SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

O Uso da Inteligência dos Jovens pela Pedagogia do Crime e a Educação pelo Hip Hop.




A pedagogia do crime representa um dos fenômenos mais sombrios e complexos da contemporaneidade, configurando-se como um processo sistemático de aliciamento e cooptação de jovens em situação de vulnerabilidade, utilizando-se de "atos de enganação e falsa generosidade" para convertê-los em soldados do crime organizado. Este artigo propõe uma reflexão sobre como essa pedagogia informal e violenta instrumentaliza a inteligência e o potencial criativo dos jovens, enquanto explora as brechas deixadas pelo Estado e pela sociedade.


1. A Máquina de Produzir Criminosos

Estudos acadêmicos identificam a "pedagogia do crime" como um movimento que opera de forma estrutural, recrutando meninos pobres, majoritariamente negros, oriundos de famílias desestruturadas e com abandono escolar precoce, geralmente entre 8 e 18 anos. Essa pedagogia não se limita ao ensino de técnicas criminosas, mas envolve uma profunda doutrinação ideológica, na qual os jovens aprendem códigos de conduta, hierarquias rígidas e lealdade absoluta ao grupo.

Assim como o sistema histórico do tributo de sangue otomano convertia crianças cristãs em guerreiros leais ao sultão, a pedagogia do crime brasileira transforma jovens vulneráveis em "janízaros" modernos, cuja identidade original é substituída por uma nova, forjada na violência e na exclusão. Nesse processo, a inteligência dos jovens é direcionada não para a construção de um projeto de vida, mas para a perpetuação de um ciclo de opressão e morte.


2. A Ética do "Proceder" e a Dialética do Crime

No livro "Irmãos: uma história do PCC", Gabriel Feltran descreve como o Primeiro Comando da Capital se consolidou como uma organização que vai além do mero tráfico de drogas, constituindo uma verdadeira "sociedade secreta" com seu próprio código de conduta, denominado "proceder". Esse código, baseado em leis não escritas, honra e lealdade, é uma das manifestações mais claras de como a pedagogia do crime utiliza a inteligência dos jovens para criar um sistema normativo paralelo, que regula desde conflitos interpessoais até grandes operações criminosas.

É nesse contexto que o álbum "Sobrevivendo no inferno", dos Racionais MC's, se torna fundamental. As músicas do grupo, como aponta Feltran, dialogam diretamente com essa lógica do "proceder", estabelecendo uma "situação dialógica" que visa ao "ajustamento de conduta" a partir das leis não escritas da periferia. Ao mesmo tempo, o rap dos Racionais denuncia o racismo institucional, a violência policial e a desigualdade social que alimentam a máquina do crime, oferecendo uma narrativa contra-hegemônica que expõe as contradições do sistema.

No entanto, a mesma inteligência que decodifica essas mensagens pode ser cooptada pela pedagogia do crime. O jovem que aprende a interpretar as letras dos Racionais como um manual de sobrevivência nas periferias pode ser facilmente seduzido pela ideia de que o crime é a única saída possível.


3. A Falsa Generosidade e a Sedução pelo Poder

Em "Os meninos de Nápoles", Roberto Saviano narra a ascensão de uma gangue juvenil na violenta Nápoles, mostrando como jovens pobres são transformados em soldados da Camorra sob o impulso de um vazio cultural e do exibicionismo nas redes sociais. A tradução de Solange Pinheiro recria o linguajar próprio desses meninos, utilizando gírias e marcas de oralidade que revelam como a pedagogia do crime se apropria da linguagem e da cultura juvenil para construir identidades criminosas.

Esses jovens, como aponta Saviano, são atraídos pela falsa promessa de poder, status e pertencimento. A inteligência deles é utilizada para planejar assaltos, negociar drogas e eliminar rivais, mas também para criar uma estética de sucesso que é exibida nas redes sociais, alimentando o sonho de uma vida de ostentação e respeito.


