SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sábado, 21 de março de 2026

O que é a Armadilha de Escalada, que explica por que guerra no Irã pode sair de controle

 

Fumaça em meio a prédios no Líbano após ataques de Israel no dia 9 de março de 2026

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Fumaça em meio a prédios no Líbano após ataques de Israel no dia 9 de março de 2026
    • Author,Luiz Antônio Araújo
    • Role,De Porto Alegre para a BBC News Brasil
  • Tempo de leitura: 9 min

Uma potência decide atacar outra com força limitada para atingir um objetivo determinado. A agredida reage por meio da expansão do campo de batalha. A agressora escala o conflito a fim de recuperar a iniciativa.

Essa sequência, descrita em um modelo chamado Armadilha de Escalada, do norte-americano Robert Pape, tem sido invocada para explicar o que ocorre na Guerra do Irã.

Depois de realizar cerca de oito mil voos sobre o território iraniano e atingir cerca de 7 mil a 7,8 mil alvos no país, matando o líder supremo da república islâmicaAli Khamenei, e parcela considerável da cúpula do regime, os Estados Unidos ainda parecem longe de atingir os objetivos anunciados no início das hostilidades.

Pressionado, o presidente Donald Trump emite sinais contraditórios: afirma que os EUA "já venceram", pede ajuda internacional para desobstruir o estreito de Ormuz, tenta se dissociar do bombardeio israelense da maior planta de gás natural do Irã e ameaça explodir as mesmas instalações se houver novos ataques iranianos ao Catar.

Adicionalmente, a guerra provoca a maior disrupção de oferta de petróleo da história, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), com a cotação do barril atingindo quase US$ 120 esta semana, além de causar pressão inflacionária global e abalo de cadeias produtivas.

Imagem composta mostra o presidente americano Donald Trump carrancudo, com um boné de baseball branco com a inscrição "USA", casaco azul-marinho, camiseta azul clara e gravata azul, sobreposta sobre uma montagem de guerra, que inclui um tanque e uma explosão, com grandes rachaduras

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em sobreposição a imagens da guerra

Desde que se iniciou o conflito no Oriente Médio, em 28 de fevereiro, a Armadilha de Escalada passou a ser citada em reportagens e análises no mundo inteiro e registrou aumento de 20% em buscas no Google.

Pape, que é professor de Ciência Política na Universidade de Chicago, tornou-se presença constante em programas de TV, lives e podcasts.

Conselheiro de assuntos estratégicos de todos os presidentes dos EUA desde 2001, ele simulou por 20 anos o bombardeio da planta nuclear iraniana de Fordow, atingida por caças norte-americanos em junho de 2025, e a mudança de regime no Irã.

Com base nessa experiência, está convencido de que o regime dos aiatolás está, paradoxalmente, mais forte hoje do que antes do início da Operação Fúria Épica.

"O Irã no 17º dia [da guerra] é mais perigoso e mais poderoso do que antes de a primeira bomba cair", afirmou na terça-feira (17/3) ao canal de TV indiano India Today.

Quatro dias antes do começo da guerra, Pape lançou na plataforma Substack uma newsletter com o nome de seu modelo. "O termo 'armadilha da escalada' está agora se espalhando. Não é um acidente", afirmou.

Em vez de prestar atenção em alvos, armamento e supremacia aérea — elementos vitais em qualquer conflito contemporâneo —, o modelo volta-se para aspectos mais difusos da guerra: transição progressiva de menor para maior engajamento, ilusão de controle, escalada e desescalada.

"Análises geralmente explicam eventos. Poucas explicam em que fase um conflito está entrando — e o que isso significa antes que se converta em engajamento. A Armadilha da Escalada fornece a você as molduras para reconhecer quando a pressão passa de crise episódica a envolvimento estrutural", sustentou o autor.

Os elementos enfatizados pela Armadilha de Escalada têm uma característica comum: encontram-se na encruzilhada entre guerra e política, terreno no qual predomina a incerteza, de acordo com o cientista político.

"A Armadilha de Escalada não quer dizer simplesmente que as guerras ficam maiores. Quer dizer que os esforços para controlar um conflito podem torná-lo mais difícil de controlar", afirmou.

