SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Comida, Diversão e Arte! Por Egidio Guerra


Nas últimas décadas, a comida deixou de ser apenas um ato de sustento para se consolidar como um dos principais eixos do lazer contemporâneo e uma das mais acessíveis formas de expressão artística. Cozinhar, comer e até mesmo filmar uma refeição são hoje atividades que envolvem criatividade, prazer, entretenimento e performance social. Este texto explora essa interseção entre comida, diversão e arte, tendo como fio condutor o instigante livro All Consuming: Why We Eat the Way We Eat Now, da escritora e finalista do Great British Bake Off Ruby Tandoh, e dialogando com outras obras e pesquisas acadêmicas que ajudam a desvendar o fascinante universo da alimentação em sua plenitude.

🍲 Ruby Tandoh e a Nova Era da Cultura Alimentar

Ruby Tandoh, conhecida por sua passagem marcante pelo Great British Bake Off e por uma carreira literária que inclui os aclamados livros de receitas Cook As You Are e Flavour, lançou em 2025 All Consuming. A obra rapidamente se tornou um best-seller instantâneo do Sunday Times e foi eleita um dos 100 livros notáveis do ano pelo The New York Times. Diferentemente de seus trabalhos anteriores focados em receitas e técnicas, Tandoh decide aqui "mergulhar no mundo caótico da alimentação dos anos 2020 armada com um sarcasmo delicioso e uma análise histórica na mesma medida".

O objetivo da autora é ambicioso: traçar a extraordinária transformação pela qual passou a nossa relação com a comida nos últimos 75 anos, expondo como forças sociais, econômicas e tecnológicas remodelaram drasticamente nossos desejos e gostos. Tandoh questiona até que ponto nossos paladares são, de fato, nossos, em uma análise que é, ao mesmo tempo, uma "originalíssima história cultural" e um estudo profundamente pessoal.

😋 Prazer e Lazer: A Comida como Experiência Hedonista

A obra de Tandoh nos lembra que, antes de qualquer outra coisa, comer é uma busca por prazer. Essa ideia, no entanto, é frequentemente ignorada ou tratada com culpa. Em uma de suas passagens mais perspicazes, ela observa que "as dietas começam com a ideia de consumir menos, enquanto no wellness, você começa adicionando coisas". Essa pequena inversão semântica revela como nossa cultura alimentar está dividida entre a privação moralizante e a adição de suplementos e superalimentos.

Essa tensão entre prazer e controle não é nova. Já em 1825, o filósofo e gourmet francês Jean Anthelme Brillat-Savarin, em sua obra seminal A Fisiologia do Gosto, proclamava que "a descoberta de um novo prato traz mais felicidade à humanidade do que a descoberta de uma nova estrela". Para ele, os "prazeres da mesa" transcendiam o mero sustento, constituindo uma experiência transcendental, acessível a todas as classes sociais e repleta de refinamento intelectual e artístico. Michael Pollan, em obras como Cozinhar: Uma História Natural da Transformação, ecoa esse sentimento ao afirmar que "não há contradição alguma entre o prazer de comer e a manutenção da saúde", lembrando que as comidas verdadeiras possuem "prazeres simples e profundos" que a comida rápida jamais conseguirá igualar.

Nesse contexto, a comida se consolida como uma das formas mais significativas de lazer na modernidade, uma atividade de tempo livre carregada de investimento simbólico, prazer e criatividade. Esse lazer, contudo, também é um campo de disputas, refletindo as complexidades do mundo contemporâneo.

