SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

O Brasil que elegeu Lula em 2022 era diferente do que o elegera em 2002 e agora em 2026? Por Egidio Guerra





O Brasil que elegeu Luiz Inácio Lula da Silva em 2022 era profundamente diferente daquele que o elegera pela primeira vez em 2002. Essa é a premissa central de O país dividido: Duas décadas de eleições presidenciais no Brasil (2002-2022), do cientista político Jairo Nicolau. Ao longo de seis disputas presidenciais, o país passou por transformações demográficas, educacionais e tecnológicas que reconfiguraram o eleitorado e o próprio jogo político. Mas para compreender plenamente essas mudanças — e as tensões que as acompanharam — é preciso olhar além das urnas. Dois outros livros oferecem lentes complementares: O país dos privilégios, de Bruno Carazza, e O código do capital: como o Direito cria riqueza e desigualdade, de Katharina Pistor. Juntos, esses três autores desenham um retrato multifacetado de um Brasil que se tornou mais polarizado, mais desigual e mais refém de estruturas jurídicas e institucionais que beneficiam poucos às custas de muitos.

O eleitorado que se transformou

Nicolau examina dados de seis eleições e identifica três grandes mudanças no perfil do eleitor brasileiro: tornou-se mais velho, mais escolarizado e mais feminino. Ao mesmo tempo, uma revolução tecnológica alterou radicalmente a forma como os brasileiros consomem informação: o horário eleitoral gratuito na TV perdeu espaço para as redes sociais, que passaram a ser vetores centrais de mobilização — e de desinformação.

O dado mais surpreendente, porém, talvez seja outro: a tão falada polarização, segundo Nicolau, atinge apenas uma parcela pequena do eleitorado — no máximo 20%. “O Brasil está polarizado? Está, mas uma parte pequena dele. Tem uma grande base da pirâmide que não está nem aí para a política. E que vai decidir o voto, pode cair para um lado ou para o outro”. Essa massa flutuante, desinteressada da política partidária, torna o resultado das eleições imprevisível e sujeito a ventos conjunturais.

Outra constatação importante de Nicolau é que o antagonismo mudou de natureza. Nas quatro primeiras disputas do período (2002, 2006, 2010 e 2014), o campo antipetista era liderado pelo PSDB — com José Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves. Já em 2018 e 2022, o PSDB foi destronado por Jair Bolsonaro, um candidato com pouco em comum com a tradição tucana: “O PSDB sempre foi reconhecido por suas posições moderadas e democráticas, enquanto Bolsonaro se notabilizou pelo discurso antidemocrático”. Temas morais e de segurança ganharam protagonismo, rivalizando com o debate econômico — e muitas vezes suplantando-o. A economia, que na máxima de 1992 era o fator decisivo, passou a conviver com outras variáveis igualmente relevantes.

A outra face da divisão: os privilégios

Se Nicolau mostra como o eleitorado se dividiu e se reconfigurou, Bruno Carazza, em O país dos privilégios, revela uma divisão mais estrutural e menos visível: a que separa a elite do funcionalismo público do resto da sociedade. O livro, primeiro volume de uma trilogia, expõe os mecanismos pelos quais magistrados, membros do Ministério Público, advogados da União e outras carreiras públicas construíram um sistema de regalias e benesses que onera o Orçamento e aprofunda a desigualdade.

Carazza parte do clássico Os Donos do Poder, de Raymundo Faoro, para mostrar como os “donos do poder” contemporâneos aprofundaram sua captura do Estado. O diagnóstico é contraintuitivo: o Brasil não tem um Estado inchado em termos de número de servidores — o setor público emprega 12% da força de trabalho, menos que a média de 18% dos países da OCDE. No entanto, o gasto com remuneração de servidores alcança 13% do PIB, muito acima do que se observa em países como Estados Unidos (8,7%) ou Alemanha (7,6%). Essa discrepância é fruto de décadas de pressão bem-sucedida de categorias organizadas, que obtêm salários e vantagens acima do teto constitucional e perpetuam um ciclo de privilégios.

A conexão com a análise de Nicolau é direta: enquanto o eleitorado se tornava mais escolarizado e mais feminino, a estrutura de poder permanecia refratária à mudança. Os privilégios da elite estatal não são apenas uma questão de justiça fiscal — são também um fator de desconfiança e desencantamento com as instituições, alimentando a “repulsa intransigente” que Nicolau identifica como característica da divisão brasileira. O cidadão comum, que não se interessa por política, percebe, ainda que confusamente, que o jogo é viciado — e essa percepção pode se traduzir em votos de protesto ou em abstencionismo.