Mapa mostra o estreito de Ormuz

Modelo serve especialmente para a realidade dos EUA

Professor do Programa de Pós-graduação em Estudos Estratégicos Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Érico Duarte afirma que o modelo da Armadilha de Escalada é uma síntese da tese desenvolvida por seu autor na obra Bombing to Win: Air Power and Coercion in War — ("Bombardeando para vencer: poder aéreo e coerção na guerra", em tradução livre), livro publicado em 1996, sem edição brasileira.

"É um modelo que serve especialmente para informar o público americano sobre os custos que o Estado terá ao investir ou abandonar uma guerra", descreve.

Entre os limites do modelo, Duarte cita o papel irrelevante atribuído à situação política que antecedeu o conflito e a dificuldade de ser aplicado a outros países além dos EUA. "A Armadilha de Escalada não contempla, por exemplo, a situação de Israel diante do Irã", assinala o professor.

A guerra no Golfo Pérsico, segundo Duarte, tem várias camadas. Uma delas é o envolvimento norte-americano. Outra é a participação de Israel. Deve-se considerar também, ele diz, o papel de países como as monarquias do Golfo Pérsico, a Turquia e até mesmo nações mais distantes como o Brasil.

"Como os EUA são a principal potência envolvida na guerra, são obrigados a absorver todos os custos e pressões de outros países — aliados, nem tão aliados ou rivais — sobre os custos imediatos ou de longo prazo dessa guerra", afirma.

Segundo Duarte, os Estados Unidos já entraram em modo de controle e redução de danos no Golfo Pérsico e dificilmente evoluirão para um envolvimento em larga escala como ocorreu no Afeganistão e no Iraque.

"Os EUA estão partindo para uma política de acomodação. Até podem aumentar as ameaças midiáticas e discursivas, mas não acho que queiram escalar a guerra do ponto de vista material."

Professor de Relações Internacionais da Universidade Federal da Paraíba e pesquisador do Observatório de Capacidades Militares e Políticas de Defesa, Augusto Teixeira aponta dois pontos fortes do modelo de Pape: a ênfase os limites do poder aéreo na produção de vitória e a definição das operações terrestres como estágio seguinte de escalada por parte da potência agressora.

No caso da Guerra do Irã, diz Teixeira, evitar a escalada implicaria reduzir o alcance dos objetivos políticos, oferecendo a Trump o que vem sendo chamado de "off-ramp", ou saída estratégica, algo que permita ao presidente americano declarar vitória sem a realização de todos os propósitos cogitados no início da ofensiva.

Teixeira afirma que o aspecto crítico abordado pela Armadilha de Escalada é a relação entre os objetivos políticos e os níveis estratégico e tático.

"Eles têm de ser claros e relativamente delimitados para que o poder militar possa persegui-los. A mudança de objetivos políticos pode tornar complicado o ajuste de instrumentos militares para sua consecução", diz Teixeira.

Vista de parte do campo de gás South Pars em Asaluyeh, no litoral iraniano do Golfo Pérsico, a 1,4 mil km ao sul de Teerã

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Vista de parte do campo de gás South Pars em Asaluyeh, no litoral iraniano do Golfo Pérsico, a 1,4 mil km ao sul de Teerã

O pesquisador enfatiza também a disparidade das métricas de sucesso militar em nível tático (entre as quais inclui as mortes de líderes políticos e chefes militares) e estratégico, que define como "a ponte entre o uso da força no campo de batalha e os efeitos para produção das condições políticas desejáveis".

"Quais são as condições políticas desejáveis para os Estados Unidos, aquilo que se chama popularmente de 'endgame' [pontuação ou meta que define a conclusão de uma partida esportiva]?", questiona Teixeira.

Para o professor, o presidente dos Estados Unidos e seus auxiliares têm se referido a múltiplos objetivos políticos, da mudança de regime ao enfraquecimento da capacidade militar iraniana e ao fim de seu programa nuclear.

"A Armadilha da Escalada está intimamente ligada à característica do objetivo que Trump escolher como definitivo. Se for um objetivo minimalista, como a degradação da capacidade de projeção de força militar do Irã, ele conseguirá argumentar que, uma vez alcançado esse propósito, é possível retrair [a ação norte-americana contra o Irã]."

