SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Práticas de Verdade e Cura de Si – Uma Arqueologia do Cuidado de Si desde os Pré-Socráticos à Contemporaneidade.

 



Base Teórica Principal:
Este relatório estrutura-se a partir das reflexões de Michel Foucault apresentadas em Dizer a Verdade sobre Si (1982), onde o filósofo investiga as práticas de subjetivação através das quais o sujeito é convocado a dizer a verdade sobre si mesmo – não como confissão cristã, mas como exercício espiritual de transformação. Foucault identifica na cultura greco-romana e nos primeiros séculos do cristianismo uma ética do dizer-verdadeiro sobre si vinculada a técnicas de vida (as tekhnai tou biou). Ampliamos essa genealogia para incluir tradições que, em vez de visar um céu transcendente, buscam a realização humana na Terra, integrando dimensões divinas imanentes, ancestrais e arquetípicas.


1. Os Pré-Socráticos e a Emergência do Cuidado de Si (Epimeleia Heautou)

Antes de Sócrates, já havia uma noção de que o conhecimento do cosmos e o conhecimento de si estavam entrelaçados. Heráclito (“Conhece-te a ti mesmo”) e os pitagóricos praticavam exames de consciência e regras de vida para harmonizar a alma com a ordem universal. A verdade era uma descoberta da physis (natureza) interna e externa; a cura vinha da vivência conforme essa natureza. Não era uma verdade confessional, mas uma verdade como alinhamento com o logos cósmico.


2. A Vertente Judaica: Aliança Terrena e Correção Ética

No judaísmo (especialmente em correntes não-messiânicas ou da Cabala prática), a verdade sobre si está ligada ao cumprimento da Aliança com Deus na vida concreta. Práticas como o cheshbon hanefesh (exame de consciência) e o teshuvah (retorno/arrependimento) visam a reparação do mundo (tikkun olam) e do eu, numa relação ética com o divino imanente na criação. A cura é coletiva e histórica, não apenas individual-transcendente.


3. Foucault e as Técnicas Gregas e Romanas de Si

Foucault destaca que, nos estoicos (Sêneca, Epicteto, Marco Aurélio), a escrita de si, as cartas, os diálogos com o mestre, os exercícios de meditação da morte e o controle das representações eram tecnologias do eu para alcançar a autarquia e viver em verdade consigo mesmo. A parrhesia (coragem da verdade) era um dizer franco ao próprio eu e aos outros para governar a si e à cidade. A cura era a ataraxia – serenidade na existência terrena.


4. Materialismo Histórico: A Verdade como Práxis e Emancipação

Marx e seus desdobramentos (como Gramsci, Lukács) deslocam a verdade do si para as condições materiais que constituem a subjetividade. Conhecer a si é conhecer sua classe, sua alienação, sua consciência falsa. A cura é coletiva: a revolução como ato terapêutico que restaura o potencial humano alienado pelo capital. A verdade é histórica, dialética, e a realização humana plena (o “homem total”) dá-se na Terra, na sociedade sem classes.


5. Jung e os Arquétipos: A Verdade no Inconsciente Coletivo

Carl Jung rompe com a ideia de um céu exterior para mergulhar no céu interior – os arquétipos como padrões psíquicos universais. O processo de individuação é uma prática de verdade sobre si mediante o diálogo com o inconsciente (sonhos, imaginação ativa, sincronicidade). A cura vem da integração das sombras, da persona, da anima/animus, do Self como arquétipo divino imanente. A espiritualidade é psique, e os deuses são forças internas a serem reconciliadas para uma vida plena no aqui-e-agora.


6. Outras Tradições Terrenas: Ancestralidade e Corpo

  • Pré-coloniais africanas e indígenas: A verdade sobre si é conhecer seu lugar na rede ancestral e ecológica. Ritos de passagem, escuta dos antepassados, visões com plantas de poder – tudo para viver o potencial humano em conexão com a Terra. A cura é comunitária e cósmica.

  • Espinosismo e Nietzsche: A verdade como afirmação da potência (conatus), da vontade de poder criadora, sem referência a um além. A cura é dizer “sim” à vida, superar os ídolos que negam a Terra.

  • Feminismos e Teorias Queer: Dizer a verdade sobre si é desnaturalizar identidades fixas, curar-se das normas de gênero, buscar autenticidade corpórea e relacional na existência material.


