SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

The Guinea Pig Generation: Born Into the Algorithm | Gen Z | ENDEVR Documentary


 

A curiosa linha do tempo da evolução da Inteligência Artificial


 

El Futuro de la Humanidad | El Lado Oculto de la Ciencia China


 

O que a energia nuclear pode aprender com megaprojetos.


 O que a energia nuclear pode aprender com megaprojetos.

Aplicando disciplina comprovada de entrega em escala nuclear. A energia nuclear frequentemente se posiciona como excepcional – e, de muitas formas, é. Mas o setor também possui décadas de lições disponíveis em grandes programas nos setores ferroviário, aviação, escavação de túneis, petróleo e gás, e manufatura em grande escala. 1. Clareza front-end Programas de alto desempenho bloqueiam escopo, sequência e interfaces desde cedo. Uma definição forte de front-end é o maior preditor de resultados previsíveis. 2. A capacidade da cadeia de suprimentos deve ser construída cedo Megaprojetos que têm sucesso investem na prontidão dos fornecedores anos antes do primeiro concreto. Qualificação precoce, visibilidade a longo prazo e força de trabalho estável são o que cria uma cadeia de suprimentos capaz de entregar resultados rapidamente. 3. Industrialização desde o primeiro dia Megaprojetos bem-sucedidos constroem sistemas de produção estáveis desde cedo – congelamento de projetos, pacotes de trabalho repetíveis, fornecedores qualificados e mudanças controladas. 4. Disciplina na tomada de decisão Os melhores programas tratam a governança como um sistema de produtividade: propriedade clara, caminhos curtos e rápida escalada. A disciplina de decisão é uma vantagem competitiva. 5. Governança é uma ferramenta de produtividade Megaprojetos de alto desempenho tratam a governança como um design: direitos claros de decisão, caminhos curtos de escalonamento e uma única fonte de verdade. A energia nuclear não precisa reinventar os fundamentos da entrega de grandes programas. Precisa adotá-las com o mesmo rigor que outros setores já têm – e então adicionar segurança, regulamentação e qualidade específicas para o nuclear.

A Estratégia de Segurança em Doze Mapas Geopolíticos


 Estamos vivendo uma transição estratégica em que as avaliações geopolíticas envelhecem quase em tempo real. O que parecia estável há apenas alguns meses agora está sendo recalculado sob a pressão da competição acelerada entre grandes potências.


Um dos marcos mais convincentes continua sendo o relatório do Conselho de Geoestratégia "O Mundo da Grã-Bretanha: A Estratégia de Segurança em Doze Mapas Geopolíticos". Seu conceito de "Zonas de Crunch" é especialmente relevante hoje, destacando regiões onde geografia, rotas comerciais, segurança energética e postura militar se cruzam sob constante atrito estratégico.

O Oceano Índico se destaca como um dos teatros mais subestimados do século XXI. Embora grande parte do foco internacional permaneça voltada para o Pacífico, o Oceano Índico está se tornando cada vez mais a artéria conectora do comércio global, fluxos de energia, logística naval e projeção de poder. Do Estreito de Ormuz ao estrangulamento de Malaca, instabilidade ou competição nesse corredor marítimo teria consequências globais imediatas.

🇮🇳 A ascensão de #India como grande potência inevitavelmente remodelará a arquitetura estratégica do Indo-Pacífico, com maior ênfase no litoral do Oceano Índico e suas redes insulares ao redor. Paralelamente, territórios controlados ou influenciados pela França, Reino Unido, Austrália e parceiros aliados podem ganhar valor operacional renovado para sustentação, vigilância e alcance expedicionário.

🏝️A incerteza de longo prazo em torno de #DiegoGarcia também reforça uma realidade mais ampla: a infraestrutura estratégica de ilhas do outro lado do Oceano Índico pode em breve se tornar nós indispensáveis para dissuasão, logística, coleta de inteligência e domínio marítimo.

* Um lembrete oportuno de que a competição futura pode não ser decidida apenas no Pacífico, mas através do cruzamento marítimo que liga a África, o Oriente Médio, o Sul da Ásia e o Sudeste Asiático.

O mais impressionante desse ranking não é o Brasil estar em 1º. É a distância para os outros países.


 O mais impressionante desse ranking não é o Brasil estar em 1º. É a distância para os outros países.

Mesmo com logística cara, juros altos e infraestrutura precária, o Brasil virou a maior potência exportadora de alimentos do planeta. 🌎 Isso aconteceu porque o país combina escala territorial, alta produtividade tropical e décadas de evolução tecnológica no campo. E talvez exista uma lição importante aí: o agro construiu um dos setores mais competitivos do mundo com foco em inovação, eficiência, tecnologia e escala. Tudo o que em geral falta em nossa economia. 📈 O Brasil ainda tem muito a aprender dentro de casa com o próprio agro.

Os agricultores mais velhos sabiam prever a chuva sem nenhum aplicativo


 

Os agricultores mais velhos sabiam prever a chuva sem nenhum aplicativo — e os sinais que eles usavam ainda funcionam hoje, validados pela meteorologia moderna.


As andorinhas voando baixo são o sinal mais confiável: quando a pressão barométrica cai antes de uma frente de chuva, os insetos voam mais perto do solo e as andorinhas, que os caçam em pleno voo, descem com eles. A variação de altitude é observável horas antes da chuva chegar.

