SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sábado, 1 de agosto de 2026

O verme-do-diabo é o animal que vive no lugar mais profundo da Terra - e ele está redefinindo os limites da vida.

 

Imagem em preto e branco da cabeça de um verme, mostrando sulcos em forma de anéis em volta do seu corpo e uma pequena boca circular no centro, contra fundo escuro

Crédito,Gaetan Borgonie et al., Nature, 2011

Legenda da foto,Esta imagem microscópica mostra a ponta afilada de um verme-do-diabo
    • Author,Katarina Zimmer
    • Role,BBC Future
  • Published
  • Tempo de leitura: 8 min

Se pudéssemos perfurar o solo abaixo de nós e descer pela crosta da Terra, ficaríamos rapidamente desconfortáveis.

À medida que a luz do Sol desaparece e nos aproximamos um pouco mais do núcleo fundido do planeta, a temperatura e a pressão aumentam e as águas subterrâneas mais profundas preenchem buracos e rachaduras nas rochas.

Ao atingir profundidades tórridas como 1,3 km abaixo da superfície, é fácil acreditar que nada pode viver ali embaixo. Mas, com um pouco de sorte, é possível ver bilhões e bilhões de bactérias, às vezes formando camadas brilhantes, brancas ou alaranjadas.

E, se pudermos levar um microscópio, talvez encontremos até mesmo um minúsculo verme que usa pequenos apêndices na sua boca para se erguer ao longo das rochas.

Estamos falando do Halicephalobus mephisto, conhecido como verme-do-diabo, rondando em busca de micróbios.

O animal é minúsculo. Seu comprimento tem apenas a largura de alguns fios de cabelo humanos. Mas ele parece uma baleia neste ecossistema liliputiano.

Os cientistas imaginam que, quando o verme-do-diabo morre naquele filme microbiano gosmento que cresce sobre a rocha, seu corpo provavelmente seja consumido por bactérias e outras formas de vida, ajudando a alimentar este estranho ciclo de vida ancestral.

Até a década de 1980, a maioria dos biólogos não acreditava que existisse vida a mais de 30 cm abaixo da superfície. Mas a descoberta do verme-do-diabo, em 2011, mudou radicalmente nosso conhecimento das profundezas da Terra.

A história deste verme demonstra como a vida, mesmo a vida animal, encontra um caminho, sem a energia solar ou uma atmosfera rica em oxigênio, para expandir radicalmente os ambientes que possibilitam o desenvolvimento dos seres vivos, despertando novas ideias sobre as origens e o futuro da vida.

"Se você consegue encontrar um verme lá embaixo, o que ainda falta descobrir?", questiona a geomicrobióloga Karen Lloyd, da Universidade do Sul da Califórnia, nos Estados Unidos. "As possibilidades são imensas."

Graças a uma série extraordinária de felizes acontecimentos, os cientistas conseguiram gerar filhotes daquele único verme-do-diabo e vêm estudando avidamente seus descendentes para compreender como aquela espécie sobrevive nas quentes e escuras profundezas da Terra.

Entrando na biosfera profunda

Imagem ampliada de dezenas de vermes azuis brilhantes sobre uma superfície rochosa marrom, vermelha e dourada

Crédito,Gaetan Borgonie/Extreme Life Isyensya

Legenda da foto,Muitos cientistas duvidavam que pudesse haver vermes nas profundezas da crosta terrestre

Os primeiros relatos convincentes de vida nas profundezas da crosta terrestre surgiram nos anos 1990.

Em 1997, por exemplo, foram encontradas bactérias a 2,8 km de profundidade, dentro de um poço de extração de gás.

No início dos anos 2000, o biólogo especializado em vermes Gaetan Borgonie, fundador do instituto de pesquisa sem fins lucrativos Extreme Life Isyensya, na Bélgica, relembra que cientistas mais velhos ridicularizavam a ideia de que algo mais complexo pudesse existir nas profundezas da Terra.

