SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Câmara aprova fim da 6x1: o balconista de farmácia que semeou no TikTok a maior redução de jornada de trabalho desde 1988

 

Rick Azevedo sorrindo e olhando para a câmera em uma escadaria imponente na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro
Legenda da foto,Vídeo em que Rick Azevedo denunciava a exaustão da escala 6x1 saiu do TikTok e virou pauta política nacional
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    • Role,Da BBC News Brasil em São Paulo
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"Quando é que nós, da classe trabalhadora, iremos fazer uma revolução nesse país relacionada à escala 6x1? Gente, é uma escravidão moderna. Moderna, não. Ultrapassada."

Quando publicou este desabafo em suas redes sociais, o então balconista Rick Azevedo não imaginava que ele seria o pontapé de uma nova discussão nacional sobre a redução da jornada de trabalho no país.

Nesta quarta-feira (27/5), a Câmara dos Deputados aprovou, por 461 votos a favor e apenas 19 contra, o projeto que reduz a jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas e substitui o modelo 6x1 por cinco dias de trabalho e dois de descanso remunerado.

No vídeo publicado no TikTok em setembro de 2023, Azevedo, que trabalhava em farmácia no Rio, se mostrava indignado com a falta de tempo para lazer, família e estudos por conta das 44 horas semanais de expediente, com apenas uma folga semanal.

"Eu, que não tenho filho, que não tenho nada, que sou sozinho… Não dá para fazer as coisas. Imagina quem tem filho, quem tem marido, quem tem casa para cuidar", dizia para a câmera.

"A pessoa tem que se doar para a empresa seis dias na semana e ter só um dia para folgar. Isso para ganhar salário mínimo. Gente, não dá."

O vídeo viralizou. Com o interesse crescendo por conta do desabafo, o jovem nascido em Dianópolis, no Tocantins, começou a fazer mais publicações sobre o tema nas redes sociais.

Uma petição por mudanças na escala ultrapassou 3 milhões de assinaturas. Depois, junto com outros trabalhadores, ele fundou o Movimento Vida Além do Trabalho (VAT).

Um ano depois da publicação do desabafo, aos 30 anos, Azevedo foi eleito como o vereador mais votado do PSOL do Rio de Janeiro, com mais de 29 mil votos.

"Quando eu comecei lá atrás, como um balconista de farmácia que só queria desabafar, nos primeiros momentos, achei que realmente não iria avançar a ponto de a gente chegar até aqui", disse em entrevista à BBC News Brasil em fevereiro deste ano.

Da internet ao plenário

A pauta rapidamente chamou a atenção de partidos e movimentos sociais de esquerda, que já vinham tentando atualizar o tradicional discurso sindical com a discussão em torno dos direitos trabalhistas de entregadores e motoristas de aplicativo.

Em Brasília, a pauta ganhou tração quando Erika Hilton decidiu transformá-la em proposta legislativa. Em novembro de 2024, a deputada federal do PSOL-SP assumiu a articulação política do tema e apresentou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) inspirada nas reivindicações do movimento VAT.

O texto inicial era mais ambicioso do que a proposta aprovada agora: previa uma jornada semanal de 36 horas, sem redução salarial, abrindo espaço para um modelo de quatro dias de trabalho.

Em poucas semanas, a proposta superou o número mínimo de assinaturas necessárias para tramitar — incluindo apoios de parlamentares de centro e da direita. "Essa não é uma discussão de campo ideológico, mas de país", afirmou a deputada à época.

A deputada Erika Hilton e o vereador Rick Azevedo

Crédito,Divulgação PSOL

Legenda da foto,O vereador Rick Azevedo e a deputada Erika Hilton, principal articuladora da proposta na Câmara

Com grande apelo popular, a proposta sofreu forte oposição do empresariado, especialmente do comércio e serviços.

O setor argumenta que a proposta pode ser prejudicial à economia do país sem investimentos anteriores em educação e aumento da produtividade da economia brasileira, além de aumentar custos trabalhistas e exigir mais contratações.

