SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Se não houver clamor, não haverá amor sem luta! Por Egidio Guerra.




Se não houver clamor, não haverá romance. Pode guardar isso no peito. Porque a história bonita, a que faz o coração pulsar e a mente se libertar, não se escreve com a caneta dos discursos vazios, mas com o sangue, o suor e a voz rouca de quem grita, ama e luta. 

Sabemos muito bem viver sós. A solidão é a moeda de troca do sistema que nos fragmenta. Mas temos a mais profunda das convicções: a luta da classe média assustada, do pobre esfomeado e do miserável invisível é a mesma luta. O que nos une não é a conta bancária, é a falta de horizonte. E quando acertamos as alianças — aquelas que não são de fachada, mas de trincheira — e quando a vontade de lutar incendeia o medo, a solução para a desigualdade, o racismo e o imperialismo deixarão de ser utopia e vira possibilidade. 

A história de cada grito de uma pessoa — o trabalhador que acorda às 4 da manhã, a mãe que enterra um filho na periferia, o jovem preto que desvia de bala perdida — esse grito solitário se aglomera. E dessa aglomeração nasce um romance libertário, a epopeia da luta de todos. 

Mas não adianta, não. Não adianta o discurso emocionado de uma esquerda de palanque que nunca pisou no barro, que fala sobre vidas das quais nada sabe, mas quer ditar as regras. Não adianta o choro fácil de quem vê a pobreza da sacada. É preciso descer, sujar as mãos e calar a boca para ouvir. Porque por trás do escudo do ICE de Trump e das botas dos bolsonaristas não existe apenas um político corrupto; existe uma suástica, sim, ou o brasão envelhecido das mesmas oligarquias e elites que sugam o Estado há séculos. 

Os avanços da direita sobre os setores populares são fábricas de desespero. O efeito dessa perda não é só econômico, é a aniquilação dos espaços seguros para a mente e para a voz. Mas é exatamente por isso, nesse beco sem saída aparente, que a hora de se revoltar é agora. Agora ou nunca. Agora ou a alma definha de vez. 

Diante desse inimigo comum — esse monstro de múltiplas cabeças que usa toga, farda, batina e terno — novos aliados surgem das cinzas. Necessitamos da ampla solidariedade do antifascismo no mundo. Necessitamos despertar a dócil multidão histérica que reza nas igrejas enquanto é metralhada nas periferias. Porque sem elas, sem os pobres e os crentes, as diversas formas de prostituição, exploração, submissão e os loucos, não venceremos a guerra. Eles estão além dos seus limites de forças. Estão além da resistência física. Estão beirando a insanidade. E com razão. Pois é de enlouquecer qualquer um diante da incompetência, da corrupção e da insensibilidade dos nossos governos, que são apenas as testas de ferro das mesmas oligarquias e elites que vivem do Estado e dos privilégios. 

É fácil ignorar o mal que nos cerca. É cômodo ver só a superfície. Mas nós, que enxergamos a escória, sabemos: eles são os responsáveis pelas maiores desigualdades, corrupção e injustiças do mundo. E contra eles, o romance da nossa revolta será escrito com letras garrafais, nas ruas, com o clamor de quem não tem mais nada a perder, a não ser a própria miséria. 

Lutar é preciso. Clamar é urgente. O romance virá. 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Ano do Cavalo de Fogo: o que significa a chegada dessa combinação poderosa do zodíaco chinês

 

Uma mulher ao lado de uma janela que tem a imagem de um cavalo

Crédito,Getty Images

    • Author,Sylvia Chang
    • Role,BBC News China
  • Tempo de leitura: 5 min

Cidades em toda a China se preparam para receber o Ano Novo Lunar em 17 de fevereiro, quando o signo do zodíaco passará do Ano da Cobra para o Ano do Cavalo.

Decorações temáticas de cavalo já são vistas em shoppings, mensagens festivas se espalham por outdoors e emojis de cavalos e envelopes vermelhos — símbolo de prosperidade e tradicionalmente usados para presentear com dinheiro durante a celebração — dominam as telas dos celulares.

O Ano Novo Lunar, também conhecido na China como Festival da Primavera, é celebrado durante um período de 15 dias, e se encerra com o Festival das Lanternas.

Para muitos chineses, a ocasião vai muito além de uma simples virada de calendário. É um momento em que todos se unem para enviar bençãos e renovar expectativas para o ano que começa.

