SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

domingo, 4 de janeiro de 2026

Educação Refém: Quando a Politicagem Sufoca o Futuro




Há uma sala de aula onde o quadro-negro não escreve esperança, mas o rascunho de uma operação. Onde o giz não desenha letras, mas linhas de poder. A educação, que deveria ser projeto de sociedade — uma catedral construída por gerações —, tornou-se moeda de troca nos porões oligárquicos. Enquanto isso, a aprendizagem definha, os professores sangram, e as escolas, abandonadas à sorte de seus contextos, viram ilhas de abandono.

Prioridades invertidas: o espetáculo do concreto sobre a mente
Em vez de perguntar ao professor qual ferramenta falta à sua alma para libertar a de seus alunos, rasga-se dinheiro em prédios que brilham como caixões vazios. Construtoras engordam, fornecedores de cadeiras cobram ouro por assentos onde crianças famintas tentam se equilibrar. Enquanto isso, não há banheiro, não há livro, não há brinquedo. Há uma arquitetura da ausência. E no centro desse teatro, a carteira nacional docente do professor vira palco: aumentos salariais fake news em orçamentos, usados como cortina de fumaça, enquanto o magistério permanece de joelhos, doente, massacrado por um sistema que exige milagres sem fornecer os pães.

O ouvido surdo ao chão da escola, atento ao sussurro do poder
Por que as vozes que ecoam nos corredores mofados não chegam aos gabinetes? Por que se escuta o “centrão”, as fundações empresariais com seus interesses vestidos de filantropia, e se silencia o professor que conhece o nome de cada aluno, a fome de cada um, o medo que atravessa a comunidade cercada pelo tráfico? A educação como projeto de sociedade exige que a comunidade escolar — famílias, professores, alunos — seja a arquiteta de seu próprio projeto. Cada escola, com sua realidade única, saberia dizer: aqui precisamos de alimento antes de álgebra; aqui, de acolhimento antes de avaliação. Mas não: impõe-se de cima um modelo cego, surdo e mudo.

A tirania do teste: o engodo que esconde o analfabetismo real
Foca-se no ENEM, em avaliação em duas disciplinas, como se um termômetro quebrado pudesse diagnosticar a febre de um corpo social inteiro. Os melhores sistemas do mundo — Finlândia, Coreia do Sul, Canadá — não construíram sua excelência com testes padronizados como fim, mas com formação docente sólida, valorização profissional, currículos flexíveis e atenção aos mais vulneráveis. Eles partiram de um princípio simples: educação de qualidade para todos, especialmente para os piores, não para uma minoria usada como “case” de marketing. Enquanto aqui, o “sucesso” é uma piada cruel: o aluno que passa no ENEM e não pode cursar porque precisa trabalhar; os “nem-nem” que vagam à margem; os mortos, genocídio de jovens  pela negligência do Estado.

A realidade nua e crua do Ceará: o laboratório da desigualdade
No Ceará, a educação é refém de um jogo perverso. Enquanto comunidades empobrecidas lutam por água e dignidade, enquanto professores ganham migalhas e adoecem, uma máquina política há décadas no poder amplia fortunas. Ferreira Gomes, Camilo Santana, Mauro Benevides — nomes que se alternam em cadeiras, mas não na lógica. Bilhões de corrupção impunes, incentivos fiscais para bilionários, dinheiro público que deveria construir escolas e constrói mansões. A ascensão social é um mito. O salário mínimo é o menor. A pobreza persiste, hereditária. E o Ministro? Não é um educador, é um operador. Um homem que não foi bom aluno, não foi bom gestor, mas é mestre na arte de comprar votos e trocar favores. Que não se importa se mente, rouba ou mata — pois o genocídio juvenil é apenas estatística em seu projeto de poder.

A educação como projeto de sociedade: um manifesto poético e indignado
Precisamos de uma educação desenhada pelas mãos calejadas dos professores e pelas esperanças das famílias. Um projeto de longo prazo que comece na escuta genuína e termine na emancipação. Que use dados não para punir, mas para curar. Que olhe para os exemplos internacionais não para copiar, mas para inspirar-se em seu princípio maior: colocar os mais pobres no centro, dar-lhes as ferramentas para rasgar o ciclo da miséria.

