SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Inteligência Artificial, Marx e a Primavera dos Povos de 1848.


 Inteligência Artificial, Marx e a Primavera dos Povos de 1848.


Desde o surgimento da inteligência artificial, venho fazendo uma pergunta essencial: a de compartilhar ganhos de produtividade.

Quem vai capturar o crescimento? Capital ou trabalho?

Essa questão é fundamental, porque nossa arquitetura fiscal e social permanece baseada no trabalho: imposto de renda pessoal, contribuições para a seguridade social, etc.

Mas o que acontecerá se o valor relativo do trabalho diminuir? E se o retorno do capital aumentar porque a IA está substituindo parte da atividade humana?

Sempre achei que a análise marxista permanece interessante, não em suas conclusões políticas, que não compartilho, mas em seu diagnóstico econômico.

Marx entendeu que a máquina não era apenas um progresso técnico: ela mudava a relação entre capital e trabalho.

Parece útil para mim usar esse prisma para entender a IA, mas com uma resposta social-democrata. Não se trata de ressuscitar uma ideologia, mas de fazer uma questão de distribuição.

No século XIX, não houve apenas a revolução industrial. Também houve a Primavera dos Povos de 1848. Por toda a Europa, as pessoas acreditavam que a história estava inclinando-se para a liberdade política. Mas Marx analisou esse momento como uma imensa desilusão.

Para ele, 1848 revela uma verdade essencial: a burguesia queria liberdade política, mas não emancipação social. Queria o Estado de Direito, mas se recusava a questionar a propriedade do capital, a organização do trabalho e a divisão da riqueza.

É aqui que 1848 se une à teoria do capital. O capitalismo não é apenas um sistema de produção. Também é um sistema de apropriação do excedente. O trabalhador vende sua força de trabalho e recebe um salário. Mas ele produz mais valor do que esse salário lhe traz de volta. Marx chama essa diferença de valor excedente. Está no cerne do lucro.

Portanto, ganhos de produtividade nunca são neutros. Elas podem vir de máquinas ou, hoje, de IA. Mas eles não se dividem espontaneamente. Eles são primeiro capturados pelo capital, a menos que um equilíbrio social, sindical, fiscal ou político de poder imponha redistribuição.
Essa é a intuição de Marx: o progresso técnico pode aumentar a riqueza global sem melhorar proporcionalmente a condição daqueles que a produzem. Pode até fortalecer a dominação do capital, porque torna o trabalho mais substituível.

1848 foi, portanto, para Marx, o fim de uma ilusão: que a democracia política levaria naturalmente à social-democracia.
Essa lição continua relevante. Qualquer empresa que aumente sua produtividade deve responder a uma pergunta simples: quem recebe os ganhos? Capital? Trabalho? Ou da comunidade?

Por trás de cada ganho de produtividade, há uma questão política: a do compartilhamento.

Barômetro macroeconômico: os países que mais investiram no exterior


 Após apresentar os países que recebem mais Investimento Direto Estrangeiro (IED), desta vez apresento o outro lado desse barômetro macroeconômico: os países que mais investiram no exterior. Se atrair capital internacional é um fator decisivo para o desenvolvimento econômico, observar a origem desses fluxos revela quais potências financeiras globais estão consolidando sua influência global. De acordo com a UNCTAD, as saídas globais de IED ultrapassaram US$ 1,7 trilhão em 2024 (consolidado), impulsionadas principalmente por economias desenvolvidas, que representaram US$ 1,1 trilhão do total de investimentos transfronteiriços. Os dados mostram uma alta concentração de poder de mercado; apenas seis economias eram responsáveis por mais da metade de todo o investimento global no exterior. Os Estados Unidos lideraram o mundo como principal exportador de capital, com 266 bilhões de dólares em saídas, seguidos de perto pelo Japão (204 bilhões) e pela China (163 bilhões). Completando o grupo de elite estão as principais economias de trânsito e centros financeiros, como Luxemburgo (US$ 109 bilhões), Hong Kong (US$ 87 bilhões) e Canadá (US$ 86 bilhões). Como observação, Portugal alcançou US$ 7,82 bilhões em IED externo, registrando um crescimento notável de 33% em comparação com 2023. A distribuição geográfica destaca uma realidade empresarial em transformação: as economias asiáticas estão aumentando rapidamente sua importância como provedoras globais de capital, colocando agora cinco economias entre as 10 maiores fontes mundiais de investimento estrangeiro. Quanto ao continente africano, contribuiu com 6,7 bilhões de dólares para a saída de capitais globais, impulsionados principalmente pelas potências regionais África do Sul (3,1 bilhões de dólares) e Marrocos (694 milhões). Em um cenário marcado por crescentes tensões comerciais e divisões geopolíticas, a escolha de onde as multinacionais aplicam seu capital estrangeiro busca não apenas retornos financeiros imediatos, mas também define estrategicamente quem ancorará a tecnologia, as cadeias de suprimentos e as redes industriais do futuro...

