SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Discurso de Formatura USP Clóvis de Barros Filho


 

Mc Sid - Brasil de Quem: Até Quando? (Prod. Lerym)


 

La magica poesia di Roberto Bolle e Joan Thiele


 

A caverna no Novo México que está expandindo nossa busca por vida fora da Terra.

 

Pessoa de pé, dentro de uma caverna

Crédito,Lars Behrendt

    • Author,Jasmin Fox-Skelly
    • Role,BBC Earth
  • Tempo de leitura: 9 min

Quando a bióloga especializado em cavernas Hazel Barton se aventurou na escuridão, a última coisa que ela esperava encontrar eram organismos extraindo energia da luz.

Ela percebeu que esta nova compreensão da fotossíntese no escuro significava que a vida pode existir em outras partes do Universo — em locais onde nunca pensamos que seria possível.

"A parede era verde brilhante", conta Barton, professora de ciências geológicas da Universidade do Alabama, nos Estados Unidos.

"Era o verde mais iridescente que você iria ver na vida. E, ainda assim, os micróbios viviam em completa escuridão."

Entre os profundos cânions rochosos do deserto de Chihuahua, no sul do Novo México (Estados Unidos), fica uma rede de 119 cavernas. 

Elas se formaram entre quatro e 11 milhões de anos atrás, quando o ácido sulfúrico dissolveu as rochas calcárias. Hoje, elas fazem parte do Parque Nacional das Cavernas de Carlsbad, Patrimônio Mundial da Unesco.

A caverna de Carlsbad é a principal atração do parque. Nela, estalactites brilhantes descem do teto do Grande Salão, uma enorme câmera subterrânea com quase 1.220 metros de comprimento por 191 metros de largura.

"O acesso à caverna de Carlsbad é muito simples", explica o microbiólogo Lars Behrendt, da Universidade de Uppsala, na Suécia.

"É uma enorme caverna de calcário aberta para os turistas. Ela tem degraus e escadas e qualquer pessoa pode descer." E algumas partes da caverna contam ainda com acesso para cadeira de rodas, segundo ele.

Quase 350 mil pessoas visitam a caverna de Carlsbad todos os anos. Mas a maioria delas não tem conhecimento de que o local é o cenário de uma das descobertas científicas mais desconcertantes da última década.

No escuro aparentemente total, os micróbios conseguem usar a luz para obter energia — o mesmo tipo de luz fornecido pelas estrelas anãs vermelhas, o tipo mais comum da nossa galáxia.

Isso significa que podemos procurar vida extraterrestre em mais lugares do que pensávamos, segundo Barton.

Behrendt havia recém concluído seu PhD em 2018. Na mesma época, ele também ganhou um prêmio acadêmico, que lhe rendeu algum dinheiro.

Ele, então, entrou em contato com Barton e perguntou se ela poderia acompanhá-lo em uma expedição. Felizmente, ela concordou.

"A primeira coisa que você faz na caverna de Carlsbad é meio que descer pela trilha dos turistas e, depois, virar em um dos cantos", explica Barton.

"Não sei quantas vezes fiz aquela trilha, provavelmente 40 vezes. Naquele ponto, você contorna o canto e, atrás de você, fica uma alcova completamente escura."

Barton estuda a vida microscópica em ambientes subterrâneos há mais de 20 anos. Mas o que aconteceu a seguir foi uma surpresa até mesmo para ela.

Behrendt acendeu uma tocha e, mesmo com a alcova totalmente escura, a luz revelou uma camada de micróbios verdes agarrados à parede.

Exames posteriores revelaram que aquelas eram cianobactérias, organismos unicelulares similares às bactérias.

E, ao contrário da maioria das bactérias, as cianobactérias (também conhecidas como algas verde-azuladas) usam a luz do Sol para produzir alimento.

Parede de caverna coberta de cianobactérias verdes

Crédito,Lars Behrendt

Legenda da foto,Pesquisadores encontraram espessos biofilmes verdes dentro das cavernas, mesmo na ausência de luz real

"Começamos a ir cada vez mais fundo na caverna", relembra Barton. "Chegamos a um ponto em que não conseguíamos enxergar sem usar lanternas."

