SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

A Culture of Growth: The Origins of the Modern Economy

1. Introdução e Contexto.

Publicado em 2016 pela Princeton University Press, A Culture of Growth: The Origins of the Modern Economy é a obra mais ambiciosa do historiador econômico Joel Mokyr, professor da Northwestern University. O livro aborda uma das perguntas centrais da história econômica: por que o crescimento econômico moderno — sustentado, permanente e acompanhado de inovação contínua — emergiu na Europa e não em outras partes do mundo, como a China?

Mokyr argumenta que a resposta não está em fatores geográficos, institucionais ou em dotações de fatores (como a famosa tese de Robert Allen sobre salários altos e carvão barato na Inglaterra), mas sim em uma mudança cultural profunda que ocorreu na Europa entre 1500 e 1700. Para Mokyr, foram as mudanças nas crenças, valores e preferências — o que ele chama coletivamente de "cultura" — que criaram as condições para o avanço científico e tecnológico que desencadearia a Revolução Industrial e o subsequente "Grande Enriquecimento".

2. Estrutura e Método

O livro está organizado em 17 ensaios interconectados, divididos em quatro partes principais:

  1. Evolução, cultura e história econômica — onde Mokyr apresenta seu arcabouço teórico, combinando teoria da evolução cultural, economia institucional e teoria do crescimento.

  2. Empreendedores culturais e mudança econômica (1500-1700) — com estudos de caso sobre Francis Bacon e Isaac Newton como figuras centrais na transformação cultural.

  3. Inovação, competição e pluralismo na Europa (1500-1700) — analisando como a fragmentação política europeia criou um "mercado de ideias" competitivo.

  4. Mudança cultural no Oriente e no Ocidente — um exercício comparativo entre Europa e China.

Metodologicamente, Mokyr combina insights da teoria da evolução cultural (adaptada de Darwin, mas com ênfase em processos baseados em escolha consciente) com elementos da teoria econômica (ideias smithianas, schumpeterianas e da "nova teoria do crescimento"). Ele adverte, porém, contra a simples transposição de conceitos biológicos para a história econômica.

3. Principais Argumentos

3.1. A "Cultura do Crescimento" como Fator Decisivo

O argumento central de Mokyr é que o crescimento econômico moderno não pode ser explicado apenas por instituições formais — propriedade privada, contratos enforceáveis, Estado de direito etc. Embora necessárias, essas instituições são insuficientes. O que faltava em outras sociedades era uma cultura que valorizasse a investigação da natureza e a aplicação do conhecimento útil à produção.

Mokyr define cultura como "um conjunto de crenças, valores e preferências, capazes de afetar o comportamento, que são transmitidos socialmente (não geneticamente) e compartilhados por algum subconjunto da sociedade". A "cultura do crescimento" específica da Europa ilustrada caracterizava-se por:

  • Uma crença de que os seres humanos podiam melhorar sua condição por meio da ciência e da razão.

  • Uma disposição para investigar os segredos da natureza por meio da experimentação.

  • Uma atitude de progresso — a ideia de que o conhecimento se acumula e que as gerações futuras saberão mais que as passadas.

3.2. O Papel dos "Empreendedores Culturais"

Mokyr atribui um papel fundamental a figuras como Francis Bacon e Isaac Newton, que atuaram como "empreendedores culturais". Bacon, com sua defesa de que "a verdadeira e legítima meta de todas as ciências é dotar a vida humana de novas invenções e riquezas", estabeleceu a conexão entre conhecimento científico e utilidade prática. Newton demonstrou que o universo opera segundo "regras" matemáticas que podem ser descobertas, tornando a natureza previsível e manipulável.

Esses empreendedores não agiram sozinhos; eles operaram em um contexto de "mercado de ideias" competitivo, onde propostas podiam ser disseminadas, contestadas, corrigidas e aprimoradas.

