SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Sobre outros métodos de pesquisar as realidades complexas, incertas e caóticas. Por Egidio Guerra



Uma síntese crítica a partir do enactivismo e da termodinâmica dos sistemas complexos

Introdução: A crise dos métodos tradicionais

A ciência ocidental construiu-se historicamente sobre um ideal de conhecimento que privilegia a estabilidade, a previsibilidade e a reversibilidade temporal. Métodos experimentais clássicos pressupunham sistemas isoláveis, relações lineares de causa e efeito, e a possibilidade de um observador externo que descreve objetivamente uma realidade independente. No entanto, quando nos voltamos para os fenômenos que realmente importam — a vida, a consciência, as sociedades humanas, os processos ecológicos — confrontamo-nos com realidades que desafiam radicalmente esses pressupostos: são complexas, incertas, caóticas, irreversíveis e profundamente entrelaçadas com a própria presença do observador.

Neste ensaio, proponho explorar métodos alternativos de pesquisa que emergem da convergência entre duas tradições intelectuais: o enativismo — tal como desenvolvido nas obras de Shaun Gallagher, Francisco Varela, Evan Thompson e Eleanor Rosch — e a termodinâmica dos sistemas complexos inaugurada por Ilya Prigogine. Argumentarei que esses autores oferecem não apenas uma crítica contundente aos métodos reducionistas, mas, mais importante, fornecem os fundamentos para uma nova prática científica adequada à natureza dos fenômenos que buscam compreender.

1. A crítica enativista ao cognitivismo e seus métodos

1.1 A ilusão do observador externo

No clássico The Embodied Mind: Cognitive Science and Human Experience (2016), Francisco J. Varela, Evan Thompson e Eleanor Rosch denunciam uma "fundamental circularidade" no coração da ciência cognitiva tradicional. Como observam na introdução, o projeto cognitivista pretendia explicar a mente como um sistema de processamento de símbolos que representa um mundo independente — mas essa pretensão esbarrava em um problema metodológico insuperável: "a mente do cientista que investiga a mente não pode ser excluída da análise".

A crítica é radical. Não se trata apenas de reconhecer que a objetividade plena é inatingível, mas de compreender que o próprio ato de conhecer é uma atividade corporificada de um sujeito situado. Varela, Thompson e Rosch propõem um método que integra três vertentes: (1) a análise fenomenológica da experiência vivida, (2) a investigação científica dos processos cognitivos e (3) a prática contemplativa (especialmente budista) de transformação da experiência. Essa integração, argumentam, não é um ecletismo superficial, mas uma necessidade metodológica: se a mente é constitutivamente corporificada e situada, então o método científico que a estuda deve incorporar a dimensão da primeira pessoa.

1.2 Para além do cérebro isolado

Shaun Gallagher, em Enactivist InterventionsRethinking the Mind (2017), aprofunda essa crítica examinando os modelos preditivos do cérebro que dominam a neurociência contemporânea. Sua objeção é precisa: esses modelos, por mais sofisticados que sejam, perpetuam um "isolacionismo cerebral" ao tratar o cérebro como um órgão que constrói modelos internos do mundo, separado por uma "fronteira forte" do corpo e do ambiente.

Gallagher propõe uma alternativa metodológica: ao invés de perguntar como o cérebro representa o mundo, devemos investigar como os sistemas cérebro-corpo-ambiente se acoplam em dinâmicas relacionais. "Os processos cognitivos estão no mundo", escreve, "situados em espaços de affordance definidos através de histórias evolutivas, desenvolvimentais e individuais". A mudança é sutil mas profunda: não se trata de negar a importância do cérebro, mas de recusar sua autonomização metodológica. O método enativista, portanto, é inerentemente relacional e situado.


2. A continuidade entre vida e mente como princípio metodológico

2.1 A tese central de Mind in Life

Evan Thompson, em Mind in Life: BiologyPhenomenologyand the Sciences of Mind (2007), oferece uma contribuição decisiva ao estabelecer a continuidade entre vida e mente como princípio metodológico. Sua tese é clara: "onde há vida, há mente; vida e mente compartilham princípios comuns de auto-organização, e as características auto-organizativas da mente são uma versão enriquecida das características auto-organizativas da vida".