Uma ponte entre a ciência global do IPCC e a realidade local. Por Egidio Guerra


 

1. O Estado da Arte do IPCC como Fundamento Teórico

O "estado da arte" do IPCC  reside principalmente em dois documentos:

  • O Sexto Relatório de Avaliação (AR6), especialmente o volume dedicado a Impactos, Adaptação e Vulnerabilidade, que dedica capítulos específicos a cidades, infraestrutura e água.

  • O futuro Relatório Especial sobre Mudança Climática e Cidades, já aprovado para o sétimo ciclo de avaliação (AR7). Este é um marco, pois representa o esforço do IPCC em consolidar uma base de conhecimento dedicada exclusivamente ao ambiente urbano.

A principal contribuição do IPCC não é um método pronto, mas sim uma estrutura conceitual robusta que integra múltiplas dimensões. O AR6, por exemplo, avalia riscos e respostas com base em 18 indicadores distribuídos em 6 dimensões: geofísica, ecológico-ambiental, tecnológica, econômica, sociocultural e institucional. Esta abordagem multidimensional é o guia perfeito para construir seus próprios indicadores.

2. Dividindo Fortaleza em "Biomas Urbanos"

O conceito de "bioma" do IPCC, definido como uma grande comunidade regional de plantas e animais, precisa ser adaptado para a realidade de uma cidade 100% urbana. Em vez de biomas naturais, sua pesquisa pode mapear "unidades eco-geográficas urbanas" ou "compartimentos territoriais", que representem a heterogeneidade interna da cidade.

A metodologia para isso pode ser construída em etapas:

  1. Mapeamento dos Ecossistemas Originais: O primeiro passo é resgatar a cobertura vegetal e os ecossistemas originais de Fortaleza, que se situa na transição entre o litoral e o bioma da Caatinga. Isso estabelece a "linha de base" natural. 

  1. Classificação do Uso e Cobertura da Terra Atual: Utilizando técnicas de sensoriamento remoto (como as do projeto MapBiomas) e imagens de satélite (ex: Landsat), é possível classificar a cidade em categorias como:

  1. Áreas edificadas de alta densidade.

  1. Áreas residenciais de baixa densidade.

  1. Grandes equipamentos urbanos (industriais, portuários).

  2. Áreas verdes (parques, praças, resquícios de dunas).

  1. Vazios urbanos e áreas em expansão.

  1. Análise de Ilhas de Calor: Estudos já mostram que a substituição de campos de dunas por empreendimentos em bairros como o Praia do Futuro alterou drasticamente o perfil térmico da região. Mapear a intensidade e localização das ilhas de calor urbanas é crucial para definir essas unidades.

  1. Delimitação Final: A sobreposição dessas camadas de informação (ecossistemas originais, uso do solo atual, e dados climáticos locais) permitirá delimitar unidades espaciais homogêneas. Cada uma dessas unidades seria o seu "bioma urbano" e a base para a coleta de dados dos indicadores.

