SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Aliança Global para Ecossistemas de Prosperidade nos Territórios mais vulneráveis. Por Egidio Guerra.

  






1. O Diagnóstico: A Urgência de uma Ação Integrada em um Mundo Caótico 

Vivemos em um mundo definido pela complexidade, incerteza e irreversibilidade, como nos alerta Edgar Morin. Em nenhum lugar essa realidade é mais cruel do que nos 1000 territórios mais pobres e violentos, espalhados por pelo menos 100 países. Ali, a ausência do Estado, a degradação ambiental e a exclusão econômica criam um ciclo vicioso onde a pobreza multidimensional e a criminalidade se retroalimentam. Cerca de 400 milhões de pessoas estão presas nessa teia, com suas trajetórias de vida limitadas por muros invisíveis, mas intransponíveis. Vamos transformar pobreza e crime em vidas boas, belas e justas começando por São Paulo e o Brasil liderar o mundo ?

As instituições tradicionais, isoladas, são incapazes de romper esse ciclo. A escola, confinada aos seus muros, reproduz uma lógica disciplinar fragmentada (Foucault), divorciada da vida e das dores do território. O governo atua de forma setorizada, as empresas ignoram o potencial local, e as universidades produzem conhecimento distante da realidade. É necessário, portanto, transcender o modelo atual e arquitetar uma nova abordagem. 

2. A Proposta: Uma Aliança Global para Ecossistemas Educativos e Econômicos 

Propomos a formação de uma aliança global inédita, que reúna Banco Mundial, Nações Unidas, Governos Nacionais e Locais, Ashoka, Fundações Filantrópicas, Empresas com propósito ESG, Universidades e Escolas. O objetivo é transformar os 1000 territórios mais vulneráveis em Ecossistemas Integrados de Prosperidade, inspirados no conceito de Ecossistemas Educativos desenvolvido por Egidio Guerra. 

Neste modelo, o território torna-se a sala de aula viva e a fábrica do futuro. A sinergia entre os setores visa otimizar recursos e amplificar impactos, atuando em três frentes simultâneas: 

  1. Educação Integral e Missões Educadoras: A escola deixa de ser um prédio para se tornar um polo irradiador. Em parceria com universidades (extensionistas) e ONGs (como a Ashoka, com sua rede de empreendedores sociais), o currículo se reconecta com a vida. Os alunos aprendem matemática calculando a viabilidade de uma horta comunitária, geografia mapeando riscos ambientais, história resgatando a memória local e ciências desenvolvendo soluções para os desafios do bairro. É a pedagogia dialógica de Paulo Freire encontrando o "aprender fazendo" de John Dewey. As missões educadoras são projetos práticos onde os estudantes, suas famílias e a comunidade atuam juntos para resolver problemas reais, gerando cidadania e pertencimento desde a infância. 

  1. Geração de Trabalho, Renda e Cidadania: A aliança cria as condições para que o território gere sua própria economia. Governos garantem infraestrutura básica e segurança jurídica. O Banco Mundial e Fundações fornecem linhas de crédito e capital semente. Empresas ESG entram como âncoras, comprometendo-se a integrar cadeias de suprimento locais, comprar produtos e serviços gerados no território, e oferecer mentorias. Universidades oferecem capacitação técnica e tecnológica, alinhada às demandas reais do mercado e às potencialidades locais. O objetivo é fomentar cooperativas, pequenos negócios e iniciativas de economia solidária, transformando o cidadão em protagonista de sua própria existência econômica. 

  1. Sustentabilidade e Ação Climática: Metade da população economicamente ativa desses territórios seria engajada em missões relacionadas às mudanças climáticas. Isso inclui reflorestamento de áreas degradadas, agricultura regenerativa, gestão de resíduos sólidos, instalação e manutenção de sistemas de energia solar comunitária, e bio-construção. Aqui, a necessidade ambiental se transforma em vetor de emprego e renda, criando uma geração de "guardiões ambientais" que cuidam e prosperam com seu território. 

3. O Horizonte de Impacto: Uma Existência Boa, Bela e Justa 

Ao conectar todos esses atores, o sujeito deixa de ser um produto do caos para se tornar o arquiteto de si mesmo e de sua comunidade (Guerra). Com apoio e oportunidades, ele desenvolve a metacognição e a autonomia para construir uma trajetória de vida significativa. 

O impacto dessa ação integrada, se implementada com sucesso para alcançar 400 milhões de pessoas, pode ser calculado em múltiplas dimensões. 

a) Impacto Econômico Direto: A Injeção de Renda 

Se cada uma das 400 milhões de pessoas passar a ter uma renda mensal de US$ 400 (proveniente de trabalho formal, cooperado ou empreendedorismo), o impacto econômico anual seria colossal. 

  • Renda Anual Total: 400.000.000 pessoas * US$ 400/mês * 12 meses = US$ 1,92 trilhão por ano. 