Imaginemos: escolas com projetos próprios, onde a comunidade decida se prioriza uma horta comunitária contra a fome, ou uma oficina de paz contra a violência. Onde o dinheiro do aumento do professor seja sagrado, intocável, separado das negociatas. Onde o Estado compre cadeiras a preço justo e invista em bibliotecas, não em propina.

A educação não pode ser refém do sofrimento real. Ela deve ser a chave que abre a jaula. Enquanto os oligarcas se banqueteiam com o orçamento público, uma criança no Sertão olha para um livro sem gravuras e não entende as letras — porque ninguém lhe ensinou. Esse é o crime. Esse é o genocídio silencioso.

Que a indignação nos una. Que a memória dos mortos e a voz dos vivos exijam uma educação que seja, de fato, um projeto de sociedade. Porque sem isso, continuaremos a ver a vida se esvair entre notas fiscais superfaturadas e promessas vazias, enquanto o futuro do Ceará — e do Brasil — é enterrado sob os escombros de prédios suntuosos e almas devastadas.

Corte! Meu estilo de filmar e escrever roteiros como cineasta!



Me chamo Egidio Guerra. As pessoas me perguntam qual é a minha "assinatura", meu "estilo". Eu respondo que meu estilo é uma colisão controlada. É o ato de filmar um teorema em pleno desmantelamento, sob a luz crua do real, e depois passar a película por um pesadelo lógico.

Tudo começa com o Livro de Jean-Luc Godard por Jean-Luc Godard. Não é um manual. É um diário de bordo de um náufrago do sentido. Godard me ensinou que a imagem não é sagrada; é suspeita. Que um plano não é uma janela, mas uma parede que você precisa furar com um jump cut, com um texto sobreposto, com um ruído quebra a quarta parede. Em meus filmes, a câmera sabe que é uma câmera. O som, às vezes, descola da imagem, como um adesivo velho. Um personagem pode olhar para a lente e recitar um anúncio de sabão em pó no meio de um sequestro. É o estranhamento. É lembrar ao espectador que ele está vendo um constructo, uma mentira que tenta chegar a uma verdade mais profunda.

Dessa desconstrução godardiana, eu extraio a ossatura, a pergunta absoluta. E é aí que entra Teorema, de Pasolini. Pasolini não fazia dramas psicológicos; ele fazia alegorias metafísicas. Um anjo, um demônio, um estranho, chega a uma casa burguesa e a desintegra não com violência, mas com presença. Esse é o meu núcleo. Meus personagens não são afetados por eventos; são afetados por Ideias materializadas. Um contador que, de repente, passa a ver equações flutuando sobre as pessoas, prevendo suas mortes. Uma família que recebe, não um visitante sedutor, mas um silêncio absoluto que se instala no quarto de hóspedes e lentamente apaga os sons da casa. É um cinema de tese, mas a tese é um vírus, não um sermão.

Para dar carne a esse esqueleto teórico, mergulho no realismo italiano, mas não na sua iconografia neorrealista clássica. Roubo a textura. A câmera na mão, tremendo não como estilo, mas como fadiga. A luz suja das lâmpadas fluorescentes de um escritório às 3h da manhã. O suor que não brilha, que apenas umedece a gola da camisa. Os rostos não lapidados, com marcas, assimetrias, vida. É o corpo do mundo real invadindo a alegoria. Filmamos em locações reais, com sons ambientes que nunca são totalmente limpos. A sujeira do áudio é tão importante quanto a do quadro.

Agora, como fazer essa máquina complexa - desconstruída, teórica e suja - girar para um público do século XXI? É aqui que entram meus "operadores de sistema". De Christopher Nolan, tomo o relógio narrativo. Não uso flashbacks simples; uso espaço-tempos emocionais. A cronologia é uma personagem a ser desmontada. Uma cena de amor é conectada com o seu futuro divórcio, e ambas são afetadas por um som do passado que só agora é compreendido. A montagem é um quebra-cabeça, mas um onde cada peça, quando encaixada, deve gerar um clique emocional avassalador, não apenas intelectual.

