SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sábado, 28 de março de 2026

28 de março- NO KINGS! A Pobreza Americana, o Facismo e o Progresso!




A pobreza nos Estados Unidos não é um acidente. Tampouco é uma falha individual, um fracasso moral ou uma consequência inevitável das leis do mercado. Um corpo crescente de literatura — que inclui trabalhos etnográficos profundos, análises históricas e diagnósticos estruturais — tem demonstrado que a pobreza americana é, antes de tudo, um fenômeno produzido e sustentado por escolhas políticas deliberadas, por uma geografia do abandono e por uma ideologia que transformou o progresso em instrumento de exclusão. Ao reunir as contribuições de Matthew Desmond, Kathryn J. Edin, Sinclair Lewis e a crítica à ideologia do progresso, emerge um retrato complexo e perturbador: o da pobreza como um projeto ativo de uma sociedade que, sob o pretexto do avanço, aprendeu a converter seus cidadãos mais vulneráveis em matéria-prima para o lucro e para a ordem. 

I. Evicted: A Casa como Fronteira da Exploração 

Nenhum livro fez mais para tornar visível a mecânica íntima da pobreza do que EvictedPoverty and Profit in the American City (2016), de Matthew Desmond. Vencedor do Prêmio Pulitzer e fruto de uma pesquisa etnográfica exaustiva em Milwaukee, Desmond nos conduz para dentro das casas — e dos despejos — de famílias que lutam para manter um teto. 

A tese central é devastadora em sua simplicidade: o despejo não é uma consequência da pobreza, mas uma de suas causas mais poderosas. Desmond demonstra como o mercado de aluguel de baixa renda opera como uma máquina de extração de riqueza, onde senhorios, muitas vezes pequenos proprietários, encontram maior lucratividade na rotatividade e na precariedade do que na estabilidade. O ato de despejar um inquilino, com seus custos judiciais e emocionais, torna-se uma ferramenta de gestão de risco e lucro. 

"Na cidade americana, ser pobre significa frequentemente estar preso entre a rocha do despejo e o lugar duro do aluguel inacessível." 

Desmond acompanha personagens como Sherrena Tarver, uma senhoria que alterna entre a compaixão e o cálculo frio, e Arleen, uma mãe negra que, após ser despejada repetidas vezes, vê sua família ser destruída pela instabilidade crônica. O livro revela como o despejo funciona como um "marcador" que suja o histórico de aluguel do inquilino, impossibilitando que ele encontre outro lar digno, gerando um ciclo de precariedade do qual é quase impossível escapar. 

O impacto político e as críticas: Evicted foi aclamado como um divisor de águas, inspirando políticas de assistência jurídica para inquilinos em várias cidades americanas. No entanto, críticos apontaram que Desmond, ao focar em senhorios de pequeno e médio porte, subestimou o papel dos grandes fundos de investimento e da financeirização da habitação. Outra crítica relevante é que, embora o livro documente com maestria o sofrimento causado pelo despejo, ele oferece um diagnóstico menos robusto sobre como romper o ciclo de forma sistêmica, para além da expansão de vouchers habitacionais. 

II. The Injustice of Place: A Geografia do Abandon 

Se Evicted nos mostra o mecanismo, The Injustice of PlaceUncovering the Legacy of Poverty in America (2023), de Kathryn J. Edin, H. Luke Shaefer e Timothy J. Nelson, amplia o foco para revelar a geografia da pobreza extrema. O livro realiza um feito metodológico notável: em vez de olhar para as áreas urbanas mais pobres, os autores se voltaram para os lugares mais esquecidos da América — condados rurais no Appalachia, no Sul profundo e no Vale do Rio Grande, onde a pobreza persiste com uma intensidade que desafia as explicações convencionais. 

A conclusão é que esses lugares não são pobres por acaso ou por "cultura da pobreza". Eles foram, deliberadamente, "escolhidos para perder". Através de uma combinação de exploração extrativista (mineração de carvão, agricultura de plantation), desinvestimento estatal e segregação racial institucionalizada, essas regiões foram moldadas para concentrar riqueza nas mãos de poucos enquanto deixavam a maioria em um estado de privação perpétua. 

"A injustiça do lugar não é uma questão de geografia; é uma questão de poder." 

Edin e seus coautores demonstram que a pobreza de lugar está associada a três características fundamentais: exploração econômica histórica, exclusão racial e extração de recursos sem reinvestimento local. Essas regiões funcionam como "colônias internas" — fornecedoras de matéria-prima e mão de obra barata para o crescimento nacional, mas sem nunca participarem dos benefícios desse crescimento. 

