SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

O fenômeno Carla Madeira, que domina as redes e divide leitores com seus livros: 'Literatura não é manual'

 

Carla Madeira sorrindo

Crédito,Divulgação/Agência Riff

Legenda da foto,Carla Madeira se tornou fenômeno da literatura brasileira com os livros Tudo é RioA Natureza da Mordida e Véspera
  • Tempo de leitura: 9 min

As primeiras páginas que deram origem a Tudo é Rio, o romance mais popular de Carla Madeira, foram escritas 14 anos antes de sua publicação.

Depois de criar uma cena especialmente violenta, o processo da autora entrou em hiato. Mais de uma década depois, no entanto, o livro foi concluído em apenas oito meses — "jorrando, em processo de transbordamento", como ela descreve em entrevista à BBC News Brasil.

"Eu escrevia direto. Meus filhos eram pequenos, eu chegava em casa depois de uma jornada de trabalho pesada [Madeira era publicitária], botava os meninos para dormir e escrevia. Era só o que eu fazia nos finais de semana também. Em oito meses, eu escrevi o livro, na ordem que o leitor lê. Então é um jorro mesmo, é um transbordamento", diz.

"Acabei o livro, acabei um casamento, então também foi muito catártico para mim. Eu sei que organizei muitas coisas, muita coisa inconsciente veio. Foi um livro sem contenção nenhuma."

A mineira de Belo Horizonte afirma que não imaginava o alcance que a história teria — a primeira tiragem teve apenas 700 exemplares.

"Eu achava que eu ia ter que panfletar no sacolão, ia ter que sair dando meu livro na porta da academia", brinca.

Hoje, com três romances publicados e um quarto "saindo do forno", a autora já ultrapassou a marca de 1 milhão de livros vendidos no Brasil e aguarda o lançamento da adaptação de Véspera pela HBO, previsto para o segundo semestre de 2026.

Com personagens ambíguos e tramas que alimentam discussões polarizadas nas redes, o sucesso de Madeira também acompanha um movimento mais amplo: o interesse por autores brasileiros contemporâneos tem ganhado fôlego nos últimos anos, impulsionado por fenômenos digitais como o BookTok e pelo aumento da circulação de obras nacionais entre novos leitores.

Amor e ódio

No BookTok, o "lado literário" do TikTok, a obra de Carla Madeira virou terreno de reações intensas.

"Não dá para se encantar demais com o amor nem se magoar demais com a raiva", diz.

Ela conta que evita acompanhar de perto as reações nas redes, sobretudo quando deixam de dialogar com a obra: "Tem pessoas que são agressivas, que não ficam na literatura, que querem agredir o autor."

Há quem ame, quem rejeite — e quem tente enquadrar os personagens a partir de uma régua moral.

É verdade que os personagens criados por ela — e as circunstâncias em que são colocados — quase inevitavelmente despertam julgamentos no leitor. É difícil não reagir: achar absurdo que alguém tome determinada decisão, perdoe certos atos ou trate um filho daquela maneira.

Mas Madeira diz que a ideia não é concordar ou discordar com as ações dos personagens, 'escolher um lado.'

Ela defende que o papel da arte está em provocar deslocamentos — e não oferecer respostas fechadas. "Eu não quero simplificar, quero acolher. A grande experiência artística é acolher a subjetividade, acolher as possibilidades da existência humana, e não as certezas, não as verdades."

Para Madeira, há uma tendência de confundir a experiência literária com julgamento moral: "Não é um manual. É uma imersão numa experiência particular."

Nesse sentido, o incômodo também faz parte da leitura. "Acho que o barato é esse: a gente consegue se pôr em um lugar que, na vida, não consegue. A literatura não pode se colocar num lugar utilitário. Você não pode escrever um livro como se fosse um manual."

Carla Madeira

Crédito,Divulgação/Agência Riff

Legenda da foto,Quarto romance da autora mineira está previsto para agosto

Processo criativo: intuição, excesso e um "caderninho"

Se a recepção dos livros passa pela subjetividade de quem lê, a escrita, no caso de Carla Madeira, também nasce longe de fórmulas.

