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sábado, 14 de fevereiro de 2026

Foucault e O Engajamento Político: A Revolta de Março de 1968 ! Por Egidio Guerra




O período em que Michel Foucault lecionou na Universidade de Túnis, entre setembro de 1966 e o verão de 1968, representa um capítulo fundamental e, por muito tempo, pouco explorado de sua trajetória intelectual e política . Longe de ser um mero interlúdio exótico, sua estadia na Tunísia funcionou como um cadinho onde suas experiências pessoais, seu engajamento militante nascente e sua produção filosófica se fundiram, preparando o terreno para as grandes viradas de seu pensamento na década de 1970 . 

O Contexto: Uma Tunísia Pós-Colonial em Efervescência 

Foucault chegou à Tunísia numa época de intensa ebulição. O país, independente da França desde 1956, vivia as "dores do parto das sociedades pós-coloniais" . Sob a presidência de Habib Bourguiba, a nação experimentava um misto de projetos de engenharia social, lutas faccionais e um caldeirão de ideologias concorrentes, como o socialismo, o pan-arabismo e o pan-africanismo . Esse cenário de "fervor intelectual" e efervescência revolucionária contrastava fortemente com a relativa estabilidade política da França, de onde Foucault provinha. 

O filósofo instalou-se na pitoresca vila de Sidi Bou Saïd, um refúgio de artistas, onde se dedicava à escrita de A Arqueologia do Saber, publicado em 1969 . No entanto, a calma do seu local de trabalho contrastava com a agitação que tomava conta da universidade e das ruas. 

O Professor e Seus Alunos: Paixão pelo Saber 

Na Faculdade de Letras e Ciências Humanas de Túnis, Foucault ocupou pela primeira vez uma cátedra de filosofia, algo que não fizera na França . Seu ensino era diversificado e inovador. Ministrava cursos de psicologia sobre "a projeção", história da arte focada na pintura renascentista e barroca, e um curso público intitulado "O Lugar do Homem no Pensamento Ocidental Moderno" . 

Mas foi seu curso sobre a história da filosofia, dedicado a Descartes — mais precisamente ao Discurso do Método e às Meditações — que deixou marcas profundas em seus alunos. Um plano detalhado deste curso, conservado nas notas de seus estudantes, revela a profundidade de sua análise. Foucault não via o Discurso do Método como um texto inaugural isolado, mas sim como um sintoma de uma ruptura epocal. Ele o analisava à luz do início da Idade Clássica, caracterizada pelo poder monárquico centralizado e pelo capitalismo mercantil, e pela fundação de novas formas de racionalidade científica (economia política, ciência da natureza, geometria algébrica) . 

Para Foucault, o Discurso representava uma ruptura com a filosofia medieval ao substituir o problema do "ser" pelo problema da "verdade". A filosofia, a partir dali, definia-se como o método para se atingir essa verdade, com o sujeito ("o bom senso", a "luz natural") como fundamento de todo conhecimento. Ao ensinar Descartes na Tunísia, Foucault não apenas transmitia um conteúdo; ele demonstrava, na prática, como o discurso filosófico se constitui e se transforma em contextos históricos e políticos específicos. Seus alunos, com sua "avidez absoluta de saber", encontravam nas palavras do professor ferramentas para pensar sua própria realidade. 

O Engajamento Político: A Revolta de Março de 1968 

O ponto de virada na experiência tunisiana de Foucault foi o movimento de contestação estudantil de março de 1968 . A juventude tunisiana levantou-se contra o imperialismo ocidental e o autoritarismo do governo de Bourguiba . A resposta do Estado foi feroz: repressão violenta, invasão da universidade e prisões em massa . 

