SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

domingo, 27 de setembro de 2026

Por que algumas pessoas acreditam que a IA é um Anticristo

 

Ilustração cinemática do planeta Terra meio coberto de lava fundida em ardente destruição, enquanto a outra metade permanece azul e pacífica, simbolizando a transformação planetária
    • Author,Lebo Diseko
    • Role,Repórter de religião do Serviço Mundial da BBC
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  • Tempo de leitura: 7 min

"A IA terá papel central nos tempos finais."

Estas palavras não vêm de mais um profissional das empresas de tecnologia, alertando sobre uma iminente ameaça à humanidade, mas sim de Philip Anthony Mitchell, um pastor de enorme influência, de Atlanta, nos Estados Unidos.

Por "tempos finais", ele quis dizer o fim do mundo.

Mais de um ano se passou após a profecia de Mitchell. E muitos outros cristãos importantes, em fóruns que variam do TikTok e podcasts até o setor editorial, estão discutindo se a inteligência artificial poderá ser um catalisador da destruição do planeta.

"A IA pode fazer parte de um cenário de fim dos tempos?", questiona o megapastor americano Greg Laurie. "É muito possível."

Outro pastor americano, Mike Signorelli, alerta que a IA "é parte integrante de como você chega ao Anticristo".

Todos eles reconhecem que a IA pode ser usada para o bem. Mas também alertam sobre o Anticristo, representante de Satã, que pode empregá-la para atrair as pessoas para adorá-lo, em substituição a Deus.

No cristianismo, o "fim dos tempos" se refere às profecias sobre os dias finais da Terra. O Anticristo é considerado inimigo de Deus, que assume o poder até ser vencido em batalha por Jesus.

Estas ideias se baseiam principalmente no último livro da Bíblia, o Apocalipse. Ele contém descrições intensas e assustadoras, que incluem "a besta que emerge do mar", com sete cabeças e 10 chifres, que se acredita representar o Anticristo.

Muitos cristãos consideram o Apocalipse como um texto metafórico. Alguns afirmam que ele se refere à perseguição da Igreja nos seus primórdios, pelo Império Romano.

Mas outros o consideram uma profecia. E alguns dizem que a inteligência artificial seria a "segunda besta" do livro, um "falso profeta" que ludibria a humanidade para que venerasse o Anticristo — ou, até mesmo, que a IA seria o próprio Anticristo.

Detalhe do afresco dos Feitos do Anticristo (1499-1504) de Luca Signorelli, na catedral de Orvieto, na Itália, ilustrando Satã com chifres, cochichando no ouvido do Anticristo, retratado de forma similar a Jesus, com barba, cabelos longos e manto esvoaçante
Legenda da foto,Satã, ilustrado manipulando sua marionete, o Anticristo, para iludir as pessoas inocentes a venerá-lo no lugar de Jesus

A IA está, sem dúvida, mudando o mundo e causando receios sobre o seu poder e capacidade.

O ex-pesquisador da Anthropic, Jacob Coxon, indicou que "todos nós poderemos morrer em futuro muito próximo" e donos de empresas de tecnologia alertam sobre os riscos, se a velocidade do seu desenvolvimento não for reduzida.

"A discussão do fim dos tempos floresce em épocas de grandes mudanças", segundo a professora Noreen Herzfeld, da Escola de Teologia e Seminário de São João, nos Estados Unidos. Ela é especializada em IA e na ética da tecnologia.

"Ela oferece às pessoas uma forma de compreender o estresse da sociedade, de sentir que não é algo simplesmente aleatório, que faz parte dos planos de Deus."

Herzfeld compara o impacto da IA sobre os empregos à revolução industrial, trazendo consigo altos níveis de incerteza e ansiedade.

"Estamos vivendo em uma época de rápidas mudanças", segundo ela. "E estamos observando a tecnologia de computadores [evoluir] com muito mais rapidez do que no passado."

"Ouvimos que esta tecnologia irá tomar os empregos, que irá mudar tudo, revolucionar tudo. Este tipo de mudança rápida é muito difícil para as pessoas."

Existe também uma sensação de perda de autonomia. A IA participa da maior parte das nossas vidas, queiramos ou não — e os alertas do Vale do Silício "afirmam que existe uma chance de 10%, de 15%, de que a IA nos destrua a todos."

"Se as pessoas puderem sentir que Deus ainda está no controle, que ainda existe um propósito para isso, que foi algo estabelecido, elas poderão dizer: 'Como quero enfrentar este momento?' O que devo fazer? Como faço para me posicionar do lado do bem e não do mal?'"