Em novembro de 2024, por exemplo, o CEO da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) afirmou à BBC News Brasil que a proposta de Erika Hilton no Congresso havia pego o empresariado de surpresa.

O executivo Sérgio Mena disse que a proposta tinha caráter "populista" e inviabilizaria negócios do setor. "É um problema bem sério para o varejo e eu não sei como fechar essa conta."

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) calcula uma perda de R$ 76 bilhões no PIB brasileiro (-0,7%) com a redução da jornada das atuais 44 para 40 horas. No caso da indústria, o PIB cairia 1,2%.

Já a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), que reúne empresários desses setores, afirma que a redução da jornada aumentaria os custos sobre a folha salarial em 21%.

A estimativa da CNC diz que o repasse de preços ao consumidor poderia chegar a 13%. Já a CNI aponta para altas nos preços de 6,2%, em média.

Já Rick Azevedo afirma que o empresariado quer "causar pânico".

"Se eu estivesse falando para você aqui agora, 'vamos acabar com a escravidão no país', os economistas de hoje iriam falar a mesma coisa: que o país não tem estrutura para acabar com a escravidão, que o país ia quebrar", disse na entrevista à BBC News Brasil.

"O 13º [salário], a mesma coisa. Férias remuneradas, a mesma coisa. Licença-maternidade também. Direitos para empregadas domésticas? 'Não podemos. O país vai quebrar'."

Governo Lula: da cautela à campanha eleitoral

Apesar da popularidade da pauta, o governo Lula inicialmente evitou assumir protagonismo. Rick Azevedo chegou a criticar publicamente a falta de apoio mais enfático do Planalto e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), argumentando que o governo "perdia tempo" ao não liderar a discussão.

"O governo já deveria ter se posicionado de forma incisiva", disse em entrevista ao UOL em março de 2025.

A cautela do petista em relação ao tema era porque ainda não havia dialogado com o empresariado sobre o assunto.

Mas a virada no discurso do governo aconteceu em 2025. No 1º de Maio daquele ano, o petista sinalizou pela primeira vez apoio político à pauta.

"Nós vamos aprofundar o debate sobre a redução da jornada de trabalho vigente no país, em que o trabalhador e a trabalhadora passam seis dias no serviço e têm apenas um dia de descanso", disse em pronunciamento na TV.

"Está na hora do Brasil dar esse passo."

Luiz Inácio Lula da Silva durante reunião com centrais sindicais, usando boné vermelho escrito "pelo fim da escala 6x1" em branco

Crédito,Ricardo Stuckert/PR

Legenda da foto,Lula acenou apoio político à proposta no Dia do Trabalhador, em maio de 2025

Em abril deste ano, Lula encaminhou ao Congresso Nacional um projeto de lei com a proposta. O governo passou a defender uma versão mais moderada do projeto: jornada semanal reduzida de 44 para 40 horas, garantia de dois dias de descanso (modelo 5x2), proibição de redução salarial e transição gradual para empresas.

A pauta, inclusive, se tornou elemento central da pré-campanha de Lula para recuperar terreno nas pesquisas de intenção de voto — o seu principal adversário no pleito eleitoral, o pré-candidato e senador Flávio Bolsonaro (PL), chegou a ultrapassá-lo em algumas pesquisas.

Atualmente, a estimativa de intenção de voto para o presidente Lula é de 40% no primeiro turno, contra 33% para Flávio Bolsonaro, segundo o Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil. Veja aqui as estimativas completas.

Geraldo Alckmin, Lula e Rick Azevedo

Crédito,Ricardo Stuckert/PR

Legenda da foto,A proposta do fim da escala 6x1 se tornou bandeira eleitoral de Lula

Em maio, a gestão do petista reforçou a campanha. Sob o slogan "mais tempo para viver. Sem perder salário. Porque tempo não é um benefício. É um direito", o governo federal lançou campanha publicitária em televisão, rádio, jornais, plataformas digitais e até na imprensa internacional.

O jornal britânico Financial Times publicou que "o ex-sindicalista Lula" estaria buscando "se reconectar com sua base trabalhadora" com a proposta.