7. Síntese Foucaultiana Atualizada: A Verdade como Jogo Ético-Poético

Foucault, ao final de sua vida, via no cuidado de si uma alternativa ética ao sujeito confessional cristão e ao sujeito disciplinar moderno. Hoje, podemos reler essas práticas de verdade e cura como estéticas da existência: modos de criar a si mesmo integrando dimensões arquetípicas (Jung), históricas (materialismo), cósmicas (pré-socráticos) e relacionais (ancestralidades). A verdade não é revelada, mas praticada em exercícios cotidianos de escrita, diálogo, ritual, ação política e autoconhecimento.


8. Conclusão: A Verdade Terrena como Potência de Vida

Desde os pré-socráticos até as psicologias profundas e políticas materialistas, há uma linhagem subterrânea que recusa a fuga para um céu transcendente e busca, em vez disso, a realização da potência humana no mundo. Dizer a verdade sobre si deixa de ser uma confissão para um mestre (sacerdote, psicanalista) e torna-se uma prática de liberdade: transformar a própria vida através de técnicas que acolhem o divino imanente, os arquétipos, a história e o corpo. A cura, então, é o processo contínuo de tornar-se quem se é – não para escapar da Terra, mas para habitá-la em toda a sua plenitude possível. DE um pequeno grão de terra à Terra da sabedoria.


Referência Central:
FOUCAULT, Michel. Dizer a verdade sobre si: Conferências na Universidade Victoria, Toronto, 1982. Organizado por Henri-Paul Fruchaud e Daniele Lorenzini. Tradução de Fernando Scheibe. Belo Horizonte: Autêntica, 2021.

Por que Relógio do Juízo Final está mais perto da hora da destruição do que nunca.

 

Jon Wolfsthal, diretor de risco global da Federação de Cientistas Americanos (FAS), Asha George, diretora executiva da Comissão Bipartidária de Biodefesa, e Steve Fetter, professor de políticas públicas e ex-reitor da Universidade de Maryland, revelam a posição do ponteiro dos minutos em seu Relógio do Apocalipse

Crédito,REUTERS/Kevin Fogarty

Tempo de leitura: 5 min

O Relógio do Juízo Final, que simboliza o quanto a humanidade está perto da destruição, avançou três segundos no último ano, chegando a 85 segundos para a meia-noite, o mais próximo que já esteve da marca que indica o fim do mundo.

O Boletim de Cientistas Atômicos (BAS, por sua sigla em inglês), que ajusta o relógio anualmente, diz que os principais impulsionadores desse avanço são o comportamento agressivo de países que são potências nucleares, como Rússia, China e Estados Unidos, o enfraquecimento do controle das armas nucleares.

Também pesam os conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio e o avanço da inteligência artificial, que já é conhecida por seus prejuízos ao meio ambiente.

O relógio foi ajustado para sete minutos para a meia-noite em 1947. Em 2020, os ponteiros marcaram 100 segundos. Em 2021 e 2022, permaneceram na mesma marca, mas em 2023 foram adiantados para 90 segundos, onde permaneceram em 2024, até diminuir um segundo em 2025 e, agora, voltar a se aproximar da meia-noite.

Em 1991, com o fim da Guerra Fria, os Estados Unidos e a União Soviética assinaram o Tratado de Redução de Armas Estratégicas (Start), o primeiro a prever cortes profundos nos arsenais de armas nucleares estratégicas de ambos os países.

A medida levou o boletim a atrasar o relógio em 17 minutos para a meia-noite. Esse foi o ponto mais distante que os ponteiros chegaram.

Esse pacto expira no dia 5 de fevereiro.

O presidente russo, Vladimir Putin, propôs que os países observassem por um ano as regras criadas pelo acordo, que limita o número de ogivas nucleares implantadas de cada lado a 1.550. O presidente americano, Donald Trump, não respondeu.

Leonard Riese, Presidente do Conselho do Boletim dos Cientistas Atômicos em 1991

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Em 1991, o relógio foi atrasado para 17 minutos antes da meia-noite, o mais longe que esteve da destruição desde a Segunda Guerra Mundial, de acordo com o BAS
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Há 75 anos, os cientistas responsáveis pelo Relógio do Juízo Final publicam, no Bulletin of the Atomic Scientists ("Boletim dos Cientistas Atômicos", em tradução livre), sua conclusão anual de quanto tempo falta para que os ponteiros do Relógio do Juízo Final indiquem meia-noite.