"Precisamos de uma lanterna na cabeça para conseguir ver a nossa mão em frente ao rosto e, ainda assim, conseguíamos observar o pigmento verde na parede."

As plantas são verdes devido a uma substância chamada clorofila, que absorve a energia da luz. Na fotossíntese, esta energia é usada para transformar dióxido de carbono e água em glicose e oxigênio.

O processo é basicamente o mesmo nas cianobactérias. Mas aqui, na caverna, a luz do Sol não chega. O que estaria acontecendo?

As cianobactérias da caverna têm uma versão especial de clorofila que pode capturar um tipo de radiação conhecido como infravermelho próximo.

Esta luz tem um comprimento de onda maior que a luz visível e aparece no espectro eletromagnético pouco antes do infravermelho. Ela é imperceptível para o olho humano.

As plantas e cianobactérias usam a clorofila tipo a para a fotossíntese, mas as cianobactérias das cavernas de Carlsbad usam a clorofila d e f, que conseguem gerar energia a partir do infravermelho próximo.

Enquanto a luz visível só consegue atravessar algumas centenas de metros no interior das cavernas, o infravermelho próximo pode atingir distâncias muito maiores, devido à natureza reflexiva das rochas calcárias.

"A rocha calcária que compõe a caverna absorverá quase toda a luz visível, mas, para o infravermelho próximo, as cavernas são mais como um salão de espelhos", explica Barton.

De fato, quando os pesquisadores avaliaram a luz na parte de trás da caverna, onde é mais escuro, eles encontraram níveis de infravermelho próximo 695 vezes mais concentrados do que na entrada.

Paralelamente, embora as cianobactérias contendo clorofila d e f estivessem presentes em todas as partes da caverna, elas se concentravam particularmente nos locais mais escuros e profundos.

Os pesquisadores também visitaram outras cavernas do Parque Nacional das Cavernas de Carlsbad, fora do roteiro turístico. Em todos os casos, eles encontraram micróbios fazendo fotossíntese em locais subterrâneos profundos.

"Demonstramos não só que eles realmente vivem lá embaixo, mas que fazem fotossíntese em um ambiente totalmente protegido, onde provavelmente permaneceram intocados por 49 milhões de anos", segundo Behrendt.

Trilha para turistas na caverna de Carlsbad, nos Estados Unidos

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,A descoberta extraordinária ocorreu além da popular rota turística das cavernas de Carlsbad, nos Estados Unidos

Barton e Behrendt não foram os únicos cientistas a encontrar micróbios capazes de viver no escuro.

Em 1890, o pioneiro microbiólogo russo-ucraniano Sergei Nikolaevich Vinogradskii (1856-1953) descobriu que certos micróbios são capazes de viver apenas de matéria inorgânica, usando um processo denominado quimiossíntese.

Estes micróbios conseguem energia com reações químicas, retirando substâncias como metano ou sulfeto de hidrogênio da água e de rochas próximas.

Durante seu programa de pós-doutorado na Nasa, o professor e pesquisador Hideaki Miyashita descobriu, em 1996, uma cianobactéria marinha chamada Acaryochloris marina, que pode fazer fotossíntese usando luz visível e infravermelho próximo.

Esta descoberta gerou décadas de pesquisa em busca dos comprimentos de onda necessários para a fotossíntese.

Em 2018, cientistas do Imperial College de Londres encontraram cianobactérias vivendo de fotossíntese em condições de sombra, em esteiras bacterianas no Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos, e no interior de certas rochas nas praias da Austrália.

Eles chegaram a cultivar esse tipo de micróbios em um armário escuro, que recebeu LEDs de infravermelho.

Em todos esses casos, as cianobactérias usavam a clorofila a para realizar a fotossíntese usando luz visível e mudavam para clorofila f, para usar o infravermelho próximo, além do alcance da visão humana.