3.3. Fragmentação Política e Competição

Um dos elementos mais originais do livro é a ênfase na fragmentação política da Europa como fator positivo. Diferentemente da China unificada, a Europa era composta por múltiplos Estados em competição. Essa fragmentação:

  • Criou um "mercado de ideias" onde intelectuais perseguidos em um país podiam encontrar refúgio em outro.

  • Fomentou a competição entre Estados por conhecimento e inovação, especialmente em áreas como navegação e armamentos.

  • Impediu que uma única autoridade (política ou religiosa) suprimisse ideias heterodoxas.

3.4. A "República das Letras" e a Difusão do Conhecimento

Mokyr destaca o papel da "República das Letras" — uma rede informal de acadêmicos e intelectuais que se correspondiam por toda a Europa. Essa rede, facilitada pela imprensa, reduziu os custos de transmissão de informação e ampliou os benefícios da alfabetização. A circulação de ideias permitiu que descobertas feitas em um local fossem rapidamente conhecidas, debatidas e aplicadas em outros.

3.5. O Paradoxo China-Europa

Mokyr dedica espaço considerável à comparação entre Europa e China. A China, argumenta ele, era tecnologicamente avançada e tinha instituições em muitos aspectos superiores às europeias até certo ponto. No entanto, faltou à China a "cultura do crescimento" — em particular, a fragmentação política que gerava competição e o espírito de investigação que caracterizou o Iluminismo europeu. A unificação política chinesa, paradoxalmente, criou um ambiente onde ideias heterodoxas podiam ser mais facilmente suprimidas.

4. Citações Notáveis

"Economists have traditionally been leery at mentalités as a..."

"Not so much a trickle down as a dragging-along." — uma observação sobre como o progresso tecnológico arrasta consigo amplos segmentos da população, em contraste com a noção de "gotejamento" da riqueza.

Mokyr argumenta que "o crescimento econômico moderno dependeu de um conjunto de mudanças radicais nas crenças, valores e preferências — um conjunto ao qual ele se refere coletivamente como 'cultura' — e que os fundamentos culturais para o crescimento moderno foram estabelecidos no período de 1500 a 1700".

Sobre Bacon: "Sua influência e a influência de seus seguidores no Iluminismo desempenhou um papel fundamental no surgimento da crença de que as 'investigações naturais' por meio de experimentos são necessárias para o crescimento da economia e do bem-estar humano".

"A Europa politicamente fragmentada fomentou um 'mercado de ideias' competitivo e uma disposição para investigar os segredos da natureza".

5. Críticas e Debates Acadêmicos

O livro gerou um debate acadêmico significativo, incluindo uma mesa-redonda na Conferência Anual da ESHET (European Society for the History of Economic Thought) e um simpósio na ASA Culture Section. As principais críticas podem ser agrupadas em várias categorias:

5.1. Ênfase Excessiva em Elites e Empreendedores Culturais

Geoffrey M. Hodgson, em uma resenha no Journal of Institutional Economics, argumenta que Mokyr coloca peso explicativo excessivo em poucas pessoas extraordinárias (Bacon, Newton). Para Hodgson, a ênfase em "empreendedores culturais" e nos "retroalimentações positivas" na procreação de ideias é insuficiente para explicar as origens do crescimento econômico moderno. Hodgson propõe que a análise de Mokyr deveria ser estendida para incluir a evolução das instituições em um nível adicional, além da evolução cultural, e dar mais peso à rivalidade entre Estados e aos choques exógenos.

5.2. Problemas de Causalidade e Magnitude

David Mitch, em comentário publicado no ASA Culture Section, observa que o gênero da síntese histórica — do qual Mokyr é mestre — tem limitações inerentes para estabelecer causalidade ou magnitude de impacto. A extensa lista de exemplos, argumenta Mitch, pode deixar o leitor com a impressão de que contraexemplos não foram adequadamente considerados. Além disso, há um problema de descompasso temporal: desenvolvimentos intelectuais dos séculos XVII e XVIII só se manifestaram plenamente em avanços tecnológicos mais de um século depois, o que torna difícil estabelecer relações causais diretas.

