SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

A ATUAL HERDEIRA por Egidio Guerra



Uma releitura contemporânea de Dona Bárbara e Martin Eden 

PRIMEIRA PARTE: O RAPAZ QUE QUERIA MORRER DE PÉ 

Capítulo 1 — A fome que não se sacia com pão 

Martin Eden não morreu no mar. Isso foi invenção dos que precisam de finais limpos. 

O verdadeiro Martin Eden — o nosso, o de 2026 — chama-se Pedro, tem vinte e três anos e vive na periferia de Lisboa, num bairro onde as casas são de tijolo à vista e os sonhos são de coisas vistas no ecrã. É pescador, como o pai, mas à noite, quando o Tejo cheira a gasóleo e solidão, ele lê. Lê tudo o que lhe cai nas mãos: livros deixados em caixotes na feira, artigos da National Geographic que alguém deitou fora, poesia brasileira em edições velhas. 

A fome que sente não é de pão. É de palavras. É de pertencer a um mundo que o ignora. 

 

Capítulo 2 — A mulher que compra o vento 

Bárbara não é uma fazendeira dos llanos. É uma portuguesa que fez fortuna na tecnologia, uma self-made woman que começou a vender bijuteria na feira e agora tem uma holding que investe em startups de impacto social — ironia que ela própria reconhece, nos dias de pouca luz. 

O seu poder não vem da terra, mas dos dados. Não domina pela violência, mas pela influência. Tem um podcast sobre empreendedorismo, um consultor de imagem, um ex-marido que a processa por difamação, e uma equipa de advogados que transforma qualquer problema em pó. 

Mas Bárbara, como a Dona Bárbara original, carrega uma ferida. 

Ninguém sabe. Ela própria tenta esquecer. Aos catorze anos, foi abusada por um tio enquanto a mãe fazia limpezas no escritório dele. O dinheiro, para ela, nunca foi luxo. Foi o muro que construiu à volta do seu corpo. Foi a promessa de que ninguém mais a tocaria sem a sua permissão. 

— Aprendi — diz ela, no episódio trinta do podcast — que a única nobreza que importa é a que podemos comprar. A outra, a de sangue, é para quem tem estômago para esperar. 


SEGUNDA PARTE: O ENCONTRO 

Capítulo 3 — A praia dos afogados 

Conhecem-se na Ericeira, numa vila de pescadores ameaçada por um projeto imobiliário. 

Pedro está lá porque a associação local o convidou — ele, o rapaz que lê, que escreve textos sobre o mar que ninguém publica, que sonha ser escritor. Bárbara está lá porque o projeto pertence a um fundo de investimento que ela avalia. 

Ela chega num carro preto. Ele chega a pé, com os sapatos a deixar areia pelo chão da junta de freguesia. 

— O senhor é o pescador que escreve? — pergunta ela, quando os apresentam. 

— Sou o que pesca e escreve — responde ele. — Mas não sou senhor. 

Bárbara sorri. Não é um sorriso comercial. É qualquer coisa mais antiga. 

Capítulo 4 — A educação de Pedro 

Começa como começou com Martin Eden e Ruth: ele quer aprender. Quer saber que livros ela leu, que cidades conhece, que palavras se usam quando se fala de arte sem parecer ridículo. 

Ela empresta-lhe livros. Ele devolve-os com sublinhados, com perguntas nas margens, com uma fome que a comove e a assusta. 

— Porque é que queres tanto aprender? — pergunta ela, numa noite, no terraço dela em Lisboa, a cidade a brilhar lá em baixo. 

— Porque quero ser digno de ti — responde ele. 

E é verdade. E é trágico. Porque ela sabe, como Ruth sabia, que essa dignidade não se aprende nos livros. 

TERCEIRA PARTE: O DINHEIRO E A NOBREZA 

Capítulo 5 — O que Bárbara ensina a Pedro 

Bárbara ensina-lhe o que sabe: que o mundo não se move a ideais, move-se a contactos. Ensina-lhe a apertar uma mão sem medo, a escolher um fato barato mas bem contado, a falar devagar para parecer profundo. 

Ensina-lhe, sobretudo, que a nobreza é uma invenção. 

— Os condes e duquesas com quem janto — diz ela — compraram os títulos ou casaram com eles. A minha nobreza, a tua, temos de a construir. Tijolo a tijolo. Euro a euro. 

Pedro. Escreve. Transforma tudo em literatura. 

Mas há algo que Bárbara não lhe ensina: como continuar a amá-la quando descobrir que ela é, também, a mulher que financia o projeto imobiliário que ameaça a sua vila. 

Capítulo 6 — O que Pedro ensina a Bárbara 

Pedro ensina-lhe o que ela tinha esquecido: o cheiro da terra depois da chuva, o nome das aves, a dignidade de um homem que pesca para comer e não para vender. 

Uma noite, lê-lhe um poema que escreveu sobre o mar: 

O mar não tem memória, 
mas tem paciência. 
Espera que os barcos voltem, 
que os afogados subam, 
que os vivos aprendam a morrer. 

