SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

terça-feira, 21 de julho de 2026

O Brasil envelheceu antes de enriquecer


 

O Brasil envelheceu antes de enriquecer

Susana Kakuta
Secretária de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Eventos de POA | Empreendedora em série | PhD em gestão e inovação estratégica | Co founder Biosens

O Brasil envelheceu antes de enriquecer

O Brasil vive hoje a mais previsível transformação estrutural das próximas décadas. E, ainda assim, continua tratando esse movimento como se fosse um problema distante. O país envelhece em ritmo acelerado, com baixa produtividade, renda per capita limitada, fortes desigualdades e uma base industrial fragilizada. Envelhecemos antes de enriquecer, o que pode soar ultrajante para a nona maior economia global.

E mais: corremos o risco de envelhecer também antes de desenvolver uma economia mais sofisticada, inovadora e preparada para sustentar esse novo perfil demográfico, já que a posição no top dez mundial vem principalmente de nossa lavoura.

Trata-se aqui não de apenas uma mudança etária, mas de uma mudança econômica, transformada com ainda mais velocidade diante da ascensão da inteligência artificial e seus agentes autônomos.

Em 1980, apenas 6% da população brasileira tinha 60 anos ou mais. Em 2050, esse grupo deve representar cerca de 30% da população, ultrapassando 64 milhões de pessoas, segundo projeções do IBGE. Ao mesmo tempo, a taxa de fecundidade caiu para 1,6 filho por mulher, abaixo do nível de reposição populacional de 2,1.

Isso significa que teremos, progressivamente, menos jovens entrando no mercado de trabalho e mais idosos demandando renda, serviços de saúde, cuidados e políticas públicas adaptadas a uma sociedade longeva.

O problema brasileiro não está no envelhecimento em si. Está no contexto em que ele acontece.

Países como Japão, Alemanha e França envelheceram depois de consolidar renda elevada, sistemas de proteção social robustos, forte capacidade industrial e ganhos sustentados de produtividade. O Brasil faz esse percurso com renda per capita em torno de US$ 10 mil, baixa sofisticação produtiva e contas públicas pressionadas.

Quando um país envelhece sem ter construído uma economia forte o suficiente, o desafio demográfico, além de ser uma questão social, passa também a ser uma preocupação do mercado e um limitador do próprio desenvolvimento econômico.

O envelhecimento já mudou o mercado de trabalho

Esse processo já está em curso. Em dez anos, a população com 60 anos ou mais cresceu 37%, enquanto o número de idosos ocupados aumentou 53%, chegando a 8,7 milhões de pessoas em 2025. Hoje, os trabalhadores com 60 anos ou mais já representam 25% do mercado de trabalho brasileiro, e mais da metade deles está na informalidade.

O dado é eloquente porque mostra que o envelhecimento não está produzindo somente longevidade, mas permanência prolongada no trabalho, muitas vezes por necessidade financeira e em condições frágeis de proteção social e produtividade.

Uma coluna recente de Marcelo Tokarski, publicado na Folha de S.Paulo, resume essa contradição: o Brasil envelhece trabalhando mais e ganhando relativamente menos. Entre 2016 e 2025, a renda dos jovens cresceu 15,4%, enquanto a dos trabalhadores com mais de 60 anos avançou apenas 4,2%. Isso revela um país em que a longevidade não está necessariamente associada a uma vida economicamente mais segura, mas muitas vezes à necessidade de permanecer produtivo em um mercado que ainda não se reorganizou para absorver melhor essa transição demográfica.

O ponto não é defender uma leitura assistencialista do envelhecimento, nem tratar o aumento da participação dos mais velhos no mercado como algo necessariamente negativo. Permanecer ativo pode ser desejável, saudável e economicamente positivo. O problema está quando essa permanência ocorre sem políticas de requalificação, sem combate ao etarismo, sem reorganização do trabalho e sem setores dinâmicos capazes de absorver trabalhadores mais experientes em funções de maior valor agregado.

Envelhecer em uma economia pouco sofisticada custa mais caro

O Brasil chega a essa transição depois de um longo processo de desindustrialização precoce. Em artigo anterior, mostrei que países desenvolvidos começaram a reduzir a participação relativa da indústria quando já tinham alcançado renda per capita entre US$ 20 mil e US$ 25 mil, preservando o comando de setores estratégicos e intensivos em tecnologia. O Brasil iniciou esse processo com renda per capita muito menor, em torno de US$ 10 mil, sem consolidar uma economia de serviços sofisticados nem uma indústria de alta complexidade capaz de sustentar produtividade, inovação e empregos qualificados.

