Habitante Terra da Sabedoria
SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.
quarta-feira, 24 de junho de 2026
Financiamento e assistência técnica para projetos inovadores de descarbonização
Financiamento e assistência técnica para projetos inovadores de descarbonização
A ApC, em parceria com o Banco Europeu de Investimento (BEI), promove uma sessão de informação dedicada às oportunidades de financiamento e apoio técnico para projetos inovadores de descarbonização.
📅 2 de julho de 2026
🕒 14h30 – 17h00
📍 Sala "O Século", Lisboa
O evento explorará:
✔️ As oportunidades do Fundo de Inovação da EU no financiamento de tecnologias de baixo carbono
✔️ O papel do BEI no apoio à transição para a neutralidade climática, incluindo o seu serviço gratuito de Assistência ao Desenvolvimento de Projetos
✔️ O networking e envolvimento direto com especialistas do BEI
👉 Destinatários: Empresas com projetos inovadores e escaláveis de descarbonização
📩 Inscrições até 26 de junho: eventos@apclima.pt
Não perca esta oportunidade para transformar ideias inovadoras em projetos financiáveis.
Charles Miller: quem foi o 'pai do futebol brasileiro' com sangue escocês

- Author,Giulia Granchi
- Role,Da BBC News Brasil em Londres
- Published
- Tempo de leitura: 7 min
Nesta quarta-feira, o Brasil enfrenta a Escócia em Miami, pela Copa do Mundo de 2026. Mas o futebol brasileiro já tinha uma ligação com a Escócia mais de 130 anos antes desse jogo — bem no início da própria história do esporte no país. O nome por trás disso é Charles Miller, o homem conhecido até hoje como o "pai do futebol brasileiro".
O pai de Charles, John Miller, nasceu em 1844 na pequena localidade de Fairlie, na costa oeste da Escócia, um dos dez filhos de Andrew Miller e Elizabeth Brown. Ainda jovem, emigrou para o Brasil para trabalhar como funcionário da estrada de ferro São Paulo Railway. Em 1870, casou-se com Carlota Fox, brasileira de ascendência inglesa. Quatro anos depois, em 1874, nasceu Charles William Miller, em São Paulo.
Charles passou a primeira década de vida no Brasil.
Aos dez anos, foi mandado para estudar na Inglaterra, na Banister Court School, em Southampton — uma escolha comum entre famílias britânicas radicadas no exterior na época. Foi ali que conheceu o futebol, então pouco mais que um passatempo escolar inglês, e se destacou rapidamente: chegou a jogar pelo St Mary's FC, equipe que mais tarde se tornaria o Southampton FC.
Foi também em Southampton que Miller cruzou caminho com o Corinthian Football Club, clube amador de Londres famoso por suas turnês internacionais. Em 1892, o Corinthian viajou à cidade para enfrentar uma seleção do condado de Hampshire, mas chegou com apenas dez jogadores. Um professor sugeriu que completassem o time com aquele aluno promissor — e Miller, jogando como ponta-esquerda, foi o destaque da partida.
Segundo a história contada pelo próprio Corinthian até hoje, o clube ficou tão impressionado que, ao saber que aquele seria o último jogo de Miller na Inglaterra antes de voltar ao Brasil, deu a ele de despedida duas bolas de futebol. Essa versão específica do presente não aparece, porém, nas biografias mais rigorosas sobre Miller, que mencionam apenas que ele levou bolas na bagagem, sem atribuir a origem delas ao clube inglês.
A volta ao Brasil e a fundação dos primeiros clubes
Em 1894, quando tinha por volta de seus 20 anos, Miller voltou a São Paulo depois de uma década na Inglaterra. Na bagagem, as duas bolas e um exemplar do regulamento oficial da associação de futebol de Hampshire.
Reza a lenda — repetida em praticamente todos os relatos sobre sua volta, embora sem fonte documental primária — que o próprio pai, ao vê-lo desembarcar no porto de Santos, perguntou o que era aquilo que ele trazia. "Meu diploma", teria respondido Charles. "Seu filho se formou em futebol."