5.3. A Relação entre Conhecimento Proposicional e Prescritivo

Mitch também aponta uma tensão no argumento de Mokyr: embora ele enfatize a importância do conhecimento proposicional (científico, teórico) para o crescimento, ele reconhece que o conhecimento prescritivo (técnico, prático) interage com ele de forma complexa. Em sua própria resenha do livro de Gillian Cookson sobre a indústria têxtil de Yorkshire, Mokyr admite que, para aquele caso específico, o conhecimento proposicional pode ter tido papel menor — mas insiste que "o argumento certamente não é verdadeiro nesta forma forte para a Revolução Industrial britânica como um todo". Essa ambiguidade, segundo Mitch, não é totalmente resolvida no livro.

5.4. O Problema do Termo "Crescimento Econômico"

Mitch observa que o termo "crescimento econômico" é anacrônico para o período estudado (1500-1700). O termo "progresso", empregado no Capítulo 14, seria mais apropriado, e a evolução desse conceito até a noção moderna de crescimento mereceria mais atenção.

5.5. Subestimação das Ciências Sociais Emergentes

Uma resenha publicada no TSEG (Low Countries Journal of Social and Economic History) critica Mokyr por ignorar os primeiros brotos das ciências sociais, que também contribuíram para a transformação cultural da Europa.

5.6. Definição de Cultura

Ted McAllister, em resenha para o Library of Law & Liberty, nota que Mokyr dedica pouco espaço a definir cultura. Reconhecendo que o termo é contestado, Mokyr simplesmente estipula sua definição básica sem muita defesa. McAllister também observa que Mokyr nega a superioridade da civilização europeia, mas ao mesmo tempo adota uma explicação eurocêntrica — o que McAllister considera uma tensão não totalmente resolvida.

6. A Resposta de Mokyr

Em sua resposta aos críticos no European Journal of the History of Economic Thought, Mokyr defendeu sua abordagem, reafirmando que a combinação de teoria da evolução cultural e história intelectual é a ferramenta mais adequada para explicar a "ruptura cultural" que precedeu a Revolução Industrial. Ele também insistiu que seu argumento não nega a importância das instituições, mas sim que instituições sem a cultura adequada são insuficientes para gerar inovação sustentada.

7. Avaliação Geral

A Culture of Growth é amplamente reconhecido como uma contribuição monumental para a história econômica e para o debate sobre as origens do crescimento moderno. Sua força reside na erudição enciclopédica de Mokyr, na capacidade de sintetizar literaturas díspares (história da ciência, teoria econômica, evolução cultural) e na ousadia de propor uma explicação cultural para um fenômeno que muitos tratam como puramente material ou institucional.

As críticas, no entanto, apontam para limitações importantes: a dificuldade de estabelecer causalidade em narrativas históricas de larga escala, a ênfase talvez excessiva em figuras individuais em detrimento de forças estruturais mais amplas, e a necessidade de integrar mais plenamente a evolução institucional ao modelo explicativo.

O livro, contudo, não pretende ser a palavra final sobre o assunto, mas sim abrir novas agendas de pesquisa. Ao colocar a cultura — e não apenas as instituições ou a geografia — no centro do debate sobre o "Grande Divergência", Mokyr forçou historiadores e economistas a repensarem suas premissas e a levarem mais a sério o papel das ideias, valores e crenças na formação do mundo moderno.

domingo, 19 de julho de 2026

Como Kim Jong-un fez uma 'transformação milagrosa' da economia da Coreia do Norte e se fortaleceu: 'O regime está mais rico do que nunca'

 

Kim Jong-un discursa em um púlpito com três microfones. Ao fundo, está a bandeira da Coreia do Norte. Ele usa um chapéu

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Kim Jong-un exalta a melhora da situação na Coreia do Norte
    • Author,Guillermo D. Olmo
    • Role,BBC News Mundo
  • Published
  • Tempo de leitura: 11 min

Coreia do Norte vive, há décadas, o que especialistas internacionais chamam de crise de subsistência.

Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), cerca de 11 milhões de pessoas, o equivalente a 45% da população, sofrem de desnutrição em um país onde são denunciadas sistemáticas violações dos direitos humanos.

Anos de controle estatal da economia, isolamento em relação ao exterior e abandono dos serviços públicos em favor de um aparato de segurança repressivo levaram ao que o chefe de direitos humanos da ONU, Volker Türk, descreveu como uma "crise de direitos humanos".

Kim Jong-un, o terceiro integrante da família Kim a governar essa república comunista desde sua fundação, após a Segunda Guerra Mundial (1939-45), consolidou seu poder em um dos países mais fechados e isolados do mundo.

Com a pandemia de covid-19, em 2020, a situação se agravou ainda mais.

O impacto econômico provocado pelo coronavírus atingiu o mundo inteiro, mas foi especialmente duro para uma economia pouco desenvolvida e pouco integrada ao exterior.

Em meio a denúncias de escassez de alimentos e à pressão das sanções internacionais impostas ao regime norte-coreano, o líder retratado pela propaganda oficial como infalível apareceu na televisão visivelmente abatido para pedir desculpas à população.

"Lamento profundamente", afirmou Kim. "Meus esforços e minha sinceridade não foram suficientes para livrar nosso povo das dificuldades."

Mas a situação parece ter mudado desde então.

A pandemia ficou para trás, a pressão das sanções internacionais diminuiu, e a Coreia do Norte deu continuidade ao desenvolvimento de seu programa nuclear e estreitou sua aliança com a Rússia de Vladimir Putin. Pela primeira vez em décadas, a economia passou a dar sinais de recuperação.

Foi nesse contexto que Kim fez, em março, um discurso ao país durante uma sessão da Assembleia Legislativa, em tom bastante diferente do adotado anteriormente.

Kim afirmou que a Coreia do Norte viveu "uma transformação milagrosa" e declarou: "O nosso país já não é vulnerável às ameaças de outros".

Mas até que ponto a situação econômica da Coreia do Norte realmente melhorou?

A situação na Coreia do Norte

É difícil saber o que realmente acontece na Coreia do Norte.

O governo reprime com rigor qualquer vazamento de informações para o exterior, e os meios de comunicação precisam recorrer aos relatos de norte-coreanos que conseguem deixar o país, a relatórios de serviços de inteligência estrangeiros, sobretudo os da Coreia do Sul, e aos depoimentos dos poucos ocidentais autorizados a visitar o país, sempre sob rígida vigilância das autoridades.

Ainda assim, essas fontes apontam uma recuperação recente em uma economia que permaneceu estagnada por décadas.

De acordo com estimativas do Banco Central da Coreia do Sul, o Produto Interno Bruto (PIB, soma de todos os bens e serviços produzidos no país) da Coreia do Norte cresceu 3,7% em 2024, a maior expansão em oito anos. Especialistas acreditam que a economia norte-coreana vive seu melhor momento desde que Kim Jong-un assumiu o poder.

"O regime está mais rico do que nunca", afirmou Stephen Haggard, pesquisador especializado na economia norte-coreana da Universidade da Califórnia em San Diego, nos Estados Unidos, em entrevista à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

Kim Jong-un, acompanhado por uma jovem (sua filha) e seguido por vários militares norte-coreanos, afasta-se de um veículo militar pesado

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,A exportação de armas para a Rússia abasteceu os cofres do regime de Kim

As exportações de armas para a Rússia, destinadas à guerra na Ucrânia, o comércio com a China, o maior controle sobre os mercados informais e uma aplicação menos rigorosa das sanções internacionais contribuíram para encher os cofres do regime comandado por Kim.

