Walden, de Henry David Thoreau, é o texto fundamental para o movimento ambiental e um modelo para a prática da escrita sobre a natureza. Em The Walden Experiments, Robert Thorson conta a história de como, após vários rascunhos descartados de crítica social, Thoreau ressuscitou Walden com uma virada brusca em direção à ciência. Thorson nos convida a ler — ou reler — Walden para descobrir as observações, o pensamento empírico e as explicações científicas que sustentam essa obra literária canônica. Capítulo a capítulo, ele nos guia pela relevância de Walden para preocupações científicas contemporâneas como mudanças climáticas, colapso ecológico, abastecimento de água, agricultura, inteligência artificial e tecnologia.
O primeiro "experimento" de vida de Thoreau ocorreu deliberadamente em uma casa de um cômodo no Walden Pond, de 1845 a 1847. Isso foi seguido, de 1851 a 1852, por um segundo experimento pouco conhecido de tentar viver deliberadamente no meio da sociedade como um cientista itinerante. O relato de Thorson sobre uma versão revitalizada pela ciência de Walden, nos ajuda a apreciar a obra-prima de Thoreau não apenas por seus conselhos proféticos, líricos, edificantes, espirituosos e atemporales sobre viver de forma sustentável, mas também como um marco histórico para ancorar nossas soluções modernas. Explorar a ciência que sustenta Walden amplia nossa compreensão dos significados mais profundos que Thoreau extrai da natureza.
Escrevo esta carta com o coração triste, mas transbordando de gratidão. A jornada terminou, mas a luta continua. A todos vocês que depositaram em mim não apenas um voto, mas a esperança de um futuro diferente, o meu mais profundo obrigado.
Fizemos com o pouco que tínhamos muito. O melhor de tudo não foi o resultado nas urnas, mas a nossa equipe e cada luta que travamos. As alegrias e os momentos que compartilhamos estarão para sempre na memória. Deixamos registrada a nossa Odisseia da Verdade no material impresso, no filme que estamos realizando sobre a campanha e em cada vídeo nas redes sociais, no Instagram, Facebook e LinkedIn. Mas, infelizmente, os votos não dependem apenas das nossas causas, e mesmo quando conquistamos eles foram comprados por criminosos que se vestem de políticos. A verdade é que enfrentamos máquinas pesadas.
Mas nossa guerra foi para deixar uma posição clara, ideias, denúncias e propostas. Deixamos claro o que somos, porque lutamos e o que nos diferencia da classe política tradicional, tanto de direita quanto de esquerda, que vive da compra de votos, dos currais eleitorais há décadas, do pão e do circo. Enfrentamos as farsas das ditas políticas públicas que são usadas para operar currais eleitorais ao invés de mudarem vidas e territórios de verdade.
Mas, como disse Eduardo Galeano, "A utopia está lá no horizonte. Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar." E nós caminhamos. Tocamos o coração das pessoas. Outros mundos são possíveis agora.
Contribuímos com a campanha do Presidente Lula, do Governador Elmano e dos Senadores Cid e Luizianne, mas nunca mudamos nosso discurso de uma jornada de 40 anos. Um discurso contra a corrupção, as oligarquias e as gangues partidárias. Uma luta pela necessidade de impacto e inovação das políticas públicas, por sinergias entre os setores, a favor dos pobres, contra as exclusões e as brutais desigualdades, para lidar com as mudanças climáticas, a humanização das tecnologias e uma educação integral para a vida.
Enfrentamos criminosos que continuam comprando votos e oligarquias que destroem partidos e a democracia. Aproveitamos para lançar projetos como a Cidade dos Pedreiros e dos Professores, com casas construídas por associações de pequenas e médias construtoras; os Núcleos de Saúde Integrada nas Escolas; e o Vale Livro e Cinema para estudantes das escolas e universidades.