O esporte era completamente desconhecido no Brasil da época. A população local preferia remo e corridas de cavalo, e via aquela bola redonda com certa desconfiança — alguns chegaram a confundi-la com os equipamentos usados em outras atividades físicas da moda. Os poucos curiosos eram majoritariamente outros britânicos expatriados, ligados às ferrovias e ao comércio.
Foi nesse cenário que Miller organizou o que teria sido a primeira partida oficial de futebol do Brasil, em 14 de abril de 1895: o time da São Paulo Railway, a empresa britânica onde trabalhava, contra a equipe da Companhia de Gás, também formada por britânicos radicados em São Paulo.
O jogo aconteceu na Várzea do Carmo, num terreno improvisado no bairro do Brás. Décadas depois, em entrevista à Gazeta Esportiva, Miller contaria que a primeira tarefa do dia foi enxotar os bois de uma companhia de viação que pastavam tranquilamente no campo. A partida terminou 4 a 2 para o time de Miller, que marcou dois dos quatro gols.
Foi nessa mesma época que Miller também criou o departamento de futebol dentro do São Paulo Athletic Club (SPAC) — clube esportivo já existente desde 1888, mas até então dedicado a outras modalidades —, que se tornaria a base institucional a partir da qual o futebol se organizaria na cidade.
Seis anos depois, em 14 de dezembro de 1901, Miller ajudou a fundar a Liga Paulista de Football — a primeira liga de futebol organizada do Brasil. Cinco clubes participaram da fundação: o próprio SPAC, o Internacional, o Mackenzie, o Germânia e o Paulistano.
Miller seguiu envolvido com o clube nos anos seguintes, inclusive como goleiro a partir de 1906.
Em 1910, dezoito anos depois daquela partida em Hampshire, foi Miller quem articulou a vinda do Corinthian Football Club para uma turnê pelo Brasil. Os ingleses jogaram seis partidas e venceram todas, com agregado de 38 a 6 — incluindo a goleada final, por 8 a 2, contra o time paulista de Miller, que jogou a partida.
Cinco operários ferroviários presentes ao jogo ficaram tão impressionados com o estilo do Corinthian que decidiram fundar seu próprio clube. Foi Miller quem sugeriu o nome em homenagem ao time inglês — batizando o que se tornaria o Sport Club Corinthians Paulista, um dos maiores clubes do país até hoje.
Miller também representou a seleção do Estado de São Paulo e disputou partidas não-oficiais pela seleção brasileira contra a Argentina, em 1914. Como árbitro e dirigente, seguiu ligado ao futebol paulista até os 50 anos. Quando o profissionalismo chegou ao futebol brasileiro, em 1933, Miller — fiel a um ideal amador de esporte, mais ligado ao espírito do Corinthian FC inglês do que ao dinheiro — se afastou definitivamente do meio, desapontado com o rumo que o jogo havia tomado.
Na vida pessoal, casou-se com a pianista Antonietta Rudge, com quem teve dois filhos, Carlos e Helena. Morreu em São Paulo em 30 de junho de 1953, aos 78 anos, e está sepultado no Cemitério dos Protestantes da cidade. Seu nome ficou marcado no vocabulário do próprio esporte: o gesto de erguer a bola com o calcanhar é conhecido até hoje como "chaleira" — derivação de "Charles". E a praça 'Praça Charles Miller', em frente ao Estádio do Pacaembu, também é uma homenagem a ele.
Outro escocês, outra história
Charles Miller não é, porém, o único nome escocês na origem do futebol brasileiro. No bairro de Bangu, na zona oeste do Rio de Janeiro, mora uma versão alternativa dessa história — também é escocesa.
Thomas Donohoe, operário nascido em 1863 em Busby, perto de Glasgow, foi trabalhar como tintureiro numa fábrica têxtil em Bangu, chegando ao Brasil em maio de 1894 — em teoria, meses antes do retorno de Miller a São Paulo.