Todos os anos, o anúncio destaca a complexa teia de riscos catastróficos enfrentados pela humanidade, incluindo armas de destruição em massa, colapsos ambientais e tecnologias problemáticas.

Em 2025, o Boletim de Cientistas Atômicos alertou que a guerra na Ucrânia — agora entrando em seu terceiro ano desde a invasão russa — "poderia se tornar nuclear a qualquer momento devido a uma decisão precipitada, acidente ou erro de cálculo".

"O conflito no Oriente Médio ameaça sair do controle e levar a uma guerra maior sem aviso prévio."

O grupo de cientistas também disse que "as perspectivas a longo prazo para as tentativas do mundo de lidar com as mudanças climáticas continuam ruins, com a maioria dos governos falhando em promulgar as iniciativas financeiras e políticas necessárias para deter o aquecimento global".

A criação do Relógio

Em 1939, Albert Einstein e Leo Szilard alertaram o presidente dos Estados Unidos de que uma única bomba nuclear poderia destruir um porto inteiro.

Apesar do alerta dos cientistas, as preocupações levantadas pela carta acabaram levando à criação do Projeto Manhattan, que, poucos anos depois, produziria armas capazes de destruir cidades — e, em escala maior, ameaçar a própria civilização.

Desde os primeiros testes, cientistas envolvidos no projeto demonstraram preocupação com o poder dessas armas.

Embora temores iniciais, como o de que uma explosão pudesse incendiar a atmosfera, tenham sido descartados, muitos pesquisadores mantiveram fortes reservas éticas sobre o uso da tecnologia que ajudaram a criar.

Albert Einstein e Leo Szilard

Crédito,Alamy

Legenda da foto,Em 1939, Albert Einstein e Leo Szilard escreveram para o presidente dos Estados Unidos alertando sobre os perigos nucleares

Após a primeira fissão nuclear controlada, em 1942, os cientistas se dividiram entre centros como Los Alamos e a Universidade de Chicago. Muitos deles, especialmente imigrantes que conheciam os vínculos entre ciência e política, passaram a se organizar para tentar evitar uma corrida armamentista.

Em 1945, participaram da elaboração do Relatório Franck, que alertava para os riscos de uma escalada nuclear e se opunha a um ataque surpresa contra o Japão. As recomendações foram ignoradas.

Poucos meses depois de Hiroshima e Nagasaki, eles fundaram o Boletim dos Cientistas Atômicos, com sede em Chicago, com o objetivo de informar o público e pressionar governos.

O grupo ajudou a consolidar o chamado "tabu nuclear" — a ideia de que o uso dessas armas é moralmente inaceitável.

Em 1947, ao transformar o boletim em revista, os editores encomendaram à artista Martyl Langsdorf um símbolo para a capa. Ela criou o Relógio do Juízo Final, representando o quão perto a humanidade estaria da autodestruição — e a possibilidade de recuar, caso houvesse mobilização pública.

Em 1949, após o primeiro teste nuclear da União Soviética, o relógio foi ajustado de sete para três minutos para a meia-noite.

Em 1953, com a detonação das primeiras bombas termonucleares por Estados Unidos e URSS, avançou para dois minutos — o ponto mais próximo da meia-noite no século 20.

O que os ponteiros realmente medem?

Uma interpretação comum é que o Relógio do Juízo Final indica o nível de risco existencial enfrentado pela humanidade.

Alguns especialistas tentaram quantificar isso. Em 2003, o cosmólogo Martin Rees, então astrônomo real do Reino Unido, afirmou que a chance de a civilização sobreviver ao século 21 era de "no máximo 50%".

Um banco de dados organizado por um pesquisador da Universidade de Oxford reúne hoje mais de 100 estimativas semelhantes, feitas por cientistas e filósofos. Mas esses números são projeções de longo prazo — não retratos do risco imediato.

Para muitos observadores do Relógio, porém, o que os ponteiros medem não é o tamanho do perigo, e sim a eficácia da resposta humana a ele.

Isso ajuda a explicar por que a crise dos mísseis de Cuba, em 1962, amplamente considerada o momento mais próximo de uma guerra nuclear, não levou o Relógio a avançar. Já a assinatura do Tratado de Proibição Parcial de Testes Nucleares, em 1963, fez os ponteiros recuarem cinco minutos.

