SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

BILLIE EILISH – HIT ME HARD AND SOFT: THE TOUR (LIVE IN 3D) | Official Trailer 2 (2026 Movie)


 

FESTIVAL DE CANNES - TRAILER / TEASER – 2026


 

PALESTINE ’36 Trailer | TIFF 2026


 

O que são as terras-raras? #ciencia #science #brasil #tecnologia


 

Como é Feito: o URÂNIO ENRIQUECIDO – a INCRÍVEL Transformação do Minério Mais PERIGOSO!


 

Documentário: Peter Thiel, a Biografia de um M*rda


 

Ativismo e 'charme discreto' levam Wagner Moura à lista dos 100 mais influentes da Time.

 

Capa da revista Time com Wagner Moura

Crédito,Reprodução/Time

  • Tempo de leitura: 4 min

ator Wagner Moura foi incluído na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo em 2026, divulgada pela revista Time. O brasileiro foi selecionado após concorrer ao Oscar de Melhor Ator pelo papel em O Agente Secreto.

Moura também está em uma das capas da edição publicada pela revista nesta quarta-feira (15/04), ao lado de outras personalidades que integram a lista.

O perfil, entitulado "'Eu falo as coisas. Não tenho medo.' Wagner Moura quer lhe contar a verdade", destaca a disposição do artista brasileiro em discutir questões sociais e políticas.

"Moura, o primeiro brasileiro a ser indicado ao prêmio de Melhor Ator, não ganhou, e o filme também não: perdeu em todas as categorias. Mas conversar com Wagner em Los Angeles, apenas três dias após a cerimônia, é um pouco como ouvir um garoto empolgado relatando suas aventuras recentes", diz a reportagem.

A revista ainda descreve o ator brasileiro como alguém que não usa redes sociais, ouve música em vinil e dirige seu próprio Fusca 1959. "Em um mundo cada vez mais digital, que parece se tornar mais inteligente apenas no sentido artificial, ele é o antídoto analógico que nem sabíamos que precisávamos", diz a Time.

"Há algo nele que remete à velha Hollywood, o que o faz parecer uma raridade entre a maioria dos atores contemporâneos. Seu charme discreto e seu senso de humor travesso equilibram qualquer tendência à seriedade excessiva — e é fácil imaginá-lo com um robe elegante dos anos 1930, fumando sem fumar", diz a legenda da postagem da revista no Instagram.

A Time também publicou um texto escrito pelo ator americano Jeremy Strong, mais conhecido pela série Succession, que fez um tributo a Moura.

"Uma lenda no Brasil há muito tempo, ele já está no cenário mundial há algum tempo. Mas, neste último ano, Moura abriu um buraco no teto do mundo", escreveu Strong sobre o colega de profissão.

"Moura, que viveu sob o governo de direita de Jair Bolsonaro de 2019 a 2023, é alguém que entende que democracia e liberdade são coisas pelas quais precisamos lutar todos os dias", disse ainda.

Ilustração mostra papéis que marcaram a carreira de Wagner Moura: da esq. para dir., o capitão Nascimento (Tropa de Elite), o professor Armando (O Agente Secreto), o narcotraficante Pablo Escopar (Narcos) e o executivo Olavinho (Paraíso Tropical)
Legenda da foto,Ilustração mostra papéis que marcaram a carreira de Wagner Moura: da esq. para dir., o capitão Nascimento (Tropa de Elite), o professor Armando (O Agente Secreto), o narcotraficante Pablo Escopar (Narcos) e o executivo Olavinho (Paraíso Tropical)

A reportagem principal sobre Moura distribuída pela Time faz uma breve viagem pela carreira de Wagner Moura na atuação e ainda anuncia seus próximos projetos, entre eles a direção do filme Last Night at the Lobster. Ele também vai atuar na produção que é uma adaptação do livro do mesmo título do escritor Stewart O'Nan.

Em entrevista, o ator ainda faz uma reflexão sobre democracia e liberdade.

"Governos vêm e vão", diz Moura à Time.