A proposta enfrentou resistência no Congresso. A oposição prometeu obstruir a proposta e chegou a defender uma transição de dez anos para a mudança, apresentando uma emenda à PEC. A proposta foi assinada por 176 deputados, principalmente do PL, MDB, PP, PSD, Republicanos e União Brasil.

No entanto, a bancada do PL deu uma guinada em sua estratégia na véspera da votação, em meio ao forte apelo eleitoral da proposta.

"Essa lei, uma vez promulgada, tem que valer imediatamente. Por que protelar dois meses para começar devagar? Isso é hipocrisia com o trabalhador", disse o líder do PL, o deputado Sóstesnes Cavalcante (PL-RJ).

Lula conseguiu aprovar o fim da escala de trabalho 6x1 com um período curto de transição, 60 dias depois da promulgação da alteração constitucional, o que pode trazer impactos para o trabalhador ainda neste ano eleitoral.

O compromisso para uma transição rápida foi uma vitória do Palácio do Planalto, que espera colher dividendos eleitorais com o fim da escala 6x1.

Agora a PEC será avaliada pelo Senado, onde não está claro se avançará com a mesma facilidade. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), não manifestou compromisso em aprovar a mudança, como fez Motta.

Para uma proposta de emenda à Constituição entrar em vigor, deve ser aprovada com texto idêntico nas duas casas. Qualquer mudança no Senado, portanto, retornaria à proposta à Câmara.

O governo aposta no apelo popular da proposta para pressionar os senadores — dois terços das vagas do Senado estarão em disputa em outubro.

Com reportagem de Mariana Schreiber

'Copa não é convite para explorar nossos moradores': o que procuradora de NY alega para pedir investigação sobre preço de ingressos da Fifa

 

Troféu da Copa do Mundo FIFA 2026 em exibição durante a turnê oficial por cidade-sede

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Os procuradores-gerais de Nova York e Nova Jersey estão em desacordo com a Fifa sobre preços de ingressos e custos de transporte.
    • Author,Dale Johnson
    • Role,Da BBC Sport
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A Fifa precisará responder a questionamentos de autoridades americanas após ser acusada de "inflar artificialmente os preços" e de "enganar os torcedores" na venda de ingressos para a Copa do Mundo de 2026, que começa no próximo mês.

Procuradores-gerais de Nova York e Nova Jersey iniciaram oficialmente uma investigação sobre as práticas da Fifa.

A procuradora-geral de Nova Jersey, Jennifer Davenport, classificou o processo de compra de ingressos como um "monte de confusão, escassez artificial e preços extremamente elevados".

Ela acrescentou que haverá uma "investigação minuciosa sobre a conduta da Fifa" e que a entidade máxima do futebol mundial será intimada a fornecer informações. No sistema jurídico americano, uma intimação obriga uma parte a liberar documentos ou informações internas específicas.

Davenport fez o anúncio conjunto ao lado da procuradora-geral de Nova York, Letitia James, e do Departamento de Proteção ao Consumidor e ao Trabalhador da Cidade de Nova York (DCWP, na sigla em inglês).

O comissário do DCWP, Samuel AA Levine, disse que o órgão levará "muito a sério as alegações de conduta flagrantemente enganosa" e investigará acusações de "inflação artificial dos preços".

Em particular, a Fifa foi solicitada a explicar por que os ingressos "excederam os preços de qualquer edição anterior da Copa do Mundo".

Torcedores relataram ter sido "enganados" sobre a localização dos assentos com a criação de categorias de ingressos 'front' mais caros, lançados após a venda inicial. Também se alega que a precificação variável ao longo de várias fases permitiu à Fifa aumentar os preços de cerca de 90 das 104 partidas, com aumento médio de 34%.

A investigação analisará como o cronograma de venda de ingressos e declarações públicas podem ter impactado os preços.

A Fifa se recusou a comentar.

'Não é um convite para explorar moradores e visitantes'

A Fifa tem frequentemente destacado a demanda por ingressos, com o presidente da entidade, Gianni Infantino, defendendo o custo ao dizer que eles refletem o apetite "totalmente louco" do público pelo torneio de verão.

