A inteligência artificial deixou de ser um tema restrito a laboratórios de pesquisa e fóruns técnicos para se tornar uma das questões políticas mais prementes do século XXI. Se, por um lado, a IA promete transformar radicalmente a economia, a ecologia, a tecnologia e até a própria natureza dos conflitos bélicos, por outro, impõe aos políticos de todo o mundo desafios sem precedentes — desafios que exigem respostas rápidas, mas também profundamente reflexivas. Como alertam os livros Supremacy, de Parmy Olson, More Everything Forever, de Adam Becker, Machine Decision Is Not Final, organizado por Anna Greenspan e colaboradores, e Relationality, de Arturo Escobar, Michal Osterweil e Kriti Sharma, a questão central não é se a IA vai mudar o mundo, mas quem vai controlar essa mudança, para quem ela vai beneficiar e a que custo.
A Corrida pela Supremacia e o Dilema Regulatório
Em Supremacy, Parmy Olson narra a batalha entre as duas principais empresas de IA do mundo — OpenAI e DeepMind — e os CEOs que as lideram, Sam Altman e Demis Hassabis, figuras que, segundo a autora, "cultivaram uma religião em torno de sua missão de construir máquinas superinteligentes semelhantes a deuses". Olson alerta para a ameaça real que seus criadores estão ignorando: "a disseminação orientada pelo lucro de tecnologia falha e tendenciosa em indústrias, educação, mídia e muito mais". O livro expõe como essas empresas, ao servirem a dois "gigantes da tecnologia cujo poder é sem precedentes na história", podem seguir direções perigosas, transformando a maior invenção da história humana em um instrumento de exploração.
Esse diagnóstico encontra eco nos debates regulatórios ao redor do mundo. No Brasil, a Câmara dos Deputados examina o Projeto de Lei 2338/23, que regulamenta o uso da IA no país. Especialistas têm defendido um "modelo regulatório flexível e descentralizado", enquanto parlamentares buscam um equilíbrio entre "segurança regulatória e estímulo à inovação", temendo que "exigências excessivas possam desestimular o empreendedorismo". O desafio, como aponta um estudo acadêmico, está em "desenvolver frameworks regulatórios que sejam, ao mesmo tempo, eficazes e não impeçam o avanço da inovação". A dificuldade é global: enquanto a União Europeia avança com o AI Act, os Estados Unidos adotam uma abordagem mais laissez-faire, e a China desenvolve seu próprio modelo de governança. Os políticos, portanto, são confrontados com a tarefa quase impossível de regular uma tecnologia que evolui mais rápido do que a capacidade legislativa de acompanhá-la.
A Ideologia da Salvação Tecnológica e o Futuro da Humanidade
Adam Becker, em More Everything Forever, oferece uma crítica contundente ao que chama de "ideologia da salvação tecnológica" que domina o Vale do Silício. Segundo Becker, essa ideologia tem três características principais: é redutora, é lucrativa — alinhando-se perfeitamente com o imperativo de crescimento perpétuo da indústria tecnológica — e, acima de tudo, "oferece transcendência — a promessa de um fim imaginado que justifica ultrapassar quaisquer limites reais, incluindo a moralidade convencional". Projetos como a colonização de Marte, a imortalidade digital e a criação de uma inteligência artificial geral (AGI) são apresentados como salvacionistas, mas Becker os submete a um escrutínio cético, mostrando como são "implausíveis e frequentemente profundamente imorais".
Para os políticos, essa ideologia representa um desafio duplo. Por um lado, há a pressão para não ficar para trás na "corrida" tecnológica — uma corrida que, como observa a literatura geopolítica, é frequentemente enquadrada como uma competição existencial entre os Estados Unidos e a China. Em 2025, os Estados Unidos produziram cerca de quarenta grandes modelos de fundação, a China cerca de quinze, e a União Europeia apenas três. Por outro lado, há a necessidade de resistir ao canto de sereia do determinismo tecnológico e lembrar que "os algoritmos podem otimizar a eficiência, mas não podem decidir entre valores concorrentes — as próprias escolhas que estão no coração da política democrática".
Geopolítica, Guerra e a Nova Corrida Armamentista
Machine Decision Is Not Final oferece uma perspectiva fundamental para entender a dimensão geopolítica da IA. O volume traça a história da inteligência artificial na China e reexamina o engajamento do país com a IA "para além dos clichês que dominam o debate contemporâneo". Os autores observam que "as visões do futuro contestado da IA oscilam entre objetivos planetários comuns e uma nova Guerra Fria", à medida que "modelos culturalmente específicos de inteligência, tradições especulativas e experimentos mentais" colidem com "o surgimento de novas formas de cognição que não podem ser reduzidas a qualquer tradição cultural histórica".
Essa tensão se manifesta de maneira concreta na competição tecnológica entre Estados Unidos e China. Em 2025, Washington expandiu controles de exportação em busca da supremacia em IA, enquanto Pequim avançou em direção à autossuficiência e defendeu a cooperação global em tecnologias. O governo Trump lançou o "Plano de Ação para IA da América", deixando claro que "contra-atacaria a China e competiria pela liderança global em IA". No campo militar, sistemas autônomos baseados em IA estão sendo rapidamente desenvolvidos e implantados, com sistemas capazes de "conduzir síntese autônoma de dados, análises e priorização de ameaças, e execução de tarefas relevantes à missão". A introdução de tais sistemas em comando, controle, vigilância e plataformas cinéticas representa "uma transformação decisiva no ritmo e na topologia do engajamento operacional".