Essa tese tem implicações metodológicas profundas. Se mente e vida são contínuas, então o método adequado para estudar a cognição não pode ser uma psicologia ou neurociência que ignora a biologia do organismo. Thompson propõe uma biologia fenomenológica que integra: (a) a análise da autonomia e da autopoiese como características definidoras do vivente, (b) a descrição fenomenológica da experiência vivida, e (c) a investigação dos mecanismos neurobiológicos que subjazem a essa experiência.

A originalidade de Thompson está em mostrar que essa integração não é uma concessão pragmática, mas uma necessidade conceitual: a fenomenologia precisa da biologia para não cair em idealismo, e a biologia precisa da fenomenologia para não cair em reducionismo. O método resultante é uma hermenêutica do vivente, que interpreta os fenômenos biológicos como portadores de sentido.

2.2 Crítica ao método analítico.

Uma crítica recorrente nos três autores é dirigida ao método analítico que decompõe fenômenos complexos em partes supostamente elementares. Gallagher observa que, nos modelos preditivos, "o cérebro é tratado como uma entidade computacional isolada, cujas operações internas podem ser compreendidas sem referência ao corpo e ao ambiente". Thompson complementa: essa abordagem perde justamente o que é mais característico dos sistemas vivos — sua autonomia e auto-organização, propriedades que emergem das relações entre as partes e não podem ser encontradas em nenhuma parte isolada.


3. A revolução prigoginiana: tempo, irreversibilidade e complexidade.

3.1 A crítica ao determinismo

Ilya Prigogine, laureado com o Nobel de Química de 1977 por seus trabalhos sobre estruturas dissipativas, oferece uma crítica paralela à física clássica que ecoa surpreendentemente a crítica dos enactivistas à ciência cognitiva. Em The End of Certainty (1997), Prigogine afirma: "Quanto mais sabemos sobre nosso universo, mais difícil se torna acreditar no determinismo."

A crítica de Prigogine ao determinismo newtoniano é metodológica: os sistemas instáveis e complexos não podem ser explicados adequadamente por equações deterministas porque são sensíveis às condições iniciais e exibem comportamentos que exigem tratamento probabilístico. Assim como Gallagher critica a "fronteira forte" que isola o cérebro, Prigogine critica o fechamento determinista que exclui a irreversibilidade e a criatividade temporal.

3.2 Estruturas dissipativas como novo objeto científico.

O conceito central de Prigogine — estruturas dissipativas — tem implicações metodológicas fundamentais. Uma estrutura dissipativa é um padrão ordenado que emerge espontaneamente em sistemas mantidos longe do equilíbrio termodinâmico, através do fluxo de matéria e energia. Prigogine descobriu que "a importação e dissipação de energia em sistemas químicos pode resultar no surgimento de novas estruturas devido à auto-reorganização interna."

A relevância metodológica é dupla. Primeiro, Prigogine mostra que a ordem pode emergir do caos sem a intervenção de um designer externo — um princípio que os enactivistas aplicam à cognição. Segundo, ele demonstra que a irreversibilidade temporal não é uma ilusão ou uma aproximação, mas um aspecto constitutivo da realidade. O método científico deve, portanto, incorporar o tempo não como um parâmetro externo, mas como uma dimensão criativa.

3.3 Tempo e transformação

Uma das convergências mais fascinantes entre Prigogine e os enactivistas é a centralidade atribuída à transformação. Para Varela, Thompson e Rosch, a cognição é um processo de "estabelecer um caminho ao andar" — não há fundação absoluta, apenas a história de acoplamentos bem-sucedidos. Para Prigogine, o universo é criativo e indeterminado; a seta do tempo não pode ser eliminada.

Ambos os programas compartilham uma crítica à metafísica do "dado" que subjaz .o método científico tradicional. O método alternativo que propõem é processual: ao invés de buscar entidades estáveis, investigam processos de formação, transformação e dissolução.

4. Confluências e divergências

4.1 Autonomia e autopoiese.

Os enactivistas e Prigogine compartilham uma intuição profunda: os sistemas complexos são autônomos. Para Thompson, a autonomia é definida pela autopoiese — a capacidade de um sistema produzir seus próprios componentes. Para Prigogine, a autonomia aparece nas estruturas dissipativas que mantêm sua organização através do fluxo contínuo de energia.

A convergência não é acidental. Francisco Varela, co-autor de The Embodied Mind, foi também um dos criadores do conceito de autopoiese. Sua trajetória intelectual demonstra a unidade profunda entre a biologia da cognição e a termodinâmica dos sistemas complexos.

