SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

domingo, 31 de maio de 2026

'Achava que minha família tinha resistido a Hitler, até descobrir que meu bisavô era nazista'

 

Uma imagem composta de dois soldados nazistas observando milhares de tropas em formação em um estádio na Polônia. Um documento de filiação assinado está sobreposto no canto inferior direito da imagem, e um formulário nazista em branco está sobreposto no canto superior direito.

Crédito,Getty Images / Die Zeit / BBC News

    • Author,Liza Fokht
    • Role,BBC News Russian
    • Reporting from,Berlin
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  • Tempo de leitura: 9 min

"Cresci acreditando, e com orgulho, que vinha de uma linhagem de antifascistas", conta Rosa, de 57 anos, moradora de Berlim, ao BBC News Rússia.

Mas, com o tempo, Rosa — que pediu para ter o nome modificado pela BBC — acabou descobrindo a verdade: o fascismo estava profundamente enraizado em toda a sociedade alemã do início do século 20, sob o regime nazista.

Isso a levou a uma jornada para investigar o envolvimento de seus antepassados no regime de Adolf Hitler.

Essa busca se aproximou de uma conclusão com a divulgação, na Alemanha, de milhões de documentos sobre antigos membros do Partido Nazista, disponibilizados pelo jornal Die Zeit.

Embora Rosa diga que isso lhe trouxe uma sensação de encerramento, o banco de dados reacendeu o debate sobre como o país lembra seu passado brutal.

Ela cresceu ao norte de Berlim, na Alemanha Oriental. O país, formado em 1949, foi oficialmente chamado de República Democrática Alemã — parte da Europa Oriental sob influência de Moscou.

Imagem mostra cerca de 100 folhas de papel, cada uma contendo o resultado de busca de um membro do Partido Nazista, do banco de dados do Die Zeit sobre a filiação ao nazismo.

Crédito,Die Zeit

Legenda da foto,O banco de dados do jornal Die Zeit permite que usuários pesquisem antigos nazistas por nome, data e local de nascimento

Após a derrota dos nazistas em 1945, a Alemanha foi dividida em quatro zonas pelos Aliados da Segunda Guerra Mundial: Estados Unidos, Reino Unido, França e União Soviética (URSS).

Com o início da Guerra Fria, a Alemanha se dividiu em duas — o Ocidente ficou alinhado com as nações ocidentais, enquanto o Oriente ficou alinhado com a União Soviética.

Após o colapso da URSS no fim da Guerra Fria, as duas Alemanhas foram reunificadas.

Linhas férreas que levavam ao campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, em Oświęcim, na Polônia, filmadas em 1º de janeiro de 2004. Ao fundo, no fim da linha férrea, está a entrada do campo: um edifício de tijolos com telhado inclinado e uma torre sobre os trilhos.

Crédito,Auschwitz: os nazistas e a Solução Final/BBC

Legenda da foto,Os nazistas assassinaram seis milhões de judeus, muitos deles em campos de concentração como Auschwitz-Birkenau, na Polônia

Narrativa falsa

Quando Rosa crescia na década de 1970, todos os aspectos da vida na Alemanha Oriental estavam sob rígido controle do Estado.

"Nos diziam que os alemães orientais eram, em grande parte, descendentes de antifascistas, enquanto os 'vilões' vinham do Ocidente", lembra Rosa.

As crianças da escola de Rosa cresciam lendo livros sobre os soldados soviéticos libertadores.

Muro de Berlim feito de concreto branco em 1º de março de 1982, com grafites espalhados por sua superfície. Do outro lado do muro há uma faixa de terra árida, com dois guardas da Alemanha Oriental, uma cerca de metal, outro muro de concreto branco e, em seguida, edifícios em Berlim Oriental.

Crédito,Sahm Doherty / Getty Images

Legenda da foto,Quando Rosa era criança, Berlim era dividida por um muro que a Alemanha Oriental construiu para impedir que seus habitantes deixassem o território controlado pela União Soviética

Ela própria via o regime soviético como um amigo — um "irmão mais velho". Como resultado, algumas histórias de família sobre a Segunda Guerra Mundial a confundiam.

Durante anos, Rosa não conseguia entender por que sua avó "teve de fugir do Exército Vermelho [da URSS]".