Para os políticos, isso significa navegar em um ambiente de crescente insegurança estratégica, onde a IA se torna tanto uma ferramenta de poder quanto uma fonte de vulnerabilidade. A questão não é apenas quem vai vencer a corrida, mas como evitar que essa competição desencadeie uma escalada descontrolada.
Economia, Desigualdade e o Futuro do Trabalho
O impacto econômico da IA é outro campo minado para os formuladores de políticas públicas. Um relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) alerta que a IA não gerenciada "pode aumentar a desigualdade entre os países, ampliando as diferenças no desempenho econômico, nas capacidades das pessoas e nos sistemas de governança". O economista Joseph Stiglitz adverte que as tecnologias de IA estão "remodelando as paisagens econômicas globais, potencialmente exacerbando as desigualdades existentes tanto dentro quanto entre as nações".
Na América Latina, pesquisas indicam que entre 30% e 40% do emprego está exposto de alguma forma à IA generativa, com "níveis mais altos de risco relacionado à IA entre mulheres, trabalhadores mais jovens, mais educados e formais". Globalmente, a Organização Internacional do Trabalho (OIL) estima que um em cada quatro trabalhadores no mundo está em uma ocupação com algum grau de exposição à IA generativa. Embora a maioria dos empregos seja transformada em vez de tornada redundante, o desafio político é imenso: como garantir uma transição justa, como proteger os trabalhadores mais vulneráveis e como evitar que a IA exacerbe as desigualdades existentes?
Ecologia: O Custos Ambiental Oculto da IA
Menos discutido, mas igualmente urgente, é o impacto ecológico da IA. Um relatório da Agência Internacional de Energia (AIE) de abril de 2025 prevê que a demanda global de eletricidade por data centers — que abrigam a infraestrutura computacional para treinar e implantar modelos de IA — "mais que dobrará até 2030, para cerca de 945 terawatts-hora". Em 2025, os data centers globais consumiram cerca de 448 TWh de eletricidade; se fossem considerados um país, seriam o 11º maior consumidor de eletricidade do mundo.
O consumo de água é igualmente alarmante. Estimativas indicam que os sistemas de IA consumiram até 765 bilhões de litros de água em 2025, "superando a demanda anual de toda a indústria global de água engarrafada". Especialistas alertam que "o impacto ambiental da IA ainda está amplamente oculto", pois não há um padrão global para medir o uso de água e energia em data centers, e as empresas divulgam apenas informações parciais.
Relationality, de Arturo Escobar, Michal Osterweil e Kriti Sharma, oferece uma lente crítica para entender essa crise. Os autores argumentam que "na raiz da crise contemporânea do clima, energia, alimentação, desigualdade e significado está uma certa pressuposição central que estrutura as formas como vivemos, pensamos, agimos e projetamos: a suposição do dualismo, ou a separabilidade fundamental das coisas". Para eles, a chave para construir mundos habitáveis está no cultivo de "formas de conhecer e agir baseadas em uma profunda consciência da interdependência fundamental de tudo o que existe". Esse paradigma relacional — que Escobar e seus coautores contrapõem ao paradigma dualista e extrativista que domina a tecnologia contemporânea — exige que os políticos pensem para além do crescimento econômico a qualquer custo e considerem as teias de vida em que a IA está inserida.
Democracia, Informação e a Integridade dos Processos Políticos
Por fim, a IA coloca em risco a própria integridade dos processos democráticos. A proliferação de deepfakes, desinformação gerada por IA e manipulação algorítmica ameaça minar a confiança pública nas instituições. Pesquisas mostram que "a IA tem sido usada indevidamente para corroer a confiança nos processos eleitorais" em várias partes do mundo, com exemplos que vão desde clipes de áudio falsos na Índia até deepfakes sexualizados visando mulheres políticas em Bangladesh e vídeos de campanha fabricados na Coreia do Sul.
Agentes autônomos de IA estão surgindo "em um momento de aguda vulnerabilidade para as ordens democráticas liberais", com o potencial de "escalar ataques cibernéticos que paralisam a infraestrutura democrática". Ao mesmo tempo, há quem argumente que os sistemas de IA "oferecem novas oportunidades para educar e aprender com os cidadãos, fortalecer o discurso público e ajudar as pessoas a encontrar um terreno comum". O desafio para os políticos é duplo: conter os usos nocivos da IA sem sufocar seus benefícios potenciais para a democracia.
Conclusão: A Política como Arte do Equilíbrio
Os livros aqui discutidos — Supremacy, More Everything Forever, Machine Decision Is Not Final e Relationality — oferecem, cada um a seu modo, um diagnóstico contundente dos desafios que a IA impõe à política contemporânea. Olson nos alerta para os perigos do poder concentrado nas mãos de poucas empresas tecnológicas. Becker nos convida a questionar a ideologia salvacionista que justifica projetos grandiosos e moralmente duvidosos. Os organizadores de Machine Decision Is Not Final nos lembram que a IA não é neutra — ela carrega as marcas das culturas e dos sistemas de poder que a produzem. E Escobar, Osterweil e Sharma nos desafiam a pensar para além do dualismo que separa o humano do não humano, o natural do artificial, o político do ecológico.
Para os políticos, o caminho não é simples. Eles precisam regular sem sufocar, competir sem escalar, inovar sem esquecer, e avançar sem perder de vista os valores que dão sentido à própria política: a justiça, a equidade, a democracia e a sustentabilidade da vida no planeta. Como bem resume a literatura acadêmica, "a regulação da IA passou a ser um desafio global, exigindo modelos normativos que conciliem inovação tecnológica, segurança e proteção de direitos". Esse equilíbrio, por mais difícil que seja, é a tarefa mais urgente da política na era da inteligência artificial.







