Para o senso comum, a vida política moderna é retratada como um campo de batalha entre o amor e o ódio. De um lado, forças progressistas supostamente pautadas pela tolerância, pela inclusão e pela compaixão; de outro, movimentos de direita impulsionados pelo rancor contra imigrantes, minorias e tudo o que foge a uma suposta ordem natural. Esta dicotomia simples, porém, frequentemente falha ao capturar a experiência subjetiva dos próprios protagonistas, obscurecendo a verdadeira natureza afetiva que move forças conservadoras e reacionárias em todo o mundo.
A proposta inovadora para desvendar o paradoxo afetivo conservador, de que "o amor que os conservadores sentem por seu modo de vida se manifesta como ódio aos que ameaçam esse modo de vida", não apenas explica a natureza ambivalente do fenômeno, como também ilumina as contradições internas deste fenômeno, revelando a complexa engenharia moral que transforma afeições privadas em armas políticas. A obra seminal Buckley: A Vida e a Revolução que Mudou a América, do jornalista Sam Tanenhaus, oferece um estudo de caso paradigmático desta dinâmica. Ao narrar a trajetória de William F. Buckley Jr., o arquiteto do conservadorismo americano moderno, é possível identificar os mecanismos pelos quais o discurso de amor à nação, à tradição e à liberdade paradoxalmente semeou divisões que fraturam a política contemporânea — e como o "ódio" politizado é, muitas vezes, a sombra projetada por um amor que se vê sob ameaça.
I. A Psique Conservadora: Entre o Amor à Ordem e o Medo da Mudança
A compreensão do conservadorismo como um movimento emocionalmente complexo requer um mergulho em sua psicologia política e em suas origens históricas. A biografia de Buckley, meticulosamente traçada por Tanenhaus, revela um homem movido por uma intensa paixão por sua visão de mundo: um profundo amor ao seu país, à sua fé católica e ao que ele percebia como as virtudes da civilização ocidental. No entanto, foi justamente essa devoção que o impeliu a empregar táticas agressivas contra seus inimigos ideológicos — os "liberalistas", como os chamava —, utilizando sua revista National Review para ostracizar grupos considerados ameaças, como os simpatizantes da John Birch Society, a quem acusou de paranóia, ou ao inicialmente relativizar as demandas do movimento dos direitos civis, preferindo uma abordagem de "evolução gradual" que, na prática, significava a manutenção de hierarquias raciais estabelecidas.
O acadêmico Corey Robin, em seu influente livro A Mente Reacionária: O Conservadorismo de Edmund Burke a Donald Trump, argumenta que esta aparente contradição não é uma falha de caráter, mas a própria essência do pensamento conservador. Robin desafia a narrativa de que o conservadorismo é simplesmente um apego ao passado ou uma prudente resistência à mudança. Para ele, ele é fundamentalmente uma ideologia reacionária nascida da reação à Revolução Francesa, moldada pela luta de classes e unificada por um único fio condutor: a defesa da hierarquia e do privilégio. Nessa perspectiva, a hostilidade do conservador a movimentos que exigem liberdade e igualdade para "as classes mais baixas" — sejam escravos, trabalhadores, mulheres ou minorias — não é um ato gratuito de ódio, mas uma resposta defensiva e apaixonada para preservar uma ordem social que considera não apenas justa, mas profundamente amada.
Esta tese é complementada por pesquisas em psicologia política. Estudos publicados no Psychological Bulletin apontam que certos traços, como uma forte preferência por certeza moral e uma "intolerância à ambiguidade", podem estar mais associados a ideologias conservadoras. Esta busca por ordem e estabilidade pode se manifestar como agressão contra aqueles que simbolizam o caos percebido. Em uma ironia trágica, o amor à segurança e à tradição frequentemente se converte em rejeição visceral ao novo, ao estrangeiro e ao progresso social. A psicóloga Christine Reyna e colaboradores, por exemplo, exploraram como o tradicionalismo e o autoritarismo ajudam a explicar o vínculo entre fundamentalismo religioso e preconceito racial, revelando um amor incondicional aos próprios valores que gera, como subproduto inevitável, a hostilidade em relação ao outro.
II. Do Amor Tribal ao Ódio ao Estrangeiro
Se a raiz do conservadorismo é o amor por uma comunidade imaginada — a nação, a raça, a família tradicional —, o ódio ao "outsider" torna-se uma consequência lógica. No calor de uma campanha presidencial ou de um debate sobre imigração, o que o mundo vê como discurso de ódio é, para o ativista de direita, uma forma de defender o que lhe é mais caro. A ensaísta política Kathleen Belew argumenta que grupos de extrema-direita se veem como exércitos de patriotas lutando por um modo de vida ameaçado. A análise do discurso de Marine Le Pen durante a campanha presidencial de 2017 na França e de movimentos identitários na Alemanha, que utilizam abertamente o slogan de "amor à pátria" para justificar a exclusão, materializa esta lógica, na prática: "Os errados, senhores e senhoras, não é um grito de xenofobia, é um grito de amor pelo que nos pertence".
A ascensão do trumpismo e do populismo de direita no século XXI, para Corey Robin, é a confirmação de que esta dinâmica amor-ódio nunca deixou de operar. Os conservadores podem até estar "entediados" com o capitalismo, como confessou o próprio Buckley a Robin pouco antes de morrer, ao declarar que dedicar a vida ao capitalismo era "horrível porque é repetitivo... é como sexo". Mas o que os anima não é a defesa árida do livre mercado; é a luta emocionante contra a "correção política", o "globalismo" e o "marxismo cultural". O alvo do ódio muda, mas a estrutura afetiva — o fervor de uma cruzada para proteger uma ordem amada — permanece notavelmente constante. O teórico político Richard Shorten, em A Ideologia dos Reacionários Políticos, capta essa essência ao descrever o apelo reacionário como uma combinação de apelos à "decadência, conspiração e indignação", todos enraizados na crença de que algo profundamente amado está sob ataque iminente.
