SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Preços dos ingressos da Copa estão em queda — a Fifa está tentando se livrar deles para evitar fiasco?

 

Logotipo da Copa do Mundo da FIFA 2026 aparece cobrindo a sinalização do Hard Rock Stadium.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,A Fifa prometeu uma Copa do Mundo com ingressos esgotados, mas ainda há entradas disponíveis para mais da metade dos jogos
    • Author,Dale Johnson
    • Role,Repórter de futebol da BBC News
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Preços em queda, disponibilidade instável e falta de clareza. A uma semana do início da Copa do Mundo de 2026, muitas perguntas permanecem sem resposta sobre os ingressos para as partidas.

Fifa prometeu que o evento teria ingressos esgotados, mas há milhares de entradas disponíveis para venda em diversas plataformas.

A BBC Sport descobriu que ingressos para partidas envolvendo seleções menos tradicionais estão agora disponíveis por preços bem abaixo do valor original – tanto no site de revenda da própria Fifa quanto em mercados secundários.

A própria entidade máxima do futebol mundial foi acusada de despejar ingressos que agora não consegue vender no site de revenda SeatGeek.

Mas afinal, quão "esgotados" estão os jogos? Será que veremos uma repetição do Mundial de Clubes do ano passado, quando os ingressos foram vendidos a preços baixíssimos para lotar os estádios?

Será que a maior Copa do Mundo de todos os tempos terá arquibancadas vazias?

Ingressos para a Copa do Mundo: o que se sabe

Quando se trata da Fifa e dos ingressos para a Copa do Mundo, talvez seja mais fácil dizer o que não sabemos.

Houve tanto sigilo que parece impossível ter certeza de qual seria um preço justo e razoável para um ingresso da Copa do Mundo.

Na semana passada, os procuradores-gerais de Nova York e Nova Jersey iniciaram oficialmente uma investigação sobre as práticas da Fifa em relação aos ingressos.

A entidade máxima do futebol foi intimada a responder a acusações de "inflação artificial de preços" e "dano aos torcedores".

O processo de compra de ingressos tem sido como uma gincana.

Alguns torcedores que tiveram sucesso e pagaram por ingressos em uma categoria de preço acabaram recebendo ingressos de valor inferior, mais distantes do campo.

Mesmo aqueles que ganharam no sorteio o fizeram às cegas – em nenhum momento a tabela de preços foi divulgada. O preço astronômico dos ingressos só ficou claro quando os torcedores foram solicitados a pagar.

A Fifa adotou precificação variável, em vez da precificação dinâmica, que altera os preços em cada ponto de venda com base na demanda anterior.

A janela final de vendas ao público da Fifa começou em abril. À época, foi dito que mais ingressos poderiam ser liberados até o início das partidas.

Mas para quais jogos? Quando? E a que preços?

Os mapas dos estádios foram alterados e categorias mais caras foram adicionadas, sem que os torcedores soubessem.

Essas categorias geralmente ficavam nas primeiras fileiras e custavam cerca de 50% a mais do que os assentos logo atrás delas.

Elas não foram disponibilizadas aos torcedores durante o período do sorteio.

Os procuradores-gerais alegaram que tudo fazia parte de uma tentativa deliberada de omitir informações e deixar os torcedores sem saber como comprar ingressos.

Quantos ingressos já foram vendidos?

"Todos os jogos já estão esgotados", disse o presidente da Fifa, Gianni Infantino, em fevereiro. "Reservamos alguns ingressos para vendas de última hora, é claro, mas todos os jogos estão esgotados."

Como acontece com a maioria das coisas nesta Copa do Mundo, a realidade parece ser diferente.

A Fifa não deveria ter problemas para esgotar os ingressos para os jogos com as seleções principais – Argentina, Brasil, Inglaterra, Alemanha e Espanha, para citar algumas.

Deveríamos poder dizer o mesmo sobre os países anfitriões, mas a Fifa precificou esses jogos tão alto que apenas duas das nove partidas envolvendo Canadá, México ou Estados Unidos estão oficialmente esgotadas.

