Habitante Terra da Sabedoria
SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.
terça-feira, 30 de junho de 2026
Nenhuma empresa consegue adotar a economia circular sozinha.
Nenhuma empresa consegue adotar a economia circular sozinha.
A mudança no setor têxtil acontece quando designers, compradores e fornecedores unem forças para repensar toda a cadeia de valor.
O programa InTex do PNUMA está ajudando a construir essas pontes e a #CombaterAPoluição: bit.ly/47m45q2 (disponível em inglês)
Em comum a genialidade prosaica ou poética exercida sem o formalismo da gramática.
Recentemente, um médico viralizou no Threads ao dizer que só escreve bem quem conhece a nomenclatura ensinada pelos gramáticos em análise sintática. Também afirmou que, se você, por exemplo, não sabe a diferença entre oração coordenada e subordinada, não sabe pontuar adequadamente; e, "se não sabe fazê-lo, não escreve bem", reduzindo o advérbio "bem" ao sentido de "corretamente". Nessa ocasião, muita gente se lembrou do tanto de autores brasileiros que se notabilizaram pela expressividade, engenhosidade e graciosidade sem se primar por raciocínio sintático, excelência gramatical ou rigor formal. Vejamos a seguir três casos que, embora distintos entre si, têm em comum a genialidade prosaica ou poética exercida sem o formalismo da gramática.
O oceano é o grande regulador do nosso clima — absorvendo calor, nos protegendo do pior.
Estamos assistindo ao calor em terra a semana toda. Mas o mar também tem absorvido isso.... E o oceano tem uma memória longa. 🌊
Esta visualização, construída a partir de Copernicus Marine Service dados, captura anomalias na temperatura da superfície do mar em 29 de junho de 2026.
Após a onda de calor marinha de maio, o calor brutal da terra do final de junho invadiu os mares ao redor, levando-os muito acima do padrão de longo prazo.
Os números são extraordinários:
🌡️ Anomalias atingindo aproximadamente +6°C no Mediterrâneo ocidental, especialmente no Golfo do Leão ao sul da França, e nos mares da Ligúria e do Tirreno ao longo da costa oeste da Itália
🌊 Aquecimento acentuado se espalhando para o sul do Mar do Norte e o Báltico, bem acima dos níveis do final de maio
🔁 Duas ondas de calor, maio e junho, acumulando-se nas mesmas águas, com pouco tempo para se recuperar nesse meio
Um mar mais quente bombeia mais umidade para o ar, tornando o calor mais úmido e mais perigoso para o corpo humano. Águas mais quentes alimentam tempestades mais intensas mais tarde na temporada. E para a vida marinha, calor extremo prolongado pode ser devastador. 🐟
O oceano é o grande regulador do nosso clima — absorvendo calor, nos protegendo do pior. Mas não é infinito, e essas anomalias são um sinal de quão difícil está funcionando agora.
O campo de golfe que era símbolo de opulência e virou refúgio da devastação provocada por terremotos na Venezuela

Crédito,Getty Images
- Author,Norberto Paredes
- Role,Da BBC News Mundo em Caracas
- e
- Author,Nicole Kolster
- Published
- Tempo de leitura: 6 min
O nível de destruição na região noroeste em La Guaira é difícil de compreender.
Embora os terremotos da última quarta-feira (24/6) tenham atingido todo o estado costeiro ao norte de Caracas, o cenário muda drasticamente quando se entra na cidade de Caraballeda.
À medida que se avança pela cidade, a devastação se torna mais intensa.
Os vários prédios que desabaram após os dois terremotos, de magnitude 7,2 e 7,5, ocorridos com apenas 39 segundos de diferença, formam fileiras de montanhas de concreto e metal retorcido.
Em algumas áreas dos bairros mais atingidos, como Caribe e Tanaguarena, há quarteirões inteiros onde a remoção dos escombros ainda não começou.

Crédito,Getty Images
Na década de 1990, Caraballeda era uma das áreas mais prósperas do Estado, uma zona turística vibrante, repleta de palmeiras, hotéis de luxo, restaurantes, condomínios com piscinas, um píer cheio de iates e até um campo de golfe.
Hoje, apresenta uma imagem desolada, mais parecida com uma zona de guerra do que com um destino de férias.