Estas descobertas tiveram repercussões em relação à possível aparência da vida em outros planetas.

Na busca por um exoplaneta habitável (em órbita de uma estrela em outro sistema solar), é importante considerar o tipo de estrela envolvida.

Os astrônomos tentam agrupar as estrelas pela cor da luz que elas produzem. Com isso, eles criaram sete classes de estrelas (O, B, A, F, G, K e M, em ordem decrescente de temperatura — da mais quente para a mais fria).

As estrelas do tipo O e B são as mais quentes, mais massivas e mais luminosas do Universo. Elas são caracterizadas pela sua cor branca azulada.

"Elas produzem muita radiação UV e, por isso, são tóxicas para a vida", segundo Barton.

Já as estrelas do tipo G, que incluem o nosso Sol, têm coloração amarela e produzem muita luz no espectro visível.

Teoricamente, as estrelas do tipo G seriam bons lugares para procurar mundos habitáveis, mas elas constituem apenas 8% de um total de um sextilhão (um bilhão de trilhões) de estrelas estimadas do Universo.

O tipo mais abundante de estrelas observadas na nossa galáxia, de longe, são as estrelas do tipo M, as anãs vermelhas. A maior parte dos exoplanetas rochosos descobertos até hoje foram encontrados orbitando este tipo de estrela.

Impressão artística do planeta Proxima b, orbitando a estrela anã vermelha Proxima Centauri

Crédito,Reuters

Legenda da foto,Impressão artística de um planeta orbitando uma estrela anã vermelha

Como as anãs vermelhas são estrelas de pouca massa, seus planetas tendem a ocupar órbitas próximas. Por isso, fica mais fácil identificá-los.

Outro motivo que levou os cientistas a descobrirem tantos exoplanetas orbitando estrelas M é porque elas existem em grande quantidade.

Mas, atualmente, acredita-se que as estrelas anãs vermelhas tenham uma zona habitável (a área mais próxima da estrela, onde as condições não são quentes nem frias demais para que exista água líquida na superfície do planeta) muito restrita.

Esta distância é conhecida como a "zona Cachinhos Dourados". E, como a existência de água líquida é essencial para a vida na Terra, os astrobiólogos se concentraram nessa região na sua busca pela vida extraterrestre.

Eles já encontraram dezenas de candidatos, mas nem todos esses planetas podem sustentar a vida. E direcionar equipamentos como o Telescópio Espacial James Webb (JWST, na sigla em inglês) consome tempo e recursos consideráveis.

Fileira de plantas

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Na Terra, a fotossíntese forma a base da maior parte das cadeias alimentares e fornece o oxigênio que respiramos

Outro fator importante que determina a possibilidade de existência de vida é se pode existir a fotossíntese.

Na Terra, a fotossíntese forma a base da maior parte das cadeias alimentares e fornece o oxigênio que respiramos.

Por isso, faz sentido limitar a busca a planetas que possam sustentar a fotossíntese, o que poderá reduzir dramaticamente a zona em torno de uma estrela onde pode existir vida.

No passado, os astrobiólogos definiam o limite da fotossíntese em um comprimento de onda de 700 nm no espectro da luz, equivalente à luz vermelha. É neste ponto que cai a eficiência da fotossíntese utilizando a clorofila a.

Mas as cianobactérias descobertas nos sistemas de cavernas de Carlsbad podem coletar luz em comprimentos de onda de 780 nm, utilizando clorofila f.

"A vasta maioria das estrelas da nossa galáxia é do tipo M e K", explica Barton.

"Isso significa que a maioria das estrelas da nossa galáxia emite luz infravermelha próxima e ainda não sabemos quase nada sobre como a fotossíntese e a vida poderiam sobreviver nestas condições de luz, produzidas por estrelas deste tipo."