"Eu não tenho uma pauta. Nunca sentei para escrever pensando em tese, em provar alguma coisa. É uma imersão numa experiência particular."

A autora conta que o primeiro romance foi construído de forma quase intuitiva — e que só depois, com a experiência, passou a reconhecer melhor seus próprios caminhos de criação. Ainda assim, resiste a organizar demais o processo.

Essa recusa ao maniqueísmo aparece diretamente nos personagens.

"Eu não queria nenhum personagem que fosse só legal, só bonzinho", explica, citando o 'elenco' de Tudo é Rio.

"Você vai para a Lucy, fica com raiva dela, mas tem um momento em que ela se humaniza. Vai para o Venâncio, você sente ódio, quer se vingar, mas de repente entende um lado dele também. E a Dalva, que é vítima, também quer promover o castigo, a punição dela."

Segundo Madeira, é esse movimento que prende o leitor — mesmo quando há rejeição. "Tem leitor que não gosta do final, mas fala: 'não consegui parar de ler'. Eles são pegos por uma espécie de correnteza."

Ela reconhece que, com o tempo, passou a ter mais consciência técnica do próprio trabalho, mas sem abrir mão do impulso inicial.

"Às vezes vem uma imagem, uma frase, alguma coisa que eu ainda não sei o que é, e eu guardo. Eu anoto muito. Tenho um caderninho. Quando estou no processo, brinco com quem convive comigo que é necessário ter cuidado, porque qualquer coisa falada pode ir parar nas minhas páginas."

Capas de obras de Carla Madeira

Crédito,Divulgação/Agência Riff

Legenda da foto,Tudo é Rio teve edição em Portugal, foi traduzido para o italiano, chegou à França como L'Amour Fleuve e deve ser publicado em inglês nos Estados Unidos em 2026

Véspera e a adaptação para a TV

Véspera, publicado em 2021, chegou com um teaser quase irresistível: Vedina, uma mulher adulta, decide, em um momento de descontrole, abandonar o filho, largá-lo em uma via pública.

Pessoalmente, foi o primeiro livro que me fez chorar em muitos anos — e um dos motivos pelos quais concordo com Carla Madeira quando ela diz que o papel da literatura é nos fazer sentir para além das possibilidades da nossa própria vida.

Nos colocar em contato com histórias, dilemas e emoções que talvez nunca experimentaríamos pelas circunstâncias da nossa existência e, assim, ampliar nosso repertório humano.

Agora, a trama fura a bolha literária e chega para o público que prefere esperar a história ganhar a versão visual — será lançada na HBO Max no segundo semestre de 2026, com um elenco de peso que inclui Bruna Marquezine, Gabriel Leone, Camila Márdila e Yara de Novaes.

Madeira acompanhou de perto o processo de adaptação — inicialmente como consultora, depois também participando do desenvolvimento do roteiro. A escolha da diretora, Joana Jabace, foi decisiva para que ela aceitasse mergulhar no projeto.

"Ela é mãe de gêmeos, o livro tem uma violência muito grande contra a mulher, e eu senti que ela teria maturidade, delicadeza e sensibilidade para conduzir aquilo", diz.

A autora conta que uma de suas maiores preocupações durante a adaptação era preservar justamente a ambiguidade moral dos personagens, sem transformar a trama em uma divisão simplista entre "bons" e "maus".

Ela conta que se emocionou ao acompanhar leituras de mesa e gravações. "Me impressionei muito com os atores. Com a pausa para dar um texto, com a sensibilidade de um fotógrafo, de uma atriz, de uma direção. Teve momentos em que eu chorei vendo cenas que eu mesma tinha escrito."

Ao ver a história traduzida para outra linguagem, diz ter se confrontado novamente com a brutalidade da própria obra.

"Quando estou escrevendo, a violência é mediada pela linguagem. Eu sou uma pessoa muito da textura da linguagem. Mas, vendo aquilo no vídeo, teve hora que pensei: 'Meu Deus, isso é muito violento. Como eu dei conta de escrever isso?'"

Ainda assim, para ela, é justamente a arte que permite encarar o horror humano sem desviar os olhos.

