SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Segundo o judaísmo é hora de taxar as grandes fortunas. Por Egidio Guerra





Tudo que você vai ler é verdade, fruto de um grande sonho de Deus. Afinal cuidar das pessoas não é favor: é justiça. A pior coisa que um ser humano pode fazer a outro é envergonhá-lo, humilhá-lo. Quando humilhamos o pobre, quando o deixamos sem casa, sem comida, sem dignidade, machucamos sua alma — a nossa e a de Deus.

A lei ética maior

O Antigo Testamento é inequívoco: “Não oprimirás o jornaleiro pobre e necessitado” (Deuteronômio, capítulo vinte e quatro, versículo catorze). “Não perverterás o direito do estrangeiro e do órfão; nem tomarás em penhor a roupa da viúva” (Deuteronômio, capítulo vinte e quatro, versículo dezessete). “Maldito quem negar justiça ao estrangeiro, ao órfão ou à viúva” (Deuteronômio, capítulo vinte e sete, versículo dezenove). O Deus de Israel é Aquele que “faz justiça ao órfão e à viúva, e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e vestuário” (Deuteronômio, capítulo dez, versículo dezoito). E o profeta Jeremias clama: “Administrem a justiça e o direito: livrem o explorado das mãos do opressor. Não oprimam nem maltratem o estrangeiro, o órfão ou a viúva” (Jeremias, capítulo vinte e dois, versículo três).

Essa é a lei ética maior de Deus, da humanidade, do judaísmo: amar o desconhecido, amar o próximo, amar o estrangeiro. Deus não é pequeno. Deus não é barreira. Deus é o que acontece quando as pessoas estão próximas numa relação. Deus é a nossa melhor versão de nós mesmos.

O Brasil mais desigual entre as maiores economias

O Brasil é a décima maior economia do mundo, mas também um dos países mais desiguais do planeta. Em dois mil e vinte e cinco, os 10% mais ricos concentraram 40,3% de toda a massa de rendimentos — mais do que os 70% mais pobres juntos, que ficaram com trinta e dois vírgula oito por cento. O rendimento médio dos 10 % mais ricos chegou a 9117,00 reais mensais, enquanto os quarenta por cento mais pobres sobreviviam com 663 reais por mês. Os 10 % mais pobres viveram com apenas 278 reais mensais — cerca de 8, 93 centavos por dia. O coeficiente de Gini, que mede a desigualdade, subiu de 0,504 em 2024 para 0,511 em 2025.

Onde o dinheiro vai

Enquanto isso, a dívida pública federal fechou dois mil e vinte e cinco em oito trilhões e seiscentos bilhões de reais, e o governo gastou um trilhão de reais só com juros — 7,9 % do PIB. Segundo estudo do economista Carlos Lessa, oitenta por cento dos juros da dívida pública beneficiam apenas vinte mil famílias que detêm títulos públicos. O Nobel de Economia Joseph Stiglitz chamou a taxa de juros brasileira de “chocante” e “pena de morte” para a economia: “Uma taxa de 13,75, ou 8 % real, é o tipo de taxa de juros que vai matar qualquer economia”.

Isso não é apenas economia: é uma escolha moral. Enquanto um trilhão de reais vai para os juros dos rentistas, o Bolsa Família tem orçamento de 158 bilhões e 600 milhões de reais, a educação 226 bilhões e 400 milhões de reais e a saúde 245 bilhões e 100 milhões de reais. A saúde pública recebe apenas 4% do PIB, e a educação 6,5 por cento. A violência cresce exatamente onde a desigualdade é maior: em dois mil e vinte e cinco, o Brasil registrou 40 775 mortes violentas intencionais, e 79 % das vítimas eram pessoas negras.

Quanto valeria taxar as grandes fortunas

Estudo do Observatório Fiscal Internacional aponta que um imposto mínimo de dois por cento sobre patrimônios acima de cem milhões de dólares arrecadaria seis bilhões e cem milhões de dólares por ano (cerca de trinta bilhões de reais) para o Brasil. Com alíquota de três por cento, a arrecadação chegaria a mais de nove bilhões de dólares anuais. Enquanto um cidadão médio paga 42,5 % de sua renda em impostos, o topo de 0,001 % o mais rico paga apenas 19, 7 % por cento.

Com trinta bilhões de reais adicionais por ano, seria possível:

  • Ampliar o Bolsa Família, que hoje atende vinte milhões e novecentas mil famílias com benefício médio de seiscentos e sessenta e três reais e dezesseis centavos;

  • Expandir o Minha Casa, Minha Vida, que opera com orçamento recorde de cento e trinta e seis bilhões e oitocentos milhões de reais em dois mil e vinte e cinco, mas ainda não alcança toda a demanda por habitação popular;

  • Reforçar o SUS, que recebe apenas quatro por cento do PIB, e a educação, que recebe seis vírgula cinco por cento.

O tempo do judaísmo

O tempo do judaísmo não se curva a esse egoísmo, a essa loucura neoliberal que transforma tudo em mercadoria e abandona os vulneráveis. O tempo dos judeus é, de fato, ajudar os pobres, abrigar os estrangeiros, não deixar o pobre desabrigado, nem a viúva passar fome. Pessoas diferentes também são filhos de Deus. O Deus único ama a todos, sem exceção.