Aquele campo de golfe, vestígio da opulência que caracterizava a área antes da tragédia de 1999, tornou-se o epicentro da crise.

Crédito,Vantor
Em seus gramados verdes, antes meticulosamente cuidados, um hospital improvisado agora serve como centro de tratamento para pessoas resgatadas e gravemente feridas, ao lado de pilhas de roupas doadas e caixas de ajuda humanitária.
Em uma parte do campo de golfe, adjacente a uma pequena lagoa, uma faixa de terra foi transformada em uma área de pouso para helicópteros que chegam com suprimentos e pessoal de outros Estados e do exterior.
Outra parte foi designada como abrigo para centenas de famílias que perderam tudo.

Crédito,Vantor
Milagros González, moradora do conjunto habitacional Caribe, contou à BBC Mundo que morava em uma parte da área onde a maioria dos prédios desabou e que precisou fugir o mais rápido possível.
Seu prédio foi "um dos poucos que não desabou".
"Saí com minhas duas filhas pequenas e duas senhoras idosas. Sair foi fácil. Mas graças a Deus saímos vivas. O prédio está inabitável. Mas estamos vivas, que é o que importa, e somos gratas a Deus", disse ela.
"Do outro lado da rua tem um prédio chamado Hoyo Cinco. Tem gente presa lá dentro, e não conseguiram tirá-las porque, do jeito que o prédio desabou, dá medo de que o que sobrou também desabe."
González confessa que toda vez que vai dormir acorda tonta e acha que está tendo um terremoto.
"Uma psicóloga acabou de me dizer que tudo isso faz parte do processo", acrescenta, enquanto suas duas filhas pequenas brincam com bonecas em um colchão que colocaram na grama.

Crédito,BBC Mundo
Ao redor do Caraballeda Golf & Yacht Club, as ruas — rachadas e cobertas de escombros — são marcadas pela violência e pelo silêncio, quebrados apenas pelo ruído de máquinas pesadas e escavadeiras que recolhem os destroços.
O calor úmido nesta parte do Caribe, que chega a quase 30 graus Celsius diariamente, torna-se sufocante com o passar das horas, exaurindo aqueles que trabalham incansavelmente há dias.
Há também um odor persistente — que alguns moradores descrevem como "cheiro de sangue" — misturado com poeira, concreto e matéria orgânica, que impregna o ar e torna necessário o uso de máscaras.
As ruas também estão cheias de venezuelanos com olhares perdidos, expressões tensas e uma tristeza que pode ser notada antes mesmo que eles comecem a contar suas histórias.
O Ministro do Interior da Venezuela, Diosdado Cabello, confirmou que Caraballeda é uma das áreas mais afetadas pelos terremotos, que, até a tarde de segunda-feira (29/6), haviam deixado pelo menos 1.700 mortos e milhares de desabrigados.
A magnitude da tragédia vai muito além desses números. Milhares de pessoas permanecem presas sob os escombros em La Guaira e outras partes do país.
A ONU estima que haja cerca de 50 mil pessoas desaparecidas, uma situação particularmente evidente em Caraballeda.

Crédito,BBC Mundo
Nos últimos dias, equipes internacionais de resgate de México, Espanha, Catar, Estados Unidos e Reino Unido chegaram para reforçar os esforços de busca.
No entanto, no local, o número de estruturas desabadas que ainda não foram removidas reflete a insuficiência da ajuda internacional.
Um bombeiro que trabalha na área, que pediu para não ser identificado, observou que há dezenas de prédios onde nem uma única pedra foi removida. "Não há gente suficiente", disse ele. "E é muito, muito provável que ainda haja pessoas presas nos escombros."
Diante dessa situação desesperadora, a resposta da sociedade civil tem sido crucial. Moradores e voluntários, tanto de La Guaira quanto de outras partes do país, se mobilizaram para auxiliar os afetados.
Alguns distribuem alimentos e água; outros organizam suprimentos ou colaboram nos esforços de busca com os recursos disponíveis, às vezes até com as próprias mãos.
Em meio à emergência, essa rede de apoio improvisada tornou-se um suporte vital para aqueles que ainda aguardam notícias de seus familiares desaparecidos.

