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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Eu e o Supremo, eu lembro de tudo !

 



Sobre a História

Eu, o Supremo é um romance fundamental da literatura latino-americana, publicado em 1974 pelo escritor paraguaio Augusto Roa Bastos . A obra é uma recriação monumental e complexa da figura histórica de José Gaspar Rodríguez de Francia, o "Ditador Perpétuo" que governou o Paraguai de 1814 a 1840 . Longe de ser uma biografia tradicional, o romance mergulha na psicologia alucinada e no exercício de um poder absoluto, criando um retrato universal do ditador latino-americano. 

A narrativa se desenrola a partir de um evento desencadeador: a descoberta de um pasquim (um panfleto anônimo) sedicioso pregado na porta da catedral de Assunção . O documento, escrito imitando o estilo dos decretos do Ditador, contém ordens macabras para após a sua morte, incluindo a exposição de sua cabeça numa pica e a execução de todos os seus servidores . Indignado, o Ditador, que atende apenas pelo título de "El Supremo", ordena ao seu fiel e medroso secretário, Patiño, que descubra o autor da afronta . 

A partir deste mote, a estrutura do romance se fragmenta em uma miríade de vozes e documentos, todos compilados por uma figura enigmática chamada "O Compilador" . Entre esses documentos estão: 

  • "circular perpétua", um longo ditado de El Supremo a Patiño que visa instruir seus funcionários e reconstruir a história do Paraguai sob a sua ótica, justificando seu governo tirânico como necessário para a independência e soberania nacional . 

  • "caderno privado", um diário onde o ditador registra reflexões íntimas, manias, medos e as suas debilidades físicas e mentais, como a perda de memória . 

  • Diálogos com Patiño, cartas, decretos e depoimentos, que se entrelaçam para formar um retrato multifacetado e contraditório do poder. 

Um dos grandes feitos da obra é a sua complexidade temporal e a ambiguidade da voz narrativa. Desde o início, o leitor é levado a suspeitar que o Ditador pode já estar morto, pois os eventos se passam em outubro de 1840, enquanto o verdadeiro Francia faleceu em setembro do mesmo ano . Esta hipótese é confirmada ao longo da obra, culminando na visita de um feiticeiro indígena que atesta: "Dice que ve enteramente vacío el interior de Su Señoría. No hay más que huesosdiceLas tres almas se han ido ya" . Ainda assim, El Supremo teima em existir, em ditar e governar, numa luta quixotesca contra a morte e o esquecimento. No final, descobre-se que o próprio ditador, num momento de apoplexia e delírio, foi o autor do pasquim que desencadeou a narrativa, num ato de auto-sabotagem e duplicidade inconsciente . 

Trechos da Obra e Análises 

A seguir, alguns fragmentos que ilustram a densidade e as principais temáticas do livro: 

  1. O Início (O Pasquim): A obra já se abre com a voz do ditador, imitada no pasquim, e sua reação paranoica. 

“Yo el supremo Dictador de la República Ordeno que al acaecer mi muerte mi cadáver sea decapitado; la cabeza puesta en una pica por tres días en la Plaza de la República donde se convocará al pueblo al son de las campanas echadas a vuelo.” 
(...) 
"—¿Dónde encontraron eso? —Clavado en la puerta de la catedral, Excelencia."  

  1. A Justificativa da Tirania (A Circular): El Supremo defende seu legado com uma retórica inflamada que expõe a contradição entre o discurso de grandeza e a realidade opressiva. 

“¿De qué me acusan estos anónimos papelarios? ¿De haber dado a este pueblo una Patria libre, independiente, soberana? Lo que es más importante, ¿de haberle dado el sentimiento de Patria?”  
“¡Y todavía hay pasquinarlos que se atreven a presentar la Dictadura Perpetua como una época tenebrosa, despótica, agobiante! Para ellos . Para el pueblo no. ¡La Primera República del Sur convertida en Reino del Terror! ¡Archifalsarios felones! ¿No les consta acaso que ha sido, por el contrariola más justala más pacíficala más noblela de más completo bienestar y felicidad?”  

  1. A Onipotência e a Morte (O Caderno Privado): O ditador revela sua crença na própria imortalidade, ironicamente justamente quando está mais próximo do fim. 

“Después de  vendrá el que pueda. Por ahora Yo puedo todavía. No solo no me siento peor; me siento terriblemente mejor (…). La muerte no nos exige tener un día libre. Aquí la esperaré sentado trabajando. La haré esperar detrás de mi sillón todo el tiempo que sea necesario.”  

  1. A Metáfora do Poder e da Memória: Numa passagem célebre, o ditador discorre sobre a memória como arma de resistência, mesmo quando questionado se seus prisioneiros, isolados na mais completa escuridão, poderiam ser os autores do pasquim. 

“—Señor, no puedenEstán encerrados en la más total obscuridad desde hace años. (...) No tienen con qué escribir. —¿Olvidas la memoria, , memorioso patán? (...) Tienen memoria. Memoria igual a la tuya.”  

Críticas Literárias 

Eu, o Supremo é considerada uma obra-prima não apenas pela sua força narrativa, mas pela sua inovação formal e profundidade temática. 