Mesmo a partida de abertura, entre México e África do Sul, ainda tem mais de 500 lugares disponíveis no site da Fifa, com preços a partir de US$ 2.273 (R$ 11.740) cada.

O problema da Fifa são os jogos com seleções que não têm grande apelo – partidas como Bósnia-Herzegovina x Catar, Cabo Verde x Arábia Saudita e República Democrática do Congo x Uzbequistão.

Então, quantos jogos estão realmente esgotados?

O TicketData, um site independente que monitora os principais eventos esportivos nos Estados Unidos, apresentou um panorama intrigante.

O site indica que, no sábado, havia cerca de 74 mil ingressos disponíveis para 86 das 104 partidas.

Isso é apenas parte da história. Existem milhares de ingressos a mais no próprio site de venda da Fifa, com disponibilidade real, mas a um preço ainda mais alto – muitos provavelmente foram comprados para revenda, sem intenção de comparecer ao jogo.

Então, algo estranho aconteceu.

Em poucas horas, a TicketData relatou que o número de ingressos no site da Fifa, com preço original, caiu para menos da metade, para cerca de 32 mil. Na terça-feira (2/6), esse número havia caído para 22 mil, com 66 jogos à venda.

Será que realmente houve um aumento repentino na demanda por esses jogos?

A Fifa está tentando se livrar dos ingressos em sites secundários?

A Fifa tem se esforçado para incentivar os torcedores a usarem seu próprio site para revender ingressos que não pretendam usar. O site oficial cobra uma taxa de 15% tanto do comprador quanto do vendedor.

Em sua página de perguntas frequentes, a entidade máxima do futebol mundial afirma que "incentiva fortemente a compra de todos os tipos de ingressos" por meio de suas plataformas oficiais.

A Fifa também alerta que ingressos comprados por outros meios "podem ser inválidos e estar sujeitos a cancelamento sem aviso prévio".

Mas na terça-feira, logo após a queda no estoque no próprio site da Fifa, a disponibilidade no SeatGeek pareceu aumentar consideravelmente.

Não se tratava apenas de assentos individuais aleatórios, mas de lotes de assentos em fileiras de blocos específicos.

Isso foi destacado nas redes sociais e, em 24 horas, a disponibilidade no SeatGeek pareceu diminuir novamente.

A TicketData afirma que, na quarta-feira, o número de ingressos no próprio site da Fifa voltou a subir para 37 mil.

É impossível verificar quem listou os ingressos e por quê. Ou por que os números mudaram no site da Fifa.

Além do SeatGeek, existem milhares de anúncios em sites como StubHub e VividSeats.

Qualquer pessoa pode anunciar ingressos nesses sites externos, e os ingressos em si podem nem existir.

O SeatGeek negou qualquer envolvimento direto, mas isso não significa que a Fifa, ou um de seus parceiros, não possa estar operando e anunciando ingressos de forma independente.

Em um comunicado, a empresa afirmou: "O SeatGeek é um mercado confiável que oferece aos torcedores acesso seguro a ingressos para dezenas de milhares de eventos ao vivo, incluindo a Copa do Mundo. Não temos parceria ou acordo de distribuição com a Fifa."

O StubHub North America, pertencente à Viagogo, também se distanciou do caso.

"A Viagogo é um mercado seguro e regulamentado. Não possui qualquer relação com a Fifa", diz o comunicado.

A Fifa foi contatada para comentar o assunto, mas, como tem acontecido durante todo o processo de venda de ingressos, não houve resposta.

Há também outros indícios no SeatGeek.

Em vez de o preço dos ingressos ser aleatório, parece que eles são definidos com preços regulares e que aumentam de fileira em fileira, ficando mais caros quanto mais perto da frente do campo.

Observando dois setores atrás do gol para o jogo República Democrática do Congo x Uzbequistão, há 60 anúncios de ingressos múltiplos com preços entre US$ 250 (R$ 1.291) e US$ 296 (R$ 1.529) nos setores 102 e 103.