Nossa caminhada visou conscientizar as pessoas de uma Odisseia da Verdade pela Democracia contra Ditaduras da corrupção, das oligarquias, do pão e do circo, das violências e as tecnocracias que mantêm feudos eleitorais com compra de votos, por políticos ridículos que humilham aqueles que não têm nada, a não ser lutar todos os dias para sobreviver e financiar o luxo e o delírios dos poderosos.
Como disse Martin Luther King Jr., "A verdadeira medida de um homem não é como ele se comporta em momentos de conforto e conveniência, mas como ele se posiciona em momentos de desafio e controvérsia."
A luta não acaba aqui. O que plantamos nesta campanha vai germinar. Continuaremos vigilantes, continuaremos lutando pelos pobres, pela educação, pela saúde e pela dignidade. A nossa voz não será silenciada.
Muito obrigado por tudo. Vocês são a razão pela qual vale a pena lutar.
A social-democracia pela educação nas comunidades não se reduz à expansão quantitativa da escola pública, mas implica uma transformação qualitativa das instituições educativas em espaços de autogoverno, cooperação e vínculo com as lutas populares. A síntese de Marx tardio, Dewey, Laval e Engels permite delinear esse projeto como uma alternativa tanto ao capitalismo educacional quanto ao estatismo burocrático.
1. Raízes históricas: O Marx tardio e a comuna como forma educativa
A redescoberta do Marx tardio, empreendida por Michael Löwy e Paul Guillibert, oferece um fundamento decisivo para se pensar a educação comunitária. Ao entrar em contato com os naródniks russos e com a comuna rural (obshchina), Marx abandona uma visão linear e eurocêntrica do progresso histórico. A comuna camponesa, baseada na propriedade coletiva e na divisão periódica da terra, não é para ele um resquício a ser superado, mas um ponto de apoio possível para uma transição socialista que dispensa a passagem pelas "mazelas do capitalismo". Essa perspectiva — que Löwy e Guillibert chamam de "romantismo revolucionário" — não idealiza o passado, mas busca nas tradições de solidariedade do presente os germes de uma nova sociedade.
Para a educação nas comunidades, essa lição é fundamental: não se trata de levar a "civilização" às periferias, mas de reconhecer que as formas de organização coletiva já existentes — mutirões, associações de moradores, redes de solidariedade — constituem a base a partir da qual uma educação democrática pode se enraizar. Marx defendia que a Rússia não precisava repetir as etapas europeias; do mesmo modo, as comunidades não precisam esperar que o Estado lhes conceda escolas "modernas" para começar a educar-se.
2. Dewey: Democracia como modo de vida associada
John Dewey fornece o arcabouço filosófico para compreender a educação como prática democrática. Em Democracia e Educação, ele define a democracia não meramente como forma de governo, mas como "um modo de vida associada, de experiência comunicada conjuntamente". A educação, nessa perspectiva, não é preparação para a vida democrática futura, mas a própria vivência da democracia no presente. A escola democrática não transmite valores democráticos abstratos; ela se organiza democraticamente.
O conceito deweyano de "crescimento" — a educação como reconstrução contínua da experiência, sem fim externo a si mesma — tem implicações radicais para as comunidades. Se a educação é crescimento, ela não pode ser imposta de fora, mas deve brotar das necessidades e problemas reais da comunidade. Dewey critica tanto os objetivos educacionais fixados externamente quanto a separação entre interesse e disciplina. Uma educação social-democrata nas comunidades começa pelas questões que a própria comunidade enfrenta: moradia, saneamento, saúde, cultura — e as transforma em matéria de investigação coletiva.
3. Laval: A revolução institucional e o comum educacional
Christian Laval e Francis Vergne radicalizam a proposta deweyana ao vincular a educação democrática a uma "revolução institucional". Em Educação Democrática: A Revolução Escolar Iminente, eles defendem que a escola deve se tornar um "comum educacional" — um espaço autogovernado que integra instâncias de fala, deliberação e decisão. A pedagogia que corresponde a esse projeto é a "pedagogia instituinte", que desenvolve solidariedade e responsabilidade coletiva, ancorando-se na democracia como princípio de funcionamento da escola e do ensino.
