SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sábado, 25 de abril de 2026

O uso de tecnologia preditiva para tomar decisões sobre pessoas levanta questões éticas


 

"O uso de tecnologia preditiva para tomar decisões sobre pessoas levanta questões éticas às quais a humanidade dedicou preocupantemente pouco tempo a considerar", escreve um professor de filosofia e ética econ.st/41O5RxS

Essa história derruba o mito romântico do pesquisador solitário e sacrificado.


 

Pouca gente sabe, mas Santos Dumont nasceu em berço de ouro. Essa foto é prova viva disso: o Palacete dos Campos Elíseos, em São Paulo, onde sua família, uma das mais ricas do Brasil, vivia com todo o esplendor da elite cafeeira. Seu pai, conhecido como o “Primeiro Rei do Café”, acumulou uma fortuna que, atualizada, ultrapassaria 3 bilhões de reais. Se vivesse hoje, provavelmente estaria entre os bilionários da Forbes. Essa herança foi crucial para a história da aviação. Santos Dumont viveu em Paris por 22 anos, onde realizou dezenas de experimentos com aeronaves, balões e dirigíveis. O voo histórico do 14-Bis, em 1906, aconteceu ali, no Campo de Bagatelle, diante de centenas de fotógrafos que eternizaram o feito. Viver em Paris e bancar experimentos tão ousados não era barato. Materiais importados, acesso à tecnologia de ponta e visibilidade internacional: tudo isso exigiu muito investimento. A inovação do voo não nasceu apenas da genialidade. Foi também fruto de recursos financeiros sólidos, visão de longo prazo e incentivo familiar. Essa história derruba o mito romântico do pesquisador solitário e sacrificado. Que o exemplo de Santos Dumont nos inspire a reconhecer: Talento é essencial. Mas só floresce quando encontra solo fértil, apoio e investimento.


O problema, portanto, não é a educação em si. É o descompasso entre qualificação e capacidade da economia de gerar valor.


 Os dados expõem uma realidade desconfortável: o Brasil expandiu o acesso ao ensino superior, mas não conseguiu sustentar o valor econômico desse capital humano.

A massificação do diploma, sem o correspondente aumento de produtividade e sofisticação econômica, levou a uma banalização relativa do ensino superior. Mais pessoas qualificadas passaram a disputar um mercado que não evoluiu na mesma velocidade — e o resultado é visível: queda real de renda no topo. Ao mesmo tempo, observa-se um movimento de compressão da distribuição de renda. Parte disso decorre de políticas públicas voltadas à base — como transferências, isenções e benefícios — que são relevantes do ponto de vista social, mas que, quando não acompanhadas de ganho estrutural de produtividade, acabam por reduzir a distância mais pela erosão do topo do que pela ascensão consistente da base. Esse processo gera um efeito colateral importante: não elimina a desigualdade — apenas redistribui a estagnação. Ainda assim, há um ponto que não pode ser ignorado: os números mostram de forma inequívoca que a educação continua sendo um diferencial relevante de renda. Mesmo com perda real, quem possui ensino superior segue ganhando múltiplos da renda de quem não tem instrução formal. Isso contraria narrativas simplistas — ou mesmo negacionistas — que tentam desqualificar o valor da educação como ativo econômico. O problema, portanto, não é a educação em si. É o descompasso entre qualificação e capacidade da economia de gerar valor. Sem aumento de produtividade, inovação e complexidade produtiva, o país continuará formando mais — e remunerando relativamente menos.

O Abismo Infinito: Tennyson, a Ciência e a Angústia do Sentido no Século XXI. Por Egidio Guerra.

 



Há um momento, na juventude de Alfred Tennyson, que captura algo essencial sobre a condição humana diante do abismo. É 1830, e o poeta — ainda longe da barba que o transformaria no ícone vitoriano da estátua de Trinity College — escreve um soneto de quinze linhas sobre uma criatura mítica que dorme no fundo do mar. "The Kraken" não é apenas um poema sobre monstros. É, como Richard Holmes demonstra em The Boundless Deep: Young Tennyson, Science, and the Crisis of Belief, o ponto de convergência onde geologia, mitologia nórdica, escatologia bíblica e uma forma incipiente de ficção científica se encontram para expressar algo terrível e sublime: a percepção de que o mundo que habitamos não foi feito para nós. 