Borgonie acreditava que um grupo de pequenos vermes chamados nematoides poderia viver nas profundezas da crosta terrestre.

Não era uma ideia atraente. Mas, conhecendo a resistência daqueles pequenos animais, Borgonie achou que valia a pena examinar a questão.

Em 2008, ele se reuniu com outros especialistas na vida em ambientes extremos para visitar a mina de ouro Beatrix, na África do Sul.

A 1,3 km de profundidade, eles tiveram acesso a buracos perfurados nas paredes da mina para canalizar a água de dentro da rocha, a cerca de 37 °C, em direção a filtros projetados para capturar pequenas formas de vida, relembra Borgonie.

E, após filtrar mais de 6 mil litros de água, eles capturaram um verme minúsculo.

Imagem ampliada de um verme escuro se movendo por um tapete entrelaçado de fibras azuis contra fundo preto

Crédito,Gaetan Borgonie/Extreme Life Isyensya

Legenda da foto,Poikilolaimus oxycercus, outro nematoide, também foi encontrado a mais de 1 km abaixo da superfície na África do Sul

Em duas outras minas sul-africanas, eles filtraram quantidades ainda maiores de água. Em uma delas, foram mais de 12 milhões de litros.

Os cientistas encontraram diversas espécies de nematoides, além de outros invertebrados, fungos e várias formas de vida microscópicas.

"Nunca esperei encontrar um zoológico inteiro", relembra Borgonie.

A maior parte das espécies também é encontrada na superfície. Mas o verme da mina Beatrix era novo para a ciência e recebeu, em 2011, o nome de Halicephalobus mephisto.

O animal teve a cauda quebrada no processo de filtragem, o que é uma sentença de morte para o nematoide.

Mas, felizmente, o indivíduo era uma fêmea partenogênica, ou seja, ela podia se reproduzir sozinha, sem necessidade de acasalar. E depositou oito ovos viáveis antes de morrer.

Foto de uma grande câmara de uma mina subterrânea, com paredes rochosas, piso úmido e um fluxo de água espirrando da rocha, com várias pessoas com lanternas

Crédito,Gaetan Borgonie/Extreme Life Isyensya

Legenda da foto,As explorações nas profundezas da Terra revelaram muito mais vida que os cientistas acreditavam que pudesse existir naquelas condições

"Tivemos muita, muita sorte", afirma Borgonie. Ele nunca mais encontrou outro verme-do-diabo.

Alguns dos descendentes dos vermes acabaram no laboratório do pesquisador genômico John Bracht, da Universidade Americana, em Washington DC (Estados Unidos).

Ele os criou em placas de Petri sob condições similares a um dos primos do verme-do-diabo, Caenorhabditis elegans, uma espécie de nematoide que vive em frutas em decomposição e já foi intensamente estudado.

Existem algumas diferenças entre as duas espécies. O verme-do-diabo não nada na água; ele se agarra aos lados de um tubo de plástico, uma capacidade que provavelmente o ajuda a se fixar às rochas subterrâneas.

Evidentemente, o verme-do-diabo também não aprecia o alimento do Caenorhabditis elegans, que é a bactéria E. coli. Ele prefere outras espécies que formam colônias nas placas.

E é importante observar que o verme-do-diabo não se dá bem à temperatura ambiente. A 20 °C, seu crescimento diminui e ele leva oito dias para completar seu ciclo de vida.

O animal prefere temperaturas de 37 °C, que normalmente são fatais para o C. elegans, mas permitem que o verme-do-diabo se reproduza alegremente a cada dois dias.

Imagem de verme fino em preto e branco

Crédito,Gaetan Borgonie/Extreme Life Isyensya

Legenda da foto,Os cientistas encontraram várias espécies de nematoides na mina de ouro Beatrix, na África do Sul

Adaptações para maior resiliência

Estudar uma espécie examinando apenas os descendentes de um único indivíduo é um desafio, especialmente quando eles ficam longe do seu habitat natural por tanto tempo.