  • Parte da "Trilogia Paraguaia": A obra, junto com Hijo de hombre (1960) e El fiscal (1993), compõe a chamada "Trilogia Paraguaia" de Roa Bastos, na qual o autor explora a história e a identidade de seu país de forma fragmentada e complexa . 

  • Renovação da Linguagem e Estrutura: A crítica destaca a mestria de Roa Bastos em conjugar elementos díspares: "testimonios y documentos históricos, que entrevera con otros de invención, de modo que los datos documentales se tornan ficticios al incorporarse a la novela" . O uso de múltiplas vozes (o Compilador, o Ditador, Patiño, o cão Sultão) e a mistura de gêneros textuais criam uma reflexão sobre os limites da linguagem e a impossibilidade de uma verdade histórica única . 

  • Retrato do Poder Absoluto: O romance é visto como a expressão máxima do que a crítica chamou de "neoindigenismo" ou "romance do ditador", pois humaniza o tirano ao mesmo tempo que expõe a "atmosfera anômica" e corruptora criada por seu governo, onde as bases das relações sociais são solapadas . 

A Proibição no Paraguai e a Perseguição ao Autor 

A história de Eu, o Supremo está intrinsecamente ligada à repressão política no Paraguai. Quando o romance foi publicado em 1974, o país vivia sob a dura ditadura de Alfredo Stroessner, que governou com mão de ferro de 1954 a 1989. 

  • Proibição Imediata: A obra foi imediatamente proibida no Paraguai pelo regime de Stroessner. A razão é clara: apesar de retratar um ditador do século XIX, a novela era uma alegoria poderosa e perigosa sobre o autoritarismo, a censura, a paranoia e a violência de Estado que caracterizavam o governo stronista. As elites e o exército que sustentavam Stroessner viam-se refletidos (ou temiam ser vistos) na "oligarquia das vinte famílias" e nos militares servis que cercavam o Ditador Perpétuo da ficção . 

  • Exílio do Autor: Augusto Roa Bastos, que já vivia no exílio (primeiro na Argentina e depois na França) desde 1947 devido a conflitos políticos anteriores, viu-se confirmado como um inimigo do regime. A proibição do seu livro mais importante consolidou seu exílio, que só terminaria em 1989, após a queda de Stroessner, quando pôde retornar ao Paraguai. A perseguição não foi física direta, mas sim a do silenciamento: sua principal obra estava banida de seu próprio país. 

A Atualidade da Obra Diante da América Latina de Hoje 

Passadas mais de cinco décadas de sua publicação e quase 40 anos do fim da ditadura de Stroessner, Eu, o Supremo mantém-se profundamente atual. O romance não é apenas um retrato de um tirano do passado, mas uma radiografia dos mecanismos de poder que ainda hoje se manifestam na América Latina, sob novas roupagens. 

  1. O Populismo Autoritário e o Culto à Personalidade: A figura de El Supremo, que se autoproclama a encarnação da nação ("La Patria soy Yo" é uma frase implícita em seu discurso), ressoa em líderes contemporâneos que concentram poder, atacam as instituições e se colocam como os únicos intérpretes da vontade popular. A justificativa de que a tirania é necessária para salvar o país de inimigos internos e externos é um clássico que se repete . 

  1. A Relação com as Elites e as Forças Armadas: A novela mostra um ditador que, apesar de pregar contra a oligarquia ("las veinte familias" ), governa com a ajuda de funcionários como Patiño e depende da lealdade (ou submissão) das forças de segurança. Na América Latina atual, a aliança tácita ou explícita entre governantes autoritários, certos setores das elites econômicas que se beneficiam do status quo e forças militares ou policiais com alto poder de coerção continua a ser uma realidade em vários países, ameaçando a democracia. 

  1. A Manipulação da História e a "Pós-Verdade": Um dos temas centrais da obra é a manipulação da história pelo poder. El Supremo afirma com todas as letras: "Yo no escribo la historia. La hagoPuedo rehacerla según mi voluntad" . Esta frase é uma síntese perfeita do fenômeno contemporâneo da "pós-verdade", onde líderes e regimes criam factoides, negam fatos históricos (como períodos ditatoriais) e constroem narrativas convenientes que são disseminadas por suas bases, desafiando a realidade objetiva e os órgãos de imprensa independentes. 

  1. A Resistência Pela Memória e Pela Palavra: Num cenário de repressão, o romance mostra que a memória é um ato de resistência . Os presos políticos, mesmo isolados e sem meios de escrever, mantêm viva a chama da oposição através da memória. Esta mensagem é crucial em tempos de desinformação e esgotamento digital. A obra de Roa Bastos é, em si, um exercício de memória, um antídoto contra o esquecimento forçado que regimes autoritários sempre buscam impor. 

Em suma, Eu, o Supremo transcende seu contexto histórico para se tornar um alerta perene. A obra de Roa Bastos nos lembra que o autoritarismo não é uma relíquia do passado, mas uma tentação permanente do poder, que encontra solo fértil na desigualdade social, na fragilidade das instituições e na manipulação do medo e do discurso, elementos ainda presentes no complexo tabuleiro político da América Latina.