De pé no palco, com os olhos fechados e as mãos estiradas, o pastor Mike Signorelli, vestindo calças bege e camiseta azul, amarela e laranja com a inscrição 'Breakers 25', se dirige a uma conferência no Estado americano de Illinois, em 2025
Legenda da foto,O pastor Mike Signorelli faz parte dos 47% dos cristãos americanos adultos que acreditam que estamos vivendo no fim dos tempos, segundo uma pesquisa

Cerca de 40% dos americanos adultos acreditam que estamos vivendo no fim dos tempos, segundo uma pesquisa do Pew Research Center de 2022. Entre os cristãos, o percentual sobe para 47%.

Este é um tema que se repete década após década, segundo os especialistas, projetando as ansiedades do momento para a figura do Anticristo.

"Minha avó achava que [o ex-presidente americano] Franklin Delano Roosevelt [1882-1945] fosse o Anticristo", afirma o professor Jeffrey C. Pugh, da Universidade de Elon, no Estado americano da Carolina do Norte.

Roosevelt assumiu a presidência em 1933, em meio à Grande Depressão, um período de pobreza e grandes incertezas. Sua solução, o New Deal, foi considerada revolucionária.

Para Pugh, a visão da sua avó "reflete a irracionalidade de tentar mapear os eventos atuais em uma narrativa bíblica específica".

A questão do fim dos tempos tem sido um tema recorrente nos Estados Unidos, mas ganhou força nos anos 1960.

"Foi uma época específica de convulsão social", explica Pugh. "Tivemos dois líderes políticos assassinados [nos EUA] — três, se contarmos Martin Luther King Jr. [1929-1968]."

"Tivemos cidades em chamas devido à ira dos negros contra a opressão branca. Tivemos crianças começando a se expressar como nunca antes", como nos protestos contra as guerras até a contracultura da juventude.

'Tecnologias assustadoras'

Os anos 1970 trouxeram a popularidade do livro A Agonia do Grande Planeta Terra, do escritor evangélico americano Hal Lindsey (1929-2024). Ele relaciona explicitamente as profecias do fim dos tempos a eventos e à geopolítica da época.

"A partir daquele momento, toda agitação social passou a ser atribuída à ideia do fim dos tempos", segundo Pugh.

Durante a Guerra Fria (1947-1991), a União Soviética (1922-1991) e o comunismo eram o Anticristo. Após os ataques de 11 de setembro de 2001, para alguns cristãos, ele passou a ser o Islã.

"Os medos de todas as eras costumam ser projetados nessas narrativas" do fim dos tempos, explica Pugh.

O pastor australiano Stephen Driscoll escreveu o livro Made in Our Image: God, Artificial Intelligence and You ("Feita à nossa imagem: Deus, a inteligência artificial e você", em tradução livre). Ele não sabe ao certo quem ou o que é o Anticristo.

Para ele, a IA, "uma das tecnologias mais assustadoras que já criamos", é um "candidato plausível". Mas usar a Bíblia para tentar prever o futuro não é particularmente positivo.

"A Bíblia oferece muito mais do que simples especulações sobre quem é o Anticristo", segundo Driscoll. Ela "nos prepara para as mudanças, oferece uma teologia de trabalho e ferramentas para sermos realistas sobre o alinhamento da IA".

'Obedeça a Deus'

O Velho Testamento "fala sobre inovações da tecnologia agrícola, como máquinas debulhadoras e coisas diferentes... e diz que tudo isso vem do Senhor", prossegue Driscoll.

"Deus é um Deus de sabedoria tecnológica", com controle final "sobre todas as eras tecnológicas, da idade da pedra até o bronze, o ferro, o aço, a idade nuclear, até a IA".

No Velho Testamento, Daniel, no exílio, vive em vários impérios, usando diferentes tecnologias, segundo Driscoll. Ele "não consegue controlar os tempos e impedir os impérios futuros, mesmo se eles trouxerem tragédias".

"Mas ele [consegue] ter fé e esperança, viver bem, amar as pessoas e obedecer a Deus onde se encontrar. Ele não pode controlar os tempos, mas consegue viver bem."

Ou seja, estejamos ou não enfrentando o fim do mundo, em última análise, tudo irá acabar bem.

"Nem tudo o que acontece é bom", segundo Driscoll. Mas o mais importante é que "Deus é bom — e Ele está no controle."

'Um dos grandes mistérios da ciência': o que a anestesia geral revela sobre o nosso cérebro

 

Anestesista administrando sedação a paciente, em um centro cirúrgico
    • Author,Jasmin Fox-Skelly
    • Role,BBC Future
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  • Tempo de leitura: 7 min

Em 1797, o almirante Horatio Nelson (1758-1805), comandante da Marinha britânica, teve seu braço direito amputado.

