A vitória de Lula em 2022, com margem apertada de 50,9% a 49,1% dos votos válidos, não representou apenas uma alternância de poder, mas um sintoma de um Brasil profundamente dividido que exige novas formas de habitar o mundo. A partir desse marco, a construção de "novas formas de ser, viver e governar" exige articulação entre a concretude das políticas públicas, a crítica à fragmentação digital e uma pedagogia da convivência que nos retire das bolhas e nos insira em ecossistemas plurais. Mas a eleição de 2026 não repetiu o roteiro de 2022. Em 25 de outubro de 2026, Lula venceu o segundo turno com 51,79% dos votos válidos (64.256.232 votos), derrotando Flávio Bolsonaro, que obteve 48,21% (59.826.041 votos). Mas o dado decisivo está no primeiro turno: Flávio liderou com 47,03% contra 45,16% de Lula — vantagem de cerca de 2,2 milhões de votos. Lula tornou-se, assim, o primeiro presidente desde a redemocratização a perder o primeiro turno e virar no segundo, numa virada de mais de 4,4 milhões de votos. No segundo turno, Lula cresceu em todos os 26 estados e no Distrito Federal, somando mais de 10 milhões de votos em relação ao primeiro turno — 2,6 milhões só em São Paulo, 1,1 milhão em Minas Gerais (onde virou o placar) e 872 mil no Rio de Janeiro, território político de Flávio.
O Desafio Antropológico: Sair da "Curadoria do Eu" para o Ecossistema
A eleição evidenciou um fenômeno que a pesquisadora Catharina Vale chama de "curadoria do eu": a tendência de jovens e cidadãos de filtrarem radicalmente o conteúdo que consomem nas redes sociais como forma de proteção contra o cansaço da polarização. Se, por um lado, essa blindagem protege o indivíduo de agressões virtuais, por outro, ela cria bolhas onde o outro desaparece, impedindo o diálogo social.
Para governar e viver agora, é preciso transmutar essa lógica de isolamento em ecossistemas sociais. Isso significa compreender a sociedade não como uma soma de identidades isoladas, mas como uma rede de interdependência. O desafio antropológico é resgatar a ideia de que a sobrevivência do "eu" depende da vitalidade do "nós". A vitória nas urnas, embora tenha sido celebrada nas ruas e nas redes por parte da população, só se sustenta politicamente se houver a coragem de romper as bolhas e criar espaços de convivência onde a diversidade não seja uma ameaça, mas um nutriente para a inovação social e política.
A Dimensão Espiritual e Educacional: O Amor como Prática Política
A transição do ódio para o amor, mencionada como força motriz da vitória, encontra ressonância em pensadores como Howard Thurman e Thich Nhat Hanh. Thurman argumentava que o amor não é uma sentimentalidade fraca, mas uma disciplina espiritual radical que exige compreender as raízes da raiva no outro e em si mesmo para, só então, ser capaz de transformar a realidade. Nhat Hanh complementa ao afirmar que "matar a raiva" é a única guerra justa, pois remove o sofrimento e traz paz.
No campo educacional, Edgar Morin oferece a bússola metodológica para essa transformação. Sua crítica à "cabeça bem cheia" (acúmulo de informações fragmentadas) em favor da "cabeça bem-feita" (capacidade de contextualizar e ligar saberes) é crucial. Para governar com o povo e transformar a pobreza e as violências, a educação precisa ser um exercício de complexidade. Não basta ensinar fatos; é preciso ensinar a condição humana, a compreensão e a ética do gênero humano. Isso implica uma pedagogia que una a espiritualidade (o cuidado com o outro) à sustentabilidade ambiental e à justiça social, formando cidadãos capazes de habitar os "ecossistemas" mencionados sem medo.
O Governar com o Povo: Sustentabilidade e Reconstrução
No plano concreto da gestão, as "novas formas de governar" anunciadas no discurso de posse apontam para uma tentativa de reverter o desmonte das políticas públicas e reintegrar o Brasil ao circuito da sustentabilidade. A promessa de desmatamento zero e a revogação de decretos armamentistas sinalizam uma mudança de paradigma: o Estado deixa de ser um facilitador da destruição (ambiental e social) para se tornar um garantidor da vida.
Contudo, para que isso se torne um "mundo novo" economicamente sustentável e justo, a governança precisa incorporar a dimensão do cuidado. Isso significa olhar para a pobreza não apenas como falta de renda, mas como falta de acesso a ecossistemas saudáveis (saneamento, cultura, segurança alimentar). A reconstrução do Estado é, portanto, indissociável da reconstrução do tecido social. Governar "com o povo" exige canais de participação que não sejam apenas digitais (e, portanto, sujeitos a algoritmos), mas presenciais e comunitários, onde o "bem, o belo e o justo" possam ser debatidos e experienciados na prática cotidiana.
Em síntese, a eleição de Lula abriu uma janela para a reinvenção, mas a arquitetura desse novo mundo depende de uma síntese inédita: a espiritualidade que nutre a resistência não violenta, a educação que complexifica o olhar para além das bolhas, e a política que traduz essa complexidade em políticas públicas de sustentabilidade e cuidado com os vulneráveis. O caminho da sabedoria, nesse contexto, é a recusa constante da simplificação (seja a das redes sociais ou a dos discursos de ódio) em favor da construção paciente de ecossistemas onde a vida — em sua diversidade biológica, cultural e espiritual — seja o centro das decisões.