Quando 7 é 10: A Incompletude das Escolas e Universidades por Egidio Guerra.

 

Num mundo onde 7 pode ser 10 e 70% pode representar 100%, revela-se uma verdade fundamental: os sistemas de medida que criamos são, por essência, incompletos. Quando o objetivo é a criatividade, a relação entre cultura, educação e economia reside precisamente naquilo que escapa às objetividades das provas, teorias e ciências estabelecidas. Esta dimensão imensurável é onde a verdadeira inovação germina.




A matemática e a lógica já nos alertaram para esses limites. Kurt Gödel, com seus Teoremas da Incompletude, demonstrou que qualquer sistema axiomático consistente é necessariamente incompleto: sempre haverá verdades que não podem ser provadas dentro do próprio sistema. Essa revolução lógica ecoa em outras teorias que desestabilizam a pretensão de totalidade: a Teoria da Complexidade mostra como sistemas adaptativos geram propriedades emergentes impossíveis de prever a partir de suas partes isoladas; o Princípio da Incerteza de Heisenberg estabelece limites fundamentais ao que podemos medir e conhecer simultaneamente; e a Teoria do Caos revela como pequenas variações iniciais podem produzir resultados vastamente diferentes, tornando previsões de longo prazo intrinsecamente problemáticas.




Nas ciências humanas e educacionais, pensadores como Paulo Freire desnudaram a fragilidade dos modelos bancários de educação, onde provas e notas servem mais à domesticação que à libertação. Para Freire, a verdadeira aprendizagem ocorre no diálogo entre saberes, na problematização do mundo, não na mera reprodução de conteúdos. Michael Apple nos mostrou como o currículo oficial e seus sistemas de avaliação reproduzem desigualdades sociais, privilegiando certos saberes em detrimento de outros. Pierre Bourdieu, por sua vez, demonstrou como a "reprodução cultural" perpetua hierarquias sociais, transformando a escola em instrumento de manutenção do status quo, onde provas e diplomas funcionam como "capital cultural" distribuído de forma desigual.



Os "tijolos" metaforizados pelo Pink Floyd em Another Brick in the Wall devem, de fato, derrubar os muros do modelo tradicional de ensino. É preciso substituir a lógica da prova punitiva por ecologias de aprendizagem que valorizem a pesquisa, a extensão e o diálogo intercultural. Uma educação interdisciplinar, intersetorial e sistêmica, capaz de reconhecer múltiplas epistemologias e formas de conhecimento.




A história está repleta de exemplos que comprovam como as métricas tradicionais falham em capturar o potencial criativo:

  • Albert Einstein teve dificuldades na escola tradicional, com um professor chegando a dizer que ele "nunca chegaria a lugar nenhum". Sua revolução na física surgiu justamente de sua capacidade de pensar fora dos sistemas estabelecidos.

  • Charles Darwin foi considerado um estudante medíocre, mas sua curiosidade observacional e pensamento conectivo revolucionou nossa compreensão da vida.

  • Vincent van Gogh vendeu apenas uma pintura em vida, sendo considerado um fracasso pelo sistema artístico de sua época. Sua percepção única do mundo só foi valorizada postumamente.

  • Steve Jobs, que abandonou a faculdade, revolucionou a economia global ao conectar criatividade, design e tecnologia de maneiras imprevistas pelos modelos tradicionais de negócio.

  • Lygia Clark e Hélio Oiticica, artistas brasileiros, transcenderam as categorias estéticas estabelecidas, criando obras que dialogavam com o corpo, o espaço e a participação, desafiando os critérios convencionais de avaliação artística.

Quando 7 vira mil, não se trata de mera inflação numérica, mas do reconhecimento de que o potencial humano não cabe em escalas limitadas. A verdadeira educação é aquela que consegue enxergar o imensurável, valorizar o incompleto como espaço de possibilidade, e transformar a incerteza em motor criativo.

Num mundo complexo e em transformação acelerada, precisamos menos de provas que classificam e segregam, e mais de processos educativos que conectem, problematizem e libertem. A economia criativa do século XXI não será construída por reprodutores de respostas prontas, mas por questionadores capazes de formular novas perguntas – justamente aquelas que as provas tradicionais não sabem como avaliar.

