SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Um romance sobre as vidas que vivemos entre o que foi e o que será! Por Egidio Guerra.



PARTE UM: O FUTURO CONTIDO NO PASSADO 

Xangai, Ano 47 da Era da Reunificação (2040) 

Capítulo 1 

O Sabor da Memória 

O salão de chá ficava no décimo sétimo andar de um edifício que em 1923 fora um clube de cavalheiros franceses, em 1949 uma escola de quadros revolucionários, em 1989 um escritório de investimentos estrangeiros, e agora, em 2040, era novamente um lugar de encontros. 

Eu estava ali quando ela entrou. 

Não, isso não é verdade. Eu estava ali porque ela entraria. Essa pequena distinção — entre acaso e destino — era tudo o que eu havia aprendido em cento e quarenta e três anos de existência. 

O chá em minha xícara era um Dahongpao de 2018, daquelas poucas árvores-mãe da montanha Wuyi que sobreviveram às secas da década de 2030. A água havia sido aquecida a exatamente 95 graus em um bule de argila Zisha que pertencera a um mestre da cerimônia do chá em 1972, que o recebera de seu próprio mestre em 1945, que o comprara de um colecionador em 1927, que o encontrara em um leilão em Pequim em 1911, onde fora parar após o saque do Palácio de Verão. 

Cada gole era uma pequena máquina do tempo. 

Meu nome é Egidio Guerra. Nasci em 1897, em Macau, filho de um comerciante português e de uma mulher cantonesa cujo nome de família significava "Guerra" muito antes de qualquer europeu chegar àquelas paragens. Morri pela primeira vez em 1941, em Hong Kong, durante a invasão japonesa. Renasci em 1963, em Xangai. Morri novamente em 1989, em Pequim. Renasci em 2001, em Cantão. E aqui estava eu, em 2040, com a aparência de um homem de quarenta anos e a memória de tudo. 

A Terra da Sabedoria — Zhongguo, o Reino do Meio — havia me ensinado que o tempo não é uma linha reta. É um círculo. Ou melhor, é uma espiral. Ou melhor ainda, é um chá sendo preparado: as folhas vêm de árvores que cresceram séculos atrás, a água é do ciclo eterno das nuvens e dos rios, o calor é fogo que transforma, e a xícara — a xícara é apenas um momento. 

O que eu procurava, através de todas essas vidas, era a mulher cujo rosto eu vira pela primeira vez em 1919, no dia 4 de maio, em Pequim. 

Ela estava entre os manifestantes. Seu cabelo era curto, à moda das novas mulheres da Nova Cultura. Seus olhos ardiam com a paixão de quem acreditava que o mundo poderia ser refeito em uma geração. Ela segurava uma bandeira que dizia: "Salvem a China, salvem a nós mesmos." 

Eu a vi por um instante. Um instante apenas. Depois a multidão a engoliu. 

Procurei por ela durante o resto daquela vida. Durante a próxima. Durante a seguinte. Na Xangai dos anos 30, pensei tê-la encontrado em uma cantora de ópera que interpretava concubinas trágicas. Na Pequim dos anos 50, julguei reconhecê-la em uma professora universitária que citava Marx com a mesma paixão com que antes empunhara bandeiras. Na Shenzhen dos anos 2010, convenci-me de que ela era uma programadora que criava mundos dentro de computadores. 

Estava sempre errado. 

O problema de viver muitas vidas é que você começa a ver padrões onde eles não existem. Começa a confundir desejo com memória. Começa a construir templos em ruínas. 

Mas naquele dia, no décimo sétimo andar do edifício que fora tantas coisas, quando a porta se abriu e ela entrou — com o cabelo curto grisalho, os olhos ainda ardendo, um vestido azul que parecia vir de 1919 e de 2040 ao mesmo tempo — eu soube. 

Duzentos e quarenta anos de espera, e ela estava ali. 

 

Capítulo 2 

O Livro de Registros 

Ela sentou-se na mesa ao lado da minha. Pediu um chá branco, o mais simples, o mais puro. Enquanto a água esquentava, tirou da bolsa um caderno encadernado em couro e começou a escrever com uma caneta-tinteiro. 