De Guy Ritchie, roubo a energia sináptica do diálogo e a coreografia do acaso. Meus personagens falam rápido, em camadas, com planos que cortam no meio de uma sílaba para a reação de quem ouve, do outro lado da cidade. O acidente é planejado: uma bala perdida atinge não o alvo, mas um cano de gás que o herói nem sabia que estava lá. É o teorema pasoliniano sendo resolvido por variáveis caóticas e ritmo acelerado.

De Roman Polanski, herdo a angústia arquitetônica e a paranoia do espaço. Um corredor em meus filmes nunca é apenas um corredor; é um intestino. Uma escadaria é uma armadilha de Escher. A câmera é um voyeur perseguido, encostada na porta, espiando pelo buraco da fechadura. O plano-subjetivo não é do herói; é da própria casa, da cidade, que observa, oprime e conspira. É o realismo físico levado ao delírio claustrofóbico.

E, finalmente, o tempero: o realismo fantástico. Mas não o dos milagres coloridos. O meu é um realismo fantástico secológico e perturbador. Não é mágico; é um dado novo, absurdo, inserido na equação do mundo real, e todos devem lidar com suas consequências com a burocracia do quotidiano. A mulher que acorda e percebe que ninguém mais consegue pronunciar seu nome, apenas escrevê-lo. O rio que, de repente, para de correr em frente à prefeitura, formando um espelho d'água perfeito e estático que reflete não o céu, mas os desejos secretos de quem olha. É o fantástico tratado com a frieza documental de um boletim de ocorrência.

Meu cinema, portanto, é isso: um teorema de Pasolini desmontado pelas ferramentas de Godard, filmado com a câmera trêmula do neorrealismo, montado com o relógio de Nolan, falado com o ritmo de Ritchie e aprisionado nos espaços de Polanski, até que o mundo real, não aguentando a pressão, rache e deixe escapar um pouco do fantástico.

É caótico? É. É calculado? Absolutamente. E no centro desse furacão, sempre há um rosto humano, suado, confuso, tentando resolver uma equação impossível: a de existir. É para filmar esse rosto que eu levanto todos os dias.

Corte.

A Resistência Venezuelana no Espelho das Revoluções! Por Egidio Guerra


O ar cheira a pólvora e poeira de concreto desmoronado. Caracas, sob o rugido de caças F-35 e o estampido distante de artilharia, não é mais apenas uma cidade; transformou-se em um palco onde se repete o antigo ritual do caos que acompanha toda invasão, toda guerra dita “cirúrgica”. Como Ivan Bunin, em Dias Malditos, testemunhou o desmoronar febril do mundo russo na Revolução de 1917 – “tudo deslizando, caindo, desaparecendo” –, assim os venezuelanos veem a frágil normalidade se esfacelar. O caos não é apenas físico; é moral, social. A rede de confiança se rompe, o mercado negro floresce como cogumelo venenoso após a chuva, e rumores substituem a informação. É o mesmo sopro gélido que varreu Bagdá em 2003 e Aleppo em 2016, onde a “ordem” imposta pelas bombas gerou um monstro de mil faces: milícias, fome, fanatismos.




Mas, do seio desse caos, emerge o primeiro ingrediente da resistência: a adesão transcultural. Como narra Amanhã Talvez o Futuro, sobre as mulheres na Guerra Civil Espanhola, a causa justa atrai aqueles que nela veem um reflexo de suas próprias lutas. Às trincheiras de Madrid acorreram internacionalistas de todas as nacionalidades. Às colinas venezuelanas e aos bairros populares de Caracas começam a chegar, não mercenários, mas brigadistas de solidariedade: médicos cubanos aprofundando sua missão, jornalistas independentes arriscando tudo, veteranos das lutas palestinas que reconhecem no rosto venezuelano o mesmo olhar de desafio diante da máquina de guerra imperial. Eles não vêm por petróleo, mas por humanidade. Trazem consigo a experiência amarga de Gaza, a sabedoria da resistência curda, as táticas de comunicação de Syriza. Esta causa latino-americana, de repente, se globaliza, deslocando o conflito da narrativa simplista de “ditadura versus democracia” para a arena mais ampla da autodeterminação dos povos.



