SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sábado, 18 de abril de 2026

Meninos e meninas judeus rezam a Deus não para tirá-los novamente do Egito, mas para ajudá-los a libertar o Egito?"




Sobre a Obra e a Autora

Here Where We Live Is Our Country: The Story of the Jewish Bund é um livro de não-ficção da artista e jornalista Molly Crabapple, publicado em 7 de abril de 2026 pela editora One World (Penguin Random House) . A obra foi descrita pela crítica Naomi Klein como "um relato comovente, humano e radical de um dos movimentos revolucionários mais poderosos do século XX" , e já estava em sua segunda impressão na semana anterior ao lançamento .

Molly Crabapple, nascida em 1983 no Queens, Nova York, é filha de mãe judia e pai porto-riquenho . Sua trajetória inclui passagens como ativista do Occupy Wall Street, repórter de guerra, artista cujas obras integram o acervo permanente do Museu de Arte Moderna (MoMA) e vencedora de dois prêmios Emmy por suas animações . Seu bisavô, Sam Rothbort, foi membro do Bund — uma descoberta que a levou a uma jornada de seis anos de pesquisa, que incluiu aprender iídiche, viajar de trens noturnos por zonas de guerra na Ucrânia e trancar-se em arquivos da Biblioteca Pública de Nova York .


O Que Foi o Bund Judaico?

Bund — formalmente o Bund Geral dos Trabalhadores Judeus na Lituânia, Polônia e Rússia — foi um partido revolucionário secular, socialista, ferozmente judaico e intransigentemente antissionista, fundado em 1897 no Império Russo .

Nas palavras da própria Crabapple:

"O Bund foi um partido revolucionário secular, socialista, desafiadoramente judaico e intransigentemente antissionista que nasceu em 1897 na Rússia czarista. A Rússia czarista naqueles anos, onde os judeus estavam sujeitos a leis racializadas específicas, era provavelmente o lugar mais miserável para ser judeu." 

Os trabalhadores judeus viviam sob uma opressão dupla: eram oprimidos como trabalhadores pelo czar e como judeus pelas leis antissemitas. O Bund foi fundado por jovens marxistas judeus que queriam derrubar o czar e estabelecer o socialismo democrático, mas também libertar seu próprio povo especificamente .

A ironia do nascimento do Bund em comparação ao sionismo é destacada por Crabapple:

"enquanto o primeiro congresso do Bund consistia em alguns fugitivos em um sótão em Vilna, o congresso inaugural sionista enchia um cassino suíço chique" .


A Filosofia Central: Do'ikayt — "Aqui-Ness"

O coração da ideologia bundista era o conceito de do'ikayt (em iídiche: דאָיִקייט), que significa "aqui-ness" ou "estar-aqui" .

Crabapple explica:

"Começa com o reconhecimento de que os judeus viviam na Europa Oriental há mil anos e construíram lares, comunidades e uma língua: o iídiche. Eles tinham o direito de viver em liberdade e dignidade na Europa Oriental. Mesmo que o Império Russo e a Polônia do entreguerras dissessem que eram estrangeiros nocivos que deveriam ser deportados para a Palestina, eles queriam ficar em suas casas. Não apenas ficar, mas florescer e prosperar em suas casas." 

Este princípio fundamental era expresso no slogan que dá título ao livro: "Aqui, onde vivemos, é o nosso país" (Here where we live is our country). Os bundistas recusavam-se a ser tratados como estrangeiros ou hóspedes em suas próprias terras . Crabapple conecta esse conceito à noção palestina de sumud (resistência através da permanência na terra) .


A Luta Contra o Antissemitismo e os Pogroms

Os primeiros anos do Bund foram marcados por ondas brutais de pogroms. Crabapple descreve em detalhes harrowing a violência que varreu o Pale of Settlement (a região ocidental do Império Russo onde os judeus eram autorizados a viver). Durante um surto particularmente brutal em Odessa em janeiro de 1905, onde pogromistas assassinaram centenas de judeus, os bundistas relataram a camaradas no exterior que "pogroms existem apenas onde o governo os quer" .