Kraken, "o maior dos seres viventes", repousa "muito abaixo, nas profundezas abissais". Ele não é apenas um monstro marinho; é uma metáfora para aquilo que as novas ciências do século XIX estavam despertando das profundezas do tempo geológico. Os primeiros fósseis de dinossauros, os estratos que revelavam uma história da Terra que se estendia por milhões de anos antes do aparecimento da humanidade — tudo isso sugeria um universo indiferente, um cosmos onde, nas palavras do próprio Tennyson, "a Natureza, vermelha em dentes e garras". O poema termina com a imagem do monstro sendo despertado por um "fogo do abismo" para morrer na superfície, em uma "agonia final". Era essa a sensação dos homens e mulheres do século XIX diante das novas cosmologias: o despertar para um universo que não era um lar, mas um campo de batalha indiferente. 

Holmes descreve este período como a emergência de uma "esquizofrenia intelectual e espiritual". De um lado, havia a astronomia otimista, revelando um cosmos infinito e sublime, cheio de novas estrelas e possibilidades. Do outro, a geologia claustrofóbica, mostrando um mundo de extinções, monstros fossilizados e violência sem propósito. "É inconcebível", escreveu Tennyson, "que todo o Universo tenha sido meramente criado para nós, que vivemos em um planeta de terceira categoria de um sol de terceira categoria". Nesta frase, o poeta não estava apenas sendo uma mente aberta; estava articulando o que talvez seja o choque mais radical da modernidade: o descentramento do humano. 

A Ferida da Extinção: Quando o Futuro Revela o Nada 

A crise de fé vitoriana não foi apenas sobre a perda de Deus no céu. Foi sobre a perda da certeza de que a história humana tem um significado. Se os dinossauros — seres poderosos e bem-sucedidos por eras — puderam desaparecer completamente, por que a humanidade seria diferente? Esta pergunta, que Holmes identifica como central para o jovem Tennyson e seu círculo (incluindo o amigo Edward FitzGerald, futuro tradutor de Omar Khayyám), ressoa em nossos ouvidos contemporâneos com uma urgência que os vitorianos talvez não pudessem antecipar. 

Hoje, o "abismo infinito" não é apenas geológico ou astronômico; ele é climático e tecnológico. O conceito do Antropoceno — a era geológica moldada pela ação humana — inverteu a perspectiva de Tennyson. Não somos mais apenas observadores ameaçados pelas forças da natureza; somos a própria força geológica que ameaça. O "fogo do abismo" que desperta o Kraken é, metaforicamente, o mesmo fogo que queimamos como combustível fóssil. 

A crise de crença contemporânea raramente se manifesta como a perda da fé religiosa institucional (embora esta também ocorra). Manifesta-se como uma dificuldade profunda de imaginar o futuro. Onde Tennyson via a extinção como um dado geológico que minava a crença na Providência, nós vemos a extinção (seja de espécies, de biomas ou de sistemas políticos estáveis) como um horizonte iminente que corrói a possibilidade de esperança. Estamos vivendo a "agonia final" do Kraken em câmera lenta, e a pergunta é a mesma: como encontrar significado em um universo — ou em um planeta — que parece operar segundo lógicas cegas e impessoais? 

A Arte como Navegação no Abismo: Mentiras que Dizem a Verdade 

Se as verdades da ciência são muitas vezes destruidoras de mundos (desencantamento), caberia à arte a tarefa de reconstruir esses mundos? A relação entre arte, ciência e crença no século XXI é mais complexa do que o simples conflito ilustrado por Tennyson. Como explora a edição especial da revista Foundations of Science (2025), a antiga dicotomia que separava a subjetividade artística do rigor objetivo da ciência ruiu por completo. 

neuro estética, a biologia da percepção e a matemática dos fractais mostram que a arte e a ciência não são polos opostos, mas processos cognitivos profundamente interligados. Um estudo publicado na Frontiers in Physics (2026) propõe uma metáfora fascinante: "A arte é a mentira que diz a verdade; a ciência é a verdade que mente". A arte assume uma falsidade (o artifício, o enquadramento) para revelar verdades subjetivas e emocionais sobre a condição humana. A ciência assume uma pretensão de verdade (o modelo, a lei) para navegar por um mundo que são inerentemente complexos e incertos. Ambas, no fundo, são "modelos" — tentativas humanas de mapear o abismo. 

A própria In Memoriam (1850) de Tennyson é um artefato perfeito dessa interseção. O poema, escrito ao longo de quase duas décadas, é simultaneamente um lamento pela morte do amigo Arthur Hallam e uma longa meditação sobre as implicações da evolução. Tennyson não rejeita a ciência; ele a absorve. Ele tenta fazer o que a arte sempre fez de melhor: sustentar o paradoxo. Ele mantém a visão darwiniana de uma natureza competitiva ("a Natureza, vermelha em dentes e garras") ao lado da afirmação de uma fé renovada, ainda que incerta: "Mais fé reside na dúvida honesta, acredite, do que na metade dos credos". 

