SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sábado, 16 de maio de 2026

Por que a Itália está se tornando atraente para os ultrarricos

 

Um homem debruçado na borda de uma varanda em Roma.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Os incentivos fiscais atraem os ricos para a Itália
    • Author,John Laurenson
    • Role,BBC Worklike
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A Itália — que já havia sido criticada pela França no passado por usar incentivos fiscais para atrair residentes franceses ricos — vem se tornando um destino cada vez mais atraente para cidadãos de outros países, sobretudo do Oriente Médio, devido aos distúrbios provocados pela guerra no Golfo.

Os impostos não foram o principal motivo para deixar a França, insiste Robert (nome alterado) enquanto toma um café com leite no Aeroporto Charles de Gaulle, em Paris. Segundo ele, a Itália foi escolhida por sua beleza, arte e música.

Mas para este francês, comprar uma casa em Roma e tornar-se residente fiscal italiano foi uma parte muito atraente de se mudar para o país, onde indivíduos com grande patrimônio podem pagar um imposto anual fixo sobre toda a renda estrangeira — independentemente do valor — e desfrutar de outras isenções.

Robert, que se descreve como apenas "moderadamente rico", mudou-se para a Itália há oito anos, após o fim de sua carreira na área de TI com a venda de sua empresa. Ele pode não estar entre os bilionários franceses que fugiram de impostos, mas as vantagens para ele são claras.

Se tivesse comprado uma casa na França, teria que pagar o que os franceses chamam de "frais de notaire" (taxas de cartório), cuja maior parte vai para o governo.

Na Itália, há isenção para quem compra um imóvel pela primeira vez. Na França, o presidente Emmanuel Macron transformou o "Impot sur la Fortune" (imposto sobre a fortuna) em imposto sobre o patrimônio imobiliário, de modo que investimentos no mercado de ações, por exemplo, não são mais afetados.

Mas "se você tem US$ 10 milhões em imóveis, esse imposto é realmente doloroso", diz Robert.

Na Itália, não existe nada parecido.

Na França, também é preciso pagar um imposto sobre a propriedade (taxe foncière ou imposto territorial). "Não temos isso aqui para residência principal", diz Robert, embora observe que "há uma taxa considerável para coleta de lixo".

A melhor parte, na opinião dele, é que não há imposto sobre herança para propriedades na Itália avaliadas em até 1 milhão de euros (R$ 5,9 milhões), e acima desse limite, a alíquota é de apenas 4%. Na França, o limite de isenção é bem menor — 100 mil euros (R$ 590 mil) — e a partir daí, a tributação aumenta progressivamente até uma alíquota máxima de 45%.

Mas é para os verdadeiramente ricos que a Itália começa a parecer com um paraíso fiscal.

"Tenho amigos que se mudaram para cá por motivos fiscais e outros que estão considerando a possibilidade", Robert me conta. "Para quem paga muitos impostos, a Itália é muito atraente por causa de sua alíquota fixa."

Duas mulheres, visivelmente relaxadas e felizes, desfrutam de um passeio de barco no Mar Mediterrâneo. Ao fundo, avista-se a famosa cidade de Positano, na Itália.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,A taxa fixa de imposto sobre todos os rendimentos estrangeiros tornou a residência na Itália atraente para pessoas de outros países.

Na Itália, as autoridades fiscais estabelecem um limite máximo para o imposto de renda. Independentemente do quanto você ganhe, você nunca pagará mais do que esse valor. O limite máximo é atualmente de 300 mil euros (R$ 1,7 milhão), embora recentemente fosse de 200 mil euros (R$ 1,1 milhão) e, antes disso, até mesmo de 100 mil (R$ 590 mil). Para quem paga 1 milhão de euros em imposto de renda anualmente na França, a Itália se torna muito atraente.

Quanto aos cidadãos americanos, eles são sempre tributados sobre sua renda mundial, portanto, mudar-se para a Itália não ajudaria a reduzir sua carga tributária.