Uma economia menos industrializada, menos tecnológica e menos intensiva em conhecimento tende a oferecer menos postos qualificados, menor crescimento de produtividade e menor capacidade de financiar políticas públicas robustas no longo prazo.

Esse efeito aparece na fragilidade das cadeias produtivas, na dependência maior de importações tecnológicas, na dificuldade de gerar empregos industriais bem remunerados e na limitação de setores capazes de absorver diferentes perfis de trabalhadores ao longo da vida.

Quando um país perde indústria antes de ficar rico, o prejuízo vai muito além do fechamento de fábricas. Ele perde um dos principais motores de difusão tecnológica, formação de capital humano, ganhos de escala e mobilidade econômica. Isso se torna ainda mais grave quando a base demográfica começa a encolher e o peso relativo dos inativos cresce.

O envelhecimento também pode ser agenda de inovação

Há, porém, um erro recorrente nesse debate: tratar o envelhecimento apenas como custo. Ele é, sem dúvida, um fator de pressão sobre previdência, saúde e finanças públicas. Mas também pode se tornar vetor de inovação, mercado e desenvolvimento.

Países desenvolvidos vêm estruturando aquilo que se convencionou chamar de economia da longevidade, reunindo soluções em saúde, habitação adaptada, turismo, mobilidade, educação continuada, bem-estar, cuidados de longa duração, serviços financeiros e tecnologias assistivas.

O Brasil tem escala para desenvolver esse mercado. Se o país terá mais de 64 milhões de pessoas com 60 anos ou mais em 2050, isso significa demanda crescente por novos serviços, novos produtos, novos modelos de cuidado e novas tecnologias.

Em regiões como Porto Alegre e o eixo de inovação da Região Metropolitana, esse potencial já começa a aparecer com a consolidação de hubs de startups de saúde — as health techs — e de deep techs voltadas para soluções de alto conteúdo tecnológico, especialmente em diagnóstico, monitoramento e cuidados de longa duração.

No Tecnosinos, por exemplo, a Biosens, deep tech da qual sou co‑fundadora, nasceu da necessidade de ampliar o acesso ao diagnóstico laboratorial e simplificar a realização de testes, desenvolvendo biossensores e dispositivos de point‑of‑care capazes de levar exames portáteis, rápidos e de menor custo diretamente ao paciente.

Ao transformar sinais biológicos em dados acionáveis, por meio de tecnologias como biossensores avançados, microfabricação e inteligência artificial, a Biosens ilustra exatamente o tipo de inovação que um país envelhecido precisa: soluções que tornem o cuidado mais acessível, descentralizado e eficiente, conectando desenvolvimento tecnológico à qualidade de vida da população que envelhece.

O que precisa mudar agora

O Brasil não resolverá esse desafio com medidas isoladas. Envelhecimento populacional, produtividade, indústria, educação e inovação precisam deixar de ser agendas tratadas em compartimentos separados. O país precisa de um projeto de desenvolvimento que reconheça a nova composição demográfica e reorganize suas prioridades a partir dela.

Isso começa por cinco frentes.

1ª - Fortalecer a educação técnica e profissional ao longo de toda a vida, aproximando formação, requalificação e demanda produtiva; o chamado long life learning (aprender por toda a vida).

2ª - Criar condições para uma reindustrialização orientada por tecnologia, eficiência e setores de maior valor agregado, para que o país não envelheça preso a uma economia de baixa complexidade.

3ª - Adaptar o mercado de trabalho, combatendo o etarismo e criando modelos que valorizem a permanência produtiva dos trabalhadores mais experientes.

4ª - Incentivar a economia da longevidade como fronteira estratégica de inovação e novos negócios.

5ª - Recuperar capacidade de planejamento de longo prazo, porque uma transição previsível não pode continuar sendo tratada como surpresa.


A ficção científica já está moldando a realidade. A questão é de qual versão vence.






Minha nova peça já está disponível na Aeon!


Bilionários da tecnologia não interpretavam mal a ficção científica. Eles editaram. Mantiveram a fronteira, o visionário, o cromo, e cortaram a instituição pública, o coletivo, o aviso. Eles fazem o mesmo corte toda vez.