O desafio contemporâneo é construir instituições de aprendizagem que sejam tão incompletas, complexas e abertas quanto a realidade que pretendem compreender e transformar. Onde a nota seja apenas um dos muitos elementos em um ecossistema de desenvolvimento humano, e onde a excelência seja medida não pela conformidade, mas pela capacidade de criar novas conexões entre cultura, educação e economia em prol de um mundo mais justo e inventivo.


segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Não É Apenas Hamlet: O Sofrimento como Forja da Grande Literatura!

 


A imagem arquetípica do escritor atormentado – um Hamlet contemplando a caveira, mergulhado em dúvida existencial – é mais do que um estereótipo romântico. É um reflexo de uma verdade profunda e muitas vezes dolorosa: as maiores visões da condição humana nasceram não em salões dourados, mas nos vales sombrios do sofrimento pessoal. A biografia de gigantes como Cervantes, Dostoiévski, Gogol e Victor Hugo não é um mero pano de fundo para sua obra; é a chama que a fundiu, a ferida de onde jorrou seu entendimento único da vida.

Miguel de Cervantes, o pai do romance moderno, não concebeu as aventuras de Dom Quixote a partir de uma vida tranquila. Veterano da Batalha de Lepanto, onde perdeu o movimento da mão esquerda, foi capturado por piratas e passou cinco anos como escravo em Argel. Sua vida foi uma sequência de fracassos financeiros, injustiças e encarceramentos. Dessa experiência direta com a violência, o cativeiro e a absurda burocracia do Império Espanhol, emergiu não um relato amargo, mas uma obra que equilibra, com compaixão infinita, a tragédia e a comédia, o ideal sublime e a realidade grosseira. O “cavaleiro da triste figura” é filho das cicatrizes de seu criador.

Fiódor Dostoiévski é talvez o caso mais extremo. Condenado à morte por atividades subversivas, encarou o pelotão de fuzilamento apenas para ter sua pena comutada no último instante. Seguiram-se anos de trabalhos forçados na Sibéria, onde conviveu com assassinos e a miséria humana em sua forma mais crua. Daí nasceu sua compreensão aguda da psicologia do desespero, da redenção pelo sofrimento, da luta entre fé e niilismo. Seus personagens – Raskólnikov, o assassino atormentado; o Príncipe Míchkin, o “idiota” de bondade trágica; os irmãos Karamázov em seu conflito metafísico – são explorados com uma profundidade que a mera observação social não poderia fornecer. Foi necessário que Dostoiévski encarasse o abismo para mapeá-lo para nós.

Nikolai Gogol, por sua vez, consumiu-se na luta entre suas aspirações espirituais e sua visão satírica de uma Rússia grotesca e burocrática. Sua vida foi de profunda insegurança, autoflagelação e um criativo desespero que o levou a queimar a segunda parte de “Almas Mortas”. Seu sofrimento não era físico, como o de Dostoiévski, mas espiritual e intelectual, traduzido em uma comédia que beira o pesadelo, onde o absurdo é a norma.

Victor Hugo, o titã romântico, viu sua vida política desmoronar com o golpe de Napoleão III, forçando-o a um exílio de duas décadas. Essa experiência de desenraizamento e indignação política alimentou obras monumentais como “Os Miseráveis”, onde a compaixão pelos desvalidos e a fúria contra a injustiça social atingem uma dimensão épica. Seu sofrimento foi pela coletividade, e dele extraiu um hino à resistência humana.

Esses gigantes, e tantos outros – como Camus, que perdeu o pai na guerra e lutou contra a tuberculose; ou Clarice Lispector, marcada pela perda precoce da mãe e pelo exílio eterno – nos legaram mais do que histórias. Eles transformaram suas tragédias pessoais em instrumentos de investigação universal. A arte que criaram transborda os limites da história e da ciência. A história nos diz o que aconteceu; a ciência, como as coisas funcionam. Mas a grande literatura pergunta: o que significa sentir isso? Como se carrega o fardo da existência?

É esse conhecimento, visceral e empático, que serve de guia para nossas próprias dores. Ao ver um Raskólnikov ou um Jean Valjean, um Quixote ou um Akaki Akakievitch (o escriba de “O Capote”, de Gogol), nós nos reconhecemos. Nossas angústias, medos e falhas são validadas, compreendidas e, de certa forma, redimidas pela profundidade com que são retratadas. Elas nos oferecem um mapa da alma humana em seus territórios mais acidentados.