"Mas, para mim, este é o país que acolhe pessoas de todos os lugares, que foi construído sobre a imigração. Claro, o país está polarizado. Mas há uma diferença entre o governo que está no poder agora e a alma do país. Donald Trump representa muito do que os EUA são. Mas os EUA não são apenas isso, nem de longe", diz o brasileiro, que é cidadão americano desde 2023.

Pesquisadores brasileiros na lista da Time

Além de Moura, dois pesquisadores brasileiros também figuram na lista da revista deste ano.

Mariangela Hungria foi incluída na lista de "Pioneiros" por sua pesquisa com microrganismos para fixação de nitrogênio no solo, o que permite reduzir o uso de fertilizantes químicos em cultivos agrícolas e gerar menos impacto ambiental.

Hungria foi a primeira brasileira a receber o Prêmio Mundial da Alimentação, considerado o "Nobel da Agricultura" pelas várias décadas de pesquisas nesta área.

Por sua vez, Luciano Moreira aparece entre os "Inovadores" por seu trabalho à frente do desenvolvimento e a expansão de uma técnica que emprega mosquitos modificados para impedir a transmissão de doenças como dengue, zika e chikungunya.

Moreira já havia sido eleito no ano passado uma das dez pessoas mais influentes do mundo na ciência pela revista Nature.

Arte por Daniel Arce-Lopez, da equipe de Jornalismo Visual da BBC News Brasil

Por que o Brasil não é tão feliz quanto parece — e como a Finlândia lidera ranking mundial da felicidade

 

Um grande mural de rosto humano ocupa um muro de concreto, com destaque para o seu sorriso. Ao lado, uma área está alagada e um carro aparece parcialmente submerso na água. O ambiente é cinzento.

Crédito,Bruno Kaiuka/AFP via Getty Images

Legenda da foto,Trilhos alagados da estação do metrô Acari após chuvas causarem destruição nos subúrbios do Rio de Janeiro, em 14 de janeiro de 2024
  • Tempo de leitura: 11 min

PraiassolCarnavalsambafunk e futebol. É difícil falar do Brasil sem citar esses elementos, símbolos da identidade do país intrinsicamente ligados à ideia de alegria.

Frionevesilêncio e meses inteiros com dias de apenas duas horas de luz. Essas, por outro lado, são as imagens associadas à Finlândia — e muitas vezes vinculadas, inclusive pelos próprios finlandeses, à tristeza e à solidão.

De um lado, está o país mais feliz do mundo; do outro, aquele que ocupa a 32ª posição, segundo o World Happiness Report, estudo produzido pela Gallup, uma consultoria internacional conhecida por suas pesquisas de opinião.

A surpresa, para muitos brasileiros, é descobrir em qual dessas posições está o Brasil: a 32ª — e não a 1ª. Mas por quê? Em resumo, porque felicidade não se resume à alegria.

Uma consulta a dicionários pode ser útil: o Aurélio, um dos mais tradicionais do Brasil, define felicidade como um "estado de contentamento e satisfação"; o Houaiss, outro célebre guia lexicográfico do país, diz que feliz é quem tem "desejos, aspirações e exigências atendidos ou realizados" — e não apenas quem é alegre.

É possível afirmar que, em geral, os brasileiros têm seus desejos atendidos? A pergunta não tem resposta simples, mas esse cenário tende a ser mais comum em sociedades com estruturas mais sólidas, segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil.

Como o ranking da felicidade é feito — e quais são suas limitações

O estudo se baseia em uma única pergunta, feita a cerca de mil pessoas em cada país: "Imagine uma escada de 0 (pior vida possível) a 10 (melhor vida possível). Em qual degrau você está hoje?"

A partir das respostas, os pesquisadores calculam uma média e, com base nela, ordenam 147 países.

Esse número, porém, leva em conta não só as respostas do ano em que a pesquisa foi feita, mas também as dos dois anos anteriores. Não reflete, portanto, a percepção de felicidade em um ano específico, apesar de o ranking ser anual.

Se analisada a posição do Brasil desde 2011, quando o estudo começou a ser feito, a variação de um ano para o outro é pequena, restrita à casa dos decimais.

