SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Reconfiguração do conceito clássico de "fuga de cérebros



O livro, "Democratic Drain: Global Migration and the Struggle for Democracy", da autoria de Justin Gest, aborda uma das interseções mais prementes e subexploradas da ciência política contemporânea: a relação entre a mobilidade humana internacional e a resiliência das instituições democráticas nos países de origem.

O grande valor acadéêico da obra reside na sua reconfiguração do conceito clássico de "fuga de cérebros". Em vez de limitar a análise às perdas estritamente económicas ou de capital humano altamente qualificado, Gest introduz a noção de "fuga democrática", a emigração sistemática de cidadãos com valores democráticos, elevados níveis de capital social e predisposição para a participação política e o protesto civil. Através de um enquadramento analítico rigoroso, o autor demonstra como a saída destes agentes de mudança enfraquece a oposição interna em regimes autoritários ou democracias iliberais em erosão. A emigração funciona, assim, como uma válvula de escape para os regimes autocráticos, libertando a pressão social e estabilizando a opressão ao "exportar" a dissidência política.

Do ponto de vista pessoal e crítico, a tese central do livro suscita reflexões profundas sobre a agência individual versus a responsabilidade coletiva. Ao encarar a decisão de emigrar como uma resposta de "saída" em detrimento da "voz", na linha do clássico paradigma de Albert Hirschman, Gest levanta uma questão ética incómoda: até que ponto a procura individual por liberdade e prosperidade no estrangeiro compromete involuntariamente o futuro político dos que permanecem? No entanto, a análise peca por vezes por uma visão excessivamente unidirecional da migração. O autor tende a subestimar a capacidade de influência da transnacionalidade e da diáspora que, através do envio de "remessas sociais", da transferência de ideias democráticas e do ativismo no exterior, pode atuar como um motor externo de democratização e financiamento da resistência civil.

Apesar destas limitações, Democratic Drain é uma obra provocatória, metodologicamente sólida e de leitura indispensável para investigadores de sociologia política, estudos migratórios e relações internacionais. Justin Gest entrega um ensaio envolvente que nos força a repensar os custos políticos invisíveis da emigração, alertando para o impacto devastador que o desfluxo de cidadãos empenhados tem no futuro global da democracia.

A palavra-chave nessa frase não é "riquezas", mas "Brasil".



O cenário que hoje muitos descrevem é uma imaginação geopolítica baseada na metáfora da "véspera da Primeira e segunda Guerra Mundial", cuja intuição central — disputa entre grandes potências, competição por recursos, polarização ideológica e risco crescente de conflitos por procuração — tem base real. Mas equiparar diretamente a situação atual a 1914 envolve riscos analógicos significativos: a existência de dissuasão nuclear, a profundidade da interdependência econômica e a consciência de autonomia estratégica dos países do Sul Global tornam difícil a reprodução simples da lógica da "velha guerra imperialista". Apesar do poderio americano.

No entanto, várias tendências concretas são reais: ascensão de forças populistas de esquerda e direita em vários países, aceleração da transferência de tecnologia chinesa para a África, fortalecimento do controle americano sobre a América Latina em nome da segurança, e o Brasil se tornando foco de disputa entre grandes potências por minerais críticos. A resposta racional a essas tendências não está em "preparar-se para a guerra", mas em converter a dotação de recursos em trunfo estratégico, em vez de ser um objeto passivo de disputa.

I. Decomposição dos fenômenos: o que é fato e o que é narrativa

O avanço eleitoral da esquerda e de socialistas de fato existe, mas é preciso distinguir "avanço simbólico" de "mudança estrutural". A vitória do candidato socialista Mamdani para Prefeito de Nova York sobre o congressista incumbente tem significado simbólico na política americana. Jones Manoel, como influenciador de esquerda com milhões de seguidores, tem capacidade real de mobilização na eleição para deputado federal no Brasil, com financiamento de campanha quase todo proveniente de pequenas doações coletivas. Na Europa, forças de direita também estão em ascensão na França e na Holanda, não havendo uma guinada unilateral à esquerda. Esses fenômenos apontam conjuntamente para o enfraquecimento generalizado dos partidos tradicionais de centro-esquerda e centro-direita em escala global, e não para um renascimento do comunismo.