Mas Bracht encontrou indicações de como o verme sobrevive nas profundezas da crosta terrestre.

Ele e seus colegas sequenciaram o DNA do verme-do-diabo em 2019.

Os cientistas encontraram números incomumente altos de genes produtores de proteínas de choque térmico — moléculas que protegem outras proteínas contra lesões causadas por temperaturas extremas.

Mais recentemente, em 2024, a equipe de Bracht examinou outra molécula chamada citocromo c oxidase, que é importante para o consumo de oxigênio para a manutenção da vida.

Com uma série de experimentos, Bracht descobriu que a citocromo c oxidase do verme-do-diabo só funciona sob altas temperaturas.

À temperatura ambiente, a molécula se desliga, reduzindo a geração de energia. Isso explica por que os vermes são tão letárgicos nessas condições.

Imagens de microscópio em preto e branco de diversos tipos de formas de vida multicelulares, com diferentes formas e tamanhos

Crédito,Gaetan Borgonie, Extreme Life Isyensya, Bélgica

Legenda da foto,A diversidade da vida multicelular nas minas profundas é surpreendente e inclui diversos tipos de vermes

Bracht acredita que o desligamento possa ser uma tática de sobrevivência.

"Eles estão garantindo que irão se reproduzir mais no ambiente melhor, mais quente", explica ele.

O pesquisador estuda atualmente se a reprodução partenogênica do verme-do-diabo também é um instrumento de sobrevivência.

Bracht especula que talvez existam vermes-do-diabo machos que ainda não foram encontrados. Eles permitiriam a reprodução sexuada quando os indivíduos se encontram.

Mas, como os animais podem não encontrar com frequência outros da sua espécie na vastidão do mundo subterrâneo, este tipo de reprodução assexuada, às vezes, pode ser sua única forma de gerar descendentes.

De qualquer forma, os vermes demonstram sua capacidade de adaptação.

Acredita-se que a reprodução assexuada tenha um custo, pois ela não cria a diversidade genética saudável que resulta da mistura de material genético quando machos e fêmeas se acasalam. É por isso que muitos cientistas consideram que as espécies que se reproduzem assexuadamente estão condenadas à extinção.

"Em qualquer lugar onde você encontrar uma fonte de alimento e houver a possibilidade de animais chegarem até lá, os nematoides irão evoluir para ocupar aquele nicho."

Como o verme-do-diabo chegou tão fundo

Como estas formas de vida chegaram até ali é um mistério.

As pesquisas de Borgonie e da geobióloga Cara Magnabosco, do Instituto Federal de Tecnologia (ETH, na sigla em alemão) de Zurique, na Suíça, indicam que pelo menos alguns nematoides se movem da superfície para regiões mais profundas pela água, talvez com o auxílio dos tremores da atividade sismológica.

Ao todo, Magnabosco e outros estimam que os micróbios da biosfera profunda representam uma parcela considerável da vida no planeta, respondendo por 12% a 20% da biomassa total dos micróbios da Terra.

Já em relação às bactérias, muitas delas podem estar nas profundezas há muito mais tempo.

Um estudo de 2021 da geomicrobióloga Maggie Lau e seus colegas do Instituto de Engenharia e Ciências do Mar Profundo, na China, descobriram que a bactéria Desulforudis audaxviator encontrada nas profundezas da Terra em três continentes é geneticamente quase idêntica, mesmo sem nunca ter sido identificada na superfície.

Ela e seus colegas calculam que a bactéria pode estar na crosta da Terra desde a fragmentação do supercontinente Pangeia, que começou cerca de 165 milhões de anos atrás, quando os dinossauros dominavam o mundo.

O estudo da biosfera das profundezas poderá nos ajudar a compreender melhor em que condições surgiram os primeiros seres vivos, segundo os especialistas.

E, se um asteroide mortal atingir a Terra e esterilizar sua superfície, a vida poderá surgir novamente das criaturas que habitam as profundezas do planeta.