É por isso que, embora tenha havido uma queda acentuada durante a pandemia, a forma como o ranking é elaborado dificulta a comparação entre anos e a associação dos níveis de felicidade a crises internas de natureza política ou econômica.

Mesmo na comparação com outros países, a diferença não é tão expressiva. Em média, brasileiros se colocam no degrau 6 da "escada da vida", enquanto os finlandeses, os mais felizes do mundo, dizem estar apenas um ponto acima.

Nenhum país se aproxima da satisfação plena, e a distância entre os integrantes do top dez é ainda menor, como mostra o gráfico abaixo. No pódio principal, a Finlândia aparece com 7,64, a Islândia com 7,54, e a Dinamarca, com 7,53.

Também são feitas perguntas sobre a percepção da população em relação à corrupção no governo e nas empresas, além de aspectos do dia a dia que buscam medir a rede de apoio e a liberdade de um país.

Esses questionamentos adicionais, contudo, servem para explicar a posição de cada país no ranking, e não para compô-lo diretamente. Ainda assim, há particularidades nacionais que ficam de fora.

No caso do trabalho voluntário, por exemplo — indicador em que o Brasil pontua mais baixo —, é preciso considerar a carga horária média de trabalho em cada país.

Os finlandeses trabalham 37,5 horas semanais, já incluindo o horário de almoço, então é esperado que na Finlândia tenha-se mais tempo disponível para atividades voluntárias. No Brasil, a carga é de 44 horas semanais sem contar o almoço.

Mas Jullie Ray, editora-chefe da Gallup para análises internacionais, afirma que o ranking é, em certa medida, imune a essas questões.

"Não dá para ignorar a cultura ao analisar a percepção desses indicadores, mas a pergunta central — em que degrau da vida a pessoa se coloca hoje — tende a ser menos influenciada por fatores culturais do que questões sobre emoções do dia a dia", diz. "Os rankings não se baseiam na percepção de alegria nem no humor das pessoas — esses, sim, são mais impactados pela cultura."

Ray acrescenta que a posição do Brasil não deve ser considerada baixa. Pelo contrário, o país está no primeiro terço da lista. "Entre 147 países, o Brasil está no 32º lugar. Não é algo a se lamentar ou a encarar como um fracasso."

Felicidade no Brasil é ligada à fé, não à racionalidade, diz pesquisadora

Pule Whatsapp! e continue lendo
BBC Brasil no WhatsAp
No WhatsApp

Agora você pode receber as notícias da BBC News Brasil no seu celular.

Clique para se inscrever

Fim do Whatsapp!

O tema da felicidade despertou o interesse da executiva Renata Rivetti, fundadora da consultoria Reconnect – Happiness at Work, que assessora multinacionais com sede no Brasil sobre como melhorar a qualidade de vida de seus funcionários.

Ela acaba de realizar uma pesquisa com o Instituto Ideia. O estudo sugere que, no Brasil, a felicidade está mais associada à  do que à racionalidade. Em outras palavras, diz Rivetti, a percepção dos brasileiros nem sempre se sustenta sob escrutínio científico.

O levantamento quantitativo, realizado entre 20 de fevereiro e 1º de março com 1.500 brasileiros de dez recortes demográficos em todas as regiões do país, aponta que 90% dos entrevistados se consideram felizes, embora 29% relatem sentir-se preocupados e estressados.

O índice de felicidade é menor entre a geração Z (16 a 24 anos), grupo no qual 81% afirmam ser felizes.

Entre os fatores que contribuem para a felicidade, destacam-se salário, flexibilidade e estabilidade. Já os principais elementos associados à infelicidade são sobrecarga de trabalho, salário e liderança ruim.

Um dos achados mais curiosos, segundo Rivetti, é o alto nível de desconfiança nas instituições — 81% acreditam que a corrupção está disseminada no governo e 66% nas empresas — e, ainda assim, 94% mantêm a esperança em um futuro melhor.

Formada em administração pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e com especialização pela Happiness Studies Academy, em Nova Jersey, a executiva distingue o que chama de "felicidade declarada" da "felicidade vivida".