4. O Contraponto da Pedagogia Hip-Hop

É nesse cenário de violência e exclusão que obras como "A pedagogia hip-hop: consciência, resistência e saberes em luta", de Cristiane Correia Dias, e "Hip-Hop Transdisciplinar", de Jorge Hilton, ganham relevância. Dias propõe uma pedagogia que utiliza os elementos da cultura hip-hop – Breaking, Graffiti, DJ e MC – como "disparadores de conhecimentos" para que os jovens (re)elaborem suas identidades e construam uma reflexão crítica sobre o racismo e as violências que recaem sobre o corpo negro.

Jorge Hilton, por sua vez, aborda o hip-hop como uma prática transdisciplinar que dialoga com o conhecimento científico, artístico, filosófico e espiritual, promovendo uma educação holística que vai além dos limites preconcebidos. Essa abordagem oferece uma alternativa concreta à pedagogia do crime, mostrando que a inteligência dos jovens pode ser utilizada para a resistência e a transformação social, e não para a autodestruição.


5. Conclusão: Educar para Resistir

A pedagogia do crime não é apenas um fenômeno de segurança pública, mas um desafio educacional e ético. Ao instrumentalizar a inteligência dos jovens, ela revela a falência de um sistema que exclui, discrimina e abandona. Diante disso, é urgente que a educação formal e não formal se inspire em propostas como as de Cristiane Correia Dias e Jorge Hilton, que veem no hip-hop uma ferramenta de resistência e emancipação.

Como nos ensina o Racionais MC's, "sobreviver no inferno" exige mais do que força bruta: exige consciência, crítica e, acima de tudo, uma pedagogia que devolva aos jovens o direito de sonhar e de construir um futuro fora das grades e das balas. A educação, nesse sentido, é a única resposta possível à pedagogia da morte.




A letra de Emicida ecoa diretamente o diagnóstico aqui traçado. Os versos, que expõem a brutalidade do conflito periférico — onde jovens ultrajam, brigam, e um quer se provar superior ao outro até terminar "com o corpo embaixo dos jornais" — não são mera crônica da violência. Eles são o registro sonoro da própria pedagogia do crime em ação. A inteligência que poderia construir é capturada pelo código do "proceder", pela lógica sanguinária do "olho por olho" e pelo cansaço da repetição histórica. A pergunta retórica do artista — "Em qual parte dessa história / Não era só nós que estava se matando?" — desnuda a armadilha: o sistema fá-los competir e se destruir entre si, enquanto as causas reais da opressão permanecem intocadas. Assim, "A Chapa É Quente" não apenas descreve o inferno, mas denuncia a maquinaria que o mantém aquecido, oferecendo uma pausa necessária para a reflexão e a resistência.


Referências

  • SAVIANO, Roberto. Os meninos de Nápoles. Tradução de Solange Pinheiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

  • FELTRAN, Gabriel. Irmãos: uma história do PCC. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

  • RACIONAIS MC's. Sobrevivendo no inferno. São Paulo: Cosa Nostra, 1997.

  • DIAS, Cristiane Correia. A pedagogia hip-hop: consciência, resistência e saberes em luta. Curitiba: Appris, 2019.

  • HILTON, Jorge. Hip-Hop Transdisciplinar: Pedagogia, Transdisciplinaridade, Interdisciplinaridade e Causos que Educam. Salvador: Editora independente, 2022.

  • SOUZA, Ricardo Belini Muffato de. PEDAGOGIA DO CRIME: narrativas de jovens oprimidos pela criminalidade. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal de São João del-Rei, 2020.

O quanto da nossa personalidade é definida no momento em que nascemos?

 

Manipulação digital de uma jovem mulher (dupla exposição em verde e rosa)

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Novas pesquisas mostram com mais clareza o papel dos genes na formação de quem somos
    • Author,Laurie Clarke
    • Role,BBC Future
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  • Tempo de leitura: 9 min

Em 2009, Abdelmalek Bayout foi condenado a nove anos de prisão em Trieste, na Itália, por esfaquear e matar um homem que havia zombado dele na rua. Na tentativa de reduzir a pena, seu advogado apresentou um argumento jurídico incomum.