As formigas vedando as entradas do formigueiro foram documentadas em estudos de comportamento animal como resposta a variações de umidade detectadas até 6 horas antes de precipitação.

O pissenlit que fecha o capítulo durante o dia — normalmente aberto com luz — está respondendo ao aumento de umidade relativa do ar que precede a chuva.

Esses não são folclore. São padrões de comportamento animal e vegetal calibrados ao longo de milhões de anos de adaptação a condições climáticas.

Como o pó de rocha e os fungos auxiliam os 🌳 🦠 ecossistemas florestais acidificados


 

Como o pó de rocha e os fungos auxiliam os 🌳 🦠 ecossistemas florestais acidificados

🔎 A acidificação do solo devido à deposição de nitrogênio esmaga redes vitais de ectomicorrízica (EcM), mas a intemperização por silicato pode desbloquear um ciclo biológico recíproco que restaura a resiliência das florestas. 🟫 A meteorização aprimorada por silicato (por meio da aplicação de poeira de rocha silicatada) atua como um tampão químico de liberação lenta, elevando gradualmente o pH do solo sem os choques ecológicos disruptivos provocados pelo liming convencional de dolomita. 🧪 Neutralizar a toxicidade do alumínio restaura as razões críticas de cátions base, transferindo o solo hostil e acidificado de volta para um ambiente rico em nutrientes onde fungos benéficos podem sobreviver. 🦠 Restabelecer redes fúngicas permite que a colonização radicular do EcM dispare de 25% debilitados para robustos 95%, reconstruindo a principal linha vital da árvore para aquisição de nutrientes. ⛏️ A mineração biológica recíproca cria um poderoso ciclo de retroalimentação onde fungos recuperados secretam ácidos orgânicos para intemperizar ativamente a poeira de rocha aplicada, acelerando a liberação de seus próprios nutrientes. 🌍 A estabilização do carbono orgânico do solo (SOC) transforma o solo da floresta em um ativo climático de longo prazo, já que minerais secundários alterados se complexificam com matéria orgânica para prender o carbono permanentemente. Imagem: estrutura conceitual dos efeitos da aplicação de pó de rocha silicato em solos florestais ácidos e pouco ammortificados (créditos: Rombouts et al. 2026; DOI:10.1038/s43247-026-03592-y; modificado).

O livro que deu origem a filme com Wagner Moura e conta a história que levou ao indiciamento de Raúl Castro

 

Raúl Castro e Fidel Castro

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Raúl Castro foi ministro da Defesa de Cuba, sob a presidência de seu irmão Fidel Castro
    • Author,Luiz Antônio Araujo
    • Role,De Porto Alegre para a BBC News Brasil
  • Published
  • Tempo de leitura: 7 min

A crise que resultou no indiciamento do ex-presidente de Cuba Raúl Castro, 94 anos, pelos Estados Unidos, na semana passada, é o pano de fundo para um livro-reportagem filmado para o streaming com o ator brasileiro Wagner Moura em um dos papéis centrais.

Publicado em 2011, Os últimos soldados da Guerra Fria, do também brasileiro Fernando Morais, revela uma trama emoldurada pela tensão diplomática e militar entre Washington e Havana que se seguiu ao fim da União Soviética.

A escalada teve um de seus pontos culminantes no dia 24 de fevereiro de 1996, quando um jato MIG-29 da Força Aérea Cubana, derrubou dois aviões bimotores Cessna 337 de um grupo anticastrista sobre o Estreito da Flórida no dia 24 de fevereiro de 1996.

Os quatro tripulantes das duas aeronaves (três americanos de origem cubana e um cubano com visto permanente de residência nos Estados Unidos) morreram, enquanto uma terceira conseguiu escapar.

Na época, Raúl Castro era ministro da Defesa de Cuba, sob a presidência de seu irmão Fidel Castro (1926-2016). Agora, 30 anos depois, Raúl e outros cinco cubanos foram indiciados em uma corte federal da Flórida por suspeita de homicídio e destruição das duas aeronaves.

Em entrevista por telefone à BBC News Brasil, o escritor Fernando Morais recorreu a sua condição de "autor de livro e consultor de filme" sobre o assunto para justificar o "espanto" com a medida contra Raúl Castro.

Prestes a completar 80 anos no próximo dia 22 de julho, dos quais 50 dedicados à cobertura jornalística de assuntos cubanos, o jornalista e escritor atribuiu a decisão de uma juíza federal da Flórida a "mais uma manifestação delirante do presidente [Donald] Trump".

13 anos para escrever

Nono livro de Morais, Os últimos soldados é também um ponto fora da curva em sua obra.

As reviravoltas na produção do relato, que quase não chegou às prateleiras por falta de recursos do autor para concluí-lo, assemelham-se às da própria narrativa.

Observador atento da realidade do país ao qual consagrou seu primeiro título, A ilha (1976), Morais virou sua atenção para o caso pela primeira vez em 1998. A bordo de um táxi, ele ouviu pelo rádio a notícia da prisão de cinco cubanos acusados de espionagem nos Estados Unidos.

O sinal verde para consultar arquivos cubanos do caso ocorreu apenas em 2005, quando Fernando Moraes estava às voltas com O mago, biografia do romancista Paulo Coelho.

Legenda do vídeo,Como EUA e Cuba se envolveram numa disputa histórica

O início efetivo do trabalho só ocorreria três anos depois, quando o jornalista teve tempo e recursos de sua editora, Companhia das Letras, para uma série de viagens a Cuba e Estados Unidos.