Quando a Fifa lançou seus ingressos "frontais" mais caros em abril, deixou claro que considerava que quanto mais perto do campo, mais valioso o ingresso.

O preço aumenta alguns dólares, fileira por fileira. Todos os preços estão bem abaixo do valor nominal de US$ 380 (R$ 1.963).

Portanto, ou muita gente está perdendo muito dinheiro, ou é um plano para se livrar do estoque.

Mapa de preços de Uzbequistão x República Democrática do Congo no SeatGeek

Crédito,BBC Sport

Legenda da foto,A variação regular e gradual de preços, fileira por fileira, em um mercado secundário pode indicar uma política deliberada e estruturada, anunciada pela mesma empresa ou indivíduo

Então, por que a Fifa estaria supostamente tentando vender ingressos nesses sites?

A Fifa é como qualquer outra promotora. A última coisa que ela quer é um monte de assentos vazios – não apenas pela imagem, mas também porque qualquer assento vazio significa valor zero.

Os números mostram que os torcedores não estão dispostos a pagar os altos preços dos ingressos para os jogos menos atrativos.

A BBC Sport selecionou cinco partidas que normalmente teriam uma demanda menor e descobriu que os ingressos para os assentos mais desejáveis da arquibancada inferior estão agora bem abaixo do preço original.

O jogo Jordânia x Argélia, em Santa Clara, na Califórnia, apresenta a maior queda.

Dois ingressos comparáveis no bloco 121, com valor nominal de US$ 620 (R$ 3.202), podiam ser comprados por R$ 1.179 no próprio site de revenda da Fifa – 64% mais barato.

No SeatGeek, os ingressos estavam listados por R$ 1.323 e, no StubHub, por 172 libras R$ 1.185.

Para o jogo República Tcheca x África do Sul, os ingressos do bloco 122, com valor nominal de R$ 2.356, estavam abaixo de R$ 1.310 no SeatGeek e no StubHub.

Isso indica que a Fifa não consegue manter o alto valor nominal em seu próprio site, o que leva à especulação de que esteja tentando vender os ingressos em outros lugares – sem reduzir os preços por conta própria.

E, depois que os ingressos para o jogo das quartas-de-final do Mundial de Clubes do Chelsea contra o Palmeiras caíram para apenas R$ 56,32, os preços ainda podem estar longe de atingir o fundo do poço.

A solução de Oxford para reduzir polarização entre lulistas e bolsonaristas

 

Foto dos rostos de Lula e Flávio Bolsonaro lado a lado.

Crédito,Reuters

Legenda da foto,Lula (PT) lidera as estimativas de intenção de voto sobre Flávio Bolsonaro (PL) para 2026, em uma disputa que deve reeditar a polarização de quatro anos atrás.
    • Author,Stephanie Rodrigues
    • Role,Da BBC News Brasil em Londres
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  • Tempo de leitura: 7 min

Seja você lulista ou bolsonarista, há uma boa chance de que você tenha imaginado o grupo do lado oposto do espectro político mais radical do que ele realmente é.

Pesquisadores observaram essa distorção ao perguntar a milhares de brasileiros, no auge da eleição de 2022, o que eles imaginavam que seus adversários políticos pensavam.

Naquele momento, os bolsonaristas estimavam que mais de oito em cada dez lulistas (81%) eram a favor de legalizar o aborto no primeiro trimestre de gestação. O número real era bem menor: 46%.

Os lulistas cometiam o mesmo equívoco em relação aos bolsonaristas. Imaginavam que só 27% deles apoiavam cotas para alunos de baixa renda nas universidades, quando o apoio real beirava 80%.

Os números vêm de um estudo sobre polarização política no Brasil publicado nesta sexta-feira (5/6) na revista Nature Communications.

A pesquisa foi liderada por Anna Petherick, da Universidade de Oxford, em parceria com a FGV-Ebape (Rio), e tem como coautores Guilherme Ramos, Rodrigo Furst, Rafael Goldszmidt e Eduardo Andrade.