"A gente associa felicidade à alegria, enquanto países como a Finlândia tratam o tema de forma científica, inclusive como política pública", afirma.

Uma mulher carrega um tijolo em cima da cabeça diante de um muro azul coberto por estampas repetidas de uma figura religiosa.

Crédito,Diego Herculano/NurPhoto via Getty Images

Legenda da foto,Mulher caminha com tijolo na cabeça, uma penitência pela Imaculada Conceição, durante uma festa no Recife, em 8 de dezembro de 2017

Ela defende que a felicidade se constrói a partir de três pilares: alegria — relacionada a momentos de conexão, afeto e pertencimento; satisfação — ligada à sensação de progresso e realização; e significado — associado à percepção de propósito e coerência na vida.

Esse modelo foi desenvolvido por Arthur C. Brooks, professor da Universidade de Harvard e uma das principais vozes da chamada ciência da felicidade. Ele escreve uma coluna sobre o tema no jornal The Atlantic e tem livros que figuram entre os mais vendidos nos Estados Unidos.

Brooks argumenta que felicidade não é um estado permanente de euforia, mas o resultado do equilíbrio entre esses três elementos. No Brasil, avalia Rivetti, é difícil afirmar que esses pilares se manifestem de forma plena — ao menos não a ponto de explicar os 90% de brasileiros que se declaram felizes.

É nesse contexto que a religiosidade — não contemplada pelo World Happiness Report — aparece como um fator relevante na pesquisa brasileira: entre pessoas religiosas, especialmente evangélicos, há maior proporção de indivíduos que se dizem felizes.

"Na Finlândia, não é a fé que sustenta a felicidade, mas uma estrutura confiável. É um país onde as instituições funcionam. Lá, a racionalidade leva à felicidade. No Brasil, se formos muito racionais — e olharmos para corrupção, insegurança e pressões do trabalho —, vamos reduzir nossa sensação de felicidade", diz Rivetti.

Ela aponta ainda lacunas para termos uma felicidade consistente. "A confiança tem muito impacto na felicidade dos países nórdicos. Eles deixam carrinhos de bebê do lado de fora de supermercados enquanto fazem compras. No Brasil, não deixaríamos nem um cachorro sozinho, porque já houve casos de furto de animais."

"Desde que nascemos, ouvimos que o Brasil é o país do futuro. Isso molda nossa autopercepção de felicidade", ela acrescenta. "Mas que mudanças estruturais estamos promovendo para construí-la? Não estamos. Por isso, acaba sendo mais fácil acreditar que Deus — ou qualquer outra fé — vai cuidar de nós."

A vida — às vezes sofrida — no país mais feliz do mundo

As avaliações de brasileiros que vivem na Finlândia ilustram as contradições sobre o que é ou não ser feliz. Eles não poupam os elogios, mas fazem ressalvas e dizem que não é fácil viver no país mais feliz do mundo.

Esse é o caso de Flávia Gontijo, de 31 anos, e Pablo Carvalho, de 34, mineiros que vivem no país desde 2020. O casal se mudou depois que ela teve a oportunidade de fazer doutorado por lá.

Carvalho, mestre em química, conseguiu emprego apenas um ano depois, mas diz que, desde o início, pôde sentir o apoio do governo finlandês em aspectos que, justamente, levam a Finlândia ao topo do ranking da felicidade.

"Cheguei e tive acesso a seguro-desemprego mesmo nunca tendo trabalhado aqui. Se eu quisesse estudar finlandês, o valor aumentava. Fiquei quase um ano só estudando finlandês e procurando emprego", diz Carvalho.

"Já faz uns seis anos, mas na época eram uns € 700, somados ao auxílio-transporte e alimentação. Também teria direito a auxílio-aluguel, mas não precisei pegar. Nesse sentido, eles foram super receptivos."

Um casal composto por um homem e uma mulher pratica esqui em meio à neve em uma área arborizada, vestindo roupas de inverno e segurando bastões, em um cenário típico de países nórdicos.