Crédito,BBC Mundo
Jesús Andueza, um motorista de ônibus de 64 anos de Caraballeda, estava tirando um cochilo quando o primeiro tremor aconteceu.
"Foi horrível. Graças a Deus, a casa não desabou, mas tremeu", diz ele, sentado na grama.
Embora sua família esteja segura, ele afirma que o impacto psicológico foi severo. "Para ser sincero, a gente fica nervoso. Qualquer barulhinho... é horrível."
Hoje, como muitos outros, ele vai dormir no campo de golfe de Caraballeda porque tem medo de voltar para casa.
"Meus pés doem, estão inchados, e eu vim buscar fraldas para minha filha. É melhor ficar aqui."
Governo Trump vai 'tensionar' eleições no Brasil por medo da China, diz especialista que mapeou direita na América Latina

Crédito,Samuel Corum/Sipa/Bloomberg via Getty Images
- Author,Marina Rossi
- Role,Da BBC News Brasil em São Paulo
- Published
- Tempo de leitura: 14 min
As mais recentes vitórias presidenciais na América Latina reforçaram o movimento que a região vem promovendo há alguns anos: a de ter seus países governados pela direita.
Após mais de três semanas de apuração das urnas, Keiko Fujimori se consagrou como vencedora das eleições no Peru. Com uma diferença de 49.641 votos a mais sobre o candidato da esquerda, Roberto Sánchez, esta foi mais uma eleição acirrada na América Latina, onde direita e esquerda disputaram, voto a voto, a preferência do eleitor.
Foi mais uma eleição em que a direita sai vencedora na região, a exemplo também da vitória de Abelardo de la Espriella no disputado segundo turno na Colômbia.
Ambos são de direita, embora tenham características antagônicas, como explica Regiane Bressan, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), especializada em América Latina.
Enquanto De la Espriella é tido como um outsider — um jovem empresário que nunca ocupou nenhum cargo eletivo antes — Keiko Fujimori vem de uma família tradicional na política de seu país e concorreu em outras três eleições presidenciais antes desta última, em que saiu vitoriosa.
Por outro lado, os dois presidentes foram eleitos sob forte discurso de combate ao narcotráfico e à violência nas ruas e contribuíram para deixar o mapa da região cada vez mais à direita.
Esse movimento vem acontecendo desde o início dos anos 2000, explica Bressan e já na última década tingiu o mapa da América Latina quase que todo de presidentes da direita (veja abaixo).
Ela atribui essa guinada à direita a diversos fatores, mas reforça que a descrença na política tradicional, a influência das redes sociais e a busca por soluções rápidas para problemas complexos estão muito presentes.
Mas o denominador comum desse movimento não é um discurso, é um país: os Estados Unidos.
Para Bressan, o país interfere — direta ou indiretamente — nas decisões da região. E as eleições do Brasil, neste ano, não serão diferentes.
"Eu acredito que os Estados Unidos continuarão tensionando a nossa região e acho que vão tensionar as eleições no Brasil", afirma ela.
Nesta entrevista, ela conta o que está por trás dessa "tensão" americana na região, por que um presidente de direita não é automaticamente um aliado de Trump, e como o discurso baseado na segurança pública está tão presente em todas as campanhas.
BBC News Brasil – Podemos começar fazendo um panorama dos principais líderes da América Latina e seus alinhamentos políticos?
Regiane Bressan – Bom, na Argentina, o Javier Milei é um presidente de direita, alinhado com Donald Trump.
Na Bolívia, o presidente Rodrigo Paz Pereira está alinhado à direita e encerrou um longo ciclo de hegemonia do movimento socialista, representado pelo Evo Morales.
No México, a Claudia Sheinbaum, que é de esquerda. E é importante falar do México, que é um país e uma líder que tentou ao longo desses últimos anos não apenas ser governado pela esquerda, mas ter autonomia e reforçar a sua soberania. Ao mesmo tempo, eles têm uma política muito próxima dos Estados Unidos, isso é histórico devido à fronteira, aos acordos internacionais, pelo próprio Nafta, que hoje, com o México, chama-se T-MEC.