Assim, a literatura forjada no sofrimento não é um catálogo de desgraças. É um ato de resiliência e alquimia. O escritor transforma o chumbo da experiência dolorosa no ouro do entendimento. E esse ouro, por sua vez, nos serve como ferramenta: para enfrentar nossos próprios invernos, para construir pontes de empatia e, coletivamente, para sonhar e edificar mundos melhores – mundos que tenham aprendido as lições de compaixão, resistência e esperança extraídas dessas profundezas. Não é apenas Hamlet. É toda a humanidade, em sua glória e em seu sofrimento, refletida e iluminada pela chama da grande arte.

A Alquimia das Limonadas: Transformando Azedumes em Vitórias Singulares

 


Há uma metáfora que atravessa séculos de literatura e biografias humanas: "Quando a vida te der limões, faça uma limonada." Esta aparente simplificação esconde uma profunda alquimia existencial, documentada nas narrativas daqueles que transformaram acontecimentos ruins em vitórias singulares.

As Raízes Literárias da Transformação

A ideia de transmutar sofrimento em força aparece já nas tragédias gregas, onde personagens como Édipo encontram uma forma de sabedoria mesmo na desgraça. Séculos depois, Viktor Frankl, em "Em Busca de Sentido", narra sua experiência nos campos de concentração nazistas e desenvolve a logoterapia — a busca por significado mesmo no sofrimento mais extremo. Sua "limonada" foi criar uma abordagem terapêutica que ajudaria milhões, derivada do mais amargo dos limões.

Biografias que Ilustram a Transmutação

Helen Keller, cega e surda desde tenra idade, poderia ter sucumbido ao isolamento. Em vez disso, com a ajuda de Anne Sullivan, transformou suas limitações em uma voz única que defendeu direitos humanos e inspirou gerações. Seus limões — a escuridão e o silêncio — tornaram-se uma limonada de percepção tátil e comunicação extraordinária.

Nelson Mandela passou 27 anos na prisão, tempo suficiente para cultivar o ressentimento. No entanto, usou esse período para desenvolver uma paciência estratégica e uma visão de reconciliação. Sua "limonada" foi transformar o cárcere em crisol para uma liderança que uniria uma nação dividida.

Frida Kahlo transformou a dor física crônica e as limitações físicas em uma arte visceral e original. Seus limões — um acidente devastador e múltiplas cirurgias — fermentaram na limonada colorida de autorretratos que exploravam identidade, sofrimento e resistência.

O Processo da Transformação

Analisando esses e outros relatos biográficos, observa-se um padrão na fabricação existencial de "limonadas":

  1. Aceitação do Limão: Como escreveu Carl Jung, "aquilo que você nega, o submete; aquilo que você aceita, o transforma". A primeira etapa é reconhecer a realidade amarga, sem romantizá-la.

  2. A Extração do Suco: Representa o processo de extrair lições, habilidades ou novas perspectivas da experiência difícil. Stephen Hawking transformou suas limitações físicas em uma capacidade extraordinária de visualização teórica.

  3. A Adoçagem: Encontrar significado e propósito no sofrimento, como fez Malala Yousafzai ao transformar um atentado talibã em um movimento global pela educação feminina.

  4. O Servir aos Outros: Muitas dessas "limonadas" singulares tornam-se bebidas coletivas. A escritora norte-americana Maya Angelou transformou traumas de infância em poesia que falava às feridas de milhões.

Limonadas Contemporâneas

Na vida comum, essa alquimia também se manifesta: pais que perdem filhos e criam fundações de apoio, profissionais que são demitidos e descobrem vocações mais alinhadas, pessoas com doenças crônicas que se tornam especialistas e apoiadoras de outros na mesma condição.

A neurociência moderna corrobora essa metáfora: situações desafiadoras podem desenvolver resiliência neuronal, criando caminhos mentais mais complexos e adaptativos. A psicologia positiva chama isso de "crescimento pós-traumático".

O Equilíbrio Necessário

É crucial notar que a metáfora da limonada não sugere que todo sofrimento tenha uma finalidade redentora, nem que devamos buscar o sofrimento. Antes, propõe que, diante dos limões inevitáveis da existência, temos certa agência sobre o que fazer com seu suco azedo.