A cirurgia salvou sua vida. Mas reza a lenda que o único anestésico que ele recebeu foi um gole de rum.

Na maior parte da história humana, a retirada de membros foi realizada em pacientes totalmente despertos. A anestesia geral revolucionou as cirurgias, mas surgiu apenas em 1846.

A partir dali, passamos a desligar temporariamente a consciência, a qualquer momento, em qualquer lugar, em qualquer pessoa. Com ela, Nelson poderia não ter testemunhado a amputação e ser ligado novamente para o café da manhã do dia seguinte.

Atualmente, são realizadas mais de 350 milhões de cirurgias com anestesia geral todos os anos. Mas ainda não sabemos ao certo como estes medicamentos misteriosos nos colocam para dormir.

Agora, surgem novas indicações que ensinam aos cientistas as funções fundamentais do nosso cérebro. Elas chegam a nos dar pistas sobre as origens da nossa própria consciência.

Sono universal

Existem diversas categorias de anestésicos. Alguns trabalham bloqueando diretamente a dor, enquanto outros nos deixam relaxados e sonolentos.

Mas a anestesia geral vai um passo além. Ela nos deixa inconscientes e, com isso, ficamos sem nenhuma percepção do que quer que aconteça em seguida.

Agora, surgem novas indicações que ensinam aos cientistas as funções fundamentais do nosso cérebro. Elas chegam a nos dar pistas sobre as origens da nossa própria consciência.

Existe uma infinidade de anestésicos capazes de induzir o estado de inconsciência. Eles variam de gases aparentemente inertes raramente empregados na prática, como o xenônio, até o propofol, que é o anestésico geral mais comum e amplamente utilizado.

Os anestésicos gerais podem ter estruturas químicas muito diferentes. Mas seu efeito geral é interferir na comunicação entre as células nervosas do cérebro, evitando que elas conversem entre si.

Imagens de ressonância magnética mostram claramente que existe uma redução global da atividade cerebral. O que não sabemos ao certo é como exatamente isso leva o paciente a dormir.

Entre outras coisas, ainda não está claro se o estado de inconsciência induzido pelo anestésico exige o desligamento total, ou seja, do cérebro inteiro, ou se, talvez, algumas regiões são mais importantes do que outras.

Pintura do almirante britânico Horatio Nelson, com o braço direito amputado
Legenda da foto,O almirante Nelson teve seu braço direito amputado em 1797, tomando apenas um gole de rum como anestésico. A anestesia geral para cirurgias só surgiria quase 50 anos depois.

"Mesmo se todo o cérebro desligar, como ele é muito interconectado, fica muito difícil identificar o que acionou o desligamento global", explica o professor de biofísica e anestesia Nick Franks, do Imperial College de Londres.

"Se você observar as imagens cerebrais, fica claro que existem certas regiões mais sensíveis, que são desligadas em primeiro lugar. Isso levanta a questão de se elas acionariam o desligamento global."

Frank indica o tálamo, uma estrutura em formato oval em local profundo do cérebro. Ele age como núcleo central entre as regiões cerebrais.

Esta região parece se desligar primeiro quando alguém recebe anestesia geral.

O tálamo desempenha papel fundamental no início e na manutenção do sono, entre outras funções. Será que a anestesia funciona "sequestrando" o circuito natural do sono no cérebro?

"Se você anestesiar um animal e estimular em seguida uma parte muito seletiva do tálamo, você pode acordá-lo", explica Franks.

"Estudos também demonstram que algumas pessoas em coma podem ser acordadas por estimulação talâmica. Ou seja, esta é uma área crítica para o despertar."

Mas são necessários novos estudos para descobrir se isso é o que está acontecendo.

Outros cientistas acreditam que o córtex cerebral (a camada enrugada externa do cérebro) seja a principal "casa da consciência" e, por isso, é ali que os anestésicos devem exercer seus maiores efeitos.

Mas existem outras regiões cerebrais que também estão relacionadas, como os lobos frontal e parietal.

O primeiro fica um pouco atrás da testa e é responsável por muitas atividades de nível superior, como o pensamento crítico. O segundo fica mais atrás e está envolvido no processamento de informações sensoriais, como o tato.

Terceiro estado

Mas estão surgindo indicações de que o nosso cérebro pode ser capaz de manter um estado de consciência intermediário, ou seja, nem adormecido, nem acordado.

Na maioria das pessoas, ser anestesiado significa a perda total da consciência e, portanto, de toda a memória dos eventos. Mas não é o que acontece com todas as pessoas.