Para contextualizar, este valor é superior ao Produto Interno Bruto (PIB) de países como Canadá, Itália ou Brasil. Este montante não é apenas um número; ele representa: 

  • Injeção na Economia Local: Este dinheiro circularia nos próprios territórios e arredores, aquecendo o comércio local, criando um ciclo virtuoso de demanda por mais bens e serviços. 

  • Criação de um Mercado Interno Robustecido: Os 400 milhões de novos consumidores se tornariam um mercado atraente para as próprias empresas ESG que atuam na região, fechando o círculo do desenvolvimento. 

  • Base de Arrecadação Fiscal: Esta nova atividade econômica geraria impostos para os governos locais e nacionais, que poderiam ser reinvestidos em infraestrutura e serviços públicos, retroalimentando o sistema. 

b) Economia com a Prevenção: O "Dividendo Social" 

É possível prever uma enorme economia para o Estado com a redução drástica da criminalidade e dos problemas sociais correlatos. Esta economia, que podemos chamar de "Dividendo Social", viria de: 

  • Sistema Prisional: O custo médio anual por preso varia muito, mas em países da OCDE, pode facilmente ultrapassar US$ 50.000. Se a ação conseguir evitar que apenas 5% dessa população (20 milhões de jovens) entre no sistema prisional, a economia anual seria de US$ 1 trilhão. Mesmo em países em desenvolvimento, com custos mais baixos (ex: US$ 10.000/ano), a economia seria de US$ 200 bilhões anuais. 

  • Sistema de Saúde: A redução da violência alivia imensamente os sistemas de emergência (traumas, ferimentos por arma de fogo). Além disso, uma população com trabalho, renda e educação tem melhores condições de saúde preventiva, reduzindo gastos com doenças crônicas e problemas de saúde mental decorrentes do estresse da pobreza e da violência. A economia aqui seria de dezenas de bilhões de dólares anuais. 

  • Assistência Social e Programas de Transferência de Renda: Ao gerar renda autônoma, a população sai da dependência de programas assistenciais, liberando recursos públicos para outras áreas. 

  • Judiciário e Segurança Pública: Com menos crimes, há menos processos judiciais e menor necessidade de policiamento ostensivo, permitindo que esses recursos sejam realocados para a prevenção e a inteligência. 

Somando todas essas frentes, o "Dividendo Social" anual poderia facilmente alcançar centenas de bilhões de dólares, pagando o investimento inicial da aliança em poucos anos e gerando retorno positivo para os cofres públicos no médio e longo prazo. 

c) Impacto Ambiental: A Neutralidade de Carbono é Possível? 

A pergunta é: se metade dessas pessoas (200 milhões) atuasse em missões climáticas, poderíamos chegar à emissão zero de carbono? 

A resposta é: diretamente, não, mas indiretamente, seria um dos maiores contribuintes da história para esse objetivo. 

  • Impacto Direto (Sequestro de Carbono): 200 milhões de pessoas dedicadas ao reflorestamento poderiam plantar dezenas de bilhões de árvores por ano. Estima-se que uma árvore madura pode sequestrar cerca de 20 kg de CO2 por ano. Plantar 50 bilhões de árvores poderia sequestrar 1 bilhão de toneladas de CO2/ano, o que é significativo (cerca de 2-3% das emissões globais), mas não suficiente para zerar as emissões. 

  • Impacto Indireto (Prevenção de Emissões): O maior impacto viria da mudança do modelo econômico. 

  • Agricultura Regenerativa: Praticada em larga escala, sequestra carbono no solo e reduz o desmatamento para novas áreas de cultivo. 

  • Energia Solar Comunitária: Substitui fontes fósseis, evitando emissões. 

  • Economia Circular (Gestão de Resíduos): A reciclagem e o reaproveitamento de materiais reduzem a necessidade de extração de novos recursos e a emissão de metano em lixões. 

Além disso, essa ação educa e engaja a população em uma cultura de baixo carbono. Essas 200 milhões de pessoas se tornariam agentes de transformação em suas comunidades, pressionando por políticas públicas mais verdes e adotando práticas sustentáveis em seu consumo diário. 

Portanto, embora não atinja sozinha a meta de net-zero, esta iniciativa seria, de longe, o maior programa de ação climática baseada em comunidades já visto, contribuindo decisivamente para a mitigação das mudanças climáticas e para a adaptação dos territórios mais vulneráveis aos seus efeitos. 

4. Conclusão: Tecendo Redes, Arquitetando Futuros 

Esta aliança global não é uma utopia irrealizável, mas uma engenharia social complexa e necessária. Ao transformar o caos em possibilidade, ela coloca em prática a visão de uma educação que não se limita aos muros da escola, mas que acontece na vida e para a vida. 

O objetivo final é permitir que 400 milhões de pessoas, hoje marginalizadas, possam arquitetar uma existência boa (ética), bela (criativa e significativa), justa (com equidade) e economicamente sustentável. É uma proposta de cura social, econômica e ambiental, tecida não por um único ator, mas por uma poderosa coligação de propósitos, onde cada ponto na rede — governo, empresa, universidade, ONG ou cidadão — é essencial para a construção de um futuro mais sábio, próspero e colaborativo para toda a humanidade.