Sem encontrar ninguém na região que conhecesse o esporte, escreveu para a esposa, Elizabeth, ainda na Escócia, pedindo que ela viesse — e que trouxesse uma bola. Pouco depois da chegada dela, em setembro de 1894, aconteceu uma partida entre operários britânicos no campo ao lado da fábrica: oito meses antes do jogo organizado por Miller em São Paulo.
Os defensores de Miller não contestam os fatos, mas argumentam que há uma diferença entre uma partida informal entre amigos e a criação de um clube, de uma liga e de um campeonato oficial, o que coube a Miller.
A disputa nunca foi resolvida de fato: hoje, tanto Bangu quanto Busby, a cidade escocesa natal de Donohoe, têm estátuas em homenagem a ele.

Crédito,BBC/Getty Images
O encontro desta quarta
Mais de um século depois de dois escoceses ajudarem, cada um a seu modo, a moldar o futebol brasileiro, Brasil e Escócia se encontram de novo nesta quarta-feira, em Miami — agora dentro de uma Copa do Mundo, e não mais nos campos improvisados de São Paulo ou Bangu.
As seleções já se cruzaram quatro vezes em Copas do Mundo, e o Brasil nunca perdeu. O primeiro encontro foi em 1974, na Alemanha Ocidental: terminou em 0 a 0, com a Escócia segurando os então tricampeões mundiais.
Em 1982, na Espanha, os escoceses até abriram o placar, mas o Brasil de Zico, Sócrates, Éder e Falcão virou o jogo e venceu por 4 a 1. Na Itália, em 1990, o Brasil venceu por 1 a 0. E em 1998, na França, bateu a Escócia por 2 a 1 na partida de abertura daquela Copa — a última vez, até esta semana, em que as duas seleções se enfrentaram em um Mundial.
Como é a bola mais antiga do mundo — que viajou até Miami para Brasil x Escócia

Crédito,Stirling Smith Art Gallery & Museum
- Author,Graeme Ogston
- Role,Repórter da BBC nas regiões de Tayside e Central da Escócia
- Published
- Tempo de leitura: 4 min
A bola de futebol mais antiga de que se tem notícia no mundo viajou de Stirling, na Escócia, para a Flórida, nos Estados Unidos, para participar das atividades em torno da partida decisiva da Escócia contra o Brasil pela Copa do Mundo.
A bola, que se acredita ter sido produzida entre 1540 e 1570, foi descoberta na década de 1970, presa entre vigas no Castelo de Stirling.
Ela ficará em exposição no Museu Coral Gables até sábado (27/06) e também será exibida durante a partida entre Brasil e Escócia nesta quarta-feira (24/06), a partir das 19h (horário de Brasília).
A peça foi emprestada ao museu pela Stirling Smith Art Gallery and Museum, onde é a principal atração de uma coleção com mais de 40 mil itens.

A bola, reconhecida pelo Guinness World Records, o livro dos recordes, como a mais antiga do mundo, tem aproximadamente o tamanho de um melão pequeno.
Ela é feita de gomos de couro espesso que envolvem uma bexiga de porco.
A peça foi datada do período de James 5º da Escócia e da jovem Mary Stuart, rainha da Escócia no século 16, que viveu nos aposentos do castelo durante a infância.
"Alguém na década de 1540 deve ter chutado a bola tão alto que ela ficou presa no teto. A cronologia coincide com o período em que Mary, rainha dos escoceses, vivia no castelo e, claro, a bola foi encontrada nos aposentos da rainha", explica Aiofe McKenna, curadora do Stirling Smith.
"Não podemos afirmar isso com certeza, mas gostamos de imaginar que Mary brincou com esta bola", acrescenta McKenna.

Registros históricos mostram que uma versão antiga do futebol já era popular na Escócia desde o século 15.
