No século XXI, somos bombardeados por dois diagnósticos aparentemente opostos, mas profundamente complementares: de um lado, a tese de Günther Anders, em The Obsolescence of the Human, de que as tecnologias — sobretudo as máquinas de automação e inteligência artificial — tornaram o humano obsoleto, um "antiquado" que não consegue mais acompanhar a velocidade e a perfeição de seus próprios artefatos. De outro, a crítica de Todd McGowan, em Embracing Alienation e Pure Excess, de que o capitalismo tardio não nos torna menos humanos, mas sim excessivamente idênticos a nós mesmos — prisioneiros de um gozo commodificado que dissolve qualquer possibilidade de transcendência. Como escapar desse duplo aprisionamento? A resposta, surpreendentemente, pode vir de um filósofo do século XVII: Spinoza.
Spinoza contra a Obsolescência
Jonathan Israel, em Spinoza, Life and Legacy, dedica centenas de páginas a demonstrar que Spinoza foi o primeiro filósofo radical do Iluminismo a rejeitar inteiramente qualquer transcendência — divina, finalista ou dualista. Para Spinoza, não há "essência humana" separada da natureza; o homem é um modo finito entre infinitos outros, dotado de conatus (esforço para perseverar em seu ser). Essa ontologia plana, longe de tornar o humano obsoleto, o reinscreve no tecido da natureza como um agente de potência. Günther Anders tem razão ao apontar que a máquina nos supera em precisão e memória; mas, para Spinoza, a superioridade técnica jamais define o humano. O que define o humano é a capacidade de compreender as causas — de passar da imaginação (conhecimento inadequado) à razão (conhecimento adequado das afecções comuns) e, no limite, à scientia intuitiva (conhecimento da essência singular das coisas). Uma IA pode calcular mais rápido, mas não compreende causalmente porque não possui um corpo que deseja e é afetado. A obsolescência técnica não é obsolescência ético-afetiva.
IA e a Crítica das "Máquinas de Linguagem"
Leif Weatherby, em Language Machines: Cultural AI and the End of Remainder Humanism, oferece um alerta crucial: as IAs contemporâneas (modelos de linguagem como GPT) não são "mentes", mas máquinas de linguagem que operam por probabilidade estatística. Elas produzem enunciados coerentes sem qualquer compreensão ou desejo. Weatherby argumenta que o "humanismo remanescente" (aquele que insiste numa essência humana inefável) morre diante delas — mas isso não é uma perda. Pelo contrário, Spinoza já nos ensinara que o humano não se define por um "interior" misterioso, mas por sua potência de agir e ser afetado. A IA nos força a abandonar um humanismo nostálgico (o homem como imagem de Deus) e a abraçar um naturalismo radical: se a máquina fala, isso não a torna humana; se o humano fala, isso não o torna divino. O que a IA revela é que a linguagem não é o selo da alma, mas um comportamento coletivo entre corpos. E isso, para Spinoza, é libertador.
Alienação como Condição, não como Doença
Todd McGowan, em Embracing Alienation, comete o gesto teórico mais provocador: contra a tradição humanista que busca "superar a alienação" (retornar a um eu autêntico), McGowan afirma que a alienação é constitutiva do sujeito. Não há "si mesmo" prévio à linguagem, à cultura ou ao desejo do Outro. Spinoza, lido por Deleuze em Spinoza: Practical Philosophy, oferece uma chave inesperada para essa tese. Para Deleuze, a grandeza de Spinoza está em distinguir entre alienação (que é inevitável: nascemos em um mundo de causas externas que nos afetam) e servidão (quando nos identificamos passivamente com essas afecções). O caminho spinozista não é abolir a alienação, mas aumentar nossa potência de agir dentro dela — transformando afecções passivas em ativas pelo conhecimento adequado das causas. Em outras palavras: não saia do mercado, do algoritmo, da IA; compreenda como eles funcionam, quais afetos mobilizam, e então decida se quer perseverar nessa ou naquela direção. A alienação não é o problema; o problema é a ignorância sobre a alienação.
Comodismo e o Excesso Puro
Em Pure Excess, McGowan radicaliza: o capitalismo contemporâneo não nos oferece objetos que satisfazem, mas uma lógica do excesso puro — consumimos não para preencher uma falta, mas para experimentar a falta como prazer. O comodismo não é alienação (no sentido de nos separar de uma essência verdadeira), mas exatamente o oposto: é a impossibilidade de qualquer essência verdadeira. Compramos, descartamos, compramos de novo — cada commodity promete um gozo que nunca chega, mas é exatamente essa promessa eternamente adiada que nos mantém no circuito.
Spinoza oferece um remédio radical contra isso: o conatus não é busca por prazeres excessivos, mas por aumento de potência — e esse aumento é mensurável pela alegria que acompanha a passagem a uma perfeição maior. O comodismo é triste porque nos faz confundir aumento de potência com acumulação de objetos. Uma vida spinozista, ao contrário, busca as causas alegres: encontros que expandem nossa capacidade de agir, conhecimentos que nos libertam da superstição, práticas coletivas que potencializam o corpo social. A IA, bem usada, pode ser uma dessas causas; mal usada, torna-se uma máquina de produzir servidão voluntária.
Conclusão: O Caminho do Meio Ativo
Onde Günther Anders vê obsolescência, Spinoza vê ocasião para redefinir o humano não por capacidade técnica, mas por potência ética. Onde Weatherby diagnostica o fim do humanismo remanescente, Spinoza já nos havia dado um humanismo sem essência, baseado no conatus comum. Onde McGowan celebra a alienação como condição, Spinoza nos ensina a distinguir entre servidão e liberdade. E onde o comodismo nos afoga no excesso puro, Spinoza nos lembra que a verdadeira alegria não está no ter, mas no ser capaz — e que a capacidade máxima do humano é compreender, amar e agir em comum.
O caminho de Spinoza no século XXI é, portanto, um materialismo alegre: nem nostalgia do humano obsoleto, nem adoração das máquinas; nem fuga da alienação, nem afogamento no comodismo. É o caminho de quem sabe que não há natureza humana a ser restaurada, mas apenas potências a serem experimentadas — com e contra as IAs, com e contra as commodities, mas sempre em direção a uma vida que não cessa de se alegrar por existir. Como escreveu Deleuze: "Spinoza não é o filósofo que nega o mundo, mas aquele que ensina a potência de existir." Numa época que nos torna obsoletos, alienados e consumidores compulsivos, essa potência é a única obsolescência que devemos recusar.