SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

domingo, 18 de outubro de 2026

A 'história esquecida' dos vikings que chegaram à América 500 anos antes de Cristóvão Colombo

 

Ilustração de vikings ao lado de um vinhedo
Legenda da foto,Os vikings chamaram de Vinlândia (Vinland), a "terra das videiras", uma das regiões que exploraram na América do Norte
    • Author,Fiona Macdonald
    • Role,BBC Culture*
  • Published
  • Tempo de leitura: 7 min

Cristóvão Colombo pode ter atravessado o oceano em 1492 — quando chegou às Bahamas em 12 de outubro daquele ano. Mas ele não foi o primeiro europeu a alcançar o território que hoje conhecemos como América.

A chegada desses outros europeus não foi marcada por grandes celebrações. Não houve proclamações reais nem multidões nas ruas para recebê-los na volta. Tampouco atravessaram o imenso oceano Atlântico diretamente de um continente a outro.

Em vez disso, fizeram a viagem por etapas, usando a Islândia e a Groenlândia como pontos de parada. As expedições deles foram narradas séculos depois em sagas, relatos mais próximos da literatura épica do que dos livros de história.

Esses navegadores chegaram ao continente americano 500 anos antes de Cristóvão Colombo.

Flateyjarbók

Uma página antiga, com letras pretas e traços grossos
Legenda da foto,Flateyjarbók é considerado um dos registros antigos que comprovam a chegada dos vikings à América do Norte

As sagas nórdicas, histórias dos vikings registradas por seus descendentes, passaram a ser reconhecidas como fontes históricas confiáveis.

Em 1966, o apresentador da BBC Magnus Magnusson descreveu o Flateyjarbók (Livro de Flatey ou Livro da Ilha Plana), manuscrito do século 14, como "um dos mais valiosos manuscritos islandeses que existem".

O livro é tão valioso, disse Magnusson, que, em 1893, quando os organizadores da Exposição Universal de Chicago pediram o manuscrito emprestado para comemorar, com um ano de atraso, os 400 anos da viagem de Colombo, "ofereceram enviar um navio de guerra à Dinamarca para buscá-lo, transportá-lo pelos Estados Unidos em um trem blindado e contratar um seguro de US$ 1 milhão [cerca de R$ 5 milhões, na cotação atual sem correção monetária]. Mesmo com todas essas garantias, os dinamarqueses não quiseram correr o risco".

Mas por que os americanos faziam tanta questão de ter o manuscrito?

Uma embarcação Viking, com uma grande vela e vários remos
Legenda da foto,Os vikings navegaram pelo Atlântico Norte e chegaram à costa da América do Norte
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Porque ele contém "o relato da colonização nórdica da Groenlândia no século 10 e, o que é ainda mais surpreendente, a história da descoberta da América do Norte pelos nórdicos e da tentativa de colonizar a região poucos anos depois, cinco séculos antes de Colombo".

Em 1960, foi descoberto um acampamento usado pelos nórdicos como ponto de parada em L'Anse aux Meadows, na ilha de Terra Nova, no Canadá.

Em 2021, pesquisadores que utilizaram uma nova técnica de datação descobriram que os vikings haviam ocupado o local cerca de mil anos antes.

Acredita-se que o acampamento tenha servido de base para expedições a outras regiões da América do Norte.

"Este é o começo de uma história esquecida: os séculos em que europeus visitaram a América em viagens que não deixaram registros escritos, apenas rastros nas águas", afirmou Robin Ellis em um episódio de 1997 da série documental Timewatch, da BBC.

Os nórdicos chegaram à Islândia por volta do ano 870 e à Groenlândia cerca de cem anos depois.

De lá, bastava atravessar cerca de 320 km pelo estreito de Davis para chegar à ilha de Baffin, no atual Canadá. Eles chamaram a região de Helluland, a "terra das lajes de pedra".

Segundo as sagas, os navegadores seguiram pela costa em direção ao sul até Labrador, região que chamaram de Markland, a "terra das florestas". Depois, avançaram ainda mais ao sul, até uma área que batizaram de Vinland, a "terra das videiras".

"As sagas mostram que esses homens não pararam em um único lugar, mas passaram por vários", afirmou Emily Lethbridge, da Universidade da Islândia, ao programa Timewatch, em 2016.

"E passaram vários anos longe de casa. Tinham todo um mundo novo para explorar."

Erik, o Vermelho

Uma ilustração do rosto de Erik, o Vermelho
Legenda da foto,Acredita-se que, Erik, o Vermelho, chegou à Islândia por volta do ano 960

Segundo as sagas, o mais famoso dos colonizadores nórdicos, Erik, o Vermelho, chegou à Islândia por volta do ano 960, depois que seu pai foi expulso da Noruega por assassinato.