Segundo a defesa, o DNA do cliente indicava a presença do "gene do guerreiro", uma mutação que, ao longo de décadas de pesquisa, foi associada a comportamentos agressivos. Com base nisso, a defesa argumentou que ele não poderia ser considerado totalmente responsável por seus atos. O recurso foi aceito: um ano foi retirado da pena total.

Desde a década de 1990, vêm se acumulando evidências de uma possível relação entre comportamento violento e uma variante de um gene chamado monoamina oxidase A (MAOA). Em 2004, esse gene ganhou um apelido mais atraente para a mídia: o já mencionado "gene do guerreiro".

Mas desde então o entendimento sobre como os genes influenciam características e comportamentos avançou de forma significativa. "No início, acreditava-se que os comportamentos eram determinados por poucos genes, com efeitos muito grandes", afirma Aysu Okbay, professora assistente de psiquiatria e genética de características complexas no Amsterdam UMC, na Holanda. "Essa ideia foi completamente refutada."

Em vez disso, ao longo dos últimos 15 anos, surgiu um quadro muito mais complexo. Até características consideradas bastante hereditárias, como a altura, se mostraram bem mais difíceis de isolar no genoma do que se supunha.

Agora, porém, novos métodos para estudos genéticos em larga escala começam a ampliar essa compreensão. Ao mostrar cada vez mais como nossos genes nos tornam, e não nos tornam, as pessoas que somos, essas abordagens ajudam a compreender melhor as forças extremamente complexas que moldam a natureza humana.

Uma questão antiga

Duas irmãs gêmeas afro-americanas sorrindo, na casa dos vinte anos, abraçando-se carinhosamente

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Gêmeos idênticos tendem a ser mais semelhantes do que gêmeos fraternos

Há muito tempo se discute até que ponto o temperamento e o rumo da vida de uma pessoa são definidos ao nascer. Ainda assim, a origem da "personalidade", o conjunto relativamente estável de pensamentos, emoções e atitudes que caracteriza um indivíduo, permanece difícil de determinar.

A formulação moderna do debate "natureza ou criação" foi popularizada pelo polímata inglês Francis Galton (1822–1911), também fundador da eugenia. Em 1875, ele ajudou a desenvolver métodos pioneiros para estudar características em gêmeos. Mas esses métodos eram rudimentares, e foi apenas na década de 1920 que cientistas passaram a comparar gêmeos idênticos, que compartilham 100% do DNA, com gêmeos fraternos, que compartilham cerca de 50%.

Desde então, os estudos com gêmeos se mantiveram centrais. Hoje, há consenso de que a personalidade pode ser descrita em cinco grandes dimensões: abertura a experiências, conscienciosidade, extroversão, amabilidade e neuroticismo, conhecidas como Big Five (cinco grandes, em inglês). Diversos estudos com gêmeos investigaram se essas dimensões têm base genética.

Uma meta-análise publicada em 2015, que reuniu mais de 2.500 estudos com gêmeos realizados entre 1958 e 2012, abrangendo quase 18 mil características humanas complexas, concluiu (como esperado) que gêmeos idênticos tendem a ser mais semelhantes do que gêmeos fraternos. Ainda assim, suas personalidades estão longe de ser idênticas.

Entre as 568 características relacionadas a temperamento ou personalidade, o estudo estimou que 47% das diferenças podem ser atribuídas a fatores genéticos. O restante, segundo os autores, decorre de influências ambientais. Outros trabalhos apontam na mesma direção: apenas cerca de 40% a 50% das diferenças de personalidade têm origem genética.

Os estudos com gêmeos sempre tiveram limitações e, em muitos casos, se baseiam em estimativas a partir das diferenças observadas entre gêmeos e outros membros da família. Mas, por volta de 2010, avanços significativos na genética passaram a abrir novas frentes de pesquisa para cientistas interessados em medir diferenças de personalidade.