A cooperação tecnológica e industrial entre China e África está se acelerando, mas o número. Em 2025, o comércio China-África atingiu 348 bilhões de dólares, com crescimento de 17,7% em relação ao ano anterior. A China implementou tratamento tarifário zero para 53 países africanos com relações diplomáticas, e a cooperação em IA já chegou a sistemas inteligentes de alerta meteorológico na Etiópia e no Djibuti. Representantes da União Africana afirmaram claramente que o objetivo da África é passar de "exportar matérias-primas" para "produzir manufaturados", e de "gerar dados brutos" para "produzir inteligência processada". Esta é uma tendência real de transferência industrial, impulsionada mais pela externalização de capacidade produtiva da China e pela necessidade de diversificação de cadeias de suprimento do que por uma narrativa pura de "libertação".

O controle americano sobre a América Latina está sendo fortalecido em nome da "securitização". A aliança "Escudo das Américas" é liderada pelos EUA, com participação de 14 países latino-americanos, usando o combate a cartéis de drogas como justificativa pública, mas análises especializadas indicam que seu objetivo real é impedir a expansão da influência econômica chinesa na América Latina. A aliança já classificou o PCC e o CV do Brasil como "organizações terroristas" e planeja levar a proposta à Organização dos Estados Americanos, tentando obter uma cobertura legal para intervenção militar por meio do Tratado do Rio.

O atributo de "mina de ouro" do Brasil está sendo confirmado institucionalmente. O Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo. O Senado aprovou um projeto de lei de regulamentação de minerais críticos, criando um fundo de garantia de 2 bilhões de reais (cerca de 391 milhões de dólares) e incentivos fiscais de 5 bilhões de reais (cerca de 978 milhões de dólares), com o objetivo explícito de impedir a repetição da história em que "a América Latina exportava apenas ouro e prata como matéria-prima". A postura de Lula é clara: "O Brasil vai cooperar com todos os países dispostos a participar — Estados Unidos, China, Alemanha, França."

A vulnerabilidade financeira é de fato o ponto fraco do Brasil. Relatório da Moody's aponta que o Brasil precisa de um ajuste fiscal adicional equivalente a 2,6% do PIB para estabilizar a dívida, enquanto enfrenta a pressão das importações chinesas sobre a indústria local e o risco de "desindustrialização". A taxa de endividamento das famílias chega a 80,4%, e o poder de compra da moeda perdeu cerca de 90% desde 1994.

II. O risco da analogia: por que "1914" é um quadro perigoso

Equiparar a situação atual à véspera da Primeira Guerra Mundial tem como problema principal confundir a lógica da "competição" com a da "guerra".

O mundo de 1914 não tinha armas nucleares, e os decisores das grandes potências acreditavam que a guerra seria "breve e decisiva". Hoje, a dissuasão nuclear tornou o custo de um conflito militar direto entre grandes potências insuportável. Mais importante ainda, a natureza da interdependência econômica mudou: o comércio de 1914 era principalmente de produtos acabados, enquanto as cadeias de suprimento de hoje são fragmentadas e profundamente entrelaçadas, e cortá-las significa sofrimento simultâneo para todos os envolvidos.

Outra diferença crucial é a consciência de autonomia estratégica do Sul Global. O Brasil não foi convidado a integrar o "Escudo das Américas" e mantém cautela em relação a ele. A postura de Lula de contatar simultaneamente EUA e China indica que potências médias estão usando a competição entre grandes potências para obter benefícios próprios, em vez de escolher lados passivamente. Isso difere essencialmente da situação de 1914, quando países dos Bálcãs eram manipulados por grandes potências.

A narrativa de que "a guerra serve para ocupar territórios" precisa ser especialmente cautelosa na área de recursos. O verdadeiro risco dos minerais críticos brasileiros não é a ocupação militar, mas o "aprisionamento" financeiro — por meio de dívidas, aquisição de participações, acordos de compra de longo prazo, transferindo gradualmente a soberania sobre recursos. A aquisição da Serra Verde, única produtora comercial de terras raras do Brasil, pela empresa americana USA Rare Earth por 2,8 bilhões de dólares é um caso típico desse "controle não militar".

