SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

domingo, 3 de maio de 2026

o que a performance faz? O que ela nos permite ver, experimentar e teorizar?



Introdução 

Em um mundo obcecado pelo registro escrito, pelo documento estável e pela verdade arquivada, a obra de Diana Taylor surge como um chamado fundamental à atenção. Seu livro Performance (2016) — originalmente concebido como "um pequeno livro brilhante sobre performance" em espanhol, destinado a fornecer um vocabulário comum para artistas, acadêmicos e estudantes do Hemisfério Institute of Performance and Politics em todas as Américas — tornou-se uma das introduções mais influentes ao campo dos estudos da performance. Taylor não está interessada apenas em definir o que é performance; sua pergunta central é mais ambiciosa e radical: o que a performance faz? O que ela nos permite ver, experimentar e teorizar?  

Este texto se propõe a explorar as contribuições centrais do pensamento de Diana Taylor, organizadas em torno de quatro eixos fundamentais: a definição expandida de performance, a tensão produtiva entre arquivo e repertório, a política do espectador, e o potencial transformador da performance como prática de conhecimento e resistência. 

 

1. Definindo Performance: Muito Além do Palco 

Taylor enfrenta um desafio inicial: a palavra "performance" carrega múltiplos significados que frequentemente se sobrepõem. Para ela, performance não se limita às artes cênicas tradicionais — teatro, dança, música. Ela abrange um espectro muito mais amplo de comportamentos sociais que inclui: 

"performance art, dança e teatro, bem como práticas sociopolíticas e culturais como esportes, rituais, protestos políticos, desfiles militares e funerais. Todos esses têm elementos reiterativos que são reatualizados em cada nova instanciação". 

Esta definição expansiva é fundamental para o projeto teórico de Taylor. Ao incluir desde uma parada militar até um protesto de rua, ela demonstra que a performance é um operador analítico capaz de iluminar fenômenos aparentemente díspares. Mais importante: Taylor argumenta que a performance não se limita à repetição mimética — "ela também inclui a possibilidade de mudança, crítica e criatividade dentro das estruturas de repetição". A performance é, portanto, um espaço de tensão entre o que se repete e o que se transforma. 

O livro Performance está estruturado em nove capítulos que guiam o leitor por esta complexidade: 

Capítulo 

Tema Central 

1 

"Framing [Performance]" — definições e escopo 

2 

"Performance Histories" — história da performance art desde os anos 1960-70 

3 

"Spect-Actors" — teorias da espectatorialidade 

4 

"The New Uses of Performance" — conhecimento incorporado 

5 

"Performative and Performativity" — de Austin a Butler 

6 

"Knowing through Performance" — cenários e simulação 

7 

"Artivists" — artistas-ativistas 

8 

"The Future(s) of Performance" 

9 

"Performance Studies" 

 

2. Arquivo e Repertório: A Tensão Fundadora 

Se há um conceito pelo qual Diana Taylor é mais conhecida, é a distinção entre arquivo e repertório, desenvolvida em seu livro anterior The Archive and the Repertoire: Performing Cultural Memory in the Americas (2003). Esta distinção tornou-se uma referência obrigatória nos estudos da performance e da memória cultural. 

O Arquivo: A Memória do Escrito 

O arquivo, para Taylor, representa o conhecimento armazenado em suportes estáveis: documentos, mapas, textos literários, cartas, dados. É a forma de memória que a tradição ocidental privilegiou como "facto" — imutável, objetiva, sólida, resistente à mudança. O arquivo nos tranquiliza porque sua irrefutabilidade parece residir fora da nossa capacidade falível de apreendê-lo. 

No entanto, Taylor alerta: "a hegemonia do arquivo elide as maneiras pelas quais conhecemos através do corpo e através do espírito, tornando difícil 'pensar a prática incorporada dentro dos sistemas epistêmicos desenvolvidos no pensamento ocidental, onde a escrita se tornou a garantidora da própria existência'". 

O Repertório: O Conhecimento que Dança 

O repertório, por outro lado, é o domínio do conhecimento transmitido através da performance: gestos, palavra falada, movimento, dança, canto, rituais. É uma forma de memória que "age" (perform) no presente, que é incorporada e não pode ser completamente capturada pelo documento. 