Mas, até quarta-feira, havia ingressos disponíveis para 86 das 104 partidas e para todas, exceto 10, da fase de grupos.

Os procuradores-gerais destacaram, em particular, o custo dos ingressos para oito partidas, incluindo a final, no MetLife Stadium, em Nova Jersey.

"Ser honesto sobre a venda de ingressos não é complicado", disse Davenport. "É uma honra sediar a Copa do Mundo, mas o evento não é um convite para explorar nossos moradores e visitantes."

James afirmou que os residentes locais "merecem uma chance justa de adquirir ingressos acessíveis".

"Ninguém deve ser manipulado a pagar preços exorbitantes por assentos, e os torcedores devem poder confiar que os ingressos que compram serão os que receberão", acrescentou James.

Levine disse que os torcedores devem esperar "transparência e justiça" ao comprar ingressos para a Copa do Mundo.

"Relatos de conduta da Fifa em violação à lei de proteção ao consumidor da cidade, incluindo enganar torcedores sobre a localização dos assentos e inflar artificialmente os preços, são profundamente preocupantes", afirmou Levine.

A investigação ocorre depois que o procurador-geral da Califórnia, Rob Bonta, enviou uma carta à Fifa no início deste mês levantando preocupações sobre "práticas de venda de ingressos potencialmente enganosas".

Organizadores locais têm estado em desacordo com a Fifa nos últimos meses devido aos altos custos.

A governadora de Nova Jersey, Mikie Sherrill, já havia criticado anteriormente a recusa da Fifa em subsidiar o transporte durante o evento e insistiu que os contribuintes locais não pagariam essa conta.

Após anunciar inicialmente que uma passagem de trem custaria US$ 150 (R$ 758), no início deste mês a empresa de transporte público NJ Transit voltou atrás e reduziu a tarifa para US$ 98 (R$ 495).

As viagens de trem da Penn Station, em Manhattan, até o local — uma distância de cerca de 29km — custam normalmente US$12,90 (R$ 65) para uma tarifa de ida e volta.

A Fifa foi procurada para comentar.

Por que o dono da Ford criou a escala de trabalho 5x2 há 100 anos — e como isso impactou o mundo

 

A imagem em preto e branco mostra trabalhadores em uma linha de montagem industrial dentro de uma fábrica. Homens usando bonés, aventais e roupas de trabalho manipulam peças metálicas alinhadas sobre uma esteira comprida, enquanto outros operários aparecem ao fundo em diferentes etapas da produção. O ambiente é amplo, com máquinas, ferramentas e estruturas industriais visíveis ao redor.

Crédito,Domínio Público/Autor desconhecido/Wikimedia Commons

Legenda da foto,Linha de montagem da Ford, em fotografia de 1913
    • Author,Edison Veiga
    • Role,De Bled (Eslovênia) para BBC News Brasil
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"O país está pronto para a semana de cinco dias [de trabalho]. Seguramente é algo que deve se espalhar por toda a indústria. […] Já é hora de nos livrarmos da ideia de que é 'tempo perdido' o lazer dos trabalhadores, ou um privilégio de classe."

Essas palavras fizeram parte de um discurso há cem anos, no 1º de maio de 1926. Não foram proferidas por um operário, um líder sindical, um militante socialista ou um político trabalhista.

O pronunciamento foi feito por um dos maiores magnatas da história da humanidade, o engenheiro mecânico e empresário Henry Ford (1863-1947), fundador da Ford Motor Company, considerado um pioneiro no formato industrial conhecido como linha de montagem em série.

A partir daquela data, a jornada 5x2 se tornaria praxe em todo o seu gigantesco parque fabril — com 40 horas de trabalho por semana.

A ideia de aumentar o fim de semana do trabalhador superava, a favor do proletariado, o que havia sido determinado em 1919 pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) — e havia se tornado padrão internacional por convenção: o teto praticado era de 48 horas semanais.

A decisão não foi tomada de uma hora para outra. A Ford já vinha testando em alguns departamentos o novo formato. Em artigo publicado no jornal The New York Times em março de 1922, o filho de Henry Ford, Edsel Bryant Ford (1893-1943), que presidia a empresa desde 1919, escreveu que "toda pessoa precisa de mais de um dia por semana para descanso e recreação".