No meio da investigação, o trajeto São Paulo-Havana-Miami consumiu todo o dinheiro.

Os últimos soldados da Guerra Fria só veio a lume graças à compra do argumento para o cinema pelo produtor Rodrigo Teixeira, que também co-produziria Ainda estou aqui (2024).

A providencial venda de direitos para a tela grande custeou a conclusão do livro. A obra revela Morais no auge de seus poderes de narrador, capazes de conduzir o leitor por uma magistral reportagem histórica em ritmo de thriller.

Meses antes do lançamento, o autor recebeu a ligação de um repórter que acabara de ler a prova de divulgação do livro distribuída pela editora.

"Fernando, o seu livro é do...", disse-lhe o interlocutor, completando a frase com o célebre palavrão à brasileira.

A reação do escritor foi uma sonora gargalhada.

"Vou responder a você com as mesmas palavras que [o dramaturgo] Nelson Rodrigues disse a José Lino Grunewald [tradutor] ao encontrá-lo na rua e ouvir dele um comentário parecido com o seu sobre uma peça: 'O senhor escreva o que está dizendo, o senhor assine e o senhor publique'."

Wagner Moura

Crédito,Reprodução

Legenda da foto,O ator Wagner Moura no papel de Juan Pablo Roque em Wasp Network

Em 2019, Wasp Network: rede de espiões, co-produção franco-belgo-hispano-brasileira estreou no Festival de Cinema de Veneza. O filme é dirigido pelo francês Olivier Assayas e tem os astros Wagner Moura, Gael García Bernal, Penélope Cruz e Ana de Armas no elenco.

No ano seguinte, o filme passou a fazer parte do catálogo da Netflix.

Com três obras adaptadas para o cinema (OlgaChatô, o Rei do Brasil e Corações sujos), o escritor atuou como consultor histórico de Wasp network: rede de espionagem.

Derrubada de aviões

Apesar de marcante em Os últimos soldados, o abate dos aviões está longe de ocupar posição central no livro.

O episódio é narrado no oitavo dos 15 capítulos da obra, quando a trama de espionagem, ameaças e cerco de três vértices – o regime cubano, as administrações de quatro presidentes norte-americanos e o ecossistema anticastrista de direita da Flórida – está bem avançado.

O objetivo de Morais era contar a história de personagens aos quais o noticiário atual quase não faz referência: os agentes cubanos que inspiraram o título do livro, infiltrados pela inteligência do país nos grupos de oposição baseados nos Estados Unidos.

A narrativa começa por seguir os passos de dois oficiais cubanos, René Gonzalez e Juan Pablo Roque, que desertam em momentos distintos para os Estados Unidos em meio ao colapso econômico da ilha após o fim da União Soviética.

De tão prosaicas, as fugas não despertam suspeitas: enquanto Gonzalez rouba um avião da base aérea onde serve, Roque viaja de ônibus até as proximidades da base americana de Guantánamo e nada até os muros da instalação.

Na Flórida, os dois não têm dificuldade em aproveitar a formação como pilotos para integrar-se a grupos anticastristas que sobrevoam Cuba em desafio às autoridades da ilha.

Protesto de exilados cubanos na Flórida.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,A queda dos aviões em fevereiro de 1996 provocou protestos de exilados cubanos na Flórida.

As organizações também patrocinam ataques a turistas e hotéis e transportam drogas para os Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, Gonzalez e Roque tornam-se informantes do FBI, a polícia federal americana, à qual fornecem pistas sobre as atividades dos bandos da Flórida que contrariam as leis americanas.

Os policiais mantêm os desertores sob estrita vigilância, suspeitando de que sejam o que finalmente revelarão ser: espiões a serviço de Havana.

A Rede Vespa, da qual fazem parte os dois pilotos e outros 12 operadores em solo americano, acabará desbaratada pelas autoridades, e cinco de seus integrantes – incluindo Gonzalez – serão presos e condenados.

Em Cuba, para onde regressarão entre 2013 e 2014 por meio de uma troca de prisioneiros, os chamados Cinco Cubanos são cultuados como heróis.

A derrubada

Contariando a justiça americana, a Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), para os quais o abate deu-se fora do espaço aéreo territorial cubano, Morais sustenta a versão de Havana de que a derrubada ocorreu no interior desse perímetro.

Nenhuma das perícias e inquéritos sobre o caso conseguiu estabelecer com precisão a posição das aeronaves no momento em que foram atingidas pelos mísseis disparados pelo MIG-29.

Durante ao menos um ano antes do incidente, porém, o governo cubano havia endereçado múltiplos protestos por violação de espaço aéreo por aviões oriundos da Flórida junto às autoridades americanas.

Os órgãos de aviação civil dos Estados Unidos, por seu turno, tinham advertido o grupo Irmãos pelo Resgate, ao qual pertenciam os aparelhos alvejados, por atitudes "provocativas".

Na prática, o episódio de fevereiro de 1996 obrigou Washington a proibir definitivamente os voos dos grupos anticastristas sobre Cuba, atendendo, assim, à principal reivindicação do regime de Havana.

Morais afirma que cogitou pedir à CIDH a reabertura das averiguações do caso com base em seu livro, mas desistiu em razão do esgotamento de prazos legais.