Mas os analistas ressaltam que as duras condições de vida continuam marcando o cotidiano da população que vive longe da elite dirigente e da capital, Pyongyang.

Na capital, por outro lado, já é possível perceber sinais dessa melhora.

Quem visitou a cidade recentemente relata que há mais ruas iluminadas e que voltaram a operar algumas horas por dia os elevadores em prédios altos que antes não funcionavam por falta de eletricidade.

A análise de imagens de satélite realizada pelo Grupo de Observação da Terra da Escola de Minas do Colorado, nos EUA, equipe de pesquisa dedicada ao estudo da iluminação elétrica a partir do espaço, mostrou um aumento contínuo da iluminação da cidade de Pyongyang nos últimos anos.

Os poucos ocidentais que conseguiram entrar na Coreia do Norte também relataram mudanças que apontam para um aumento do consumo e da riqueza, como a proliferação de telefones celulares, carros elétricos importados e aplicativos de entrega de comida e de transporte.

O agente de viagens australiano Rowan Beard contou ao jornal americano Wall Street Journal que, em sua última visita a Pyongyang, depois de alguns anos sem ir ao país, ficou surpreso quando seu intérprete chamou um táxi por um aplicativo, e o veículo chegou em poucos minutos. "Tudo isso era completamente novo. Fiquei impressionado", disse Beard.

Outro indício de uma recuperação da economia, ainda que limitada, é o fato de o regime ter conseguido concluir alguns dos projetos que Kim transformou em bandeiras de seu governo, como a construção de grandes complexos turísticos, entre eles o de Wonsan Kalma, na província costeira de Kangwon.

Kim também anunciou iniciativas ambiciosas, como a chamada 20x10, que prevê a construção de 20 fábricas em todo o país ao longo de dez anos para estimular o desenvolvimento fora de Pyongyang.

Movimento de pessoas e veículos em uma rua de Pyongyang

Crédito,Kim Won Jin / Getty

Legenda da foto,A falta de informação dificulta saber como é a vida na Coreia do Norte

O regime também conseguiu se consolidar de fato como uma potência nuclear.

Nem as sanções internacionais nem a estratégia de aproximação adotada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, em seu primeiro mandato convenceram Kim a abandonar o programa de armas nucleares, que ele considera crucial para garantir a sobrevivência do regime diante de "ameaças" externas, como os EUA.

Com isso, a Coreia do Norte passou a contar com uma nova geração de mísseis. Analistas ocidentais acreditam ainda que o país trabalha no desenvolvimento de submarinos de propulsão nuclear e de mísseis balísticos intercontinentais capazes de atingir o território continental dos EUA.

Uma mulher uniformizada em uma praça de Pyongyang

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Especialistas afirmam que os gastos com o aparato policial comprometem o desenvolvimento socioeconômico da Coreia do Norte

A dura realidade dos norte-coreanos

Os norte-coreanos estão acostumados às dificuldades.

Entre 1994 e 1998, o país enfrentou uma grave crise humanitária conhecida no meio acadêmico como a "Grande Fome" e chamada pela propaganda estatal de "Marcha Árdua".

Embora o governo nunca tenha reconhecido oficialmente a tragédia, estima-se que centenas de milhares de pessoas tenham morrido de fome e de doenças relacionadas, em uma catástrofe provocada pela combinação da perda do apoio da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), da má gestão econômica e de desastres naturais.

Naquela época, assim como hoje, os norte-coreanos viviam sob o que organismos internacionais e ativistas descrevem como um Estado policial responsável por violações dos direitos humanos.

Relatos de desertores que conseguem fugir para a Coreia do Sul afirmam que as autoridades atiram para matar em quem tenta escapar e impõem punições severas, que podem chegar à pena de morte, por atos como ouvir K-pop ou assistir a séries sul-coreanas.

Qualquer forma de dissidência ou desobediência pode ser punida com a morte por fuzilamento, como ocorreu com Jang Song-thaek, tio de Kim, executado por ordem do líder em 2013.