Taylor insiste que o repertório não é simplesmente um "suplemento" ao arquivo. É um sistema epistêmico alternativo que oferece perspectivas diferentes daquelas derivadas do arquivo escrito. Ele é particularmente útil para reconsiderar processos históricos de contato transnacional — especialmente nas Américas, onde populações indígenas, africanas e mestiças tiveram suas formas de conhecimento sistematicamente desautorizadas pela hegemonia do registro escrito. 

Diante de 11 de setembro 

Uma das análises mais poderosas de Taylor sobre esta tensão envolve os eventos de 11 de setembro de 2001. Ela examina criticamente como as representações midiáticas do ataque — arquivadas em loop infinito — criaram uma "performance" do trauma que simultaneamente revela e oculta. A repetição incessante das imagens das torres colapsando torna-se uma forma de arquivo performático que, paradoxalmente, dessensibiliza ao mesmo tempo que comemora. Taylor nos força a perguntar: o que é deixado de fora quando apenas certas performances são arquivadas? 

 

3. O Espectador Como Cocriador 

Taylor rejeita a noção passiva do "público". Inspirada por teóricos como Althusser, Boal, Brecht, Artaud, Rancière e Didi-Huberman, ela propõe uma compreensão radicalmente ativa da espectatorialidade . 

Sua definição é direta: "Performance é um fazer para, uma coisa feita para e com os espectadores". 

Esta definição carrega implicações profundas: 

  1. Não há performance sem testemunha: A presença do espectador não é acidental, mas constitutiva da própria performance. 

  1. O espectador é afetado: Performance não é algo que se observa de uma distância segura — ela age sobre quem a testemunha. 

  1. A resposta é parte do evento: O que o espectador faz com o que vê — sua interpretação, sua resposta emocional, sua ação subsequente — é parte integrante do fenômeno performático. 

Taylor conecta esta discussão ao conceito de "espect-ator" de Augusto Boal, o dramaturgo brasileiro que propôs um teatro no qual a plateia é convidada a intervir na ação. Para Taylor, esta é mais do que uma técnica teatral — é um modelo político de como sujeitos podem se tornar agentes de sua própria história. 

 

4. Performance Como Epistemologia 

Talvez a contribuição mais original de Taylor seja sua insistência de que a performance não é apenas um objeto de estudo, mas um modo de conhecer. Ela escreve que performance pode funcionar como uma "epistemologia, uma forma de conhecer e entender o mundo". 

Esta afirmação é deliberadamente provocativa contra as hierarquias tradicionais do conhecimento acadêmico. Se o conhecimento ocidental é fundado na primazia do escrito — "cogito ergo sum" — Taylor propõe um contramovimento: "performo ergo sum" (performo, logo existo). O conhecimento não está apenas na cabeça; está no corpo que dança, na mão que ergue um cartaz, na voz que canta uma canção de protesto, no gesto que repete um ritual ancestral. 

Cenários e Simulação 

No capítulo 6 de Performance, Taylor introduz o conceito de "cenário" como uma forma específica de conhecimento. Cenários são estruturas paradigmáticas — como o "encontro" entre europeus e indígenas — que se repetem através da história, mas com variações. Analisar um cenário é diferente de analisar um texto: requer atenção ao contexto, à incorporação, à relação entre os participantes. 

A simulação, por sua vez, é a prática de "como se" que a performance torna possível. Através da simulação, podemos acessar experiências que não vivemos diretamente — e, crucialmente, podemos ensaiar respostas diferentes para futuros possíveis. 

 

5. Artivismo: Performance Como Resistência 

O capítulo 7 de Performance é dedicado aos "artivistas" — artistas-ativistas que utilizam a performance como continuação da política por meios alternativos. Taylor examina como, em contextos de violência estatal, censura e repressão — particularmente na América Latina — a performance se torna um recurso de sobrevivência e testemunho. 

Os exemplos são numerosos e poderosos: 

  • As Mães da Praça de maio na Argentina, cujas caminhadas semanais com lenços brancos performam uma demanda por justiça que o arquivo oficial nega. Suas caminhadas são repertório puro — um ato corporal que mantém viva a memória dos desaparecidos. 

  • O grupo peruano Yuyachkani (que em quéchua significa "estou pensando, estou lembrando"), cujo teatro incorpora memórias traumáticas do conflito armado peruano. 