"Não me surpreenderá se [os Estados Unidos] tentarem fazer alguma coisa semelhante ao que fizeram em Caracas. O que eu tenho segurança, pelo que conheço deles [os cubanos], é que o resultado não será semelhante", diz o escritor, aludindo à captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro por forças especiais americanas, em janeiro.

Raúl e Fidel

O escritor relembra que Os últimos soldados propiciou seu último encontro com os irmãos Castro, em Havana.

"Foi um mês antes do falecimento do comandante Fidel [ocorrido em 25 de novembro de 2016]", afirma.

De passagem pela capital cubana para o lançamento da edição cubana do livro, Morais foi à residência de Raúl, então presidente do país, para presenteá-lo com a obra.

"Ele [Raúl] atendeu uma chamada no telefone celular. Era o irmão mais velho [Fidel]. Disse-me: 'Está se queixando de que você não foi levar o livro para ele'."

O autor, que não procurara Fidel em razão das notícias sobre sua saúde precária, retornou ao hotel para apanhar um exemplar e levá-lo ao líder nonagenário, a quem encontrou lúcido, apesar da postura encurvada.

"Pode-se dizer que era um velhinho", recorda-se.

Em alguns minutos de visita, segundo Morais, Fidel disse-lhe que pretendia ler o livro, sobre o qual ouvira comentários positivos.

A visita seguinte do escritor a Cuba ocorreu dois meses depois, em companhia dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, para o funeral de Fidel, morto em 26 de novembro de 2016.

Mudança de Regime como Negócio Americano: Imobiliário, Big Techs e Petróleo — De Kinzer a Trump e Bolsonaro . Por Egidio Guerra




Introdução: O Século Americano da Troca de Regimes 

Quando o presidente Donald Trump declarou, após a captura de Nicolás Maduro por forças especiais norte-americanas, que os Estados Unidos "agora iriam administrar a Venezuela" — incluindo seu abundante petróleo — ele não estava inaugurando uma nova era da política externa. Estava, na verdade, reproduzindo um padrão centenário. Como documenta o jornalista Stephen Kinzer em OverthrowAmerica's Century of Regime Change from Hawaii to Iraq, "mudança de regime não começou com a administração de George W. Bush, mas tem sido parte integrante da política externa dos EUA por mais de cem anos". Desde a derrubada da monarquia havaiana em 1893 até a invasão do Iraque em 2003, os Estados Unidos depuseram catorze governos estrangeiros que "se interpunham no caminho de seus objetivos políticos e econômicos". 

O que Kinzer revela — e que este texto pretende aprofundar — é que por trás do discurso de "democracia", "liberdade" e "segurança nacional", sempre existiram interesses econômicos concretos: petróleo, terras, mercados, recursos minerais estratégicos e, mais recentemente, o controle de dados e da economia digital. O século XXI assistiu a uma sofisticação desse modelo: a mudança de regime tornou-se um negócio multifacetado que combina intervenção militar, sanções econômicas, guerra híbrida, pressão diplomática e, crucialmente, acordos comerciais que beneficiam diretamente empresas americanas — do setor imobiliário às Big Techs, da indústria do petróleo ao mercado de terras raras. 

Este texto analisa, a partir da matriz teórica de Kinzer e de outros pesquisadores acadêmicos e jornalísticos, como a política de mudança de regime se tornou um mecanismo de acumulação de capital para elites americanas e seus aliados. Os casos da Venezuela, Palestina, Irã, Cuba e Brasil serão examinados à luz desse paradigma, com especial atenção ao papel da família Bolsonaro na articulação de interesses econômicos com a agenda geopolítica dos EUA, envolvendo a venda de terras raras, a exploração da Amazônia e a interferência das Big Techs na soberania brasileira. 

 

Parte I: Overthrow — O Século de Intervenção por Interesses Econômicos 

A Tese Central de Kinzer: Negócios Acima da Democracia 

Publicado originalmente em 2006, Overthrow narra as operações de mudança de regime promovidas pelos EUA ao longo de três eras distintas: a era imperial (que subjugou Cuba, Porto Rico, Filipinas, Nicarágua e Honduras); a era da Guerra Fria (que utilizou ação encoberta contra Irã, Guatemala, Vietnã do Sul, Brasil e Chile); e a era das invasões (que viu tropas americanas derrubando governos em Granada, Panamá, Afeganistão e Iraque). 

Kinzer demonstra que, em praticamente todos os casos, os motivos declarados — contenção do comunismo, defesa dos direitos humanos, luta contra o terrorismo — serviram de fachada para interesses corporativos. As grandes empresas americanas, com seus lobbies em Washington, foram protagonistas ativas dessas intervenções. Como resume o próprio Kinzer, "nenhuma nação na história moderna fez isso tantas vezes, em tantos lugares tão distantes de suas próprias costas". 

A crítica acadêmica ao trabalho de Kinzer, no entanto, aponta que sua abordagem, embora rigorosa na documentação, por vezes subestima as motivações geopolíticas e ideológicas que também moldaram essas intervenções. Oliver Stuenkel, pesquisador da Carnegie Endowment for International Peace, observa que a operação contra a Venezuela em 2026 representa uma "ruptura acentuada" em relação às operações anteriores, refletindo não mais motivações da Guerra Fria ou idealismo democrático, mas sim "interesses econômicos e estratégicos nus e crus". 