O direito como fábrica de desigualdade 

Katharina Pistor, em O código do capital, oferece a terceira peça desse quebra-cabeça. Seu argumento é provocador e fundamental: o direito não é um mero árbitro neutro das relações econômicas, mas um motor ativo da criação de riqueza e desigualdade. O capital, diz Pistor, é “codificado” no direito — predominantemente em instituições de direito privado, como a propriedade, os contratos e a personalidade jurídica. A portas fechadas, nos escritórios de advogados privados, ativos são transformados em capital por meio de técnicas jurídicas que lhes conferem a capacidade de gerar e proteger riqueza. Essa atividade, pouco conhecida do público, é uma das principais razões para o aprofundamento da desigualdade entre os detentores do capital e o restante da sociedade. 

Aplicada ao Brasil, a tese de Pistor ilumina aspectos que nem Nicolau nem Carazza abordam diretamente, mas que são complementares. O “país dividido” que Nicolau descreve não é apenas dividido politicamente entre lulistas e bolsonaristas; é também dividido juridicamente entre aqueles que têm acesso aos códigos que criam capital e aqueles que não têm. Os “privilégios” que Carazza documenta no funcionalismo público são, em grande medida, privilégios codificados em lei — regimes jurídicos especiais, foros privilegiados, regras de aposentadoria, subsídios e vantagens que só existem porque o direito as criou e as mantém. 

A concentração de renda no Brasil, que voltou a subir em 2025 após uma trégua no ano anterior, não é um fenômeno puramente econômico: é também um fenômeno jurídico. O direito, como mostra Pistor, não apenas reflete a desigualdade — ele a produz, ao selecionar quais ativos merecem a “codificação” que os transforma em capital e quais não.

 Um retrato de três dimensões 

Juntos, os três livros oferecem um retrato tridimensional do Brasil contemporâneo. Nicolau mostra o chão da fábrica da política: o eleitorado que mudou, as forças que o movem, as divisões que emergem. Carazza revela o andar de cima do Estado: as elites que capturaram a máquina pública e transformaram privilégios em direito adquirido. Pistor expõe os alicerces jurídicos sobre os quais toda essa estrutura repousa — e que, silenciosamente, produzem e reproduzem a desigualdade. 

O Brasil que elegeu Lula em 2022 era bem diferente do que o elegera em 2002. Mas, em muitos aspectos fundamentais — na concentração de renda, na captura do Estado por grupos de interesse, na codificação jurídica do privilégio — o país permaneceu surpreendentemente o mesmo. A polarização que Nicolau identifica como “episódica e reversível” pode até se dissipar com o fim da era Lula e Bolsonaro. Já os privilégios e a desigualdade codificada no direito são estruturas mais profundas, que nenhuma eleição, por si só, será capaz de desfazer. 

 

O Tecido Vivo do Cosmos: Conexões Complexas e Conscientes . Por Egidio Guerra

 



Vivemos ainda sob a longa sombra do "desencantamento do mundo" diagnosticado por Charles Taylor. A era moderna, ao fragmentar o cosmos em engrenagens cegas e átomos indiferentes, relegou a consciência a um mero epifenômeno acidental num universo materialista e surdo. No entanto, uma revolução silenciosa, que emerge da confluência entre a neurociência, a teoria da complexidade e a metafísica, começa a tecer novamente a trama do real — revelando que aquilo que chamamos de "conexão cósmica" não é uma fantasia poética, mas a própria assinatura profunda da existência. 

A ciência da complexidade, magistralmente exposta por David C. Krakauer e Neil Theise, dissolve o antigo sonho reducionista. O mundo não é uma máquina linear, mas um organismo vivo de malhas não-lineares, onde a causalidade é circular e a emergência é a regra. Segundo Theise, a consciência não está localizada em um único ponto, mas é uma propriedade que brota da intrincada coreografia de redes interconectadas — das proteínas às galáxias. Este é o primeiro fio da nossa conexão cósmica: a constatação de que o universo é um sistema dinâmico de interdependência absoluta, onde o "dentro" e o "fora" se confundem na dança da informação. 

Joseph E. LeDoux, em sua teoria dos Quatro Reinos da Existência, dá corpo biológico a essa abstração. Ele nos mostra que o ser humano é um nó complexo onde se entrelaçam o reino biológico, o neurobiológico, o cognitivo e o consciente. Não somos almas aprisionadas em cascas materiais, mas o ápice espiralado de uma evolução que conecta a luta pela sobrevivência à subjetividade reflexiva. Cada batida do coração e cada sinapse são elos numa corrente que nos liga à história profunda da vida na Terra, provando que a nossa "interioridade" é filha legítima da complexidade orgânica do planeta. 