É aqui que o povo venezuelano, longe de ser uma massa passiva, revela seu segundo ingrediente: a capacidade de auto-organização radical. Como Wilfred G. Burchett documentou em Vietnã: A Guerrilha Vista por Dentro, a vitória não estava apenas nas armas, mas na rede inextricável de apoio popular, no comitê de aldeia que se reorganizava sob os bombardeios, na “logística do povo”. A Venezuela, com sua profunda tradição de conselhos comunais, comunas e poder popular, possui um tecido social pré-politisado único. Estes não são meros apêndices estatais; são a espinha dorsal da resistência cotidiana. Quando os bombardeios cortam a energia, são as brigadas técnicas das comunas que restauram a linha. Quando a comida escasseia, são os hortos urbanos coletivos que alimentam os bairros. Esta é a “guerrilha logística” do século XXI: descentralizada, resiliente, enraizada. Cada comuna torna-se uma fortaleza não de concreto, mas de coesão social, impossível de ser erradicada por um míssil.



Esta combinação – caos gerador, solidariedade internacionalista e auto-organização popular – forja uma estratégia invencível. A invasão norte-americana, como no Vietnã, pode ocupar o espaço aéreo e portos, mas não ocupa o coração das comunas. A guerra se transforma em um conflito de vontades e de tempo. As imagens de sofrimento, filtradas pela lente dos internacionalistas, inflamam a opinião pública global.




É quando entra o terceiro ator: a frente política interna dos EUA e a solidariedade global. Líderes como Bernie Sanders, com seu histórico de oposição a intervenções desastrosas, erguem a voz no Congresso. “Mais uma vez?”, bradam, evocando os fantasmas do Iraque e da Líbia. Suas vozes, amplificadas por movimentos como o Black Lives Matter, que veem o paralelo entre a militarização doméstica e a externa, criam uma cisão política profunda em Washington. Na Europa, governos de esquerda e movimentos sociais organizam boicotes, pressionam por sanções contra os invasores. A ONU torna-se um campo de batalha diplomática. O custo político da invasão, dentro dos próprios Estados Unidos, começa a subir em uma espiral insustentável.




A vitória venezuelana, portanto, não seria medida pela tomada de uma capital inimiga, mas pelo colapso da vontade invasora. Seria a repetição, em clave moderna, da epopeia vietnamita: tornar o país um pântano político e moral para o império. Cada dia de resistência organizada nas comunas, cada reportagem de um brigadista internacional, cada discurso de um Sanders no Senado, seria um dardo na hidra. O caos, inicialmente uma arma do forte, seria apropriado pelo fraco e transformado em cadinho de uma nova legitimidade. A Venezuela, no fim, não seria “salva” por ninguém de fora. Ela, como protagonista de sua própria história, catalisaria a energia do mundo que se opõe à guerra e, tecendo sua rede de resistência interna com os fios da solidariedade global, forçaria o gigante a recuar, exausto e derrotado não por uma bomba, mas por uma verdade simples e inquebrantável: que um povo organizado, apoiado pela consciência do mundo, é incapaz de ser governado contra sua vontade. O futuro, então, deixaria de ser um “talvez” para se tornar uma certeza semeada no solo devastado, mas fértil, do caos. Mais essa luta do povo venezuelano deve ser contra Ditadores Corruptos como Trump e Maduro e pela emancipação do povo venezuelano, suas crianças e suas famílias, o dinheiro do petróleo, assim como da Petrobras, Banco do Nordeste, dos Governos estaduais e municipais é do povo brasileiro. E não dos amigos dos REIS dito de Direita ou Esquerda, como fez com seu petróleo o povo Norueguês.   




https://veja.abril.com.br/mundo/crise-migratoria-da-venezuela-afeta-11-milhao-de-criancas-diz-unicef/




https://www.bbc.com/portuguese/geral-49299120

sábado, 3 de janeiro de 2026

O custo da corrupção, não taxação dos ricos, e privilégios quem paga são os mais pobres .




