SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

A Capoeira como Pedagogia do Corpo e da Alma e o autismo.

 


Capoeira: A Roda que Ensinou um País a se Mexer e a se Encontrar 

A capoeira não é apenas um esporte. É um organismo vivo de cultura, uma sinfonia de corpo, mente e ancestralidade que pulsa no coração do Brasil. Nascida da dor e da resistência dos povos escravizados, ela se transformou numa das mais completas expressões da identidade nacional — uma arte que é, simultaneamente, dança, luta, jogo, música, história e filosofia. Mais do que uma prática física, a capoeira é um sistema educativo integral, capaz de tocar vidas e transformar realidades, especialmente quando entra no espaço sagrado da escola. 

 

História: A Raiz de Resistência que Virou Raiz de Identidade 

Na senzala, a capoeira era clandestinidade e astúcia. Sob o disfarce de dança, os escravizados treinavam defesa, preservavam rituais, mantinham viva a cultura africana e planejavam fugas. Era resistência política pura — um ato de insurgência corporal contra um sistema que queria aniquilar sua humanidade. Após a Abolição, marginalizada e criminalizada, sobreviveu na resistência dos mestres que a praticavam nas sombras. Só em meados do século XX, graças a figuras como Mestre Bimba (que a sistematizou como luta regional) e Mestre Pastinha (guardião da capoeira angola), ela conquistou reconhecimento e hoje é Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade (UNESCO). Sua história é a história do Brasil: de violência, criatividade, exclusão e, finalmente, celebração da própria mestiçagem. 

 

Capoeira Como Pedagogia do Corpo e da Alma: Inclusão e Superação 

Longe dos holofotes das academias, a capoeira revela um poder terapêutico e inclusivo profundo. Seu caráter multissensorial — que integra movimento, música, canto, percussão e ritual — torna-a uma ferramenta única para trabalhar com crianças e jovens com autismo, TDAH, dificuldades de aprendizagem ou traumas emocionais. Como? 

  1. O Corpo Como Linguagem: Para quem tem dificuldade com a comunicação verbal, a capoeira oferece um vocabulário gestual rico. O jogo na roda exige leitura de intenções, percepção de limites e expressão não-verbal — habilidades sociais fundamentais que são exercidas de forma lúdica e orgânica. 

  1. A Música Como Reguladora Emocional: O toque do berimbau dita o ritmo do jogo. Sua cadência pode acalmar ou energizar. Cantar e responder aos coros na roda cria um senso de pertencimento e sincronia coletiva, ajudando a regular a ansiedade e a impulsividade. 

  1. A Roda Como Espaço de Aceitação: Na capoeira, todos têm um lugar. O mais tímido, o mais agitado, o com maior dificuldade motora — todos podem jogar, tocar ou cantar. A filosofia da irmandade (malandragem no bom sentido) ensina a cuidar do parceiro, a não humilhar o mais fraco, a se proteger e a se expor com confiança. Os vínculos emocionais que se formam entre discípulos e mestre são de profundo acolhimento, substituindo muitas vezes a ausência de referências positivas fora dali. 

  1. A Sequência Como Estrutura Cognitiva: Aprender uma sequência de movimentos, associá-los aos toques musicais e executá-los no tempo certo estimula a memória, a concentração e o planejamento motor — benefícios diretos para quem enfrenta problemas de aprendizagem. 

 

A Capoeira na Escola: Uma Semente de Transformação Territorial 

Inserir a capoeira no currículo escolar não é apenas adicionar uma "atividade extracurricular". É introduzir uma tecnologia social de paz no ambiente educativo. 

  • Redução das Violências: A capoeira ensina que o conflito pode ser transformado em jogo. Ela canaliza a agressividade natural em gestos atléticos e criativos, substituindo a lógica da confrontação pela da ginga — a arte da esquiva, do diálogo corporal, do resolver sem bater. Em comunidades afetadas pela violência urbana, a roda de capoeira torna-se uma zona de paz ativa, onde disputas são mediadas simbolicamente e o respeito é a lei maior. 

  • Fortalecimento da Autoestima e Identidade: Para crianças negras e periféricas, ver sua cultura ancestral valorizada no espaço escolar é um ato de reparação histórica. A capoeira devolve o orgulho de uma herança que durante séculos foi vilipendiada, combatendo o racismo estrutural a partir da autoimagem positiva. 

  • Impacto no Território: A escola vira um polo irradiador dessa cultura. As rodas passam a acontecer nas praças, as festas de batizado envolvem as famílias, os mestres se tornam lideranças comunitárias. A capoeira requalifica os espaços públicos, ocupando locais antes dominados pelo medo ou pela negligência com música, movimento e coletividade. Ela tece redes de proteção social informal, onde os jovens são "vistos" e guiados por seus mestres, afastando-os da sedução do crime. 

  • Educação Integral: A capoeira ensina matemática (nos ritmos e compassos), história (na origem e trajetória), geografia (nas raízes africanas e na diáspora), arte (na música e na expressão corporal) e português (nas ladainhas e cantigas). Ela é, por essência, interdisciplinar e holística. 

 

Conclusão: O Brasil que Ginga 

A capoeira é mais do que um patrimônio a ser preservado. É uma proposta de futuro. Ela carrega em seu DNA a memória da resistência e a sabedoria de que a verdadeira força está na capacidade de adaptação, na comunidade e na celebração da vida mesmo diante da adversidade. 

Ao levar a capoeira para a escola, não estamos apenas ensinando golpes e cantigas. Estamos plantando um Brasil mais inteiro. Um Brasil que sabe que educar não é apenas encher a cabeça de informações, mas também conectar o corpo à história, o indivíduo ao coletivo, a dor à superação. Estamos formando cidadãos que sabem "gingar" na vida — que sabem se equilibrar, respeitar o ritmo do outro, cair e levantar, e entender que, na grande roda da existência, somos todos aprendizes e mestres, lutando e dançando juntos pela construção de um território menos violento e mais humano. 

Como diz o velho ditado da roda: "Capoeira é mandinga, é manha, é malícia. É ginga do corpo, é ginga da alma." Que essa ginga continue a ensinar ao Brasil a arte de se encontrar, na escola e em cada esquina onde um berimbau ecoar, chamando para a roda da inclusão, da educação e da paz. 

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