No entanto, a Claudia Sheinbaum vem encontrando muita dificuldade para manter certa autonomia, já que as questões da migração, do narcotráfico e mesmo do comércio, com as maquiladoras — que são as empresas americanas que estão no México — causam uma interdependência muito forte.
Ela encontra, muito mais do que o Brasil, dificuldade para manter autonomia e soberania ao mesmo tempo. O México, por meio de governos de esquerda, buscou uma presença maior na América Latina, inclusive figurando entre os países interlocutores na questão venezuelana. No entanto, ele saiu bastante fragilizado porque não conseguiu um diálogo, na época, com Nicolás Maduro, após as eleições de julho de 2024.
Sobre o Chile, estive lá antes do segundo turno, que deu a vitória, no fim do ano passado, para José Antonio Kast. Naquele momento, a população sentia o grande problema da segurança pública, da violência nas ruas. Há muita pressão por causa dos Estados Unidos de um lado, e dos fluxos migratórios, sobretudo venezuelanos, do outro, porque eles têm muito mais resistência do que nós em relação aos venezuelanos. E isso ajudou na vitória do Kast, já que o Chile também é um país historicamente mais conservador, mais à direita.
O Kast não é um populista como o Milei ou como o Abelardo de la Espriella, que acabou de ganhar na Colômbia, mas é alinhado aos Estados Unidos e à direita.
Falando de Abelardo de la Espriella, na Colômbia, ele mimetiza [Nayib] Bukele e Milei. É um extremista populista, um outsider que não tem praticamente nenhuma experiência na política, mas foi eleito com um discurso atacando a dificuldade de governabilidade de Gustavo Petro, o fluxo migratório da Venezuela, com um alinhamento com os Estados Unidos e com o desafio de crescimento econômico.
BBC News Brasil – O Panamá, embora não figure entre os grandes países da região, tem uma situação interessante de ser dita, não?
Bressan – Sim, ali, o presidente José Raúl Mulino também é considerado de direita, mas é importante recordar que os Estados Unidos ameaçaram voltar a ter o domínio no Canal do Panamá. Ou seja, não é porque o governo é de direita que o Trump está facilmente alinhado e apoiando.
Eu acho que os Estados Unidos são sempre uma ameaça e os países têm que se curvar muito. E isso foi pressionado pelo documento expedido no dia 5 de dezembro de 2025, quando os Estados Unidos divulgaram o seu interesse em ter o domínio na região, em exercer influência.
Ou seja, ainda que Mulino seja de direita, ele não deixa de sofrer a pressão dos Estados Unidos sobre o Canal do Panamá.
BBC News Brasil - Ser de direita não garante automaticamente apoio dos Estados Unidos.
Bressan - Exatamente.
BBC News Brasil - Esses países alinhados à direita e aos Estados Unidos foram eleitos com um discurso de combate ao narcotráfico e à violência, talvez exceto Milei.
Bressan – É, mas ele foi eleito em 2023, era outro momento. E a Argentina vem enfrentando um problema enorme de crescimento econômico desde 2002.
O país está numa crise econômica e ele se ancorou muito nessa questão da ideologia, porque houve trocas ideológicas na Argentina e nenhum deles conseguiu resolver o problema econômico. Então ele se pautou muito na economia, mas eu acho que ele também traz em seu discurso essa questão da violência e da segurança, mas não tanto quanto os outros nesse momento, já que essa também está sendo uma bandeira muito grande do Trump.
Então, de maneira geral, e respondendo à sua pergunta, com certeza. E a questão da violência vai pautar também a eleição aqui no Brasil.
BBC News Brasil - Mas seguindo com o mapeamento, faltou o Peru...
Bressan – Isso, onde a Keiko Fujimori foi eleita. Ela é de direita, mas ela não é uma outsider como os demais, como o Abelardo, Milei e Bukele. Ela vem de uma família tradicional, é filha de Alberto Fujimori, que governou o país nos anos 90 de maneira autoritária, então, ela deve seguir uma linha de direita bem conservadora.
É a quarta tentativa dela de eleição. E ela também usou as pautas do narcotráfico e da segurança interna como uma bandeira da sua campanha eleitoral.
BBC News Brasil - E essa ancoragem nessa pauta da segurança, da violência, é um dos fatores que podem explicar o país ter voltado para um Fujimori?