Mas como essa maquinaria viva gera a experiência subjetiva? Nicholas Humphrey e Anil Seth oferecem respostas deslumbrantes. Humphrey postula que a senciência é uma "invenção" evolutiva — um truque de mágica da natureza que cria um "eu" sensível para proteger o corpo. Já Seth, com sua ciência do cérebro preditivo, redefine a percepção: não vemos o mundo como ele é, mas como uma "alucinação controlada", uma aposta estatística do cérebro para navegar na incerteza. Se a nossa realidade é uma construção ativa, então a conexão cósmica não é uma recepção passiva, mas uma coreografia participativa. Estamos constantemente "adivinhando" o universo e, ao fazê-lo, estamos, literalmente, co-criando a paisagem da existência a cada instante. 

É neste ponto que a ciência encontra a sabedoria perene, personificada na obra de David Bentley Hart. Em All Things Are Full of Gods, Hart radicaliza a visão de um universo intrinsecamente saturado de interioridade e mente, rejeitando o materialismo estéril em favor de uma ontologia onde a matéria é portadora de mistério. Sua tradução do Novo Testamento resgata o conceito de Logos não como uma lei fria, mas como o princípio reconciliador que mantém todas as coisas (ta panta) unidas em uma harmonia dinâmica. Hart nos lembra que a complexidade, por si só, não explica o sentido; ela aponta para uma profundidade onde a consciência cósmica e a experiência humana se tocam — um espaço sagrado onde os "deuses" (as potências do ser) habitam cada átomo. 

Ao entrelaçarmos esses pensadores, a "conexão cósmica consciente" revela-se como a grande síntese do nosso tempo. Não se trata de um retorno ao animismo ingênuo ou ao misticismo vago, mas de uma compreensão madura de que a complexidade (Krakauer) é a gramática do universo, a vida (LeDoux) é a sua sintaxe, e a consciência (Seth e Humphrey) é a sua eloquência. Taylor buscava a poesia na era do desencanto; encontramo-la agora na própria arquitetura do real. O cérebro que prediz, a célula que sente e a galáxia que gira não são entidades separadas, mas movimentos de uma mesma sinfonia emergente. 

Assim, estar consciente é estar intrinsecamente conectado à totalidade. É reconhecer, como nos ensina Hart, que o universo não é um palco inerte para a nossa solidão, mas um tecido vivo onde a subjetividade é a maneira que a matéria encontrou para se tocar, se admirar e se reconciliar consigo mesma. A conexão cósmica, portanto, não é uma metáfora a ser buscada nas estrelas; é a constatação inescapável de que, ao olharmos para dentro de nós, estamos mergulhando nas malhas infinitas de um universo que aprende a ver a si mesmo através dos nossos olhos — um universo que, finalmente, acorda para a sua própria beleza complexa e consciente. 

A sangrenta imagem de 1770 que alimentou a Independência dos EUA

 

Detalhe da ilustração mostrando soldados britânicos disparando contra civis americanos

Crédito,Museu Metropolitano de Arte de Nova York/Doação da Sra. Russell Sage

    • Author,Deborah Nicholls-Lee
    • Role,BBC Culture
  • Published
  • Tempo de leitura: 7 min

Importante: esta reportagem contém uma imagem ilustrativa de combate que pode ser perturbadora para alguns leitores.

A neve cobria os campos na noite de 5 de março de 1770, em Boston, no Estado americano de Massachusetts.

Um único sentinela britânico montava guarda em frente à alfândega local. Sua respiração formava nuvens de névoa branca no ar congelante.

Saindo da escuridão, um adolescente começou a insultá-lo e atirar neve contra ele. E logo chegou uma multidão cada vez maior para acompanhá-lo.

Os soldados foram chamados para vir em auxílio do sentinela, causando a escalada do confronto.

A multidão atirava conchas de ostras, carvão e pedaços de gelo contra os soldados, até que o distúrbio se tornou devastador. Os britânicos abriram fogo, matando três homens e deixando outros dois mortalmente feridos.

No Reino Unido, o evento ficou eufemisticamente conhecido como "o incidente de King Street". Mas, nas colônias, ele recebeu o nome de "Massacre de Boston".

O caso se tornou um importante catalisador da independência dos Estados Unidos, que comemora 250 anos neste dia 4 de julho e é comemorado por instituições culturais em todo o país.