Decisão complexa

Robert conta que tem dois amigos franceses ricos que se mudaram para a Itália nos últimos meses, mas que vieram do Reino Unido. Ambos trabalhavam no setor financeiro de Londres e estavam muito interessados em se mudar para um lugar onde o regime tributário fosse tão favorável quanto no Reino Unido antes da mudança nas regras para residentes estrangeiros ricos.

"Mesmo com 300 mil euros, a alíquota fixa de imposto na Itália ainda é baixa para quem ganha mais de 1 milhão de euros por ano, em comparação com qualquer outro lugar na Europa. Isso significa que você tem segurança e clareza tributária, bem no coração da Europa, em vez de ter que ir para longe", diz Peter Ferrigno, Diretor de Serviços Tributários da Henley & Partners, especialistas em migração de patrimônio.

"Temos reuniões todas as semanas com pessoas que gostariam de sair da França", diz o advogado tributarista Jerome Barre, de Paris.

"Eles estão insatisfeitos com a situação tributária atual e temem que ela se agrave no futuro. As pessoas não confiam no clima político. Os impostos mudam muito, quase todos os anos. Há receio de que, após a eleição do novo presidente em 2027, as coisas possam ficar ainda mais difíceis do que estão hoje", afirma.

Um homem de óculos, paletó, colete, gravata e lenço branco no bolso do paletó.

Crédito,Jerome Barre

Legenda da foto,O advogado Jerome Barre afirma que se reúne semanalmente com pessoas que estão considerando deixar a França devido aos impostos que pagam no país

No entanto, nesta fase, trata-se mais de "perguntas de empresários e indivíduos ricos que se questionam sobre a possibilidade de mudança, do que de pessoas que de fato estão se mudando", explica Jerome Barre.

"A mudança exige total empenho e um planejamento cuidadoso", enfatiza. Ele acrescenta que, para os empresários, "é necessário mudar a sede da empresa. Na França, eles estão sujeitos a um imposto de saída."

Enquanto muitos franceses ricos se encontram na fase de "considerar a mudança", a questão é sentida com ainda mais intensidade nos Emirados Árabes.

Mas abandonar o regime de isenção fiscal de Dubai é muito difícil para muitos.

"Quando se vive num país onde não se pagam impostos, é muito difícil regressar a um onde se tem que pagar muitos impostos. Especialmente para quem está habituado a gastar muito dinheiro. O montante líquido que sobra no bolso é muito diferente", afirma Barre.

Ele diz que as pessoas que se habituaram a uma vida sem impostos "já não estão habituadas aos procedimentos administrativos – declarações de impostos, documentos – por isso não é fácil."

Os 'icebergs de gordura' que estão se espalhando pelos esgotos das cidades e preocupando os cientistas

 

Robô em testes dentro de um cano

Crédito,Projeto Pipeon

    • Author,Laurie Clarke
    • Role,BBC Future
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Bem abaixo do burburinho dos pedestres e do tráfego de veículos da Whitechapel Road, na zona leste de Londres, algo realmente apavorante estava tomando forma.

Um monstro subterrâneo, pesando mais de 130 toneladas (o peso de 11 dos famosos ônibus vermelhos de dois andares da capital britânica), respirava gases tóxicos nos esgotos londrinos.

Ele cresceu sem ser notado na rede da era vitoriana que passa embaixo daquela rua de grande movimento, até que um grupo de trabalhadores encontrou sua lateral, dura como uma rocha, durante uma inspeção de rotina.

Agora, uma equipe armada de picaretas e jatos d'água de alta pressão, vestindo roupas de proteção da cabeça aos pés, se prepara para enfrentar aquela fera em putrefação.

Seu inimigo é um aglomerado de virar o estômago, composto de gordura, óleo, graxa, lenços molhados, absorventes higiênicos e preservativos, conhecido em inglês como fatberg — um iceberg de gordura.

Esta diabólica mistura forma uma "composição mágica" que endurece como concreto, segundo Richard Martin, chefe de melhoria de tratamento da Southern Water, a empresa de água responsável pelos esgotos do sudeste da Inglaterra.

Blocos medonhos como este ameaçam cidades de todo o mundo. Eles podem surgir de maneira rápida e imprevisível.