"É a linguagem que nos ajuda a olhar para esse lugar terrível. Sem a linguagem, a gente não daria conta de olhar para esse horror que a gente é capaz — e também para aquilo de extraordinário que a gente é capaz."

'Quando', o quarto romance de Carla Madeira

Depois de três romances e mais de 1 milhão de exemplares vendidos, o próximo romance de Madeira, intitulado Quando, uma trama ambientada na década de 1980, já está em fase avançada. A obra será publicada pela Editora Record e tem previsão para agosto de 2026.

A expectativa é que a trama mantenha as marcas que fizeram sua obra ganhar leitores: personagens ambíguos e dilemas humanos.

Recusando dar spoilers, Madeira compartilhou com a reportagem apenas que a história se trata de uma mãe que decide denunciar o próprio filho, menor de idade, por um crime.

"Esse quarto livro já está sendo escrito em um contexto diferente. Acho que amadureci como escritora nesses dez anos. Criei novos recursos, compreendo melhor a literatura, os recursos e as estratégias de escrita, e amadureci também nas minhas escolhas, no que eu quero.

"Mas, para mim, o mais importante continua sendo preservar esse lugar e essa alegria de escrever — essa sensação de estar entregue, de estar fazendo uma coisa com a qual eu tenho adesão, com coragem de fazer, sem racionalizar demais, sem querer julgar muito. São tantas opiniões, tantas controvérsias, esse 'é bom', 'é ruim'. E eu quero preservar meu lugar de escrita. Quero gostar do processo, ter liberdade para sentir prazer nele e também para dar conta do sofrimento que ele traz."

O cenário da leitura no Brasil

O sucesso de Carla Madeira acontece em um momento curioso do mercado editorial brasileiro: ao mesmo tempo em que pesquisas mostram um país que ainda lê pouco, a literatura nacional contemporânea parece atravessar um raro momento de efervescência.

Em 2024, a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro em parceria com a Fundação Itaú e o Ministério da Cultura — com coleta realizada pelo Ipec — apontou que 47% da população com 5 anos ou mais se declarou leitora, o equivalente a cerca de 93,4 milhões de pessoas.

O levantamento mostrou também que 53% não leram nem parte de um livro nos três meses anteriores e que o país perdeu 6,7 milhões de leitores em quatro anos. Em relação a 2019, houve queda de 5 pontos percentuais na proporção de leitores, e a série histórica indica recuo de 55% dos brasileiros em 2007 para 47% em 2024.

Ao mesmo tempo, o mercado editorial vê sinais de recuperação. O Panorama do Consumo de Livros no Brasil, da Câmara Brasileira do Livro com a Nielsen BookData, mostrou que, em 2025, 18% da população adulta comprou ao menos um livro — alta de 2 pontos percentuais em relação a 2024, o equivalente a cerca de 3 milhões de novos consumidores.

Nas redes sociais, em clubes de leitura e em festivais literários, autores brasileiros contemporâneos passaram a ocupar um espaço que parecia mais raro há alguns anos.

Em 2025, Ana Paula Maia se tornou a única representante do Brasil e da América Latina entre os finalistas do International Booker Prize, um dos mais prestigiosos prêmios da literatura mundial. Jeferson Tenório venceu o Prêmio Jabuti com O Avesso da Pele e ganhou projeção internacional; nomes como Aline Bei, Itamar Vieira Junior e Geovani Martins passaram a circular com mais força em traduções, festivais e listas internacionais.

Para Madeira, há uma sensação de movimento coletivo acontecendo.

"É muito bom quando a gente cria essa onda, esse volume. Muita gente escrevendo, sendo premiada, publicando fora, brilhando, ocupando espaço em clubes de leitura, em festivais, em programas de literatura. Todos os dias tem um convite para uma roda, uma entrevista, uma festa literária. Está muito interessante ver isso acontecer."

Ela cita especialmente a recepção em Portugal, onde Tudo é Rio venceu o Prêmio Bertrand de Livro do Ano. "Alguns editores me disseram que o livro abriu uma atenção para a literatura contemporânea brasileira, porque eles publicavam muito pouco."

