dos trechos diz que os recursos obtidos com as sanções seriam destinados a organizações "no município da Serra", em vez de Praia Grande.

Houve ainda o PL 73/2025, de 24 de junho de 2025, que previa a obrigatoriedade dos hospitais públicos de emitirem diariamente boletim médico a respeito do estado de saúde e das condições de tratamento do paciente internado.

O texto do projeto cita ao menos uma fonte obtida no ChatGPT (uma das notas de rodapé traz um link com a marcação 'utm_source=chatgpt.com', que indica que o endereço foi copiado de uma resposta do ChatGPT) e aponta, para embasar seu amparo jurídico, a lei orgânica de outra cidade: São José (possivelmente o município de Santa Catarina, mas essa informação não aparece no documento).

"A proposta do ilustre edil está amparada juridicamente pela Carta Magna, Lei Orgânica do Município de São José e Regimento Interno desta Casa Legislativa, uma vez que aborda e defende o direito fundamental à saúde, informação e os princípios da transparência e publicidade", diz o texto.

Segundo o site da Câmara de Praia Grande, nenhum desses três projetos foi aprovado.

Pastor Edinho afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que o tema já era objeto de projetos em outras cidades na própria Câmara dos Deputados.

E que não foram enviados arquivos editáveis para Campopiano, mas foi realizado um contato entre os dois parlamentares que conversaram sobre o projeto.

"Não há necessidade de autorização alguma. O projeto é público e está à disposição da sociedade brasileira e de qualquer parlamentar", diz a nota.

Projetos repetem textos de aliados

Os deputados Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato.
Legenda da foto,Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP) tiveram mais de 3 milhões de votos em 2026

Três dos projetos analisados pela BBC News Brasil se relacionam diretamente a políticos próximos de Eduarda Campopiano, do mesmo partido: dois têm dispositivos iguais aos de propostas do vereador e deputado federal eleito Lucas Pavanato (PL-SP); o terceiro reproduz o programa apresentado pela deputada estadual Ana Campagnolo (PL-SC).

As justificativas desses três documentos de Praia Grande não mencionam os projetos originais, nem atribuem os textos aos dois parlamentares.

O PL 2/2026 de Campopiano, apresentado em 4 de fevereiro, propõe sanções administrativas por maus-tratos a animais.

O texto coincide em diversos artigos com o PL 43/2026 de Pavanato, de 29 de janeiro.

Os dois documentos citam a mesma lista de condutas, como privar o animal de alimento, água ou abrigo, abandoná-lo e negligenciar assistência veterinária. Prevêem advertência, multas de R$ 2 mil a R$ 50 mil e apreensão do animal.

O projeto de Eduarda cita até mesmo, de forma equivocada, um órgão que só existe na cidade de São Paulo, não em Praia Grande, conforme confirmado à BBC News Brasil pela própria prefeitura da cidade: a Coordenadoria de Saúde e Proteção ao Animal Doméstico (COSAP).

O segundo caso é o PL 63/2026, apresentado por Campopiano em 30 de abril. Ele autoriza a Guarda Civil Municipal a usar provisoriamente veículos, equipamentos e outros bens apreendidos relacionados à prática de crimes.

O texto reproduz dispositivos do PL 76/2026 de Pavanato, publicado em São Paulo em 11 de fevereiro.

Há ainda o PL 112/2026, apresentado em Praia Grande em 5 de agosto.

Ele institui o Programa Meninos Fortes, de proteção e acolhimento de estudantes do sexo masculino vítimas ou expostos à violência escolar e ao bullying.

Uma proposta de mesmo nome, da deputada Ana Campagnolo, foi assinada em 13 de julho. Já a de Eduarda Campopiano é de agosto.

Os artigos têm redação praticamente igual, com a troca da rede estadual de Santa Catarina pela rede municipal de Praia Grande.

A reportagem buscou os parlamentares para que comentassem a semelhança dos textos, mas não obteve retorno dos demais até o momento. O espaço segue aberto.

'Não dar crédito é um problema'

Para Marco Antonio Carvalho Teixeira, cientista político e professor da FGV-EAESP, disseminar boas práticas entre municípios é desejável, mas isso deve envolver adaptações às necessidades locais e reconhecimento da origem da proposta.

"É sempre recomendável que se dissemine, que inspire, que faça as adaptações", afirma.

Segundo ele, uma iniciativa que funciona em determinado município não necessariamente terá o mesmo resultado em outro sem esses ajustes.

Teixeira não considera a reprodução sem crédito uma prática comum. Na avaliação do professor, omitir a origem significa apropriar-se indevidamente do trabalho de outra pessoa. "Não dar crédito é um problema", diz.

Em parte das justificativas, Campopiano reconhece iniciativas semelhantes de outros municípios.

A circulação de propostas entre diferentes casas legislativas não se limita aos projetos de Campopiano. A Lei de Direitos Autorais exclui da proteção ideias, procedimentos normativos e textos de leis e demais atos oficiais.

Há exemplos de bancos de textos destinados a apoiar outros mandatos: a Câmara de Sobral (CE), por exemplo, disponibiliza modelos e orienta vereadores a adaptá-los às peculiaridades de seus municípios.

Há também práticas já conhecidas de reutilizar textos entre parlamentares e até entre candidatos.

Em 2024, a Agência Lupa identificou nove propostas contra a linguagem não-binária com ementas idênticas em diferentes assembleias legislativas pelo país.

No mesmo ano, a BBC News Brasil revelou que centenas de candidatos a prefeito usavam propostas idênticas em planos de governo e, em certos casos, deixavam no texto até o nome de outra cidade.

A BBC News Brasil tentou contato com Eduarda Campopiano, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.