Formados com material lançado ao esgoto pelas empresas e residências, eles bloqueiam os sistemas de esgoto, causando alagamentos e levando poluição até os rios próximos.

As famílias e empresas podem ver o esgoto retornando para seus imóveis ou fluindo para as ruas no lado externo, se os icebergs de gordura maiores não forem controlados.

Os trabalhadores da Thames Water (responsável pelo sistema de esgotos de Londres) levaram nove semanas para retirar aquela massa coagulada nos subterrâneos de Whitechapel em 2017.

E, no final de 2025, foi descoberto que ela havia retornado, crescendo novamente até atingir mais de 100 toneladas.

As companhias de água do Reino Unido enfrentam cerca de 300 mil desses acúmulos de gordura, óleo e graxa solidificada todos os anos.

Em Nova York, nos Estados Unidos, 40% dos acúmulos no esgoto são formados por graxa. A cidade gasta cerca de US$ 18,8 milhões (cerca de R$ 92 milhões) anuais, retirando a graxa e abrindo os bloqueios dos esgotos que passam por baixo das suas ruas.

Esses mastodontes que concorrem com o espécime encontrado em Londres se formam com frequência alarmante.

Icebergs de gordura gigantes já foram descobertos ocultos no subsolo de subúrbios de cidades como Detroit e Baltimore, nos Estados Unidos; Oxford e Liverpool, no Reino Unido; e em Melbourne e Sydney, na Austrália.

O grande desafio é detectar os blocos antes que eles atinjam proporções gigantescas.

Ocultos nas úmidas profundezas das cidades, os fatbergs se formam totalmente fora da nossa visão, com materiais que fazemos questão de esquecer, assim que os lançamos no esgoto.

Agora, as companhias de saneamento estão adotando novas tecnologias para ajudá-las nas suas batalhas subterrâneas contra os icebergs de gordura. Elas empregam inteligência artificial para ajudá-las a identificar os sinais dos acúmulos de gordura e intervir a tempo.

Sinais precoces

No Reino Unido, a Southern Water instalou cerca de 34 mil sensores nos seus esgotos. Eles são fixados às tampas dos bueiros e emitem sinais de radar, que são refletidos pela água do esgoto, para verificar seu nível.

Estas medições alimentam um algoritmo de aprendizado de máquina (uma forma de IA). Elas são combinadas com informações sobre dados climáticos e precipitação, para calcular qual deveria ser o nível normal da água em cada dia específico.

E, "se a leitura estiver fora daquela faixa, precisamos entrar em ação", explica Martin.

Trabalhador com roupas de proteção faz a inspeção e limpeza de um cano de esgoto com paredes de tijolos vermelhos

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,A graxa e a gordura que descem pelo esgoto das residências e das empresas é um problema persistente no envelhecido sistema de esgoto de Londres

Historicamente, as empresas de água e esgoto usavam as indicações dos clientes ou inspeções de rotina para descobrir os icebergs de gordura. Mas, com as informações da IA, ficou muito mais fácil liberar bloqueios antes que eles cresçam e se solidifiquem.

A tecnologia permite que as empresas tenham mais tempo para combater o problema e menos vazamentos de esgoto para o meio ambiente.

Outra vantagem é que os trabalhadores podem ser mantidos longe da sujeira da rede subterrânea pelo máximo de tempo possível.

"Não é um ambiente muito agradável", descreve Martin.

Os trabalhadores precisam usar equipamento de respiração, devido aos altos níveis de metano, dióxido de carbono e sulfeto de hidrogênio, um gás tóxico que produz cheiro de ovo estragado. E eles também se arriscam a ficar expostos a vírus, bactérias e parasitas.

A Southern Water já limpou 700 bloqueios usando IA, nestes primeiros meses de 2026. No ano passado, ao todo, foram cerca de 3,5 mil a 4 mil bloqueios.

"Muitos deles poderiam ter resultado em alagamentos internos e externos, além de liberarem poluição", explica Martin.

Mesmo com este trabalho, a companhia ainda sofreu mais de 15,5 mil vazamentos em redes de esgoto bloqueadas ou sobrecarregadas em 2025. Mas este número representa uma redução de 47%, em relação ao ano anterior.