Crianças jogam futebol em uma rua com o Muro de Berlim passando pelo meio, impedindo o acesso ao outro lado, no Leste. Um homem idoso está parado ao lado de um prédio de tijolos que corre paralelamente ao muro.

Crédito,ullstein bild / Getty Images

Legenda da foto,As pessoas que viviam do lado ocidental do Muro de Berlim tinham acesso à mídia internacional e eram informadas de forma mais precisa sobre a extensão da participação dos alemães no regime de Hitler

Investigando a fundo a história da família

Quando Rosa tinha 16 anos, uma delegação judaica dos Estados Unidos visitou sua escola para uma palestra Children of survivors meet children of perpetrators (Filhos de sobreviventes encontram filhos de perpetradores, na tradução para o português).

Somente perto do fim da discussão ela percebeu que pertencia ao segundo grupo, e não ao primeiro.

"De repente, tudo fez sentido: [eu percebi que] os alemães eram considerados o inimigo."

Ela lembra daquele momento como "a abertura de uma comporta" — uma mudança súbita de entendimento.

"Foi quando comecei a investigar a fundo minha história familiar."

Rosa passou a consultar arquivos e pediu aos pais e a parentes mais velhos que recontassem o passado.

Ao longo dos anos, ela descobriu que o irmão de sua avó se alistou no exército aos 18 anos, tornando-se piloto de bombardeiro, e foi abatido sobre a Grécia antes de completar 21 anos.

Foto em preto e branco mostra milhares de soldados com capacetes pretos, voltados para um grande palco com três grandes colunas. O Partido Nazista realizava comícios semelhantes aqui todos os anos entre 1933 e 1938.

Crédito,Bettmann / Getty Images

Legenda da foto,Tropas em posição de sentido enquanto Hitler faz um discurso em Nuremberg, em 1936

Um de seus bisavós era um funcionário que apoiava os nazistas, embora sua posição exata permaneça desconhecida.

O outro bisavô, Otto, está no radar de Rosa há décadas.

"Ele era policial na cidade polonesa de Białystok, perto da fronteira com Belarus."

A cidade foi palco de muitos episódios horríveis do Holocausto, incluindo centenas de pessoas queimadas vivas dentro de uma sinagoga.

Com a divulgação do banco de dados de membros do Partido Nazista, Rosa começou imediatamente a procurar Otto.

Esquina de uma rua com um prédio de telhado inclinado e uma torre. Várias pessoas caminham pela rua, que parece estar coberta por neve.

Crédito,ullstein bild Dtl / Getty Images

Legenda da foto,A cidade polonesa de Białystok em 1940, onde o bisavô de Rosa era policial

Milhares de buscas

"Eu imediatamente encontrei o cartão de filiação dele. Ele entrou para o partido ainda em 1933, o ano em que os nazistas chegaram ao poder. Fiquei surpresa? Não, não naquele ponto. Foi simplesmente a confirmação final. Eu queria isso, e consegui", diz Rosa.

"Foi como encerrar uma longa história."

As buscas de Rosa estão entre as milhares realizadas no banco de dados desde o seu lançamento em fevereiro.

Um cartão em cima de uma pilha de pedidos de filiação ao Partido Nazista nos Arquivos Federais da Alemanha, em Berlim, em 17 de abril de 2007.

Crédito,Reuters

Legenda da foto,Os Arquivos Federais da Alemanha, em Berlim, guardam cópias físicas dos pedidos de filiação ao Partido Nazista

Até recentemente, consultar a filiação de um parente ao Partido Nazista exigia fazer um pedido aos Arquivos Federais da Alemanha.

Mas o banco de dados digitalizado, publicado inicialmente pelos Arquivos Nacionais dos Estados Unidos e depois transformado em uma ferramenta de busca pelo jornal Die Zeit neste ano, tornou a pesquisa muito mais rápida.

Judith Busch, porta-voz da Die Zeit, afirma à BBC que a ferramenta já foi acessada milhares de vezes, gerando inúmeros comentários e mensagens.

Filiação ao Partido Nazista

Coleção de cartões de filiação ao Partido Nazista, extraídos do banco de dados do jornal Die Zeit.

Crédito,Die Zeit / BBC News

Legenda da foto,Cartões de filiação ao Partido Nazista no banco de dados do jornal Die Zeit, que permite que pessoas pesquisem a história de seus antepassados

O partido nazista de Hitler era oficialmente chamado de Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP). Ele tinha mais de 10 milhões de membros antes de ser derrotado pelos Aliados na Segunda Guerra Mundial, em 1945.