A autora traça um paralelo contundente:

"Fazendo uma comparação apropriada com o terror racializado dos linchamentos apoiados pela polícia no sul dos Estados Unidos, Crabapple escreve que os bundistas, e a comunidade judaica como um todo, enfrentaram probabilidades insuperáveis precisamente porque 'tanto a polícia quanto os soldados ajudavam seus atacantes'." 

O Bund respondeu organizando brigadas armadas de autodefesa para proteger as comunidades judaicas .


A Oposição ao Sionismo

Um dos aspectos mais centrais e controversos do Bund era seu antissionismo intransigente. A oposição ao sionismo não foi uma postura tardia, mas algo presente desde os primórdios do movimento.

Três Razões Iniciais para Opor-se ao Sionismo:

Crabapple identifica três argumentos fundamentais dos bundistas contra o sionismo antes mesmo da Declaração Balfour (1917):

  1. Absurdidade prática: *"Vocês vão pegar 9 milhões de pessoas e fazê-las se mudar para fazendas coletivas no Levante em terras compradas do sultão? Que ideia!"* 

  2. Colaboração com antissemitas: Crabapple explica que grupos ultranacionalistas e antissemitas como as Centúrias Negras na Rússia czarista e os Democratas Nacionais na Polônia diziam que os judeus deveriam ser deportados para a Palestina — e os sionistas concordavam .

  3. Desvio da luta de classes: Chefes judeus usavam o sionismo para distrair os trabalhadores judeus de salários miseráveis, dizendo: "Talvez eu não esteja te pagando um salário digno, mas eu dotei uma yeshivá na Palestina" .

A Virada Após Balfour (1917)

Com a Declaração Balfour, quando a Grã-Bretanha prometeu apoiar um "lar nacional judeu" na Palestina, a oposição do Bund se intensificou em bases anti-imperialistas:

"Nesse ponto, o Bund está dizendo: 'Vocês estão se tornando as servas do império britânico. Essa é a sua ideia brilhante? E vocês estão tomando a terra das pessoas e tentando negar seus direitos políticos.'" 

A Previsão Profética de Henryk Erlich (1938)

Em 1938, o líder bundista Henryk Erlich escreveu uma análise profética sobre a natureza do sionismo:

"O sionismo, de fato, sempre foi um gêmeo siamês do antissemitismo... Os sionistas se consideram cidadãos de segunda classe na Polônia. Seu objetivo é serem cidadãos de primeira classe na Palestina e tornarem os árabes cidadãos de segunda classe." 


A Construção de um Mundo Alternativo na Polônia

Após a Revolução de Outubro de 1917, os bolcheviques — que consideravam o Bund uma ameaça nacionalista — suprimiram o movimento na Rússia . O Bund se reconstituiu na Polônia independente do entreguerras, onde se tornou o partido judeu mais popular do país em 1939 .

Lá, os bundistas construíram o que Crabapple descreve como "um belo mundo alternativo feito de pouco mais que amor e determinação" . Crabapple compara essa construção institucional ao Partido dos Panteras Negras:

"Era uma organização de marxistas, por e para um grupo oprimido e racializado que construiu essas vastas redes de cuidado comunitário — sopões, o Sanatório Medem para crianças faveladas, movimentos juvenis, movimentos femininos e clubes esportivos populares." 

As Instituições Bundistas:

Crabapple descreve um ecossistema completo de organizações:

  • Movimentos para crianças pequenas (tipo escoteiros)

  • Movimento juvenil

  • Acampamentos de verão

  • Movimento feminino que lutava por creches e contracepção

  • Escolas, incluindo escolas noturnas para jovens trabalhadores judeus que trabalhavam 12 horas por dia 

  • Sindicatos, clubes, editoras e jornais

  • Clubes esportivos que ensinavam as crianças a patinar no gelo e nadar, levando-as ao campo — pois os judeus das cidades muitas vezes não tinham acesso ao campo ou tinham medo de serem espancados lá 

Conexões Internacionais

O Bund enviava atletas para as Olimpíadas Operárias (a alternativa socialista aos Jogos Olímpicos) na Viena Vermelha dos anos 1930 . Seus jornais cobriam a situação dos movimentos operários do Alabama à China .