"Como seres humanos, achamos que governamos o mundo, mas não é verdade", destaca a cientista ambiental Esta van Heerden, da empresa sul-africana de biorremediação iWater. Ela fez parte da equipe que descobriu o verme-do-diabo.

"Para mim, foi uma extrema lição de humildade compreender que eles estão aqui há milhões, talvez bilhões de anos e permanecerão por muito mais tempo que nós."

O que o IPCC pode aprender com Alfred Russel Wallace, a Coevolução e as Redes Ecológicas em 2026? Por Egidio Guerra



Resumo
 

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) enfrenta em 2026, durante a elaboração do Sétimo Relatório de Avaliação (AR7), o desafio de incorporar a complexidade das interações ecológicas e evolutivas em seus modelos de impactos climáticos. Este artigo argumenta que o legado de Alfred Russel Wallace — cofundador da teoria da seleção natural, pioneiro da biogeografia e estudioso das interações entre clima, geografia e distribuição das espécies — oferece lições fundamentais para o IPCC. Wallace compreendeu, há mais de um século, que a distribuição da vida é moldada por mudanças climáticas passadas, migrações, extinções e coevolução em redes ecológicas. Em 2026, com o avanço da ecologia de redes e a urgência da crise climática, o pensamento wallaceano — integrador, histórico, biogeográfico e sistêmico — pode ajudar o IPCC a superar suas limitações atuais e a construir cenários mais realistas sobre os impactos das mudanças climáticas sobre a biodiversidade e as sociedades humanas. 

Palavras-chave: Alfred Russel Wallace; IPCC; coevolução; redes ecológicas; mudanças climáticas; biogeografia; seleção natural. 

 

1. Introdução 

Em 2026, o IPCC encontra-se em um momento crucial de seu ciclo de avaliação. A Reunião de junho sobre Clima, em Bonn, deu continuidade aos trabalhos do Sétimo Relatório de Avaliação (AR7), que inclui contribuições dos três Grupos de Trabalho, além de relatórios especiais sobre Cidades e sobre Fatores indutores Climáticos de Curta Duração. O AR6 já havia estabelecido, com alta confiança, que a influência humana sem precedentes está perturbando o sistema climático, causando impactos permanentes e, em alguns casos, irreversíveis. 

Contudo, persiste uma lacuna significativa na biologia das mudanças climáticas: o estudo das respostas evolutivas em organismos complexos e de longa vida. O IPCC reconhece que populações microbianas podem se adaptar rapidamente a mudanças ambientais, mas a compreensão dos efeitos das mudanças climáticas sobre a coevolução em redes ecológicas — interações planta-polinizador, predador-presa, hospedeiro-parasita — ainda é incipiente.

Argumentamos que Alfred Russel Wallace (1823-1913), cujo trabalho integrou biogeografia, evolução, clima e geologia, oferece um quadro conceitual que pode enriquecer a abordagem do IPCC. Wallace não foi apenas o codescobridor da seleção natural; ele foi, como observam Carmo, Bizzo e Martins, um dos primeiros a compreender que a "distribuição geográfica dos seres vivos" é o resultado de "todas as mudanças anteriores, tanto da superfície da Terra quanto de seus habitantes". Essa visão histórica e integradora é precisamente o que falta nas avaliações do IPCC quando se trata de biodiversidade e ecossistemas.


2. Biografia de Alfred Russel Wallace 

Alfred Russel Wallace nasceu em 8 de janeiro de 1823, em UskMonmouthshire, País de Gales, em uma família de classe média que enfrentou dificuldades financeiras. Autodidata, Wallace desenvolveu desde cedo um profundo interesse pela história natural, influenciado pelas leituras de obras como Vestígios da História Natural da Criação e pelos relatos de viajantes naturalistas.