Em 932, os islandeses haviam criado um parlamento, o Althing. Era uma assembleia nacional realizada ao ar livre, durante duas semanas a cada verão, para discutir leis e julgar conflitos. Os encontros aconteciam em um lugar extraordinário: um desfiladeiro que formava um impressionante anfiteatro natural.

"Não é apenas a acústica que torna esse lugar especial", afirmou Lethbridge à BBC. "É uma falha geológica natural. Estamos no ponto de encontro das placas tectônicas da América do Norte e da Eurásia."

Assim, os primeiros europeus a explorar a América do Norte estabeleceram um de seus parlamentos em um vale formado pela separação das placas tectônicas dos dois continentes.

Nesse parlamento, segundo Lethbridge, da Universidade da Islândia, "eram decretadas penas de banimento contra pessoas que haviam transgredido gravemente todas as regras da sociedade. Elas podiam ir para qualquer outro lugar, mas estavam proibidas de pisar na Islândia enquanto durasse a punição".

Em 982, o Althing expulsou Erik, o Vermelho, da Islândia após uma disputa violenta com um fazendeiro vizinho. Seu exílio deu início a um capítulo extraordinário da exploração viking.

"Erik, o Vermelho, foi o primeiro islandês a descobrir a Groenlândia e estabelecer um povoado permanente na região", afirmou Lethbridge.

Ele fundou uma colônia na Groenlândia que duraria cerca de 500 anos e serviria de ponto de partida para as expedições nórdicas à América do Norte.

"Eram pessoas dispostas a correr riscos e enfrentar enormes desafios físicos, como atravessar o Atlântico em embarcações abertas para descobrir o que havia do outro lado", disse Lethbridge.

A presença nórdica na Groenlândia se manteve até o início do século 15. Nesse período, os vikings, liderados por Leif Eriksson, filho de Erik, aparentemente fizeram não apenas uma, mas várias travessias marítimas até a América do Norte.

"A maioria das pessoas imagina que, depois que Leif Eriksson e seus companheiros chegaram a Vinland, desistiram e foram embora, nunca mais se ouviu falar do Novo Mundo", afirmou Robert McGhee, arqueólogo do Museu Canadense da Civilização, ao programa Timewatch.

"Mas temos evidências arqueológicas de que os nórdicos continuaram fazendo viagens ocasionais ao Novo Mundo durante os dois ou três séculos seguintes", disse McGhee.

Colombo sabia da existência de Vinlândia?

Cristóvão Colombo em um barco chegando ao território que ele chamou de San Salvador
Legenda da foto,Quando Cristóvão Colombo chegou às Bahamas em 1492, os vikings já tinham viajado para as Américas há quase 500 anos

"Temos inúmeras evidências de que, durante toda a Idade Média, foram realizadas viagens entre as regiões que hoje conhecemos como Groenlândia e América do Norte", afirmou Kirsten Seaver, historiadora especializada em navegação medieval, ao programa Timewatch.

"Sabemos que, por volta de 1480, houve uma tentativa deliberada de navegar até a América do Norte, ou até o que eles chamavam de "ilha de Brasil". Não devemos considerar essa a primeira viagem à região, mas a primeira tentativa de chegar lá diretamente, sem passar pela Groenlândia, que era a referência habitual dos navegadores."

Seaver também mencionou um documento que indica que o próprio Colombo sabia dessas viagens. "No inverno de 1497 a 1498, um inglês chamado John Day escreveu a Cristóvão Colombo para contar sobre a viagem bem-sucedida de John Cabot à América do Norte, em 1497. Entre outras coisas, mencionou como algo de conhecimento geral que, como Colombo sabia, navegadores de Bristol [na Inglaterra] já faziam aquela viagem rumo ao norte havia muitos anos."

Quando Colombo chegou às Bahamas, em 1492, é possível que já soubesse da existência da região que os vikings chamavam de Vinlândia.

Há até teorias de que o navegador teria tentado evitar deliberadamente uma terra que sabia já ter sido descoberta por outros europeus.

"Colombo sabia, assim como qualquer navegador sabe hoje, que, para atravessar oceanos no Hemisfério Norte, é preciso seguir para o norte, onde a distância a percorrer é menor, fazer a travessia rapidamente e depois descer novamente", afirmou McGhee, do Museu Canadense da Civilização, ao programa Timewatch.