O arquivo de membros, mantido em Munique, quase foi destruído no fim da guerra: 50 toneladas de documentos foram enviadas para uma fábrica de papel, mas o diretor da fábrica desobedeceu às ordens e entregou o material às forças dos Estados Unidos.

A filiação ao Partido Nazista tem sido um tema controverso na Alemanha desde a queda do regime.

Adolf Hitler está diante de milhares de jovens em um estádio ao ar livre em 12 de setembro de 1938. Atrás dele estão Baldur von Schirach, líder da Juventude Hitlerista, e Rudolf Hess, seu vice.

Crédito,Topical Press Agency / Getty Images

Legenda da foto,Os nazistas recrutavam crianças, como se vê nesta foto quando Hitler discursou para membros do movimento Juventude Hitlerista em Nuremberg, em 1938

Todas as pessoas que falaram com a BBC pediram para permanecer anônimas para não correr o risco de críticas ou vergonha, caso outras pessoas descobrissem ligações familiares com os nazistas.

Seus nomes foram alterados nesta reportagem para proteger suas identidades.

"Acho que isso está ligado ao sentimento de lealdade que as pessoas têm em relação aos seus familiares, mesmo que essas pessoas já não estejam vivas", afirma Johannes Spohr, historiador alemão especializado em história familiar.

"Durante muito tempo, esse tema foi um tabu enorme", afirmou.

"Todo mundo que eu conheço que pesquisou encontrou familiares nesses arquivos", diz Hertha.

Ela encontrou dois bisavôs — um policial e um professor — no banco de dados, mas acredita que eles não tenham cometido crimes.

"Ser filiado ao Partido Nazista não era incomum na época, e algumas pessoas até precisavam fazer parte dele simplesmente por causa de seus empregos."

Uma mulher de cabelos loiros trançados olha com admiração para Hitler enquanto ele fala com ela, cercado por homens em uniformes militares.

Crédito,Hulton Archive /Getty Images

Legenda da foto,Hitler encontrando uma apoiadora em 1937

'Nunca se filie a nenhum partido político'

Martin também encontrou o nome de seu bisavô nos arquivos.

"Pra mim, foi bem chocante. Meu pai disse que meu bisavô costumava dizer: 'Nunca se filiem a nenhum partido político. Eu uma vez me filiei a um, mas depois percebi que era o partido errado.'"

Em geral, os historiadores concordam que ninguém se filiava ao partido "automaticamente" — a adesão exigia um pedido pessoal e aprovação.

"Nem todos os membros do partido estiveram pessoalmente envolvidos em crimes", enfatiza Christian Staas, chefe de história do jornal Die Zeit.

"Mas todos que escolheram se filiar ao NSDAP, dessa forma, apoiaram o regime nazista, responsável pela guerra, pelo Holocausto e por muitos outros crimes contra a humanidade."

Contudo, um cartão de filiação por si só não mostra o quão ativa uma pessoa era nem se ela cometeu crimes — isso exige pesquisa adicional.

Rosa ainda não tem detalhes sobre o que o bisavô Otto fez em Bialystok.

Dezenas de milhares de detidos judeus passaram pela cidade, onde registros de execuções em massa e outras atrocidades foram encontrados após a guerra.

Depois de confirmar sua suspeita de que Otto era membro do Partido Nazista, Rosa diz sentir "uma sensação de responsabilidade para garantir que isso não aconteça novamente".

Um grupo de homens segurando faixas. Alguns estão usando boinas, enquanto a maioria veste paletós e gravatas.

Crédito,Imagno / Getty Images

Legenda da foto,Apoiadores nazistas marcham em Berlim em 1938 durante uma manifestação contra o Tratado de Versalhes, que encerrou a Primeira Guerra Mundial e impôs duras restrições e reparações à Alemanha

'Violação de privacidade'

Enquanto alguns estão recorrendo ao banco de dados, outros criticam a divulgação.

Eles argumentam que a publicação desses dados viola a privacidade. Outros acreditam que revisitar os erros e traumas do passado impede que a Alemanha siga em frente.

"É verdade que alguns alemães estão cansados dessas discussões", diz Rosa.