Mas o que está por trás das tradições do Ano Novo Lunar, e por que o signo deste ano tem despertado tanta atenção?

Como funciona o zoodíaco chinês

Para entender o Ano do Cavalo de Fogo, é preciso desfazer dois mal-entendidos bem comuns.

Diferentemente do calendário gregoriano, o ano do zodíaco chinês não começa em 1º de janeiro. Ele segue um calendário tradicional lunissolar, baseado nos ciclos da Lua.

Por isso, o Ano Novo Lunar pode cair entre 21 de janeiro e 20 de fevereiro, geralmente na segunda lua nova após o solstício de inverno. Na prática, isso significa que dizer que "2026 é o ano do Cavalo" só vale a partir do início do novo ano lunar.

O segundo equívoco é achar que o zodíaco se repete a cada 12 anos. Isso é verdade apenas para o animal do ciclo, mas o sistema tradicional completo, de troncos e ramos, se repete a cada 60 anos.

Isso acontece porque cada ano combina um dos 12 animais do zodíaco com um dos 10 elementos — as versões de Yin e Yang de Metal, Água, Madeira, Fogo e Terra. Só depois de seis décadas a mesma combinação volta a aparecer.

A combinação deste ano é chamada de Bing Wu, que une o elemento Fogo em sua forma Yang ao signo do Cavalo.

Lanterna iluminada em formato de cavalo com asas de fogo

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Barcos decorados com lanternas iluminadas em forma de cavalo

O que o Cavalo de Fogo representa?

O Ano do Cavalo de Fogo é visto como uma combinação poderosa no zodíaco chinês. Enquanto o Fogo Yang simboliza energia, iniciativa e paixão, o cavalo está associado à independência e movimento.

Na cultura chinesa, expressões que fazem referência a cavalos costumam transmitir ideias de sucesso rápido, protagonismo e impulso contínuo — sobretudo em contextos profissionais.

Christian Yao, professor sênior da Escola de Administração da Universidade Victoria de Wellington, na Nova Zelândia, afirmou à BBC que expressões usando cavalos provavelmente aparecerão com frequência em discursos, apresentações e assuntos de e-mail no ambiente de trabalho ao longo de 2026.

Segundo ele, esse tipo de linguagem no ambiente de trabalho se tornou uma ferramenta sutil de governança, por meio da qual funcionários são estimulados a incorporar características associadas ao Cavalo de Fogo, como proatividade e agilidade.

Um homem vestido com um suéter vermelho observa uma série de objetos com imagens de cavalos pintadas neles.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Materiais contendo imagens de cavalos são frequentemente associados a conquistas profissionais

A comercialização do zodíaco chinês

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Embora tenha raízes em tradições milenares, o zodíaco chinês hoje é amplamente incorporado à cultura contemporânea, aparecendo em espaços urbanos, online e em campanhas de marcas.

Em várias cidades da China, celebrações do Ano Novo Lunar têm se transformado cada vez mais em grandes espetáculos visuais. Áreas comerciais, estações de transporte e edifícios emblemáticos passaram a incorporar símbolos do zodíaco em suas instalações e projetos de iluminação.

As imagens do zodíaco se tornaram um elemento comum em embalagens comerciais. Muitas marcas lançaram caixas de presente temáticas do Ano do Cavalo, enquanto as cores vermelhas e os motivos ligados ao animal aparecem em campanhas de marketing de produtos de luxo, cosméticos e do setor de alimentos e bebidas.

O Ano do Cavalo também ganhou destaque na inteligência artificial e no setor de tecnologia, sendo visto como um período em que a IA trará crescimento econômico e maior confiança nos investimentos.

Relatórios financeiros já fazem menções ao zodíaco chinês, como "capital acelerado no Ano do Cavalo" e "A indústria da IA galopa a passos largos", enquanto analistas argumentam que a incerteza econômica global pode criar oportunidades de crescimento apresentadas pelo Cavalo de Fogo.

Loja de brinquedos mostra uma fileira de cavalos de brinquedo vermelhos. Um deles está com um sorriso costurado de cabeça para baixo.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Um fábrica na China costurou acidentalmente o sorriso de um boneco de cavalo de cabeça para baixo, criando o que internautas apelidaram de "cavalo chorando". O erro viralizou

O êxodo do Ano Novo Lunar

Na China, milhões de trabalhadores só viajam para sua cidade natal uma vez ao ano, sendo o Ano Novo Lunar o principal evento para reuniões familiares.