Como escreveu Haruki Murakami: "Quando você sai de uma tempestade, você não é a mesma pessoa que entrou nela". As biografias que estudamos revelam que as mais saborosas limonadas humanas muitas vezes são preparadas com os limões mais ácidos — aqueles que, em suas cascas rugosas, escondem potencial de transformação singular.

A vida continuará a distribuir limões — imprevistos, perdas, fracassos, limitações. A arte existencial, conforme documentada nessas narrativas de transformação, reside não na recepção dos frutos azedos, mas na coragem de espremê-los, adoçá-los à nossa maneira, e compartilhar a bebida resultante com um mundo igualmente sedento de significado.

domingo, 25 de janeiro de 2026

Agente de imigração mata homem a tiros em protesto em Minneapolis; o que se sabe.

 

Policiais fazem guarda no local de um tiroteio envolvendo agentes federais de imigração no bairro Whittier, no sul de Minneapolis, Minnesota, EUA, em 24 de janeiro de 2026

Crédito,REUTERS/Seth Herald

Legenda da foto,Agente disparou "em legítima defesa", disse porta-voz do governo americano
Tempo de leitura: 6 min

Um homem morreu neste sábado (24/1) em Minneapolis, nos Estados Unidos, após um tiroteio envolvendo agentes federais do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês).

A vítima foi identificada por familiares como Alex Jeffrey Pretti, um cidadão norte-americano de 37 anos que trabalhava como enfermeiro de terapia intensiva. Ele é a segunda pessoa morta por um agente do ICE na cidade neste mês.

A porta-voz Tricia McLaughlin afirmou que agentes realizavam uma "operação direcionada" contra um "imigrante em situação irregular procurado por agressão violenta" quando alguém se aproximou portando uma pistola semiautomática calibre 9 mm.

"Os agentes tentaram desarmar o suspeito, mas o homem armado resistiu violentamente", disse McLaughlin.

"Temendo por sua vida e pela segurança dos demais agentes, um agente disparou em legítima defesa. Socorristas que estavam no local prestaram atendimento médico imediatamente ao indivíduo, mas ele foi declarado morto no local."

McLaughlin acrescentou que o suspeito estava com dois carregadores e sem documentos de identificação, e que manifestantes chegaram depois ao local "para obstruir e agredir as forças de segurança".

Por meio dos vídeos do ocorrido, não é possível confirmar essa versão, razão pela qual vários representantes do Partido Democrata pediram que o caso seja investigado.

O comandante da Patrulha de Fronteira, Greg Bovino, reiterou o que havia sido divulgado pela porta-voz e, em uma declaração à imprensa, afirmou que o agente envolvido era "altamente treinado", embora não tenha revelado sua identidade.

O governador de Minnesota, Tim Walz, afirmou ter conversado com a Casa Branca sobre o que chamou de "mais um tiroteio horrível por agentes federais" e exigiu que o presidente Donald Trump retire "milhares de tropas violentas e sem treinamento" do Estado.

"Acabei de falar com a Casa Branca após outro tiroteio horrível esta manhã. Minnesota não aguenta mais. Isso é nauseante", escreveu Walz.

"O presidente deve encerrar esta operação. Retire agora as milhares de tropas violentas e sem treinamento de Minnesota."

Em uma coletiva de imprensa, o prefeito da cidade, Jacob Frey, descreveu a ofensiva federal contra a imigração como uma "invasão" de agentes mascarados que atuam com impunidade. Ele apelou diretamente ao presidente Trump, pedindo que "seja um líder".

"Que Minneapolis venha em primeiro lugar, que os Estados Unidos venham em primeiro lugar", afirmou. Ele disse ainda que o presidente deveria "agir agora e destituir esses agentes federais".

A polícia afirma que a vítima, um homem branco e cidadão estadunidense, era um proprietário legal de arma de fogo, e que sua única interação conhecida com as forças de segurança estava relacionada a multas de estacionamento.

Arma que o homem morto a tiros em Minneapolis portava, segundo o Departamento de Segurança Nacional dos Estados Unidos

Crédito,Departamento de Segurança Nacional dos EUA

Legenda da foto,O Departamento de Segurança Nacional dos Estados Unidos divulgou uma foto do que afirma ser a arma que o homem morto a tiros em Minneapolis portava

Em uma publicação na Truth Social, Trump defendeu o trabalho do ICE em Minnesota e compartilhou uma imagem da pistola que, segundo agentes federais, o suspeito possuía.

