A onda azul que varreu os Estados Unidos em 3 de novembro de 2026 não caiu do céu: foi um terremoto feito de mãos calejadas. Latinos, gays, muçulmanos e socialistas não esperaram bênção de cacique nem licença de oligarca — foram para a rua, transformaram dor em pauta, pauta em voto e voto em vitória. Enquanto políticos em seus gabinetes, na TV, nas redes sociais ou dançando como idiotas nas ruas, enquanto isso milhares de garotos lutavam com as mãos vazias; idosos esquecidos; milhares de anônimos mendigavam atenção nas redes ou resistiam nas ruas sem esperança de que iriam vencer — mas lutavam pela dignidade, pela cidadania, pelos seus direitos. E é isso que nós temos que fazer.
Lá, Abdul El-Sayed, um esquerdista assumido, se tornou o primeiro senador muçulmano dos EUA ao falar de saúde universal e dignidade para a classe trabalhadora. James Talarico provou que o dinheiro não compra o povo do Texas. Keisha Lance Bottoms dedicou sua vitória histórica a quem não tem acesso a saúde e educação. Eles não pediram licença, não moderaram o discurso, não se esconderam atrás de gabinetes: eles foram para a briga e venceram.
Agora, contraste isso com o silêncio ensurdecedor que ecoa do Brasil. Enquanto a direita bolsonarista avança e crava sua bota no Congresso, elegendo 28 senadores e transformando o PL na maior força da Casa, a nossa esquerda... ah, a nossa esquerda ficou anos ajoelhada diante do Centrão, negociando migalhas com oligarquias enquanto a pobreza matava e a violência sangrava nas periferias. A tragédia humanitária batia à porta, mas os gabinetes estavam ocupados demais calculando cada palavra, com medo de que a verdade, dita em voz alta, beneficiasse a direita. Mas a direita veio para cima de qualquer jeito. E veio forte, com 44 senadores alinhados ao bolsonarismo, enquanto a esquerda encolhia para 15 cadeiras, assistindo de camarote à própria derrota.
Porque aqui, no Brasil, quem ganhou as eleições não foram os políticos ditos de esquerda, negociando mandatos e silêncios sobre corrupção, comprando votos com oligarquias e Centrão em seus gabinetes e performances nas ruas. Quem ganhou foi o jovem sem nada indo lutar, o trabalhador nas ruas cansado de tanto trabalhar, o idoso indo votar, milhões de pessoas lutando por Lula porque a história dele é de verdade — mas todos lutando por suas cidadanias, seus direitos, suas vidas que há décadas a oligarquia e o Centrão roubam, matam e destroem. Enquanto escolas são aparelhadas e roubadas para eleger auditor, enquanto emendas e a máquina são usadas pelos mesmos de sempre que saqueiam suas cidades e o Estado comprando votos, enquanto nos EUA se renovam lideranças, aqui se transformam partidos em propriedade privada que herdam fundos eleitorais, cargos e privilégios em nome da democracia? Se fabricam falsos líderes que, na verdade, são operadores mentirosos, corruptos, que vivem da miséria do povo cearense. Mas nós somos a resistência da América Latina, de Paris, agora dos EUA — a resistência que não negocia com quem quer te matar, que não usa o povo para seus podres poderes e inúteis vaidades ridículas.
O conselho não é sermão chato, é grito de guerra: pare de negociar dignidade em troca de governabilidade. Pare de moderar a verdade para não incomodar o algoz. A esquerda que se cala para não dar munição à direita só entrega o palco, o microfone e o poder. Desça do palanque digital, entre no beco, no sindicato, na quebrada, na porta do hospital, na fila do ônibus. Organize onde dói. Faça reivindicação concreta, não discurso bonito para algoritmo. Não peça desculpa por ser esquerda. Porque enquanto a gente dança a música deles, o povo carrega o punhal da sobrevivência e as mãos vazias da esperança — e a única forma de transformar isso em vitória é fazer da rua o nosso gabinete e da verdade a nossa arma.
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