A autora vê esse crescimento quase como um efeito em cadeia. "Uma autora falou do meu livro para um editor, ele me publicou, depois meu livro ajudou outro, e outro... É muito bonito entrar numa livraria e ver literatura brasileira ocupando aquelas mesas de destaque."

Ainda assim, ela ressalta que o entusiasmo não apaga um problema estrutural. "No Brasil se lê muito pouco. A gente tem um déficit imenso. Mais gente tem que entrar, mais gente tem que ler."

Na visão da escritora, uma das formas de ampliar esse alcance passa justamente pela recomendação espontânea entre leitores. "É muito difícil furar a bolha. Eu lembro dos meus 700 exemplares e pensava que ia ter que panfletar livro em porta de academia. Quando alguém lê e fala 'isso aqui é maravilhoso', muda tudo."

A reportagem pediu para Carla Madeira indicar alguns títulos justamente para quem tem o objetivo de ler mais. Os livros escolhidos por ela:

Para quem está de luto...

Diário de Luto, de Roland Barthes

Para quem terminou um relacionamento...

Poeta chileno, de Alejandro Zambra. "Justamente para não pensar no relacionamento (risos)."

Para quem está apaixonado...

Sobre a Terra Somos Belos por um Instante, de Ocean Vuong.

Para quem gosta de personagens ambíguos...

Primo Basílio, de Eça de Queiroz

Para quem quer chorar...

A vida pela frente, de Romain Gary

Para expandir horizontes....

Imortalidades, de Eduardo Giannetti e Quando Deixamos de Entender o Mundo, de Benjamín Labatut.

domingo, 10 de maio de 2026

'Vou ter quantos bebês meu corpo aguentar': como a guerra leva mulheres a se tornarem barrigas de aluguel na Ucrânia

 

Uma mulher grávida está em pé em um jardim com a mão sobre a barriga. Ela tem cabelo longo, liso e escuro e veste um conjunto de blusa e calça brancas com manchas pretas. Também usa um moletom marrom-claro
Legenda da foto,Karina Tarasenko afirma que nunca teria recorrido à barriga de aluguel se não fosse a guerra, mas agora pretende continuar para economizar dinheiro e comprar uma casa
    • Author,Sofia Bettiza
    • Role,Repórter global de saúde do Serviço Mundial da BBC e da BBC News Ucrânia
    • Reporting from,Kiev
  • Tempo de leitura: 10 min

Karina Tarasenko está grávida de seis meses, mas o bebê em seu útero não é dela.

A jovem de 22 anos, do leste da Ucrânia, é uma barriga de aluguel e está grávida de um embrião formado com óvulo e esperma de um casal chinês.

Aos 17 anos, Tarasenko viu sua casa ser destruída quando sua cidade, Bakhmut, virou um dos principais campos de batalha desde o início da ofensiva russa em grande escala contra a Ucrânia.

Com boa parte da cidade destruída, ela e o parceiro se mudaram para Kiev, capital do país, mas tiveram dificuldade para encontrar um trabalho estável.

Foi quando, um dia, Tarasenko estava em uma loja, com dinheiro que mal dava para comprar pão e fraldas para a filha de um ano e meio, que decidiu recorrer à prática de barriga de aluguel remunerada.

Ela afirma que nunca teria se tornado barriga de aluguel se não fosse a guerra, que levou milhões de pessoas a perder empregos ou suas próprias empresas, provocou alta da inflação e uma queda acentuada do Produto Interno Bruto (PIB, soma de bens e serviços produzidos pelo país) da Ucrânia.

"No começo, a ideia de ser barriga de aluguel me revoltou e decepcionou, mas agora simplesmente aceitei", diz Tarasenko, que hoje vive nos arredores de Kiev em um apartamento fornecido pela clínica de barriga de aluguel. Ela está grávida de uma menina.

Tarasenko receberá 12,5 mil libras (cerca de R$ 95 mil), aproximadamente o dobro do salário anual médio na Ucrânia, embora a maior parte do pagamento só seja feita após o parto.