O Futuro em Risco: Juventude, Vulnerabilidade e a Urgência de Políticas Baseadas em Empatia e Evidência

As estatísticas sobre mortes violentas, doenças evitáveis, evasão escolar e perpetuação da pobreza entre três grupos específicos – jovens mães, jovens encarcerados e usuários de drogas – não são apenas números frios. São biografias interrompidas, trajetórias desviadas de um potencial humano que poderia florescer. Elas revelam uma verdade brutal: nossas políticas públicas, muitas vezes, falham em criar redes de proteção e, pior, podem agravar ciclos de exclusão. Por trás dos dados, há um processo social insidioso, apontado por pensadores como o filósofo coreano-alemão Byung-Chul Han: a perda da sensibilidade para a dor do outro. A sociedade do desempenho e da hipervisibilidade, paradoxalmente, anestesia nossa capacidade de compaixão por vidas consideradas "fracassadas" ou "desviantes". Na literatura, a obra "O Cortiço", de Aluísio Azevedo, já nos mostrava no século XIX como a miséria e a falta de perspectivas deformam caracteres e destinos, um retrato cruel que ainda ecoa.

Os números são claros. Jovens no sistema prisional estão expostos a níveis elevadíssimos de violência e doenças infecciosas, com taxas de reincidência que ultrapassam 70% no Brasil, indicando o fracasso do encarceramento massivo como ferramenta de ressocialização. Jovens mães, especialmente as mais pobres, veem suas chances educacionais e profissionais despencarem, perpetuando a pobreza intergeracional. Usuários de drogas, criminalizados e estigmatizados, têm acesso negado a saúde e são lançados a uma espiral de vulnerabilidade, com altas taxas de mortalidade por overdose, violência e doenças como HIV e hepatites.

A mudança desse cenário exige uma revolução na sensibilidade coletiva, traduzida em mudanças estruturais na educação e no exemplo das elites e políticos. É preciso:

  1. Educação para a Empatia e Cidadania Crítica: A educação formal deve ir além do treinamento para o mercado. Precisa incluir, desde cedo, educação emocional, justiça restaurativa, estudo da desigualdade social e contato orientado com realidades diversas (como propõem autores como Bell Hooks em "Ensinando a Transgredir"). Isso combate a anestesia moral e forma cidadãos que veem a vulnerabilidade não como um mérito, mas como um desafio coletivo.

  2. Elites e Políticos como Modelos de Priorização: Quando elites econômicas e políticas vivem em bolhas de privilégio e defendem agendas de encarceramento em massa, austeridade em gastos sociais e medicalização punitiva das drogas, enviam uma mensagem clara: algumas vidas são descartáveis. O exemplo deve vir de cima: políticos visitando e priorizando em seus orçamentos habitação social dignasaúde mental públicaeducação integral e programas de justiça juvenil restaurativa.

Felizmente, não partimos do zero. Podemos nos inspirar em políticas públicas de sucesso de outros países:

  • Para Jovens Mães: Os Lares de Apoio na França. A rede de "Maisons des Adolescents" e outras instituições oferecem acolhimento integral – moradia, apoio psicológico, creche, orientação profissional e educacional – para jovens grávidas ou mães em situação de vulnerabilidade. Isso não é assistencialismo, mas um investimento para quebrar o ciclo da pobreza e garantir o desenvolvimento saudável de duas gerações.

  • Para Habitação e Reinserção: A Holanda e o Modelo "Housing First". Aplicado também a ex-detentos e usuários de drogas em recuperação, o princípio é simples: a estabilidade de um lar é o primeiro passo para qualquer outra mudança. Oferecer moradia digna e permanente, com suporte psicossocial, demonstra resultados superiores em redução de reincidência e de uso problemático de drogas do que abordagens punitivas ou condicionais.