O levantamento ouviu de 2 mil a 3 mil brasileiros em cinco rodadas, entre abril de 2022 e janeiro de 2023, antes, durante e depois das eleições.

Nas quatro últimas, acompanhou sempre as mesmas pessoas, o que permitiu medir como o sentimento de cada uma mudava ao longo do tempo.

"As pessoas são muito mais precisas ao estimar as opiniões do próprio grupo do que as do outro grupo. E isso faz sentido, porque você provavelmente convive mais com elas, conversa mais com elas", diz Petherick, em entrevista à BBC News Brasil.

"Mas o interessante é que a forma como elas entendem mal o outro grupo é exagerando aquilo de que não gostam, muitas vezes em torno de questões morais."

A polarização afetiva

Esse abismo entre o que um grupo imagina do outro e o que o opositor de fato pensa alimenta o que os pesquisadores chamam de polarização afetiva. Ela mede a antipatia entre quem pensa diferente. O estudo sugere que essa polarização pode ser amenizada com algo simples: a informação.

"A polarização ideológica é sobre o quanto você discorda do que o outro pensa. A afetiva é o abismo no sentimento, no gostar ou não gostar", diz Petherick.

"Se você discorda fortemente de alguém, provavelmente não vai querer jantar uma pizza com essa pessoa, né?"

Desde os anos 1990, na maior parte do mundo, a polarização ideológica ficou mais ou menos no mesmo patamar, segundo os pesquisadores. Ou seja, as pessoas não passaram a discordar muito mais sobre questões-chave. O que cresceu foi a antipatia pelo lado oposto, tendência que preocupa os autores do estudo.

"A antipatia está ligada à intolerância. Fica mais difícil ter um debate fundamentado, chegar a um meio-termo, unir-se para resolver problemas que dependem de toda a sociedade", afirma Petherick.

No cenário mais extremo, o fenômeno aparece associado à violência política, segundo a pesquisadora.

Para medir o quanto as pessoas gostavam ou não umas das outras, o estudo pedia uma nota de 0 a 100 para cada grupo. Em 2022, antes da eleição, a distância era grande. Em média, os entrevistados davam 72 pontos ao próprio grupo e apenas 17 ao rival.

Por que isso acontece, Anna Petherick admite, é "uma pergunta profundamente filosófica". Ela cita estudos de outros países que apontam uma pista cultural.

"Em uma cultura individualista, o sentimento de que o seu grupo tem que estar certo e o outro errado é mais forte do que numa cultura coletivista, em que você se vê como parte do todo."

Para ela, as redes sociais também amplificam o sentimento: "Hoje, qualquer um publica na hora, para o mundo inteiro, sem a pressão de checar. A gente já tende a exagerar quando fala de quem não gosta. Aí outra pessoa lê, acredita e ainda exagera mais quando repassa. As redes não são a única causa, mas não ajudam".

Por que estudar esse fenômeno no Brasil?

Quase tudo o que se sabe sobre polarização afetiva vem dos Estados Unidos, onde os campos políticos são nítidos - com dois partidos dominando as disputas eleitorais. O interesse por estudar o jogo político brasileiro surgiu pela sua complexidade.

"Nos Estados Unidos é simples: tem os democratas e os republicanos. No Brasil, você tem os petistas e os antipetistas, os lulistas e os bolsonaristas, e esses grupos não se encaixam exatamente uns nos outros", diz Petherick.

"Aí tem gente que só se define contra alguma coisa, não a favor de nada. Quem é o seu grupo, se você é só 'anti' alguém? Você não tem um time. Você tem só aquilo que não é."

Muito antes do estudo, Petherick já desconfiava de que o sentimento pesava mais que os fatos na política brasileira.

A intuição surgiu há mais de dez anos, no doutorado, quando pesquisava corrupção no país e percebeu que suas estatísticas não davam conta do que ouvia em campo.