No texto, argumentava que "a Ford sempre buscou promover uma vida doméstica ideal para seus empregados" e disse acreditar que "para viver de forma apropriada, todo ser humano deveria dispor de mais tempo para passar com sua família".

A imagem em preto e branco mostra um homem usando terno, colete, gravata e camisa de colarinho alto posando para um retrato formal. Ele tem cabelos claros e ondulados, penteados para trás, e olha diretamente para a câmera com expressão séria. O fundo escuro e desfocado destaca o rosto e a roupa do retratado.

Crédito,Ford Motor Company, Photographic Department , The Henry Ford Collections/Domínio público/Wikimedia Commons

Legenda da foto,Henry Ford é tido como 'pai' da linha de montagem em série

Após ser adotado voluntariamente pela Ford, o sistema se expandiu. Nos Estados Unidos, a jornada de trabalho semanal foi reduzida por lei em 1938 — limitada a 44 horas semanais. Em 1940, o teto cairia para as 40 horas semanais idealizadas por Ford 14 anos antes.

Principalmente depois da Segunda Guerra Mundial, o sistema fordista de organização de trabalho fabril se espalhou pelo mundo.

"O modelo americano de industrialização e economia nacional foi multiplicado nas sociedades que tomaram parte da reconstrução da economia mundial, a partir de 1945, como o Japão e a China", explica o historiador Paulo Henrique Martinez, professor na Universidade Estadual Paulista (Unesp).

O advogado trabalhista Pedro Maciel entende a adesão ao sistema por causa do sucesso obtido.

"O modelo começou a demonstrar uma vantagem econômica para as empresas, o que acabou por disseminar essa forma de jornada", diz. A concorrência acabou convencida de que menos horas trabalhadas "não significavam menos dinheiro".

"Até os anos 1960, a formação de administradores e o adestramento de trabalhadores foram ações conjugadas, engatando patrões e empregados no compromisso pelo sucesso da empresa através da produção e da produtividade do trabalho", contextualiza o historiador. "Criou-se mesmo uma ilusão perversa, a de que um não existiria sem o outro."

Vêm daí, relata Martinez, ideias como a de que o empregado precisa "vestir a camisa da empresa". Era a celebração de uma "paz social", ressalta o historiador, vendida por Henry Ford — um estratagema eficaz na contenção das insatisfações proletárias.

Se regulamentar o descanso se tornou uma necessidade sobretudo com o advento do capitalismo industrial e as jornadas cada vez mais desgastantes, é fato que o fim de semana de dois dias representou a quebra de um paradigma que vinha desde a antiguidade.

Um exemplo importante disso está no livro sagrado que está na base do mundo judaico-cristão.

Na concepção do mundo contada no Gênesis, o primeiro livro da BíbliaDeus descansou no sétimo dia — depois de seis jornadas consecutivas de trabalho na obra da criação.

O relato não deixa de ser um registro de como os antigos lidavam com organização entre trabalho e descanso.

Mesmo antes de Ford, no entanto, houve casos pontuais de mudança. Professor de direito do trabalho na Universidade Presbiteriana Mackenzie, o advogado Claudinor Roberto Barbiero cita, por exemplo, uma fábrica têxtil dos Estados Unidos que havia instituído em 1908 a semana de cinco dias com o objetivo de acomodar trabalhadores judeus que guardavam o sábado.

"A Ford deu escala e prestígio industrial ao modelo", enfatiza ele. "A prática deixou de parecer apenas uma concessão social e passou a ser vista como possível estratégia de gestão."

Tempo e dinheiro

Henry Ford entendia que o progresso, ao mesmo tempo que poderia aumentar os ganhos do empresariado e a eficiência da produção, também deveria resultar em benefícios trabalhistas.

Àquela altura, ele já havia criado um programa de bônus por produtividade aos seus trabalhadores e, em 1914, criado certa polêmica entre outros industriais por decidir dobrar o piso salarial dos seus empregados.