🎨 A Comida como Expressão Artística e Criatividade

A passagem da cozinha como tarefa doméstica para a cozinha como arte é um dos fenômenos mais notáveis da era moderna, e Tandoh não hesita em dissecá-lo, apontando suas contradições. Ela traça a genealogia do "foodie" atual, mostrando como ele não surgiu do nada. Nos EUA, o surgimento de uma classe média pós-Segunda Guerra Mundial criou um novo papel para a mulher no lar, retratado em vídeos virais como o da tradwife moderna, que relembra, muitas vezes sem o devido crédito, o trabalho invisível de figuras como a personagem "Tia Jemima". Tandoh brilhantemente conecta críticos de diferentes épocas e origens: o atual influenciador negro do TikTok Keith Lee, o crítico amador branco dos anos 1950 Duncan Hines e o também contemporâneo de Hines, Victor Hugo Green, autor do Green Book, um guia essencial para viajantes negros que precisavam saber onde poderiam comer com segurança em uma América segregada.

Essa capacidade de mostrar que nada é totalmente novo é uma marca registrada de Tandoh. O fenômeno do chá bolha (bubble tea), por exemplo, não é uma moda passageira, mas o resultado de uma confluência específica de fatores: desde o lançamento do Instagram no Reino Unido até as mudanças nas políticas de matrículas de estudantes estrangeiros e os custos de produção. Ela explica que a bebida explodiu não só por seu apelo visual, que funciona perfeitamente nas redes, mas por ter sido "impulsionada pelos mecanismos fundamentais do capitalismo".

Essa análise vai ao encontro de outra vertente do pensamento sobre comida e criatividade. Livros como Taste as Experience: The Philosophy and Aesthetics of Food (2016), de Nicola Perullo, colocam o prazer e a estética no centro da experiência humana, mostrando como o paladar informa nossa relação com o mundo e nos impulsiona para práticas éticas de consumo. Já Cooking for Geeks: Real Science, Great Cooks, and Good Food, de Jeff Potter, aborda a criatividade culinária sob uma perspectiva diferente, revelando como aplicar a curiosidade científica na cozinha, transformando a preparação de alimentos em uma atividade lúdica e inventiva.

📱 A Comida como Diversão e Performance Social

Talvez a grande contribuição de Tandoh para o debate seja como ela ilumina o papel das novas tecnologias. Se antes a comida era um assunto de conversa em encontros sociais, hoje ela é, antes mesmo de ser comida, um conteúdo a ser consumido nas telas. Tandoh descreve uma "economia de receitas" que se transformou em um "pântano crocante, pegajoso, cremoso, coberto de queijo e polvilhado com cúrcuma", projetado por algoritmos para nos deixar com fome, inveja e terror ao mesmo tempo.

Nesse novo mundo, "todo mundo é um crítico e ninguém é um crítico". A performance do ato de comer tornou-se onipresente: são as filas quilométricas que se tornam celebridades por si só, o fenômeno de esperar 45 minutos na chuva por um sorvete da moda visto no Instagram, ou a profusão de vídeos de "pull de queijo" que dominam os feeds, e Tandoh analisa todas essas tendências com perspicácia.

O conceito de performance é central. Tandoh sugere que o jantar em casa, por exemplo, deixou de ser um momento de convívio despretensioso para se tornar uma encenação, um ato público regido pelas leis do algoritmo. Mesmo as tradwives, figuras que aparentemente representam um retorno ao passado, são, na verdade, uma construção altamente performática para as câmeras do TikTok e Instagram. Essa espetacularização, no entanto, não é simplesmente fútil. Para Tandoh, trata-se de um fenômeno cultural complexo, repleto de criatividade e potência, que merece ser compreendido em suas próprias nuances.

📚 Um Panorama de Leituras Essenciais sobre Comida, Cultura e Sociedade

O trabalho de Tandoh se soma a uma vasta e rica bibliografia que busca compreender o papel da comida em nossas vidas para além da nutrição. Algumas obras fundamentais incluem:

  • Hábitos e Psicologia Alimentar: Em First Bite: How We Learn to Eat, a historiadora da alimentação Bee Wilson mergulha nas mais recentes pesquisas de psicólogos, neurocientistas e nutricionistas para revelar que nossos hábitos alimentares são profundamente moldados pela família, cultura, memória e até mesmo pelo amor.