Um caderno. Uma caneta-tinteiro. Em 2040, quando as pessoas escreviam diretamente em suas lentes neurais ou ditavam para assistentes de inteligência artificial, ela usava papel e tinta. 

Senti meu coração — este coração, o sétimo que eu habitava — bater mais rápido. 

Levantei-me. Aproximei-me de sua mesa. Ela ergueu os olhos. 

"Posso sentar-me?" perguntei em mandarim. 

Ela me examinou com a atenção de quem avalia um objeto antigo. "O senhor fala como um estrangeiro, mas seus olhos são chineses. E velhos. Muito velhos." 

"Sou de Macau. Ou fui, há muito tempo." 

"Há quanto tempo?" 

"Cento e quarenta e três anos. Mas quem está contando?" 

Ela riu. Não foi um riso de diversão, mas de reconhecimento. Como se eu tivesse dito a senha correta para um código que ela esperava há muito tempo. 

"Pode sentar-se, senhor de Macau. Meu nome é Lin Yuyan." 

"Egidio Guerra." 

"Egidio. É um nome que carrega guerra dentro de si. O senhor já lutou muitas?" 

"Em todas as vidas. E em todas perdi." 

"O que perdeu?" 

"Alguém. Ou algo. Ou talvez apenas o momento certo de encontrá-la." 

Ela inclinou a cabeça. "O senhor fala como um poeta da dinastia Tang. Ou como um velho bêbado em um parque." 

"Já fui ambos. Em vidas anteriores." 

Ela fechou o caderno. "Conte-me sobre essas vidas." 

E eu contei. Contei sobre 1919 e a multidão. Contei sobre 1941 e a bomba. Contei sobre 1989 e o tanque. Contei sobre 2023 e o carro. Contei sobre todas as vezes que procurei e não encontrei. 

Ela ouviu sem interromper. Quando terminei, ficou em silêncio por um longo tempo. A cidade, lá fora, continuava seu zumbido de drones e trens magnéticos. O chá esfriou em nossas xícaras. 

Finalmente, ela disse: "O senhor acredita em destino?" 

"Depois de cento e quarenta e três anos, não acredito em mais nada." 

"Então talvez eu deva lhe mostrar algo." 

Ela abriu o caderno. Não era um caderno comum. As páginas brilhavam levemente, como se contivessem luz própria. E nas páginas — eu vi meu próprio rosto. Muitos rostos. Todos os meus rostos. O de 1919, o de 1941, o de 1963, o de 1989, o de 2001, o de 2023, o de 2040. 

"Este é o Livro de Registros", disse ela. "Cada alma que renasce na Terra da Sabedoria deixa uma marca aqui. Eu sou sua guardiã. Há duzentos e quarenta anos, espero por você." 

"Por que esperou?" 

"Porque em 1919, quando você me viu pela primeira vez, eu também vi você. E soube que nossas almas estavam ligadas. Mas o destino é como um chá mal preparado: se a água estiver muito quente, queima as folhas; se estiver muito fria, não extrai o sabor. Nós sempre encontramos a temperatura errada. Até agora." 

"Por que agora está certa?" 

Ela sorriu. Era o mesmo sorriso de 1919, o mesmo que eu procurara através de impérios que caíram, revoluções que falharam, cidades que foram construídas e destruídas e reconstruídas. 

"Porque o tempo está se fechando", disse ela. "O círculo está se completando. O passado contém o futuro, o futuro contém o passado. E nós — nós somos o ponto onde eles se encontram." 

 

PARTE DOIS: O PASSADO CONTIDO NO FUTURO 

*Xangai, 2023-2040* 

Capítulo 3 

A Imperatriz Que Esqueceu 

Na minha vida anterior — a que terminou em 2023 — eu havia sido um homem chamado Chen Wei, arquiteto em Shenzhen. 

Foi nessa vida que aprendi a verdade sobre Lin Yuyan. 