O empresário argumentava que a própria linha de montagem possibilitava isso. Ao ser adotada na produção do modelo Ford T em 1913, o tempo necessário para um carro ficar pronto havia caído de 12 horas para pouco mais de 1h30.

Ford entendeu que os operários também deveriam ser recompensados de alguma forma por esse gigantesco salto de eficiência.

"Foi o crescimento das grandes corporações, com sua habilidade de usar o poder, o maquinário de ponta e, de forma geral, reduzir os desperdícios de tempo, material e energia humana que permitiu implementar a jornada de 8 horas diárias", reconheceu ele, no mesmo discurso de 1926.

"Nessa mesma linha, novos progressos tornam possível instituirmos também a semana de cinco dias."

Evidentemente, Ford respondia a uma demanda presente em sua época. Em artigo acadêmico publicado em junho de 1990 em The Journal of Economic History, o economista e historiador Robert Whaples, então professor na Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, ressalta que, antes da Segunda Guerra, as lutas dos trabalhadores por menos horas de trabalho eram mais intensas do que as reivindicações por melhores salários.

Não é que o empresário fosse "bonzinho". "A motivação de Henry Ford não foi apenas humanitária", diz o professor.

Ele sabia o que estava fazendo — e como sua medida resultaria em melhores ganhos. Martinez analisa a decisão de Ford como consequência de "duas balizas" que regiam suas ações empresariais. Em primeiro lugar "a organização metódica do trabalho".

A imagem em preto e branco mostra uma linha de produção industrial dentro de uma fábrica ampla, com operários trabalhando em diferentes máquinas e equipamentos metálicos. Em primeiro plano, peças mecânicas alinhadas sobre uma esteira passam por processos de usinagem enquanto trabalhadores operam painéis de controle e acompanham a produção. O ambiente é iluminado por estruturas industriais no teto e tem aparência de registro histórico de uma fábrica automotiva ou metalúrgica.

Crédito,Arquivo Nacional

Legenda da foto,Setor de produção de motores de indústria automobilística no Brasil, sem data identificada

Ford era um expoente das "teorias científicas de administração e de gerenciamento da produção", contextualiza o historiador, "desde os espaços da fábrica, passando pela disciplina de horários, turnos e demais atividades e intervalos de descanso, até a divisão de tarefas entre equipes e indivíduos, do fiscal ao operador manual".

Na sua visão de negócios, para a indústria funcionar, tudo deveria seguir o roteiro.

O segundo ponto era justamente que a divisão "programada e organizada do trabalho completava-se na dimensão do consumo dos bens industrializados", ressalta Martinez. Isso alimentava "um mercado de consumo de massas, para uma produção massiva realizada por grandes contingentes de trabalhadores".

"Melhores salários e tempo livre completavam a fórmula para induzir e generalizar hábitos de consumo, expandindo assim a produção industrial", comenta o historiador. No fim do mês, a conta fechava — com lucros maiores.

"O próprio argumento empresarial era que a empresa poderia produzir tanto ou mais em cinco dias do que em seis, porque a redução da jornada forçaria melhores métodos, maior concentração e mais eficiência por hora trabalhada", diz Barbiero. Na lógica fordista, era possível ao menos tanta produção em cinco dias quanto em seis. "E provavelmente mais, porque 'a pressão traria melhores métodos'", explica o professor.

"Ford implantou uma equação bem-sucedida", analisa Martinez. "Buscava assegurar a disciplina e a regularidade do trabalho na fábrica, obtendo melhores resultados produtivos e econômicos, de um lado. E, de outro, estimulando hábitos e condições de consumo."

Isso vinha com salários melhores e jornadas de trabalho menores. "A satisfação financeira e o acesso ao mercado de consumo pela massa operária trariam a paz social, ancorada no ciclo ininterrupto entre trabalho, produção e consumo", conclui o professor da Unesp.

"Ford entendia que o trabalhador com tempo livre se tornaria também consumidor. Mais lazer significava mais passeios, viagenscompras e, no limite, mais uso e compra de automóveis", comenta Barbiero.