Fragmentos de um 'iceberg' de gordura encontrado nos esgotos de Londres em 2025

Crédito,Thames Water

Legenda da foto,Em 2025, um 'iceberg' de gordura, com peso estimado de mais de 100 toneladas, foi encontrado bloqueando os esgotos da zona leste de Londres

Os icebergs de gordura têm muitas formas e tamanhos.

Em 2021, um "monstro" de 300 toneladas foi escavado em Birmingham, na Inglaterra. Ele tinha apenas 90 cm de altura, mas se estendia por 1 km de pura imundície.

Já o encontrado em Londres, em 2017, tinha 1,80 metro de altura e 250 metros de comprimento. O cheiro? Carne podre, misturada com um banheiro malcheiroso.

Foi encontrado recentemente um enorme fatberg em Sydney, lançando "bolas de cocô" com odor pestilento. Elas acabaram nas praias do Estado australiano de Nova Gales do Sul.

Surpreendentemente, alguns desses icebergs de gordura se tornaram elas próprias uma atração.

Pedaços do fatberg encontrado em Londres em 2017 foram expostos em um museu da cidade, atraindo um número recorde de visitantes. E os cientistas também ficaram ansiosos para pôr suas mãos neles.

Pedaços de queijo

De um grande tubo de ensaio em uma prateleira atrás da sua mesa, Raffaella Villa retira um pedaço do iceberg de gordura londrino de 2017, que ela guarda de recordação.

Villa é chefe da Escola de Engenharia da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, e participou da análise do fatberg para o Museu de Londres.

Ela esmigalha aquela substância branca e seca entre seus dedos.

"É muito duro", descreve ela. "A textura é similar ao sabão; é bastante gorduroso."

Villa coloca o "souvenir" de lado e procura o higienizador. "Deixe-me limpar as mãos."

Pedaço do iceberg de gordura encontrado em 2017, em exibição no Museu de Londres

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Um pedaço do iceberg de gordura encontrado em 2017 está até hoje em exibição no Museu de Londres, revelando a durabilidade da gordura endurecida

Villa conta que os processos químicos específicos que são responsáveis pela formação dos icebergs de gordura precisam ser estudados com maior profundidade.

Ela suspeita que, além da gordura, graxa e óleo, também o leite possa ajudar a coagular essa mistura nada apetitosa.

"Enquanto eu esperava meu cappuccino em uma cafeteria, vi baristas despejando muito leite na pia", ela conta.

"Ao lado dela, fica uma lavadora de pratos que lança água quente com pH muito alto, formando as condições necessárias para a produção de queijo."

"Se isso acontecer no esgoto, pode gerar o fatberg", explica ela.

Villa destaca que o queijo é mole no início da produção e endurece com a maturação. E "os fatbergs são muito parecidos".

Já se sabe que as ruas que concentram pequenas lanchonetes de kebab são pontos de formação de blocos de gordura. Nelas, panelas de óleo quente costumam ser despejadas no esgoto de forma inadequada.

Villa se pergunta se as cafeterias podem acrescentar seus próprios ingredientes àquele caldo nocivo em infusão bem embaixo dos nossos pés.

Os mistérios dos icebergs de gordura poderão ser mais conhecidos se usarmos a IA para pesquisá-los.

Villa solicitou financiamento para um estudo que irá retirar amostras dos esgotos e usar aprendizado de máquina para mostrar às companhias onde estão os fatbergs mais "maduros" e que não podem ser movidos, para que sejam eliminados em primeiro lugar.

Grupos de robôs autônomos também poderão ajudar a manter os icebergs de gordura sob controle. Cidades dos EUA e do Reino Unido já enviam há tempos robôs simples, equipados com câmeras, para examinar suas redes de esgoto.

Eles capturam imagens que podem ser empregadas para identificar sinais de problemas, como fatbergs em estágio inicial. Eles costumam ser controlados manualmente por operadores remotos.