A Resistência ao Nazismo

Com a invasão da Polônia em setembro de 1939, o Bund resistiu desde o primeiro dia até o último . Bundistas defenderam Varsóvia durante o cerco, criaram uma rede subterrânea e, mais tarde, jovens bundistas ajudaram a liderar a Revolta do Gueto de Varsóvia . Após a destruição do gueto, continuaram lutando como partisans .


O Dilema da Derrota

O Bund foi aniquilado pelo Holocausto. Crabapple relata uma cena comovente durante a liquidação do gueto de Varsóvia, quando uma mulher mais velha relembrava a Viena Vermelha — como crianças vienenses aplaudiam quando ela carregava a bandeira do Bund pela Ringstrasse — e um bundista mais jovem respondeu com amargura: "Onde estão eles agora, seus nobres austríacos?" 

Uma amiga que leu o manuscrito de Crabapple resumiu a tragédia:

"OK, eles estavam certos. Certos e mortos." 

Crabapple, no entanto, faz uma distinção crucial entre fracasso e derrota:

"A diferença entre fracasso e derrota é que você fracassa quando seus próprios erros levam ao seu colapso. Enquanto perder é ser superado por uma força maior. E a verdade era que não havia um único grupo judeu que pudesse ter resistido aos nazistas... Não havia nada na Palestina que protegesse os judeus, exceto que estava atrás das linhas britânicas, e as linhas britânicas não caíram." 

E sobre o sionismo hoje:

"O que o modelo sionista nos mostrou é que ele também termina em genocídio. Isso não é aceitável." 


Estrutura e Abordagem do Livro

Crabapple estrutura o livro como uma "história de derrotados do século XX" , combinando:

  • Retratos dramáticos de líderes e soldados rasos

  • Pesquisa meticulosa em arquivos

  • Ilustrações originais da própria autora 

A narrativa começa com uma imagem ancestral: o quadro de seu bisavô Sam Rothbort, "Itka the Bundist, Breaking Windows" — uma garota arremessando uma pedra através da janela de uma cabana .


Lições para o Presente

Crabapple apresenta o Bund não como um artefato histórico ossificado, mas como um "guia para o nosso momento, em todo o seu horror e possibilidade" . As lições que ela identifica incluem:

  1. Solidariedade através da diferença (solidarity across difference) — a insistência de que se pode permanecer si mesmo enquanto se luta ao lado de outros 

  2. Rejeição do etnonacionalismo — a crença de que a ideia de estados etnicamente homogêneos "é uma receita para limpeza étnica e derramamento de sangue interminável" 

  3. A lógica binária"ou é solidariedade através da diferença, ou é selvageria" 

Como resume o socialista judeu Meyer London, que trabalhou com bundistas no Lower East Side:

"Você está ciente de que, na Rússia, na Polônia, milhares de meninos e meninas judeus rezam a Deus não para tirá-los novamente do Egito, mas para ajudá-los a libertar o Egito?" 


Principais Personagens e Figuras

NomePapel no Bund
Sam RothbortBisavô da autora; suas "pinturas de memória" inspiraram o livro 
Henryk ErlichLíder bundista que em 1938 previu a lógica gêmea do sionismo e antissemitismo 
Meyer LondonSocialista judeu que trabalhou com bundistas em Nova York; autor da citação sobre "libertar o Egito" 
ItkaA figura da pintura que dá início à jornada de Crabapple — uma garota arremessando uma pedra 

Recepção e Relevância Contemporânea

O livro foi publicado em abril de 2026 e recebeu aclamação da crítica. Naomi Klein escreveu: "Um relato comovente, humano e radical de um dos movimentos revolucionários mais poderosos do século XX" Jason Stanley descreveu Crabapple como "uma gênia americana única" .