  • Comida e o Espaço Urbano: Carolyn Steel, em Hungry City: How Food Shapes Our Lives, adota uma perspectiva original ao mostrar como o alimento molda as cidades. Acompanhando a jornada da comida do campo e do mar até a mesa e de volta ao lixo, Steel revela como esse ciclo infinito afeta nossas vidas e o planeta.

  • Os Rituais à Mesa: Margaret Visser, em The Rituals of Dinner, oferece um olhar fascinante sobre a história dos rituais de comer, desde os banquetes da Grécia Antiga até os jantares formais contemporâneos, passando pelo canibalismo e a eucaristia, para definir o que é, afinal, o ritual de comer. 

  • Classe e Culinária: Jack Goody, em Cooking, Cuisine and Class, faz um estudo de sociologia comparada para responder por que uma "grande cozinha" diferenciada não surgiu na África como ocorreu em outras partes do mundo, explorando a relação entre estrutura de classes e a alta gastronomia. 

  • Perspectivas Acadêmicas no Brasil: No cenário acadêmico brasileiro, pesquisadores têm se dedicado a compreender a alimentação sob uma ótica sociopolítica e cultural, explorando temas como a comida como construtora de identidades, gênero e etnia, ou como "lubrificante" de interações sociais. A obra Comida, Carisma e Prazer: um estudo sobre a constituição do Slow Food no Brasil, por exemplo, investiga como o movimento Slow Food, que nasceu com foco no prazer alimentar, tem se afastado ou não desse aspecto hedonista. Pesquisas também apontam a alimentação como uma área legítima de análise social e até mesmo como forma de ativismo e resistência. 

✍️ Conclusão: O Prazer de Pensar sobre a Comida 

O que Ruby Tandoh demonstra com maestria em All Consuming é que a comida, quando vista através das lentes da diversão e da arte, deixa de ser um ato trivial para se tornar uma janela privilegiada para as complexidades do nosso tempo. Comer é uma forma de criar comunidade, de expressar identidade, de exercer criatividade e, acima de tudo, de sentir prazer. 

Mesmo diante de um cenário de excessos, modas efêmeras e pressões algorítmicas, Tandoh se recusa ao pessimismo, enxergando na criatividade popular e nas conexões inesperadas uma força regenerativa. Ao conectar o influenciador Keith Lee aos guias de estrada dos anos 1950, ou o chá bolha às políticas de imigração britânicas, ela nos oferece uma lente para enxergar nossa própria cultura com mais curiosidade, menos julgamento e muito mais diversão. Afinal, se somos o que comemos, e se comemos de forma cada vez mais performática e midiática, talvez seja hora de levarmos a sério o prazer e a ludicidade que a boa mesa, em todos os seus sentidos, ainda pode nos proporcionar. 

 

Fugir do mundo é fácil. O desafio verdadeiramente impossível é fugir de quem somos. Por Egidio Guerra.

 



O impulso de escapar é profundamente humano: largar tudo, comprar um barco e desaparecer no horizonte em busca de uma vida de liberdade e aventura. Mas e se a maior prisão não for o mundo cinzento de onde se foge, mas a mente com quem se foge? "Um Casamento no Mar: Uma História Real de Amor, Obsessão e Naufrágio" ("A Marriage at Sea: A True Story of Love, Obsessionand Shipwreck"), da jornalista britânica Sophie Elmhirst, explora esta questão com uma profundidade raramente vista na não-ficção. Mais do que um relato de sobrevivência, este livro — que foi best-seller do New York Times e eleito um dos melhores do ano pelo The Sunday Times e The Times — é uma meditação sobre a natureza da parceria e uma afirmação poderosa de que, por mais longe que se navegue, não se pode escapar de si mesmo.

Em 1973, o casal britânico Maurice e Maralyn Bailey estava a 300 milhas das Ilhas Galápagos quando uma baleia colossal colidiu com o seu iate, abrindo um rasgo no seu casco. Em minutos, a casa que tinham construído, um sonho de décadas, afundou-se nas águas do Pacífico, deixando-os a flutuar num bote salva-vidas e num pequeno bote inflável. O que se seguiu foram 118 dias de agonia numa jangada de borracha, sem rádio, sem motor e com a esperança a diminuir a cada navio que passava ao largo, sem ver os seus acenos desesperados. Como os dois se mantiveram vivos — e como a pressão extrema da situação revelou as suas verdadeiras naturezas — é o coração deste relato eletrizante.