Laval critica tanto o modelo republicano (que separa saber e poder) quanto o modelo socialista clássico (centrado na autoeducação do proletariado), buscando uma articulação que preserve a autonomia do conhecimento sem abdicar da participação popular. Para as comunidades, isso significa que a escola não deve ser nem uma fortaleza burocrática nem um instrumento de doutrinação partidária, mas um espaço onde o saber sistematizado e o saber popular dialogam sem hierarquia cientificista, como Laval enfatiza ao defender a cooperação entre conhecimentos científicos e populares.
4. Engels: Materialismo dialético e crítica do idealismo educacional
A contribuição de Engels em Anti-Dühring é frequentemente negligenciada nas discussões sobre educação, mas é essencial. Engels critica a pretensão de Dühring de fundar o socialismo sobre princípios morais abstratos e "verdades eternas", insistindo que o socialismo só se torna ciência quando se enraíza nas contradições reais da sociedade — nas "condições de vida e lutas de classes". Aplicado à educação, isso significa que uma pedagogia social-democrata não pode se fundar em ideais abstratos de cidadania ou em princípios morais desencarnados. Ela deve partir das contradições concretas da comunidade: a precariedade da escola pública, a desvalorização dos professores, a mercantilização do ensino.
Engels também insiste que o materialismo moderno vê na história um processo de desenvolvimento cujas leis devem ser descobertas, e não deduzidas de princípios a priori. A educação nas comunidades, portanto, não pode ser planejada em gabinetes, mas deve ser experimental, ajustando-se às condições específicas de cada território. Essa perspectiva dialoga com o "apelo ao experimentalismo educacional" de Laval.
5. Síntese: Social-democracia pela educação como projeto comunitário
A articulação dessas quatro contribuições permite formular o que seria uma social-democracia pela educação nas comunidades:
Primeiro, ela reconhece as formas de organização coletiva já existentes nas comunidades como base para a ação educativa, não como obstáculos a serem superados (Marx tardio).
Segundo ela organiza as instituições educativas como espaços de vivência democrática real, não como preparação para uma cidadania futura (Dewey).
Terceiro, ela transforma a escola em um "comum educacional" autogovernado, onde professores, estudantes e comunidade deliberam conjuntamente sobre o currículo, a pedagogia e a gestão (Laval).
Quarto, ela parte das contradições materiais concretas da comunidade, recusando ideais abstratos e buscando na experiência coletiva a base para a transformação (Engels).
Essa síntese não é uma concessão ao localismo ou ao espontaneísmo. Marx tardio não abandonou a perspectiva revolucionária; apenas a desvinculou da linearidade eurocêntrica. Dewey não era um pedagogo ingênuo; sua democracia era um ideal regulador, nunca plenamente realizado. Laval não abandona a crítica ao capitalismo; apenas a desloca para o terreno institucional. Engels não nega a importância das ideias; apenas insiste que elas se enraízem nas condições materiais.
A social-democracia pela educação nas comunidades é, assim, um projeto de dupla face: por um lado, resiste à mercantilização e à burocratização da escola pública; por outro, constrói, no presente, as formas de vida coletiva que antecipam uma sociedade democrática e igualitária. Como escreveu Dewey, a democracia "é mais do que uma forma de governo"; ela é um modo de viver em comum. E a educação, para ser democrática, não pode ser outra coisa senão a prática cotidiana desse viver em comum.
Na reta final do primeiro turno das eleições no Brasil, aumentou o número de publicações que questionam a confiabilidade das urnas eletrônicas.
Elas circulam em vídeos no YouTube, posts no X, anúncios no Instagram e no Facebook e em mensagens encaminhadas por WhatsApp.
Ao analisar quem produz e distribui esse tipo de conteúdo, a BBC News Brasil encontrou até publicações patrocinadas de candidatos e pessoas ligadas a serviços de campanhas eleitorais declaradas ao TSE.