A contribuição central: O livro desafia a narrativa individualista da pobreza, mostrando que a trajetória de vida de uma pessoa está profundamente ligada ao lugar em que ela nasce. Ser pobre em um condado do Mississippi não é o mesmo que ser pobre em Nova York; as oportunidades, a saúde, a expectativa de vida e as redes de apoio são radicalmente diferentes. A obra também introduz o conceito de "abandono institucional" como força ativa de manutenção da pobreza. 

 

III. Povertyby America: A Pobreza como Projeto Nacional 

Retornando com Povertyby America (2023), Matthew Desmond aprofunda o argumento que havia esboçado em Evicted e o transforma em uma tese provocativa e abrangente: a pobreza nos Estados Unidos não é um fracasso do sistema; é um produto do sistema. Mais do que isso, ela é ativamente benéfica para aqueles que não são pobres. 

"A pobreza persiste na América porque os mais ricos entre nós se beneficiam dela." 

Desmond argumenta que a pobreza não é um problema a ser resolvido, mas um recurso a ser explorado. Ela fornece mão de obra barata para indústrias que dependem de salários baixos (como o varejo e a agricultura), sustenta um mercado de aluguel que extrai uma porcentagem descomunal da renda dos mais pobres, e alimenta um sistema de crédito predatório e multas judiciais que funciona como uma máquina de transferência de renda dos mais pobres para os cofres públicos e privados. 

O livro apresenta uma série de dados que desafiam a imaginação: os Estados Unidos têm uma taxa de pobreza mais alta do que qualquer outra nação rica, e essa taxa é particularmente elevada entre crianças, mulheres negras e pessoas com deficiência. Desmond demonstra que o governo americano já sabe como reduzir a pobreza — programas como o Earned Income Tax Credit e a expansão do Child Tax Credit durante a pandemia reduziram drasticamente a pobreza infantil — mas escolhe não o fazer de forma permanente porque a vontade política é minada por um "interesse estabelecido na pobreza". 

As críticas: A tese de Desmond foi acusada por alguns críticos de ser excessivamente funcionalista — ao afirmar que a pobreza "beneficia" os ricos, ele pode estar sugerindo uma intencionalidade consciente onde existe, na verdade, um conjunto de estruturas e inércias institucionais. Outros apontam que o livro, ao focar quase exclusivamente no Estado federal e nos mercados, subestima o papel da ação coletiva e da organização comunitária como contrapoder. Ainda assim, Povertyby America é uma obra que força o leitor a uma conclusão desconfortável: se a pobreza persiste, é porque, em algum nível, toleramos que ela persista. 

 

IV. It Can't Happen Here: O Fascismo Como Arma Contra os Pobres 

A inclusão de Sinclair Lewis em uma discussão sobre pobreza pode parecer, à primeira vista, um desvio. Publicado em 1935, It Can't Happen Here é um romance satírico que imagina a ascensão de um ditador fascista nos Estados Unidos, Buzz Windrip, que utiliza uma retórica populista para conquistar o poder e, uma vez no poder, implanta um regime de terror, campos de concentração e violência política. A frase que dá título ao livro tornou-se um alerta profético: "isso não pode acontecer aqui" é, na verdade, a garantia de que pode. 

A conexão com a pobreza, no entanto, é central, embora frequentemente subestimada pela crítica tradicional. Lewis demonstra que o fascismo americano não surge do vácuo, mas se alimenta do desespero econômico. Buzz Windrip conquista o apoio das massas pobres e da classe trabalhadora rural e urbana prometendo-lhes prosperidade, dignidade e a punição da elite que as teria abandonado. Uma vez no poder, no entanto, o regime utiliza os pobres como bodes expiatórios e como alvos privilegiados da violência estatal. 

"O fascismo não vem com uma suástica e botas de cano alto. Vem com um sorriso, uma promessa e um inimigo a ser culpado." 

Na leitura proposta por esta síntese, It Can't Happen Here revela uma função crucial do fascismo no contexto da pobreza: ele opera como uma válvula de escape e um mecanismo de disciplinamento. Ao canalizar a fúria das populações empobrecidas contra "inimigos internos" (imigrantes, minorias, intelectuais), o fascismo desvia a atenção da desigualdade estrutural e legitima a violência policial e o encarceramento em massa como ferramentas de "ordem". O pobre, sob o fascismo, deixa de ser um cidadão com direitos para se tornar uma ameaça a ser gerenciada. 