Teixeira afirma que toda guerra demanda estratégia, ou seja, planejamento militar de alto nível para atingir um determinado fim. "O problema é que estratégia é algo jogado por dois atores. O outro também tem direito de fala e vai reagir a fim de impedir que se realize", argumenta.

No caso do Irã, acrescenta, travar uma guerra defensiva para manter o regime no poder tem vantagens evidentes: se a República Islâmica sobreviver ao conflito, seus partidários poderão declarar vitória estratégica.

Custos da guerra são mais baixos para o Irã, diz pesquisador

Segundo Ricardo de Toma, pesquisador pós-doutoral do Instituto Meira Mattos da Escola de Comando e Estado-maior do Exército (Eceme), o modelo de Armadilha de Escalada é aplicável à Guerra do Irã, mas apenas parcialmente.

"Os Estados Unidos e Israel executaram com eficácia uma fase inicial de decapitação da cadeia de comando e de negação da capacidade de retaliação, concentrando-se nos lançadores de mísseis, fato inclusive celebrado por Trump. O problema é que o recrudescimento e a continuidade dessa situação já ameaçam uma evolução para uma guerra regional", afirma.

A Armadilha de Escalada manifesta-se, segundo De Toma, no alastramento de ataques com mísseis e drones pelo Irã contra os países vizinhos. "Esse desdobramento amplia os custos políticos e estratégicos da operação, que são consideravelmente mais baixos para o Irã", observa.

De acordo com De Toma, o modelo de Pape captura a lógica, mas não a geometria específica do conflito atual, no qual é o Irã que, enfraquecido militarmente, recorre a retaliações assimétricas "para evitar uma derrota percebida como total".

Segundo o pesquisador, o presidente dos Estados Unidos ocupa um papel triplo no conflito: decisor estratégico, ator comunicacional e fator de imprevisibilidade.

O fato de Trump ter oferecido justificativas múltiplas e contraditórias para a guerra acabou contrariando os próprios objetivos externos de seu movimento Make America Great Again, mais isolacionista e avesso à participação americana em guerras externas.

"Essa ambiguidade narrativa [de Trump] é disfuncional: impede a formação de coalizões internacionais, fragiliza a legitimidade da operação e incrementa consideravelmente os custos para os Estados Unidos."

De Toma observa que nenhum outro país-membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) além dos Estados Unidos atacou diretamente o Irã.

"No Irã, o papel de Trump é o de um presidente que conduz uma guerra de alta intensidade sem doutrina estratégica coerente, substituindo a clareza de objetivos pela intimidação retórica."

Legenda do vídeo,O que está por trás do ataque de Estados Unidos e Israel contra o Irã

Baixo desemprego parece uma boa notícia. E se não for?

 


O mapa abaixo mostra a taxa de desemprego de uma ampla variedade de países. A Ásia-Pacífico se destaca. A taxa média de desemprego é de 4%, comparada a quase 8% em outras regiões. A mediana também é de 4%, bem abaixo de 6% em outros lugares.

Mas por trás dessa superfície "positiva" que se pode associar a economias em expansão, escondem-se realidades mais duras.

♦️Muitos países não possuem mecanismos robustos de proteção social. As pessoas não podem se dar ao luxo de ficar desempregadas e recorrer ao trabalho no setor informal. Contamos 1,3 bilhão deles só nesta região.

♦️Os jovens da região têm de 3 a 5 vezes mais chances de estar desempregados do que os adultos. Com a IA, isso vai piorar também. Mais de 85% dos jovens trabalhadores trabalham no setor informal.

♦️As taxas de desemprego em geral também são baixas porque milhões – especialmente mulheres no Sul da Ásia – são excluídas do setor formal por conta das normas sociais de gênero restritivas. Eles não fazem parte da força de trabalho.

Isso me leva a uma das minhas citações favoritas, de Stephen Jay Gould:

"De certa forma, me interesso menos pelo peso e pelas convoluções do cérebro de Einstein do que pela quase certeza de que pessoas de talento igual viveram e morreram em campos de algodão e fábricas de exploração."

Pode-se acrescentar a isso: presos a fogões de cozinha, navegando por meio de congestionamentos em bicicletas de entrega, empurrando carrinhos de comida de rua, trabalhando em andaimes de construção sem arnês, ou quebrando as costas em fornos de tijolos sem regulamentação!