Pessoa com roupas de proteção, segurando uma corda, aponta para um pedaço de gordura solidificada retirado do esgoto

Crédito,Thames Water

Legenda da foto,Gordura, graxa e óleo, misturados com detritos lançados ao esgoto, podem endurecer e formar um material parecido com concreto

Nos últimos tempos, aumentaram as tentativas de equipar esses robôs com mais sensores e meios de lidar com os bloqueios, reduzindo a necessidade de que seres humanos desçam pelos bueiros com roupas de proteção.

Um dia, os robôs poderão funcionar de forma totalmente autônoma, formando um sistema de limpeza autossustentável em operação fora da nossa visão.

Os robôs do esgoto

Um projeto de US$ 9 milhões (cerca de R$ 44 milhões), financiado pela União Europeia, reuniu um consórcio de universidades para desenvolver exatamente esta tecnologia.

O protótipo de robô em desenvolvimento na Universidade de Tallinn, na Estônia, foi apelidado de "tardígrado", o invertebrado aquático microscópico de oito patas conhecido por ser a criatura mais resistente do planeta.

"Com suas capacidades sensoras, o robô pode encontrar sua localização dentro da rede de esgoto", explica a professora de controle e processamento de sinais Lyudmila Mihaylova, da Universidade de Sheffield, no Reino Unido, participante do projeto da UE.

"Ele pode inspecionar e deter os bloqueios", segundo ela. "O plano é incluir até um braço que poderá agarrá-los e retirá-los."

O robô é equipado com câmeras ópticas, sensores acústicos, tecnologia LiDAR (da sigla em inglês Light Detection and Ranging, ou seja, detecção e medição com luz) e unidades de medição inercial, para rastrear o dinâmico mundo dos esgotos.

"Estamos desenvolvendo algoritmos de aprendizado de máquina, que oferecem aos robôs as ferramentas necessárias para trabalhar nesses ambientes complexos", explica Mihaylova.

Robô com sensores em teste entra em um tubo que simula um cano de esgoto

Crédito,Projeto Pipeon

Legenda da foto,Robôs equipados com uma série de sensores podem detectar os primeiros sinais de bloqueios de gordura e, talvez, até limpá-los de forma autônoma

As quantidades cada vez maiores de dados gerados por sensores e robôs equipados com câmeras exigem cada vez mais a IA para podermos decifrá-los.

"Passei provavelmente grande parte da minha carreira assistindo a vídeos de dentro dos esgotos", conta o diretor de desenvolvimento estratégico da empresa americana SewerAI, Eric Sullivan.

"Na maior parte das filmagens, quase não acontece nada. Este é exatamente o problema que estamos enfrentando."

Tradicionalmente, seres humanos analisam estas filmagens. É um trabalho árduo e maçante. Mas a SewerAI automatizou o processo, que passou a ser mais rápido e eficiente.

"O que fazemos, provavelmente, está mais perto da radiologia que dos encanamentos... interpretamos essas imagens para encontrar sinais de problemas, de defeitos", explica Sullivan.

Os robôs do esgoto precisam ser resilientes, segundo Mihaylova. Eles devem ser à prova d'água, capazes de suportar a pressão dos esgotos e resistir aos produtos corrosivos que circulam naquele ambiente.

Existem também dificuldades de comunicação. As redes de Wi-Fi e Bluetooth não funcionam facilmente no subterrâneo.

Mas Mihaylova afirma que valerá a pena enfrentar estes problemas. Ela prevê que os robôs do esgoto, algum dia, "trarão economias significativas".

Outro bônus será a "proteção dos trabalhadores contra a exposição ao ambiente nocivo dos esgotos", segundo Mihaylova.

Felizmente, a era em que seres humanos são obrigados a entrar em túneis cobertos de sujeira, para cortar paredes de gordura coagulada e abrir caminho com jatos d'água, pode estar com os dias contados.

O que é a Armadilha de Tucídides, conceito que Xi Jinping usa para definir relação entre EUA e China

 

Trump e Xi

Crédito,Getty Images

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O presidente da China, Xi Jinping, citou diante do líder dos EUA, Donald Trump, um conceito histórico que expressa os temores de um conflito entre as duas maiores potências do planeta. Trata-se da Armadilha de Tucídides.