Sua carreira profissional começou como agrimensor, mas logo se voltou para a coleta de espécimes. Entre 1848 e 1852, realizou sua famosa expedição à Amazônia, seguida, entre 1854 e 1862, por uma viagem pelo Arquipélago Malaio, que o consagraria como um dos maiores naturalistas do século XIX.

Foi durante um acesso de malária nas Ilhas Molucas, em fevereiro de 1858, que Wallace teve a "revelação" que o levaria à formulação independente da teoria da seleção natural. Ele enviou seu manuscrito a Charles Darwin, desencadeando a apresentação conjunta de seus trabalhos na Linnean Society de Londres em 1º de julho de 1858.

Wallace foi, contudo, muito mais que o "outro cara" da evolução. Ele dedicou grande parte de sua vida à biogeografia, publicando obras monumentais como A Distribuição Geográfica dos Animais (1876) e A Vida nas Ilhas (1880), nas quais explorou evidências de mudanças climáticas passadas e migrações de espécies. Foi também um ativo defensor do espiritualismo, do socialismo e dos direitos das mulheres — um pensador cuja "concepção interdisciplinar da evolução no espaço e no tempo" continua a inspirar a ciência da biodiversidade.

Jason Roberts, em Todos los seres vivos, recupera a figura de Wallace como um viajante incansável e um pensador original, cuja trajetória frequentemente foi ofuscada pela sombra de Darwin. Roberts mostra como Wallace, diferentemente de Darwin, construiu sua teoria a partir da observação direta da distribuição geográfica das espécies nos trópicos — uma abordagem que o levou a compreender a evolução não apenas como um processo temporal, mas também espacial. Gerard Helferich, em O Cosmos de Humboldt, situa Wallace na tradição de Alexander von Humboldt, para quem a natureza era um todo integrado, no qual clima, geologia, solo e vida se interconectam. Wallace herdou essa visão sistêmica e a aplicou à biogeografia e à evolução.

Sunil Amrith, em The Burning Earth, oferece um contraponto contemporâneo: a história ambiental do planeta é também uma história de exploração e desigualdade. Amrith mostra que as mudanças climáticas não são um fenômeno novo, mas que a escala e a velocidade das transformações atuais são inéditas — exatamente o que Wallace, com sua sensibilidade histórica, provavelmente reconheceria como o maior desafio já enfrentado pela vida na Terra.


3. A Viagem ao Brasil e sua Importância Científica

Entre 1848 e 1852, Wallace embarcou em uma expedição à Amazônia com o amigo Henry Walter Bates, que se tornaria um dos principais entomologistas da época. A viagem, documentada em seu livro Viagens pela Amazônia e Rio Negro (1853), foi marcada por perigos, doenças e descobertas.

Wallace coletou milhares de espécimes de aves, insetos, peixes e plantas, muitos dos quais nunca haviam sido descritos pela ciência. Mais importante, ele observou padrões de distribuição geográfica que o intrigaram profundamente: por que certas espécies apareciam em uma margem do rio e não na outra? Por que a fauna da Amazônia oriental era diferente da ocidental? Essas perguntas o levaram a formular as primeiras hipóteses sobre o papel das barreiras geográficas na especiação. 

A viagem ao Brasil também teve um desfecho trágico: no retorno à Inglaterra, o navio em que Wallace viajava pegou fogo, e ele perdeu quase toda a sua coleção, incluindo diários e desenhos. Apesar dessa perda, Wallace conseguiu reconstituir parte de suas observações e publicar seus resultados, que já continham os germes de suas futuras contribuições à biogeografia e à teoria evolutiva.

A importância da viagem ao Brasil para a ciência de Wallace é tripla: primeiro, ela o expôs à imensa biodiversidade tropical e à complexidade dos padrões de distribuição; segundo ela lhe forneceu o método comparativo que aplicaria posteriormente no Arquipélago Malaio; terceiro, ela plantou as sementes de sua compreensão de que a geografia e o clima são os principais moldadores da evolução da vida. 


