Há uma sala de aula onde o quadro-negro não escreve esperança, mas o rascunho de uma operação. Onde o giz não desenha letras, mas linhas de poder. A educação, que deveria ser projeto de sociedade — uma catedral construída por gerações —, tornou-se moeda de troca nos porões oligárquicos. Enquanto isso, a aprendizagem definha, os professores sangram, e as escolas, abandonadas à sorte de seus contextos, viram ilhas de abandono.
Prioridades invertidas: o espetáculo do concreto sobre a mente
Em vez de perguntar ao professor qual ferramenta falta à sua alma para libertar a de seus alunos, rasga-se dinheiro em prédios que brilham como caixões vazios. Construtoras engordam, fornecedores de cadeiras cobram ouro por assentos onde crianças famintas tentam se equilibrar. Enquanto isso, não há banheiro, não há livro, não há brinquedo. Há uma arquitetura da ausência. E no centro desse teatro, a carteira nacional docente do professor vira palco: aumentos salariais fake news em orçamentos, usados como cortina de fumaça, enquanto o magistério permanece de joelhos, doente, massacrado por um sistema que exige milagres sem fornecer os pães.
O ouvido surdo ao chão da escola, atento ao sussurro do poder
Por que as vozes que ecoam nos corredores mofados não chegam aos gabinetes? Por que se escuta o “centrão”, as fundações empresariais com seus interesses vestidos de filantropia, e se silencia o professor que conhece o nome de cada aluno, a fome de cada um, o medo que atravessa a comunidade cercada pelo tráfico? A educação como projeto de sociedade exige que a comunidade escolar — famílias, professores, alunos — seja a arquiteta de seu próprio projeto. Cada escola, com sua realidade única, saberia dizer: aqui precisamos de alimento antes de álgebra; aqui, de acolhimento antes de avaliação. Mas não: impõe-se de cima um modelo cego, surdo e mudo.
A tirania do teste: o engodo que esconde o analfabetismo real
Foca-se no ENEM, em avaliação em duas disciplinas, como se um termômetro quebrado pudesse diagnosticar a febre de um corpo social inteiro. Os melhores sistemas do mundo — Finlândia, Coreia do Sul, Canadá — não construíram sua excelência com testes padronizados como fim, mas com formação docente sólida, valorização profissional, currículos flexíveis e atenção aos mais vulneráveis. Eles partiram de um princípio simples: educação de qualidade para todos, especialmente para os piores, não para uma minoria usada como “case” de marketing. Enquanto aqui, o “sucesso” é uma piada cruel: o aluno que passa no ENEM e não pode cursar porque precisa trabalhar; os “nem-nem” que vagam à margem; os mortos, genocídio de jovens pela negligência do Estado.
A realidade nua e crua do Ceará: o laboratório da desigualdade
No Ceará, a educação é refém de um jogo perverso. Enquanto comunidades empobrecidas lutam por água e dignidade, enquanto professores ganham migalhas e adoecem, uma máquina política há décadas no poder amplia fortunas. Ferreira Gomes, Camilo Santana, Mauro Benevides — nomes que se alternam em cadeiras, mas não na lógica. Bilhões de corrupção impunes, incentivos fiscais para bilionários, dinheiro público que deveria construir escolas e constrói mansões. A ascensão social é um mito. O salário mínimo é o menor. A pobreza persiste, hereditária. E o Ministro? Não é um educador, é um operador. Um homem que não foi bom aluno, não foi bom gestor, mas é mestre na arte de comprar votos e trocar favores. Que não se importa se mente, rouba ou mata — pois o genocídio juvenil é apenas estatística em seu projeto de poder.
A educação como projeto de sociedade: um manifesto poético e indignado
Precisamos de uma educação desenhada pelas mãos calejadas dos professores e pelas esperanças das famílias. Um projeto de longo prazo que comece na escuta genuína e termine na emancipação. Que use dados não para punir, mas para curar. Que olhe para os exemplos internacionais não para copiar, mas para inspirar-se em seu princípio maior: colocar os mais pobres no centro, dar-lhes as ferramentas para rasgar o ciclo da miséria.
Imaginemos: escolas com projetos próprios, onde a comunidade decida se prioriza uma horta comunitária contra a fome, ou uma oficina de paz contra a violência. Onde o dinheiro do aumento do professor seja sagrado, intocável, separado das negociatas. Onde o Estado compre cadeiras a preço justo e invista em bibliotecas, não em propina.
A educação não pode ser refém do sofrimento real. Ela deve ser a chave que abre a jaula. Enquanto os oligarcas se banqueteiam com o orçamento público, uma criança no Sertão olha para um livro sem gravuras e não entende as letras — porque ninguém lhe ensinou. Esse é o crime. Esse é o genocídio silencioso.
Que a indignação nos una. Que a memória dos mortos e a voz dos vivos exijam uma educação que seja, de fato, um projeto de sociedade. Porque sem isso, continuaremos a ver a vida se esvair entre notas fiscais superfaturadas e promessas vazias, enquanto o futuro do Ceará — e do Brasil — é enterrado sob os escombros de prédios suntuosos e almas devastadas.