"Alguns dizem que deveríamos 'traçar uma linha' agora." Ela afirma que isso seria como apagar a história.

"Não podemos parar de ensinar isso às crianças", diz ela.

Johannes Spohr levanta dúvidas sobre se o estudo da história familiar ajuda a evitar a repetição de erros do passado. Mas ele afirma que lidar com o passado pode promover maturidade e senso de responsabilidade.

"É importante nos emanciparmos de todos os mitos e até das mentiras com as quais crescemos — aquelas que também moldam a sociedade alemã — para entender quem somos e o que nossos antepassados fizeram."

Edição de Andrew Webb, BBC World Service

sábado, 30 de maio de 2026

Por que o medo vai definir a eleição para presidente da Colômbia deste domingo

 

Mulher olha para retrato do pré-candidato à presidência da Colômbia Miguel Uribe

Crédito,AFP via Getty Images

Legenda da foto,A morte do pré-candidato Miguel Uribe marcou o tom da campanha eleitoral colombiana
    • Author,Daniel Pardo
    • Role,BBC News Mundo
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No dia do atentado contra o pré-candidato à presidência da Colômbia Miguel Uribe Turbay (1986-2025), uma figura em ascensão da direita com apenas 39 anos, os colombianos tiveram um déjà vu.

"Voltamos ao passado", pensaram muitos.

A morte de Uribe dois meses depois do atentado, em agosto de 2025, foi um balde de água fria para uma nação que parecia ter superado os piores momentos da guerra, nos anos 1980 e 1990. Naquela época, os assassinatos por motivos políticos, bombas e sequestros eram rotineiros.

Colômbia não enfrenta mais um conflito armado que ameace sua democracia, nem índices de homicídio que façam do país o mais violento do mundo, como ocorria 30 anos atrás.

Mesmo com seus problemas, a assinatura do acordo de paz entre o Estado e a maior guerrilha da época (as Farc, Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), em 2016, trouxe uma evolução. Era o início de uma nova etapa, em que assuntos como aposentadorias, desigualdade ou meio ambiente passaram a liderar o ranking de prioridades.

Em 2022, após protestos sociais que evidenciaram a vontade de mudanças, o ex-guerrilheiro Gustavo Petro foi eleito presidente.

Foi a primeira vez em dois séculos em que um movimento popular de esquerda chegou ao poder no país. E algumas pessoas talvez tenham pensado que o país havia virado a página da violência.

Mas não foi o que aconteceu.

O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, de terno, com a bandeira do país ao fundo e dois soldados à frente

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,O ex-guerrilheiro Gustavo Petro foi eleito presidente em 2022, após protestos sociais que evidenciaram a vontade de mudanças

Durante os quatro anos do seu mandato, Petro quis negociar a desmobilização dos diversos grupos armados que ainda operam na Colômbia. Ele chamou esta ambiciosa iniciativa de "Paz Total".

Seu objetivo era pactuar acordos com todos, apesar das notáveis diferenças entre as partes: narcotraficantes, praticantes de extorsões, ex-guerrilheiros, ex-paramilitares e inúmeras outras classes que se agrupam de forma caótica.

A violência diminuiu na Colômbia após 2016, mas não foi eliminada. Ela se transformou e se fragmentou, ficando desordenada.

A Promotoria colombiana atribui a autoria intelectual do assassinato de Uribe Turbay a uma das dissidências das Farc, chamada Segunda Marquetalia.

O crime não é o tema mais presente na campanha presidencial, mas, observando agora, às vésperas das eleições deste domingo (31/5), ele definiu o tom da disputa.

Os colombianos parecem ser movidos pelo medo, mais do que por qualquer outro aspecto. A insegurança voltou a ser o tema mais preocupante frente à eleição, segundo diversas pesquisas.

Mais que um debate de ideias, a campanha eleitoral foi uma avalanche de acusações sobre os perigos letais representados por cada oponente.

A Colômbia enfrenta dificuldades para virar a página da violência.

Campanha marcada por confrontos

A melhor prova disso talvez seja o perfil e o discurso apresentados pelos candidatos dispostos a vencer ou passar para o segundo turno, que, se ocorrer, será disputado no dia 21 de junho.

Todos eles denunciaram terem sido ameaçados durante a campanha.