Os Casos Clássicos: Petróleo, Frutas e Terras 

O Irã de 1953 é paradigmático. Quando o primeiro-ministro democraticamente eleito Mohammad Mosaddegh nacionalizou a indústria do petróleo iraniana, a CIA e o MI6 britânico organizaram o golpe que o depôs. Como resultado, "sete empresas americanas conhecidas como as 'Sete Irmãs' (incluindo Exxon e Mobil) assumiram o controle" das operações petrolíferas do país, consolidando um consórcio liderado pelos EUA. O xá, instalado no poder, estabeleceu uma ditadura brutal com a temível SAVAK, mas permaneceu incondicionalmente pró-americano. 

A Guatemala (1954) foi derrubada porque o presidente Jacobo Árbenz ousou redistribuir terras da United Fruit Company aos camponeses. O Chile (1973) sofreu o golpe contra Salvador Allende porque a nacionalização do cobre ameaçava os interesses da Anaconda e da Kennecott. O Iraque (2003), como apontam análises contemporâneas, foi invadido sob o pretexto de armas de destruição em massa, mas logo se revelou uma guerra pelo controle do segundo maior estoque de petróleo do mundo — 112 bilhões de barris — e pela ruptura do cartel da OPEP. Documentos vazados da administração Bush mostraram que os EUA planejavam colocar todo o petróleo iraquiano sob controle de um fundo fiduciário administrado pelos EUA e seus aliados até que um "governo iraquiano adequadamente constituído" fosse instalado. 

 

Parte II: Venezuela — O Petróleo como Prêmio de Guerra 

Décadas de Pressão sobre a Riqueza Petrolífera 

A captura de Nicolás Maduro por forças especiais americanas em janeiro de 2026 representou o desfecho de uma longa história de confronto entre os EUA e o nacionalismo petrolífero venezuelano. A Venezuela possui as maiores reservas de petróleo do mundo — 303 bilhões de barris, superando a Arábia Saudita, cerca de 20% das reservas globais. Empresas americanas, incluindo a Standard Oil, desempenharam um papel fundamental no lançamento e na sustentação do boom do petróleo venezuelano a partir da década de 1910. 

No entanto, quando a Venezuela começou a afirmar o controle sobre seu principal recurso — ingressando na OPEP em 1960 e nacionalizando a indústria em 1976 — as relações com os EUA se deterioraram. A administração Trump impôs sanções ao setor de petróleo venezuelano a partir de 2017, proibindo transações com o governo e a PDVSA e congelando ativos. 

O Discurso da "Tomada Roubada" e a Intervenção Militar 

Após a captura de Maduro, Trump declarou que os EUA "construíram a indústria petrolífera da Venezuela com talento, esforço e habilidade americanos, e o regime socialista a roubou de nós". Empresas americanas estavam "prontas para investir bilhões para modernizar a infraestrutura petrolífera em ruínas da Venezuela" e "começar a ganhar dinheiro para o país". A linguagem é reveladora: não se tratava de ajudar a Venezuela, mas de retomar algo que os EUA consideravam seu por direito. 

A acadêmica Oliver Stuenkel, da Carnegie Endowment, observa que o plano para a Venezuela representou um "afastamento acentuado das operações de mudança de regime das oito décadas anteriores" dos EUA, substituindo motivações ideológicas por interesses econômicos explícitos. O petróleo venezuelano, agora, seria administrado diretamente pelos EUA — uma forma contemporânea de imperialismo de recursos. 

 

Parte III: Palestina — O Conflito como Negócio Imobiliário 

"Nada Mais do que uma Disputa Imobiliária" 

A caracterização mais brutal e reveladora do conflito israel-palestino veio do próprio Donald Trump, que certa vez descreveu a questão árabe-israelense como "nada mais do que uma disputa imobiliária entre israelenses e palestinos". A frase, chocante em sua simplificação, captura uma dimensão frequentemente negligenciada do conflito: sua natureza como uma transferência massiva de propriedade territorial, mediada por empresas imobiliárias americanas que lucram com a colonização da Cisjordânia. 

Empresas Americanas Lucrando com Terras Palestinas 

A imprensa investigativa tem documentado como empresas imobiliárias americanas estão ativamente envolvidas na venda de terras palestinas ocupadas. A revista The Nation revelou, em agosto de 2025, que "enquanto a Cisjordânia é dividida em assentamentos ilegais, empresas imobiliárias americanas estão ansiosas para lucrar". Uma rede de empresas especializadas vende terras palestinas a cidadãos americanos, facilitada por uma lei israelense de 1950 que permite que qualquer judeu adquira automaticamente cidadania em Israel, tornando a compra de terras ocupadas mais fácil para compradores norte-americanos. 

Feiras imobiliárias que anunciam propriedades à venda nos territórios ocupados são realizadas regularmente em cidades americanas, incluindo Nova York. Em maio de 2026, um desses eventos ocorreu em uma sinagoga no Brooklyn, exibindo terrenos em assentamentos como Kfar EldadKarnei Shomron e Gush Etzion — todos considerados ilegais sob o direito internacional. As vendas são descritas como "consideradas ilegais segundo o direito internacional". 