Kim Jong-un sorri enquanto caminha entre vacas em um estábulo. Dois homens o seguem

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Kim Jong-un prometeu estimular o desenvolvimento além da capital

Durante a pandemia, o controle foi endurecido e passou a alcançar também o mercado informal de importação de produtos chineses, privando muitos norte-coreanos de sua última forma de sustento.

"O mais difícil no governo de Kim Jong-un era que não podíamos ganhar dinheiro", disse ao jornal americano New York Times Kim Yu-mi, uma norte-coreana que conseguiu fugir para a Coreia do Sul.

Jongkyu Lee, especialista em Coreia do Norte do Instituto para o Desenvolvimento da Coreia, centro de pesquisa sediado em Seul, na Coreia do Sul, disse em entrevista à BBC News Mundo que, com o controle dos mercados informais, "as autoridades parecem adotar uma estratégia para submeter todas as atividades comerciais a uma supervisão mais rígida do Estado, dentro de um modelo econômico que o coloca no centro".

"O problema é que um maior controle do Estado não se traduziu em uma melhora das condições de vida", acrescentou Jongkyu.

O papel da Rússia e da China

A aproximação com a Rússia foi um dos principais fatores por trás dos sinais recentes de recuperação da economia norte-coreana.

Quando Putin lançou a invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022, Kim viu na guerra uma oportunidade.

Kim Jong-un caminha sorridente à direita de Donald Trump durante uma cúpula em Hanói

Crédito,Saul Loeb / Getty

Legenda da foto,Trump não retomou as negociações com Kim após o fracasso das conversas em seu primeiro mandato

Com os EUA voltados para outras prioridades — Trump não retomou, em seu segundo mandato, as tentativas de negociação com Kim —, o líder norte-coreano saiu em socorro de Putin na expectativa de receber apoio em troca.

Segundo diversos relatórios de serviços de inteligência ocidentais, a Coreia do Norte enviou cerca de 15 mil soldados para combater ao lado da Rússia na Ucrânia ou trabalhar na indústria russa, suprindo a escassez de mão de obra provocada pelo esforço de guerra.

O acordo com Putin fez com que fábricas norte-coreanas saíssem da estagnação e retomassem a produção de munições e armamentos para a Rússia.

Como demonstração da proximidade entre os dois países, Rússia e Coreia do Norte assinaram, em junho de 2024, uma Parceria Estratégica Abrangente que inclui uma cláusula de defesa mútua.

A entrada de recursos, armamentos e tecnologia russos nos últimos anos permitiu a Kim fortalecer sua capacidade militar e reativar alguns setores produtivos abandonados durante décadas.

"A recente expansão da cooperação militar com Moscou deu um impulso claro a setores como mineração, indústria pesada, fabricação de máquinas e indústria química. O aumento da demanda por munições e materiais também parece ter estimulado a produção nas indústrias controladas pelo Estado, contribuindo para uma recuperação expressiva do setor formal da economia", afirma Jongkyu, do Instituto para o Desenvolvimento da Coreia.

Mas Jongkyu vê limites para o que Putin pode fazer por Kim.

"A Rússia pode aliviar algumas das restrições econômicas mais imediatas da Coreia do Norte, mas sua capacidade de sustentar um desenvolvimento econômico amplo é muito mais limitada do que a da China", afirmou.

Putin (à esquerda) brinda com Kim (à direita). Ao fundo, as bandeiras de seus países

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Putin e Kim assinaram, em 2024, uma "Parceria Estratégica Abrangente"

A recente visita — a primeira em sete anos — do presidente chinês, Xi Jinping, foi interpretada como mais um sinal do fortalecimento da influência econômica e geopolítica da Coreia do Norte sob Kim e como uma tentativa de contrabalançar sua aproximação com Putin.