Não a conheci então, é claro. Mas conheci uma mulher que me contou sua história. Era uma antiquária em Hong Kong, uma velha senhora de noventa e dois anos cuja família viera de Xangai em 1949. Ela tinha um objeto: um espelho de bronze da dinastia Tang que, segundo ela, pertencera a uma princesa. 

"Esta princesa", disse a antiquária, "viveu muitas vidas. Em cada uma, buscou o amor de um homem que vira em um sonho. Em cada uma, falhou. Diz a lenda que ela foi amaldiçoada por uma feiticeira do palácio, condenada a renascer até que aprendesse a verdade sobre o tempo." 

"Que verdade?" 

"Que o amor não é encontrar a pessoa certa. É ser a pessoa certa no momento certo. E que o momento certo nunca chega para quem está sempre procurando." 

Comprei o espelho. Custou-me quase todas as economias daquela vida. Nas noites de insônia, olhava para ele e via meu próprio rosto — mas não o rosto de Chen Wei. Via todos os meus rostos, sobrepostos como fotografias em transparência. 

Na noite de 23 de outubro de 2023, tive um sonho. Estava em um salão de chá, em algum lugar alto sobre Xangai. Uma mulher com cabelo curto grisalho e olhos jovens escrevia em um caderno brilhante. Ela ergueu os olhos e disse: 

"Da próxima vez, estarei esperando. Não se atrase." 

Acordei com o som de metal se dobrando. Meu carro estava sendo esmagado por um caminhão que perdeu o freio. Tive tempo de pensar: "Ela disse 'da próxima vez'. Não 'nesta'." 

 

Capítulo 4 

A Dança das Folhas de Chá 

Xangai, 2040 (continuação) 

Lin Yuyan fechou o Livro de Registros. 

"Agora você sabe", disse ela. "Eu sou a princesa do espelho. E você é o homem que procurei através de treze dinastias, quatro revoluções, e uma guerra mundial que não acabou, apenas mudou de nome." 

"Por que eu? Por que nós?" 

"Porque em 1919, quando nos vimos, algo aconteceu. O tempo se partiu. Ou se uniu. Depende de como você olha." 

"Como assim?" 

Ela levantou a mão. Sobre a mesa, as folhas secas de chá começaram a se mover. Dançaram. Formaram padrões. Palácios. Montanhas. Rios. Cidades. 

"Você vê? As folhas de chá contêm todas as formas possíveis. A água quente apenas revela uma delas. Nós somos assim. Nossas vidas são como infusões sucessivas das mesmas folhas. Cada vez, o sabor é diferente. Cada vez, é o mesmo." 

"E desta vez? Que sabor é este?" 

"Desta vez", disse ela, e seus olhos encontraram os meus, "desta vez é o sabor do fim. Ou do começo. Ainda não decidi." 

Uma luz vermelha piscou no horizonte. Não era o nascer do sol — era leste, não oeste. E Xangai fica na costa, voltada para o mar. O sol nasce no mar. 

"Isso não é o sol", disse eu. 

"Não. É a Estação. A grande máquina do tempo que construíram sob Pudong." 

"Uma máquina do tempo?" 

"Toda tecnologia é uma máquina do tempo. Um livro te leva ao passado. Um plano arquitetônico te leva ao futuro. Esta é apenas mais literal." 

"Quem construiu?" 

"Todos. Ninguém. O tempo decidiu que era hora de se fechar. E quando o tempo se fecha, os lugares onde o passado e o futuro se encontram começam a brilhar." 

A luz aumentou. O salão de chá tremeu. As xícaras tilintaram. 

"O que acontece agora?", perguntei. 

"Agora", disse Lin Yuyan, "nós escolhemos." 

 

Capítulo 5 

Três Vidas, Três Mundos 

Ela abriu novamente o Livro de Registros. As páginas brilharam mais forte que a luz da Estação. 

"Em cada vida que vivemos juntos, houve um momento de escolha. Em 1919, você escolheu a multidão em vez de me seguir. Em 1941, escolheu a guerra em vez do amor. Em 1963, escolheu a revolução. Em 1989, escolheu a esperança. Em 2001, escolheu a dúvida. Em 2023, escolheu o espelho." 

