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domingo, 1 de fevereiro de 2026

Da Tékhnē tou Bíou à Hermenêutica do Desejo: Uma Arqueologia do Sujeito Ocidental.



A grande virada na história da subjetividade ocidental, magistralmente cartografada por Michel Foucault em sua obra final, pode ser sintetizada na passagem de um sujeito ético para um sujeito de desejo. Esta não é uma mera substituição de termos, mas uma transformação ontológica e política radical na maneira como o ser humano se compreende, se governa e é governado. 

I. O Sujeito Ético da Antiguidade: A Arte de Si (Foucault & Parmênides) 

Na Grécia antiga, a subjetividade era um projeto estético-ético. O indivíduo era um material a ser trabalhado, um campo de exercício e realização. Foucault, em A História da Sexualidade Vol. 2 e 3, descreve isso como a "tékhnē tou bíou" – a arte da vida ou cuidado de si (epimeleia heautou). 

  • Governo de Si: O sujeito ético era aquele que exercitava o autodomínio (enkráteia), modelando suas ações, prazeres e paixões segundo princípios de moderação, timing e adequação. A liberdade não era a ausência de limites, mas a capacidade de impor a si mesmo uma lei bela e racional. A sexualidade, nesse quadro, era um domínio da chrēsis – o uso adequado e circunstanciado dos prazeres. 

  • Parmênides e o Ser Uno: Em um nível ontológico mais profundo, podemos recorrer a Parmênides. Seu "Ser" é Uno, imóvel, completo e auto-idêntico. O sujeito ético antigo aspirava a essa ideia de totalidade e autossuficiência (autarkeia). O sábio estoico ou epicurista busca alcançar uma condição de plenitude onde nada lhe falta, onde ele é senhor de si, um microcosmo ordenado. O desejo, aqui, é visto como uma carência que perturba essa unidade, devendo ser administrado ou canalizado pela razão. 

II. A Grande Ruptura: A Invenção do Sujeito de Desejo (Foucault & os Padres da Igreja) 

A revolução cristã, analisada por Foucault em As Confissões da Carne, desloca o eixo da subjetividade do ato para o desejo interior. A carne (sarx) torna-se o novo campo de batalha. 

  • Da Superfície à Profundidade: A moralidade deixa de se preocupar primordialmente com o que se faz (atos moderados ou imoderados) para perscrutar o que se sente e se deseja no mais íntimo. O pecado começa na concupiscência (o desejo desordenado), mesmo que nunca se concretize. 

  • O Imperativo da Confissão: Nasce o sujeito de desejo. Ele é definido não por sua capacidade de autogoverno, mas por um desejo obscuro, intrínseco e permanentemente suspeito (a herança do pecado original). Sua tarefa fundamental não é mais esculpir a si mesmo, mas decifrar-se. Ele deve tornar-se um livro hermético a ser interpretado através de técnicas como o exame de consciência e a confissão exaustiva. A verdade sobre si não está mais na conformidade a um modelo externo de beleza ética, mas na revelação verbalizada dos segredos da carne. Foucault demonstra como essa hermenêutica do eu é a gênese de uma longa linhagem que desembocará na psicanálise. 

III. Ampliando o Diálogo: Cartografias e Rostos do Desejo 

Aqui, outros pensadores nos ajudam a complexificar e contestar essa narrativa. 

  • Deleuze & Guattari: O Desejo como Produção, não como Falta. Em Anti-Édipo, eles lançam um ataque frontal à noção psicanalítica (e, por extensão, à sua raiz cristã) do desejo como carência. Para eles, o desejo é produtivo, positivo, maquínico. Não é algo interno que precisa ser interpretado, mas um fluxo que conecta corpos, ideias, instituições. O "sujeito de desejo" foucaultiano ainda está preso ao modelo da interioridade e da interpretação. D&G propõem um sujeito desejante, nômade, definido por suas conexões e afetos no plano de imanência, não por suas faltas secretas. 

  • Levinas: A Ética do Rosto e a Ruptura do Mesmo. Emmanuel Levinas oferece uma saída radical de toda a problemática do "sujeito" centrado em si (seja ético, seja de desejo). Para ele, a subjetividade se constitui ética e primordialmente no encontro com o Outro, cujo Rosto me interpela e me impõe uma responsabilidade infinita. Antes de qualquer cuidado de si ou interpretação de meus desejos, existe o apelo do Outro. A subjetividade levinasiana é uma subjetividade acusada (pela presença do Outro), não uma subjetividade acusadora de si mesma (como na confissão). É uma ética da alteridade que quebra a autorreferência do sujeito grego e a introspecção do sujeito cristão-moderno. 

  • Jung: A Sombra e o Processo de Individuação. Carl Jung adiciona uma dimensão arquetípica e transpessoal ao "desejo". O inconsciente não é apenas um depósito de pulsões reprimidas (Freud), mas um campo de imagens e padrões psíquicos universais (arquétipos). O "sujeito de desejo" junguiano é aquele engajado no processo de individuação, que não busca apenas confessar seus desejos "baixos", mas integrar a Sombra (os aspectos rejeitados de si) e dialogar com figuras como a Anima/Animus. O desejo aqui é também um desejo de totalidade psíquica, um retorno, em chave psicológica moderna, ao ideal de completude parmenídico, mas agora através do mergulho, e não da negação, das profundezas. 

Conclusão: Um Campo de Forças da Subjetividade 

A distinção foucaultiana entre o sujeito ético (que se governa) e o sujeito de desejo (que se decifra) é um instrumento analítico poderosíssimo para entender nossa herança cultural. Ele mostra como passamos de uma ética como estética da existência para uma moral como hermenêutica da suspeita. 

No entanto, ao trazer Deleuze & Guattari, vemos uma linha de fuga: o desejo pode ser exteriorização e produção, não interioridade e falta. Com Levinas, a própria centralidade do "sujeito" é deslocada pelo primado da relação ética. Com Jung, a busca pelo desejo torna-se uma jornada mitopoética de autotranscendência. 

Assim, a história da subjetividade não é linear, mas um campo de forças onde coexistem e se combatem diferentes modelos: 

  1. sujeito-obra-de-arte (o ético da Antiguidade), 

  1. sujeito-livro-secreto (o de desejo, herdeiro do cristianismo), 

  1. sujeito-maquínico (o desejo como fluxo, de D&G), 

  1. sujeito-responsável (constituído pelo Outro, de Levinas), 

  1. sujeito-em-individuação (em busca do Si-Mesmo, de Jung). 

Cada um desses modelos responde a uma pergunta fundamental: O que é ser um "eu"? As respostas variam entre a autoescultura, a autodecifração, a conexão rizomática, a responsabilidade infinita e a integração dos opostos. Nossa experiência contemporânea é, em grande medida, o palco onde esses diferentes sujeitos ainda hoje lutam por expressão. 

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