Crédito,Acervo pessoal

Legenda da foto,Pablo Carvalho e Flávia Gontijo, brasileiros que vivem na Finlândia desde 2020

Gontijo, doutora em química, afirma que uma das facilidades foi ter uma profissão transferível para a Finlândia. Pesquisadores são hoje prioridade no país, que tem milhares de vagas abertas, segundo a Work in Finland, órgão governamental responsável por promover o mercado de trabalho finlandês e atrair estrangeiros.

No entanto, mesmo para quem está começando do zero, ela afirma, o governo fornece auxílios para tentar reduzir a desigualdade social. "A gente observa pelo estilo de vida: todo mundo tem o mesmo. Você vai ao mesmo restaurante que o pessoal da universidade, o das empresas, o da construção civil."

"Em Helsinque, você vai gastar muito com aluguel, se quiser morar bem, mas com o resto não há tanto gasto. O transporte público tem um valor acessível, a saúde é pública, a educação é gratuita e de qualidade, o lazer tem muita coisa de graça, como museus e parques."

Gontijo avalia que viver em um lugar onde não é preciso se preocupar com o básico necessário para a vida — como alimentação, transporte e educação — traz, sim, uma sensação de felicidade. Mas é algo mais ligado à satisfação do que à alegria.

"No Brasil, era sempre uma luta para ter acesso ao básico. Na Finlândia é o oposto. Mas o resto também é o oposto: o clima é horroroso, quando faz 2°C com sol a gente comemora e, depois de seis anos, ainda não sei lidar. E dificulta passar por tudo isso isolado, porque não é nossa cultura, nossa comida, nossa família", diz ela.

"Exige um esforço grande para ter contato humano. Fazer amizade com finlandês é difícil. Eles não têm a demanda da conversa", ela acrescenta. "É uma barreira que eu nunca superei, e isso me dói. É uma vitamina para a qual não tem reposição. A Finlândia não vai mudar. Ou a gente muda daqui, ou a gente muda aqui."

Embora o casal não planeje voltar ao Brasil, tampouco deseja viver a vida toda na Finlândia, principalmente agora que eles têm uma filha, de 2 anos. É "questão de terapia" a dificuldade de criar uma criança finlandesa que não deixe de ser brasileira.

"Antes, a gente vivia uma bolha, mas a criança te obriga a estourar essa bolha", diz ela.

"Com seis anos, a criança pode ir e voltar sozinha da escola e ficar sozinha em casa. É esperado que seu filho faça tudo sozinho o mais rápido possível. Com 12 anos, você perde os direitos médicos sobre seu filho. Se ele não quiser tomar uma vacina, você não pode obrigá-lo. Em termos até legais, é muito diferente."

A designer brasileira Jane Vita sorri para a câmera em um ambiente nevado, com flocos de neve visíveis sobre o gorro de lã roxo e o casaco preto fechado até o queixo; o rosto está levemente avermelhado pelo frio, com pequenas sardas e marcas naturais de expressão, enquanto o fundo é um céu cinza uniforme.

Crédito,Acervo pessoal

Legenda da foto,A designer brasileira Jane Vita, que, entre idas e vindas, está na Finlândia há 18 anos

A designer Jane Vita, de 47 anos, sabe bem dessas diferenças. Entre idas e vindas, com um intervalo de uma volta ao Brasil e outro de uma passagem pelo Canadá a trabalho, a paranaense vive na Finlândia há 18 anos.

Dois de seus filhos nasceram na Finlândia, e ela nota que, para eles, a vida no país é mais fácil. "Uma das coisas que sinto falta é de não ter amigos de infância aqui, não ter visto os mesmos desenhos, ter consumido as mesmas marcas, porque isso traz histórias. Eles têm histórias para dividir entre eles que, para mim, não fazem sentido", ela explica.

"Eu estou mais conformada do que adaptada", Vita acrescenta, entre risos. "No verão, tudo é lindo: é muito legal sair do trabalho às 16h e ir à praia. Você se distrai e, de repente, já são 22h e ainda tem luz. Mas o inverno é difícil. Se você não se mantiver ativo, se dispor a ir para a academia, a ir tomar um café, você hiberna, entra em depressão."