  • Denise Stoklos, cujo teatro solo explora a política da decifrabilidade — o que pode ser dito, o que deve permanecer velado. 

Taylor argumenta que estas práticas não são "apenas" arte. São atos de transferência cultural que mantêm vivas narrativas e identidades que o arquivo hegemônico tentou apagar. 

 

6. O Performativo e a Performatividade 

Taylor dedica espaço considerável à distinção entre os termos "performativo" e "performatividade", frequentemente confundidos. 

  • Performativo: Derivado da teoria dos atos de fala de J.L. Austin, refere-se a enunciados que fazem algo ao invés de dizer algo. "Eu vos declaro marido e mulher" não descreve um casamento — ele realiza o casamento. 

  • Performatividade: Popularizado por Judith Butler, refere-se ao processo pelo qual identidades são constituídas através da repetição de atos normativos. O gênero, para Butler, não é algo que se tem, mas algo que se faz reiteradamente. 

Taylor acrescenta uma terceira categoria: os "animativos" — uma contribuição original que amplia o quadro ao considerar como práticas não linguísticas (gestos, ritmos, movimentos) também produzem realidade social. 

 

7. Performance e Política Hemisférica 

Um aspecto distintivo do trabalho de Taylor é seu compromisso com as Américas como unidade de análise. Como fundadora do Hemispheric Institute of Performance and Politics, ela construiu uma rede que conecta estudiosos e artistas desde o Canadá até a Patagônia, em ambos os idiomas (inglês e espanhol) e em múltiplas tradições culturais. 

Esta perspectiva hemisférica é política. Taylor argumenta que a própria ideia de "Américas" foi construída através de performances de descoberta e conquista que continuam a nos assombrar — mesmo aqueles que tentam desmantelá-las. Ao analisar performances como Two Undiscovered Amerindians Visit de Coco Fusco e Guillermo Gómez-Peña, Taylor mostra como a repetição de cenários coloniais pode tanto reforçar quanto subverter hierarquias estabelecidas. 

O prêmio Rodolfo Usigli Medal for Theatre, concedido a Taylor em 2026 pelo governo do México em colaboração com a Universidade Iberoamericana, reconhece precisamente esta contribuição singular para o pensamento teatral e político nas Américas. 

 

Conclusão: Por que Performance Importa 

Em uma época de crises múltiplas — climática, política, epistêmica — o pensamento de Diana Taylor oferece ferramentas urgentes. A performance nos lembra que: 

  1. Nem todo conhecimento pode ser escrito: Há saberes que só podem ser transmitidos corpo a corpo, geração a geração, através da prática viva. 

  1. O poder se performa: Desfiles militares, cerimônias de posse, rituais jurídicos — o poder não é uma substância, mas um efeito de repetidas performances que podem ser questionadas e transformadas. 

  1. Somos todos espect-atores: Não há plateia inocente. Assistir é uma forma de ação — e a recusa em assistir também o é. 

  1. O arquivo nunca está completo: O que está escrito sempre esconde tanto quanto revela. O repertório — o conhecimento vivo dos corpos — oferece um contraponto necessário. 

Taylor conclui sua reflexão com uma provocação que ecoa através de todo o seu trabalho: a performance não precisa ser "salva" no arquivo para ter valor. O fato de um gesto desaparecer quando é executado não é sua fraqueza — é sua força. A efemeridade da performance é um lembrete de que a vida, também, é efêmera. E é precisamente por isso que importa. 

Como ela escreve, metaforicamente ecoada por outros pensadores que se inspiraram em seu trabalho: o conhecimento que importa não é apenas aquele que podemos guardar em uma prateleira — mas aquele que podemos dançar, cantar, gritar e, acima de tudo, viver. 

 

Referências 

  • Fischer-Lichte, Erika. "Performance by Diana Taylor." Bulletin of the Comediantes, 2017.  

  • Taylor, Diana. The Archive and the Repertoire: Performing Cultural Memory in the Americas. Duke University Press, 2003.  

  • Taylor, Diana. Performance. Duke University Press, 2016.  

  • NYU Tisch School of the Arts. "Diana Taylor — Faculty Directory."  

  • Alkazi Theatre Archives. "Performance by Diana Taylor."