Diante desse cenário, Foucault e seu companheiro, Daniel Defert, abandonaram qualquer pretensão de neutralidade acadêmica. Transformaram sua casa em Sidi Bou Saïd em um espaço de acolhimento e resistência, abrigando estudantes perseguidos, alimentando-os e permitindo que redigissem e imprimissem panfletos de oposição. Quando mais de uma centena de jovens foram julgados por "atentado à segurança do Estado", Foucault testemunhou em sua defesa e usou sua influência como intelectual francês para tentar amenizar as duras sentenças. Apesar de seus esforços, muitos foram condenados a longas penas de prisão, uma experiência que o marcou profundamente com "amargura e raiva" . 

Este foi o batismo de fogo de Foucault na militância política direta. Mais tarde, ele próprio declararia: "Provavelmente só no Brasil e na Tunísia encontrei nos estudantes tanto seriedade e tanta paixão" . Foi o confronto com o "poder intolerável" do estado tunisiano  que o impeliu, ao retornar à França, a fundar o Groupe d'Information sur les Prisons (GIP) e a escrever obras seminais como Vigiar e Punir. O engajamento ao lado dos estudantes tunisianos foi o laboratório onde sua análise do poder começou a se forjar na prática, e não apenas na teoria . 

O Legado Intelectual e a Sombra do Colonialismo 

O período tunisiano também foi prolífico em termos de produção intelectual. Além de concluir A Arqueologia do Saber, Foucault proferiu conferências no Clube Tahar Haddad, incluindo as famosas "O que é um Autor?" e "O Nascimento da Moeda", e uma sobre "A Pintura de Manet" . Essas palestras, gravadas na época, só foram redescobertas e ouvidas publicamente em 1987, durante um colóquio em sua homenagem no mesmo clube . 

Recentemente, em 2023, foi publicado um manuscrito de Foucault intitulado O Discurso Filosófico, escrito em 1966, logo após As Palavras e as Coisas. Por muito tempo, acreditou-se que este texto fosse o curso ministrado por ele em Túnis. Na verdade, trata-se de um longo ensaio que ocupa uma posição intermediária entre suas duas grandes obras arqueológicas, e que aprofunda a análise do discurso filosófico de Descartes a Nietzsche . Este mal-entendido editorial evidencia como a associação de Foucault com a Tunísia se tornou um elemento importante para a compreensão de sua obra. 

No entanto, a passagem de Foucault pela Tunísia não está isenta de críticas e contradições, especialmente do ponto de vista pós-colonial. Alguns estudiosos apontam que, apesar de seu engajamento pontual, Foucault manteve-se em grande parte alheio à sociedade tunisiana, convivendo majoritariamente com franceses e levando um estilo de vida que, para alguns críticos, evocava a figura de um "colonizador". Sua obra praticamente ignora o colonialismo e a questão da "raça" como problemas filosóficos centrais, o que levanta questões sobre os limites de seu eurocentrismo. Intelectuais como Edward Said, que se inspiraram em Foucault para desenvolver a crítica do orientalismo, também apontaram a ausência de uma reflexão mais profunda do filósofo francês sobre o tema . 

Conclusão 

O curso de Foucault em Túnis foi muito mais do que um simples posto de ensino no estrangeiro. Foi um choque de realidade que transformou o filósofo em militante, um observador da história em seu tempo real. A "avidez de saber" de seus alunos tunisianos e a brutalidade da repressão que sofreram deixaram cicatrizes que moldaram seu pensamento futuro. Se, por um lado, sua experiência carrega as ambiguidades de um intelectual europeu num contexto pós-colonial, por outro, foi precisamente ali, entre as salas de aula e as celas da prisão de Túnis, que Foucault começou a articular, na prática, as questões sobre poder, resistência e verdade que o consagrariam como um dos pensadores mais influentes do século XX . 

 

 

A Musa na Resistência: A Força que Inspirou a Beleza por Egidio Guerra.