Jane considera que, para explicar todas essas diferenças, é preciso ir até a raiz da riqueza da Finlândia: o capital humano. É muito diferente de países como o Brasil, que se ancoram, diz, em riquezas naturais.

É por isso, ela afirma, que há tanto investimento em educação, incluindo bolsas de quase € 1.000 para estudantes pagarem seu próprio aluguel, viverem e, em última análise, serem independentes dos pais o mais cedo possível.

Embora considere que esteja criando cidadãos não do Brasil ou da Finlândia, mas do mundo, Vita reconhece que há diferenças profundas entre cada cultura e que as adaptações podem ser difíceis.

Ela cita o exemplo do happy hour: "No Brasil, às vezes é até cansativo, depois de ter trabalhado o dia inteiro, sair direto para o bar. Mas traz aquela energia. É um momento de restauração. Aqui na Finlândia, como não se tem esse dia exaustivo no trabalho, você vai para casa. Não há necessidade de se restaurar como no Brasil."

Gráficos por Laís Alegretti, da equipe de Jornalismo Visual da BBC News Brasil

Como uma nova onda de imunoterapia está eliminando cânceres

 

Ilustração de células T com forma humana com lanternas, investigando um tumor em meio a células normais

Crédito,Emmanuel Lafont/BBC

    • Author,Jamie Ducharme
    • Role,BBC Future
  • Tempo de leitura: 9 min

Maureen Sideris tem 71 anos e mora em Nova York, nos Estados Unidos.

Em 2008, ela recebeu tratamento de câncer do cólon e precisou passar por uma cirurgia. Seu tratamento foi bem sucedido, mas o processo de recuperação do pós-operatório foi cansativo.

Quatorze anos depois, Sideris foi diagnosticada com câncer do esôfago. Mas, desta vez, seu tratamento, baseado em um teste clínico, parecia radicalmente diferente.

A cada três semanas, ela se dirigia ao Centro do Câncer Memorial Sloan Kettering, em Nova York, onde recebia infusões de uma droga chamada dostarlimab por 45 minutos.

Após apenas quatro meses de tratamento, o tumor de Sideris desapareceu, sem necessidade de cirurgia, quimio ou radioterapia. E o seu único efeito colateral importante foi insuficiência adrenal, que causa fadiga.

"É inacreditável", relembra ela. "É quase como ficção científica." Mas, ainda assim, é real.

Sideris faz parte de um grupo cada vez maior de pacientes que se beneficiam da imunoterapia para o tratamento de câncer, um método que, agora, acerta o passo após mais de um século de desenvolvimento.

Ele traz consigo a promessa de terapia personalizada, remissão do câncer a longo prazo e menos efeitos colaterais do que outros tratamentos, como a quimioterapia e a radioterapia.

"Fico emocionada e arrepiada", afirma a professora de oncologia cirúrgica Jennifer Wargo, pesquisadora de imunoterapia do Centro do Câncer MD Anderson, no Estado americano do Texas.

"As pessoas estão sobrevivendo e com boa qualidade de vida. Estamos falando de curas", comemora ela.

O corpo tem a capacidade natural de "detectar e eliminar células que parecem não ser você", explica Karen Knudsen, CEO (diretora-executiva) do Instituto Parker para Imunoterapia do Câncer, uma organização americana sem fins lucrativos que promove o desenvolvimento da imunoterapia.

E, se tudo estiver certo, isso deve incluir as células que se tornaram cancerosas.

Mas, às vezes, as células cancerosas escapam ou ludibriam o sistema, gerando crescimento descontrolado, o que é perigoso. Elas se escondem, à plena vista, sem que sejam diferenciadas das células saudáveis à sua volta.

O objetivo da imunoterapia é desmascarar essas células cancerosas, para que o sistema imunológico possa observá-las como elas são. Ela reforça as defesas do sistema imunológico para poder localizar as células cancerosas e destruí-las, com resultados potencialmente inacreditáveis.

Como a imunoterapia funciona atualmente

Duas das formas mais conhecidas de imunoterapia são as terapias de células CAR-T e os inibidores de checkpoint imunológico.

As células T são as células imunológicas altamente específicas que caçam e matam determinados invasores externos.