🌊 A Fuga que se Tornou Prisão

Maurice e Maralyn não eram aventureiros natos, e a sua fuga do subúrbio inglês foi tudo menos romântica. Maurice, um tipógrafo que sobrevivera a uma infância difícil e a tuberculose na juventude, era um excêntrico detalhista, antissocial e desconfiado do mundo. Maralyn, quase uma década mais nova, trabalhava num escritório de impostos e ansiava por sair de casa dos pais e viver uma grande aventura. Foi ela quem, numa noite sombria e deprimente de novembro, o convenceu a vender a casa e a construir um barco para velejar até à Nova Zelândia.

No entanto, a viagem já transportava os germes da sua própria ruína. Maurice era obcecado por autossuficiência e pela pureza da experiência marítima. Para "preservar a sua liberdade de interferências externas", recusou-se terminantemente a instalar um simples rádio ou qualquer equipamento eletrônico de comunicação no navio. Esta decisão, tomada em nome da independência, transformaria um acidente num desastre quase certo. O sonho de escapar da sociedade cinzenta tinha-se tornado numa prisão autoimposta no meio do oceano. A sua viagem era, nas palavras do autor Geoffrey Wolff, "quase desafiadora no seu sentido de alienação".

⛈️ Quem São Quando o Barco Afunda?

A verdadeira história, porém, não é sobre o naufrágio, mas sobre o que aconteceu depois. Enquanto flutuavam à deriva, a dinâmica do casamento inverteu-se completamente. Antes do acidente, Maurice era o capitão meticuloso que planeava a rota, e Maralyn cuidava da cozinha e dos mantimentos. Mas no momento do perigo, o homem que tanto prezava o controle sucumbiu ao desespero e à hesitação. Foi Maralyn, a mulher que nem sequer sabia nadar, quem assumiu o comando.

Elmhirst descreve Maralyn como a verdadeira heroína da história. Com uma "tenacidade capaz de perfurar rocha", ela liderou a sua luta pela sobrevivência. Enquanto Maurice sucumbia à paralisia, ela organizava a pesca de tubarões, recolhia água da chuva e, num ato de força de vontade extraordinário, listava mentalmente menus detalhados para chás e jantares que nunca sabia se iria voltar a servir, como uma forma mágica de forçar a existência de um futuro. A sua resiliência contrastava fortemente com o pânico dele, revelando que as forças e fraquezas mais profundas de cada um só emergiam sob a pressão máxima.

🏠 O Regresso a Casa... e a Si Mesmos

Milagrosamente, foram resgatados por um navio de pesca sul-coreano. E, de forma surpreendente, mal regressaram a Inglaterra, começaram imediatamente a planejar uma nova viagem marítima. A tentação do isolamento e da fuga era-lhes tão intrínseca que nem 118 dias de agonia foram suficientes para a extirpar. O regresso não foi um alívio, mas uma revelação. O mundo de onde tinham fugido continuava lá, mas eles já não eram os mesmos. A viagem não os tinha transformado em heróis românticos; tinha-lhes mostrado, crua e implacavelmente, quem eram realmente quando tudo o resto desaparecia.

A história de Maurice e Maralyn Bailey não é apenas a crônica de um naufrágio; é uma parábola sobre o amor e a parceria levada ao limite. É um lembrete poderoso de que a maior jornada não é a que fazemos através do mundo, mas a que fazemos para dentro de nós mesmos. Por mais quilômetros que se percorra, o passageiro mais complexo, teimoso e inevitável que levamos a bordo é sempre a nossa própria personalidade. Fugir do mundo é fácil. O desafio verdadeiramente impossível é fugir de quem somos.