A Fenda Digital: O Abismo Dentro de Nós 

A crise de crença do século XXI não se desenrola apenas diante das galáxias ou dos estratos de fósseis, mas dentro dos circuitos dos nossos próprios dispositivos. A tecnologia, que prometeu ser a nova luz da razão, tornou-se uma nova fonte de abismo. As redes sociais são o nosso "oceano" contemporâneo, onde verdades e mentiras se misturam em tempestades de desinformação. 

Neste contexto, a distinção entre arte (subjetiva) e ciência (objetiva) torna-se perigosa. Assim como Tennyson suspeitava das "reivindicações totalizantes da ciência e do materialismo" puros, hoje devemos suspeitar das reivindicações totalizantes do algoritmo. A "verdade" estatística de um algoritmo de recomendação pode ser tão limitante e desumanizadora quanto um dogma religioso ou uma lei física mal interpretada. O que acontece quando a ciência de dados — fria, empírica, poderosa — se torna uma crença cega em "big data", substituindo a complexidade da vida por correlações brutas? Estamos diante de um novo tipo de "Kraken" tecnológico: uma inteligência que dorme nas profundezas dos servidores e que, quando desperta por nosso próprio "fogo", pode nos devorar. 

A arte, neste cenário, resiste como um espaço de "dúvida honesta". Enquanto a ciência de dados busca padrões fechados e previsibilidade, a boa arte abre fendas. Ela nos força a habitar a ambiguidade. Pensemos nos artistas contemporâneos que trabalham com "Realismo Informacional" — aqueles que usam dados, pixels e interfaces não para imitar a natureza, mas para documentar o fenômeno da própria tecnologia. Eles nos mostram que o código é feito de texto, que o texto é feito de linguagem, e que a linguagem é o único antídoto conhecido contra o caos. 

Conclusão: Aprender a Nadar nas Profundezas 

O "abismo infinito" de Tennyson não era apenas um espaço de terror; era também um espaço de possibilidade. O Kraken não é derrotado; ele é despertado. A angústia da falta de sentido nunca foi, para os grandes artistas e pensadores, um beco sem saída, mas sim um portal para a responsabilidade. Quando Tennyson escreveu, "Fiz um mergulho nas profundezas sem limites", ele descreveu o ato heroico do poeta que não foge da ciência, mas a confronta para humanizá-la. 

Hoje, o abismo é maior. Ele envolve o clima, a tecnologia e o colapso das instituições de sentido. A lição de The Boundless Deep é que não há retorno a uma inocência pré-científica ou pre-digital. Não podemos desaprender o que a geologia nos ensinou sobre o tempo profundo, nem o que a física nos ensinou sobre o espaço vazio, nem o que a internet nos ensinou sobre a fragmentação da verdade. 

A única saída é para dentro — não para o isolamento, mas para o pensamento complexo. A arte e a ciência devem caminhar juntas. A ciência nos fornece o mapa do abismo (as placas tectônicas, os buracos negros, os algoritmos). A arte nos fornece o barco e a bússola: empatia, ambiguidade, a capacidade de contar histórias que nos lembram que, mesmo em um planeta de terceira categoria, a beleza e o sofrimento de um único ser humano ainda são infinitamente relevantes. 

 Referências 

HOLMES, Richard. The Boundless Deep: Young Tennyson, Science, and the Crisis of Belief. Nova York: Pantheon Books, 2026. 

GENTRY, Larry; MELTON, Tammy; KING, Rebecca. "Our Little Systems Have Their Day": Tennyson's Poetic Treatment of Science. Dissertação (Mestrado) - Middle Tennessee State University2014. 

CANTONE, Damiano; COLOMBO, A. Science and the ArtsPossible Intersections and New trajectoriesIntroduction to the Special IssueFoundations of Science2025. 

O'NEILL, Joseph; IVANOV, Iliyan; PETZINGER, Giselle M.; JAKOWEC, Michael W. Foreground and background: fractal unity of art and scienceFrontiers in Physics, v. 13, 2026. 

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WELSH, Philip. Book review: The Boundless DeepChurch Times, 28 nov. 2025. 

BERENC, Jelena; SCHWENDER, Georgia. Understanding Reality: Art Reality and Information RealismFermilab Colloquium, 25 mar. 2026