4. O que é Especiação e por que Wallace falou mais sobre a Origem das Espécies do que Darwin?

Especiação é o processo evolutivo pelo qual novas espécies surgem a partir de populações ancestrais, geralmente como resultado de isolamento reprodutivo e divergência adaptativa. Embora Darwin tenha dedicado grande parte de A Origem das Espécies (1859) à demonstração da descendência com modificação, ele não ofereceu uma teoria clara sobre como as espécies realmente se formam — o que ficou conhecido como o "mistério dos mistérios".

Wallace, ao contrário, dedicou-se intensamente ao problema da especiação, especialmente em seu trabalho biogeográfico. Ele compreendeu que a distribuição geográfica das espécies era a chave para entender como novas espécies surgem. No Arquipélago Malaio, Wallace observou que ilhas próximas, com climas e terrenos semelhantes, abrigavam faunas completamente diferentes, separadas por estreitos profundos. Essa observação o levou a propor que barreiras geográficas — como oceanos, cadeias de montanhas e rios — isolam populações, permitindo que elas evoluam independentemente.

Por que Wallace falou mais sobre a origem das espécies do que Darwin? Primeiro, porque Wallace era essencialmente um biogeógrafo: seu ponto de partida era a distribuição espacial da vida, não a domesticação ou a seleção artificial, como no caso de Darwin. Segundo, porque Wallace viveu mais tempo que Darwin e continuou a publicar sobre biogeografia e especiação até o final de sua vida, enquanto Darwin, após A Origem das Espécies, dedicou-se a outros temas, como a evolução humana e a expressão das emoções.

Como observam Carmo, Bizzo e Martins (2009), Wallace e Darwin chegaram à seleção natural por caminhos diferentes: Darwin pela analogia com a seleção artificial, Wallace pela observação da luta pela existência na natureza e da distribuição geográfica. Essa diferença de abordagem explica por que Wallace deu mais ênfase à especiação e à biogeografia, enquanto Darwin focou na descendência comum e na seleção natural como mecanismo geral.


5. Wallace, o Pai da Biogeografia

Wallace é justamente denominado o pai da Biogeografia porque elevou o estudo da distribuição geográfica dos seres vivos a um nível científico sem precedentes. Enquanto Darwin via a biogeografia como uma evidência acessória da evolução, Wallace a via como o próprio palco onde a evolução ocorria.

A principal contribuição de Wallace para a biogeografia foi a integração de dados geológicos, climáticos e biológicos em uma síntese coerente. Ele reconheceu que a distribuição das espécies não podia ser entendida sem considerar as mudanças climáticas passadas — glaciações, flutuações do nível do mar, alterações na vegetação. Em A Vida nas Ilhas (1880), Wallace explorou evidências de "mudanças climáticas massivas" e investigou a migração de espécies em resposta a essas mudanças.

Wallace também foi o primeiro a dividir o mundo em regiões biogeográficas — as chamadas "regiões wallaceanas" — que ainda hoje são utilizadas pela biogeografia moderna. Ele percebeu que a distribuição dos animais não seguia simplesmente as zonas climáticas ou os continentes atuais, mas refletia histórias evolutivas profundas, moldadas por eventos geológicos e climáticos do passado.

A importância dos estudos biogeográficos de Wallace para a ciência contemporânea é imensa. Como mostram Carmo, Martins e Bizzo (2012), Wallace estabeleceu as bases para a compreensão de que a biodiversidade atual é o resultado de processos históricos — migrações, extinções, especiações — que ocorreram em resposta a mudanças ambientais, incluindo mudanças climáticas.


6. O que o IPCC pode aprender com Wallace em 2026

6.1. A dimensão histórica e biogeográfica das mudanças climáticas

O IPCC, em seus relatórios de avaliação, tende a tratar as mudanças climáticas como um fenômeno principalmente futuro e quantitativo: projeções de temperatura, aumento do nível do mar, frequência de eventos extremos. Wallace nos lembra que as mudanças climáticas são, acima de tudo, processos históricos que já moldaram a distribuição da vida na Terra por milhões de anos.