A obra chega em um momento de intenso debate sobre nacionalismo, pertencimento e a situação em Gaza e na Cisjordânia. Crabapple conecta explicitamente a história bundista à luta palestina contemporânea:

"De acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários, colonos israelenses deslocaram 1.700 palestinos de suas casas na Cisjordânia ocupada desde janeiro deste ano — um número que excedeu em três meses o total de 2025." 

Para Crabapple, a filosofia do do'ikayt — o direito de florescer onde se vive — ecoa não apenas o sumud palestino, mas também as lutas de imigrantes e comunidades marginalizadas em todo o mundo hoje.


Conclusão

Here Where We Live Is Our Country é, nas palavras de sua autora, "uma vela para iluminar o presente tumultuado" . Mais do que uma história de um movimento derrotado, é um testemunho da possibilidade de uma política que não escolhe entre particularidade étnica e solidariedade universal — mas insiste que a liberdade começa aqui, onde vivemos, com aqueles que estão ao nosso lado.

Como escreve Crabapple, ecoando os bundistas que recusaram tanto a assimilação quanto o sionismo:

"Não há países onde viva apenas um único grupo populacional. É por isso que a ideologia dos Estados etnonacionais sempre leva à opressão, à limpeza étnica, frequentemente ao genocídio." 

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Alfabetização como Liberdade. Por Egidio Guerra.

 



Sobre o Livro e o Autor

James é um romance do escritor norte-americano Percival Everett, publicado em 2024 pela editora Doubleday . A obra venceu o National Book Award for Fiction de 2024, o Kirkus Prize e, em maio de 2025, conquistou o Prêmio Pulitzer de Ficção. O comitê do Pulitzer descreveu o livro como "uma reconsideração bem-sucedida de Huckleberry Finn que dá agência a Jim para ilustrar o absurdo da supremacia racial e oferecer uma nova visão sobre a busca por família e liberdade".

Everett é professor de literatura inglesa na Universidade do Sul da Califórnia e autor de mais de trinta livros. Sua obra Erasure (2001) foi adaptada no filme American Fiction, vencedor do Oscar. Sobre sua escrita, Everett já declarou ter um estilo "patologicamente irônico".


Resumo da Trama

Primeiro Ato: A Fuga

Ambientado em Hannibal, Missouri, o romance se abre com Jim, um homem escravizado de aproximadamente 27 anos, sentado em frente à casa da Srta. Watson, aguardando um prato de pão de milho para levar à sua esposa, Lizzie, e à filha, Sadie . Ele ouve Huckleberry Finn e Tom Sawyer sussurrando nas proximidades, prestes a pregar uma peça nele, mas finge estar dormindo.

Esta cena inicial estabelece imediatamente um elemento central da narrativa: tudo o que Jim demonstra aos brancos é uma performance. Entre si, os escravizados falam inglês padrão, erudito e articulado. Na presença de brancos, recorrem a um dialeto que Jim chama de "filtro de escravo" (slave filter). Como ele mesmo explica às crianças escravizadas: "Pessoas brancas esperam que soemos de certa maneira, e só pode nos ajudar se não os decepcionarmos".

Ao saber que a Srta. Watson planeja vendê-lo — o que significaria a separação definitiva de sua família —, Jim foge para uma ilha no rio. Lá encontra Huck, que também fugiu após mais uma explosão violenta de seu pai alcoólatra, "Pap".

Os dois partem juntos pelo rio Mississippi, viajando à noite e seguindo para o sul — uma decisão estratégica, pois ninguém esperaria que um escravo fugitivo se dirigisse na direção oposta à liberdade.

Segundo Ato: O Poder da Escrita

Enquanto estão escondidos, Jim encontra um lápis e começa a escrever sua história. Suas primeiras palavras são reveladoras: "Meu nome é Jim. Ainda não escolhi um nome" (My name is Jim. I have yet to choose a name).