A Meta anunciou que suspenderá temporariamente "a criação, a edição e a veiculação de todos os anúncios sobre temas sociais, eleições ou política direcionados ao Brasil." A empresa diz que a mudança atende ao acordo feito junto ao TSE.
Parte dos anúncios que colocavam dúvida sobre as urnas também foi removida.
A reportagem partiu de dois levantamentos independentes para analisar o fenômeno das mensagens.
Um deles, do Instituto Democracia em Xeque (DX) identificou 1,3 mil publicações que classifica como ataques à integridade do processo eleitoral entre 15 de agosto e 20 de setembro.
Elas partiram de 873 perfis e somaram mais de 514 mil interações (ou seja: curtidas, comentários e compartilhamentos).
A média, segundo o levantamento, passou de 23 publicações por dia em agosto para quase 50 em setembro. O aumento também aparece nas interações diárias, que passaram de 8,4 mil em agosto para 18,6 mil em setembro.
Apesar do avanço, os ataques representavam uma parcela pequena das publicações políticas analisadas pelo instituto, inferior a 1% do material analisado.
Marcelo Alves, diretor de metodologia e inovação do instituto e professor da PUC-Rio, disse à BBC News Brasil que a persistência dessas mensagens ajuda a manter a suspeita sobre as urnas entre os apoiadores de um grupo político.
Ele descreve esse discurso como uma "salvaguarda discursiva", que pode ser acionada diante de uma derrota eleitoral ou de uma decisão judicial contrária aos interesses do grupo.
Levantamentos recentes têm indicado que uma parcela significativa da população desconfia das urnas.
Em fevereiro deste ano, pesquisa Genial/Quaest apontou que 43% desconfiam do sistema, segundo o jornal Valor Econômico. A maioria dos entrevistados (69%) que dizia desconfiar das urnas votou em Jair Bolsonaro no segundo turno das eleições em 2022, ainda de acordo com a pesquisa.
O outro levantamento feito a pedido da BBC é da Palver, empresa brasileira de tecnologia especializada em monitoramento e análise de redes sociais, que analisou mais de 100 mil mensagens transmitidas em quatro plataformas: WhatsApp, X/Twitter, Instagram e Telegram.
A empresa identificou as mensagens que tratavam de urnas eletrônicas e as classificou entre as que defendiam o sistema, as que o criticavam e as que apenas abordavam o tema.
Neste levantamento, o número de mensagens cresceu, mas a proporção das que desconfiam do sistema eleitoral oscilou para baixo no período analisado. No WhatsApp, por exemplo, passou de 79% para 68% das mensagens mapeadas.
Felipe Bailez, CEO da Palver, atribui parte dessa mudança ao crescimento das mensagens em defesa do sistema eleitoral.
Mas isso não quer dizer que os ataques tenham recuado em todos os lugares.
No X, a fatia de mensagens de desconfiança no total observado pela Palver subiu de 22% para 30%, enquanto a de defesa do sistema cresceu de 4% para 13%.
A presença desses discursos, diz Bailez, reflete a intensidade com que determinados grupos discutem o tema. "Quem desconfia da urna fala mais sobre esse assunto do que quem confia", afirma.
Bailez também identifica uma mudança no alvo das críticas. Na avaliação dele, os questionamentos ao funcionamento das urnas têm perdido espaço para a desconfiança no TSE e em seus ministros, em um debate que se aproxima das críticas ao Supremo Tribunal Federal.
Flávio disse que as máquinas brasileiras têm a mesma origem das urnas da Smartmatic e que um relatório da CIA teria mostrado que a empresa estaria envolvida em um plano de fraude do governo venezuelano nas eleições de 2012.
O TSE já desmentiu sobre o uso de urnas eletrônicas da empresa venezuelana.