"Mas Colombo fez o contrário: escolheu a rota mais longa, atravessando diretamente o oceano. Talvez estivesse tentando evitar o Canadá. Talvez quisesse evitar a Vinlândia, que não era o que ele procurava. Acredito que a intenção era contornar a América para tentar chegar às riquezas do Extremo Oriente."

Assim, embora muitos cidadãos dos EUA celebrem o Dia de Colombo (12/10) todos os anos, não devem se esquecer das travessias do Atlântico que aconteceram antes da viagem do navegador.

*Esta é uma adaptação para o português de uma reportagem publicada originalmente pela BBC Culture (em inglês).

Uma carta-bússola caleidoscópica para viver com profundas sínteses paradoxais dialéticas. Por João Victor Guerra

 




Uma recusa obstinada em não deixar o mundo ditar o tamanho da nossa sensibilidade, estudando e lendo todos os livros e formas de vida, mas sem se reduzir a uma senha metodologizante que injuria a beleza, drena a alma e podar a infinitude do amor. Viver todas as culturas, mas não se perder nos redemoinhos e moinhos ilusórios de vento, sabendo onde ancorar nosso barco-coração com concretude e densidade para fazer um lar onde passar.

 

Como diz a religião que Victor Hugo se apaixonou no final da vida: primeiro amai-vos, essa é a base, em segundo: instruí-vos.

 

O materialismo histórico sem a teologia, como apresenta Benjamin, é um autômato sem vida. Nossas análises frias, mas precisas, precisa se alimentar da alma da força messiânica de um povo que acenda chamas para seus mortos e que suas memórias explodam o silêncio que o "vencedores da história" querem impor, fazendo, assim, a redenção da humanidade viva e morta.

 

Dito isso, que estejamos atentos e com o coração aberto, para perceber que que muitos momentos de cultura, por trás são instituições da barbárie, e que muito lobos usam pele de cordeiro. Vivem suas próprias desonestidades consigo mesmas. Mas um dia comeram do próprio fruto amargo e se cansaram de perder. Perder seus amores, perder sua humanidade e perderem a si mesmos, enquanto idolatravam bezerros de ouro e não de carne, sangue, suor e espírito.

 

Nossa empatia sempre será incompleta, assim como o mistério sempre é o próximo passado. Isso nos faz tratar as pessoas como sempre além de nossas réguas, métricas e caixas, sabendo que cada um tem uma chama que queima qualquer redução e pode iluminar o mundo. E o mundo é nossa experiência que exige a ampliação da nossa sensibilidade e nos joga nessa travessia perigosa. Daí queremos fugir do mistério, nos informar, ter opinião, agir, controlar em cima da nossa travessia, mas muita fala e ação antes da vida... Só nos faz cair, pois estamos cegos de palavras e números, e não nos permitimos sentir o improviso, imprevisto, inalcançável, incompatível com nossa métricas... E o que seria, Deus, então? Se não, o que começa só além do infinito? 

Ambos os poetas sabiam que a liberdade tem um preço, e que a água que te lava pode também te afogar.

 

"experiência de compartilhamento incompleto" — reconhecer que nunca habitamos plenamente a dor do outro, e que é justamente essa incompletude que nos impede de colonizar a sua dor com a nossa.

 

Ser empata não é sentir pelo outro; é sustentar o mistério do outro sem tentar resolvê-lo.

 

base de qualquer política que não trate o outro como menor de idade perpétuo.

 

sem elevar é apenas destruir.

 

Essa é a transgressão que vale: a que constrói o mundo superior, não a que foge dele.

 

O barco que não ancora é o barco que se perde.

 

". A erudição sem caridade vira comércio; a ciência sem compaixão vira tráfico.

 

Os livros te ensinam a atravessá-la. Mas só a empatia te impede de te perderes nela

sábado, 17 de outubro de 2026

Carta ao meu filho João Victor Guerra




João,

Escrevo-te não como quem ensina, mas como quem, como Rimbaud, reconhece que "eu é um outro" — e que a mente em movimento é a única pátria sagrada que vale a pena defender. Dizes que a batalha pela espiritualidade de um homem vale mil guerras. Concordo. E acrescento: essa batalha não se trava com armas, mas com a recusa obstinada de deixar o mundo ditar o tamanho da tua sensibilidade.