"As pessoas gostavam de jogar futebol tanto quanto hoje, mas o esporte era bem diferente e muito mais violento", conta McKenna.
E acrescenta: "Ainda assim, isso não impedia sua popularidade. Pelo contrário, era extremamente popular. Muitos reis escoceses tentaram proibi-lo por causa de toda a confusão que provocava."

Crédito,Getty Images
A bola faz parte da exposição Diplomacy and the Beautiful Game: From Scotland to Brazil to Haiti (Diplomacia e o Jogo Bonito: da Escócia ao Brasil, passando pelo Haiti, em tradução livre), no museu da Flórida.
McKenna afirmou: "É muito empolgante que ela esteja lá para o jogo entre Escócia e Brasil. [...] Muitas pessoas vêm especificamente para ver a bola, então os fãs de futebol sabem que ela está aqui. [...] Mas acreditamos que isso levará sua história a um público enorme, que talvez não saiba que o (Stirling) Smith abriga essa bola."
A Tartan Army, como é conhecida a torcida da Escócia, chegou a Miami para a última partida da seleção escocesa na fase de grupos, depois de uma vitória por 1 a 0 contra o Haiti e uma derrota por 1 a 0 para o Marrocos.

Crédito,Reuters
Festa Junina: a origem da celebração pagã que virou religiosa e 'caipira' no Brasil

- Author,Edison Veiga
- Role,De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
- Published
- Tempo de leitura: 10 min
*Esta reportagem foi publicada originalmente em 18 de junho 2021.
Para um brasileiro, pode ser difícil entender como as estações do ano são capazes de influenciar o imaginário e a própria organização da sociedade.
Mas em países de clima temperado ou frio, onde primavera, verão, outono e inverno são mais demarcados, é contagiante a alegria com que o verão é celebrado, depois de meses de dias curtos, temperaturas frequentemente negativas e poucas possibilidades de interação social.
É por isso que desde os tempos mais antigos, as primeiras civilizações europeias já tinham festas específicas para celebrar tanto a chegada da primavera — a volta da vida desabrochando — quanto o solstício de verão — o ápice do sol, o dia mais longo do ano.
E, segundo pesquisadores, são esses dois tipos de celebração, depois abraçados pelo catolicismo, que explicam a origem das festas juninas, que no Brasil acabariam sendo reinventadas com um sotaque próprio.
"As origens são mesmo as antigas festas pagãs das antigas civilizações, ligadas aos ciclos da natureza, às estações do ano. Sociedades antigas realizavam grandes festividades, com durações longas, até de um mês, sobretudo nos períodos de plantio e de colheita", contextualiza o pesquisador de culturas populares Alberto Tsuyoshi Ikeda, professor da Universidade de São Paulo e consultor da cátedra Kaapora: da Diversidade Cultural e Étnica na Sociedade Brasileira, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
"A primavera era bastante comemorada, como o reingresso da vida mais dinâmica, o rebrotar da natureza e das atividades depois do período do inverno, sempre de muita dificuldade, luta pela sobrevivência e recolhimento", comenta ele.
Se nessa época do ano o que se via era a explosão da natureza, a vida social espelhava isso. "Os grupos humanos realizavam grandes festividades dedicadas à própria natureza, muitas vezes rendendo homenagens aos antigos deuses relacionados à natureza, à vida animal, à vida vegetal de um modo geral. Eram festas comunitárias com muita alegria, muita alimentação e reunião de pessoas em grande número: foi o que deu origem às festas juninas que a gente conhece no Brasil e em outras partes do mundo."
Autora do livro Festas Juninas: Origens, Tradições e História, a socióloga Lucia Helena Vitalli Rangel, professora na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), explica que a origem das festas juninas está nos "rituais de fertilidade agrícola" de diversos povos — da Europa, do Oriente Médio e do norte da África.
"Os [mitológicos] casais férteis Afrodite e Adonis, Tamuz e Izta, Isis e Osíris eram homenageados nesses rituais, pois representavam a reprodução humana, numa época de evocação da colheita", afirma.