"E você? Quais foram suas escolhas?" 

"Em 1919, escolhi acreditarem que você me encontraria. Em 1941, escolhi esperar. Em 1963, escolhi ensinar. Em 1989, escolhi lembrar. Em 2001, escolhi esquecer. Em 2023, escolhi avisá-lo em um sonho." 

"E agora?" 

"Agora há três caminhos. Três vidas possíveis. Três mundos onde podemos nos encontrar novamente." 

As páginas do livro se abriram em três lugares diferentes. Em cada página, uma imagem se formava: 

Na primeira, éramos jovens em Pequim, em 1919, mas desta vez eu a seguia pela multidão. Encontrávamo-nos em uma biblioteca, entre livros de poesia Tang e panfletos revolucionários. Víamos o século XX se desenrolar juntos — as guerras, as revoluções, as reconstruções. Envelhecíamos. Morríamos. E na morte, nossas mãos ainda estavam entrelaçadas. 

Na segunda, éramos velhos em Xangai, em 2040, mas desta vez eu a reconhecia imediatamente. Não havia dúvida, não havia espera. Apenas o reconhecimento de duas almas que sempre se conheceram. Passávamos os anos que nos restavam caminhando pelo Bund, bebendo chá neste mesmo salão, lendo poesia um para o outro. E quando a Estação finalmente se abrisse, entraríamos juntos. 

Na terceira, não éramos ninguém em lugar nenhum. Éramos apenas duas almas flutuando no espaço entre as vidas, no momento entre a morte e o renascimento. E ali, naquele não-lugar, naquele não-tempo, finalmente nos tocávamos. E o toque era tão puro, tão completo, que não precisávamos de mais nada. Ficávamos ali para sempre, no instante eterno do encontro. 

"Escolha", disse Lin Yuyan. 

 

PARTE TRÊS: O RECOMEÇO 

A Escolha 

Capítulo 6 

O Sabor da Água 

Olhei para as três imagens. Para os três futuros. Para os três passados. 

"Você sabe qual escolherei?", perguntei. 

"Sei. Mas quero ouvir você dizer." 

"Escolherei a terceira." 

Ela não pareceu surpresa. "Por quê?" 

"Porque nas duas primeiras, ainda somos prisioneiros do tempo. Ainda temos que viver, sofrer, perder. Ainda temos que assistir uns aos outros morrer. Mas na terceira — na terceira, finalmente estamos livres." 

"Você acha que o amor pode existir fora do tempo?" 

"O amor é o que existe dentro do tempo. É o que torna o tempo suportável. É o que dá sentido à passagem dos dias. Mas também é o que nos prende. Eu passei cento e quarenta e três anos preso à memória do seu rosto. Você passou duzentos e quarenta anos presa à esperança de me encontrar. Não seria melhor — não seria mais amoroso — deixar ir?" 

"Deixar ir para onde?" 

"Para o lugar de onde viemos. Para o espaço entre as vidas. Para o momento em que o chá ainda é apenas folha seca e água fria, antes de qualquer infusão." 

Ela ficou em silêncio por muito tempo. A luz da Estação continuava a crescer. O edifício tremia mais fortemente. 

"Você está dizendo que prefere não viver comigo a viver e me perder?" 

"Estou dizendo que prefiro o eterno ao temporário. Já tive temporário demais. Sete vidas de temporário. Duzentos e quarenta anos de quase." 

"Mas a terceira opção não é eterna. É apenas o momento entre. É apenas a pausa entre as respirações. Não é o amor, é a ausência do amor." 

"Talvez a ausência do amor seja a forma mais pura de amor." 

Ela riu novamente. Desta vez, o riso era triste. 