Rimbaud escreveu O Barco Bêbado antes de ver o mar, servindo-se de leituras para compor um hino à adolescência e à descoberta de uma nova poesia. Ele tinha dezenove anos quando abandonou a escrita e partiu para a África, tornando-se traficante de armas — o poeta que Victor Hugo chamava de "Shakespeare menino" morreu amputado em Marselha, tendo trocado a poesia pelo comércio. Mas antes disso, antes do deserto, ele escreveu em Sensação: "Nas tardes de verão, irei pelos vergéis, / Picado pelo trigo, a pisar a erva miúda: / Sonhador, sentirei um frescor sob os pés / E o vento há de banhar-me a cabeça desnuda". Repara: o primeiro movimento de Rimbaud não foi a fuga, foi a entrega — a entrega ao vento, à estrada, ao infinito que sobe na alma. "Calado seguirei, não pensarei em nada: / Mas infinito amor dentro do peito abrigo, / E como um boêmio irei, bem longe pela estrada, / Feliz — qual se levasse uma mulher comigo". Não te dou esse exemplo para que o imites na fuga, mas para que entendas: até o gênio se perde quando a mente deixa de se mover em direção ao que é sagrado. A embriaguez do barco é necessária; o naufrágio não é.

No Barco Bêbado, ele escreveu: "Eu sei os céus rompendo em relâmpagos, e as trombas, / E as ressacas e as correntes: sei o anoitecer, / A Aurora exaltada como um povo de pombas, / E às vezes vi o que o homem acreditou ver". Essa é a promessa da poesia: ver o que outros só acreditam ver. Mas em Uma Temporada no Inferno, o mesmo Rimbaud confessou: "Outrora, se bem me lembro, minha vida era um festim onde todos os corações se abriam, onde todos os vinhos corriam. / Uma noite, sentei a Beleza nos meus joelhos. — E a achei amarga. — E a injuriei". A Beleza pode ser amarga, João. A poesia que enxerga o mundo serve para compreender culturas, economias e ciências — mas também para não esquecer que nenhuma ciência justifica a indiferença. Rimbaud encontrou a chave do festim antigo: "A caridade é essa chave. — Essa inspiração prova que eu sonhei!". Caridade, não caridade pequena, mas a que Hugo praticava.

Victor Hugo passou dezoito anos no exílio por opor-se à ditadura de Napoleão III, e escreveu Os Miseráveis não como romance, mas como tratado teológico sobre a miséria e a dignidade. Ele dizia: "A criança chama-se o futuro. Exerçamos sobre o futuro a santa paternidade do presente. O que fizermos pela infância, o futuro o devolverá ao cêntuplo. [...] Se a criança tiver saúde, o futuro irá bem; se a criança for honesta, o futuro será bom. Iluminemos e ensinemos essa infância que está sob nossos olhos, o século vinte resplandecerá. A tocha na criança é o sol no futuro". João, quando falo de defender os miseráveis, não falo de ideologia: falo do que Hugo sabia — que a grandeza de um homem se mede pela sua capacidade de não endurecer diante da dor alheia. Hugo também escreveu que "há mais de mil anos que a triste Ofélia / Passa, fantasma branco, sobre o longo rio negro" — a mesma Ofélia de Rimbaud, afogada pela "liberdade áspera" que os ventos lhe sussurraram. Ambos os poetas sabiam que a liberdade tem um preço, e que a água que te lava pode também te afogar.

Sobre Jung e a empatia: a psicologia dos tipos junguiana associa a função sentimento à capacidade de acolher a experiência emocional do outro, mas a maturidade empática exige também o que se chama de "experiência de compartilhamento incompleto" — reconhecer que nunca habitamos plenamente a dor do outro, e que é justamente essa incompletude que nos impede de colonizar a sua dor com a nossa. Ser empata não é sentir pelo outro; é sustentar o mistério do outro sem tentar resolvê-lo. Rimbaud escreveu nos Iluminismos: "Eu só tenho a chave desta parada selvagem". A chave da parada selvagem que é o outro nunca é tua. Tu podes apenas caminhar ao lado.

Jacques Rancière, escreveu O Espectador Emancipado para afirmar que quem vê não precisa de um mestre que lhe explique o que vê: a emancipação é a capacidade de ver o que se vê e saber o que pensar a respeito. O método da igualdade das inteligências não é uma utopia pedagógica; é a base de qualquer política que não trate o outro como menor de idade perpétuo. A transgressão que a Cabala propõe — a quebra das regras como abertura para o infinito — não é niilismo: é a recusa de que a ordem dada seja a última palavra. Mas atenção: a Cabala também ensina que as faíscas de santidade caíram e cabe a nós elevarmo-las, não as esmagar. Transgredir sem elevar é apenas destruir. Hugo escreveu que "sim, uma sociedade que tolera a miséria, uma religião que admite o inferno, uma humanidade que admite a guerra, parecem-me uma sociedade, uma religião e uma humanidade de ordem inferior; e é para a sociedade, a humanidade e a religião de um mundo superior que aspiro: sociedade sem reis, humanidade sem fronteiras, religião sem livros sagrados". Essa é a transgressão que vale: a que constrói o mundo superior, não a que foge dele.