O Plano Kushner e a "Oportunidade de Desenvolvimento" 

Jared Kushner, genro e ex-assessor de Trump, elaborou um plano de 20 pontos para Gaza que, segundo analistas, visa transformar o enclave devastado em uma "oportunidade de desenvolvimento imobiliário" pós-genocídio. O plano, endossado pelo Conselho de Segurança da ONU, prevê que Israel anexe todos os seus assentamentos na Cisjordânia, concedendo aos palestinos um estado "semi-contíguo" no território remanescente. Como escreveu o acadêmico Juan Cole, "quando o bombardeio de Gaza finalmente cessar, a administração dos EUA promoverá a oportunidade de desenvolvimento imobiliário pós-genocídio". 

Empresas imobiliárias americanas, portanto, não são apenas testemunhas passivas da ocupação — são participantes ativas, lucrando diretamente com a expropriação de terras palestinas. A Palestina tornou-se, assim, um mercado imobiliário onde vidas humanas e direitos nacionais são subordinados aos interesses de incorporadoras e investidores. 

 

Parte IV: Irã — O Retorno de 1953 

A Recorrência Histórica 

O Irã de 2026 não é diferente do Irã de 1953. Como escreve o Daily Mirror, "o presidente Donald Trump quer uma mudança de regime em Teerã pela mesma razão que o primeiro-ministro Mossadegh foi derrubado em 1953, e essa razão é o petróleo". O secretário de Estado Marco Rubio, em declarações que revelam a natureza da nova ordem mundial sob Trump, não escondeu que o objetivo é garantir "controle total sobre o petróleo iraniano e enfraquecer a China, que obtém 90% de seu combustível do Irã". 

O Petróleo Como Moeda de Troca 

Após o golpe de 1953, as "Sete Irmãs" petrolíferas americanas receberam uma participação de 40% na nova Companhia Nacional de Petróleo do Irã. O xá, reinstalado no poder, estabeleceu uma ditadura que comprava armas americanas em volumes massivos, mas nunca recebeu metade dos lucros do petróleo. O padrão que se desenha para um eventual Irã pós-regime é o mesmo: acesso privilegiado para empresas americanas, subordinação econômica e a perpetuação de uma estrutura de extração de riquezas que beneficia acionistas em Nova York e Houston, não o povo iraniano. 

 

Parte V: Cuba — O Retorno ao Status de Estado Cliente 

De Colônia Americana a Estado Socialista, e de Volta? 

A história das relações EUA-Cuba é a história do imperialismo americano em sua forma mais explícita. De 1898 a 1959, "o governo americano essencialmente administrou Cuba como uma colônia dentro de seu império". Os americanos decidiram repetidamente quem ocuparia o palácio presidencial, enquanto políticos cubanos protegiam investimentos americanos e apoiavam a supremacia dos EUA no Caribe. A máfia americana administrava os hotéis e o jogo. 

A revolução de 1959 e a nacionalização de todas as empresas americanas — sem compensação financeira — puseram fim a esse arranjo. Agora, Trump pretende reverter esse legado. A administração Trump impôs um embargo de petróleo que "pode empurrar Cuba para a pior crise econômica de sua história". O governo dos EUA quer que o presidente Díaz-Canel deixe o país e "permita investimentos americanos em Cuba, particularmente de cubano-americanos, o que tem sido proibido há muito tempo". 

A "Solução Venezuela" para Cuba 

Trump e o secretário de Estado Rubio parecem determinados a promover uma mudança de regime em Cuba, uma abordagem de "ruptura acentuada" em relação à política dos EUA desde a Guerra Fria. O objetivo declarado é transformar Cuba em "algo menos do que uma nação soberana e mais parecido com um estado cliente americano". O modelo é a Venezuela pós-Maduro: intervenção, derrubada do governo, e reabertura da economia para empresas americanas. Cuba, com sua localização estratégica a apenas 145 quilômetros da Flórida, seus recursos naturais e seu mercado potencial, é vista como um prêmio geoeconômico demasiado valioso para ser deixado nas mãos de um regime que não se alinha com os interesses corporativos americanos. 

 

Parte VI: Brasil — Big Techs, Terras Raras e a Face Contemporânea da Mudança de Regime 

O Lobby das Big Techs e a Guerra Comercial de Trump 

O Brasil oferece o exemplo mais sofisticado e contemporâneo de como a "mudança de regime" deixou de ser apenas sobre derrubar governos e passou a incluir a reconfiguração de ambientes regulatórios para beneficiar corporações americanas — sem necessariamente trocar o governo, mas pressionando-o até que ele se submeta. 

Em julho de 2025, Trump impôs uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros e iniciou uma investigação comercial contra o país sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. A investigação visava as práticas brasileiras em comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais, fiscalização anticorrupção, proteção de propriedade intelectual e desmatamento ilegal. 

O que pouca mídia noticiou é que por trás dessa pressão estava um poderoso grupo de lobby financiado pelas maiores empresas de tecnologia dos EUA: Google, Meta, Microsoft, Amazon, Uber, Apple, Pinterest e eBay. A Computer and Communications Industry Association (CCIA) compilou, em outubro de 2024, um relatório detalhando todas as ações do governo e do legislativo brasileiro que iam contra os interesses das Big Techs — desde a suspensão do X (antigo Twitter) até a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e a chamada "taxa das blusinhas" sobre compras internacionais. O relatório foi apresentado ao Departamento de Comércio dos EUA. 

Minutos após Trump anunciar as tarifas e a investigação, a CIA publicou uma nota aplaudindo a iniciativa: "A CIA acolhe a atenção da administração para as barreiras do Brasil às exportações digitais dos EUA". A investigação, portanto, não era sobre comércio justo — era sobre garantir que o Brasil não pudesse regular empresas americanas que operam em seu território. 