Laura Poppick, em Strata: Stories from Deep Time (2025), nos ensina que "os sedimentos são como um poema épico da Terra". Wallace, em certo sentido, já lia esse poema: ele sabia que as glaciações do passado, as flutuações do nível do mar e as mudanças na vegetação haviam remodelado a biogeografia do planeta. O IPCC poderia se beneficiar de uma abordagem mais histórica, que incorpore não apenas cenários futuros, mas também lições do passado profundo — como as quatro grandes transformações descritas por Poppick: o acúmulo de oxigênio, as glaciações da "Terra Bola de Neve", a ascensão das plantas e o mundo-estufa dos dinossauros.

6.2. A coevolução e as redes ecológicas

Wallace foi um dos primeiros naturalistas a compreender a importância das interações ecológicas na evolução. Embora o termo "coevolução" só tenha sido cunhado muito depois, Wallace observou exemplos notáveis de adaptação recíproca — como a relação entre flores e insetos polinizadores, e entre presas e predadores.

Em 2026, a ecologia de redes avançou consideravelmente, mostrando que as comunidades ecológicas são redes complexas de interações — mutualismos, competições, parasitismos — cuja estabilidade depende da integridade de toda a teia. Estudos recentes demonstram que a arquitetura da rede desempenha um papel fundamental na coevolução e na adaptação, com consequências assimétricas para exploradores e vítimas.

O IPCC, no entanto, ainda não incorpora plenamente a dinâmica das redes ecológicas em seus modelos de impacto. Como mostram as avaliações do IPBES-IPCC, há uma lacuna significativa na integração entre biodiversidade e clima. Wallace nos ensina que a distribuição das espécies não é aleatória, mas reflete histórias de interação e coadaptação. Ignorar essas histórias significa subestimar os impactos das mudanças climáticas sobre a biodiversidade.

Carl Zimmer, em Air-Borne: The Hidden History of the Life We Breathe (2025), revela que o ar é um "ecossistema dinâmico e densamente povoado — o aerobioma". Wallace, que coletou insetos e estudou a dispersão de sementes pelo vento, certamente apreciaria essa visão do ar como um vetor de vida. O IPCC, ao focar nas emissões de gases de efeito estufa, frequentemente esquece que o ar também é um meio de dispersão de organismos — e que as mudanças climáticas afetam essa dispersão, alterando as redes ecológicas em escalas continentais.

6.3. A migração e o deslocamento como respostas às mudanças climáticas

Wallace dedicou grande atenção à migração de espécies como resposta a mudanças ambientais. Em A Vida nas Ilhas, ele mostrou como as flutuações do nível do mar durante as glaciações permitiram a migração de espécies entre continentes, moldando a biogeografia atual.

Jake Bittle, em The Great Displacement (2023), documenta que a migração climática não é uma ameaça futura, mas uma realidade presente: entre 2016 e 2020, mais de seis milhões de americanos perderam suas casas devido a desastres climáticos. Bittle mostra que as "consequências do aquecimento global são amplificadas por sistemas humanos frágeis" — exatamente o tipo de interação entre sistemas naturais e humanos que Wallace, com sua visão integradora, reconheceria.

O IPCC poderia aprender com Wallace a tratar a migração não como um fracasso da adaptação, mas como uma resposta evolutiva e ecológica a mudanças ambientais. Assim como as espécies migraram no passado em resposta a glaciações, as populações humanas estão migrando hoje em resposta a incêndios, furacões e elevação do nível do mar. A pergunta de Bittle — "para onde iremos?" — é também a pergunta que Wallace se fez ao observar a dispersão de espécies pelas ilhas do Arquipélago Malaio.

6.4. A água, o fogo e o poder: lições de Wallace para a governança climática

Wallace não foi apenas um naturalista; foi também um observador agudo das sociedades humanas e de suas relações com o ambiente. Ele denunciou a exploração colonial e defendeu reformas sociais — uma faceta de seu pensamento que o conecta às análises contemporâneas sobre justiça climática.