É preciso ter coragem: taxar as grandes fortunas, ampliar o Bolsa Família, ser justos. Justiça é não deixar o outro desamparado. Taxar grandes fortunas não é inveja: é tzedakah estrutural, é tikkun olam. É reconhecer que o Deus de Israel — aquele que “faz justiça ao órfão e à viúva” — não abençoa a acumulação que humilha.

Deus vai estar contigo em momentos difíceis. Quão sagrado é estarmos presentes com Ele. E estar presente com Deus é estar presente com o próximo — especialmente com quem foi humilhado, empobrecido, esquecido. Portanto, seguindo os ensinamentos judaicos, é hora de taxar as grandes fortunas. Cuidar das pessoas. Não humilhar. Não abandonar. Ser justos. Porque Deus não é pequeno. Deus não é barreira. Deus é o que acontece quando as pessoas estão próximas numa relação.


quinta-feira, 15 de outubro de 2026

'As gangues, as armas e a batalha pelo Brasil': jornal britânico destaca protagonismo da violência de facções criminosas na eleição

 

Policiais fazem a segurança de um grupo de pessoas durante uma operação no Rio de Janeiro, Brasil, em 28 de outubro de 2025.
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Tempo de leitura: 5 min

Uma reportagem publicada pelo jornal britânico Financial Times nesta quinta-feira (15/10) retrata a crescente violência de facções criminosas no Brasil e aponta para o peso da segurança pública nas eleições presidenciais de 2026.

Segundo a publicação, "o medo e a raiva em relação ao crime organizado" marcaram uma série de eleições recentes na América Latina e o senador e candidato Flávio Bolsonaro (PL) espera que o mesmo aconteça nas urnas brasileiras.

"A percepção de que as autoridades brasileiras têm sido negligentes no combate aos grupos armados tem sido um dos principais motivos para o surgimento de um movimento populista de direita. Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, está em posição privilegiada para vencer a eleição presidencial de 25 de outubro, após ter ficado em primeiro lugar no primeiro turno das eleições", diz a reportagem.

Intitulada "As gangues, as armas e a batalha pelo Brasil", a matéria descreve como facções criminosas e milícias passaram a exercer controle sobre parcelas significativas do território brasileiro, especialmente em comunidades urbanas do Rio de Janeiro, influenciando a vida cotidiana de milhões de pessoas e ampliando seu alcance para praticamente todo o país.

Os repórteres visitaram o Complexo da Penha, na zona norte do Rio, onde moradores relatam a presença constante de barricadas armadas operadas por integrantes do Comando Vermelho. Um deles, o professor de artes marciais Thiago Braga, afirma que a circulação na região passou a ser controlada por traficantes fortemente armados e que o Estado está, em grande medida, ausente. "Se os jovens na barricada são mortos, outros tomam seu lugar. É um processo sem fim", afirmou ao Financial Times.

Policiais durante operaçaõ em comunidade
Legenda da foto,Reportagem também relembra a maior e mais letal ação policial da história do Rio de Janeiro, realizada em 28 de outubro de 2025 nos complexos do Alemão e da Penha

O texto destaca que, segundo levantamento do Instituto Fogo Cruzado e da Universidade Federal Fluminense, 31% do território do município do Rio está atualmente sob controle direto ou influência de grupos armados. Nessas áreas vivem quase 3 milhões de pessoas, o equivalente a mais de 40% da população da cidade. Ainda de acordo com a reportagem, o espaço dominado por essas organizações mais do que dobrou desde 2008.

"Poucos lugares na América Latina têm a mesma escala, diversidade e descaramento de comportamento de gangues como o Rio de Janeiro", diz o texto.

Mas o Financial Times afirma que o fenômeno deixou de ser um problema concentrado no Rio. Dados citados pelo jornal indicam que o Comando Vermelho já possui presença em 26 das 27 unidades federativas do país. O Primeiro Comando da Capital (PCC), principal grupo criminoso de São Paulo, também alcançou 26 Estados.

Especialistas ouvidos pela publicação avaliam que ambas as organizações já contam com mais integrantes do que alguns dos mais famosos cartéis da Colômbia e do México.

A reportagem também chama atenção para o avanço dessas organizações sobre a política.

"Em março, Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, foi preso e aguarda julgamento sob a acusação de atuar em favor do Comando Vermelho", cita o jornal.

Flávio e Trump na Casa Branca
Legenda da foto,Flávio Bolsonaro defendeu designação do PCC e do CV como organizações terroristas ao lado de Trump
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Fim da Promoção Agregador de pesquisas

Ao abordar as propostas de Flávio Bolsonaro para a área de segurança, o FT destaca promessas de ampliar operações policiais e construir megapresídios para integrantes de facções, em linha com estratégias adotadas em outros países da região, como El Salvador.

A publicação observa, contudo, que diversos especialistas questionam a eficácia dessas medidas. Segundo eles, justamente dentro do sistema prisional surgiram organizações como o Comando Vermelho e o PCC, que posteriormente expandiram suas redes pelo país.