III. O que pode ser feito: de "objeto de disputa" a "sujeito do jogo"

Primeiro, tratar a "cadeia industrial completa" dos minerais críticos como estratégia nacional, em vez de parar na etapa de extração. O projeto aprovado pelo Senado brasileiro já contém o quadro correto: usar incentivos fiscais para estimular processamento e transformação locais, e usar um comitê nacional para revisar o controle estrangeiro sobre direitos minerários estratégicos. O ponto crítico está na execução: quando Lula diz "não repetir a história do ouro e da prata", isso significa rejeitar o modelo de exportação pura de matéria-prima. Se as terras raras forem enviadas apenas na forma de óxidos para a China ou os EUA, o Brasil permanecerá na base da cadeia de valor. O verdadeiro trunfo está na capacidade de processamento, trabalhadores técnicos e poder de precificação.

Segundo institucionalizar a "aposta múltipla", em vez de oscilar de forma oportunista. A estratégia de Lula de contatar simultaneamente EUA, China, Alemanha e França é correta, mas precisa de mecanismos de hedge institucionalizados: assinar acordos de cooperação diferenciados com diferentes parceiros, evitando que qualquer país obtenha acesso exclusivo. O memorando de minerais críticos assinado entre Brasil e Índia é um ponto de partida. A cooperação tecnológica no âmbito do BRICS e a parceria de transição verde com a UE podem servir como ferramentas de equilíbrio.

Terceiro, encarar a restrição fiscal com realismo, mas rejeitar a autolimitação do tipo "austeridade". A necessidade de ajuste fiscal de 2,6% do PIB apontada pela Moody's é real. Mas a forma de cortar gastos é crucial: se o corte for em educação e ciência e tecnologia, é repetir o "fracasso de desenvolvimento autofágico". O caminho racional é reconfigurar a estrutura de gastos — reduzir subsídios a setores ineficientes, aumentar investimentos em educação técnica, P&D e infraestrutura de cadeias produtivas. A China levou trinta anos para passar de atrasada em relação ao Brasil a maior economia do mundo, e o núcleo não foi o "996", mas a política industrial contínua e o investimento em educação.

Quarto, manter cautela em relação ao "Escudo das Américas", mas evitar cair na armadilha do "antiamericanismo como justiça". A intenção real da aliança é limitar a presença econômica chinesa na América Latina. A resposta racional do Brasil não é confronto aberto, mas buscar contrapesos processuais no âmbito da OEA, ao mesmo tempo em que acelera a integração econômica com o Mercosul e os países do BRICS, reduzindo a dependência de qualquer mercado único. Classificar o PCC e o CV como "organizações terroristas" é, em si, uma questão jurídica que exige tratamento prudente — uma vez aceito esse quadro, abre-se uma brecha legal para intervenção militar externa.

Quinto, as forças de esquerda precisam passar da "política de influenciador" para a "capacidade de governança". O fenômeno Jones Manoel mostra que as redes sociais podem disseminar eficientemente ideias de esquerda e mobilizar jovens. Mas a vitória eleitoral é apenas o começo. A vitória socialista em Nova York também enfrenta uma questão: como cumprir promessas no governo sem ser assimilado pelo establishment ou reprimido. Se a esquerda brasileira quiser formar uma alternativa eficaz nas eleições de 2026, precisará não apenas de influenciadores, mas de políticas industriais concretas, planos fiscais e equipes de governança.

No fim, a parte mais perigosa do cenário de "véspera da Primeira Guerra Mundial" não é a ameaça externa, mas a mentalidade passiva interna — ver a si mesmo como tabuleiro do jogo entre grandes potências, esperando ser disputado ou salvo. As terras raras, alimentos, recursos hídricos e minerais críticos necessários para a transição energética que o Brasil possui são de fato trunfos escassos na futura ordem global. Mas o valor desses trunfos depende de quem está na mesa de negociação, em que condições, e para os interesses de quem eles serão usados. Lula diz que "o Brasil quer ser o grande vencedor dessas riquezas". A palavra-chave nessa frase não é "riquezas", mas "Brasil". 

domingo, 27 de setembro de 2026

Por que algumas pessoas acreditam que a IA é um Anticristo

 

Ilustração cinemática do planeta Terra meio coberto de lava fundida em ardente destruição, enquanto a outra metade permanece azul e pacífica, simbolizando a transformação planetária
    • Author,Lebo Diseko
    • Role,Repórter de religião do Serviço Mundial da BBC
  • Published
  • Tempo de leitura: 7 min

"A IA terá papel central nos tempos finais."