"As pessoas usavam a palavra 'corrupção' para dizer que não gostavam de alguém. Nem sempre tinha a ver com uma prova concreta. Era quase como labaredas de raiva. Era o sentimento empurrando o comportamento político, mais do que os detalhes técnicos", avalia.

Qual é a solução para a polarização?

O coração do estudo é um experimento que funciona como o teste do início desta reportagem.

A partir da segunda rodada, parte dos entrevistados teve que estimar quantos lulistas e bolsonaristas, em cada dez, apoiavam uma política polêmica. Quase sempre erravam, imaginando o outro grupo mais extremo do que ele era.

Em seguida, recebiam os números verdadeiros, tirados da própria pesquisa. Só então avaliavam de novo o grupo adversário.

Quando a pessoa via que a caricatura não batia com a realidade, a rejeição ao outro lado caía. O efeito foi mais forte foi em relação ao aborto. Desmatamento na Amazônia e cotas sociais e raciais também reduziram a rejeição, só que menos.

As pessoas passaram a ver de forma mais positiva o adversário, mas continuaram avaliando o próprio grupo do mesmo jeito. Ninguém precisou abrir mão do que pensava para tolerar mais o outro.

"A ideia não é mexer no que as pessoas acreditam sobre as políticas. É reduzir o quanto elas não gostam umas das outras, para conseguirem conversar sobre o que acreditam de um jeito mais sensato", diz Petherick.

A saída que o estudo sugere é que o brasileiro cheque o que o outro lado pensa, em vez de supor.

Petherick, que já foi jornalista, faz o apelo também a quem trabalha com informação.

"Mesmo quando as pessoas têm certeza do que o outro grupo acredita, elas frequentemente estão muito erradas."

O que mais o estudo mostrou

A pesquisa aproveitou o calendário de 2022 para testar se outros eventos, além da eleição, mexiam com a antipatia política.

A quarta rodada de entrevistas caiu em plena Copa do Mundo. Os pesquisadores a dividiram em oito momentos, aplicados antes e depois de cada jogo do Brasil.

A aposta era que um símbolo de identidade nacional pudesse aproximar os grupos, como já se observou com Olimpíadas em outros países. Porém, não foi o que aconteceu. A vitória ou derrota da seleção no Mundial não mudou nada na rivalidade entre lulistas e bolsonaristas.

A correção de percepção rendeu ainda um efeito que ia além do previsto. Ao descobrir os números reais sobre aborto e desmatamento, os lulistas não só passaram a tolerar mais o outro lado. Eles também recuaram um pouco no próprio apoio a essas pautas. Ou seja, mostrar como o outro lado pensa pode aproximar também as opiniões e levar parte do público para o centro.

O estudo tem limites, que os próprios autores reconhecem. Eles não mediram efeitos de longo prazo, por exemplo. Não dá para saber se a redução da antipatia dura dias, semanas ou se evapora pouco depois.

As eleições de 2026

Petherick aposta que o roteiro das eleições de 2022 se repete neste ano. "Uma eleição apertada entre dois times já estabelecidos e bastante entrincheirados aponta para o mesmo aumento de polarização afetiva de novo."

O que a deixa otimista é o que veio depois do último pleito. A derrota de Jair Bolsonaro (PL) foi seguida de semanas de tensão: apoiadores do ex-presidente bloquearam estradas pelo país e montaram acampamentos em quartéis, e, em 8 de janeiro de 2023, uma semana após a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), eles invadiram e depredaram as sedes dos três Poderes em Brasília.

Mesmo assim, a polarização afetiva caiu nos meses seguintes em ambos os grupos. A última rodada da pesquisa foi a campo cerca de três semanas após os ataques, e registrou a queda.

"Pelo que eu lia no noticiário na época, não achei que fosse acontecer", diz Petherick.

A eleição deste ano caminha para o confronto que Petherick descreve. Lula aparece à frente do senador Flávio Bolsonaro (PL) nas estimativas de intenção de voto para o primeiro e o segundo turno no Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil.

Lula ultrapassou Flávio no segundo turno em maio, após a revelação da ligação entre o filho de Jair Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro.