Antes da glória do "New Look", a vida de Christian Dior foi marcada pela tragédia e pela guerra. Enquanto o estilista trabalhava para Lucien Lelong durante a ocupação nazista, desenhando para as esposas de oficiais e colaboracionistas (uma realidade complexa de muitos na época) , sua irmã mais nova, Catherine, vivia uma realidade de pura coragem e risco. Aos 23 anos, Catherine Dior juntou-se à Resistência Francesa, atuando como mensageira na rede F2, coletando inteligência sobre os movimentos das tropas alemãs e arriscando a vida em cada missão de bicicleta . 

Em julho de 1944, ela foi capturada pela Gestapo na temida Rue de la Pompe. Mesmo sob tortura, Catherine recusou-se a entregar os nomes de seus companheiros ou de seu irmão. Ela foi deportada para o campo de concentração de Ravensbrück e, posteriormente, para outros campos, onde sobreviveu em condições desumanas até ser libertada em 1945 . Esta experiência brutal forjou uma mulher de força inabalável, muito diferente da elite financeira em que nascera. Dior também tinha um irmão internado no hospício, que lhe falava que as árvores dançam como pessoas, e seu pai faliu uma firma de fertilizantes que fez sua mãe declarar que nunca mais veriam o nome Dior num letreiro.

Quando Christian Dior fundou sua maison em 1946, foi essa imagem de resistência, sacrifício e amor que o guiou. Em 1947, ele lançou seu primeiro perfume, batizando-o de "Miss Dior" em homenagem à sua irmã . A fragrância, que evocava o amor que ambos tinham por flores desde a infância na Normandia, foi a forma que Dior encontrou para homenagear a mulher que personificava a força, a discrição e a resiliência — qualidades que ele desejava imbuir em suas criações. Catherine não era uma socialite; ela era uma trabalhadora, uma lutadora, a prova viva de que a verdadeira elegância vem de dentro. 

A Revolução do "New Look": Beleza e Opulência Pós-Guerra 

Em 12 de fevereiro de 1947, Christian Dior apresentou sua primeira coleção, "Corolle", no número 30 da Avenida Montaigne . O mundo estava saindo de anos de racionamento, uniformes e privações. As mulheres vestiam roupas com ombros quadrados e saias curtas, práticas e econômicas, impostas pelas limitações da guerra. Dior propôs o oposto: uma silhueta que celebrava a feminilidade mais exuberante. 

A jornalista Carmel Snow, da Harper's Bazaar, exclamou: "É uma revelação, querido Christian! Seus vestidos têm um 'New Look'!" . O nome pegou. O New Look apresentava ombros arredondados e suaves, cintura extremamente marcada ("cintura de vespa") e saias amplas e fluidas que podiam usar até 20 metros de tecido. Era uma silhueta que lembrava a Belle Époque da infância de Dior, uma época de beleza e prosperidade. 

O impacto foi imediato e revolucionário. Dior havia reestabelecido Paris como a capital indiscutível da moda . No entanto, essa revolução não foi isenta de controvérsia. Ativistas protestaram contra o que viam como um retrocesso, um símbolo de opressão e desperdício. Em Chicago, manifestantes empunhavam cartazes com os dizeres "Abaixo o New Look" e "Queime Monsieur Dior" . Nos Estados Unidos, o "League of Broke Husbands" foi formado por homens temerosos com o custo dos novos guarda-roupas de suas esposas. Apesar da rejeição inicial, as mulheres ansiavam por beleza e Dior havia lhes devolvido a graça e a esperança. Como ele próprio acreditava, a moda era mais que roupa; era "um ato de fé" para preservar o mistério e a beleza na sociedade. 

O Sucesso Vem da Simplicidade e das Pessoas Comuns 

A visão de Dior sobre a elegância era profundamente democrática e enraizada na valorização do talento artesanal. Durante seus anos de formação, ele trabalhou com Robert Piguet, que lhe ensinou uma lição fundamental: "as virtudes da simplicidade através das quais a verdadeira elegância deve vir" . Essa filosofia guiou toda a sua carreira. 