"Eram rituais para que a colheita fosse farta e para abençoar o próximo período agrícola. Era período de congraçamento, de partilha e estabelecimento de alianças entre as comunidades. Eram rituais de fartura e abundância em todos os sentidos, no âmbito alimentar e na relação entre as famílias: casamentos, batizados e compadrio."

Crédito,Getty Images
"No hemisfério norte o solstício de verão era o auge do período ritual e do trabalho agrícola coroado pela colheita", acrescenta a socióloga.
Vale ressaltar o óbvio, para que não fique um certo estranhamento ao leitor menos atento: no hemisfério norte, origem de tais celebrações, as estações do ano são invertidas em relação ao hemisfério sul, onde está o Brasil.
Apropriação cristã
Fim do Promoção Agregador de pesquisas
Mas onde então entram os santos nessa história? Na festa junina contemporânea, estão presentes algumas das figuras mais populares do catolicismo — e isso acabou impregnado de tal forma na celebração que a religiosidade se misturou ao folclore e às tradições populares, transcendendo os ritos normatizados pela Igreja Católica.
O primeiro dos santos juninos é Antônio (? - 1231), frade franciscano de origem portuguesa que ficou conhecido pelo que fez na Itália no início do século 13. Com fama de milagreiro, foi canonizado pela Igreja onze meses depois de sua morte — trata-se de um recorde até hoje não superado na história do catolicismo.
No imaginário popular, Antônio se tornou o bonachão santo das coisas perdidas, sobretudo nos países europeus, e o casamenteiro, principalmente em Portugal e no Brasil. Simpatias, promessas e orações específicas marcam a devoção a ele. E sua presença nos festejos juninos geralmente está ligada a essas tradições — a Igreja fixou o 13 de junho, data da morte dele, como dia consagrado ao santo.
Em 24 de junho, o catolicismo celebra o nascimento de João Batista (2 a.C - 28 d.C.). É o santo máximo das comemorações juninas — há versões que apontam que originalmente eram "festas joaninas" e não festas juninas; e, sobretudo no nordeste brasileiro, a Festa de São João é um evento de dimensões impressionantes.

Crédito,Getty Images
Personagem de historicidade controversa, João Batista é apontado como primo de Jesus Cristo e aquele que o batizou.
Em seu livro O Ramo de Ouro, o antropólogo escocês James Frazer (1854-1941) diz que ocorreu um processo histórico "de acomodação", deslocando para a figura de São João Batista a comemoração do solstício de verão.
Por fim, o mês de junho ainda tem a data do martírio de São Pedro (? - 67 d.C) e São Paulo (5 d.C. - 67 d.C.), dois dos pioneiros do cristianismo. Pedro foi um dos 12 apóstolos de Jesus e acabou depois considerado o primeiro papa do catolicismo.
Paulo de Tarso, por sua vez, é reputado como um dos mais influentes teólogos da história. Parte significativa dos textos que compõem o Novo Testamento da Bíblia é atribuída à sua pena. É dele, portanto, a autoria de parcela considerável da ressignificação de Jesus Cristo após sua morte na cruz — em outras palavras, é possível dizer que Paulo é responsável pela transformação de Jesus em um mito.
Uma observação necessária: apesar de a Igreja celebrar em conjunto a memória do martírio de Pedro e de Paulo, por tradição este último nem sempre é associado aos festejos juninos.
À medida que o catolicismo foi se transformando em religião do status quo, sobretudo a partir da cristianização do Império Romano, no ano de 380 d.C., diversos rituais tratados como pagãos acabaram sendo abraçados e apropriados pela Igreja. "A Igreja Católica não pôde desmanchar essas práticas", reconhece Rangel.
Com os rituais de primavera e verão, não foi diferente. "Várias dessas festividades foram adaptadas", conclui Alberto Ikeda, da USP. "Aos poucos passaram a ser tratadas como festas em honra aos santos juninos."
