SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Eles evoluíram para aumentar as chances de vivermos tempo suficiente para passar nossos genes.





Nossos cérebros não evoluíram para nos fazer felizes.


Eles evoluíram para aumentar as chances de vivermos tempo suficiente para passar nossos genes.

Imagine dois ancestrais em pé no mesmo campo. A gente absorve as flores e o canto dos pássaros. O outro fica observando a grama para ver se algo se move.
Aquele que notou o crocodilo viveu tempo suficiente para ter filhos. Quem só notava as flores, na maioria das vezes, não percebia. A evolução manteve essa fiação e a passou para nós.

A maioria de nós nunca vai conhecer um crocodilo. Mas a ligação não deu para nada, então simplesmente encontramos novos caminhos para apontar isso: se há dinheiro suficiente no final do mês, se escolhi um parceiro em quem realmente confio, o que acontece se a doença chegar a alguém que amo.

É isso que os psicólogos chamam de viés da negatividade.

Essas preocupações não são imaginárias. Doenças acontecem, empregos são perdidos e a confiança às vezes se quebra. O que o viés distorce é a proporção, inclinando nossa visão de mundo até que pareça mais perigoso, no geral, do que realmente é.
Assista a cobertura policial suficiente no noticiário da noite e pode começar a parecer que o perigo está em todo lugar, o tempo todo, perto de casa. A sensação e as chances reais são duas coisas diferentes.

O mesmo viés aparece em algo tão pequeno quanto um extrato bancário. Perder cem dólares dói mais do que ganhar cem dólares é bom, o que talvez explique por que tantos de nós, seja qual for o equilíbrio, gastamos mais energia observando o que poderíamos perder do que percebendo o que já temos.

As coisas boas da vida tendem a desaparecer assim, enquanto nossa atenção permanece fixa no que parece faltar, esteja ou não em falta. Com o tempo, esse viés de negatividade pode criar histórias em nossas mentes que funcionam como suposições sobre como pensamos sobre nossa vida e o mundo.

Minhas duas áreas de atuação, tanto psicoterapia quanto Zen, apontam para a mesma solução: levar essas histórias tendenciosas com um pouco mais levemente.

Uma pergunta pode afrouxar o controle: essa história é realmente verdadeira?

Muitas pessoas no Estudo de Harvard descobriram que fazer essa pergunta trouxe uma profunda sensação de perspectiva. Como refletiu um participante na casa dos setenta, "Meus problemas particulares simplesmente não valem muito quando avaliados na balança da experiência humana total. Isso me faz contar minhas bênçãos por estar aqui para qualquer parte disso."

CARTA DE UM IDEALISTA CONTRA A MÁFIA OLIGÁRQUICA E A DITADURA DA CORRUPÇÃO. Por Egidio Guerra




Aos Senhores do poder transitório, vós que vos assentais em tronos de papel-moeda e ostentais cetros forjados na fraqueza da alma, dirijo-vos esta carta não como súplica, mas como sentença. Não venho das fileiras do medo; venho da trincheira da ideia, onde a inteligência é a única pólvora que não se corrompe.

A vossa tese é a da servidão voluntária. Acreditais, como Maquiavel advertiu aos ingênuos, que o príncipe deve ser temido; porém, esquecestes o corolário trágico: o temor que não gera amor gera o ódio silencioso, e o ódio silencioso é o carpinteiro da vossa própria guilhotina. Afirmais que o talento e as ideias nascem da submissão, mas isso é a maior das falácias. A submissão não pariu um Sócrates, nem uma Arendt, nem um Dostoiévski. Pelo contrário, da opressão e da perseguição emerge o mal radical, na acepção kantiana – um mal que não busca razão, mas a aniquilação do outro por puro gozo de poder. E desse mal, senhores, só brotam poderes incompetentes, porque a corrupção é estéril; poderes improdutivos, porque a violência não constrói catedrais, apenas escombros; poderes vazios, porque, como bem define a Cabala, vós sois as Kelipot – as cascas quebradas, os invólucros sem fruto, que só existem para sufocar a luz divina, mas que, sem o núcleo, apodrecem na própria putrefação.