Flávio Bolsonaro e a Articulação Pró-EUA 

Dentro do Brasil, a família Bolsonaro tem atuado como elo entre interesses americanos e a política doméstica. Em março de 2026, o senador Flávio Bolsonaro discursou na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC) no Texas, defendendo o fortalecimento das relações entre Brasil e EUA, com ênfase especial nos minerais de terras raras. Bolsonaro destacou "o potencial do Brasil como fornecedor estratégico de minerais de terras raras para os EUA", citando a dependência excessiva americana da China, que fornece cerca de 70% desses materiais cruciais. 

A mensagem de Bolsonaro foi explícita: o Brasil poderia se tornar "um aliado regional significativo ou alinhar-se contra os interesses dos EUA". Em outras palavras, a aliança com Washington vinha condicionada à abertura da economia brasileira para suprir as necessidades estratégicas americanas. Ele também criticou o presidente Lula por suas "alegadas afiliações com grupos contrários aos valores americanos" e endossou Trump, acreditando que ele "reconheceria o status leal do Brasil". 

A Disputa pelas Terras Raras da Amazônia 

Os minerais de terras raras são essenciais para a produção de smartphones, computadores, baterias de veículos elétricos, turbinas eólicas, mísseis e equipamentos de defesa. A China domina atualmente o mercado, processando cerca de 90% dos minérios de terras raras do mundo. O Brasil possui uma das maiores reservas do planeta, mas historicamente tem exportado o minério bruto, sem agregação de valor em território nacional. 

O senador Flávio Bolsonaro defende "permitir que empresas e países estrangeiros participem do desenvolvimento de recursos de terras raras do Brasil, com ênfase na transferência de tecnologia como condição central". A proposta é, na prática, abrir o subsolo brasileiro para exploração direta por empresas americanas — algo que ecoa as políticas de "portas abertas" impostas pelos EUA a outros países ao longo do século XX. 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em posição oposta, tem defendido que os minerais de terras raras sejam processados em solo brasileiro antes de serem exportados. Em reunião com Trump, Lula afirmou que "nenhum minério deixaria o Brasil em estado bruto — qualquer minério que saísse do país deveria ser processado e refinado em solo brasileiro". Lula também recusou a criação de um "clube exclusivo" de acesso às reservas, afirmando que "estamos abertos à China e a todos os países dispostos a processar nossos minerais em nosso território". A posição de Lula representa uma resistência à lógica de extração neocolonial que a família Bolsonaro parecia disposta a aceitar. 

Amazônia, Desmatamento e Pressão Comercial 

A investigação comercial de Trump também incluiu, explicitamente, a questão do desmatamento ilegal na Amazônia — mas não por razões ambientais genuínas. Como reportou a China Daily, "as tensões aumentaram acentuadamente desde que Trump retornou ao cargo em janeiro de 2025. Além de tarifas punitivas de até 50%, os EUA também interferiram nos assuntos internos do Brasil, inclusive pressionando o judiciário para não atingir aliados e seguidores do ex-presidente Bolsonaro". 

O uso do desmatamento como alavanca comercial revela a lógica da "condicionalidade": os EUA não estão preocupados com a floresta, mas com a capacidade de usar o tema como instrumento de pressão para garantir outras concessões — entre elas, o acesso irrestrito das Big Techs ao mercado brasileiro e a abertura da exploração de terras raras. 

 

Parte VII: A Face Contemporânea da Mudança de Regime — Negócios sem Tropas 

A Sofisticação do Modelo 

O que os casos da Venezuela, Palestina, Irã, Cuba e Brasil revelam é que a "mudança de regime" contemporânea raramente depende apenas de invasões militares ou golpes de Estado — embora esses ainda ocorram, como na Venezuela. O modelo atual combina múltiplas ferramentas: 

  1. Sanções econômicas que asfixiam economias inteiras e criam crises humanitárias, minando a legitimidade de governos (Cuba, Venezuela, Irã). 

  1. Pressão comercial e tarifária para reconfigurar ambientes regulatórios em favor de corporações americanas (Brasil, com o lobby das Big Techs). 

  1. Intervenção militar seletiva para remover líderes considerados hostis (Venezuela, potencialmente Irã e Cuba). 

  1. Cooptação de elites locais dispostas a atuar como intermediárias de interesses estrangeiros (Flávio Bolsonaro e o discurso pré-abertura econômica). 

  1. Instrumentalização de temas ambientais e de direitos humanos como alavancas de pressão geopolítica (a inclusão do desmatamento na investigação comercial contra o Brasil). 

Críticas Acadêmicas e Limitações do Modelo 

O paradigma da "mudança de regime como negócio" não está isento de críticas. Oliver Stuenkel, ao analisar a operação na Venezuela, argumenta que o plano representa "um afastamento acentuado" das operações das oito décadas anteriores, refletindo uma nova era em que os interesses econômicos são explicitamente declarados como objetivo, não escondidos sob retórica de democratização. Essa transparência brutal, no entanto, pode gerar reações contrárias e fortalecer a resistência nacionalista nos países-alvo. 