Em 2017, a China apoiou o endurecimento das sanções defendido pelos EUA na ONU para conter o desenvolvimento do arsenal nuclear da Coreia do Norte. Desta vez, Xi evitou pedir a "desnuclearização" da península coreana, se afastando da posição que a China manteve durante anos e reduzindo a pressão sobre Kim.

Na prática, a confiança na eficácia das sanções começou a se dissipar após o fracasso da cúpula entre Trump e Kim, realizada em Hanói, no Vietnã, em 2019.

"A posição da China começou a mudar porque as sanções pareciam não estar funcionando, uma avaliação compartilhada por parte dos EUA", disse Haggard, da Universidade da Califórnia, em entrevista à BBC News Mundo.

Na Coreia do Norte, Xi defendeu elevar a relação bilateral "a outro nível" e reforçar a cooperação econômica.

"A trajetória da economia norte-coreana no longo prazo provavelmente continuará dependendo de sua relação com a China", conclui Jongkyu, do Instituto para o Desenvolvimento da Coreia.

Até onde a economia da Coreia do Norte pode chegar

Especialistas internacionais afirmam que, durante os anos de maior dificuldade, a Coreia do Norte desenvolveu mecanismos para abastecer os cofres do regime e continua recorrendo a eles, como a apropriação de parte das remessas enviadas por norte-coreanos que trabalham na China e a atuação de um exército invisível de hackers que conseguiu acumular uma enorme quantidade de criptomoedas.

Segundo um relatório da empresa americana Chainalysis, especializada na investigação do uso ilícito de criptomoedas, o regime da Coreia do Norte alcançou, em 2025, o recorde de US$ 2 bilhões (cerca de R$ 10,8 bilhões) roubados do ecossistema de criptoativos, ao qual recorre há anos para driblar as sanções internacionais e financiar seus programas de armamentos.

No entanto, essas estratégias não foram suficientes para aliviar de forma significativa a crise humanitária no país.

Enquanto ainda se aguarda saber até que ponto a renovada cooperação com a China, sinalizada pela recente visita de Xi, será benéfica para Kim, permanece a dúvida sobre até onde vai essa prosperidade propagandeada pelo regime.

E, sobretudo, se essa prosperidade chegará aos norte-coreanos que vivem longe de Pyongyang e da elite do país.

Também não se pode perder de vista o ponto de partida: a Coreia do Norte não divulga seus dados de PIB, mas a ONU estima que em 2024 esse valor era de US$ 15,2 bilhões (cerca de R$ 77,5 bilhões).

Isso colocaria a Coreia do Norte em números absolutos em patamar semelhante ao de um Estado brasileiro como Rondônia, segundo os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Se a comparação for do PIB per capita (o PIB é dividido pelo total de habitantes), o valor norte-coreano per capita estimado (cerca de R$ 2,900) estaria bem abaixo do Estado brasileiro com o menor PIB per capita, o Maranhão, de cerca de R$ 22 mil.

Além disso, a "transformação milagrosa" da qual Kim se orgulha ainda terá de superar muitos obstáculos.

Haggard, da Universidade da Califórnia, afirma que "há indícios de que o regime está investindo em desenvolvimento rural e habitação. Mas a desigualdade entre a capital e o restante do país continua muito grande. Além disso, permanece a dúvida sobre o quão frágil é esse boom. O projeto 20x10 tem financiamento suficiente? De onde virá a tecnologia necessária? E há ainda uma questão mais ampla: qual será o impacto dos gastos militares e se eles provocarão efeitos negativos no longo prazo".

Jongkyu, do Instituto para o Desenvolvimento da Coreia, também se mostra cético: "A situação atual se parece mais com um modelo de crescimento impulsionado pela guerra do que com um modelo sustentável. Embora a demanda militar possa sustentar a produção no curto prazo, sua sustentabilidade no longo prazo continua sendo duvidosa."

O analista faz ainda outro alerta importante: "Os benefícios desse crescimento ainda não chegaram ao cidadão comum."