Calcula-se que um em cada 15 mil pacientes que passam por cirurgia pode se lembrar de aspectos da intervenção depois de acordar. Este fenômeno é conhecido como consciência acidental.

O anestesista Jaideep Pandit, dos Hospitais da Universidade de Oxford, no Reino Unido, acredita que esses indivíduos vivenciem um "terceiro estado" de consciência, em algum ponto entre adormecer e acordar, ou entre a consciência e a inconsciência.

Durante seus estudos, Pandit ofereceu aos pacientes um anestésico e um relaxante muscular, mas usou um torniquete para evitar que o relaxante paralisasse o antebraço. Esta medida permitiu que os pacientes inconscientes movessem sua mão, se assim o desejassem.

Ele concluiu que um terço dos pacientes conseguiu, sob comando, apertar os dedos da pessoa responsável pelo experimento, embora não mostrassem sinais de estarem acordados, nem de sentirem dor durante a cirurgia.

Pandit indica que este resultado sugere que existe um terceiro nível de consciência.

A singularidade do pensamento consciente

O chamado "problema difícil da consciência" permanece sendo um dos grandes mistérios não resolvidos da ciência. Mas observar o que há de diferente quando perdemos esta capacidade ajuda a desvendar os seus segredos.

É verdade que o sono regular também envolve a perda da consciência, mas a anestesia geral nos permite desligá-la a qualquer momento, facilitando seu estudo.

Um ponto importante é a singularidade das nossas experiências conscientes. É geralmente aceito que a experiência consciente de cada pessoa ou animal é totalmente subjetiva e específica para eles.

O neurocientista Andrea Luppi, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, investigou se a anestesia geral pode ajudar a explicar como isso funciona.

Ele examinou o cérebro de pessoas sob anestesia geral, utilizando imagens de ressonância magnética funcionais. Esta tecnologia pode registrar o fluxo de sangue no cérebro, para observar o impacto dos anestésicos.

Luppi se interessou particularmente pela conectividade funcional, que é a medida de como as diferentes regiões do cérebro se comunicam e coordenam sua atividade.

Normalmente, este tipo de atividade neural segue um padrão tão único que pode agir como uma "impressão digital", para identificar uma pessoa.

Ilustração do cérebro humano
Legenda da foto,Estudos indicam que o tálamo, uma estrutura com formato oval localizada no centro do cérebro, seria a primeira região cerebral a ser desligada, quando alguém recebe anestesia geral.

Mas Luppi e seus colegas concluíram que, sob os efeitos da anestesia, os cérebros individuais deixam de ser tão "únicos" e passam a ser mais parecidos entre si.

O interessante é que o cérebro humano anestesiado também se torna menos distinto do cérebro dos outros primatas. Isso sugere que as regiões do cérebro humano mais afetadas pela anestesia são aquelas que são mais recentes, evolutivamente falando.

Luppi acredita que uma importante característica da anestesia é que ela impede diferentes regiões do cérebro de conversar entre si.

Quando estamos acordados, essas regiões conseguem interagir, mesmo que não estejam diretamente conectadas. Mas isso é muito raro no cérebro anestesiado, onde apenas regiões diretamente ligadas entre si parecem "conversar".

"Quando estamos acordados, o fluxo da consciência orienta a sequência de padrões cerebrais que visitamos", escreveu Luppi em 2024. Mas ele explica que, sob anestesia, a atividade cerebral fica sem direção.

As descobertas de Luppi se enquadram na ideia de que a consciência não resulta da atividade em uma região específica do cérebro. Trata-se, isso sim, de uma rede.

A consciência surge da coordenação entre diferentes centros. É como suspender as ações de um governo, desligando os sistemas de comunicação do país.

Luppi também acredita que a anestesia geral poderá esclarecer como os psicodélicos, como o LSD e a psilocibina (os "cogumelos mágicos"), alteram o estado de consciência das pessoas.

Os anestésicos atenuam a comunicação entre diferentes regiões do cérebro, enquanto os psicodélicos parecem fazer o contrário. Eles induzem o cérebro a abrir novas linhas de comunicação.

Mas, em última análise, existe ainda muito a aprender sobre o local onde reside a consciência no cérebro humano.

"Nossa compreensão da consciência é muito rudimentar", segundo o professor de anestesiologia e medicina perioperatória e da dor Boris Heifets, da Universidade de Stanford, no Estado americano da Califórnia.

"Por isso, acho que, se você conseguir encontrar alguém que explique como funciona a experiência consciente, por favor, me avise. Eu adoraria falar com eles."

Importante: todo o conteúdo desta reportagem é fornecido apenas como informação geral e não deverá ser tratado como substituto ao aconselhamento de um médico ou outro profissional de saúde.