Ela deveria receber 15,5 mil libras (cerca de R$ 118 mil), mas, quando um dos gêmeos de sua gravidez morreu, seu pagamento foi reduzido, conforme estipulado em contrato.

Apesar das dúvidas iniciais, Tarasenko pretende continuar trabalhando como barriga de aluguel para economizar dinheiro e comprar uma casa.

Mas isso pode mudar em breve.

Um anúncio em rede social traz as palavras “PROMOÇÃO BLACK FRIDAY”. Há cinco bebês de fralda e, atrás deles, uma mulher sorrindo. Ela tem cabelo castanho claro comprido e veste uma camisa branca com listras azuis

Crédito,BioTexCom

Legenda da foto,Ativistas criticam campanhas publicitárias e acusam clínicas de transformar reprodução em mercadoria

Embora a guerra contra a Rússia tenha afetado fortemente o setor, especialistas disseram ao BBC World Service que o número de gestações por barriga de aluguel quase voltou aos níveis anteriores à guerra.

Mas o Parlamento ucraniano analisa agora um projeto de lei que prevê fiscalização mais rígida sobre a indústria de barriga de aluguel. Na prática, seria proibida a participação de estrangeiros, que representam hoje 95% dos futuros pais. As propostas têm amplo apoio no Parlamento da Ucrânia.

O projeto busca regulamentar de forma mais rigorosa um setor acusado de transformar a reprodução em mercadoria e explorar mulheres pobres e vulneráveis. Defensores da proposta também argumentam que mulheres ucranianas não deveriam ter filhos para estrangeiros por meio de barriga de aluguel em um momento em que a taxa de natalidade despencou devido à guerra, embora o número de bebês nascidos por barriga de aluguel represente uma pequena parcela dos nascimentos.

"Por causa da guerra, o número de mulheres em situação de desespero está aumentando, e as clínicas se aproveitam disso porque casais ocidentais querem comprar bebês de forma barata", afirma Maria Dmytrieva, ativista pelos direitos das mulheres que se opõe à barriga de aluguel por razões éticas e argumenta que a proposta em discussão no Parlamento não vai longe o suficiente.

Dmytrieva acredita que a prática deveria ser totalmente proibida na Ucrânia. Ela também acusa clínicas de barriga de aluguel de visar abertamente mulheres mais pobres, e cita anúncios publicados nas redes sociais.

Uma propaganda gerada por inteligência artificial em janeiro deste ano, publicada por uma clínica para recrutar novas barrigas de aluguel, mostra uma mulher forçada a decidir entre comprar lenha para aquecer o fogão ou roupas para os filhos, apelando às dificuldades enfrentadas por muitos ucranianos durante a guerra.

Outra campanha publicitária, de 2021, da BioTexCom Centre for Human Reproduction, maior clínica de barriga de aluguel da Ucrânia, promovia uma "Black Friday" de bebês gerados por barriga de aluguel.

Questionada pela BBC sobre se esses anúncios poderiam ser considerados ofensivos, a BioTexCom defendeu as campanhas, afirmando que elas foram eficazes para atrair atenção em relação ao tema.

A clínica também tem sido alvo de críticas pela forma como opera. Em 2018, o Ministério Público ucraniano abriu uma investigação contra o diretor-executivo da clínica, Albert Tochilovsky, e outros dois ex-funcionários, sob suspeita de crimes, entre eles tráfico humano.

O órgão afirmou que a investigação preliminar foi posteriormente suspensa para permitir "cooperação internacional" e coleta de informações no exterior.

A BioTexCom e Tochilovsky afirmam atuar sempre dentro da lei e "negam categoricamente as acusações".

O Ministério Público não detalhou a acusação de tráfico humano, mas a BioTexCom disse à BBC que o caso envolve incompatibilidade de DNA entre um casal e um bebê. A clínica afirma que seus funcionários não foram responsáveis e que "suspeitam que o problema tenha ocorrido durante a coleta de esperma", realizada em outro país.

A empresa afirma ajudar pessoas a realizarem o sonho de se tornarem pais, oferecer às mulheres uma forma legal de obter renda e oferecer atendimento médico, hospedagem e alimentação.

