SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Cleptocracia e a Tirania das palavras.



A primeira e mais fundamental corrupção não começa nos cofres públicos, mas nas palavras que usamos. George Orwell, com a lucidez de quem lutou na Espanha contra as garras gêmeas do fascismo e do stalinismo, compreendeu que toda tirania começa pelo sequestro da linguagem. Em *1984*, ele nos mostrou o "Novilíngua" — a ferramenta totalitária que esvazia as palavras de significado para esvaziar os cidadãos de pensamento. "Guerra 
é paz", "liberdade é escravidão", "ignorância é força". Quando as palavras perdem seu sentido, a realidade perde seu chão.
 

Orwell testemunhou na Guerra Civil Espanhola como nazistas e stalinistas, supostamente opostos, compartilhavam o mesmo método: primeiro corrompiam a linguagem, depois corrompiam as instituições. Stalin, o "pai dos povos", que exterminou congressistas soviéticos no Grande Expurgo de 1937-38, governava com um duplipensar mortífero. Seus carcereiros torturavam em nome da "libertação", assassinavam em nome da "justiça popular". 

Hoje, esse jogo perverso continua sob novas roupagens. Neoliberais que pregam "Estado mínimo" enquanto saqueiam o máximo possível do erário. Políticos que falam em nome dos "pobres e trabalhadores" enquanto engordam contas offshore. A corrupção da linguagem precede sempre a corrupção material: "reforma" vira retrocesso, "ajuste" vira privilégio, "democracia" vira oligarquia. 

E chegamos ao Brasil atual, onde a farsa se tornou tragicômica. A CPI do INSS revela não um desvio pontual, mas um sistema gangrenado. O Banco Master, as emendas orçamentárias transformadas em moeda de troca, os esquemas que envolvem desde servidores públicos até ministros — todos participam deste grande mercado de ilicitudes. 

Duas faces da mesma moeda podre. Judiciário, legislativo, executivo — não mais poderes separados, mas quadrilhas integradas. Prefeitos, governadores, empresários, funcionários públicos, mídia — todos enredados numa teia de corrupção sistêmica. Não são mais ideologias que se enfrentam, mas máfias que competem pelo butim estatal. 

É uma guerra de todos contra todos, onde Stalins e Hitlers de baixo orçamento comandam suas ditaduras particulares de corrupção. Tecnocratas se tornam capitães do mato modernos, caçando recursos públicos para seus senhores. Gangues partidárias tratam o Estado como território a ser saqueado. 

A democracia? Inviolável no discurso, inviabilizada na prática. Mantém-se o teatro eleitoral para legitimar o roubo institucionalizado. As elites se alternam no poder para melhor se perpetuarem no privilégio. O povo, sempre o povo, paga a conta em dupla moeda: com seus impostos e com sua dignidade. 

Orwell avisou: quando a linguagem é corrompida, a tirania se instala. Hoje temos a tirania da corrupção, sustentada por uma linguagem que chama roubo de "gestão", conchavo de "governabilidade", privilégio de "direito adquirido". 

Resta-nos a revolta libertária de recuperar as palavras e, com elas, recuperar a realidade. Denunciar não apenas os atos de corrupção, mas a corrupção dos significados que os torna possíveis. Exigir não apenas a punição dos corruptores, mas a restauração de uma linguagem honesta que distinga claramente o público do privado, o ético do criminoso, a democracia da cleptocracia. 

Porque enquanto aceitarmos que "corrupção" seja apenas "jeitinho", que "desvio" seja apenas "malversação", que "crime" seja apenas "imperfeição do sistema", estaremos consentindo com a ditadura mais perversa: aquela que nos faz acreditar que a podridão é normalidade, e que a liberdade é apenas uma palavra vazia num mundo cheio de cadeias. 

 



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