"Bolsonaro, carioca, promete operações policiais mais agressivas e megaprisões para membros de gangues. No entanto, críticos afirmam que isso é exatamente o que o Brasil vem fazendo nas últimas três décadas. O Rio já possui uma das maiores taxas de pessoas mortas pela polícia no mundo", diz o texto.

O FT também destaca a proximidade de Flávio Bolsonaro com o governo de Donald Trump, que defende uma resposta mais militarizada contra a violência de gangues na América Latina e cujo governo classificou o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas.

"Para Lula, as pesquisas mostram que a segurança é um de seus pontos fracos. Para a frustração de muitos brasileiros mais pobres, uma ala da esquerda há muito minimiza a necessidade de confrontar grupos armados, argumentando que a redução da pobreza é a melhor maneira de resolver a violência urbana", diz a reportagem.

No entanto, o jornal britânico destaca que durante seu mandato atual, o governo federal lançou uma série de investigações sobre lavagem de dinheiro por gangues de tráfico de drogas.

"Os planos de Bolsonaro podem ter apelo popular, mas não foram bem recebidos por muitos dos especialistas que estudam a violência no Brasil. Eles enfatizam que o Comando Vermelho e o PCC foram fundados dentro de prisões e, desde então, têm usado o sistema para recrutar e construir redes nacionais", afirma o FT.

O jornal sugere ainda que, independentemente do vencedor da eleição presidencial brasileira, uma solução duradoura dependerá de o Estado recuperar o controle de territórios atualmente governados por facções e milícias.

"Na preparação para as Olimpíadas, o Rio tentou implementar um novo modelo que instalava quartéis da polícia em favelas e iniciava o patrulhamento da comunidade. Os níveis de violência caíram em muitas das favelas onde o programa foi implementado. No entanto, o programa, na prática, entrou em colapso em meio a uma grave crise econômica no Estado do Rio em 2016", diz.

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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Americanos vencem Nobel de Economia por modelo para entender decisões de famílias e empresas

 

Os economistas americanos Robert E. Hall e Michel Woodford
Legenda da foto,Os economistas americanos Robert E. Hall e Michel Woodford
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Tempo de leitura: 2 min

Os economistas americanos Robert E. Hall e Michael Woodford ganharam o Prêmio Nobel de Economia de 2026 por suas pesquisas sobre os fundamentos microeconômicos da estabilização macroeconômica, anunciou nesta segunda-feira (12/10) a Real Academia Sueca de Ciências.

O prêmio reconhece suas contribuições para o estudo de como as políticas monetária e fiscal podem ajudar a estabilizar as oscilações da economia.

"O trabalho dos laureados nos proporcionou uma base teórica sólida para os modelos que agora são utilizados por bancos centrais e governos de todo o mundo", afirmou John Hassler, presidente do Comitê do Prêmio de Ciências Econômicas.

"Graças a eles, estamos mais bem preparados para enfrentar crises econômicas, como crises energéticas ou mudanças repentinas no consumo das famílias", acrescentou.

Em entrevista coletiva de imprensa, Woodford disse por telefone que era "uma enorme honra" receber o prêmio.

"É uma surpresa, mas me sinto muito bem em relação a isso", acrescentou.

'Suavizar os altos e baixos da economia'

Autoridades do Prêmio Nobel de Economia de 2026 durante uma coletiva de imprensa na Real Academia Sueca de Ciências, em Estocolmo. Três representantes estão sentados a uma mesa, enquanto uma tela atrás deles exibe imagens dos dois laureados.
Legenda da foto,Segundo a Academia, Hall e Woodford ajudaram a compreender como as decisões das famílias e das empresas influenciam a economia como um todo

Hall nasceu em 1943, na Califórnia, e é professor da Universidade Stanford. Woodford nasceu em 1955, em Massachusetts, e é professor de Economia Política na Universidade Columbia.

Eles dividirão em partes iguais um prêmio total de 12 milhões de coroas suecas (cerca de US$ 1,2 milhão ou cerca R$ 6 milhões).

Em comunicado, a Academia afirmou que "os premiados nos ajudaram a suavizar os altos e baixos da economia".

Em vez de basear os modelos econômicos apenas em relações estatísticas entre variáveis como inflação, produção e consumo, Hall e Woodford apostaram em uma abordagem microeconômica, focada em compreender como as decisões das famílias e das empresas influenciam a economia como um todo.

Um elemento fundamental desses modelos é que tanto as famílias quanto as empresas levam em conta suas expectativas sobre o futuro ao tomar decisões, como quanto poupar ou quais preços definir para seus produtos.

A premiação — cujo nome oficial é Prêmio do Banco da Suécia em Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel — é dada todos os anos a pesquisadores que contribuem para o avanço da ciência econômica.

No ano passado, Joel Mokyr, Philippe Aghion e Peter Howitt dividiram o prêmio por suas pesquisas sobre como a inovação impulsiona o crescimento econômico sustentado.

Desde sua criação, em 1969, um total de 101 pessoas recebeu o Nobel de Economia. Apenas três mulheres foram agraciadas.