  • Para Educação e Prevenção: O Sistema Finlandês. Focado na equidade, na formação de professores de alto nível e no apoio individualizado, o modelo finlandês reduz drasticamente as chances de um jovem ser "deixado para trás". Escolas compreensivas, com refeições, saúde mental e orientação garantidas, são antídotos potentes contra a evasão que leva à marginalização.

  • Para Trabalho e Qualificação: O Sistema Dual Alemão. Para jovens egressos do sistema socioeducativo ou em situação de risco, programas inspirados no modelo dual – que combina aprendizagem teórica em escolas profissionalizantes com prática remunerada em empresas – são uma ponte crucial para a autonomia econômica e o sentimento de pertencimento social.

Concluindo, o futuro desses jovens não é uma sentença determinada pelas estatísticas atuais. Ele será definido por nossas escolhas políticas coletivas, que refletem nosso grau de sensibilidade humana. Parafraseando Dostoiévski, o grau de civilização de uma sociedade pode ser julgado visitando suas prisões e seus bairros mais pobres. Deixar de tratar jovens mães, encarcerados e usuários de drogas como "casos perdidos" e passar a vê-los como cidadãos em situação de extrema vulnerabilidade, dignos de investimento e de uma segunda chance, é o imperativo ético e social do nosso tempo. As ferramentas existem, os exemplos internacionais brilham como faróis. O que falta é a vontade política, alimentada por uma empatia reeducada, que entenda que salvar essas vidas é, em última instância, salvar o tecido social de todos nós.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

My Way - em Português


 

Zohran Mamdani assume prefeitura de Nova York e começa teste de fogo para 'nova esquerda' global

 

Zohran Mamdani saúda as pessoas em um discurso durante as eleições primárias para prefeito de Nova York

Crédito,Reuters

Legenda da foto,Zohran Mamdani será o primeiro prefeito muçulmano de Nova York, nos EUA, e o primeiro originário do sul da Ásia
Tempo de leitura: 7 min

Zohran Mamdani toma posse nesta quinta-feira, 1° de janeiro de 2026, como o 111° prefeito de Nova York, nos Estados Unidos. Com 34 anos, ele é o primeiro prefeito muçulmano da cidade e o mais jovem em mais de um século.

O juramento histórico ocorre em uma cerimônia reservada, em uma estação de metrô abandonada no subsolo da prefeitura, com a presença da família de Mamdani.

Em cerimônia conduzida pela procuradora-geral de Nova York, Letitia James, o novo prefeito presta seu juramento exatamente à meia-noite do Dia de Ano Novo.

Mais tarde, no mesmo dia, Mamdani será publicamente empossado pelo senador Bernie Sanders e irá discursar em uma cerimônia de posse, na escadaria da prefeitura, perto das 13 horas, hora local (15h de Brasília).

O público foi convidado a comparecer a uma festa nas ruas na Broadway, que leva à prefeitura.

Zohran Mamdani ao lado dos seus pais, Mahmood Mamdani e Mira Nair, e da esposa Rama Duwaji, durante uma festa nas eleições primárias

Crédito,Reuters

Legenda da foto,Zohran Mamdani com seus pais, Mahmood Mamdani (dir.) e Mira Nair (esq.), e sua esposa, Rama Duwaji (centro)

A campanha eleitoral para a prefeitura, em novembro, atraiu ainda mais atenção do que de costume.

Mamdani é congressista do Estado de Nova York. Ele começou o ano como um candidato quase desconhecido, até disparar para o topo das pesquisas.

Sua eleição foi um divisor de águas para os progressistas, sinalizando uma mudança do centro de gravidade na política da cidade.

Mamdani se apresentou como candidato do povo e líder comunitário.

Antes de entrar na política, Mamdani trabalhou como consultor no setor de habitação. Ele ajudava moradores de baixa renda no Queens a evitar que fossem despejados.

Filho de pais indianos nascido na capital de Uganda, Kampala, ele se mudou com a família para Nova York com sete anos de idade.