"Você ainda é o mesmo. Em 1919, você escolheu a multidão porque acreditava que o amor individual era pequeno demais diante da história. Em 1941, escolheu a guerra porque acreditava que o amor era fraco demais diante da morte. Em 1963, escolheu a revolução porque acreditava que o amor era individualista demais diante do coletivo. Em 1989, escolheu a esperança porque acreditava que o amor era concreto demais diante do sonho. Em 2001, escolheu a dúvida porque acreditava que o amor era certo demais diante da incerteza. Em 2023, escolheu o espelho porque acreditava que o amor era real demais diante da imagem." 

"E agora? O que escolho agora?" 

"Agora você escolhe a ausência porque acredita que o amor é temporal demais diante do eterno. Você sempre encontra uma razão para não ficar. Sempre encontra um ideal maior que o momento presente." 

Senti o peso de suas palavras. Duzentos e quarenta anos de desculpas. Duzentos e quarenta anos de quase. 

"E você?", perguntei. "O que você escolhe?" 

"Eu escolho você. Sempre escolhi você. Em todas as vidas, em todos os momentos, em todas as escolhas. Mesmo quando você não ficava, eu ficava. Mesmo quando você escolhia a multidão, a guerra, a revolução, a esperança, a dúvida, o espelho — eu ficava. Esperando." 

"Por que esperava?" 

"Porque o amor não é encontrar a pessoa certa no momento certo. É estar presente para a pessoa errada no momento errado. É continuar escolhendo mesmo quando a escolha parece tola. É isso que você nunca entendeu." 

A luz da Estação agora preenchia todo o salão. As xícaras dançavam sobre as mesas. As folhas de chá voavam pelo ar como flocos de neve marrom. 

"O que acontece agora?", perguntei. 

"Agora a Estação se abre. E nós entramos, ou não. Juntos, ou separados. Pela última vez." 

"Por que última?" 

"Porque depois desta, não haverá mais renascimentos. O círculo se fecha. A dívida se paga. O chá se esgota." 

 

Capítulo 7 

O Momento Entre 

A porta do salão de chá se abriu para a luz. 

Não para o corredor do edifício, mas para algo mais. Para um lugar que era todos os lugares. Para um tempo que era todos os tempos. 

Vi Pequim em 1919, a multidão, a bandeira, o rosto dela entre os manifestantes. Vi Xangai em 1937, as bombas, os refugiados, o cheiro de sangue e pólvora. Vi a mesma cidade em 1990, as luzes de neon, os primeiros arranha-céus, a pressa dos novos ricos. Vi Shenzhen em 2023, o espelho, o sonho, o acidente. 

Vi também o que ainda não era. Xangai em 2050, submersa parcialmente, com barcos deslizando entre os topos dos arranha-céus. Pequim em 2070, uma cidade de parques e silêncio, com poucos humanos e muitos robôs cuidando de jardins. A China em 2100, irreconhecível, talvez inexistente como nação, talvez transformada em algo que não tínhamos palavras para descrever. 

Tudo isso na luz. Tudo isso no momento entre um passo e outro. 

Lin Yuyan estava ao meu lado. 

"O que você vê?", perguntou. 

"Tudo. Nada. O que não foi e o que não será." 

"Eu vejo você. Apenas você." 

Tocou meu rosto. Sua mão era quente, real, presente. 

"Esta é a última vez que nos tocamos", disse ela. "A última vez em qualquer vida. Depois disso, ou entramos juntos na luz, ou nos separamos para sempre." 

"Separar para onde?" 

"Para o esquecimento. Para o não-ser. Para o lugar onde as almas que não aprendem vão desaparecer." 

"Isso existe?" 

"Existe tanto quanto nós existimos. Que é dizer: existe enquanto acreditamos." 

Olhei para a luz. Olhei para ela. Para o rosto que procurara por duzentos e quarenta anos. Para a mulher que esperara por mim através de impérios e revoluções. 

"Em 1919", comecei, "eu não te segui porque tinha medo." 

"Medo de quê?" 

"De que se te seguisse, descobrisse que você era apenas uma pessoa comum. E eu precisava que você fosse mais que isso. Precisava que você fosse o símbolo de tudo o que eu buscava — a China nova, o futuro, a esperança." 

"E eu era apenas uma garota com uma bandeira." 

