SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sexta-feira, 6 de novembro de 2026

LULA 4 : Ainda estamos aqui morrendo!

 



Se a História fosse reescrita, ela não deveria começar pelos diários dos navegadores, nem pelos decretos reais, nem pela página de assinatura dos tratados. Deveria começar pelas vozes que saíram das gargantas pisadas na lama — vozes que nunca desapareceram de verdade, apenas foram abafadas por cinco séculos de barulho.

México, algum barraco com goteira no século XX. Uma mulher fala. Chama-se Jesusa Palancares, uma mulher que pegou em armas na revolução, queimou as mãos na cozinha, morreu e reviveu várias vezes na pobreza. Elena Poniatowska lhe entregou o microfone, e assim a história deixou de ser o verbete seco "Revolução Mexicana" para se tornar uma mulher de voz rouca dizendo: nós, os pobres, somos o combustível da revolução; quando acabamos de queimar, somos varridos para o canto. É isso que deveria ser registrado — não quem conquistou qual cidade, mas quem foi esquecido depois da vitória.

Venezuela, 1964, no fundo da selva. Um jovem de classe média, Stanislavo, larga a vida confortável e entra na guerrilha, achando que vai construir um país justo. Quarenta anos depois, outra mulher, María, numa cidade em colapso, só pede para sobreviver ao dia de hoje. Alejandro Puyana não escreveu uma epopeia heroica; escreveu como o ideal apodrece na terra, como duas gerações da mesma terra são esmagadas pelos escombros do mesmo sonho. Essa é a verdadeira herança deixada pelos colonizadores europeus: não a liberdade, mas uma corrente de expectativas traídas.

Haiti, nas ruas de Porto Príncipe. Os irmãos Franky e Ti Tony contam a história de um tal Antoine de Gommiers — um feiticeiro, uma lenda, uma sombra que não se dissipa na memória da família. Lyonel Trouillot escreve este livro no ritmo do crioulo, porque a história do Haiti nunca foi permitida ser contada na "língua oficial". Este país conquistou a independência com uma revolta de escravizados e depois foi estrangulado por dívidas, sanções e intervenções da Europa e dos Estados Unidos por duzentos anos. O que é a "magia" de Antoine? É um povo que, depois de ser repetidamente esmagado, ainda acredita que sua própria história merece ser transmitida.

Essas vozes apontam para a mesma coisa: a colonização nunca terminou, apenas trocou de roupa. Eduardo Galeano escreveu com clareza em As Veias Abertas da América Latina — nossos fracassos sempre se escondem nos triunfos alheios, nossa riqueza produz nossa pobreza, para alimentar a prosperidade dos outros. O livro foi proibido nas ditaduras militares da Argentina, do Brasil, do Chile e do Uruguai, o que só prova que acertou o alvo.

A pesquisa acadêmica atual dá nome mais preciso a esse mecanismo. O livro Contesting Colonial Capitalism in the Americas, Africa, and Asia, publicado em 2025, aponta que o desenvolvimento capitalista contemporâneo impulsionado pelo Norte global continua sendo a continuação da lógica colonial: racialização da ocupação territorial, acumulação por despossessão, imperialismo cultural e educacional. Documentos de encontros de antropologia no Brasil também destacam que, desde 2000, uma nova onda de investimentos estrangeiros e aquisições de terras, embalada na "agenda verde", reforça a desterritorialização e o neocolonialismo, e que a violência enfrentada pelos povos originários é tanto física quanto epistemológica. Em outras palavras, as veias continuam abertas. Só que agora as mãos que cortam usam luvas humanitárias.

Então, como suturar?

Primeira coisa: separar as palavras "ajuda" e "cooperação". O acordo tácito de longa data entre os governos dos EUA e das nações latino-americanas — o Norte oferece assistência militar e condições comerciais, o Sul entrega recursos e obediência das elites — não é diplomacia, é cumplicidade. Fechar esse duto exige circuitos econômicos internos à região: comércio horizontal entre o Mercosul, a Caricom e a Zona de Livre Comércio Continental Africana, em vez de cada negócio passar por Miami ou Madri. Não é fantasia romântica de autossuficiência; é mudar a direção da dependência de vertical para horizontal.

Segunda coisa: a devolução da terra e do conhecimento. "Land Back" não é slogan, é um caminho decolonial discutido seriamente na academia — revitalização comunitária, autodeterminação sustentável, devolver o controle territorial aos povos originários e às comunidades quilombolas. Ao mesmo tempo, a devolução epistemológica é igualmente urgente: a poeta indígena brasileira Márcia Kambeba escreve em português, mas diz "eu pertenço a esses rios e florestas", recusando a classificação colonial de "índio" para se renomear. Quando os povos originários contam a si mesmos, com sua própria língua e forma, a história deixa de ser a sentença escrita por outros.

Terceira coisa, a mais difícil: parar de esperar que o Norte "reconheça" a gente. Galeano, já velho, dizia que, ao escrever aquele livro, "não tinha formação suficiente", que não se arrependia de tê-lo escrito, mas sabia que aquela era "uma etapa já superada". Essa autocrítica honesta tem mais força do que qualquer acerto. Suturar as veias não depende de outra grande teoria, mas de inúmeras práticas concretas e desobedientes: a recusa de comunidades a mineradoras, a posse contínua de terras ancestrais por quilombos, a mulher no barraco que termina de contar a própria vida diante do gravador e depois faz esse livro ser lido — então a voz de Jesusa ainda está aí, a história de Antoine ainda está aí, o fracasso de Stanislavo ainda tem quem se lembre. 

A História não deveria ser o livro-caixa da Europa. Deveria ser aqueles que foram contados como "perdas" finalmente sendo ouvidos dizendo: nós ainda estamos aqui.

Nenhum comentário:

Postar um comentário