Os pobres estão invariavelmente trabalhadores e subempregados, não desempregados, enquanto estão presos em condições precárias e de baixa produtividade.

O desemprego é, em grande parte, um conceito inútil em economias em desenvolvimento.
·

sexta-feira, 20 de março de 2026

Alguns amores são tão grandes que precisam habitar o silêncio para nunca deixarem de soar.



Eu quero todos os sons não capturados que não viraram nostalgia, nem luto: se a gente não tivesse se conhecido, eu conseguiria escutar esse som? essa falta que me preencheu profundamente em momentos que evaporaram?

Essa pergunta é um fonógrafo sem agulha, um cilindro de cera onde nenhuma gravação foi jamais inscrita, mas onde a ausência vibra. Pois o que é o som não capturado senão o fantasma da própria possibilidade? Ben Shattuck, em The History of Sound, sabe que os verdadeiros registros do amor não estão nas canções folclóricas coletadas na floresta do Maine, nem nos cilindros de cera que um dia revelam segredos enterrados em sótãos poeirentos. O som que persigo — o som que nós perseguimos — é aquele que escapa entre as notas, o silêncio que se instala após a última melodia, tendo caminhado juntos sobre as praias e a lua, descobrem que a odisseia os marcou para sempre, mas que a verdadeira medida do que viveram reside exatamente no que não ousaram dizer.

Existe uma memória que não é lembrança, mas ressonância. Os contos de Shattuck são construídos em pares, como canções que se respondem através dos séculos: uma história revela os segredos da outra, um objeto — uma pintura de um pássaro, um cilindro gravado — viaja no tempo carregando consigo o peso de um amor mal compreendido, um gesto que não se concretizou. Esses artefatos são os ecos palpáveis do que não pôde ser vivido em sua plenitude. O amor que não conhecemos, assim, não é um vazio, mas uma presença negativa. Ele se manifesta na forma dessa "falta que preenche", como se a ausência de um som criasse uma câmara de ressonância dentro do peito.

E se a eternidade não fosse um tempo sem fim, mas um eco? Livros que tratam de memórias eternas — como Eternal Echoes ou Lost Passions — nos falam de amores que atravessam séculos, de almas que se reencontram em diferentes encarnações, de uma melodia que persiste mesmo quando os músicos já viraram pó. O diarista imortal de Eternal Echoes testemunha o coração partido que acompanha o amor que desafia o tempo, pois cada mulher amada lhe é arrancada pelo "marcha inexorável do tempo". É aí que reside a beleza terrível da memória: ela transforma o amor em uma canção que não termina, mas que também não se realiza plenamente. Assim como Orfeu, que desceu ao submundo em busca de Eurídice e a perdeu ao olhar para trás, nós passamos a vida tentando capturar um som que só existe no momento exato em que deixamos de procurá-lo.

O som do amor que não conhecemos é, talvez, a melodia que Pan inventou ao soprar nas canas — um lamento pela beleza que foge, um assombro que a memória "nunca captura ou mata". É uma abstração final, uma perseguição que reside em seu próprio deleite. Se não tivéssemos nos conhecido, eu não saberia que esse silêncio existe. A falta que sinto agora, essa vibração de algo que esteve ali por um instante e depois evaporou, é a prova de que o amor não precisa de duração para ser eterno. Ele se tornou um som gravado não na cera, mas na curva do meu próprio osso, na acústica secreta da minha casa interior.

Um crítico escreveu que as histórias de Shattuck nos lembram que o passado é frequentemente mal compreendido, e que o desejo pode ecoar por séculos, "revelando os segredos, mal-entendidos e o amor que perduram através dos séculos". Assim, carrego comigo os sons que não ousamos gravar. Não como nostalgia — que é a prisão do que foi —, nem como luto — que é o lamento pelo que se perdeu. Mas como uma nota sustentada, que vibra no intervalo entre o que aconteceu e o que poderia ter acontecido. 

Se a gente não tivesse se conhecido, eu seria apenas uma sala vazia. Agora, sou uma catedral de ecos. E esse som — essa falta que me preenche — é a prova de que, mesmo no que evaporou, ficou o registro de uma verdade: a de que alguns amores são tão grandes que precisam habitar o silêncio para nunca deixarem de soar.