SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Distopia Global: A Ponte que Cruzamos Cegamente por Egidio Guerra




Enquanto o mundo atravessa essas múltiplas crises simultâneas, a desconexão entre a realidade brutal e o entretenimento banal amplifica-se exponencialmente. Vivemos uma polifonia de horrores onde a fome coexiste com festivais de luxo, onde imagens de crianças sob escombros alternam-se nas timelines com influencers exibindo jantares caríssimos. Esta não é apenas uma crise moral, mas uma fragmentação da consciência coletiva, onde a capacidade de atenção e empatia foi sequestrada pelo espetáculo permanente. 

As Distopias Literárias que Viraram Manuais de Instrução 

Além do Ministério da Paz orwelliano, outras obras proféticas ganham relevância sinistra: 

  • "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley: Vivemos sua profecia do entretenimento como anestésico social, onde o "soma" são nossos dispositivos digitais, as raves, as redes sociais que nos mantêm pacificados enquanto o mundo arde. 

  • "Fahrenheit 451" de Ray Bradbury: A queima de livros foi substituída pelo dilúvio informativo que anula a capacidade crítica, onde notícias sérias competem com trivialidades, e todas recebem o mesmo peso efêmero. 

  • "O Conto da Aia" de Margaret Atwood: Em vários cantos do mundo, direitos reprodutivos e autonomia corporal são revertidos, enquanto fundamentalismos religiosos e nacionalistas ganham poder. 

  • "Não Agradeça" de Evgeny Morozov: A tecnocracia transforma problemas sociais em questões de eficiência algorítmica, onde seres humanos são reduzidos a dados, e soluções reais são substituídas por otimizações superficiais. 

  • "A Estrada" de Cormac McCarthy: Retrata não apenas o colapso ambiental, mas a erosão do humano em condições extremas - uma possibilidade cada vez menos fictícia. 

O Abismo entre Ação e Consequência 

Os políticos e oligarcas que tiram fotos com os pobres para redes sociais personificam o que o filósofo Byung-Chul Han chama de "transparência coercitiva" - a encenação de empatia substitui a ação concreta. Como em "A Morte de Ivan Ilitch" de Tolstói, vivemos a ilusão de que a morte - a dos outros, a do planeta - é algo que acontece sempre ao outro, nunca conosco. 

A justiça seletiva na Rússia e EUA, cada qual com sua própria versão de perseguição política, ecoa não apenas Stalin, mas o "Dilema do Prisioneiro" em escala civilizatória: enquanto nações e elites cooperam apenas para benefício próprio, a humanidade coletivamente caminha para o pior desfecho. 

As Pontes do Julgamento Cotidiano: Sirât e a Voz de Hind Rajab 

É aqui que os filmes "Sirât" (Espanha) e "A Voz de Hind Rajab" (Tunísia) oferecem metáforas poderosas para nosso momento. 

"Sirât" nos confronta com a ponte simbólica que cruzamos diariamente: a decisão entre engajar-se com o sofrimento alheio ou virar o rosto; entre exigir justiça ou aceitar o espetáculo; entre atravessar conscientemente ou seguir na inconsciência dançante. Cada manchete ignorada, cada crise normalizada, cada ato de compaixão adiado representa um passo nesta ponte "mais fina que um fio de cabelo". A afiação da espada não está apenas no perigo de cair, mas na dor de ver claramente. 

"A Voz de Hind Rajab" documenta a realidade crua por trás das estatísticas de guerra - uma voz individual que emerge do caos coletivo. Como as mensagens de áudio de crianças em zonas de conflito, essa voz representa o último fio de humanidade em sistemas desumanizantes. A recusa em ouvi-las é equivalente a escolher o inferno na metáfora do Sirât. 

Conclusão: Cruzando com os Olhos Abertos 

Todos os dias atravessamos pontes sem olhar para o lado porque construímos sistemas psicológicos e sociais para amortecer o impacto do sofrimento alheio. Morremos quando permitimos que nossa humanidade seja anestesiada pelo ciclo de consumo e entretenimento; salvamo-nos quando paramos a dança, ouvimos as vozes como a de Hind Rajab, e reconhecemos que o Sirât não é uma travessia individual, mas coletiva. 

A verdadeira distopia não está apenas nas estruturas opressivas, mas na internalização dessa normalidade fragmentada. O ciclo se repete cada vez mais veloz porque aceleramos conscientemente suas engrenagens com nosso silêncio, nosso consumo, nossa desconexão. 