Tarasenko inicialmente procurou a BioTexCom para atuar como barriga de aluguel, mas decidiu não continuar com a clínica por considerar que foi tratada com frieza nas primeiras consultas.

Crianças abandonadas

Uma mulher segura uma criança pequena nos braços. O menino está de costas para a câmera, e seu rosto não pode ser visto. Ele tem cabelo escuro e veste uma jaqueta azul e calças vermelhas. A mulher olha para a câmera; ela tem cabelo loiro curto e liso e usa uma blusa preta. Eles estão ao ar livre, e é possível ver grama alta e algumas casas ao fundo
Legenda da foto,Wei vive em uma instituição estatal na Ucrânia depois que os futuros pais decidiram não buscá-lo

Também há casos de bebês abandonados após o nascimento, quando os pais biológicos mudam de ideia.

Na Ucrânia, os futuros pais são legalmente responsáveis pelo bebê após o nascimento, e abandonar uma criança por qualquer motivo é ilegal.

Mas, na prática, a aplicação da lei entre diferentes países pode ser difícil.

Wei, hoje com cinco anos, sofreu graves danos cerebrais após nascer prematuro, em 2021. Sua gestação por barriga de aluguel foi intermediada pela BioTexCom.

Hoje, ele vive em uma instituição estatal para crianças com deficiência em Kiev.

Quando a BBC visitou o local, Wei comia banana amassada com as outras crianças da instituição. Eles fazem todas as refeições juntos.

Wei não consegue sentar sem ajuda, sustentar a cabeça nem enxergar adequadamente, e precisará de cuidados integrais pelo resto da vida.

Depois de saberem sobre seu estado de saúde, os futuros pais, de um país do Sudeste Asiático, decidiram não buscá-lo. Na prática, eles desapareceram, e sucessivas tentativas das autoridades e da BioTexCom de contatá-los fracassaram.

A mulher que gerou Wei por barriga de aluguel também não quis ficar com ele e, pela lei ucraniana, não tinha responsabilidade legal em relação à criança.

Valeria Soruchan, do Ministério da Saúde da Ucrânia e uma das defensoras da mudança na legislação, afirma que "muitas" crianças nascidas por barriga de aluguel são abandonadas, embora o governo não mantenha números exatos sobre isso.

Ela não é contra a barriga de aluguel em princípio, mas critica a falta de regulamentação na Ucrânia e apoia vetar o uso do serviço por estrangeiros.

Tochilovsky, diretor-executivo da BioTexCom, descreveu o caso como uma "tragédia" e afirmou que, quando pais abandonam uma criança, "consideramos que isso também é, em parte, nossa responsabilidade".

Quando as crianças são abandonadas, as clínicas não são obrigadas por lei a contribuir com os custos de permanência em instituições públicas, financiadas com recursos públicos e privados. A BioTexCom não contribuiu financeiramente para a instituição onde Wei vive.

Crianças com deficiências tão graves quanto as de Wei raramente encontram famílias adotivas. Quinze famílias analisaram o caso de Wei, mas nenhuma manifestou interesse em adotá-lo.

'Eles nos transformaram em uma família'

Um homem e uma mulher seguram uma criança pequena. O homem tem cabelo curto e escuro, barba e veste uma jaqueta acolchoada em tom verde-acinzentado. A mulher tem cabelo longo, escuro e ondulado, e usa um cachecol com estampa de oncinha. A criança tem cabelo escuro e veste um macacão acolchoado cinza-escuro com zíper
Legenda da foto,Himatraj e Rajvir Bajwa afirmaram que a barriga de aluguel 'nos deu algo que nunca pensamos ser possível, nos transformou em uma família'

Ainda assim, há quem argumente que a barriga de aluguel comercial pode beneficiar todas as partes envolvidas.

Por cinco anos, Himatraj e Rajvir Bajwa, de Londres, no Reino Unido, tentaram sem sucesso ter um filho, incluindo duas tentativas de fertilização in vitro (FIV), antes de decidirem recorrer à barriga de aluguel.

Rajvir, de 38 anos, tem endometriose severa, o que torna a gravidez mais difícil. Ela também tem esclerose múltipla.