A quarenta anos-luz de distância, dois planetas do tamanho da Terra passam em frente a uma estrela anã vermelha

Crédito,Nasa, ESA e G. Bacon (STScI)

Legenda da foto,A quarenta anos-luz de distância, dois planetas do tamanho da Terra passam em frente a uma estrela anã vermelha

Barton pretende mudar isso. Ao lado de Behrendt, ela apresentou à Nasa uma proposta para encontrar os limites de sobrevivência da vida fotossintética.

A tarefa incluiria pesquisas mais profundas nas cavernas mais escuras, para avaliar exatamente quanta luz é necessária para a sobrevivência das cianobactérias. Esta informação poderá, então, ser usada para restringir a busca por mundos habitáveis.

Com o JWST, por exemplo, os cientistas podem avaliar a quantidade e o tipo de luz recebida pelos exoplanetas.

"O que o nosso trabalho tenta fazer é descobrir qual é o comprimento de onda de luz mais longo e o menor nível de luz que possibilitam a fotossíntese", explica Barton.

"Depois, podemos pegar os 100 bilhões de possíveis estrelas para as quais podemos apontar o Telescópio Espacial James Webb e reduzir esse grupo para, digamos, 50 estrelas" que podem abrigar vida.

O estudo poderá fazer com que os astrobiólogos definam melhor o tipo de mundos que eles acreditam poderem sustentar a vida. Seria necessário apenas apontar o JWST para a estrela em questão e observar os planetas que passam em frente dela.

À medida que a luz da estrela atravessa a atmosfera do planeta, frequências específicas de luz são absorvidas, dependendo de quais elementos estão presentes.

Com isso, observando as linhas faltantes do espectro de absorção, os astrônomos podem determinar a presença na atmosfera do planeta de certos elementos que poderão indicar a presença de vida, como o oxigênio.

"Sem a ocorrência de vida, existem pouquíssimas formas de produção de oxigênio na atmosfera", segundo Barton.

"Por isso, se você conseguir encontrar oxigênio na atmosfera de um desses exoplanetas, ele será um marcador muito forte do potencial de vida."

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Aliança Global para Ecossistemas de Prosperidade nos Territórios mais vulneráveis. Por Egidio Guerra.

  






1. O Diagnóstico: A Urgência de uma Ação Integrada em um Mundo Caótico 

Vivemos em um mundo definido pela complexidade, incerteza e irreversibilidade, como nos alerta Edgar Morin. Em nenhum lugar essa realidade é mais cruel do que nos 1000 territórios mais pobres e violentos, espalhados por pelo menos 100 países. Ali, a ausência do Estado, a degradação ambiental e a exclusão econômica criam um ciclo vicioso onde a pobreza multidimensional e a criminalidade se retroalimentam. Cerca de 400 milhões de pessoas estão presas nessa teia, com suas trajetórias de vida limitadas por muros invisíveis, mas intransponíveis. Vamos transformar pobreza e crime em vidas boas, belas e justas começando por São Paulo e o Brasil liderar o mundo ?

As instituições tradicionais, isoladas, são incapazes de romper esse ciclo. A escola, confinada aos seus muros, reproduz uma lógica disciplinar fragmentada (Foucault), divorciada da vida e das dores do território. O governo atua de forma setorizada, as empresas ignoram o potencial local, e as universidades produzem conhecimento distante da realidade. É necessário, portanto, transcender o modelo atual e arquitetar uma nova abordagem. 

2. A Proposta: Uma Aliança Global para Ecossistemas Educativos e Econômicos 

Propomos a formação de uma aliança global inédita, que reúna Banco Mundial, Nações Unidas, Governos Nacionais e Locais, Ashoka, Fundações Filantrópicas, Empresas com propósito ESG, Universidades e Escolas. O objetivo é transformar os 1000 territórios mais vulneráveis em Ecossistemas Integrados de Prosperidade, inspirados no conceito de Ecossistemas Educativos desenvolvido por Egidio Guerra. 