A imagem em preto e branco mostra o interior de uma fábrica com diversos operários trabalhando ao redor de grandes máquinas industriais. Os trabalhadores usam macacões claros e manipulam peças metálicas espalhadas pelo chão e sobre bancadas, enquanto equipamentos de grande porte ocupam quase todo o espaço do galpão.

Crédito,Arquivo Nacional

Legenda da foto,Funcionários trabalhando em fábrica de motores em São Bernardo do Campo, em março de 1958

No Brasil

Brasil começou a resolver, ao menos na legislação, o problema das jornadas desumanas de trabalho apenas nos anos 1930. Dois decretos, um de março, outro de maio de 1932, limitaram a jornada em oito horas diárias de trabalho e seis dias por semana.

Era plataforma política do então presidente Getúlio Vargas (1882-1954). "[Governo este] com a construção de uma agenda trabalhista estatal, urbanização, industrialização e tentativa de organização das relações entre capital e trabalho", destaca Barbiero.

Em 1943, a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) reforçou os limites da jornada. Seis anos depois, uma outra lei passou a garantir o descanso semanal remunerado.

Para o advogado trabalhista Alessandro Vietri, pós-graduado na área pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o aumento do direito ao descanso do trabalhador brasileiro foi "gradual e tardio", se comparado ao que ocorreu nos Estados Unidos.

Durante os debates da assembleia que criou a Constituição de 1988, que atualmente vigora no Brasil, havia propostas para que a jornada limite no país fosse de 40 horas semanais.

"A reação das bancadas de deputados e senadores alinhadas aos interesses empresariais, financeiros e comerciais, resistiram e o texto constitucional consagrou a jornada de 44 horas", afirma o historiador Martinez.

"Foi buscada uma compensação para esse acréscimo de horas, como a maior remuneração de horas-extras, o trabalho noturno, atividades de riscos, e assegurar outros direitos aos empregados."

"O fim de semana de dois dias 'pegou' no Brasil principalmente após a Constituição de 1988, mas não de forma universal", aponta Barbiero.

"A redução de 48 para 44 horas abriu espaço para a compensação do sábado em muitas empresas: em vez de trabalhar 8 horas de segunda a sexta e 4 horas no sábado, muitos empregadores passaram a distribuir as 44 horas em cinco dias, normalmente com jornadas próximas de 8h48 por dia."

"Em outros casos, especialmente em áreas administrativas, tecnologia, indústria mais estruturada e empresas com políticas internas mais competitivas, adotou-se a jornada de 40 horas semanais, com oito horas por dia, de segunda a sexta-feira", explica o advogado.

A imagem em preto e branco mostra duas pessoas sentadas em um veículo antigo de quatro rodas finas e estrutura simples, semelhante aos primeiros automóveis. O homem conduz o veículo enquanto a mulher está sentada ao lado dele, ambos usando roupas pesadas e chapéus típicos do início do século 20. Ao fundo, aparecem árvores sem folhas e uma construção com telhado inclinado em uma paisagem de inverno.

Crédito,Domínio público/Autor desconhecido/Wikimedia Commons

Legenda da foto,Henry Ford e sua mulher

Vietri contextualiza que esse tipo de ajuste, no Brasil, acabou sendo viabilizado sobretudo por meio de acordos coletivos.

O tema sempre suscita diferentes pontos de vista. "Traz à tona um debate complexo sobre como equilibrar o bem-estar social e a viabilidade econômica", pondera Vietri.

"Vejo o fim de semana não apenas como período de descanso, mas um pilar da dignidade humana e da saúde mental do trabalhador, fundamentos estes que estão no cerne da nossa proteção constitucional".

Ele defende, contudo, que a mudança na organização das jornadas não seja feita de forma abrupta, para que as empresas, sobretudo as menores, consigam se preparar.

"O ponto mais interessante é que Ford percebeu algo que continua atual: o trabalhador não é apenas força de produção; ele também é parte do mercado consumidor", diz Barbiero.

"Ao pagar melhor e liberar tempo, Ford fortalecia a própria lógica de consumo que sustentava a indústria automobilística."