Em nota em seu site, publicada originalmente em 2020 e replicada recentemente, o TSE esclareceu que a Smartmatic nunca forneceu urnas eletrônicas ou softwares utilizados em eleições no Brasil.
A campanha de Flávio nega, no entanto, que ele tenha questionado a integridade do sistema de votações no Brasil.
Em 2023, o ex-presidente Jair Bolsonaro, pai de Flávio, foi condenado pelo TSE em situaçào semelhante: em reunião com embaixadores, realizada no Palácio do Planalto em julho de 2022, repetiu suspeitas já desmentidas sobre eleições de 2018 e segurança das urnas eletrônicas.
Este discurso envolvendo a empresa venezuelana continua a ser repetido nas redes sociais e aplicativos de mensagem, mas não é o único.
Entre falas recorrentes estão as "urnas mágicas", a alegação falsa de fraude nas eleições em 2022 e a possibilidade de anulação da eleição ou de uma decisão "no tapetão".
"Lula não tem o povo, só as maquininhas mágicas", escreveu um perfil em 7 de setembro, captado pelo Instituto Democracia em Xeque, com 6,7 mil interações.
Para Alves, do DX, uma característica do debate deste ano é a reciclagem de alegações conhecidas. Afirmações já desmentidas reaparecem associadas a novos acontecimentos, como no caso da Smartmatic, que ele identifica em diferentes ciclos eleitorais.
O pesquisador também aponta uma mudança na linguagem depois das suspensões de contas e das punições relacionadas à eleição de 2022. Na avaliação dele, parte dos usuários passou a insinuar fraude por meio de expressões compreendidas pelos seus seguidores, sem fazer a acusação de forma explícita.
"Eles não vão dizer 'as urnas foram fraudadas', eles vão dizer 'essas caixinhas mágicas que inventam resultado, que mudam o resultado'", afirma.
A BBC News Brasil procurou a assessoria de Flávio Bolsonaro, mas não obteve retorno até o momento.
Crédito,AFP via Getty Images
Legenda da foto,Flávio Bolsonaro disse que as máquinas brasileiras têm a mesma origem das urnas da Smartmatic e que um relatório da CIA teria mostrado que a empresa estaria envolvida em um plano de fraude do governo venezuelano nas eleições de 2012.
'Eu não garanto, tá, gente?'
A BBC News Brasil identificou, na Biblioteca de Anúncios da Meta (dona do Facebook, Instagram e Whatsapp), anúncios pagos que questionam a confiabilidade das urnas eletrônicas.
Um dos casos é da candidata ao Senado pelo PSD no Paraná, Cristina Graeml.
No vídeo, um corte de debate, ela rebate a afirmação de um candidato de que a urna eletrônica é séria: "Eu não garanto, tá, gente?".
"Quando não há possibilidade de auditagem, não há transparência", afirma.
A peça, identificada como propaganda eleitoral e encerrada com um pedido de voto, foi impulsionada de 16 a 18 de setembro e teve mais de 100 mil exibições.
A auditoria de 2014 foi solicitada pelo PSDB. Segundo o TSE, o partido não encontrou evidência de fraude.
A candidata disse, por meio de sua assessoria, que "reconhece que a Justiça Eleitoral dispõe atualmente de diferentes mecanismos de fiscalização e auditoria", mas que "a existência desses procedimentos, contudo, não impede que candidatos, partidos, especialistas e cidadãos defendam seu aperfeiçoamento ou a adoção de mecanismos adicionais de conferência."
Disse que "sua posição é favorável à existência de um registro físico conferível pelo eleitor e passível de auditoria, sempre preservado o sigilo do voto" e que não se trata de denúncia ou afirmação de ocorrência de fraude.
A publicação dela foi removida pela Meta por "não estar em conformidade" com suas normas de publicidade.
Há ainda publicações patrocinadas que defendem o que chamam de "voto auditável".
Um exemplo é do senador e candidato à reeleição pelo Progressistas em Santa Catarina, Esperidião Amin, que patrocinou um post, entre junho e agosto, em que diz que "defender o voto auditável é defender o direito do eleitor de ter segurança no processo."