"Mas é importante notar que mesmo dentro do ciclo cristão, esses santos estão ligados tematicamente com aquelas mesmas ideias, os mesmos princípios das festividades [dessa época do ano] das antigas civilizações", pontua o pesquisador.
Santo Antônio, por exemplo, é o casamenteiro — em uma leitura lato sensu, poderia ser encarado como o santo da família, da unidade familiar, da reprodução humana. "São João também está ligado, sobretudo nos interiores do Brasil, a essa questão dos relacionamentos afetivos. Tradicionalmente, faz-se muito casamento no Dia de São João", diz Ikeda.
"Ele também traz a característica da fartura [que remete aos períodos de plantio e de colheita, em oposição aos rigorosos invernos], dos alimentos, das bebidas, aquilo que chamamos na antropologia de repasto ritual ou repasto cerimonial", afirma o pesquisador.
De modo geral, na leitura proposta por ele, todos os santos juninos estão ligados aos ciclos da natureza — fogo, água, fertilidade, abundância. Está aí São Pedro e a ideia de que ele é quem controla o tempo. "Vejo uma relação entre eles e os antigos rituais, uma relação ainda presente. Embora a gente não perceba mais, eles têm essa ligação com os elementos fundamentais da existência humana", comenta.
Nas festas populares essas forças da natureza se fazem representadas, muito além da mesa farta. Os mastros juninos que são erguidos representam a potência dos troncos, das árvores que resistem ao inverno. A fogueira é a luz: ilumina, aquece, afugenta animais ferozes, assa os alimentos.
Na releitura contemporânea, portanto, as festas juninas "guardam as reminiscências das ancestrais aglomerações festivas", conforme frisa Ikeda.
Tradição brasileira

Crédito,LUCIANO FERREIRA / PCR
Paçoca, pamonha, pipoca, bolo de fubá, canjica, curau, pé de moleque, maçã do amor. Vinho quente e quentão. Brincadeiras de pular fogueira e dançar a quadrilha. Chapéu de palha, camisa xadrez, calça com remendos. Bombinhas e rojões, fogos de artifício. Bandeirinhas coloridas penduradas em varais de barbante.
No Brasil, as festas juninas foram reinventadas e se tornaram uma exaltação das raízes caipiras. E muito além da religiosidade, tornou-se tradição, folclore. Como se o ciclo se fechasse: o que nasceu como ritual gregário, de celebração social, e depois foi apropriado por uma religião dominante, acabou na cultura popular sendo devolvido ao sentido original — ou seja, a festa pela alegria de festejar.
Não à toa, a folclorista Laura Della Mônica registrou em seu livro Os Três Santos do Mês de Junho que "respeitar as festas e orações dedicadas a cada um dos três santos do mês de junho, segundo a tradição, é obrigação e dever de todos nós, pelo menos culturalmente". O "todos nós" é o brasileiro. Porque mesmo nascida no Velho Mundo, as festas juninas assumiram uma identidade própria em território nacional.
"A colonização da América colocou novamente a questão [da apropriação cultural] para os jesuítas e todos os religiosos que se instalaram no continente sul-americano", pontua a socióloga Rangel.
"No caso do Brasil, houve uma coincidência do calendário. No inverno seco, o solstício de inverno marca o período dos trabalhos agrícolas mais importantes. Do mesmo modo que, para os povos do hemisfério norte é o período de rituais de fertilidade, [a festa por aqui também vem] com as mesmas características, congrega as famílias na evocação da abundância."
As tradições regionais guardam suas especificidades, como era de se esperar em um país de dimensões continentais. "Sempre foram festas e rituais populares", salienta Rangel.
"No Brasil temos expressões regionais muito fortes: o São João nordestino, o Boi Bumbá da região norte, o Boi de Mamão no sul, Cavalhadas no centro-oeste e as festas do Divino Espírito Santo e muitas regiões, particularmente no estado de São Paulo."