O problema da herdabilidade ausente

Uma ilustração estilizada da dupla hélice do DNA

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Todos os seres humanos compartilham cerca de 99,9% do DNA. Isso significa que apenas 0,1% do genoma responde pelas diferenças entre as pessoas

O genoma humano é extremamente complexo: são 23 cromossomos, que juntos abrigam cerca de 20 mil genes. Esses genes, por sua vez, se organizam em aproximadamente 3 bilhões de "pares de bases" — a menor unidade do genoma — geralmente representados como pares de letras dispostas em uma sequência específica.

Todos os seres humanos compartilham cerca de 99,9% do DNA. Isso significa que apenas 0,1% do genoma responde pelas diferenças entre indivíduos. Embora isso reduza o campo de análise, ainda restam milhões de pares de bases a serem examinados. Mesmo com a queda de custos e a maior disponibilidade de dados genômicos a partir dos anos 2000, identificar a origem dessas diferenças se mostrou bem mais difícil do que se imaginava.

Nos últimos 15 anos, porém, houve uma expansão dos estudos de associação genômica ampla, método que analisa milhões de pontos do genoma que variam entre indivíduos e busca relacioná-los a características como traços de personalidade.

Nos primeiros anos, esses estudos tiveram dificuldade em identificar, de forma consistente, variantes de DNA associadas à personalidade. Hoje se entende uma das razões: características humanas são "poligênicas", ou seja, resultam da ação combinada de muitas variações genéticas, cada uma com efeito pequeno que se soma em todo o genoma. No caso de traços complexos, como a personalidade, esses efeitos podem estar distribuídos por milhares de variantes ao longo do DNA.

Mas, mesmo ao combinar diferentes variantes de DNA, os efeitos sobre a personalidade seguem menores do que se esperava. As estimativas atuais de herdabilidade para os Big Five traços variam entre 9% e 18% — bem abaixo dos cerca de 40% apontados por estudos com gêmeos. O que explica essa "herdabilidade ausente"?

Uma possibilidade é que, com o aumento do número de participantes e o aprimoramento do desenho dos estudos — à medida que avança o entendimento sobre a interação entre genes —, efeitos genéticos mais consistentes venham a ser identificados.

Por ora, porém, ao comparar as estimativas de herdabilidade obtidas em estudos com gêmeos e em estudos de associação genômica ampla, não está claro qual delas reflete melhor a realidade, afirma Okbay, da Amsterdam UMC. "Provavelmente, a resposta está em algum ponto entre as duas.

E quanto a nossa criação?

Mãe abraçando a sua filha no sofá de casa

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Pesquisas também mostram que fatores como a criação ou as interações sociais explicam apenas uma parcela das diferenças de personalidade

Se é possível que a influência da "natureza" seja menor do que se imaginava, pode parecer intuitivo atribuir um peso maior à "criação": isto é, às condições em que crescemos, às pessoas com quem convivemos e aos eventos que marcam nossa trajetória. Ainda assim, entender como esses fatores moldam a personalidade é igualmente complexo.

Embora estudos mostrem que a personalidade pode mudar ao longo do tempo, pode-se supor que ganhar na loteria ou perder uma perna desencadearia uma transformação. No entanto, eventos isolados de grande impacto têm influência mínima sobre quem somos.

Pesquisas também mostram, de forma consistente, que fatores como a criação ou as interações sociais explicam apenas uma parcela pequena das diferenças de personalidade. Mesmo eventos como casamento — que pode reduzir levemente a abertura — ou o nascimento de filhos — que pode diminuir marginalmente a extroversão —, quando considerados isoladamente, têm influência restrita sobre o que nos tornamos.

A exposição a certos tipos de trauma na infância tem sido associada a maior risco de transtornos mentais e a pior desempenho cognitivo na vida adulta, efeitos que podem se refletir em traços de personalidade, como níveis mais altos de neuroticismo. Já adversidades vividas na idade adulta parecem ter um impacto menos significativo.

"Essa foi a grande surpresa nessa área de pesquisa… que se um grande evento traumático acontece na vida adulta, ele não deixa uma marca tão profunda", afirma Brent Roberts, professor de psicologia da University of Illinois at Urbana-Champaign, nos Estados Unidos.