Bressan - Sim, mas foram uma campanha e uma eleição muito acirradas. Mas podemos dizer sim, que essa temática também induziu, também favoreceu sua eleição. O Peru está, há muito tempo, muito envolvido com o narcotráfico. Junto com a Bolívia e a Colômbia, é um país que lidera o envolvimento com o narcotráfico.
A questão do narcotráfico é um grande problema, porque, ao mesmo tempo que países como o Brasil querem ter autonomia e soberania para lidar com esse problema, trata-se de um problema transnacional em que os países já não conseguem mais efetivar uma ofensiva sozinhos.
Aliás, um dos grandes problemas do narcotráfico é o consumo, e o principal mercado consumidor são os Estados Unidos. Se não houver um combate ao consumo de drogas lá, a gente não vai conseguir aqui. Porque a partir do momento em que eu continuo tendo consumo, eu estou incentivando toda a cadeia.
E já sabemos que os países não vão dar conta sozinhos.
Então é possível que tanto a Colômbia quanto o Peru e a Bolívia tenham um envolvimento maior dos Estados Unidos no combate ao narcotráfico, inclusive na Bolívia.
É importante falar também do Uruguai, cujo presidente é Yamandú Orsi, de esquerda.
É um dos países mais estáveis da América Latina. Diferentemente dos demais, ele está à esquerda, mas não existe um tensionamento ideológico tão grande quanto nos demais. Ali ocorre a manutenção das políticas.
Conversando com lideranças, analistas e pesquisadores no Uruguai, é isso que a gente vê: uma esquerda, mas que mantém as políticas públicas, e aí quando a direita ganha, também não há muitas mudanças. Então é um dos países mais estáveis da região, é claro, mantendo sempre o preceito democrático.
BBC News Brasil - Recentemente vazou uma fala do presidente Lula afirmando que "nunca foi um esquerdista". Essa fala ocorreu em conversa informal com a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, e o chanceler alemão, Friedrich Merz, durante o G7 na França. Como a senhora classificaria o país?
Bressan - Eu ainda o classifico como de esquerda, como um país progressista. Mas a própria esquerda critica muito, tem muitas críticas.
BBC News Brasil - Olhando para esse mapa, a gente pode perceber que a direita, os governos alinhados aos Estados Unidos são a maioria nos países da região. Isso tem a ver com o que os pesquisadores chamam de pêndulo na América Latina?
Bressan – Sim, de maneira geral, os governos estão alinhados à direita. Isso não seria um problema, afinal, não é um problema ser de direita ou de esquerda. O problema é que governos extremistas muitas vezes tensionam e flertam com o autoritarismo.
Muitas vezes, para conseguir realizar determinados feitos, como, por exemplo, Milei, que prometeu extinguir o Banco Central e dolarizar a economia, e, para isso, ele está fazendo uma grande afronta ao Congresso, porque isso não se resolve apenas com o presidente.
O cidadão latino-americano acredita numa democracia que nós chamamos de democracia delegativa. Guillermo O'Donnell [politólogo argentino] dizia que o eleitor latino-americano acredita que a democracia acontece apenas a cada quatro anos, no sufrágio.
Ou seja, eleito presidente, ele teria superpoderes para governar da forma como pretender.
E assim, a população latino-americana muitas vezes não se espanta quando um governo vai migrando para o autoritarismo, porque muitas vezes esse movimento é feito de maneira paulatina. Não é de uma hora para outra que se torna autoritário.
Vejamos o exemplo da Venezuela, que é o mais recente na região: as instituições democráticas foram sendo extintas, reformas foram sendo feitas, e quando a população se dá conta, já é um governo autoritário.
A grande preocupação com governos extremistas e populistas é que muitas vezes eles têm o apoio da população para determinadas reformas.
O próprio Hugo Chávez fez inúmeros plebiscitos. Ele, que era uma figura que governava muito em torno de si mesmo, era bastante populista.
O nosso medo de governos como o de Bukele, como o de Milei, como agora, de Abelardo de la Espriella, que é um outsider que não vem da política tradicional, é que eles possam, de alguma forma, migrar para o autoritarismo.
BBC News Brasil – E por que esses governos foram eleitos agora?