As terapias de células CAR-T envolvem a extração de células T do sangue do paciente e sua modificação em laboratório, para que elas possam encontrar e atacar células cancerosas, deixando as células T agirem livremente no corpo.

Estas terapias estão sendo utilizadas atualmente para o tratamento de câncer no sangue.

Já os inibidores de checkpoint imunológico são drogas que "desligam" uma chave embutida no sistema imunológico. Esta proteção tem um propósito importante, pois evita reações imunológicas excessivamente agressivas, que prejudicam as células saudáveis.

Algumas células cancerosas podem desligar essa chave, fazendo com que as células T se afastem sem detectá-las.

Os inibidores de checkpoint imunológico evitam que isso aconteça, fazendo com que as células T identifiquem as células cancerosas como ameaça e deem início a um ataque.

Os cientistas pioneiros desta inovação ganharam o prêmio Nobel em 2018 e as drogas, atualmente, são usadas para combater muitos tipos de câncer. Mas os dois métodos têm limitações.

As pesquisas estão em andamento, mas os cientistas têm dificuldade para fazer as terapias com células CAR-T funcionarem contra tumores sólidos, que representam mais de 90% dos novos diagnósticos (ao contrário dos cânceres no sangue). E a administração do tratamento também é cara e trabalhosa.

Ilustração de células T, com forma humana, abrindo o zíper de uma célula para revelar um tumor no seu interior

Crédito,Emmanuel Lafont/BBC

Legenda da foto,As células cancerosas, muitas vezes, podem se parecer com as outras células saudáveis à sua volta, de forma que o sistema imunológico pode precisar de indicadores para auxiliar na sua identificação

Já os inibidores de checkpoint imunológico podem ter um "caleidoscópio de efeitos colaterais", segundo a médica oncologista Samra Turajlic, do Instituto Francis Crick, em Londres.

Isso ocorre porque o desligamento das chaves do sistema imunológico se destina a evitar que o corpo ataque seus próprios tecidos. Por isso, a retirada deste mecanismo de defesa pode colocar em risco células não cancerosas, além dos tumores.

Segundo o Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos, efeitos colaterais comuns incluem erupções cutâneas, diarreia e fadiga. Mas, em casos raros, o tratamento pode causar inflamações do fígado, coração e pulmões.

Estes efeitos colaterais podem valer a pena, se a droga controlar um câncer agressivo. Mas nem sempre funciona assim.

Um problema importante enfrentado por todo o campo da oncologia, segundo Turajlic, é que nenhuma imunoterapia funciona em 100% dos pacientes.

Existem muitas possíveis razões, que variam da estrutura do tumor, que pode reduzir sua acessibilidade ao sistema imunológico, até as características das próprias células imunológicas.

De forma geral, 20% a 40% dos pacientes reagem à imunoterapia. Isso significa que muitos pacientes (a maioria deles, na verdade) estão se abrindo aos seus efeitos colaterais, sem mencionar a perda de tempo e de esperança, sem resultados positivos.

Abordagem multifacetada

Como mais pacientes podem se beneficiar da imunoterapia? Os pesquisadores vêm abordando esta questão de muitas formas diferentes.

Embora preliminar, a pesquisa de Wargo indica que os pacientes que seguem dietas com alto teor de fibras podem observar melhores resultados, devido a mudanças da microbiota intestinal que podem afetar o sistema imunológico e o tumor.

Outra pesquisa surpreendente indica que as estatinas, que são medicamentos acessíveis e de baixo custo para a redução do colesterol, podem aumentar os efeitos da imunoterapia, por meio de mudanças inesperadas da comunicação celular.

O próprio horário do tratamento pode influenciar os resultados. Pesquisas recentes indicam que os pacientes que recebem a dosagem no início do dia apresentam melhores resultados que os tratados mais tarde.

A combinação de imunoterapia com outros tratamentos contra o câncer, como radiação ou ultrassom, pode ser outra forma de aumentar os índices de reação.

"A radiação, na verdade, pode... fazer com que o tumor fique visível para o sistema imunológico", explica Sandra Demaria, do Centro Médico Weill Cornell. Ela pesquisou esta combinação de tratamentos.