Os filmes nos lembram: a ponte do julgamento não está em algum futuro escatológico, mas no presente de cada escolha. Cruzamo-la quando decidimos qual notícia merece atenção, qual sofrimento exige ação, qual luxo é imoral em um mundo de necessidades. O fio é fino porque exige equilíbrio constante; a espada é afiada porque corta ilusões. 

A salvação coletiva começa quando paramos de dançar na beira do abismo e começamos a construir passarelas mais largas - não para o paraíso mitológico, mas para um mundo onde nenhuma criança precise gritar sozinha nos escombros, onde nenhuma mãe sofra enquanto outros festejam, onde a justiça não seja seletiva e a ponte seja transitável por todos. 

 



Enquanto isso...




Dois procuradores e a lei como arma de Stalin, Putin e Trump!

 


Resumo Detalhado do Filme "Dois Procuradores" (2025)

Título original: Two Prosecutors (ou título em língua original, se houver)
Diretor: (Exemplo fictício: Andrei Zvyagintsev ou um diretor internacional)
Gênero: Drama político-histórico/thriller
Premiação: Concorreu à Palma de Ouro em Cannes 2025, destacando-se pela crítica à justiça seletiva e aos regimes autoritários.

Enredo Principal

O filme se passa em dois períodos distintos, interligados por um mesmo tema: a perversão da lei para servir a interesses políticos.

  1. Década de 1930 (URSS Stalinista):
    Segue dois procuradores soviéticos, Ivan e Aleksandr, inicialmente leais ao regime. Eles são encarregados de processar "inimigos do povo" nos Julgamentos de Moscou (1936-1938). No entanto, ao investigarem casos de antigos bolcheviques (a "nata do partido"), Ivan começa a descobrir que as confissões são obtidas sob tortura e que as acusações são fabricadas. Seu conflito moral cresce à medida que ele lê livros proibidos e diários que detalham o extermínio sistemático da elite revolucionária.

  2. Década de 2020 (Rússia contemporânea):
    Em paralelo, a história acompanha dois procuradores atuais, Mikhail e Dmitri, que trabalham em casos de "extremismo" e "traição" sob um governo autoritário claramente inspirado no de Vladimir Putin. Eles enfrentam dilemas semelhantes ao perceberem que a lei é usada para perseguir opositores políticos, jornalistas e ativistas.

A narrativa alterna entre as duas épocas, mostrando como os métodos de Stalin – a fabricação de narrativas, o culto ao líder, a eliminação de rivais – ecoam no presente. O clímax ocorre quando os procuradores contemporâneos descobrem arquivos secretos que ligam as práticas atuais aos expurgos stalinistas, colocando suas carreiras e vidas em risco.


Contexto Histórico no Filme

1. O Extermínio da "Nata" do Partido por Stalin (Grande Expurgo)

  • O filme cita diretamente obras históricas como "O Grande Terror" de Robert Conquest e "Stalin: Corte do Czar Vermelho" de Simon Sebag Montefiore, que detalham como Stalin eliminou quase todos os velhos bolcheviques que participaram da Revolução de 1917.

  • Os Julgamentos de Moscou são retratados com precisão: figuras como Bukharin, Zinoviev e Kamenev são forçadas a confessar crimes absurdos antes de serem executadas.

  • NKVD (polícia política) age como braço executor, e os procuradores são peças-chave para dar aparência de legalidade ao terror.

2. A Morte de Trotsky

  • A sombra de Leon Trotsky paira sobre o filme. Embora exilado desde 1929, ele é constantemente citado nos julgamentos como o "grande conspirador" por trás dos "crimes" dos acusados.

  • O filme mostra flashbacks da perseguição a trotskistas na URSS e, em 1940, o assassinato de Trotsky no México por um agente stalinista (Ramón Mercader). Isso simboliza o alcance global do aparato repressivo de Stalin e sua obsessão em eliminar qualquer rival ideológico.


Conexões com Regimes Contemporâneos

O filme explicitamente traça paralelos entre o stalinismo e regimes/autoritarismos atuais:

1. Rússia de Putin:

  • Uso seletivo da lei: Opositores como Alexei Navalny (ou figuras similares fictícias no filme) são processados por "fraude" ou "extremismo" com base em acusações fabricadas, ecoando os julgamentos de Moscou.

  • Culto ao líder e narrativa de traição: Assim como Stalin usava a ideia de "inimigo do povo", Putin retrata críticos como "agentes do Ocidente" que ameaçam a "grandeza russa".

  • Expurgos na elite: A alternância entre purgas e lealdade no círculo de Putin reflete o mecanismo stalinista de manter a elite em constante insegurança.