A Defensoria Pública emitiu alertas sobre o proselitismo armado por parte de grupos ilegais que buscam condicionar o voto das comunidades e limitar a liberdade dos eleitores.

Nenhum dos candidatos, segundo os especialistas consultados, parece ter uma receita convincente para resolver o problema da violência.

O candidato do governo, Iván Cepeda, é um veterano congressista. Ele fez carreira como representante das vítimas e pela busca de soluções pacíficas para a violência.

Cepeda é um dos autores da iniciativa Paz Total. Sua carreira foi marcada pelo assassinato do seu pai, um dirigente comunista, em 1994.

Simbolicamente, ele é a antítese do ex-presidente Álvaro Uribe, que encurralou as guerrilhas com pulso firme entre 2002 e 2010.

Para alguns, Cepeda na presidência representaria um crédito histórico para as vítimas. Mas, para outros, seria a consolidação de um regime comunista, que ofereceria concessões aos criminosos.

Outra candidata é Paloma Valencia. Ela faz parte de uma família poderosa, herdeira de uma classe política que, para muitos, é responsável pela perseguição política à esquerda. Valencia é a candidata de Uribe, seu "padrinho político".

Enquanto alguns a consideram uma opção para retornar à ordem, após o "caos" do governo Petro, para outros seu eventual governo reeditaria, por exemplo, os "falsos positivos" — as execuções extrajudiciais de civis delatados como guerrilheiros.

Existe também um terceiro candidato que é inovador e tem possibilidades de vencer.

O advogado Abelardo de la Espriella defendeu criminosos e políticos polêmicos. Ele apela à população cética sobre as instituições e interessada em soluções de efeito, sobretudo homens idosos.

Alguns o consideram uma solução definitiva, com sua política de "mão forte", mas outros acreditam que sua eleição seria o fim do Estado de direito.

Com isso, os colombianos irão às urnas com diversas opções. Cada uma delas representa uma maneira diferente de observar o problema da insegurança e da violência, ou uma forma de ver o país.

As opções de centro, como as candidaturas de Sergio Fajardo e Claudia López, têm poucas chances de vitória, o que demonstra que os colombianos não estão interessados em visões mais moderadas.

Aparentemente, o medo os leva a pensar que são necessárias posturas contundentes.

Negociações com o ELN na Venezuela, com a participação do candidato à presidência da Colômbia Iván Cepeda

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Iván Cepeda, à direita, foi um dos cérebros da iniciativa Paz Total. Na imagem, ele aparece durante as negociações com a guerrilha do Exército de Libertação Nacional, na Venezuela

A transformação da violência

A violência na Colômbia, atualmente, é menor que no passado. Mas suas causas são mais diversas e regionais.

Por isso, cada tipo de conflito precisa de uma solução específica, local e contextualizada.

Chegar a um acordo com a maior e mais antiga guerrilha colombiana foi um processo complexo. Foram necessários 10 anos e seus resultados são incertos.

Mas é provável que encontrar soluções para os diversos grupos armados que preencheram os espaços vazios deixados pela antiga guerrilha seja ainda mais difícil.

A diretora da Fundação Ideias para a Paz (FIP), María Victoria Llorente, explica que, na última década, o cenário colombiano "se mexicanizou", ou seja, "proliferaram grupos armados sem causa política, interessados na governança criminosa de territórios estratégicos".

Existe entre os especialistas um debate técnico e político crucial, se a transformação e o aumento da violência nos últimos quatro anos foram causados pela Paz Total.

Esta tendência surgiu durante o governo anterior, do ex-presidente Iván Duque (2018-2022). Mas os analistas concordam que os problemas da Paz Total levaram ao fortalecimento dos grupos armados.

Segundo a FIP, por exemplo, o Clã do Golfo (o maior grupo armado colombiano na atualidade) passou de 4 mil integrantes em 2022 para quase 10 mil em 2025, mesmo com os ataques sofridos dos militares.

"Não houve linhas vermelhas pré-estabelecidas", segundo o diretor do centro de estudos Conflict Responses, Kyle Johnson. "As mesas de diálogo não impuseram limites, nem consequências aos grupos, e ofereceram a eles ampla margem no território."

O diretor do Centro de Recursos para Análise de Conflitos (Cerac), Jorge Restrepo, destaca que "o governo concedeu vontade de paz a grupos criminosos que, por definição, não a têm".