Com os resultados das pesquisas nacionais divulgadas até a segunda-feira (01/06), a estimativa de intenção de votos no petista no segundo turno está agora em torno de 46%, enquanto Flávio Bolsonaro tem 41%.

No fim, a pesquisadora insiste que o que decide se uma eleição é saudável ou não é a informação que chega ao eleitor.

"O que mais importa é as pessoas entenderem com clareza quais são as opções e o que cada uma significa para a vida delas. Da forma mais honesta possível, sem serem enganadas pelas redes ou pelos próprios vieses."

O Uso da Inteligência dos Jovens pela Pedagogia do Crime e a Educação pelo Hip Hop.




A pedagogia do crime representa um dos fenômenos mais sombrios e complexos da contemporaneidade, configurando-se como um processo sistemático de aliciamento e cooptação de jovens em situação de vulnerabilidade, utilizando-se de "atos de enganação e falsa generosidade" para convertê-los em soldados do crime organizado. Este artigo propõe uma reflexão sobre como essa pedagogia informal e violenta instrumentaliza a inteligência e o potencial criativo dos jovens, enquanto explora as brechas deixadas pelo Estado e pela sociedade.


1. A Máquina de Produzir Criminosos

Estudos acadêmicos identificam a "pedagogia do crime" como um movimento que opera de forma estrutural, recrutando meninos pobres, majoritariamente negros, oriundos de famílias desestruturadas e com abandono escolar precoce, geralmente entre 8 e 18 anos. Essa pedagogia não se limita ao ensino de técnicas criminosas, mas envolve uma profunda doutrinação ideológica, na qual os jovens aprendem códigos de conduta, hierarquias rígidas e lealdade absoluta ao grupo.

Assim como o sistema histórico do tributo de sangue otomano convertia crianças cristãs em guerreiros leais ao sultão, a pedagogia do crime brasileira transforma jovens vulneráveis em "janízaros" modernos, cuja identidade original é substituída por uma nova, forjada na violência e na exclusão. Nesse processo, a inteligência dos jovens é direcionada não para a construção de um projeto de vida, mas para a perpetuação de um ciclo de opressão e morte.


2. A Ética do "Proceder" e a Dialética do Crime

No livro "Irmãos: uma história do PCC", Gabriel Feltran descreve como o Primeiro Comando da Capital se consolidou como uma organização que vai além do mero tráfico de drogas, constituindo uma verdadeira "sociedade secreta" com seu próprio código de conduta, denominado "proceder". Esse código, baseado em leis não escritas, honra e lealdade, é uma das manifestações mais claras de como a pedagogia do crime utiliza a inteligência dos jovens para criar um sistema normativo paralelo, que regula desde conflitos interpessoais até grandes operações criminosas.

É nesse contexto que o álbum "Sobrevivendo no inferno", dos Racionais MC's, se torna fundamental. As músicas do grupo, como aponta Feltran, dialogam diretamente com essa lógica do "proceder", estabelecendo uma "situação dialógica" que visa ao "ajustamento de conduta" a partir das leis não escritas da periferia. Ao mesmo tempo, o rap dos Racionais denuncia o racismo institucional, a violência policial e a desigualdade social que alimentam a máquina do crime, oferecendo uma narrativa contra-hegemônica que expõe as contradições do sistema.

No entanto, a mesma inteligência que decodifica essas mensagens pode ser cooptada pela pedagogia do crime. O jovem que aprende a interpretar as letras dos Racionais como um manual de sobrevivência nas periferias pode ser facilmente seduzido pela ideia de que o crime é a única saída possível.


3. A Falsa Generosidade e a Sedução pelo Poder

Em "Os meninos de Nápoles", Roberto Saviano narra a ascensão de uma gangue juvenil na violenta Nápoles, mostrando como jovens pobres são transformados em soldados da Camorra sob o impulso de um vazio cultural e do exibicionismo nas redes sociais. A tradução de Solange Pinheiro recria o linguajar próprio desses meninos, utilizando gírias e marcas de oralidade que revelam como a pedagogia do crime se apropria da linguagem e da cultura juvenil para construir identidades criminosas.