Jim é secretamente alfabetizado — aprendeu sozinho a ler e escrever usando os livros da biblioteca do Juiz Thatcher. Ele mantém esse conhecimento oculto, pois sabe que sua inteligência, se descoberta, representaria uma ameaça à ordem escravocrata. Como reflete em dado momento: "Se eu pudesse ver as palavras, então ninguém poderia controlá-las ou controlar o que eu extraía delas. Era um assunto completamente privado e completamente livre e, portanto, completamente subversivo".

Jim trava conversas imaginárias com filósofos do Iluminismo — Voltaire, Rousseau e Locke — debatendo temas como escravidão, raça e igualdade. Em uma dessas passagens, ele confronta Voltaire, que se diz abolicionista:

"Você está dizendo que somos iguais, mas também inferiores" 

A insatisfação com esses debates teóricos leva Jim a uma conclusão amarga: "As chamadas histórias contadas por si mesmas tornavam-se mais endurecedoras quanto mais eu as examinava, imaginando como uma criança de cinco anos poderia ter se lembrado de tantos detalhes que faziam um sentido tão arrumado. Eu já tinha compreendido a arrumação das mentiras".

Terceiro Ato: Os Vigaristas e o Minstrel Show

Jim e Huck encontram dois vigaristas brancos que se autoproclamam "Rei" e "Duque". Após aplicarem golpes em cidades ribeirinhas, os dois traem Jim, acorrentando-o em uma oficina de ferreiro com planos de vendê-lo.

Jim é então comprado por Daniel Decatur Emmett — uma figura histórica real, fundador de uma das primeiras trupes de minstrel show (teatro racista em que brancos se pintavam de preto para caricaturar negros). Emmett afirma ser contra a escravidão, mas explora Jim como um "contratado" indentado. Jim descobre o caderno de Emmett, onde ele compõe canções para os shows — canções baseadas em música negra, usadas para ridicularizar os próprios negros. Quando foge, Jim rouba o caderno e passa a usá-lo para organizar seus pensamentos e continuar escrevendo sua própria história.

Norman, um membro da trupe com ascendência negra que passa por branco, ajuda Jim a escapar. Norman descreve essa experiência como "exaustiva". Juntos, tentam replicar o esquema de venda e fuga para levantar dinheiro, mas o plano dá errado. Jim é espancado e uma jovem escravizada chamada Sammy — por quem Jim desenvolve afeição paternal — é assassinada pelos perseguidores brancos.

Norman morre em um acidente de barco a vapor, e Jim se reencontra com Huck.

Quarto Ato: A Revelação

É neste momento que o romance revela sua maior reviravolta: Jim é o pai biológico de Huck.

A mãe de Huck teve um caso com Jim, algo que Huck jamais imaginou. Atordoado, Huck descobre que sua herança biológica é negra — uma revelação que o força a confrontar o vazio e a arbitrariedade do preconceito racial. Ainda assim, Huck se recusa a abandonar Jim.

Os dois retornam a Hannibal. Jim invade o escritório do Juiz Thatcher, apontando-lhe uma pistola. Não é a arma que aterroriza o juiz, mas sim a linguagem de Jim. O juiz, acostumado a ver nos negros apenas subserviência, fica paralisado de medo ao descobrir que Jim é alfabetizado, articulado e intelectualmente seu igual — ou superior. A certa altura, Jim ironiza:

"Desculpe, deixe-me traduzir isso para você: 'Num  decidi, Massa'" 

Jim força o juiz a revelar o paradeiro de sua esposa e filha, que foram vendidas. Ele então planeja um resgate ousado: incendeia um campo para criar distração e fuga, libertando não apenas sua família, mas também outros escravizados.

Epílogo: Liberdade

Jim lidera sua família e outros até Iowa, onde enfim estão livres. A liberdade, porém, não é idealizada — eles ainda enfrentam racismo e suspeita. Mas Jim, agora sim James — o nome que escolheu para si —, reivindicou algo que a escravidão o tentou negar: sua própria narrativa, sua voz e sua identidade.