O casal descartou o Reino Unido, onde apenas a barriga de aluguel solidária é permitida, o que significa que a mulher não recebe recompensa financeira, embora tenha direito ao reembolso de despesas.

No Reino Unido, os acordos de barriga de aluguel são mais informais e frequentemente organizados por amigos, familiares ou organizações sem fins lucrativos que colocam futuros pais em contato com barrigas de aluguel.

Pela legislação britânica, a mulher que gera o bebê tem responsabilidade legal pela criança até que uma decisão judicial transfira essa responsabilidade aos futuros pais.

Himatraj e Rajvir estavam preocupados com a possibilidade de não terem direitos legais imediatos sobre o bebê. Já houve casos de barrigas de aluguel solidárias decidirem ficar com os bebês, embora essas situações sejam extremamente raras.

O casal ficou impressionado com a organização do sistema de barriga de aluguel na Ucrânia, e o custo do procedimento no país também pesou na decisão.

Eles recorreram à BioTexCom no ano passado e pagaram cerca de 65 mil libras (aproximadamente R$ 495 mil) — valor muito inferior ao dos EUA, onde a barriga de aluguel pode ultrapassar 110 mil libras (cerca de R$ 837 mil). O casal afirma ter tido uma boa experiência com a BioTexCom.

Por meio de fertilização in vitro, eles criaram um embrião em Londres, que foi enviado para Kiev e armazenado nos tanques criogênicos da clínica.

Em junho do ano passado, eles chegaram a Kiev para o nascimento do bebê.

Mas, por causa da demora das autoridades britânicas em concluir a documentação e emitir o passaporte do filho, passaram os três primeiros meses dele em Kiev, entrando e saindo de abrigos antibomba enquanto a Rússia bombardeava a cidade.

"Foi assustador e surreal", diz Rajvir.

O casal voltou para o Reino Unido no fim de agosto com o filho.

Em junho, eles vão celebrar o primeiro aniversário do menino.

Os dois se opõem ao projeto de lei ucraniano e argumentam que a agência de barriga de aluguel à qual recorreram lhes trouxe "alegria e felicidade".

"Eles nos deram algo que nunca pensamos ser possível, nos transformaram em uma família", afirma Himatraj, de 37 anos.

Himatraj e a mulher pediram para encontrar a barriga de aluguel uma vez e levaram chocolates e flores para ela.

Eles disseram não acreditar que ela tenha sido explorada.

"Obviamente, sempre foi escolha dela, e isso é um meio de vida para elas. E, se isso vai ajudá-las, então, no fim das contas, tenho certeza de que todos ficam felizes com o resultado final."

Uma mulher grávida está deitada em uma cama de clínica fazendo um exame. Outra mulher, de jaleco branco e cabelos longos escuros presos, realiza o procedimento. As duas olham para a tela, onde é possível ver um feto
Legenda da foto,Karina rejeita a ideia de que a barriga de aluguel comercial seja exploratória: 'O corpo é meu, a decisão, também'

'Ninguém está nos forçando'

Tarasenko, grávida de um embrião formado com óvulo e esperma de um casal chinês, também rejeita a ideia de que a barriga de aluguel comercial seja exploratória.

"Ninguém está nos forçando. Este é o meu corpo, minha decisão… Vou receber minha recompensa por dar felicidade a eles."

Ela se opõe à mudança na lei e afirma que ela "arruinaria completamente" seus planos de comprar uma casa.

Olhando para a barriga, acrescenta: "Eu sei que esta não é minha filha, mas eu a amo. Converso com ela. Quando ela mexe, digo que os pais dela estão esperando por ela."

E conclui: "Só espero que ela tenha uma boa vida."

Reportagem adicional de Fay Nurse, do BBC World Service, e Victoria Prisedskaya, da BBC News Ucrânia

Arte gráfica com “Global Women” (Mulheres Globais, em tradução livre) escrito em branco sobre fundo roxo, com arcos em tons de azul e roxo à direita, formados por círculos

* Esta reportagem faz parte da série Global Women, da BBC World Service, que reúne, em inglês, histórias importantes e pouco conhecidas de diferentes partes do mundo.