Estas palavras não vêm de mais um profissional das empresas de tecnologia, alertando sobre uma iminente ameaça à humanidade, mas sim de Philip Anthony Mitchell, um pastor de enorme influência, de Atlanta, nos Estados Unidos.

Por "tempos finais", ele quis dizer o fim do mundo.

Mais de um ano se passou após a profecia de Mitchell. E muitos outros cristãos importantes, em fóruns que variam do TikTok e podcasts até o setor editorial, estão discutindo se a inteligência artificial poderá ser um catalisador da destruição do planeta.

"A IA pode fazer parte de um cenário de fim dos tempos?", questiona o megapastor americano Greg Laurie. "É muito possível."

Outro pastor americano, Mike Signorelli, alerta que a IA "é parte integrante de como você chega ao Anticristo".

Todos eles reconhecem que a IA pode ser usada para o bem. Mas também alertam sobre o Anticristo, representante de Satã, que pode empregá-la para atrair as pessoas para adorá-lo, em substituição a Deus.

No cristianismo, o "fim dos tempos" se refere às profecias sobre os dias finais da Terra. O Anticristo é considerado inimigo de Deus, que assume o poder até ser vencido em batalha por Jesus.

Estas ideias se baseiam principalmente no último livro da Bíblia, o Apocalipse. Ele contém descrições intensas e assustadoras, que incluem "a besta que emerge do mar", com sete cabeças e 10 chifres, que se acredita representar o Anticristo.

Muitos cristãos consideram o Apocalipse como um texto metafórico. Alguns afirmam que ele se refere à perseguição da Igreja nos seus primórdios, pelo Império Romano.

Mas outros o consideram uma profecia. E alguns dizem que a inteligência artificial seria a "segunda besta" do livro, um "falso profeta" que ludibria a humanidade para que venerasse o Anticristo — ou, até mesmo, que a IA seria o próprio Anticristo.

Detalhe do afresco dos Feitos do Anticristo (1499-1504) de Luca Signorelli, na catedral de Orvieto, na Itália, ilustrando Satã com chifres, cochichando no ouvido do Anticristo, retratado de forma similar a Jesus, com barba, cabelos longos e manto esvoaçante
Legenda da foto,Satã, ilustrado manipulando sua marionete, o Anticristo, para iludir as pessoas inocentes a venerá-lo no lugar de Jesus

A IA está, sem dúvida, mudando o mundo e causando receios sobre o seu poder e capacidade.

O ex-pesquisador da Anthropic, Jacob Coxon, indicou que "todos nós poderemos morrer em futuro muito próximo" e donos de empresas de tecnologia alertam sobre os riscos, se a velocidade do seu desenvolvimento não for reduzida.

"A discussão do fim dos tempos floresce em épocas de grandes mudanças", segundo a professora Noreen Herzfeld, da Escola de Teologia e Seminário de São João, nos Estados Unidos. Ela é especializada em IA e na ética da tecnologia.

"Ela oferece às pessoas uma forma de compreender o estresse da sociedade, de sentir que não é algo simplesmente aleatório, que faz parte dos planos de Deus."

Herzfeld compara o impacto da IA sobre os empregos à revolução industrial, trazendo consigo altos níveis de incerteza e ansiedade.

"Estamos vivendo em uma época de rápidas mudanças", segundo ela. "E estamos observando a tecnologia de computadores [evoluir] com muito mais rapidez do que no passado."

"Ouvimos que esta tecnologia irá tomar os empregos, que irá mudar tudo, revolucionar tudo. Este tipo de mudança rápida é muito difícil para as pessoas."

Existe também uma sensação de perda de autonomia. A IA participa da maior parte das nossas vidas, queiramos ou não — e os alertas do Vale do Silício "afirmam que existe uma chance de 10%, de 15%, de que a IA nos destrua a todos."

"Se as pessoas puderem sentir que Deus ainda está no controle, que ainda existe um propósito para isso, que foi algo estabelecido, elas poderão dizer: 'Como quero enfrentar este momento?' O que devo fazer? Como faço para me posicionar do lado do bem e não do mal?'"