Jeff Goodell, em The Water Will Come, documenta a inevitável ascensão dos mares e a miopia do planejamento urbano. John Vaillant, em Fire Weather, narra o incêndio de Fort McMurray e aplica o "Problema de Lucrécio" para explicar a falha de imaginação das autoridades. Jonathan Blitzer, em Everyone Who Is Gone Is Here, revela como as intervenções geopolíticas geram ondas migratórias.

Wallace, que viveu em uma era de expansão imperial e exploração ambiental, certamente reconheceria a conexão entre poder, desigualdade e crise ecológica. Como observa Amrith em The Burning Earth, a história ambiental é também uma história de exploração e injustiça. O IPCC, ao avaliar impactos, vulnerabilidades e adaptação, precisa incorporar essa dimensão política — algo que Wallace, com sua sensibilidade social, provavelmente endossaria.

Robert Macfarlane, em Is a River Alive? (2025), nos convida a adotar uma "gramática de animação" — referir-se aos rios como "quem" em vez de "o quê". Wallace, que via a natureza como um todo integrado e vivo, certamente apreciaria essa perspectiva. O movimento dos Direitos da Natureza, que já reconheceu rios como o Whanganui, o Ganges e o Mutehekau Shipu como "entidades vivas", é uma extensão contemporânea da visão wallaceana de que a natureza não é um mero recurso, mas uma comunidade da qual fazemos parte.


7. Conclusão: Wallace, o IPCC e o futuro da vida na Terra

Em 2026, enquanto o IPCC avança na elaboração do AR7, enfrenta o desafio de integrar conhecimentos de disciplinas que Wallace já havia conectado há mais de um século: biogeografia, evolução, clima, geologia e ecologia. Wallace nos legou uma visão integradora da vida na Terra — uma visão que reconhece que a distribuição das espécies, sua evolução e sua extinção são moldadas por mudanças climáticas, eventos geológicos e interações ecológicas.

O que o IPCC pode aprender com Wallace? Pode aprender a historicizar as mudanças climáticas, reconhecendo que o presente é apenas o último capítulo de uma longa história de transformações ambientais. Pode aprender a espacializar seus modelos, incorporando a biogeografia e as redes ecológicas como variáveis centrais, não periféricas. Pode aprender a humanizar suas avaliações, reconhecendo que a migração, o deslocamento e a adaptação são respostas evolutivas a mudanças ambientais. E pode aprender a politizar suas conclusões, reconhecendo que a crise climática é também uma crise de poder, desigualdade e imaginação.

Wallace, em sua longa vida, testemunhou transformações profundas no conhecimento humano sobre a natureza. Ele viu a teoria da evolução ser aceita, a biogeografia se estabelecer como ciência e as primeiras evidências de mudanças climáticas induzidas pelo homem começarem a emergir. Em 2026, o IPCC tem a oportunidade de honrar esse legado, incorporando a visão wallaceana em seus relatórios e ajudando a construir um futuro em que a vida na Terra — em toda a sua diversidade e complexidade — possa não apenas sobreviver, mas florescer.

Como escreve Poppick, "os sedimentos são como um poema épico da Terra". Wallace leu partes desse poema. Cabe ao IPCC, em 2026, ler o poema inteiro — e agir de acordo.


Referências

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SILVA, Victor Rafael Limeira da. ALFRED RUSSEL WALLACE E OS MUNDOS AMAZÔNICOS: o natural e o humano no contexto das Ciências Naturais oitocentistas (1848-1852). Dissertação (Mestrado em História) — Universidade Federal de Campina Grande, 2015. 

VAILLANT, John. Fire Weather: A True Story from a Hotter World. New York: Knopf, 2023. 

ZIMMER, Carl. Air-Borne: The Hidden History of the Life We Breathe. New York: Dutton, 2025