Mamdani cursou o Ensino Médio de ciências no Bronx e se formou posteriormente em Estudos Africanos no Bowdoin College. Lá, ele foi um dos fundadores da seção dos Estudantes para a Justiça na Palestina do campus.

Sua mãe, Mira Nair, é uma reconhecida diretora de cinema e seu pai, o professor Mahmood Mamdani, leciona na Universidade de Columbia. Ambos são ex-alunos da Universidade Harvard, nos Estados Unidos.

Casado com uma artista americana com raízes na Síria

O prefeito eleito de Nova York, Zohran Mamdani, comemora com sua esposa Rama Duwaji após a vitória na eleição de 2025, em um evento na noite da eleição, no Brooklyn

Crédito,Reuters

Legenda da foto,Rama Duwaji com o marido Zohran Mamdani, após a vitória na eleição para prefeito
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Mamdani e sua esposa se conheceram no aplicativo de encontros Hinge.

A artista Rama Duwaji, moradora do Brooklyn, tem 28 anos de idade.

Ela nasceu em Houston, no Estado americano do Texas. Com nove anos de idade, ela se mudou para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, antes de frequentar rapidamente a escola no Catar.

Seus pais são muçulmanos sírios originalmente de Damasco, segundo a imprensa árabe.

Duwaji se formou na Universidade da Comunidade da Virgínia, nos Estados Unidos, e fez um mestrado em Ilustração na Escola de Artes Visuais, em Nova York.

Ela preferiu se manter longe dos holofotes e raramente dá entrevistas à imprensa, mesmo com a ascensão do marido. Mas o que se comenta é que ela tem sido uma força importante nos bastidores, segundo a rede de TV americana CNN.

Como artista com raízes na Síria, Duwaji costuma explorar temas do Oriente Médio em seus trabalhos. Suas obras já apareceram na BBC News, nos jornais The New York Times e The Washington Post, na revista Vice e no museu Tate Modern, em Londres.

"Rama não é apenas minha esposa. É uma artista incrível, que merece ser conhecida pelo seu trabalho", escreveu Mamdani nas redes sociais em 12 de maio, ao anunciar que eles haviam se casado três meses antes.

Em recente entrevista à revista The Cut, ela descreveu a experiência de se tornar primeira-dama de Nova York como "surreal".

"Quando ouvi pela primeira vez, parecia tão formal. Não que eu não me sentisse merecedora, mas parecia... 'eu?' Agora, aceito um pouco mais e digo simplesmente: 'Existem diferentes formas de ser primeira-dama.'"

A promessa de uma 'nova era'

Mamdani é um millennial progressista. Ele será o primeiro prefeito de Nova York muçulmano e com origem no sul da Ásia — e se manteve fiel às suas raízes, em uma cidade tão diversificada.

Ele fez da sua fé muçulmana uma parte visível da sua campanha eleitoral. Mamdani visitou mesquitas regularmente e publicou um vídeo de campanha em idioma urdu, sobre a crise do custo de moradia da cidade.

"Sabemos que se apresentar em público como muçulmano também é sacrificar a segurança que, às vezes, podemos encontrar nas sombras", declarou ele, em um comício de campanha.

Nove candidatos a prefeito de Nova York em pé em um palco

Crédito,YUKI IWAMURA/POOL/EPA-EFE/Shutterstock

Legenda da foto,Nove candidatos disputaram a nomeação democrata para a eleição de Nova York. Eles compareceram a um debate na TV em junho.

Mamdani declarou que os eleitores da cidade mais cara dos Estados Unidos desejam que os democratas se concentrem no custo de vida.

"Esta é uma cidade que tem um em cada quatro de seus habitantes morando na pobreza, uma cidade em que 500 mil crianças vão dormir com fome todas as noites", destacou ele à BBC, em um evento recente.

"E, em última análise, é uma cidade que está em perigo de perder o que a torna tão especial."