Pesquisas indicam que 10 a 20% dos colombianos acreditam que a Paz Total está bem encaminhada, enquanto 60 a 70% sentem mais insegurança com esta política.

Os colombianos consideram a segurança como prioridade. Eles responsabilizam Petro, em parte, pela insegurança atual, mas Cepeda, um dos precursores da Paz Total, é o favorito para vencer as eleições.

Isso ocorre, parcialmente, porque muitos colombianos não culpam Petro pela falta de segurança, mas seus antecessores.

Eles dão mais importância aos avanços sociais e comemoram medidas que buscaram resolver as causas da violência, como a entrega de terras aos pequenos agricultores, a redução da pobreza e a reparação às vítimas.

A candidata à Presidência colombiana Paloma Valencia e o ex-presidente do país Álvaro Uribe

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Paloma Valencia é a opção mais moderada, mas também representa o uribismo

O efeito sobre as eleições

Acrescente-se à situação, com sua multiplicidade de elementos de difícil entendimento e solução, que o crime comum nas cidades continua sendo um problema para a maioria das pessoas.

O economista Gustavo Duncan, especialista em conflitos e autor de vários livros sobre o tema, afirma que "a violência mudou e é muito menor do que antes, mas as pessoas se preocupam principalmente com a criminalidade local e as extorsões".

O Cerac indica que 70% dos homicídios (que apresentaram leve aumento durante o mandato de Gustavo Petro) são produzidos por enfrentamentos entre criminosos. As extorsões aumentaram cinco vezes e os sequestros triplicaram.

"As pessoas não associam a Paz Total à insegurança diária porque entendem que o grupo que pratica extorsão no seu bairro não é o mesmo que dialoga com o governo", explica Restrepo.

Para o cientista político Juan Fernando Giraldo, diretor do centro de estudos Clarity, "o fato de Cepeda estar em vantagem demonstra que a Paz Total não é um ponto importante para seus eleitores [...] Não está em jogo a competência para governar, mas a capacidade de representar a identidade política e de classe."

A segurança é um dos principais temas de todos os candidatos.

Cepeda propõe a continuidade da Paz Total, mas fortalecendo a transformação social de cada região afetada. Valencia espera fortalecer o exército para recuperar o território controlado pelo Estado, em uma reedição da Segurança Democrática de Uribe.

E De la Espriella, que se apresenta nos comícios com colete à prova de balas e vidro blindado, quer construir prisões, usar inteligência e interromper os diálogos com os grupos que descumprirem os acordos. Sua receita traz o estilo do presidente de El Salvador, Nayib Bukele.

Para os analistas consultados, que representam diferentes afiliações políticas, o consenso é que nenhum dos candidatos está elaborando novas fórmulas para tratar de problemas novos.

O candidato à Presidência da Colômbia Abelardo de la Espriella

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Abelardo de la Espriella adotou a linha do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, na aparência e no discurso

Jorge Restrepo afirma que "nenhum dos três traz a possibilidade de que a Colômbia venha a ser um país mais seguro nos próximos quatro anos".

Gustavo Duncan destaca que "nenhum dos candidatos propõe mudanças da doutrina de segurança, um exército pós-conflito que saiba enfrentar os novos grupos existentes". E Kyle Johnson ressalta que "as estratégias são as mesmas de sempre, aquelas que sabemos que não funcionam".

A violência na Colômbia se transformou, mas a forma como os políticos tentam reduzi-la é a mesma.

"Eles estão misturando cenários", segundo María Victoria Llorente.

"Em uma campanha de medo, você tem uma parte do país [a esquerda] com medo que retorne a perseguição política de antes; outra parte [a direita] com medo que acabe a propriedade privada e nos transformemos na Venezuela; e a outra parte com medo de sofrer um assalto na esquina de casa."

"Todos são receios genuínos, mas nenhum deles representa a realidade como um todo. Temos a violência política muito recente, o assassinato de Miguel Uribe despertou um fantasma e lemos o que acontece com esses olhos", conclui ele.

A Colômbia mudou mais do que a mentalidade dos colombianos.

A ferida da violência está aberta e é com ela que será eleito o próximo presidente do país.

Gráfico interativo de Laís Alegretti e Caroline Souza, da Equipe de Jornalismo Visual da BBC News Mundo e da BBC News Brasil.