Esses jovens, como aponta Saviano, são atraídos pela falsa promessa de poder, status e pertencimento. A inteligência deles é utilizada para planejar assaltos, negociar drogas e eliminar rivais, mas também para criar uma estética de sucesso que é exibida nas redes sociais, alimentando o sonho de uma vida de ostentação e respeito.


4. O Contraponto da Pedagogia Hip-Hop

É nesse cenário de violência e exclusão que obras como "A pedagogia hip-hop: consciência, resistência e saberes em luta", de Cristiane Correia Dias, e "Hip-Hop Transdisciplinar", de Jorge Hilton, ganham relevância. Dias propõe uma pedagogia que utiliza os elementos da cultura hip-hop – Breaking, Graffiti, DJ e MC – como "disparadores de conhecimentos" para que os jovens (re)elaborem suas identidades e construam uma reflexão crítica sobre o racismo e as violências que recaem sobre o corpo negro.

Jorge Hilton, por sua vez, aborda o hip-hop como uma prática transdisciplinar que dialoga com o conhecimento científico, artístico, filosófico e espiritual, promovendo uma educação holística que vai além dos limites preconcebidos. Essa abordagem oferece uma alternativa concreta à pedagogia do crime, mostrando que a inteligência dos jovens pode ser utilizada para a resistência e a transformação social, e não para a autodestruição.


5. Conclusão: Educar para Resistir

A pedagogia do crime não é apenas um fenômeno de segurança pública, mas um desafio educacional e ético. Ao instrumentalizar a inteligência dos jovens, ela revela a falência de um sistema que exclui, discrimina e abandona. Diante disso, é urgente que a educação formal e não formal se inspire em propostas como as de Cristiane Correia Dias e Jorge Hilton, que veem no hip-hop uma ferramenta de resistência e emancipação.

Como nos ensina o Racionais MC's, "sobreviver no inferno" exige mais do que força bruta: exige consciência, crítica e, acima de tudo, uma pedagogia que devolva aos jovens o direito de sonhar e de construir um futuro fora das grades e das balas. A educação, nesse sentido, é a única resposta possível à pedagogia da morte.




A letra de Emicida ecoa diretamente o diagnóstico aqui traçado. Os versos, que expõem a brutalidade do conflito periférico — onde jovens ultrajam, brigam, e um quer se provar superior ao outro até terminar "com o corpo embaixo dos jornais" — não são mera crônica da violência. Eles são o registro sonoro da própria pedagogia do crime em ação. A inteligência que poderia construir é capturada pelo código do "proceder", pela lógica sanguinária do "olho por olho" e pelo cansaço da repetição histórica. A pergunta retórica do artista — "Em qual parte dessa história / Não era só nós que estava se matando?" — desnuda a armadilha: o sistema fá-los competir e se destruir entre si, enquanto as causas reais da opressão permanecem intocadas. Assim, "A Chapa É Quente" não apenas descreve o inferno, mas denuncia a maquinaria que o mantém aquecido, oferecendo uma pausa necessária para a reflexão e a resistência.


Referências

  • SAVIANO, Roberto. Os meninos de Nápoles. Tradução de Solange Pinheiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

  • FELTRAN, Gabriel. Irmãos: uma história do PCC. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

  • RACIONAIS MC's. Sobrevivendo no inferno. São Paulo: Cosa Nostra, 1997.

  • DIAS, Cristiane Correia. A pedagogia hip-hop: consciência, resistência e saberes em luta. Curitiba: Appris, 2019.

  • HILTON, Jorge. Hip-Hop Transdisciplinar: Pedagogia, Transdisciplinaridade, Interdisciplinaridade e Causos que Educam. Salvador: Editora independente, 2022.

  • SOUZA, Ricardo Belini Muffato de. PEDAGOGIA DO CRIME: narrativas de jovens oprimidos pela criminalidade. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal de São João del-Rei, 2020.