Entre suas propostas, destacam-se:

  • Serviço de ônibus com tarifa zero em toda a cidade;
  • Congelamento dos aluguéis e prestação de contas mais rigorosa para os senhorios negligentes;
  • Rede de mercearias municipais, com preços baixos;
  • Serviço de creche universal para crianças entre seis semanas e cinco anos;
  • Triplicar a produção de moradias construídas pelos sindicatos, com aluguéis estáveis.

Seu plano também inclui "reformular" a prefeitura para responsabilizar os proprietários de imóveis e expandir massivamente as moradias permanentemente acessíveis.

Durante a sua campanha, ele relacionou essas políticas a gestos altamente visuais e virais.

Mamdani mergulhou no Oceano Atlântico para dramatizar o congelamento dos aluguéis e quebrou o jejum do Ramadã em um trem de metrô com um burrito, para destacar a insegurança alimentar.

Dias antes das eleições primárias, ele caminhou por toda Manhattan, parando para tirar selfies com eleitores.

Mamdani defende que pode reduzir o custo de vida na cidade, mas os críticos questionam suas ambiciosas promessas.

O então candidato a prefeito Andrew Cuomo e outros críticos afirmaram que Mamdani não tem experiência e é radical demais para uma cidade com um orçamento de US$ 115 bilhões (cerca de R$ 631 bilhões) e mais de 300 mil funcionários municipais.

Apoiado por grandes doadores e personalidades de centro, como o ex-presidente americano Bill Clinton (1993-2001), Cuomo insiste na importância da experiência.

Para ele, "a experiência, a competência, saber como fazer o trabalho, saber como lidar com Trump, saber como lidar com Washington, saber como lidar com o legislativo estadual, tudo isso é o básico. Acredito no treinamento durante o trabalho, mas não como prefeito de Nova York."

O jornal The New York Times não apoiou nenhum candidato nas eleições primárias para prefeito da cidade e criticou todos os postulantes.

Em editorial, o jornal declarou que a agenda de Mamdani é "excepcionalmente inadequada para os desafios da cidade" e "ignora frequentemente os compromissos da governança".

O congelamento dos aluguéis restringiria a oferta de moradia, segundo o editorial do famoso jornal de Nova York.

Israel e Palestina

Em um recente evento de campanha de Mamdani em um parque em Jackson Heights, uma das comunidades mais diversificadas do país, crianças corriam e brincavam nos balanços, enquanto ambulantes de origem latina vendiam sorvete e lanches.

De muitas formas, a cena capturava perfeitamente a diversidade local, que muitos democratas consideram o maior patrimônio de Nova York. Mas a cidade não está livre de tensões políticas e raciais.

Mamdani conta que recebe ameaças islamofóbicas todos os dias, algumas delas dirigidas à sua família. A polícia informou que há uma investigação em andamento sobre crimes de ódio relativos a essas ameaças.

O prefeito eleito declarou à BBC que o racismo é um indicador do que está errado na política americana. Ele também criticou o Partido Democrata, "que permitiu a reeleição de Donald Trump" e falhou ao defender trabalhadores, "independentemente de quem são ou de onde eles vieram".

A posição dos candidatos sobre a guerra na Faixa de Gaza provavelmente também esteve na mente dos eleitores. E o forte apoio de Mamdani aos palestinos e suas críticas a Israel contrariam a maior parte do Partido Democrata.

O congressista apresentou um projeto de lei para pôr fim à isenção de impostos às organizações beneficentes de Nova York ligadas a assentamentos israelenses que violem a legislação internacional sobre direitos humanos.

Ele também afirmou acreditar que o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, deveria ser preso.

Mamdani foi pressionado inúmeras vezes em entrevistas na imprensa, para que declarasse se apoia o direito de Israel de existir como Estado judeu. E, certa vez, ele respondeu:

"Não me sinto confortável para apoiar qualquer Estado que tenha uma hierarquia de cidadania baseada na religião ou em qualquer outra coisa. Acho que, da forma que temos neste país, a igualdade deve ser consagrada em todos os países do mundo. É nisso que acredito."

Mamdani também declarou que não há espaço para o antissemitismo na cidade de Nova York e destacou que, se fosse eleito, aumentaria as verbas para o combate a crimes de ódio.