Vós precisais desesperadamente da opressão, da perseguição e da ditadura. Elas são o vosso oxigênio. Como o Leviatã de Hobbes descontrolado, precisais do estado de guerra perpétua para justificar a vossa existência parasitária. A corrupção é a vossa teologia; a mordaça, o vosso sacramento. No entanto, há uma verdade que o vosso dinheiro não compra e que a vossa polícia política não apaga: a História. Ela é o tribunal de Heráclito, onde tudo flui, mas a justiça é a lógica imanente. Não pagais a verdade, porque a verdade – a Aletheia grega, o desvelamento – é imaterial. Por mais que rasguem os arquivos, como fizeram os nazistas ou os stalinistas, a ideia é fênix; ela renasce das cinzas do arquivo queimado. George Orwell profetizou que quem controla o passado controla o futuro, mas esqueceu-se de que a memória é um músculo transcendental; quanto mais a esmagam, mais ela se fortalece no espírito dos justos.

E é aí que reside a nossa vitória, que não será tática, mas ontológica. A vossa violência nos impõe sofrimentos, medos, perda de saúde e luto. Contudo, nesse cadinho infernal, opera-se a mais divina das alquimias. Viktor Frankl, sobrevivente do campo da morte, ensinou que entre o estímulo e a resposta há um espaço; nesse espaço está o nosso poder de escolher a atitude. A vossa masmorra não nos diminui; concentra-nos. A perseguição aguça a nossa espiritualidade, porque, como Jó na Bíblia, aprendemos que a fé que resiste à perda de tudo é a única que toca o Eterno. O medo, quando enfrentado, transmuta-se em coragem; a perda da saúde, em sabedoria sobre a fragilidade da carne e a eternidade do espírito. O amor, que vós julgais fraqueza, é a força que une os resistentes, a Ágape que, como ensinou Paulo, tudo sofre, mas tudo vence, porque não busca os seus próprios interesses.

É essa inteligência forjada na dor que nos dará a guerra. Não a guerra de trincheiras que vós conheceis, mas a guerra das ideias, a Paideia profunda. Como Sócrates, que bebeu a cicuta por não se submeter à ignorância dos poderosos, a nossa inteligência é dialógica, freiriana – nasce da consciência crítica do oprimido. A arte, essa subversiva, pinta a realidade que vós escondeis; a literatura, como a de Camus em A Peste, mostra que o mal é uma quarentena, mas a solidariedade humana é a vacina. A vossa inteligência é maquiavélica no pior sentido – cálculo mesquinho e instrumental. A nossa inteligência é poética, especulativa, hegeliana – busca a síntese que dissolve a vossa tese do terror.

Honramos, com esta carta, os milhões de vítimas que jazem nas valas comuns da vossa ditadura. Esta guerra já dura mais tempo que a sombra de Castro, que o êxodo de Cuba, que o labirinto venezuelano. Mas a duração não vos torna eternos; torna-vos, isso sim, obsoletos. O Faraó do Êxodo também achou que seu poder era perpétuo, mas o Mar Vermelho abriu-se diante da fé de um povo. A vossa oligarquia é a repetição histérica do mesmo erro trágico; sois pródigos do crime, mas avarentos da inteligência.

Por fim, saibam: a vitória não será vossa. Podereis prender corpos, mas não as ideias; podereis calar vozes, mas não o eco da história. A nossa resistência é o Tikkun – o reparo do mundo, a centelha divina que vós, cavadores de trevas, jamais conseguireis apagar. A corrupção é a vossa ética; a verdade, a nossa. A opressão é a vossa ferramenta; a sabedoria, a nossa. E a sabedoria, senhores, é a única força que transforma o medo em amor, a morte em vida, e a ditadura em pó sobre a página da história que os ventos do tempo varrerão sem piedade.