A pesquisadora comenta que "conforme os padres vão chegando nas paróquias, começam a interferir nas comemorações". É quando vem o sincretismo: a festa popular também é festa católica, a quermesse organizada pela igreja também tem os rituais populares.
"Até hoje as paróquias, as igrejas, realizam festas juninas. Mesmo que as maiores festas estejam predominantemente tendo somente o caráter festivo, mais comercial, de exploração pelo ganho financeiro, as igrejas continuam fazendo comemorações aos santos juninos", pontua Ikeda.
"Embora muitas pessoas não católicas também participem das festas, embora predomine uma visão genérica que as festas juninas não guardam mais relação com a religiosidade, há ainda um relacionamento das igrejas com esses santos juninos."
Para ele, a evolução da festividade consiste no fato de que "toda aglomeração possibilita o incentivo ao comércio". "E a alimentação está neste centro, na busca mesmo do repasto cerimonial e festividades, danças e músicas que sempre estiveram ligados aos antigos rituais."
Ikeda lembra que a as festas populares têm uma importância antropológica por serem "práticas gregárias que ciclicamente comemoram a própria constituição, a própria existência das comunidades enquanto coletividade, a reunião de grupos humanos que preservam uma história comum".
"No caso da feste junina, esse vestir-se de caipira, simbolicamente, é um instrumento de importância até emocional e psicológico para as pessoas se sentirem com a identidade ligada ao passado, aos pais e avós que praticavam aquilo, comemorando de forma parecida", analisa o pesquisador.
"Assim, a prática possibilita a guarda de uma continuidade ao longo do tempo."
Suspensão sanitária
Nunca é demais enfatizar: com a pandemia de covid-19 ainda fora de controle, seria uma péssima ideia realizar qualquer tipo de festa neste período — se quer comemorar, faça em casa somente com seu núcleo familiar.
Então, 2021 será o segundo ano consecutivo em que o Brasil não terá, ao menos de modo ostensivo, a tradição das festividades com bandeirinhas coloridas. Doutora em História das Ciências da Saúde e autora do livro A Gripe Espanhola na Bahia, a historiadora Christiane Maria Cruz de Souza afirma que esse cancelamento não ocorreu nem na epidemia de 100 anos atrás.
Isto porque a gripe chegou ao Brasil bem depois dos festejos de 1918. E, no ano seguinte, a epidemia estava controlada. "A gripe espanhola não teve nenhuma interferência no São João. Os primeiros registros da doença apareceram em setembro de 1918 e a doença foi se extinguindo aos poucos. Em Salvador, ele não avançou para o ano de 1919. Houve alguns surtos, em lugares mais remotos, até 1920, mas sem caráter epidêmico."
É de se supor, inclusive, que as festividades de 1919 tenham sido ainda mais animadas. "Passada a epidemia de gripe espanhola, tudo o que as pessoas queriam eram esquecê-la", afirma Souza.
Em 20 de junho de 1919, entretanto, surgiram os primeiros registros indicando uma epidemia de varíola na capital da Bahia.
"Começaram a aparecer um caso aqui, outro ali, mas ainda sem a força suficiente para poucos dias depois interditar os festejos de São João", nota a pesquisadora.
"As autoridades sanitárias demoraram muito para reconhecer que ocorria uma epidemia terrível de varíola. Autoridades públicas só costumam reconhecer a existência de uma epidemia quando se torna inevitável devido ao acúmulo de adoecimentos e mortes, quando o número de doentes e mortos ultrapassa a normalidade esperada para os casos da doença. Isso demora um tempo."
Rangel ressalta, inclusive, que até a primeira metade do século 20, as festas juninas eram muito menores, restritas a familiares e pequenos grupos comunitários. Muito menos do que os eventos de hoje em dia. "Eram festas de arraial, de quintais, de quermesses", diz.
"Elas só se transformaram em grandes espetáculos na segunda metade do século 20, na esteira da espetacularização do carnaval."