Neste modelo, o território torna-se a sala de aula viva e a fábrica do futuro. A sinergia entre os setores visa otimizar recursos e amplificar impactos, atuando em três frentes simultâneas: 

  1. Educação Integral e Missões Educadoras: A escola deixa de ser um prédio para se tornar um polo irradiador. Em parceria com universidades (extensionistas) e ONGs (como a Ashoka, com sua rede de empreendedores sociais), o currículo se reconecta com a vida. Os alunos aprendem matemática calculando a viabilidade de uma horta comunitária, geografia mapeando riscos ambientais, história resgatando a memória local e ciências desenvolvendo soluções para os desafios do bairro. É a pedagogia dialógica de Paulo Freire encontrando o "aprender fazendo" de John Dewey. As missões educadoras são projetos práticos onde os estudantes, suas famílias e a comunidade atuam juntos para resolver problemas reais, gerando cidadania e pertencimento desde a infância. 

  1. Geração de Trabalho, Renda e Cidadania: A aliança cria as condições para que o território gere sua própria economia. Governos garantem infraestrutura básica e segurança jurídica. O Banco Mundial e Fundações fornecem linhas de crédito e capital semente. Empresas ESG entram como âncoras, comprometendo-se a integrar cadeias de suprimento locais, comprar produtos e serviços gerados no território, e oferecer mentorias. Universidades oferecem capacitação técnica e tecnológica, alinhada às demandas reais do mercado e às potencialidades locais. O objetivo é fomentar cooperativas, pequenos negócios e iniciativas de economia solidária, transformando o cidadão em protagonista de sua própria existência econômica. 

  1. Sustentabilidade e Ação Climática: Metade da população economicamente ativa desses territórios seria engajada em missões relacionadas às mudanças climáticas. Isso inclui reflorestamento de áreas degradadas, agricultura regenerativa, gestão de resíduos sólidos, instalação e manutenção de sistemas de energia solar comunitária, e bio-construção. Aqui, a necessidade ambiental se transforma em vetor de emprego e renda, criando uma geração de "guardiões ambientais" que cuidam e prosperam com seu território. 

3. O Horizonte de Impacto: Uma Existência Boa, Bela e Justa 

Ao conectar todos esses atores, o sujeito deixa de ser um produto do caos para se tornar o arquiteto de si mesmo e de sua comunidade (Guerra). Com apoio e oportunidades, ele desenvolve a metacognição e a autonomia para construir uma trajetória de vida significativa. 

O impacto dessa ação integrada, se implementada com sucesso para alcançar 400 milhões de pessoas, pode ser calculado em múltiplas dimensões. 

a) Impacto Econômico Direto: A Injeção de Renda 

Se cada uma das 400 milhões de pessoas passar a ter uma renda mensal de US$ 400 (proveniente de trabalho formal, cooperado ou empreendedorismo), o impacto econômico anual seria colossal. 

  • Renda Anual Total: 400.000.000 pessoas * US$ 400/mês * 12 meses = US$ 1,92 trilhão por ano. 

Para contextualizar, este valor é superior ao Produto Interno Bruto (PIB) de países como Canadá, Itália ou Brasil. Este montante não é apenas um número; ele representa: 

  • Injeção na Economia Local: Este dinheiro circularia nos próprios territórios e arredores, aquecendo o comércio local, criando um ciclo virtuoso de demanda por mais bens e serviços. 

  • Criação de um Mercado Interno Robustecido: Os 400 milhões de novos consumidores se tornariam um mercado atraente para as próprias empresas ESG que atuam na região, fechando o círculo do desenvolvimento. 

  • Base de Arrecadação Fiscal: Esta nova atividade econômica geraria impostos para os governos locais e nacionais, que poderiam ser reinvestidos em infraestrutura e serviços públicos, retroalimentando o sistema. 

b) Economia com a Prevenção: O "Dividendo Social" 

É possível prever uma enorme economia para o Estado com a redução drástica da criminalidade e dos problemas sociais correlatos. Esta economia, que podemos chamar de "Dividendo Social", viria de: 

  • Sistema Prisional: O custo médio anual por preso varia muito, mas em países da OCDE, pode facilmente ultrapassar US$ 50.000. Se a ação conseguir evitar que apenas 5% dessa população (20 milhões de jovens) entre no sistema prisional, a economia anual seria de US$ 1 trilhão. Mesmo em países em desenvolvimento, com custos mais baixos (ex: US$ 10.000/ano), a economia seria de US$ 200 bilhões anuais. 