Thiel toma a fronteira de Heinlein e deixa de fora a colônia penal, mesmo que a sociedade lunar em "A Lua é uma Senhora Severa" tenha sido construída com o trabalho dos prisioneiros transportados. Musk pega o visionário solitário de Asimov e deixa de fora a Fundação, que é o ponto principal dos livros. Palantir recebe esse nome de dispositivos que, em Tolkien, corrompem todos que os utilizam.

Então essas não são interpretações erradas. O que é cortado é sempre a mesma coisa: a instituição coletiva, ou o aviso. Ou seja, um projeto futurista reacionário onde a estética da ficção científica trabalha para políticas antidemocráticas.

Uma coisa que quero dizer sobre como isso aconteceu, porque acadêmicos raramente têm a chance de vivenciar isso. O texto existe porque Sam Haselby, da Aeon, leu uma proposta minha meses atrás e disse sim. Depois ele editou direito. Ele cortou a tonza, moveu o argumento para onde o leitor realmente o encontraria, e continuou insistindo até que parecesse algo que uma pessoa gostaria de terminar, e não algo escrito para ser citado. A maioria dos textos acadêmicos nunca é encomendada, e nunca é editada assim. Deve receber ambos.

A ficção científica já está moldando a realidade. A questão é de qual versão vence.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

2026 ! O Amor sem tempos digitais!

 


“O amor não cabe mais em uma única história. Ele se espalha como sementes ao vento, germinando em mosaicos que nunca se repetem.”


Lisbela já não olha mais para o sol diretamente. Seus olhos aprenderam a suportar a luz, mas descobriram que o segredo não estava no fogo — estava no que o fogo iluminava. Em 2026, o amor deixou de ser uma chama para se tornar um espectro. Ele se espalha por telas, por chats, por encontros que começam com um like e terminam em silêncios que ninguém sabe nomear.

Blue ainda se sente hipnotizada pelo mar, mas o oceano agora é digital. Ela navega por perfis como quem navega por correntes profundas, em busca de sereias que talvez nunca existam, ou que existem apenas na forma de avatares e promessas de conexão. O amor em 2026 é líquido, como a água — mas também é volátil, evapora antes que se possa tocá-lo.

Dolce continua fértil, mas sua terra agora é um jardim de dados. Ela cuida de comunidades virtuais, de grupos de apoio, de redes de afeto que transcendem o corpo. O amor materno que ela sente se expande para desconhecidos, para estranhos que compartilham dores em fóruns anônimos. Ela é mãe de muitos, mas às vezes se pergunta se o toque ainda é necessário para que o amor exista.

Cristal voa mais alto do que nunca. O ar que ela respira é feito de Wi-Fi e satélites, de ondas que cruzam continentes em milésimos de segundo. Ela se conecta a tudo e a todos, mas sente que, quanto mais se conecta, menos se encontra. O amor, para ela, tornou-se uma frequência — algo que se sintoniza, mas que raramente se sustenta.


O Mosaico se Desfaz

Em 2026, a Sociedade da Paixão se reúne não mais em festas, mas em salas de videoconferência. As pedrinhas do mosaico que cada uma carrega no pescoço agora são códigos, NFTs, promessas criptografadas de afeto. A palavra paixão ainda está tatuada em seus corpos, mas muitas vezes é escondida sob camadas de roupas, como um segredo que já não se ousa mostrar.

Os novos romances que chegam às livrarias neste ano refletem essa fragmentação. Haters do Amor, de Katherine Center, fala sobre como o amor pode nascer do ódio, mas também sobre como o ódio pode ser mais fácil de sustentar do que a entrega. Com amor, Atena resgata a mitologia grega para lembrar que o amor sempre foi um campo de batalha entre deuses e mortais, entre o destino e a escolha. Os dois tempos de Beto Garcia, de Luca Guadagnini, mistura futebol e romance, mostrando que o amor, como a Copa do Mundo, tem dois tempos — e que o jogo só termina quando o árbitro apita, não quando o coração decide.

E há ainda O Amor e a Sua Fome, de Lorena Portela, que pergunta: pode um amor nascido da fome saciar coisa alguma? Em 2026, essa pergunta ecoa em cada esquina. O amor que antes era abundante agora parece escasso, disputado como água em um deserto. As pessoas amam com fome — fome de atenção, de validação, de pertencimento.