"Esta é a pistola do atirador, carregada (com dois carregadores adicionais cheios!) e pronta para uso – o que tudo isso significa? Onde está a polícia local? Por que não foi permitido que protegessem os agentes do ICE? O prefeito e o governador os impediram? Diz-se que muitos desses policiais não foram autorizados a fazer seu trabalho, que o ICE teve que se proteger por conta própria — e isso não é nada fácil!", comentou Trump em sua rede social.

Sem apresentar provas, Trump lançou uma série de acusações sem apresentar provas, alegando que havia uma "fraude financeira em larga escala" em Minnesota, com "bilhões de dólares desaparecidos".

Os vídeos do incidente

Imagens divulgadas pela imprensa mostram manifestantes reunidos no bairro de Whittier, no sul de Minneapolis, e confrontos com forças de segurança enquanto protestos ocorriam no local.

A BBC Verify confirmou dois vídeos que mostram o que ocorreu durante o tiroteio. Um deles, filmado do interior de uma cafeteria e loja de donuts na Avenida Nicollet, mostra o momento em que agentes cercam e derrubam um homem.

Um agente uniformizado parece golpeá-lo várias vezes antes de serem ouvidos múltiplos disparos. Esse mesmo homem então cai no chão. Não está claro o que aconteceu antes do incidente.

Um segundo vídeo foi gravado na mesma rua, mas a alguns metros de distância. Deste ângulo, os agentes são visíveis, mas o homem detido não. Ouvem-se dez disparos e, durante o tiroteio, os agentes recuam em direção à rua.

O Departamento de Segurança Nacional afirmou que o suspeito estava armado com uma pistola e divulgou uma foto da arma que ele supostamente portava.

A BBC ainda não conseguiu confirmar, a partir dessa imagem, a quem a arma pertence nem onde ela foi encontrada.

Protestos contra batidas anti-imigração

Agentes federais no local de um tiroteio envolvendo agentes federais de imigração em Minneapolis, Minnesota, EUA, em 24 de janeiro de 2026.

Crédito,REUTERS/Tim Evans

Legenda da foto,Agentes federais realizavam uma "operação direcionada" contra um "imigrante em situação irregular procurado por agressão violenta", disse porta-voz do governo americano

Manifestantes se reuniram em Minneapolis para protestar contra as operações batida anti-imigração do governo republicano.

Desde 6 de janeiro, cerca de 2 mil agentes federais estão na região enviados pelo governo Trump, no que foi descrito pelo Departamento de Segurança Nacional como a maior operação de imigração já realizada — parte de uma repressão ampliada após alegações de fraude em programas de assistência social no estado.

A mobilização faz parte de uma campanha lançada pelo ICE no fim do ano passado para mirar imigrantes em Minneapolis com ordens de deportação, incluindo membros da comunidade somali da cidade.

Protestos ocorreram desde a chegada dos agentes e se intensificaram a partir de 8 de janeiro, quando uma mulher foi morta a tiros por um agente do ICE durante uma operação na cidade. Renee Nicole Good, de 37 anos, foi baleada dentro do próprio carro.

O governo Trump afirmou que o agente agiu em legítima defesa. Autoridades locais, porém, contestam essa versão e dizem que Good não representava ameaça.

Vídeos do incidente mostram agentes do ICE se aproximando de um carro parado no meio da rua e ordenando que a motorista saísse do veículo. Um deles puxa a maçaneta da porta. Quando o carro tenta arrancar, um agente que estava à frente aponta a arma e dispara. O veículo então se afasta e colide com a lateral da via.

A esposa de Good disse à imprensa local que o casal havia ido ao local para apoiar vizinhos afetados pela operação de imigração.

O agente que atirou é Jonathan Ross, veterano do ICE que já havia sido ferido em serviço após ser atropelado por um carro.

A secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, afirmou que Ross atirou porque Good estaria tentando atropelá-lo. O prefeito democrata de Minneapolis, Jacob Frey, rejeitou essa versão e disse que a mulher tentava deixar o local, não atacar um agente.

O FBI conduz a investigação do caso.

Nesta sexta-feira (23/1), a detenção de um menino de cinco anos durante uma operação contra imigrantes na cidade também provocou indignação.

Liam Conejo Ramos e seu pai, Adrian Conejo Arias, de nacionalidade equatoriana, foram detidos quando chegavam à residência onde vivem.