Três semanas depois do massacre, uma gravura em chapa de cobre, produzida pelo renomado ourives Paul Revere (1735-1818), apareceu para venda nos jornais de Boston. Seu título era "O Massacre Sangrento perpetrado em King Street, Boston, em 5 de março de 1770, por um grupo do 29° Regimento".

Sua sangrenta ilustração dos nacionalistas caídos, banhados em sangue, sendo alvejados por uma linha de soldados sorridentes, despertou o sentimento antibritânico e alimentou a chama da rebelião.

Uma das 29 impressões existentes da gravação está guardada no Museu de Arte de Wichita Falls, no Estado americano do Texas.

O museu comemora o aniversário da assinatura da Declaração de Independência dos Estados Unidos com a exposição intitulada Printing the American Revolution ("Imprimindo a Revolução Americana, em tradução livre). Ela examina a participação da imprensa escrita na Independência dos Estados Unidos.

Ilustração de Paul Revere mostrando o episódio que ficou conhecido como o Massacre de Boston

Crédito,Museu Metropolitano de Arte de Nova York/Doação da Sra. Russell Sage

Legenda da foto,A gravura aterradora do ourives Paul Revere alimentou o sentimento antibritânico nas colônias da América

"A ilustração do Massacre de Boston por Revere foi um poderoso instrumento de propaganda, especialmente em um mundo onde os índices de analfabetismo variavam entre as regiões e as populações", explica a professora de história Mary Draper, da Universidade Estadual Midwestern, nos Estados Unidos, e uma das curadoras da exposição.

"Ao dispor os soldados britânicos em uma linha ordenada e retratar o caos dos colonos desarmados, ele transmitiu uma mensagem clara sobre quem estava errado e quem eram as vítimas. A gravura convocou os colonos a resistir ao domínio britânico."

Mensagens ocultas

O trabalho também contém mensagens ocultas indicando quem está no lado errado da história.

Uma placa com os dizeres "Açougue" ergue-se sobre os soldados britânicos, enquanto um cachorro (símbolo de lealdade) aparece em posição proeminente entre os colonos.

"Esta imagem foi obviamente destinada a incitar o ódio no observador em relação à cena, pois exibe cidadãos indefesos sendo alvejados por soldados", explica à BBC Constance McPhee, uma das curadoras da exposição Revolution! ("Revolução!"), em cartaz no Museu Metropolitano de Arte de Nova York, nos Estados Unidos.

A gravura é um dos destaques da exposição, que reúne obras de arte que indicam as origens da Revolução Americana e dos eventos que se seguiram.

A imagem insinuava que os britânicos não eram mais "uma força amiga e paternal", mas sim uma "força opressora", segundo ela. "Ela começou a mudar a opinião das pessoas."

Para os alfabetizados, a inscrição inflamada incluída sob a imagem deixa muito clara a brutalidade dos britânicos, descritos como "bárbaros ferozes", que agiam com "rancor assassino".

Ela também convoca os nacionalistas a "apaziguar os queixosos Fantasmas das Vítimas", relacionas abaixo no texto.

Em um ensaio de 2022 sobre a gravura, o historiador Steven L. Danver indica que a obra "desempenhou papel fundamental para definir a postura das colônias em relação ao domínio britânico" e "conseguiu unir os colonos por uma causa comum e promover um senso de urgência pela independência".

Momento crucial

O momento da publicação da gravura foi fundamental.

As tensões estavam aumentando entre os colonos americanos, desgostosos com a crescente presença militar britânica, redução das liberdades civis e por uma série de políticas fiscais indesejadas, que levavam os americanos a financiar a dívida nacional britânica.

O incidente no lado de fora da alfândega de Boston, o grande símbolo dos impostos abusivos, era uma oportunidade boa demais para ser perdida.

Ilustração em preto e branco mostrando Paul Revere durante sua 'cavalgada da meia-noite', em 1775

Crédito,Alamy

Legenda da foto,Revere foi considerado posteriormente um herói nacional pela sua 'cavalgada da meia-noite' em 1775, para alertar os nacionalistas sobre os avanços do exército britânico

Revere era membro do grupo de resistência Filhos da Liberdade. Ele foi posteriormente considerado herói nacional americano, devido à sua "cavalgada da meia-noite", em 1775.

Na ocasião, ele ajudou a vencer o exército britânico, correndo para alertar os nacionalistas sobre os seus avanços. Diversos outros cavaleiros também participaram desta missão.

Revere aproveitou o massacre de Boston para fortalecer o apoio ao objetivo do grupo, capitalizando as emoções exacerbadas.