Ele não via a moda como um privilégio apenas da elite, mas como uma indústria que poderia e deveria envolver pessoas comuns. Sua maison rapidamente se tornou um local de trabalho para dezenas de petites mains (pequenas mãos) — as costureiras, bordadeiras e artesãs que transformavam seus esboços em realidade. Muitas dessas mulheres eram pessoas simples, com talento bruto, que encontraram na maison Dior um lugar para sonhar e construir uma carreira. 

Além disso, em um gesto de humanidade que ecoava o sofrimento de sua irmã e de tantas outras, Dior abriu as portas de seu ateliê para modelos desempregadas, algumas das quais haviam recorrido a trabalhos em bordéis durante a guerra para sobreviver. Ele enxergava a beleza e o potencial onde a sociedade via apenas a vergonha e o descaso, oferecendo a essas mulheres uma chance de reconstruírem suas vidas com dignidade e elegância. Para Dior, a verdadeira beleza emanava das experiências vividas, da força interior e da resiliência, qualidades que ele tanto admirava em sua irmã. 

A Democratização do Ateliê: Transformando Costureiros em Artistas 

Christian Dior, em parceria com seu sócio Jacques Rouët, revolucionou o modelo de negócios da moda, transformando a alta-costura em uma indústria global acessível e aspiracional. Este foi o passo crucial para a democratização do ateliê . 

Pilar da Revolução 

Estratégia de Dior 

Impacto na Indústria e na Sociedade 

Inovação nos Negócios 

Pioneirismo nos acordos de licenciamento para produtos como meias, peles e perfumes, trocando taxas fixas por royalties sobre vendas . 

Transformou a moda em um grande negócio capitalista, permitindo que o nome Dior chegasse a um público muito além das clientes da alta-costura. 

Expansão da Marca 

Abertura de uma filial em Nova York e criação de linhas de acessórios e fragrâncias . 

Levou a elegância francesa para o mundo, tornando o "estilo Dior" um desejo global e um importante produto de exportação para a França . 

Valorização do Artesanato 

Manutenção de ateliês com artesãs altamente qualificadas (petites mains) para executar suas criações complexas, como o icônico Bar suit . 

Elevou o savoir-faire francês ao status de arte, reconhecendo o trabalho anônimo das costureiras como essencial para a genialidade da maison. 

Mídia e Celebridades 

Domínio da narrativa da moda através da imprensa. Carmel Snow, da Harper's Bazaar, cunhou o termo "New Look". A Elle francesa comparava o preço de seus vestidos a alimentos básicos, mostrando seu valor de exportação . 

Criou o conceito de "ditador da moda", transformando o costureiro em uma celebridade e artista, e a moda em um espetáculo midiático aguardado mundialmente. 

Com essa estratégia, Dior transformou o costureiro em um verdadeiro artista, cujo nome era tão importante quanto a sua obra. Vestidos deixaram de ser apenas peças de roupa para se tornarem "moda" — expressões culturais de uma época, comentários sobre a sociedade e desejos materializados. 

Legado de Elegância e Humildade 

Christian Dior faleceu prematuramente em 1957, mas seu legado perpetuou a visão de que a beleza e o sucesso andam lado a lado com a humildade e a valorização das pessoas . Sua irmã, Catherine, dedicou o resto de sua vida a cultivar flores na Provença, longe dos holofotes, e a preservar a memória do irmão como presidente de honra do Musée Christian Dior em Granville . 

Até hoje, a maison Dior é um império, mas sua fundação foi construída sobre a memória de uma resistente, a crença no talento anônimo das petites mains e a oferta de uma nova chance para aqueles que a guerra havia deixado para trás. Christian Dior provou que a verdadeira elegância não é um ato de esnobismo, mas um gesto de amor e humanidade, capaz de transformar a dor em beleza e o simples ato de vestir-se em uma declaração de esperança.