4.2 O papel do observador

Há, no entanto, uma divergência importante. Prigogine, embora crítico do determinismo, mantém-se no quadro de uma ciência que busca leis objetivas — ainda que probabilísticas e irreversíveis. Os enactivistas, influenciados pela fenomenologia, vão além: argumentam que o observador não pode ser eliminado da descrição.

Thompson expressa essa diferença ao insistir que a fenomenologia deve integrar a ciência, mas não se reduzir a ela. "A ciência cognitiva e a experiência humana", escreve, "precisam se remodelar mutuamente de forma transformadora". Para Prigogine, a transformação é ontológica (o universo é criativo); para os enactivistas, é também epistemológica (o conhecimento transforma o conhecedor).

5. Implicações metodológicas para a pesquisa contemporânea

5.1 Do método experimental à pesquisa situada.

A síntese que proponho aponta para uma nova prática científica que pode ser caracterizada pelos seguintes traços:

  1. Integração de múltiplas perspectivas: o método não pode ser apenas de terceira pessoa (observação objetiva) nem apenas de primeira pessoa (introspecção), mas deve incluir a segunda pessoa (intersubjetividade) e a integração entre elas.

  1. Primazia das relações: a unidade de análise não é o elemento isolado (neurônio, gene, representação), mas o sistema de relações em que ele está inserido. Gallagher enfatiza a "dinâmica relacional extensiva que integra o cérebro com o corpo extra-neural".

  1. Temporalidade irreversível: os fenômenos são estudados como processos históricos, não como estados estáticos. Prigogine insiste que a seta do tempo é constitutiva, não uma ilusão

  1. .Criatividade e novidade: o método deve estar aberto à emergência de novidades genuínas, não apenas à manifestação de leis preexistentes.

5.2 Exemplos de aplicação

Gallagher oferece exemplos concretos dessa metodologia ao analisar fenômenos como a percepção, a ação e a cognição social. Em vez de tratar a percepção como um processo inferencial (o cérebro que constrói hipóteses sobre o mundo), ele a descreve como um engajamento direto com as affordances do ambiente, mediado pelo corpo e pela afetividade.

Thompson, por sua vez, aplica o método à análise da temporalidade da consciência, mostrando como o "presente vivido" não é um instante pontual, mas uma estrutura de retenção e protensão que só pode ser compreendida pela integração da fenomenologia com a neurociência.

6. Conclusão: O método como prática transformadora 

A lição mais profunda que emerge da convergência entre os enactivistas e Prigogine é que o método científico não é um procedimento neutro que se aplica a um objeto independente. O método é parte constitutiva do fenômeno que investiga: ao estudar sistemas complexos, incertos e caóticos, o pesquisador não pode permanecer externo, mas é inevitavelmente arrastado para a dinâmica que busca compreender. 

Como escrevem Varela, Thompson e Rosch, "a cognição como enação de um mundo significa que a cognição não tem fundamento além de sua própria história". O método adequado a essa visão não pode buscar um fundamento externo, mas deve se assumir como uma prática situada, histórica e transformadora. 

Para a pesquisa contemporânea, essa lição é libertadora. Ela nos liberta da ilusão de uma objetividade inalcançável sem nos condenar ao relativismo. Ao invés disso, convida-nos a desenvolver métodos que são reflexivos (incluem o observador), relacionais (focam nas conexões), temporais (incorporam a irreversibilidade) e transformadores (reconhecem que o conhecimento muda tanto o conhecedor quanto o conhecido). 

Em um mundo que se revela cada vez mais complexo, incerto e caótico, talvez não haja outro caminho senão aprender a pesquisar como se vive: estabelecendo um caminho ao andar, sem garantias, mas com a confiança de que a própria caminhada produz as condições para sua continuidade. 

 

Referências 

Gallagher, S. (2017). Enactivist InterventionsRethinking the Mind. Oxford University Press.  

Prigogine, I. (1997). The End of Certainty: Time, Chaosand the New Laws of Nature. Free Press.  

Thompson, E. (2007). Mind in Life: BiologyPhenomenologyand the Sciences of MindBelknap Press/Harvard University Press.  

Varela, F. J., Thompson, E., & Rosch, E. (2016). The Embodied Mind: Cognitive Science and Human Experience (Revised ed.). MIT Press.