Ele plagiou outro desenho do evento, de autoria de Henry Pelham (c.1748-1806), e correu para comercializar sua gravura. Ele não deu crédito nem remunerou Pelham, que enviaria a Revere uma carta amargurada, lamentando suas "ações desonrosas".

'Alimentou a fúria'

Parte do impacto da obra de arte é consequência da sua raridade. "É uma das poucas feitas por um impressor americano", conta McPhee.

Ela destaca que sua distribuição ampla e rápida "indicava a importância atribuída" à gravura pelas pessoas.

Segundo McPhee, "não há outra obra com tantas cópias criadas" naquela época. E, ao divulgar a notícia do massacre, a gravura alimentava a fúria popular.

Folhetos com a gravura eram exibidos em lojas e tavernas, ou vendidos para levantar dinheiro para os Filhos da Liberdade. Antes clandestino, o grupo cresceu exponencialmente e passou a ser o principal porta-voz da causa nacionalista.

Paralelamente, circulavam plágios da gravura, como a versão de Jonathan Mulliken (1746-1782). De um lado, elas forneciam a Revere uma dose do seu próprio remédio, mas também repercutiam sua convocação popular.

Ilustração em preto e branco do Massacre de Boston

Crédito,Alamy

Legenda da foto,A gravura foi baseada em um desenho original de Henry Pelham

A gravura de Revere também se tornou o frontispício do panfleto A Short Narrative of the Horrid Massacre in Boston ("História resumida do horrível massacre em Boston", em tradução livre), de 1770.

A peça de propaganda viajou por milhares de quilômetros, até que o panfleto e versões da gravura foram impressos em Londres. Com isso, o horror e a injustiça do massacre de Boston passaram a confrontar o povo britânico na sua própria terra.

'O fervor do nosso entusiasmo'

Para transmitir uma mensagem forte para as pessoas, a imagem incluiu diversos exageros e falsidades.

Ela ambienta o evento à luz do dia e omite todas as evidências de agressão dos nacionalistas. Até a neve atirada contra os soldados como provocação derreteu sem deixar traços.

O mais importante, como as testemunhas declarariam posteriormente à Justiça, é que ela ilustra incorretamente os britânicos como tendo iniciado o conflito, com o capitão Thomas Preston (c.1722-c.1798), à direita, dando o comando para que os soldados disparassem contra a multidão indefesa.

Preston negou ter dado a ordem e foi absolvido desta acusação. Alguns relataram terem ouvido a palavra "fogo", mas da boca dos nacionalistas, desafiando os soldados a atirar.

No seu pronunciamento de abertura do julgamento, o advogado de defesa, Josiah Quincy (1744-1775), pareceu alertar o júri sobre o poder de influência da gravura, que poderia induzir as pessoas a erro.

"As impressões exibidas nas nossas casas deram asas à fantasia", declarou ele. "E, no fervor do nosso entusiasmo, a razão corre o risco de ser perdida."

O efeito da propaganda oferecida pela gravura permaneceu na consciência pública por muito tempo depois da sua criação.

No primeiro aniversário do massacre, Revere a incorporou em uma enorme tela iluminada na janela da sua casa. Milhares de espectadores se aglomeraram para observar a ilustração.

Um século depois, retratos do evento por artistas como W. L. Champney e Alonzo Chappel (1828-1887) realizaram ajustes factuais, mas mantiveram viva a narrativa principal.

Retrato em preto e branco de Paul Revere, com uma das mãos segurando o queixo

Crédito,Alamy

Legenda da foto,Retrato de Revere por John Singleton Copley, de 1768. Ele é relembrado nos Estados Unidos como um herói nacional popular

O Instituto Gilder Lehrman de História Americana afirma que "a histórica gravura de Paul Revere... provavelmente foi a obra de propaganda de guerra mais eficaz da história dos Estados Unidos".

Certamente, esta é uma das imagens mais conhecidas da Revolução Americana e seus efeitos são sentidos até hoje.

"Apesar das suas pequenas dimensões, a obra ainda evoca emoções entre os observadores", segundo Mary Draper.

"Parte do seu poder reside na sua contínua relevância. Cada geração pode interpretar esta obra de formas que refletem suas próprias ideias sobre autoridade, violência e protestos."

A gravura também é "um marcante lembrete de que o passado é simplesmente tão contestado quanto o presente", conclui a professora.

A exposição Revolução! está em cartaz no Museu Metropolitano de Arte de Nova York, nos Estados Unidos, até o dia 7 de setembro de 2026.

A exposição Imprimindo a Revolução Americana está em cartaz no Museu de Arte de Wichita Falls, nos Estados Unidos, até o dia 22 de agosto de 2026.

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Culture.