O líder chinês mencionou o conceito durante seu encontro com Trump em uma cúpula bilateral em Pequim marcada por disputas comerciais, competição tecnológica e crescentes tensões envolvendo Taiwan.

Xi levantou uma questão que preocupa especialistas em relações internacionais há anos: se os EUA e a China serão capazes de evitar o confronto militar que ocorreu repetidamente ao longo da história quando uma potência emergente desafia a dominante.

Embora o presidente chinês já tenha usado esse conceito antes, sua citação pública diante do americano ocorre em um momento especialmente delicado para as relações bilaterais.

Ambas as potências e seus aliados estão enfrentando crescentes atritos militares na região da Ásia-Pacífico e estão envolvidos em uma competição cada vez mais acirrada por influência global.

Trump e Xi

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Trump fez esta semana sua primeira visita a Pequim no seu segundo mandato

O conceito

A chamada "Armadilha de Tucídides" é um termo usado por acadêmicos e analistas para descrever o risco de conflito que surge quando uma potência emergente ameaça destronar uma potência estabelecida.

O primeiro a descrever esse fenômeno foi o pai da "historiografia científica" e da escola do realismo político, o ateniense Tucídides, em seu relato da Guerra do Peloponeso, há quase 2,5 mil anos (século 5 a.C.).

Segundo sua explicação, a ascensão da Atenas emergente e o temor que isso provocou em Esparta, que era a potência hegemônica da época, desencadearam de forma inevitável uma guerra.

Trump e Xi

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Trump fez esta semana sua primeira visita a Pequim no seu segundo mandato

O conceito

A chamada "Armadilha de Tucídides" é um termo usado por acadêmicos e analistas para descrever o risco de conflito que surge quando uma potência emergente ameaça destronar uma potência estabelecida.

O primeiro a descrever esse fenômeno foi o pai da "historiografia científica" e da escola do realismo político, o ateniense Tucídides, em seu relato da Guerra do Peloponeso, há quase 2,5 mil anos (século 5 a.C.).

Segundo sua explicação, a ascensão da Atenas emergente e o temor que isso provocou em Esparta, que era a potência hegemônica da época, desencadearam de forma inevitável uma guerra.

Tucídides (460-400 AC).

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Tucídides viveu entre 460-400 a.C.

Muitos observadores veem paralelos entre a China de hoje e Atenas, e entre os EUA atuais e Esparta. Os EUA seriam a potência estabelecida que tenta manter sua preponderância global.

Tucídides estudou a tensão inexorável causada pela rápida mudança no equilíbrio de poder entre duas potências rivais e, nesse sentido, nunca houve uma mudança tão rápida e fundamental quanto a ascensão da China.

Por mais de uma década, essa expressão vem ganhando força em universidades, centros de estudos estratégicos e círculos diplomáticos, especialmente à medida que a ascensão econômica, tecnológica e militar da China transforma o equilíbrio global de poder.

Em todo caso, a história não está escrita ainda: a teoria nem sempre se confirmou e é frequentemente apresentada mais como um alerta sobre os perigos da rivalidade entre grandes potências.

O padrão histórico

Ao longo da história, os papéis de Atenas e Esparta foram desempenhados por outras potências, como no caso da emergente Casa de Habsburgo, que desafiou a preeminência francesa na Europa na primeira metade do século 16 e, posteriormente, tornou-se a potência dominante, sendo desafiada pelo Império Otomano.

Nesses casos, a rivalidade entre o poderoso e o recém-chegado culminou em conflitos armados.

A dinâmica produzida por essa luta pelo poder pode explicar, segundo especialistas, situações aparentemente absurdas, como o assassinato do arquiduque que desencadeou a catastrófica Primeira Guerra Mundial.

Naquela ocasião, o Reino Unido — apoiado pela França e pela Rússia — era Atenas; e a Alemanha era Esparta.

E, assim como Atenas e Esparta há quase 2,5 mil anos, após a Segunda Guerra Mundial, todos estavam enfraquecidos.

Embora o conflito seja altamente provável em situações de alta tensão como essa, ele não é inevitável.