A ideia de que o sofrimento leva ao crescimento pessoal é recorrente na cultura popular. Mas, segundo Roberts, "o trauma não define quem você é".

E quanto ao primeiro ambiente que experimentamos, flutuando no líquido amniótico ainda no útero? Um número crescente de estudos sugerem que o estresse materno durante a gestação pode influenciar o temperamento do bebê, hipótese conhecida como "programação fetal".

Por exemplo, um estudo de 2022 observou que filhos de mães com maiores variações nos níveis de estresse apresentavam, aos três meses, mais sinais de medo, tristeza e desconforto. Ainda não há uma explicação definitiva para esse fenômeno, mas uma das hipóteses em análise envolve mecanismos epigenéticos — isto é, alterações na expressão dos genes, e não no DNA em si.

De modo geral, os pesquisadores concluem que, além de poligênicas, as diferenças de personalidade também são "poliambientais". Assim como múltiplas variações genéticas contribuem, em conjunto, para um traço, diferentes experiências ao longo da vida exercem efeitos pequenos que, somados, produzem um impacto mais amplo.

Os impactos genéticos e ambientais também interagem de formas que ainda não são totalmente compreendidas. Por exemplo, em alguns casos, o ambiente pode ativar ou desativar predisposições genéticas. "Ter uma predisposição genética não significa que, em todos os ambientes, a pessoa vá se comportar da mesma forma", afirma Jana Instinske, assistente de pesquisa no departamento de psicologia da Universidade Bielefeld, na Alemanha.

Um caminho

Cérebro

Crédito,Getty Images

Esses são problemas extremamente complexos, mas, ao menos no campo da genética, pesquisadores afirmam estar avançando com os estudos mais recentes de associação genômica ampla. A chave? Aumentar expressivamente o número de participantes, com pesquisas que já analisam, ao mesmo tempo, dados genéticos de centenas de milhares ou até milhões de pessoas.

"Só agora dispomos de um número suficiente de indivíduos e de amostras genéticas", afirma Okbay, da Amsterdam UMC. "Diante de tantos efeitos pequenos, é preciso trabalhar com amostras muito grandes para conseguir detectá-los."

Estudos realizados na última década identificaram centenas de variantes de DNA associadas a cada um dos traços do Big Five. "Grande parte do esforço hoje está em ampliar cada vez mais o número de [genomas] analisados, para identificar novos genes e avançar a partir do que já foi feito", diz Daniel Levey, professor assistente de psiquiatria da Universidade Yale, nos EUA.

Levey ressalta, porém, a necessidade de incluir mais pessoas com ancestralidade não europeia. "Há diferenças culturais importantes que deixam de ser captadas quando o foco recai quase exclusivamente sobre um único grupo", afirma.

Ainda estamos longe de compreender com precisão o que as inúmeras variações no código genético revelam sobre a formação da personalidade. Mesmo assim, alguns achados relevantes já começam a surgir.

estudo conduzido por Levey, por exemplo, indica que o gene CRHR1, relacionado à regulação da resposta do organismo ao estresse, está fortemente associado ao neuroticismo em tecidos do sistema nervoso. Esse gene já havia sido ligado a transtornos psiquiátricos como depressão, ansiedade e transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), todos também associados a níveis mais altos de neuroticismo. Os achados sugerem que esse traço de personalidade está ligado à forma como o corpo reage ao estresse.

Outro estudo aguardado, ainda em processo de revisão por pares, apresenta evidências em favor de teorias que situam a base da personalidade no córtex pré-frontal — região do cérebro responsável por funções complexas, como planejamento e tomada de decisões. Segundo o trabalho, associações com todos os traços do Big Five (com exceção da amabilidade) são mais frequentes em genes expressos nessa área do cérebro. Um dado relevante é que neurônios dopaminérgicos não figuram entre os tipos mais associados, o que pode desafiar teorias neurobiológicas que atribuem à dopamina um papel central na extroversão e na abertura a experiências.