Este ano, durante o feriado, é esperado um recorde de 9,5 bilhões de deslocamentos entre regiões do país. Esse êxodo anual é frequentemente descrito como a maior migração humana do mundo.

Embora o cavalo simbolize eficiência e rapidez, para muitos viajantes o período festivo traz à tona problemas no sistema de transporte chinês, com passagens escassas, custo alto de viagens e jornadas prolongadas para trabalhadores do setor de serviço.

Nas redes sociais, alguns usuários têm questionado quem realmente se beneficia da promessa de oportunidades e progresso associada ao Cavalo de Fogo.

Jovens fazem piadas sobre serem "cavalos mancos presos em aplicativos de compra de passagens", enquanto outros dizem não estar avançando por conta própria, mas sendo arrastados pelas circunstâncias.

Muitos jovens profissionais agora usam imagens de animais como uma forma de descrever suas vidas profissionais.

Em ambientes corporativos e institucionais, eles repetem slogans sobre velocidade, impulso e "sucesso a galope" no Ano do Cavalo. Por outro lado, se descrevem como "niuma" - literalmente "cavalo-boi", uma gíria usada para se referir a alguém sobrecarregado, tratado como um animal de carga.

"A coexistência dessas duas linguagens captura a tensão mais comum no ambiente de trabalho chinês atualmente: a necessidade de manter uma narrativa inspiradora em público, enquanto se admite, em privado, o esgotamento e a impotência", diz Yao.

O 'estranho' sistema planetário que desafia o conhecimento sobre como os planetas se formam

 

Ilustração de um sistema planetário distante no espaço sideral. Em primeiro plano, vê-se um planeta com uma superfície texturizada em tons de laranja e marrom. Atrás dele, três outros planetas de tamanhos e cores diferentes aparecem alinhados em fila. À extrema direita, uma estrela brilhante e luminosa, de cor laranja, ilumina a cena, projetando uma luz quente sobre o sistema.

Crédito,Agência Espacial Europeia

Legenda da foto,Representação artística do sistema planetário incomum ao redor da estrela LHS 1903 (distâncias e tamanhos não estão em escala)
    • Author,Daisy Stephens
    • Role,BBC World Service
  • Tempo de leitura: 5 min

Como os planetas se formam é uma das questões mais fundamentais sobre o nosso Universo. Os cientistas têm uma teoria que se alinha com o que vemos em nosso Sistema Solar, bem como em outros lugares do cosmos.

Mas agora um sistema planetário distante parece contradizê-la, de acordo com um artigo publicado na revista Science. A teoria diz que os planetas se originam de discos de gás e poeira que circundam estrelas jovens.

"O que acreditamos que acontece é que os planetas crescem acumulando essa poeira", disse Thomas Wilson, professor assistente de astronomia na Universidade de Warwick, no Reino Unido, e principal nome por trás do novo estudo.

"Eles começam a se juntar para formar pequenos grãos, que então colidem uns com os outros para formar corpos maiores chamados planetesimais e, eventualmente, esses corpos colidem para formar planetas."

Isso resulta na natureza rochosa de planetas como a Terra, bem como nos núcleos de gigantes gasosos como Júpiter.

Mas condições como temperatura e disponibilidade de certos materiais variam dependendo da distância da estrela, o que determina a composição externa do planeta.

"Nas regiões externas, onde é muito mais frio, além do que é chamado de linha de gelo, gases e gelos podem aparecer porque é frio o suficiente para que eles existam", disse Wilson.

Aqui, atmosferas densas podem se acumular e formar planetas gasosos, sem serem varridas pela radiação da estrela, de acordo com a Agência Espacial Europeia. Gigantes gasosos, como Júpiter, tendem a se formar nessas áreas.

Imagem de Júpiter mostra suas faixas ondulantes de nuvens bege, brancas e laranjas. A Grande Mancha Vermelha aparece como uma grande tempestade oval no canto superior direito, com tempestades menores e padrões de nuvens turbulentas visíveis por todo o planeta contra um fundo preto.

Crédito,Kevin M. Gill/NASA/JPL-Caltech/SwRI/MSSS

Legenda da foto,Apesar de ser um gigante gasoso, Júpiter possui um núcleo rochoso

Mais perto da estrela, no entanto, é mais quente e há mais poeira em comparação com o gás, resultando na formação de planetas rochosos como MercúrioVênus, Terra e Marte em nosso Sistema Solar.