Ilustração da Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.), que opôs Atenas a Esparta

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Ilustração da Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.), que opôs Atenas a Esparta

Ter em mente a armadilha de Tucídides não é ser fatalista: o aspecto positivo da história é que ela serve para aprender.

Um projeto de história aplicada na Universidade de Harvard extraiu lições de 16 casos dos últimos 500 anos em que a ascensão de uma nação perturbou a posição do país dominante.

Doze desses casos terminaram em guerra, corroborando o prognóstico da Armadilha de Tucídides.

As exceções

As quatro exceções históricas destacadas pelo estudo de Harvard mostram que o destino não está predeterminado.

A primeira é a rivalidade entre Portugal e Espanha no final do século 15.

Durante a maior parte do século 15, Portugal ofuscou seu rival e vizinho tradicional, a Coroa Espanhola de Castela, liderando o mundo na exploração e no comércio internacional.

Na década de 1490, uma Espanha unificada e revigorada começou a desafiar o domínio de Portugal e a reivindicar a supremacia colonial no Novo Mundo, levando as duas potências ibéricas à beira da guerra.

Uma intervenção do Papa Alexandre 6º e o Tratado de Tordesilhas, em 1494, evitaram um conflito devastador.

Mapa dos territórios da Espanha e de Portugal

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Legenda da foto,Espanha e Portugal dividiram seus extensos domínios através do Tratado de Tordesilhas (1494)

A segunda exceção remonta às últimas décadas do século 19, quando o poder econômico americano ultrapassou o do império mais poderoso do mundo, o Reino Unido.

A crescente frota americana era um rival potencialmente preocupante para a Real Marinha do Império Britânico.

Enquanto os EUA começavam a afirmar a supremacia em seu próprio hemisfério, o Reino Unido lidava com ameaças mais próximas que colocavam em risco seu império colonial, por isso acomodou-se à ascensão de sua antiga colônia na América.

As concessões britânicas evitaram confrontos com os EUA, que garantiram o domínio no Hemisfério Ocidental.

Essa grande aproximação lançou as bases para as alianças entre EUA e Reino Unido em duas guerras mundiais e para a duradoura "relação especial" que ambas as nações continuam a considerar como garantida.

Em terceiro lugar, temos o exemplo da Guerra Fria entre os EUA e a União Soviética na segunda metade do século 20.

Após a Segunda Guerra Mundial, os EUA emergiram como a superpotência mundial indiscutível. Os americanos controlavam metade do PIB mundial, possuíam forças militares convencionais formidáveis ​​e detinham o monopólio da arma mais destrutiva já produzida pela humanidade: a bomba atômica.

A hegemonia americana, no entanto, foi logo desafiada por seu aliado na Segunda Guerra Mundial, a União Soviética.

Embora frequentemente tensa, a Guerra Fria foi um dos maiores êxitos da história no que diz respeito a evitar a armadilha de Tucídides.

Ao desenvolver outras formas de competição fora do conflito armado, as duas superpotências administraram pacificamente a luta por poder mais arriscada da história.

Ilustração de Kennedy e Khrushchev

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Os receios de uma guerra nuclear entre os EUA e a URSS no século 20 se dissiparam

Por fim, temos a rivalidade europeia entre o bloco formado pelo Reino Unido e França e a Alemanha, desde a década de 1990 até os dias atuais.

Com o fim da Guerra Fria e a queda do Muro de Berlim, muitos temiam que uma Alemanha reunificada voltasse às suas antigas ambições hegemônicas, ameaçando a França e o Reino Unido.

Embora estivessem certos ao prever que a Alemanha estava destinada a ser de novo um grande poder político e econômico na Europa, sua ascensão tem sido em grande parte benigna.

Os líderes alemães encontraram uma nova maneira de exercer poder e influência: liderando uma ordem econômica integrada em vez de aspirar à dominância militar.

Por ora, as declarações de Xi e Trump em Pequim e os gestos que estamos testemunhando durante sua cúpula bilateral diminuem a probabilidade de qualquer uma das potências cair na Armadilha de Tucídides.