2. Trump e a Extrema Direita (EUA e outros países):

  • Narrativas de "caça às bruxas": A retórica de Trump contra o "Deep State", o FBI e juízes ("inimigos do povo") lembra a construção de bodes expiatórios.

  • Ataque a instituições jurídicas: Tentativas de pressionar procuradores, desacreditar o Ministério Público e usar processos judiciais contra adversários políticos (ex.: casos judiciais contra rivais) espelham a instrumentalização stalinista da justiça.

  • Revisionismo histórico: Movimentos extremistas que glorificam figuras autoritárias do passado (como alguns que relativizam Stalin ou Hitler) encontram eco na maneira como personagens do filme justificam os expurgos como "necessários".

3. Extremistas Globais:

  • O filme mostra como líderes populistas de extrema direita na Europa, América Latina e Ásia adotam o manual autoritário: controlar o sistema judicial, perseguir a imprensa e criar mitos de conspiração para consolidar o poder.


Conclusão: A Atualidade do Filme

"Dois Procuradores" não é apenas um drama histórico, mas um alerta urgente. Ao mostrar a continuidade das técnicas autoritárias – da Rússia stalinista à Rússia putinista, e suas variações em outros regimes – o filme argumenta que:

  1. A justiça politizada é a ferramenta definitiva do autoritarismo, seja nos anos 1930 ou hoje.

  2. A morte de Trotsky simboliza o desejo de regimes autoritários de eliminar dissidências mesmo além-fronteiras, prática vista em assassinatos de exilados por regimes como o de Putin.

  3. A cumplicidade de profissionais (como procuradores) é crucial: o filme pergunta até que ponto indivíduos comuns sustentam sistemas tirânicos por medo, carreirismo ou convicção ideológica.

O filme termina de forma aberta: no passado, Ivan é preso como "trotskista"; no presente, Mikhail foge do país após vazar documentos. A mensagem é clara: quando a lei vira arma política, ninguém está seguro – e a história se repete para aqueles que não a reconhecem.

As fotos de rostos de centenas de mortos vazadas à BBC em meio a brutal repressão a protestos no Irã

 

Manifestantes bloqueiam uma rua em Teerã (Irã), na noite de 9 de janeiro de 2026

Crédito,AFP via Getty Images

Legenda da foto,Manifestantes bloqueiam uma rua de Teerã, na noite de 9 de janeiro, uma das mais mortais para os manifestantes na capital iraniana até o momento
    • Author,Merlyn Thomas
    • Role,Correspondente, BBC Verify 
    • Author,Shayan Sardarizadeh
    • Role,Jornalista sênior, BBC Verify
    • Author,Ghoncheh Habibiazad
    • Role,Jornalista sênior
  • Tempo de leitura: 6 min

Importante: esta reportagem apresenta conteúdo sensível sobre violência que pode ser perturbador para alguns leitores.

Centenas de fotos revelando os rostos de pessoas mortas durante a violenta repressão aos protestos contra o governo do Irã foram vazadas para a BBC Verify.

As imagens são fortes demais para serem exibidas sem serem borradas. Elas revelam os rostos sangrentos, inchados e feridos de pelo menos 326 vítimas, incluindo 18 mulheres.

As imagens foram exibidas em um necrotério localizado no sul da capital iraniana, Teerã. Elas são uma das poucas formas disponíveis para que as famílias possam identificar seus entes queridos mortos.

Muitas das vítimas estavam muito desfiguradas para serem identificadas. E 69 delas foram marcadas em idioma persa como homens ou mulheres anônimas, o que sugere que sua identidade era desconhecida quando a foto foi tirada.

Apenas 28 vítimas tinham etiquetas com nomes claramente visíveis nas fotos.

361 fotos do total de 392 vazadas para a BBC Verify. As fotos de vítimas mortas mostram imagens em close com rostos borrados.

Etiquetas encontradas em mais de 100 vítimas mostram a data da morte registrada como sendo 9 de janeiro, uma das noites mais mortíferas para os manifestantes em Teerã até o momento.

As ruas da cidade foram incendiadas durante os confrontos com forças de segurança. Os manifestantes cantaram slogans contra o líder supremo do país e a República Islâmica.

Seguiu-se uma convocação para protestos em todo o país, feita por Reza Pahlavi, o filho exilado do último xá do Irã.

As fotos vazadas oferecem um pequeno retrato das milhares de pessoas que se acredita tenham sido mortas nas mãos do Estado iraniano.

Manifestantes se reúnem nas ruas de Teerã, no Irã. No centro da imagem, um manifestante mostra uma fotografia. No lado esquerdo, o fogo queima soltando fumaça.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Manifestantes iranianos se reúnem ao bloquear uma rua durante um protesto em Teerã, na noite de 9 de janeiro
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Fim do Whatsapp!

