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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

The New Look: Moda, Guerra e o Renascimento de uma Indústria.




The New Look, série original da Apple TV+ lançada em 2024, mergulha nos anos sombrios da ocupação nazista de Paris durante a Segunda Guerra Mundial para contar uma história menos conhecida: a da indústria da moda francesa e sua luta pela sobrevivência e reinvenção. O título é uma referência direta à icônica coleção de Christian Dior de 1947, que revolucionou a silhueta feminina pós-guerra, afastando-se da austeridade para abraçar a feminilidade, o luxo e a esperança – um movimento que ficou conhecido como "O New Look". 

A narrativa central acompanha dois gigantes em trajetórias opostas: Christian Dior, um designer relativamente desconhecido que trabalha na casa de moda de Lucien Lelong, e Coco Chanel, já uma lenda consagrada, mas cujas escolhas durante a guerra mancharam permanentemente sua imagem. A série traça um contraste entre a ascensão ética de Dior, que mantém a integridade artística e apoia sua irmã, membro da Resistência, e a queda moral de Chanel, que fecha sua maison, vive no Hotel Ritz com um oficial nazista e tenta usar leis antissemitas para recuperar o controle de seu negócio. 

Base do Roteiro e Fidelidade Histórica 

O roteiro, desenvolvido por Todd A. Kessler (criador de Damages), baseia-se em extensa pesquisa histórica, incluindo biografias de figuras da época e registros da ocupação. A série se apoia em fatos documentados: 

  • A colaboração de Coco Chanel com os nazistas, incluindo sua tentativa de usar a Aryanização para retomar a Chanel N°5 da família Wertheimer. 

  • O papel da Chambre Syndicale de la Haute Couture, liderada por Lucien Lelong, em negociar com os alemães para manter a indústria viva em Paris, evitando sua transferência para Berlim. 

  • A participação da irmã de Dior, Catherine, na Resistência, sua captura e deportação para o campo de concentração de Ravensbrück. 

  • O ambiente sufocante e moralmente ambíguo de Paris ocupada, onde a sobrevivência exigia compromissos impossíveis. 

No entanto, como qualquer drama histórico, The New Look toma liberdades criativas: condensa timelines, cria diálogos ficcionais e amplifica conflitos interpessoais para aumentar a tensão dramática. A figura de Cristóbal Balenciaga, por exemplo, é introduzida como um mentor e rival de Dior, embora sua interação real na época fosse limitada. 

Críticas e Recepção 

A série foi recebida com opiniões divididas: 

Pontos Fortes: 

  • Atuações aclamadas: Ben Mendelsohn (Dior) e Juliette Binoche (Chanel) foram elogiados pela nuance e profundidade. Mendelsohn captura a quietude, a dor e a genialidade de Dior, enquanto Binoche humaniza Chanel sem absolvê-la. 

  • Produção Impecável: A direção de arte, figurinos (de linhagens autênticas da Dior e Chanel) e fotografia recriam magistralmente a atmosfera opressiva da guerra e a explosão de criatividade pós-1947. 

  • Complexidade Moral: A série evita julgamentos fáceis, mostrando os tons de cinza da sobrevivência. A luta de Lelong para salvar a indústria, por exemplo, é mostrada como um ato de patriotismo pragmático. 

Pontos de Crítica: 

  • Ritmo Irregular: Alguns críticos notaram que a série perde fôlego no meio, alongando-se em subplots menos cativantes. 

  • Foco Narrativo Difuso: A tentativa de equilibrar múltiplas histórias (Dior, Chanel, Balenciaga, a Resistência) às vezes dilui o impacto emocional. 

  • Licenças Históricas: Puristas da moda e historiadores questionaram algumas simplificações, como a representação do relacionamento Dior-Balenciaga. 

No geral, a série foi celebrada por iluminar um capítulo fascinante onde arte, comércio e política colidem, elevando a moda além da superficialidade para revelá-la como um termômetro cultural e uma força de resistência. 

Uma Possível Continência: O Século XXI e a Revolução Inacabada 

Uma segunda temporada ou um spin-off focando na moda do Século XXI teria um desafio narrativo diferente: capturar uma era de mudanças tectônicas, fragmentação e revolução digital. Eis uma proposta de como essa continuação poderia se estruturar: 

Título SugeridoThe New Look: Unraveled (O New Look: Desfiado) 

Período Abrangido: 1999 (alvorecer da internet) até os dias atuais, com saltos temporais. 

Eixos Narrativos Principais: 

  1. A Revolução Digital e a Democratização: 

  1. A ascensão dos bloggers para influenciadores de poder bilionário, focando em figuras como Susanna Lau (Style Bubble) e Tavi Gevinson. 

  1. O nascimento do fast fashion (Zara, H&M) e seu impacto ambiental e social, personificado por magnatas como Amancio Ortega. 

  1. A guerra entre lojas físicas e e-commerce, culminando na hegemonia de players como Net-a-Porter (fundado por Natalie Massenet) e Amazon. 

  1. Crises e Consciência: 

  1. O escândalo John Galliano (2011), explorando genialidade, auto-sabotagem e cancelamento na era pré-#MeToo. 

  1. O movimento #MeToo na Moda, expondo predadores como Terry Richardson e a cultura tóxica das casting couches. 

  1. A crise de sustentabilidade e o surgimento da moda circular, do upcycling e de ativistas como Stella McCartney e Vivienne Westwood. 

  1. A Redefinição do Luxo e da Identidade: 

  1. A compra massiva de grifes francesas e italianas pelos conglomerados LVMH (Bernard Arnault) e Kering, transformando a criação em finanças globais. 

  1. A revolução da diversidade: o movimento por mais modelos plus-size, étnicos e transgêneros, e a pressão por backstages inclusivos. 

  1. A fusão moda/streetwear: a colaboração Louis Vuitton x Supreme (2017) como ponto de virada, e a ascensão de Virgil Abloh como um símbolo de mudança geracional. 

Personagens Centrais Potenciais: 

  • Bernard Arnault vs. François Pinault: A batalha silenciosa pelos impérios do luxo. 

  • Alexander McQueen: O gênio trágico que definiu o fim do século XX (até seu suicídio em 2010). 

  • Phoebe Philo: A minimalista que redefiniu o poder feminino na Céline. 

  • Franca Sozzani: A editora-chefe visionária da Vogue Itália, que usou a revista como plataforma ativista. 

Temas Centrais da Continuação: 

  • Autenticidade vs. Comercialização: O que resta da haute couture em um mundo de drops e hypebeasts? 

  • Inclusão como Marketing ou Missão?: A moda como espelho das guerras culturais. 

  • O Futuro Físico vs. Digital: A ascensão dos NFTsmetaversos (como o da Balenciaga) e inteligência artificial no design. 

Estrutura Narrativa: 
Seria uma antologia, com cada temporada ou arco cobrindo uma década, interligando histórias pessoais com megatendências. O tom seria mais frenético, fragmentado e auto-consciente que The New Look, refletindo a própria velocidade do século. 

Conclusão: 
Assim como a série original mostrou a moda renascendo das cinzas da guerra, uma continuação no século XXI mostraria uma indústria em eterno estado de crise e reinvenção – lutando com seu legado, seu impacto planetário e sua alma, enquanto tenta encontrar um "novo novo look" para uma era de incertezas. Seria uma narrativa sobre identidade, capitalismo hiperacelerado e a busca por significado em um mundo inundado de imagens. 

 

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