A publicação foi vista pelo menos 150 mil vezes, segundo a biblioteca de anúncios da Meta.
Amin diz no texto que teve a oportunidade de reforçar essa defesa "como testemunha no julgamento de Anderson Torres, na ação do STF sobre a suposta tentativa de golpe."
Segundo a Polícia Federal, foi encontrada na casa dele uma minuta que sugeria a decretação de estado de Defesa para intervenção após a derrota de Bolsonaro nas eleições. Ele foi condenado a 24 anos de prisão.
O post de Amin também foi removido pela Meta. Procurado, ele não se manifestou.
A defesa do voto impresso já aparecia em outras publicações anteriores ao período eleitoral.
Em maio, Fernanda Barth (PL), hoje candidata a deputada federal pelo Rio Grande do Sul, impulsionou um vídeo em que contesta a segurança do sistema por não imprimir o voto.
Ela rebate uma declaração que atribui à ministra do STF Cármen Lúcia, de que a urna seria "impossível de fraudar":
"Bom, se a Pilili não cospe papelzinho, então essa frase não serve. Ela não é real."
Pilili é o mascote da urna eletrônica apresentado pelo TSE. Segundo a Biblioteca de Anúncios da Meta, o anúncio circulou no Facebook e no Instagram e teve mais de 150 mil exibições.
Os candidatos foram acionados pela BBC News Brasil por meio dos contatos que disponibilizaram em suas redes sociais, mas não responderam até o fechamento desta reportagem. O espaço segue aberto.
"Não é crime simplesmente manifestar dúvidas sobre o sistema eletrônico de votação", afirma Nicolo Zingales, professor da FGV Direito Rio.
Segundo ele, a situação é diferente quando uma publicação apresenta como fato uma informação falsa ou sem comprovação técnica.
Zingales cita como exemplo a alegação de que a urna eletrônica não pode ser auditada: essa afirmação, diz, pode ser verificada nas informações publicadas pelo TSE e, dependendo do caso, levar à remoção do conteúdo e à apuração de responsabilidades.
Crédito,Reprodução
Legenda da foto,Candidata a deputada federal critica mascote das eleições 2026, que avalia como ofensivo
Meta remove posts pagos e suspende novos anúncios
Crédito,Reprodução
Legenda da foto,Meta suspendeu anúncio de candidata ao Senado e outros posts que colocavam dúvida sobre urnas eletrônicas, alegando que não seguem padrões
A propaganda política paga está sujeita a regras específicas do TSE.
As regras exigem que plataformas mantenham uma biblioteca de anúncios políticos com dados sobre conteúdo, gastos, alcance e responsáveis pelo pagamento.
A resolução também estabelece medidas contra a circulação de informações falsas ou gravemente descontextualizadas capazes de atingir a integridade da eleição.
Alves, do DX, defende maior responsabilidade das plataformas pelo conteúdo que distribuem mediante pagamento. Ele destaca que, nesses casos, as empresas também recebem dinheiro para ampliar a circulação dessas mensagens.
A Meta afirma que exige a verificação da identidade dos anunciantes políticos, mantém esses anúncios em sua Biblioteca de Anúncios e remove conteúdos que violem suas regras.
A empresa também anunciou, em resposta à BBC News Brasil, que suspenderá temporariamente a criação, a edição e a veiculação de todos os anúncios sobre temas sociais, eleições ou política direcionados ao país.
A suspensão, diz a empresa, atende ao acordo feito com o TSE.
"Em conformidade com o Artigo 16 da Portaria nº 463/2026/TSE, bem como o Artigo 29, § 11, da Resolução nº 23.610/2019/TSE, a Meta está preparada para implementar as restrições do período de silêncio eleitoral, impedindo que candidatos e partidos veiculem anúncios do tipo SIEP no Brasil com base nos períodos designados pela Regulamentação Eleitoral."