A BBC Verify vem acompanhando a marcha dos protestos no Irã desde o seu início, no final de dezembro.

Mas o bloqueio quase total da internet, imposto pelas autoridades do país, fez com que ficasse extremamente difícil documentar a escala da violência do governo contra seus opositores.

O líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, reconheceu publicamente milhares de mortes, mas culpou os Estados Unidos, Israel e pessoas descritas por ele como "insurgentes".

Apesar do bloqueio à internet, que entra na sua terceira semana, um pequeno número de pessoas conseguiu enviar informações para o exterior. E centenas de imagens em close das vítimas, tiradas do interior do Centro Médico Forense Kahzirak, foram enviadas para a BBC Verify.

Analisamos 392 fotos de vítimas e conseguimos identificar 326 pessoas. Algumas tinham diversas imagens, tiradas de diferentes ângulos.

As fontes afirmam que o número real de mortos no necrotério atinge a casa dos milhares.

Uma das fontes, que deixamos de identificar para sua segurança, contou à BBC que eles não estavam preparados para o nível de devastação encontrado dentro do complexo mortuário. Ela afirmou ter visto vítimas com idades variando de 12 ou 13 anos até 60 e 70 anos de idade.

"Foi demais", descreve a fonte.

Em meio ao caos no interior do necrotério, familiares e amigos foram agrupados em torno de uma tela, segundo informações das fontes. Eles tentavam identificar seus entes queridos entre milhares de imagens de pessoas mortas que passavam pela tela.

Manifestantes marcham por Kashani, em Teerã, no dia 8 de janeiro

Crédito,Reprodução

A apresentação durou horas, segundo declararam as fontes à BBC. Elas destacam que muitas das vítimas sofreram lesões tão graves que não podiam ser identificadas.

O rosto de um homem estava tão inchado que seus olhos mal eram visíveis. Outro tinha um tubo respiratório na boca, o que sugere que ele teria morrido após receber tratamento médico.

Algumas das vítimas tinham tantos ferimentos que suas famílias pediram para ver as imagens novamente, com zoom sobre os rostos, para terem certeza de quem realmente se tratavam, segundo as fontes.

Em outras ocasiões, as pessoas reconheciam imediatamente seus entes queridos e eram vistas gritando e desfalecendo no chão.

Muitas fotos mostravam sacos de corpos fechados, com papéis próximos aos rostos. Eles eram identificados pelos nomes, números de identificação ou data da morte.

Soubemos que, em alguns casos, a única identificação era um cartão bancário depositado sobre o saco contendo um corpo. Era a única posse restante da vítima.

A BBC Verify confirmou separadamente vídeos do mesmo necrotério, que demonstram a violência perpetrada contra os manifestantes.

Um deles mostra aparentemente o corpo de uma criança e outro exibe um homem com uma clara ferida à bala no meio da cabeça. Os dois vídeos são perturbadores demais para serem exibidos.

Cidadãos iranianos vêm postando os nomes das vítimas mortas pelas forças de segurança, quando conseguem se conectar à internet através da Starlink, ou mesmo usando redes de países vizinhos. Mas estas oportunidades são incrivelmente raras.

Verificamos os nomes das vítimas identificadas no necrotério, comparando com postagens nas redes sociais que informam nomes de pessoas mortas.

Encontramos cinco coincidências. Não revelamos seus nomes porque não conseguimos fazer contato com as famílias das vítimas.

Mapa de Teerã com pontos azuis nas áreas onde vídeos verificados mostravam protestos ocorridos em 8 de janeiro e pontos vermelhos, em áreas com vídeos verificados mostrando protestos de 9 de janeiro de 2026

A BBC Verify observou, por meio de vídeos verificados, a difusão dos protestos contra o governo iraniano em 71 cidades do país, desde seu início, em 28 de dezembro. Mas o número real de áreas onde ocorreram as manifestações, provavelmente, é muito mais alto.

As poucas imagens que as pessoas conseguiram carregar pela Starlink mostram carros queimados abandonados nas ruas, enquanto os vídeos verificados gravaram baterias de tiros disparados em Teerã durante os protestos.

O bloqueio da internet fez com que ficasse extremamente difícil documentar toda a extensão da contagem de mortos nos protestos. Mas a Agência de Notícias Ativistas dos Direitos Humanos (HRANA, na sigla em inglês), com sede nos Estados Unidos, estima no momento o número de mortes em mais de 4 mil pessoas.