Resistimos. Logo, existimos. E existiremos quando o vosso nome for apenas uma nota de rodapé amaldiçoada na memória dos livres.

Com a fúria da razão e a serenidade da alma,

O Idealista.

O Brasil que elegeu Lula em 2022 era diferente do que o elegera em 2002 e agora em 2026? Por Egidio Guerra





O Brasil que elegeu Luiz Inácio Lula da Silva em 2022 era profundamente diferente daquele que o elegera pela primeira vez em 2002. Essa é a premissa central de O país dividido: Duas décadas de eleições presidenciais no Brasil (2002-2022), do cientista político Jairo Nicolau. Ao longo de seis disputas presidenciais, o país passou por transformações demográficas, educacionais e tecnológicas que reconfiguraram o eleitorado e o próprio jogo político. Mas para compreender plenamente essas mudanças — e as tensões que as acompanharam — é preciso olhar além das urnas. Dois outros livros oferecem lentes complementares: O país dos privilégios, de Bruno Carazza, e O código do capital: como o Direito cria riqueza e desigualdade, de Katharina Pistor. Juntos, esses três autores desenham um retrato multifacetado de um Brasil que se tornou mais polarizado, mais desigual e mais refém de estruturas jurídicas e institucionais que beneficiam poucos às custas de muitos.

O eleitorado que se transformou

Nicolau examina dados de seis eleições e identifica três grandes mudanças no perfil do eleitor brasileiro: tornou-se mais velho, mais escolarizado e mais feminino. Ao mesmo tempo, uma revolução tecnológica alterou radicalmente a forma como os brasileiros consomem informação: o horário eleitoral gratuito na TV perdeu espaço para as redes sociais, que passaram a ser vetores centrais de mobilização — e de desinformação.

O dado mais surpreendente, porém, talvez seja outro: a tão falada polarização, segundo Nicolau, atinge apenas uma parcela pequena do eleitorado — no máximo 20%. “O Brasil está polarizado? Está, mas uma parte pequena dele. Tem uma grande base da pirâmide que não está nem aí para a política. E que vai decidir o voto, pode cair para um lado ou para o outro”. Essa massa flutuante, desinteressada da política partidária, torna o resultado das eleições imprevisível e sujeito a ventos conjunturais.

Outra constatação importante de Nicolau é que o antagonismo mudou de natureza. Nas quatro primeiras disputas do período (2002, 2006, 2010 e 2014), o campo antipetista era liderado pelo PSDB — com José Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves. Já em 2018 e 2022, o PSDB foi destronado por Jair Bolsonaro, um candidato com pouco em comum com a tradição tucana: “O PSDB sempre foi reconhecido por suas posições moderadas e democráticas, enquanto Bolsonaro se notabilizou pelo discurso antidemocrático”. Temas morais e de segurança ganharam protagonismo, rivalizando com o debate econômico — e muitas vezes suplantando-o. A economia, que na máxima de 1992 era o fator decisivo, passou a conviver com outras variáveis igualmente relevantes.

A outra face da divisão: os privilégios

Se Nicolau mostra como o eleitorado se dividiu e se reconfigurou, Bruno Carazza, em O país dos privilégios, revela uma divisão mais estrutural e menos visível: a que separa a elite do funcionalismo público do resto da sociedade. O livro, primeiro volume de uma trilogia, expõe os mecanismos pelos quais magistrados, membros do Ministério Público, advogados da União e outras carreiras públicas construíram um sistema de regalias e benesses que onera o Orçamento e aprofunda a desigualdade.