É essa variação nas condições, juntamente com a suposição de que todos os planetas em um sistema se formam aproximadamente ao mesmo tempo, que significa que devemos esperar ver uma certa ordem de planetas orbitando estrelas: planetas rochosos mais próximos da estrela e planetas gasosos mais distantes.

Mas o sistema planetário descrito no novo estudo parece contradizer isso.

Um pedido incomum

LHS 1903 é uma pequena estrela anã vermelha do tipo M, localizada a cerca de 117 anos-luz do Sistema Solar. Ela é mais fria e menos brilhante que o Sol e é orbitada por quatro planetas.

No novo estudo, Wilson, com uma equipe internacional que abrange quase todos os continentes, analisou mais de perto o sistema estelar e descobriu que os três planetas mais internos seguiam o padrão esperado: o mais próximo da estrela é rochoso e os dois seguintes são gasosos.

Mas, usando observações do satélite Cheops, da Agência Espacial Europeia, eles descobriram que o quarto planeta era rochoso, apesar de ser o mais distante da estrela hospedeira.

"Esperávamos que fosse gasoso... por que é rochoso? Essa era a grande questão", disse o professor.

Impressão artística de um disco protoplanetário brilhante e giratório contra um fundo espacial negro, com luz laranja intensa concentrada no centro e faixas de poeira mais escuras espiralando para fora

Crédito,NASA-JPL

Legenda da foto,Os cientistas acreditam que os planetas se formam a partir de discos de gás e poeira que circundam estrelas recém-nascidas

Ele disse que a equipe vinha explorando possíveis explicações para a ordem dos planetas.

Entre as ideias consideradas, estava a de que a radiação da estrela poderia ter empurrado o gás para longe, ou que o planeta mais externo teria sido atingido por um objeto que dissipou sua atmosfera.

Mas a estrela não poderia ter empurrado o gás para longe do quarto planeta sem também fazer o mesmo com o segundo e o terceiro, e a modelagem sugeriu que qualquer impacto grande o suficiente para dissipar a atmosfera do planeta também o teria destruído.

Formação planetária de dentro para fora

Depois de descartar essas teorias, os cientistas consideraram se a composição "estranha" seria resultado da formação dos planetas um após o outro, em vez de simultaneamente.

"Se você forma esse planeta externo no que chamamos de ambiente esgotado ou reduzido, onde há menos recursos disponíveis, você pode facilmente produzir as propriedades desse planeta", disse Wilson.

Ele sugeriu que o sistema estelar pode já ter ficado sem gás quando o planeta externo se formou. "E assim, a conclusão a que chegamos é que pode haver esse mecanismo de formação de dentro para fora, no qual você forma primeiro o planeta mais próximo da estrela hospedeira, depois o próximo planeta, e assim por diante, até chegar ao planeta mais externo."

A ilustração artística mostra o Sol juntamente com os oito planetas do nosso Sistema Solar e uma representação de suas órbitas

Crédito,Agência Espacial Europeia/Silicon Worlds

Legenda da foto,Ilustração do Sistema Solar

A ideia de que os planetas se formam sequencialmente do mais próximo da estrela para o mais distante, com recursos cada vez mais escassos, é chamada de Formação Planetária de Dentro para Fora e foi proposta como uma teoria há mais de 10 anos.

Mas a ESA afirma que esta é a evidência mais convincente já encontrada de que isso realmente acontece.

'Todos os formatos e tamanhos'

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Wilson diz acreditar que talvez precisemos reavaliar a suposição de que todos os planetas de um sistema começam a crescer mais ou menos ao mesmo tempo, especialmente se esse for um padrão que observamos em outras partes do cosmos.

Essa revisão poderia ter impactos indiretos na compreensão do próprio Sistema Solar também. "Mercúrio se formou primeiro, depois Vênus, depois a Terra e Marte? Isso levanta questões sobre a cronologia do nosso próprio Sistema Solar."

Ele também disse que isso destaca que não devemos presumir que tudo o que acontece em nosso próprio Sistema Solar seja a norma.

"Existem esses tipos de planetas chamados super-Terras e sub-Netunos, e todos esses tipos exóticos que simplesmente não temos no Sistema Solar", disse ele.

"Temos que pensar que todos esses sistemas planetários alienígenas podem ter todos os formatos e tamanhos. Pode haver coisas lá fora que tenham um mundo mais habitável do que estamos pensando ainda, porque estamos muito centrados no Sistema Solar."