Atualidade do romance: O livro de Lewis experimentou um ressurgimento notável após a eleição de 2016, sendo redescoberto como um alerta sobre a fragilidade das instituições democráticas americanas. Críticos contemporâneos apontam que o romance, embora profético em muitos aspectos, subestima o papel das estruturas econômicas e da mídia na sustentação de um regime autoritário, concentrando-se excessivamente na figura do líder carismático. 

 

V. Progress: A Ideologia que Devora Seus Próprios Filhos 

O último elemento deste mosaico é uma reflexão crítica sobre o próprio conceito de progresso. A obra ProgressHow One Idea Built Civilization and Now Threatens to Destroy It, do filósofo e historiador das ideias (cujo título foi resumido nesta análise), oferece a chave para compreender como a retórica do progresso foi sequestrada e transformada em arma contra os pobres. 

O progresso, como ideia, nasceu do Iluminismo e carregava consigo a promessa de emancipação universal: a ciência, a tecnologia e a razão libertariam a humanidade da escassez, da superstição e da opressão. No entanto, a obra argumenta que essa ideia foi gradualmente capturada por uma lógica de crescimento por crescimento, que confunde avanço tecnológico com avanço humano e que transforma o bem-estar coletivo em subproduto da acumulação. 

No contexto americano, essa captura se manifesta de duas formas cruciais: 

  1. progresso como justificativo para o deslocamento: A retórica do "desenvolvimento urbano", da "revitalização" e da "modernização" tem sido usada historicamente para justificar a remoção de populações pobres de seus bairros. O que se apresenta como progresso (novos condomínios, centros comerciais, infraestrutura) é, na prática, um processo de limpeza social que desloca os pobres para periferias ainda mais precárias. 

  1. O progresso como negação do cuidado: A ideologia do progresso, em sua versão neoliberal, transformou o cuidado (com a saúde, com a habitação, com a educação) em um obstáculo ao crescimento. Programas de bem-estar social são retratados como "antieconômicos", "dependentizantes" ou "inibidores da inovação". A pobreza, sob essa lógica, não é um problema a ser resolvido pelo progresso, mas um resíduo necessário que o progresso produz. 

A crítica fundamental: O livro sobre o progresso alerta que a própria noção de "avanço" foi invertida: não se pergunta mais se uma inovação ou política beneficia os mais vulneráveis; pergunta-se apenas se ela contribui para o crescimento do PIB ou para a eficiência do mercado. Nesse movimento, o progresso deixa de ser uma ferramenta de libertação para se tornar um "motor de destruição criativa" que devora populações inteiras em nome de um futuro que nunca chega para todos. 

 

Conclusão: A Pobreza como Escolha Coletiva 

Ao reunir esses cinco olhares, emerge um retrato unificado e perturbador. A pobreza americana não é um acidente de percurso, uma falha moral individual ou uma consequência inevitável da economia de mercado. Ela é, antes de tudo, o resultado de um conjunto de escolhas — escolhas políticas que desinvestem de moradia digna, escolhas legais que protegem o lucro dos senhorios em detrimento da estabilidade dos inquilinos, escolhas fiscais que canalizam recursos para os mais ricos enquanto abandonam regiões inteiras, escolhas ideológicas que transformam o progresso em desculpa para o deslocamento e escolhas retóricas que, em momentos de crise, convertem o desespero dos pobres em combustível para o autoritarismo. 

Matthew Desmond nos mostra que a pobreza é um mercado lucrativo. Kathryn Edin nos mostra que ela é geograficamente concentrada e historicamente produzida. Sinclair Lewis nos alerta que ela é politicamente perigosa, podendo ser instrumentalizada por regimes que prometem ordem e entregam violência. E a crítica ao progresso nos lembra que, quando confundimos avanço tecnológico com avanço humano, corremos o risco de celebrar como progresso aquilo que é, na verdade, abandono. 

A pergunta que atravessa todas essas obras não é técnica, mas profundamente política: se sabemos como acabar com a pobreza — se temos os recursos, os programas e o conhecimento para fazê-lo — por que escolhemos não o fazer? A resposta, sugerem os autores, é que a pobreza não é um problema a ser resolvido, mas uma condição que, para uma parte significativa da sociedade e de suas elites, continua sendo funcional. O desafio, portanto, não é apenas inventar novas políticas, mas construir o poder coletivo necessário para tornar a erradicação da pobreza uma escolha politicamente inevitável.