Personagens Principais

Personagem 

Descrição 

Jim / James 

O protagonista e narrador. Escravizado, letrado, calculista e erudito. Tudo o que demonstra aos brancos é uma performance de ignorância para sobreviver. É o pai biológico de Huck. 

Huckleberry Finn (Huck) 

Garoto branco fugitivo do pai abusivo. Tem a mente mais aberta que a maioria dos brancos, mas ainda carrega preconceitos de sua sociedade. Ao descobrir que Jim é seu pai, precisa reavaliar tudo o que sabe sobre raça e identidade. 

O Rei e o Duque 

Vigaristas brancos que traem Jim. Em Everett, são retratados de forma mais sinistra do que no original de Twain. 

Daniel Decatur Emmett 

Figura histórica real, dono da trupe de minstrel show. Explora Jim enquanto finge ser "esclarecido" e contra a escravidão. 

Norman 

Homem de ascendência negra que passa por branco. Ajuda Jim a escapar e torna-se seu aliado, descrevendo a vida de "passar por branco" como exaustiva. 

Juiz Thatcher 

Autoridade local. Em Twain, era uma figura benevolente; em Everett, sua cumplicidade com o sistema escravocrata é exposta. Fica aterrorizado ao descobrir a inteligência de Jim. 

Lizzie e Sadie 

Esposa e filha de Jim. São a força motriz por trás de todas as suas ações. 

Sammy 

Jovem escravizada que foge com Jim e Norman, mas é assassinada pelos perseguidores. 

 

Citações Importantes

"My name is Jim. I have yet to choose a name." 
— Parte 1, Capítulo 7 

"If I could see the words, then no one could control them or what I got from them. [...] It was a completely private affair and completely free andthereforecompletely subversive." 
— Parte 1, Capítulo 11 

"I had already come to understand the tidiness of lies, the lesson learned from the stories told by white people seeking to justify my circumstance." 
— Parte 1, Capítulo 15 

"Are you going to kill me?" / "The thought crossed my mind. I haven't decided. Oh, sorrylet me translate that for you. I ain't 'cided, Massa." 
— Parte 3, Capítulo 9 

"Dey is the stupidstitiousest people in the world." / "You mean superstitious." / "Dat what I say." 
— Parte 1, Capítulo 4  (Jim usando o filtro de escravo enquanto, na verdade, sabe exatamente o que está fazendo)


Temas Principais

1. Alfabetização como Liberdade

Jim não apenas sabe ler — ele usa a leitura e a escrita como arma de resistência. O ato de escrever "Meu nome é James" é um ato de autodefinição que o sistema escravocrata tenta negar. 

2. Performance e Code-Switching

Os escravizados de Everett falam inglês padrão entre si e dialeto diante dos brancos. Essa duplicidade linguística é uma estratégia de sobrevivência e uma crítica à expectativa branca sobre como negros devem soar.

3. O "Inimigo" Branco

Jim insiste em chamar os brancos de "inimigo" (enemy, em itálico no original), recusando o termo "opressor" porque "opressor pressupõe necessariamente uma vítima".

4. Reescrita da História Literária

Everett não escreveu James como uma "correção" de Twain, mas como um diálogo com o clássico. Ele leu Huckleberry Finn quinze vezes antes de escrever seu romance. A obra questiona: quem tem o direito de contar uma história? E o que acontece quando o silenciado finalmente ganha voz?


Recepção e Prêmios

  • National Book Award for Fiction (2024) 

  • Kirkus Prize (2024) 

  • Prêmio Pulitzer de Ficção (2025) 

  • Finalista do Booker Prize (2024) 

O acadêmico Robert Stepto, professor emérito de Yale, descreveu James como uma obra em que o protagonista "literalmente se escreve na existência" — ecoando a tradição de narrativas de escravos como Frederick Douglass e W.E.B. Du Bois