Bárbara chora. Não chora há vinte anos. 

— Não chores — diz ele. — O mar não merece. 

— Não choro por mim — mente ela. — Choro pelo poema. 

QUARTA PARTE: O FOGO 

Capítulo 7 — A verdade 

A verdade chega como chegam as piores verdades: por um e-mail anónimo. 

Pedro descobre que o fundo que quer construir o resort na Ericeira — o resort que vai expulsar os pescadores, destruir as rochas, apagar a vila — é avaliado por Bárbara. Que ela ganha comissão. Que ela sabe, desde o primeiro dia, quem ele é e o que está em jogo. 

— Usaste-me — diz ele, quando a confronta. — Como usas tudo. 

— Não usei — responde ela. — Amei-te. Ainda te amo. Mas o que sou não desaparece porque te amo. 

— E o que sou eu? — pergunta ele. — Um projeto de resgate? Uma peça de arte popular que colecionaste? 

Bárbara não responde. Não sabe. Ou sabe, e não tem coragem de dizer. 

Capítulo 8 — O naufrágio 

Pedro afunda-se. Como Martin Eden, como Santos Luzardo quando percebe que a barbárie também está dentro de si. 

Escreve furiosamente. Publica um romance sobre uma mulher que vende a alma para comprar o mundo. O livro é um sucesso. Chamam-lhe génio. Convidam-no para festas, para mesas redondas, para programas de televisão. 

Mas ele já não quer nada disso. 

— O que procuras? — perguntam-lhe os jornalistas. 

— Procurava uma mulher — responde. — Agora procuro o sítio onde a perdi. 

Bárbara lê as entrevistas. Lê o romance. Reconhece-se em cada página, em cada gesto descrito, em cada ferida exposta. 

— Tu amaste-me — diz-lhe, num telefonema, tarde da noite. — O livro prova. 

— O livro prova que te conheci — responde ele. — Amar é outra coisa. 

QUINTA PARTE: O QUE RESTA 

Capítulo 9 — A escolha de Bárbara 

Bárbara tem uma escolha a fazer. 

Pode continuar com o projeto, ganhar milhões, manter o muro à volta do corpo. Ou pode retirar-se, perder dinheiro, enfrentar os accionistas, e talvez — talvez — ganhar qualquer coisa que não tem nome. 

Numa cena que evoca o final de Dona Bárbara, ela vai à Ericeira. Sozinha. Sem carro preto, sem assessores. Vê o mar. Vê as casas dos pescadores. Vê um rapaz, parecido com Pedro, a ler um livro à porta de uma tasca. 

Lembra-se do tio. Lembra-se da promessa que fez a si própria: nunca mais ser vulnerável. 

E, pela primeira vez, pergunta-se: e se a vulnerabilidade for o único luxo que realmente importa? 

Capítulo 10 — O regresso 

Não há reencontro romântico. Não há final feliz. Há só o que resta depois do fogo. 

Pedro vive agora numa ilha grega, pequena, onde ninguém o conhece. Escreve poemas que ninguém lê. Pescam. Às vezes pensa nela. 

Bárbara desistiu do projeto. Perdeu dinheiro, perdeu accionistas, ganhou inimigos. Mas, numa entrevista recente, disse: 

— Aprendi que a nobreza não se compra. Aprendi que o dinheiro é um péssimo escudo. Aprendi, tarde, que o amor não precisa de ser digno. Precisa só de ser. 

Pedro lê a entrevista. Dobra o jornal. Olha o mar. 

O mar, como sempre, não tem memória. 

Mas tem paciência. E a história na vida real termina assim ?




NOTAS FINAIS: A POÉTICA DO REAL 

Esta releitura bebe de várias fontes contemporâneas para atingir o equilíbrio entre poesia e realismo: 

  • A ambiguidade moral de Normal People (Sally Rooney): Bárbara não é vilã; Pedro não é santo. Ambos são produtos das suas feridas, e o amor não as cura — apenas as ilumina. 

  • A fragmentação de Love Novel (Ivana Sajko): As pressões económicas (o dinheiro, a classe, o trabalho) não são pano de fundo, são a própria matéria do conflito amoroso. 

  • A densidade poética de Heart the Lover (Lily King): A natureza (o mar, a terra, os barcos) não é cenário, é personagem. Fala, testemunha, acolhe. 

  • A crueza de Love & Virtue (Diana Reid): A exploração da moralidade sexual e de classe, do que significa ser "boa pessoa" num mundo que recompensa a falta de escrúpulos. 

No final, A Herdeira pergunta: o que resta de nós quando perdemos tudo o que julgávamos ser? Para Martin Eden, restava o mar. Para Dona Bárbara, restava o llano. Para Pedro e Bárbara, resta a memória do que poderiam ter sido — e a estranha paz de saberem que, pelo menos, amaram um ao outro. 

Mesmo que isso não baste.