Outros críticos apontam que a abordagem de Kinzer, embora poderosa, tende a subestimar a agência local e a complexidade dos processos políticos. Nem toda mudança de regime é apenas um negócio; há também dimensões ideológicas, estratégicas e de segurança que moldam as decisões americanas. No entanto, o acúmulo de evidências nos casos examinados sugere que, mesmo quando existem outras motivações, os interesses econômicos consistentemente emergem como fator decisivo. 

 

Conclusão: O Negócio da Mudança de Regime no Século XXI 

O século americano da mudança de regime, documentado por Kinzer, não terminou com o Iraque. Ele apenas se metamorfoseou. O petróleo continua sendo o motor central — Venezuela, Irã e os esforços para reabrir Cuba à exploração americana são prova disso. Mas novos motores surgiram: o mercado imobiliário na Palestina, que transforma a ocupação em lucro; o controle dos dados e da economia digital, que levou as Big Techs a influenciarem diretamente a política comercial de Trump contra o Brasil; e os minerais de terras raras, essenciais para a transição energética e a indústria de defesa, que tornam a Amazônia um novo front de disputa geopolítica. 

A atuação da família Bolsonaro — com Flávio articulando abertamente nos EUA a abertura da economia brasileira para exploração americana de terras raras, em troca de apoio político — é a expressão mais acabada do novo modelo: elites locais que se colocam como intermediárias de interesses estrangeiros, vendendo soberania em troca de alianças e proteção. A recusa de Lula em aceitar as condições americanas — mantendo o processamento de minerais em território brasileiro e recusando um "clube exclusivo" de acesso — representa a linha de resistência contra essa lógica neocolonial. 

O que une os cinco casos examinados — Venezuela, Palestina, Irã, Cuba, Brasil — é a transformação da política internacional em um mercado. Governos são derrubados ou pressionados não por princípios, mas por interesses. Terras são vendidas, recursos são extraídos, mercados são abertos à força. E por trás de tudo, empresas americanas — petrolíferas, imobiliárias, de tecnologia, de mineração — aguardam para lucrar. 

Como conclui Kinzer em Overthrow, "a leitura do livro de Stephen Kinzer é tão fascinante e enfurecedora que somos tentados a deixar de lado o impulso convencional de resenhar e simplesmente insistir que todos comprem o livro e devorem a história por si mesmos". A história da mudança de regime americana é a história do capitalismo em sua forma mais predatória — disfarçado de democracia, executado por meio de força, e pago com a riqueza e a soberania de nações mais fracas. 

 

Referências 

Fonte Principal 

  1. Kinzer, Stephen. OverthrowAmerica's Century of Regime Change from Hawaii to Iraq. New York: Times Books/Henry Holt and Company, 2006. 

Fontes Acadêmicas e Jornalísticas sobre Mudança de Regime e Interesses Econômicos 

  1. Stuenkel, Oliver. "The U.S. Plan for Venezuela Has a PrecedentIt's Not Good". Carnegie Endowment for International Peace, 12 jan. 2026. 

  1. "US intervention in the Middle East: From the 1953 Iran coup to Iraq, Libya and Syria". RT News, 2 mar. 2026. 

  1. "CIA's Overthrow of Iran in 53 Reaps Bitter Harvest"Scoop.co.nz, 14 set. 2008. 

  1. "Move to control Iraqi oil warps altruistic motives". Star Bulletin, 11 mai. 2003. 

  1. "The 'Libya's About OilAngle"Foreign Policy Association, 23 mar. 2011. 

Sobre Venezuela 

  1. "Before toppling Maduro, the US spent decades pressuring Venezuelan leaders over its oil wealth". The Conversation, 5 jan. 2026. 

  1. "Venezuela's oil industry has flailed under government control – Mexico and Brazil have had more success with nationalizing". The Conversation, 12 jan. 2026. 

Sobre Palestina e Negócios Imobiliários 

  1. "Israeli Real Estate Expo Advertising West Bank Settlements Returns to NYC". The Intercept, 11 mai. 2026. 

  1. "The Americans Stealing Palestinian Land". The Nation, 26 ago. 2025. 

  1. "Is Trump building peace — or a property deal on the graves of Palestinians?" The Independent, 22 jan. 2026. 

Sobre Cuba 

  1. "Trump's 'Venezuela solutionto Cuba would see the island nation returned to a client state". The Conversation, 23 mar. 2026. 

  1. "Following Venezuela, Is Cuba Next in Line for a US-Orchestrated Regime Change?" The Quint, 25 fev. 2026. 

Sobre Brasil — Big Techs, Terras Raras e Bolsonaro 

  1. "How Trump's trade war with Brazil serves Big Tech's interests"openDemocracy, 10 jul. 2025. 

  1. "A report shows that Trump's move to investigate Brazil follows Big Tech's interests". Global Voices, 4 set. 2025. 

  1. "Flavio Bolsonaro Advocates US-Brazil Ties at Texas Political Conference"Devdiscourse, 30 mar. 2026. 

  1. "Lula, Trump, and the Geopolitics of Rare EarthsBrazil's Position Between Washington and Beijing". Ricardo Martins, mai. 2026. 

  1. "Tariffs and the new geopolitics of the Amazon". China Daily, 20 ago. 2025. 

Documentos Oficiais e Relatórios 

  1. CCIA (Computer & Communications Industry Association). "Comments for the 2025 USTR National Trade Estimate Report", out. 2024. 

  1. Office of the United States Trade Representative. "Section 301 Investigation into Brazil's Unfair Trading Practices", jul. 2025.