Tu me dizes que a vida é um barco e um oráculo em movimento. Que seja. Mas lembra-te do que Rimbaud esqueceu: o barco bêbado, no fim, não ancora em porto nenhum. Ele escreveu: "Órfão, perdido sob os cabelos das enseadas, / Lançado pelo furacão no éter sem pássaros, / Eu, que os monitores e os veleiros hanseáticos / Não teriam salvado, oh! meu casco de pinho". O barco que não ancora é o barco que se perde. Hugo escreveu que "destruiu-se o moinho, mas ainda ficou o vento". O vento que resta é o que nos obriga a continuar escrevendo, mesmo quando a mão treme.

Lembra-te sempre do modo como a poesia de Rimbaud o elevou à África e, na viagem, o fez decifrar culturas, economias e ciências pela leitura obstinada de livros. Não te dou isso como exemplo de erudição, mas como prova de que a mente em movimento sagrado não se contenta com o êxtase — ela quer entender o mundo que a arrebata.

Rimbaud abandonou a poesia aos dezenove anos e partiu para o Áden, depois para o Harar, na Abissínia. O poeta que escrevera O Barco Bêbado sem nunca ter visto o mar tornou-se, na África, um homem que pedia livros com a urgência de quem precisa deles para sobreviver. Em 1882, escrevendo de Áden à mãe, ele não súplica versos: suplica um teodolito, um sextante, uma bússola, um telescópio militar, e "livros, em todo caso, esses sim". Diz à mãe que, sem esses livros, "seria como um cego". Repara, João: o mesmo homem que escreveu "Eu é um outro" agora escreve que sem os livros não vê. A poesia não o cegou para o mundo — ela o fez exigir olhos mais precisos.

Ele pedia tratados sobre ferrovias, mecânica, topografia, geologia, mineralogia prática. Pedia a Petite Encyclopédie Populaire de Amédée Guillemin, volumes sobre O Céu, A Lua, O Sol, As Nebulosas — a vanguarda da divulgação científica do fim do século XIX. Não eram leituras de salão: eram ferramentas de quem atravessava desertos, negociava com chefes abissínios, avaliava rotas de sal e armas. Rimbaud decifrou a economia da região do Harar com a mesma atenção com que outrora decifrara as vogais. Ele escreveu relatos para Le Bosphore égyptien descrevendo a composição das caravanas, as possibilidades de exploração do sal, os projetos de canalização, as disputas entre Menelik e o Emir, as quantidades de armas e munições disponíveis. O poeta que sonhara "inventar um novo idioma" aprendeu línguas locais com facilidade assombrosa e usou esse dom para ler culturas que não eram a sua.

Mas há uma ferida nisso tudo, João, e não quero escondê-la de ti. Os livros que Rimbaud pedia não o salvaram do deserto interior. Ele lia sobre o céu e as nebulosas enquanto negociava café e peles, marfim e armas. A mente em movimento sagrado que tu invocas precisa de uma âncora que Rimbaud não teve: ele quis decifrar o mundo, mas não quis mais ser decifrado por ele. Em Uma Temporada no Inferno, ele já sabia: "A caridade é essa chave". A erudição sem caridade vira comércio; a ciência sem compaixão vira tráfico. Rimbaud leu Guillemin e Couche para atravessar a Abissínia, mas morreu amputado em Marselha, com uma caixa de moedas na cintura, sem ter escrito uma linha sobre o que viu que valesse Iluminuras. 

Que tu, João Victor, leias todos os livros que precisares para entender o mundo — topografia, economia, ciência, cultura. Mas que nunca leias tanto a ponto de esqueceres que a chave do festim antigo se chama caridade. A poesia te eleva à África, se for preciso. Os livros te ensinam a atravessá-la. Mas só a empatia te impede de te perderes nela.

João Victor, teu nome carrega a vitória e a guerra. Que a tua guerra seja sempre contra o terror dos poderes, nunca contra a tua própria capacidade de sentir. Que a tua vitória seja a de permanecer em movimento — sagrado, lúdico, empata — sem te perderes no deserto como Rimbaud se perdeu. Que saibas sentar a Beleza nos teus joelhos sem precisar injuriá-la depois. Que encontres a chave do festim antigo, e que essa chave se chame caridade.

Com amor, 
Teu pai.