"Sim. Mas eu não sabia disso então. Ou sabia, mas não queria aceitar." 

"E agora?" 

"Agora sei que você é apenas uma pessoa. E isso é mais do que suficiente. É tudo." 

A luz começou a pulsar. O chão tremeu. O teto se abriu para um céu que não era o de Xangai, nem o de 2040, nem o de nenhum tempo que conhecíamos. 

"Precisamos decidir", disse ela. 

Decidi. 

Em vez de avançar para a luz, recuei um passo. Puxei-a comigo. Para fora da porta. Para o salão de chá. Para o décimo sétimo andar do edifício que fora tantas coisas. 

A porta se fechou. A luz desapareceu. 

Ficamos apenas nós, as mesas, as xícaras, o chá esfriando. 

"O que você fez?", perguntou ela, os olhos arregalados. 

"Escolhi o momento presente. Pela primeira vez em duzentos e quarenta anos, escolhi o agora." 

"Mas a Estação..." 

"A Estação pode esperar. O tempo pode esperar. Todas as outras vidas podem esperar. Eu esperei tempo demais. Agora quero viver." 

Ela sorriu. Era o mesmo sorriso de 1919, mas diferente. Mais real. Mais presente. Mais humano. 

"E o que você quer viver agora?" 

"Quero tomar chá com você. Quero ver o sol nascer sobre Xangai. Quero envelhecer neste corpo, com você neste corpo, e um dia morrer neste corpo, sabendo que vivi, realmente vivi, pelo menos uma vez." 

"E depois?" 

"Depois, se houver depois, descobriremos juntos." 

 

EPÍLOGO 

Xangai, 2041 

O Chá da Manhã 

O salão de chá ainda existia. Ainda no décimo sétimo andar. Ainda com suas xícaras antigas e sua água a 95 graus. 

Mas agora havia duas xícaras. Duas pessoas. Dois corações batendo no mesmo ritmo. 

Lin Yuyan preparava o chá. Seus movimentos eram precisos, antigos, aprendidos através de séculos. Mas havia algo novo neles. Uma leveza. Uma presença. 

"Você está diferente", disse eu. 

"Estou aprendendo a estar aqui. É mais difícil do que parece." 

"Mais difícil do que esperar duzentos anos?" 

"Muito mais. Esperar não exige nada de você. Estar aqui exige tudo." 

Peguei a xícara que ela me ofereceu. O chá era um Dahongpao simples, de árvores comuns, cultivado em 2039. Não era antigo, não era raro, não era precioso. 

Era perfeito. 

Bebemos em silêncio. Lá fora, Xangai acordava. Drones entregavam mercadorias. Trens magnéticos deslizavam sobre a cidade. Crianças iam para escolas onde aprenderiam coisas que não podíamos imaginar. 

O passado estava contido no futuro. O futuro estava contido no passado. 

E nós estávamos ali, no meio, bebendo chá. 

"Egidio", disse ela. 

"Sim?" 

"Obrigada por não entrar na luz." 

"Obrigado por esperar." 

Ela riu. "Agora você terá que me aturar todos os dias. Sem mistério, sem destino, sem grandes paixões. Apenas eu, fazendo chá, envelhecendo, reclamando das dores nas costas." 

"Parece perfeito." 

"É. É exatamente isso." 

O sol finalmente apareceu sobre o mar, pintando os arranha-céus de rosa e ouro. A cidade brilhou. Nossas xícaras brilharam. Nossos rostos brilharam. 

E pela primeira vez em duzentos e quarenta anos, não estávamos procurando nada. 

Apenas estávamos. 

 

Fim 

  

A Terra da Sabedoria — Zhongguo — é tanto um lugar geográfico quanto um estado de espírito. É onde o tempo se dobra sobre si mesmo, onde o chá tem gosto de memória, e onde o amor é a única força capaz de parar o tempo. 

Que você, leitor, encontre seu momento presente. E que, quando encontrar, tenha a coragem de ficar. 

 

Egidio Guerra 
Xangai, 2041