Para Onde Caminha o Amor?

A Sociedade da Paixão, em sua reunião anual de 2026, fez uma pergunta que nenhum dos capítulos anteriores ousou formular: o amor ainda é possível?

Lisbela respondeu primeiro: “O amor é possível, mas não como antes. Ele não é mais uma chama que se acende e se mantém. Ele é uma fagulha que se acende e se apaga, que se reacende em outro lugar, com outra pessoa. O amor em 2026 é um mosaico em constante reconstrução.”

Blue completou: “O amor é possível, mas ele não cabe mais em um único corpo. Ele se espalha por várias pessoas, por várias telas, por várias vidas. Nós amamos fragmentos. Amamos partes. Amamos o que vemos, não o que é.”

Dolce, com sua sabedoria de terra, disse: “O amor é possível, mas ele precisa ser redescoberto. Não no que nos é dado, mas no que plantamos. O amor em 2026 é uma semente que precisa ser regada com presença, com silêncio, com o simples ato de estar. Não com promessas. Não com likes.”

Cristal, por fim, falou do alto de sua montanha virtual: “O amor é possível, mas ele precisa voar mais baixo. Não adianta amar o mundo inteiro se não se ama o que está ao lado. O amor em 2026 é uma frequência que precisa ser sintonizada com cuidado, com paciência. Não com pressa.”


A Ecologia do Amor em 2026

A ecologia do amor, em 2026, é um ecossistema em crise. As interações entre os seres e os ambientes em que vivem estão cada vez mais mediadas por algoritmos, por inteligências artificiais que sabem o que queremos antes mesmo de sabermos. O mosaico do amor já não é feito de pedrinhas — é feito de pixels, de dados, de impressões digitais que nunca tocam.

Mas a Sociedade da Paixão ainda acredita que o amor pode se reinventar. Assim como a Terra da Sabedoria busca regenerar o planeta com uma semente de inversão, a Sociedade busca regenerar o amor com uma semente de presença. Não a presença virtual, mas a presença real. O toque. O olhar. O silêncio compartilhado.

Os novos romances de 2026 apontam para isso. Amor em Campo, de Sadie McGrath, mostra que o amor pode nascer da rivalidade, mas também da entrega ao outro. Em Algum Lugar, de Victor Cordeiro, fala sobre como o amor pode ser encontrado nos silêncios, nos gestos mínimos, na companhia de um gato chamado Tempo.

E, talvez, seja isso que o amor em 2026 precisa: tempo. Tempo para desacelerar. Tempo para ouvir. Tempo para estar, não apenas para parecer.


O Novo Mosaico

As misses da Sociedade da Paixão decidiram, em 2026, que o mosaico do amor precisa ser refeito. Não com pedrinhas de vidro ou de dados, mas com pedrinhas de presença. Cada uma delas escolheu uma nova pedra para seu colar:

  • Lisbela escolheu uma pedra de fogo, mas não o fogo que consome — o fogo que aquece.

  • Blue escolheu uma pedra de água, mas não a água que afoga — a água que limpa.

  • Dolce escolheu uma pedra de terra, mas não a terra que prende — a terra que nutre.

  • Cristal escolheu uma pedra de ar, mas não o ar que dispersa — o ar que conecta.

E juntas, elas formaram um novo mosaico. Um mosaico que não é perfeito, que não é estável, que não é eterno. Mas que é real.


O Amor Caminha para o Encontro

Em 2026, o amor caminha para o encontro — não o encontro virtual, mas o encontro cara a cara. O amor caminha para o toque, para o olho no olho, para a presença que não pode ser replicada por nenhum algoritmo.

Os novos romances mostram isso. Haters do Amor termina com um beijo que não é dado, mas que é prometido. Com amor, Atena termina com uma escolha, não com um destino. Os dois tempos de Beto Garcia termina com um gol, mas também com um abraço.

O amor, em 2026, é um jogo que ainda não terminou. E a Sociedade da Paixão está pronta para jogá-lo — não para vencer, mas para viver.


“O amor não é um ponto de chegada. É uma estrada que se refaz a cada passo. E em 2026, a estrada é mais longa, mais tortuosa, mas também mais cheia de possibilidades.”

— Sociedade da Paixão, Capítulo 20 (2026)