SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.
quarta-feira, 3 de junho de 2026
“Ainda que eu andasse pelo vale da morte, não temeria mal algum.”
Não importa se a pesquisa gerou um artigo publicado na melhor revista científica do mundo ou se o pesquisador acumula premiações e recursos de pesquisa. Se a tecnologia não convencer o mercado e não conseguir atravessar o Vale da Morte, ela corre o risco de permanecer apenas como uma tese na prateleira da biblioteca.
Quando consegue superar essa etapa, a tecnologia passa para o lado direito do gráfico e começa a atrair investimentos relevantes. É nesse momento que surgem empresas milionárias e até bilionárias, os chamados unicórnios.
Mas apenas uma pequena fração das tecnologias desenvolvidas chega até lá. É como um jogador de futebol que sai das categorias de base e alcança um clube como o Real Madrid.
Fico feliz em ver que cada vez mais pessoas estão despertando para essa realidade e promovendo programas voltados à inovação tecnológica. FINEP, Embrapii e FAPESP são alguns dos exemplos de instituições que têm desempenhado papel fundamental nessa transformação.
No IPT - Instituto de Pesquisas Tecnológicas, criamos o IPT Open justamente para aproximar empresas, pesquisadores, investidores e empreendedores. Hoje, o programa abriga grandes empresas de tecnologia e inovação, e o Instituto passa a contar também com o Centro de Engenharia do Google, que administrará um centro de startups dentro do campus, fortalecendo ainda mais esse ecossistema de inovação aberta.
Também temos iniciativas voltadas à atração de fundos de investimento e capital de risco. Ainda não estamos na situação ideal, mas estamos construindo as pontes necessárias para que mais tecnologias consigam atravessar o Vale da Morte.
Apesar de ainda não ser uma visão predominante, muitos pesquisadores já perceberam que inovação e ciência aplicada não competem com a pesquisa básica. Pelo contrário: ajudam a financiá-la e fortalecê-la. No caso das universidades paulistas, por exemplo, uma parcela importante dos recursos vem do ICMS. Sem atividade econômica, não há arrecadação. Sem arrecadação, não há orçamento.
Há quem goste de atribuir às empresas a responsabilidade pelo baixo desenvolvimento tecnológico do país. Eu convidaria essas pessoas a passarem um único dia empreendendo no setor privado para compreender o tamanho do desafio que é transformar conhecimento em produto, produto em mercado e mercado em resultado.
Precisamos aproximar muito mais os dois lados separados pelo Vale da Morte: de um lado, universidades e institutos de pesquisa; do outro, empresas, investidores e empreendedores.
Conheço acadêmicos que nunca pisaram em uma empresa. E também conheço profissionais do mercado que nunca entraram em um laboratório de pesquisa. O Brasil precisa que esses dois mundos conversem mais.
E deixo uma pergunta:
Nossas universidades estão preparando os alunos para atravessar o Vale da Morte ou apenas para prestar concursos públicos?
Que um dia possamos dizer:
“Ainda que eu andasse pelo vale da morte, não temeria mal algum.”
Porque haveria pontes suficientes para atravessá-lo.
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