  • Sistema de Saúde: A redução da violência alivia imensamente os sistemas de emergência (traumas, ferimentos por arma de fogo). Além disso, uma população com trabalho, renda e educação tem melhores condições de saúde preventiva, reduzindo gastos com doenças crônicas e problemas de saúde mental decorrentes do estresse da pobreza e da violência. A economia aqui seria de dezenas de bilhões de dólares anuais. 

  • Assistência Social e Programas de Transferência de Renda: Ao gerar renda autônoma, a população sai da dependência de programas assistenciais, liberando recursos públicos para outras áreas. 

  • Judiciário e Segurança Pública: Com menos crimes, há menos processos judiciais e menor necessidade de policiamento ostensivo, permitindo que esses recursos sejam realocados para a prevenção e a inteligência. 

Somando todas essas frentes, o "Dividendo Social" anual poderia facilmente alcançar centenas de bilhões de dólares, pagando o investimento inicial da aliança em poucos anos e gerando retorno positivo para os cofres públicos no médio e longo prazo. 

c) Impacto Ambiental: A Neutralidade de Carbono é Possível? 

A pergunta é: se metade dessas pessoas (200 milhões) atuasse em missões climáticas, poderíamos chegar à emissão zero de carbono? 

A resposta é: diretamente, não, mas indiretamente, seria um dos maiores contribuintes da história para esse objetivo. 

  • Impacto Direto (Sequestro de Carbono): 200 milhões de pessoas dedicadas ao reflorestamento poderiam plantar dezenas de bilhões de árvores por ano. Estima-se que uma árvore madura pode sequestrar cerca de 20 kg de CO2 por ano. Plantar 50 bilhões de árvores poderia sequestrar 1 bilhão de toneladas de CO2/ano, o que é significativo (cerca de 2-3% das emissões globais), mas não suficiente para zerar as emissões. 

  • Impacto Indireto (Prevenção de Emissões): O maior impacto viria da mudança do modelo econômico. 

  • Agricultura Regenerativa: Praticada em larga escala, sequestra carbono no solo e reduz o desmatamento para novas áreas de cultivo. 

  • Energia Solar Comunitária: Substitui fontes fósseis, evitando emissões. 

  • Economia Circular (Gestão de Resíduos): A reciclagem e o reaproveitamento de materiais reduzem a necessidade de extração de novos recursos e a emissão de metano em lixões. 

Além disso, essa ação educa e engaja a população em uma cultura de baixo carbono. Essas 200 milhões de pessoas se tornariam agentes de transformação em suas comunidades, pressionando por políticas públicas mais verdes e adotando práticas sustentáveis em seu consumo diário. 

Portanto, embora não atinja sozinha a meta de net-zero, esta iniciativa seria, de longe, o maior programa de ação climática baseada em comunidades já visto, contribuindo decisivamente para a mitigação das mudanças climáticas e para a adaptação dos territórios mais vulneráveis aos seus efeitos. 

4. Conclusão: Tecendo Redes, Arquitetando Futuros 

Esta aliança global não é uma utopia irrealizável, mas uma engenharia social complexa e necessária. Ao transformar o caos em possibilidade, ela coloca em prática a visão de uma educação que não se limita aos muros da escola, mas que acontece na vida e para a vida. 

O objetivo final é permitir que 400 milhões de pessoas, hoje marginalizadas, possam arquitetar uma existência boa (ética), bela (criativa e significativa), justa (com equidade) e economicamente sustentável. É uma proposta de cura social, econômica e ambiental, tecida não por um único ator, mas por uma poderosa coligação de propósitos, onde cada ponto na rede — governo, empresa, universidade, ONG ou cidadão — é essencial para a construção de um futuro mais sábio, próspero e colaborativo para toda a humanidade.