3. Proposta de Indicadores "Micro" (Pesquisáveis em Mestrado)

Com base nas 6 dimensões do IPCC, você pode selecionar e adaptar indicadores para a escala do bairro ou da unidade territorial. Aqui está uma sugestão de como organizá-los: 

Dimensão IPCC 

Exemplo de Indicador "Micro" 

Método de Coleta / Fonte de Dados 

Geofísica 

Temperatura de superfície (LST); Umidade do ar; Velocidade do vento a nível do pedestre. 

Sensoriamento Remoto (Landsat); Estações meteorológicas portáteis; Modelagem climática local (ENVI-met). 

Ecológico-Ambiental 

Índice de Área Foliar (IAF); Índice de Vegetação por Diferença Normalizada (NDVI); Percentual de área permeável; Biodiversidade (contagem de espécies arbóreas). 

Sensoriamento Remoto; Levantamentos de campo em pontos amostrais. 

Tecnológica 

Eficiência energética de edificações; Percentual de cobertura de saneamento básico; Tipo e condição do material de pavimentação (albedo). 

Dados de concessionárias; Observação direta e levantamento in loco. 

Econômica 

Custo com energia elétrica para climatização; Valor venal do solo; Renda média da população. 

Dados do IBGE; Secretarias Municipais; Pesquisas de campo. 

Sociocultural 

Percepção de conforto térmico pela população; Índice de vulnerabilidade social; Uso e apropriação dos espaços públicos. 

Questionários e entrevistas; Dados do IBGE e da Prefeitura. 

Institucional 

Existência de planos de arborização ou de adaptação climática para a área; Fiscalização ambiental. 

Análise documental; Entrevistas com gestores públicos. 

4. Metodologia de Pesquisa para um Mestrado em Geografia

A pesquisa pode ser estruturada da seguinte forma:

  • Objetivo Geral: Analisar a vulnerabilidade e a capacidade de adaptação da cidade de Fortaleza às mudanças climáticas, propondo um modelo de indicadores geoambientais em escala local.

  • Etapas Metodológicas:

  • Revisão Bibliográfica: Aprofundar a teoria do IPCC, principalmente a estrutura de indicadores do AR6 e as discussões sobre cidades.

  • Estruturação Teórica do Modelo: Adaptar as 6 dimensões do IPCC para a realidade brasileira e, mais especificamente, para Fortaleza.

  • Análise Espacial e Sensoriamento Remoto: Delimitar os "biomas urbanos" de Fortaleza utilizando ferramentas de SIG (QGIS, ArcGIS) e imagens de satélite.

  • Trabalho de Campo: Coletar dados primários para os indicadores selecionados em pontos amostrais dentro de cada "bioma urbano" delimitado.

  • Análise e Validação: Cruzar os dados para gerar um diagnóstico de vulnerabilidade por unidade territorial. A validação pode ser feita comparando seus resultados com outros estudos já realizados para Fortaleza.

5. Tornando-se um Modelo para Outras Cidades

Para que sua pesquisa sirva de modelo, o grande diferencial será a sistematização e a replicabilidade do método. Para isso:

  • Documente cada passo: Crie um manual ou um fluxograma detalhado de como as unidades territoriais foram delimitadas e como cada indicador foi calculado.

  • Crie um índice sintético: Ao final, combine os indicadores em um Índice de Vulnerabilidade Climática Urbana (IVCU). Um índice único e de fácil compreensão tem grande poder de comunicação e pode ser adotado por outras cidades.

  • Pense em termos de políticas públicas: O objetivo final não é apenas o diagnóstico, mas a geração de recomendações para o planejamento urbano. Seu modelo deve responder à pergunta: "O que fazer em cada 'bioma' para torná-lo mais resiliente?".

  • Use uma estrutura flexível: Ao construir seu modelo, deixe claro que a seleção de indicadores deve ser adaptada à realidade de cada cidade, mas que a estrutura (as 6 dimensões do IPCC) é universal. Isso garante que seu modelo seja um "guia" e não uma "camisa de força".

Em resumo, seu projeto de mestrado tem o potencial de ser uma ponte entre a ciência global do IPCC e a realidade local, gerando conhecimento aplicado e um modelo que pode ser a base para planejamentos urbanos mais resilientes em todo o Brasil.