A empresa diz que a medida será aplicada em ambos os turnos de votação, entre 2 e 5 de outubro de 2026 e 23 e 26 de outubro de 2026.
"Durante esses períodos, além de desativar todos os Anúncios SIEP no Brasil, a Meta monitorará anúncios em veiculação no Brasil, através de detecção automatizada e revisão humana, buscando anúncios que possam ter sido criados em violação à nossa política de publicidade SIEP descrita acima e que possam tentar contornar os períodos de silêncio eleitoral."
'Urna eletrônica, você confia?'
Crédito,Reprodução
Legenda da foto,Página de prestador de serviço em campanhas eleitorais publicou vídeos em que questiona se as espectadores confiam na urna eletrônica
Entre 20 e 21 de setembro, uma empresa que presta serviços a candidatos na eleição atual, a GoBuzz Serviços de Internet, pagou para divulgar um vídeo apresentado por seu sócio-administrador, Rafael Bergamo Gonçalves.
A chamada pergunta: "Urna eletrônica, você confia?"
No vídeo, publicado na página Rafa GoBuzz no Facebook em 20 de setembro, ele afirma: "É claro que nenhum sistema é 100%".
Rafael propõe então que a urna imprima o voto e permita ao eleitor conferi-lo.
Ao menos duas campanhas declararam gastos com a empresa GoBuzz ao TSE até o momento: Clau Camargo (PSD-SP), apresenta uma despesa de R$ 11.853 com a agência. A campanha de Jeferson Modesto (PL-SP) declarou outra, de R$ 300.
Não há evidência de participação dos candidatos no anúncio sobre urnas.
Rafael disse à BBC que o vídeo foi uma iniciativa sua, publicada em seu perfil pessoal, "com o objetivo de propor uma discussão sobre segurança, transparência e mecanismos adicionais de conferência do sistema de votação."
Ele afirmou que o impulsionamento não teve "qualquer participação financeira, solicitação ou orientação de clientes."
Reforçou ainda que confia no sistema de votação utilizado atualmente no Brasil e que não tem conhecimento de evidências que o levem a afirmar que as eleições realizadas por meio das urnas eletrônicas tenham sido fraudadas.
"O que defendo é que sistemas de votação devem ser permanentemente aprimorados em seus mecanismos de segurança, proteção, auditoria e transparência. É uma evolução natural de qualquer sistema de segurança", afirma.
A candidata Clau Camargo disse, em nota, que confia "plenamente no funcionamento legal das urnas eletrônicas e não se responsabiliza por declarações de terceiros sobre o tema."
A reportagem procurou o candidato Jeferson Modesto, mas não obteve resposta até o momento.
TSE contesta necessidade de voto impresso
Crédito,Valter Campanato/ Agência Brasil
Legenda da foto,TSE faz demonstração de como votar na urna eletrônica na Rodoviária de Brasília
O TSE contesta a necessidade de voto impresso.
O tribunal diz que a votação no Brasil é um processo "plenamente auditável" e que a adoção do voto impresso não é necessária nem viável.
O tribunal reforça que a urna não tem nenhum tipo de conexão com a internet ou rede de dados.
Em uma entrevista publicada em agosto de 2026 no site do próprio TSE, o secretário de Tecnologia da Informação Júlio Valente diz que, em 30 anos, nunca surgiu evidência de fraude no processo eleitoral, diferentemente do modelo de votação por meio de cédulas de papel, que existia antes.
"No modelo de votação por cédula, nós temos casos comprovados e historizados de fraudes no processo de coleta", disse.
"Quando as urnas eletrônicas foram incluídas em 1996, desde então, nós não temos nenhum caso de fraude em nenhum desses processos."
Em nota à BBC News Brasil sobre as publicações citadas na reportagem e nos levantamentos de dados, o TSE disse que "não cabe ao Tribunal antecipar interpretações sobre a norma ou se manifestar sobre casos concretos."