De pé no palco, com os olhos fechados e as mãos estiradas, o pastor Mike Signorelli, vestindo calças bege e camiseta azul, amarela e laranja com a inscrição 'Breakers 25', se dirige a uma conferência no Estado americano de Illinois, em 2025
Legenda da foto,O pastor Mike Signorelli faz parte dos 47% dos cristãos americanos adultos que acreditam que estamos vivendo no fim dos tempos, segundo uma pesquisa

Cerca de 40% dos americanos adultos acreditam que estamos vivendo no fim dos tempos, segundo uma pesquisa do Pew Research Center de 2022. Entre os cristãos, o percentual sobe para 47%.

Este é um tema que se repete década após década, segundo os especialistas, projetando as ansiedades do momento para a figura do Anticristo.

"Minha avó achava que [o ex-presidente americano] Franklin Delano Roosevelt [1882-1945] fosse o Anticristo", afirma o professor Jeffrey C. Pugh, da Universidade de Elon, no Estado americano da Carolina do Norte.

Roosevelt assumiu a presidência em 1933, em meio à Grande Depressão, um período de pobreza e grandes incertezas. Sua solução, o New Deal, foi considerada revolucionária.

Para Pugh, a visão da sua avó "reflete a irracionalidade de tentar mapear os eventos atuais em uma narrativa bíblica específica".

A questão do fim dos tempos tem sido um tema recorrente nos Estados Unidos, mas ganhou força nos anos 1960.

"Foi uma época específica de convulsão social", explica Pugh. "Tivemos dois líderes políticos assassinados [nos EUA] — três, se contarmos Martin Luther King Jr. [1929-1968]."

"Tivemos cidades em chamas devido à ira dos negros contra a opressão branca. Tivemos crianças começando a se expressar como nunca antes", como nos protestos contra as guerras até a contracultura da juventude.

'Tecnologias assustadoras'

Os anos 1970 trouxeram a popularidade do livro A Agonia do Grande Planeta Terra, do escritor evangélico americano Hal Lindsey (1929-2024). Ele relaciona explicitamente as profecias do fim dos tempos a eventos e à geopolítica da época.

"A partir daquele momento, toda agitação social passou a ser atribuída à ideia do fim dos tempos", segundo Pugh.

Durante a Guerra Fria (1947-1991), a União Soviética (1922-1991) e o comunismo eram o Anticristo. Após os ataques de 11 de setembro de 2001, para alguns cristãos, ele passou a ser o Islã.

"Os medos de todas as eras costumam ser projetados nessas narrativas" do fim dos tempos, explica Pugh.

O pastor australiano Stephen Driscoll escreveu o livro Made in Our Image: God, Artificial Intelligence and You ("Feita à nossa imagem: Deus, a inteligência artificial e você", em tradução livre). Ele não sabe ao certo quem ou o que é o Anticristo.

Para ele, a IA, "uma das tecnologias mais assustadoras que já criamos", é um "candidato plausível". Mas usar a Bíblia para tentar prever o futuro não é particularmente positivo.

"A Bíblia oferece muito mais do que simples especulações sobre quem é o Anticristo", segundo Driscoll. Ela "nos prepara para as mudanças, oferece uma teologia de trabalho e ferramentas para sermos realistas sobre o alinhamento da IA".

'Obedeça a Deus'

O Velho Testamento "fala sobre inovações da tecnologia agrícola, como máquinas debulhadoras e coisas diferentes... e diz que tudo isso vem do Senhor", prossegue Driscoll.

"Deus é um Deus de sabedoria tecnológica", com controle final "sobre todas as eras tecnológicas, da idade da pedra até o bronze, o ferro, o aço, a idade nuclear, até a IA".

No Velho Testamento, Daniel, no exílio, vive em vários impérios, usando diferentes tecnologias, segundo Driscoll. Ele "não consegue controlar os tempos e impedir os impérios futuros, mesmo se eles trouxerem tragédias".

"Mas ele [consegue] ter fé e esperança, viver bem, amar as pessoas e obedecer a Deus onde se encontrar. Ele não pode controlar os tempos, mas consegue viver bem."

Ou seja, estejamos ou não enfrentando o fim do mundo, em última análise, tudo irá acabar bem.

"Nem tudo o que acontece é bom", segundo Driscoll. Mas o mais importante é que "Deus é bom — e Ele está no controle."