Bressan - Existe também uma descrença na política tradicional e na própria democracia. Por que a população elegeu candidatos como eles, que não têm repertório?
Estive na Argentina em 2023, pouco antes das primárias, e consegui, naquele momento, visitar o Congresso argentino junto a um deputado. Eu estava fazendo pesquisa sobre o apoio ao acordo Mercosul-União Europeia.
No Congresso, eu perguntei a esse deputado sobre o Milei, [na época deputado também], e ele respondeu: "eu sei como é que ele atua aqui, ele fala muito menos do que eu — e eu não sou um candidato muito expressivo — então dificilmente ele vai ganhar".
Aliás, dos dez entrevistados que a gente teve naquela semana, todos falavam "Milei não tem chance". Eu cheguei a ouvir "a gente não é Brasil, como vocês, que elegeram Bolsonaro".
Só que eles eram pessoas mais experientes, com mais idade, que ainda acreditavam na política tradicional. Os mais jovens, além de não acreditarem na política tradicional, se alimentam de informações pelas redes sociais, e gostam de candidatos que apresentam uma solução rápida, uma solução imediata [para os problemas].
Por isso que a Colômbia acabou de eleger Abelardo de la Espriella, que é jovem e empresário. E ele quer dar uma solução rápida a um problema histórico da Colômbia, que é o narcotráfico, um problema que vem desde os anos 70.
Tudo isso para a gente entender que a região está sendo governada hoje por governos majoritariamente de direita, que estão pegando muito pesado com a questão da segurança pública. Isso porque a violência está grande, mas ela também é fruto de um problema estrutural da região, que é a pobreza e a desigualdade. E os governos de esquerda não deram conta de resolver essa problemática totalmente.
Tivemos a onda da esquerda no começo do século 21 e esses governos, claro, se saturaram. E aí uma outra coisa importante sobre a influência externa: esse período [da onda da esquerda, início dos anos 2000] foi o momento em que os Estados Unidos se voltaram para o 11 de setembro e eles deram um espaço, um respiro, se retiraram muito da nossa região.
E não existe vácuo nas relações internacionais. Outras lideranças ocuparam. Tanto líderes emergentes, não populistas, vieram à baila, ou seja, conseguiram governar, como também tivemos uma influência cada vez maior da China, que não publiciza, mas está muito presente na nossa região. E os Estados Unidos estão esperneando desde o começo do governo Trump, porque eles sabem que estão perdendo a hegemonia mundial para a China.
A China não publiciza, eles têm outra forma de trabalhar, mas eles estão muito presentes.

Crédito,Arquivo pessoal
BBC News Brasil – E olhando para essa situação, dos Estados Unidos perdendo hegemonia, a senhora acha que Trump pode, de alguma maneira, interferir ou atuar na eleição brasileira deste ano?
Bressan - Com certeza. Eu não tenho provas concretas sobre isso, mas eu te falo por circular pelas eleições dos outros países, estar em contato com pesquisadores do Uruguai, da Venezuela, agora estive no México, e não tem como não acreditar que não haja interferência.
E não precisa existir uma interferência direta. Existe uma influência, uma pressão e isso é muito divulgado, como quando o Flávio Bolsonaro foi lá nos Estados Unidos jogar com as tarifas. Sabemos que o nosso Pix é uma ameaça em relação às bandeiras dos cartões, então existe aí toda essa dinâmica.
Mas, que os Estados Unidos vão pressionar por um candidato alinhado a eles, não tenho dúvida. Eles querem voltar a ter influência sobre nós, porque sabem que perderam, de um lado para a China, e do outro, para a União Europeia, que deve estar cada vez mais presente aqui. A União Europeia não é uma ameaça para os Estados Unidos, mas está nesse tabuleiro de forças de influência na região.
BBC News Brasil – Especialmente agora com o acordo Mercosul-União Europeia entrando em vigor...
Bressan – Com certeza.
Em agosto do ano passado [quando o primeiro tarifaço de Trump tinha acabado de entrar em vigor], estive em Brasília fazendo entrevistas sobre o tema das tarifas.
Conversamos com alguns deputados e foi interessante que nenhum deles, naquele momento, queria falar dos Estados Unidos. Mas todos diziam "olha, temos que procurar alternativas, temos que ir ao México".
