Há uma ferida profunda na política brasileira que poucos têm coragem de nomear: a captura dos partidos de esquerda por oportunistas que transformaram projetos coletivos em feudos pessoais. Esses personagens não chegaram de fora — nasceram dentro das próprias siglas, aprenderam a linguagem da militância, mas nunca tiveram compromisso real com ela. O que queriam era poder. E o poder, para eles, virou negócio de família.
A privatização dos partidos
O que era para ser instrumento de transformação social virou propriedade privada. Mandatos passaram a ser herdados como herança, disputados como patrimônio, defendidos como fortaleza. O partido deixou de ser espaço de debate para se tornar máquina de reeleição. A sigla, antes símbolo de uma causa, virou fachada para interesses pessoais.
Esses oportunistas aprenderam rápido a arte da sobrevivência política. Descobriram que não precisavam transformar a realidade — bastava administrá-la. Que não precisavam enfrentar a pobreza — bastava discursar sobre ela a cada quatro anos. Que não precisavam encarar a violência, a falta de saúde, a educação sucateada — bastava posar ao lado dos que sofriam, sem nunca mexer nas estruturas que produziam o sofrimento.
Os pactos que tudo explicam
A grande traição não foi um ato isolado. Foi um método. Em vez de enfrentar o centrão, fizeram pactos com ele. Em vez de confrontar as oligarquias, sentaram-se à mesa com elas. Em vez de desafiar as elites, tornaram-se suas parceiras de jantar.
Esses pactos não eram estratégia — eram rendição disfarçada de pragmatismo. Cada acordo firmado com quem sempre esteve do outro lado significava uma causa abandonada, uma base traída, uma promessa enterrada. O discurso continuava à esquerda, mas a prática caminhava para onde o dinheiro e o poder apontavam.
O silêncio cúmplice
E assim se calaram. Calaram-se diante da violência que devasta periferias. Calaram-se diante da saúde pública que colapsa. Calaram-se diante da educação que forma analfabetos funcionais. Calaram-se diante da fome que voltou a bater à porta. Calaram-se porque falar exigiria confrontar exatamente aqueles com quem haviam pactuado.
O silêncio não foi ingênuo. Foi calculado. Comprar votos, cooptar lideranças, distribuir cargos — tudo isso exigia não fazer barulho. E o povo, que deveria ser a razão de existir da esquerda, virou número, curva de pesquisa, massa de manobra.
O que sobrou
O resultado está diante dos olhos: uma esquerda esvaziada, sem projeto, sem povo, sem coragem. Partidos que se dizem populares mas não conhecem o povo. Dirigentes que falam de pobreza mas nunca subiram um morro sem carro oficial. Oligarquias que se reproduzem sob qualquer bandeira, inclusive as que prometem combatê-las.
Enquanto isso, a violência cresce, a saúde definha, a educação se degrada e a desigualdade se aprofunda. Não porque faltaram recursos, mas porque faltou coragem. Não porque o inimigo era forte demais, mas porque muitos que deveriam combatê-lo preferiram se acomodar ao seu lado.
A pergunta que resta
A esquerda não foi destruída por seus adversários — foi entregue por seus próprios quadros. Os oportunistas que privatizaram os partidos e as oligarquias que se instalaram neles cavaram a cova onde hoje enterram qualquer esperança de transformação real.
Resta saber se ainda há quem tenha coragem de romper com esse pacto de covardia. Se ainda há quem prefira o risco da luta à segurança da acomodação. Se ainda há quem entenda que esquerda sem povo não é esquerda — é apenas mais uma máquina de poder a serviço de poucos.
A resposta, por enquanto, segue em silêncio, mas se escreve nas ruas e na História, não em seus gabinetes, Excelentíssimos Neo Capitães do Mato, vocês são ridículos e entram para lata do lixo da história juntos com os Bolsonaristas.
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