O que antes era a luta contra o comunismo, tornou-se uma guerra cultural contra a ideologia de gênero, a imigração em massa e a elite globalista. O amor continua sendo o motor; o ódio, a ferramenta.
III. O Conservadorismo Brasileiro e o Ódio como Plataforma
A análise da dinâmica amor-ódio não se restringe ao contexto norte-americano ou europeu. O fenômeno encontra um paralelo poderoso e singular no Brasil contemporâneo, onde as emoções foram deliberadamente instrumentalizadas como estratégia política. Pesquisas acadêmicas têm se dedicado a entender o que se convencionou chamar de "virada conservadora" no país, um movimento que ganhou força a partir de 2013 e atingiu seu ápice com a eleição de Jair Bolsonaro em 2018.
Um elemento central desse fenômeno foi a construção de uma política do ódio. Estudos demonstram que a extrema-direita brasileira utilizou o ódio como plataforma política para manipular a opinião pública, reconfigurando o sentido da vida política e da cidadania. O termo "ódio" emerge como uma categoria analítica crucial, aparecendo como um "combustível patológico" que percorre diferentes vertentes, desde o neoconservadorismo cultural até o fundamentalismo religioso e o ultraliberalismo econômico. O que unifica essas diferentes faces é um forte sentimento de amor por uma nação, família e valores tradicionais que seus defensores percebem como estando em perigo.
A polarização nas redes sociais foi fundamental para disseminar esta paixão política. Em um estudo intitulado "Tecnopolíticas do Ódio", pesquisadores analisaram como grupos conservadores e bolsonaristas no WhatsApp usaram estratégias de disseminação de notícias falsas, desinformação e ataques pessoais para mobilizar eleitores nas eleições de 2018 e 2022. Estas não eram apenas táticas eleitorais; eram a materialização digital de uma guerra cultural, onde o amor por "Deus, Pátria e Família" servia como justificativa moral para o ódio contra opositores vistos como parte de uma conspiração esquerdista para destruir o país. O discurso de Bolsonaro, que por vezes glorificou a ditadura militar e usou ameaças e retórica inflamatória, não é um desvio da norma, mas uma expressão crua e transparente dessa lógica, na qual o inimigo interno é desumanizado em nome da salvação da comunidade amada.
IV. O Legado de Buckley e a Fratura Conservadora
A biografia de Buckley, contudo, não é apenas o retrato de um triunfo. Tanenhaus documenta como o próprio Buckley ficou alarmado com o rumo que a coalizão que ajudara a criar tomou no final de sua vida. A ascensão do Tea Party e, mais tarde, de Donald Trump, representou uma guinada para um populismo de direita mais cru, menos cortês e abertamente nacionalista que, em muitos aspectos, desafiou o código de civilidade e o "fusionismo" que Buckley havia meticulosamente forjado — a união entre tradicionalistas, libertários e anticomunistas.
O crítico George Hawley, autor de Críticos de Direita do Conservadorismo Americano, capta a contradição final: o movimento de direita que Buckley ajudou a criar cresceu tanto que acabou abrigando versões do conservadorismo que ele mesmo rejeitaria. O amor à causa se fragmentou em facções que se odeiam mutuamente, provando que uma política construída sobre a base volátil do ressentimento pode facilmente gerar caos. Este é o legado ambivalente do arquiteto do conservadorismo moderno: ele canalizou a energia da reação para dentro do sistema, mas ao fazê-lo, normalizou uma política onde o amor a um "nós" idealizado justifica, e às vezes exige, o ódio a um "eles" demonizado. Como o crítico Matt Feeney observa, "a armadilha do ódio na política", em vez da persuasão, tornou-se uma característica central do debate, corroendo a confiança nas instituições e envenenando a capacidade de diálogo.
Conclusão: O Espelho do Amor e do Ódio
Afirmar que "amor é ódio aos conservadores" não significa psicologizar o conservadorismo como uma patologia. Significa compreender a sua gramática moral. Para o fervoroso conservador, o sentimento primário não é a maldade ou a destruição, mas a devoção — à pátria, a Deus, à família. O problema é que esta devoção, especialmente quando sentida como ameaçada ou sitiada, exige a construção de inimigos. O amor que salva o seu próprio povo deve, por necessidade, odiar aqueles que querem corrompê-lo. O ódio, neste contexto, não é o oposto do amor; é a sua forma de defesa armada.
Ao fechar a cortina sobre a vida de Buckley, fica a lição de que o império das emoções na política nunca é simples. A obra de Tanenhaus nos lembra que as revoluções são feitas por homens e mulheres movidos por forças que eles mesmos muitas vezes não compreendem plenamente, jurando amor enquanto semeiam divisão. Entender esta dinâmica não é justificá-la, mas é o primeiro passo para reconhecer que, até que a política aprenda a construir sobre a base frágil do amor ao próximo (universal) em vez de apenas ao "igual", a sombra do ódio continuará a acompanhar cada passo da marcha conservadora.
É no reconhecimento dessa complexa dialética amor-ódio que reside a chave para desarmar a retórica da polarização e encontrar um caminho para um debate político mais saudável. Pois, como nos mostram tanto a história do conservadorismo americano quanto os recentes episódios da política brasileira, a qualidade da democracia não se mede apenas pelo que se ama, mas pelo modo como se trata aqueles que não se ama.
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