Carazza parte do clássico Os Donos do Poder, de Raymundo Faoro, para mostrar como os “donos do poder” contemporâneos aprofundaram sua captura do Estado. O diagnóstico é contraintuitivo: o Brasil não tem um Estado inchado em termos de número de servidores — o setor público emprega 12% da força de trabalho, menos que a média de 18% dos países da OCDE. No entanto, o gasto com remuneração de servidores alcança 13% do PIB, muito acima do que se observa em países como Estados Unidos (8,7%) ou Alemanha (7,6%). Essa discrepância é fruto de décadas de pressão bem-sucedida de categorias organizadas, que obtêm salários e vantagens acima do teto constitucional e perpetuam um ciclo de privilégios.

A conexão com a análise de Nicolau é direta: enquanto o eleitorado se tornava mais escolarizado e mais feminino, a estrutura de poder permanecia refratária à mudança. Os privilégios da elite estatal não são apenas uma questão de justiça fiscal — são também um fator de desconfiança e desencantamento com as instituições, alimentando a “repulsa intransigente” que Nicolau identifica como característica da divisão brasileira. O cidadão comum, que não se interessa por política, percebe, ainda que confusamente, que o jogo é viciado — e essa percepção pode se traduzir em votos de protesto ou em abstencionismo.

O direito como fábrica de desigualdade 

Katharina Pistor, em O código do capital, oferece a terceira peça desse quebra-cabeça. Seu argumento é provocador e fundamental: o direito não é um mero árbitro neutro das relações econômicas, mas um motor ativo da criação de riqueza e desigualdade. O capital, diz Pistor, é “codificado” no direito — predominantemente em instituições de direito privado, como a propriedade, os contratos e a personalidade jurídica. A portas fechadas, nos escritórios de advogados privados, ativos são transformados em capital por meio de técnicas jurídicas que lhes conferem a capacidade de gerar e proteger riqueza. Essa atividade, pouco conhecida do público, é uma das principais razões para o aprofundamento da desigualdade entre os detentores do capital e o restante da sociedade. 

Aplicada ao Brasil, a tese de Pistor ilumina aspectos que nem Nicolau nem Carazza abordam diretamente, mas que são complementares. O “país dividido” que Nicolau descreve não é apenas dividido politicamente entre lulistas e bolsonaristas; é também dividido juridicamente entre aqueles que têm acesso aos códigos que criam capital e aqueles que não têm. Os “privilégios” que Carazza documenta no funcionalismo público são, em grande medida, privilégios codificados em lei — regimes jurídicos especiais, foros privilegiados, regras de aposentadoria, subsídios e vantagens que só existem porque o direito as criou e as mantém. 

A concentração de renda no Brasil, que voltou a subir em 2025 após uma trégua no ano anterior, não é um fenômeno puramente econômico: é também um fenômeno jurídico. O direito, como mostra Pistor, não apenas reflete a desigualdade — ele a produz, ao selecionar quais ativos merecem a “codificação” que os transforma em capital e quais não.

 Um retrato de três dimensões 

Juntos, os três livros oferecem um retrato tridimensional do Brasil contemporâneo. Nicolau mostra o chão da fábrica da política: o eleitorado que mudou, as forças que o movem, as divisões que emergem. Carazza revela o andar de cima do Estado: as elites que capturaram a máquina pública e transformaram privilégios em direito adquirido. Pistor expõe os alicerces jurídicos sobre os quais toda essa estrutura repousa — e que, silenciosamente, produzem e reproduzem a desigualdade. 

O Brasil que elegeu Lula em 2022 era bem diferente do que o elegera em 2002. Mas, em muitos aspectos fundamentais — na concentração de renda, na captura do Estado por grupos de interesse, na codificação jurídica do privilégio — o país permaneceu surpreendentemente o mesmo. A polarização que Nicolau identifica como “episódica e reversível” pode até se dissipar com o fim da era Lula e Bolsonaro. Já os privilégios e a desigualdade codificada no direito são estruturas mais profundas, que nenhuma eleição, por si só, será capaz de desfazer.