Mesmo em áreas bastante estudadas da genética do comportamento, como a relação entre violência e o chamado "gene guerreiro", ainda há muitas incertezas.

Pesquisas indicam que, em alguns grupos de homens, a presença de determinadas variantes genéticas, combinada a fatores ambientais de risco — como histórico de abuso na infância —, pode aumentar a probabilidade de comportamento violento em certos contextos. Os resultados, no entanto, estão longe de ser conclusivos.

Até agora, tentativas de explicar o comportamento humano a partir de um pequeno conjunto de genes ou de eventos isolados não tiveram êxito. A evidência acumulada aponta para um quadro bem mais complexo.

O que se destaca, sobretudo, é a capacidade de mudança do comportamento humano, afirma Jana Instinske. "Ter uma predisposição genética não significa que a pessoa vá se comportar da mesma forma ao longo de toda a vida."

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A vacina inédita desenvolvida por inteligência artificial

 

Um ambiente de laboratório com uma pessoa com um jaleco branco trabalhando em uma bancada. A pessoa usa luvas de proteção e máscara facial enquanto usa cuidadosamente uma pipeta para transferir o líquido para um pequeno tubo de ensaio. Várias prateleiras de tubos de ensaio com líquidos coloridos estão dispostas ordenadamente na superfície de trabalho em primeiro plano. Equipamentos científicos e prateleiras são visíveis ao fundo, sugerindo um espaço de trabalho limpo e organizado

Crédito,Getty Images

    • Author,James Gallagher
    • Role,Repórter de Saúde da BBC News
  • Published
  • Tempo de leitura: 6 min

Inteligência artificial foi usada para desenvolver um tipo de vacina "fundamentalmente novo" que poderia proteger contra amplas variedades de vírus e prevenir pandemias, dizem os pesquisadores.

A equipe da Universidade de Cambridge afirma que é a primeira vez que um componente-chave de uma vacina foi totalmente projetado por IA e depois testado em pessoas.

A vacina foi concebida para funcionar contra todos os coronavírus, o que incluiria todas as variantes da Covid e vírus que infectam animais, mas que poderiam dar origem a uma próxima pandemia.

O trabalho ainda está em estágios iniciais, mas a equipe já está desenvolvendo outras vacinas que poderiam combater a gripe e o Ebola.

Vacinas ensinam o nosso corpo a identificar uma infecção para aumentar as nossas chances de combatê-la.

Mas alguns vírus são eficazes em mudar sua aparência — ou sofrer mutações — de modo que as vacinas podem rapidamente se tornar desatualizadas. É por isso que as vacinas contra Covid e gripe sazonal precisam ser atualizadas regularmente.

"Estamos sempre correndo atrás", disse o professor Jonathan Heeney, da Universidade de Cambridge, acrescentando que "o que estamos tentando fazer é nos antecipar" e avançar o suficiente para proteger contra novos surtos ou pandemias.

A imagem mostra um ambiente de saúde em que um profissional médico está administrando uma injeção na parte superior do braço de outra pessoa. O profissional médico está vestindo um uniforme azul, uma máscara facial e segurando uma seringa com cuidado enquanto prepara ou administra a injeção. O indivíduo sentado tem a manga levemente puxada para cima para expor a parte superior do braço à injeção. O fundo parece levemente desfocado, com outras pessoas e elementos sugerindo uma clínica movimentada ou um local de vacinação.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,As vacinas desempenharam um papel crucial na pandemia, mas precisavam ser projetadas do zero e atualizadas à medida que o vírus sofre mutação

Como funciona a vacina?

Normalmente, as vacinas são projetadas usando uma cepa atual de um vírus.

Os pesquisadores de Cambridge utilizaram códigos genéticos conhecidos de uma variedade de coronavírus que haviam sido registrados por programas de vigilância que buscam possíveis ameaças virais.

Esses códigos genéticos foram analisados por inteligência artificial. Em seguida, ela projetou um "superantígeno" que poderia treinar o sistema imunológico de forma a oferecer proteção contra toda a família de vírus — mesmo que sofram mutação ou que uma nova infecção passe de animais para humanos.

