O Julgamento de Nuremberg, concluído em 1946, não foi apenas um evento histórico; foi um mito fundador da justiça internacional, um trauma jurídico e um espelho constantemente repolido para avaliar nossa própria época. As reflexões contemporâneas, como as propostas em filmes e documentários de 2025, junto com os clássicos insights de Hannah Arendt e narrativas como O Nazista e o Psiquiatra, nos obrigam a ver Nuremberg não como um ponto final, mas como um prelúdio incompleto.
As produções de 2025 tendem a focar não nos grandes réus – já amplamente conhecidos –, mas nos arquitetos do horror: os burocratas, os industriais, os juristas que embrulharam a barbárie em papel timbrado. Elas ecoam a perturbadora intuição de Arendt sobre a “banalidade do mal”. Em Nuremberg, muitos acusados não pareciam monstros espumantes, mas homens medíocres, orgulhosos de sua eficiência, incapazes de pensar verdadeiramente sobre as consequências de seus atos. O psiquiatra Douglas Kelley, em seu trabalho com Hermann Göring (retratado em O Nazista e o Psiquiatra), encontrou não loucura patológica, mas uma perversão da normalidade: narcisismo, ambição e uma lealdade absoluta a uma nova “normalidade” criminosa.
Nuremberg estabeleceu princípios eternos: crimes contra a humanidade, responsabilidade individual mesmo sob ordens superiores, e a ideia de que há um limiar além do qual a soberania nacional não é escudo. No entanto, também revelou fissuras: a justiça dos vencedores, a dificuldade de processar um sistema inteiro e a tensão entre punição e compreensão.
Atualizando para Hoje: O que Acontece com os Atuais Ditadores e Assassinos em Guerra?
Se os espectros de Hitler, Stalin ou dos génocidas do Ruanda e da Bósnia fossem julgados hoje, o cenário seria radicalmente diferente, marcado por avanços e retrocessos paradoxais.
A Justiça Internacional, uma Realidade Frágil: Ao contrário de 1945, existe hoje uma arquitetura formal: o Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia. No entanto, sua atuação é limitada pela política. Grandes potências (EUA, China, Rússia) não são partes ou não reconhecem sua jurisdição plena. Ditadores ativos sabem que podem evitar a prisão enquanto mantiverem o poder ou o apoio de um protetor global. O exemplo mais claro são os crimes de agressão na Ucrânia: o principal acusado, Vladimir Putin, foi indiciado pelo TPI, mas sua prisão é impossível enquanto ele estiver no poder na Rússia. A justiça, aqui, é primeiro simbólica – um “selo de infâmia” internacional permanente.
A Justiça “Híbrida” e Universal: O modelo de Nuremberg (tribunal internacional) convive agora com outras formas:
Tribunais Nacionais: Baseando-se no princípio da jurisdição universal, países como a Alemanha processaram sírios por crimes contra a humanidade. A justiça é lenta, dispersa, mas cria uma rede de responsabilidade.
Sanções Direcionadas: No lugar da forca ou da prisão perpétua, a ferramenta imediata contra ditadores e seus cúmplices são as sanções. Congelamento de bens, proibição de viagens, exclusão do sistema financeiro global. É uma punição econômica e política que visa isolar e estrangular logisticamente as máquinas de guerra.
O Tribunal da Opinião Pública: As imagens de satélite, os vídeos de drones, os relatos em tempo real nas redes sociais criam um dossiê público e indelével. A condenação histórica é instantânea, mesmo que a jurídica demore. Esse “tribunal digital” pressiona governos e instituições a agirem.
Os Novos Cúmplices e a Nova Banalidade: Os filmes atuais mostram que os “Görings” de hoje podem ser líderes de big tech que permitem a propagação do ódio e a vigilância em massa, banqueiros que lavam os saques de oligarcas, ou empresários de energia que financiam regimes belicistas. Sua motivação raramente é ideológica; é o lucro, a performance do acionista, a lógica distorcida do mercado – uma nova face da banalidade arendtiana.
O Maior Desafio: A Impunidade pela Desinformação. O nazismo foi derrotado militarmente e sua ideologia, desacreditada globalmente. Hoje, ditadores criam narrativas paralelas através de máquinas de propaganda sofisticadas. Eles não apenas cometem crimes, mas fabricam realidades alternativas para seus povos, onde são vítimas ou libertadores. Julgá-los perante uma comunidade internacional fracturada é infinitamente mais complexo. A batalha pelo tribunal da história começa no momento do crime, nas redes sociais e nos canais de notícias estatais.
Conclusão: O Legado Inacabado
Nuremberg nos deu a linguagem e a aspiração. Hoje, temos mais ferramentas, mas menos consenso. Os atuais ditadores e assassinos em massa enfrentam um destino variável: alguns podem acabar num tribunal em Haia (se caírem do poder), outros serão julgados in absentia ou por tribunais nacionais distantes. Muitos viverão e morrerão impunes, protegidos pela soberania, por aliados poderosos ou por um mar de desinformação.
O verdadeiro julgamento, no entanto, continua. É o julgamento que fazemos sobre a eficácia das nossas instituições, sobre a nossa coragem em aplicar o princípio da jurisdição universal, e sobre a nossa capacidade coletiva de nomear o mal, mesmo quando ele vem vestido de uniforme, de terno ou de post nas redes sociais. O eco de Nuremberg não é um veredito passado; é uma pergunta permanente, dirigida a cada geração: temos a vontade política e moral para fazer a justiça que a nossa consciência exige? A resposta, hoje como em 1945, ainda está sendo escrita.