Aí fomos na CNI [Confederação Nacional da Indústria], no Itamaraty, e a ideia era a mesma: "Vamos buscar alternativas, vamos buscar uma solução, não vamos ficar reféns dos Estados Unidos ou duelando com os Estados Unidos."
BBC News Brasil - Diante dessa situação, numa eventual vitória novamente do Lula esse ano, ele corre o risco de ficar isolado no continente, em relação aos Estados Unidos?
Bressan – Bom, vamos lembrar como foi a estratégia do Brasil no G20. A gente queria negociar o acordo do Mercosul com a Europa. O que o Brasil fez? Usou uma grande estratégia. Chamou o Milei para o G20, o Milei foi, falou tudo o que ele queria falar, a política externa brasileira acolheu o Milei e depois falou: "Milei, então você assina o documento?"
E ele assinou.
A política externa é pragmática, e a gente não vai se isolar, porque a nossa política externa é pragmática.
Eu dei o exemplo do Milei, mas é isso que a gente vai fazer com a Colômbia, com a Venezuela. Ou seja, não concordamos com a eleição, mas não vi ninguém do Itamaraty condenar, se isolar, porque fazemos fronteira, porque somos um país grande, porque a qualquer momento os Estados Unidos podem intervir ou se envolver num conflito, e o Brasil quer estar aqui presente na região.
Aliás, o que a gente tem discutido nos congressos de integração é voltar a ter o que a União Europeia teve lá nos anos 50, que foi uma integração funcional. Ou seja, Alemanha e França, que estiveram em conflito na Segunda Guerra, não queriam mais brigar. O que eles fizeram? Compartilharam a administração de aço e carvão, essenciais para uma guerra.
As políticas de infraestrutura, de estrada, de rodovia na América do Sul devem continuar, a despeito das ideologias. E aí a gente consegue uma integração mais funcional, ou seja, baseada em funções, em pragmatismo e interesses efetivos dos nossos Estados.
Eu acredito que os Estados Unidos continuarão tensionando a nossa região e acho que vão tensionar as eleições no Brasil. Vão continuar tensionando a situação do México. E, é claro, a gente tem que estar muito atento a esses governos extremistas, porque são governos extremistas que rompem com a democracia.
BBC News Brasil – Quando a senhora fala em tensionar as eleições brasileiras, o que isso significa, na prática? Essa tensão vem de que forma?
Bressan – Em forma de tarifas, de considerar como terroristas as facções criminosas, as Big Techs, que o Brasil quer regulamentar, e as críticas ao Pix.
Acho que esses quatro temas já são um grande exemplo do que a gente deve enfrentar nos próximos meses em relação ao tensionamento dos Estados Unidos.
BBC News Brasil – E tem alguma conversa que o Lula poderá ter para remediar essa postura do Trump?
Bressan - Aí vamos entrar em outra arena que é a sanidade do Trump. Ele é muito instável, não é pragmático. Acho que a dificuldade que o Lula encontra é essa, ele encontra o Trump num dia, o Trump gosta. Aí no outro, já não gosta mais. É uma instabilidade que dificulta demais.
[Robert] Keohane, um teórico dos anos 80, que fala sobre a importância, depois da Guerra Fria, de criarmos e ampliarmos as organizações, diz que é importante que eu saiba como o outro vai atuar. Eu tenho regras, porque eu sei mais ou menos como o outro país vai atuar e aí eu consigo ter um planejamento econômico, consigo investir em indústria para exportar, porque sei que o outro país vai comprar de mim, sei que eu posso fazer uma cadeia produtiva.
A previsibilidade de comportamento é muito importante para as relações internacionais. E nós estamos num momento de fracasso, de encolhimento, de retração dessas organizações.
A imprevisibilidade, que não me deixa saber como os países vão atuar, dá medo, gera insegurança à população e faz com que haja também uma descrença.
É um ciclo: uma descrença na política, nos partidos tradicionais, que gera o apoio a candidatos de respostas rápidas, e que flertam com um certo autoritarismo, porque existe instabilidade e instabilidade gera insegurança que gera medo.
E aí as pessoas tendem a sair dos partidos mais tradicionais, sair daqueles políticos que já até governaram antes, para candidatos outsiders.