Antígenos são os componentes críticos das vacinas, pois é isso que o sistema imunológico aprende a atacar.

Heeney disse à BBC News que esta foi a primeira vez que um antígeno projetado por IA foi testado em pessoas. Ele afirmou que a tecnologia está "surpreendendo a todos nós" e que é "impressionante o que podemos fazer com ela para o bem da humanidade".

"Isso significa produzir vacinas que nos protejam, não apenas dos vírus de hoje, mas também daquilo que pode causar o próximo surto ou doença. Isso representa uma mudança fundamental na forma como nos preparamos para pandemias."

A imagem mostra vários morcegos pendurados de cabeça para baixo no teto áspero e texturizado de uma caverna. Os morcegos estão agrupados juntos, com as asas dobradas firmemente ao redor do corpo enquanto descansam. A superfície rochosa acima deles parece irregular e natural, com tons terrosos de marrom e castanho. A iluminação suave e difusa destaca os detalhes das asas e do pelo dos morcegos, deixando partes do fundo na sombra. A cena geral transmite um ambiente tranquilo e protegido, típico de um habitat de caverna.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Os morcegos são uma fonte de coronavírus

Os ensaios, com 39 pessoas, foram concebidos para avaliar se essas vacinas são seguras. Um segundo estudo — envolvendo cerca de 200 pessoas — proporcionará uma melhor compreensão de quão eficaz é o treinamento do sistema imunológico.

Os resultados detalhados na revista científica Journal of Infection afirmam que o impacto no sistema imunológico foi "modesto", mas ainda assim estão gerando entusiasmo.

O professor Saul Faust, que conduziu parte dos ensaios na Universidade de Southampton, disse que o projeto com IA "definitivamente tem potencial" e é "muito empolgante".

Ele disse à BBC: "O que é realmente interessante é que a tecnologia é muito melhor em projetar vacinas para potenciais pandemias quando os vírus estão em mutação."

A equipe de Cambridge já está realizando pesquisas em animais sobre vacinas universais contra a gripe sazonal que não precisariam ser adaptadas todos os anos, além de uma vacina contra a gripe aviária H5N1, caso o vírus que atualmente está devastando populações de aves se torne uma pandemia humana.

Eles também estão estudando uma vacina para febres hemorrágicas virais, que incluiria espécies de Ebola. O atual surto na República Democrática do Congo está sendo causado por uma espécie para a qual ainda não há uma vacina desenvolvida.

O professor Andy Pollard, diretor do Oxford Vaccine Group, não esteve envolvido no estudo, mas afirmou que essa abordagem está gerando evidências convincentes em pesquisas com animais.

"São dados fascinantes e as pessoas não imaginavam que seria possível gerar essas respostas imunológicas", disse ele à BBC News.

O verdadeiro teste, segundo ele, é o que acontece nos ensaios em humanos, já que nossos sistemas imunológicos são diferentes dos de camundongos de laboratório, pois foram moldados por anos de infecções.

De forma mais ampla, ele afirmou que a inteligência artificial será um "divisor de águas" para a pesquisa de vacinas e que as ferramentas de IA têm o potencial de prever como o sistema imunológico responderá a uma vacina, tornando o desenvolvimento muito mais rápido e "salvando vidas".

A professora Marian Knight, diretora científica do National Institute for Health and Care Research, disse: "O notável sucesso deste ensaio com 'superantígeno' projetado por IA marca um avanço crucial na nossa capacidade de fornecer proteção viral ampla e duradoura."

O ministro da Ciência, Patrick Vallance, afirmou: "Outra história de sucesso da ciência britânica — este é um excelente exemplo de como podemos reunir nossa expertise em pesquisa com a IA para desenvolver novos tratamentos."

"Com os primeiros ensaios em humanos mostrando resultados positivos, esse trabalho pode ajudar a acelerar a implementação de vacinas para beneficiar pessoas em todo o mundo no longo prazo."