Já a terapia com ultrassom, que utiliza ondas sonoras de alta frequência para atacar os tumores, pode fazer o mesmo.

Outros pesquisadores utilizam a capacidade de customização da imunoterapia e selecionam cuidadosamente os pacientes para oferecer o melhor tratamento possível.

Um técnico trabalha em um laboratório de produção de terapias com células CAR-T nas instalações da empresa IASO Biotechnology Co. em Nanjing, na China

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Um técnico trabalha em um laboratório de produção de terapias com células CAR-T nas instalações da empresa IASO Biotechnology Co. em Nanjing, na China

A medicina personalizada gera entusiasmo em muitas disciplinas. Mas Knudsen destaca que ela é particularmente importante para a oncologia, considerando a heterogeneidade da doença.

"O câncer não é uma doença", explica ela. "São 200 doenças diferentes e todas elas surgem por diferentes motivos e precisam receber tratamentos diferentes."

Dois pacientes com exatamente o mesmo tipo e estágio de câncer podem ter doenças diferentes em nível celular.

Para Demaria, "este campo se encontra em um ponto de inflexão. Podemos avançar tratando não o câncer, mas o paciente."

Cientistas do Centro do Câncer Memorial Sloan Kettering já testaram uma estratégia promissora, baseada na descoberta de que os tumores com um perfil genético específico tendem a reagir bem aos inibidores de checkpoint imunológico, como dostarlimab.

Em dois testes pequenos, realizados entre 2022 e 2024, em casos de câncer retal com este perfil, o tratamento erradicou completamente os tumores.

A equipe expandiu sua pesquisa para incluir 117 pacientes com diversos tipos de tumores, incluindo do esôfago, bexiga e estômago, com a mesma assinatura genética.

Dentre as 103 pessoas que terminaram o tratamento, 84 pacientes, incluindo Sideris, observaram o desaparecimento completo dos seus tumores. Apenas dois necessitaram passar também por cirurgia.

Paciente de câncer, com toalha na cabeça, sentada em uma poltrona, conversa com profissional de saúde

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,A personalização dos tratamentos se apresenta como uma das vantagens da imunoterapia

Pesquisadores da MD Anderson relataram resultados similares para uma técnica utilizando um inibidor de checkpoint diferente. E outros grupos demonstraram que, mesmo se os pacientes realmente acabarem passando por cirurgia, seus resultados operativos podem ser melhores, pelo menos em alguns casos, se os tumores forem tratados primeiramente com imunoterapia.

Mais pesquisas são necessárias, mas essas descobertas são promissoras. Elas abrem as portas para uma era de tratamentos menos invasivos e altamente eficazes, segundo o chefe de oncologia de tumores sólidos do Centro de Câncer Memorial Sloan Kettering, Luis Diaz.

"Precisamos sair da era medieval para os tempos modernos", afirma ele. "Retirar seu reto, estômago ou bexiga — precisamos fazer melhor do que isso."

A ressalva é que apenas cerca de 5% dos tumores possuem a composição genética necessária para que eles sejam adequados para tratamento com imunoterapia livre de cirurgia, segundo estudos de Diaz e seus colegas.

"Os outros 95% precisam de algo tão bom quanto isso", segundo ele.

A promessa de vacinas

Com este objetivo em mente, os pesquisadores continuam buscando novas técnicas de imunoterapia e tentando aprimorar as antigas, como vacinas contra o câncer.

As vacinas tradicionais apresentam ao corpo partes de um patógeno, como um vírus, para que ele possa praticar, produzindo uma reação imunológica à ameaça real.

Um conceito similar pode funcionar para o câncer, segundo Karen Knudsen, mas poderá ser usado para tratar a doença, em vez de evitá-la.

As células cancerosas possuem diversas proteínas de superfície.

Usando a tecnologia de vacinas, os pesquisadores podem conseguir treinar o sistema imunológico do paciente para reconhecer e atacar essas proteínas, acionando forte reação contra seu câncer específico, explica Knudsen.

E já existem evidências preliminares que apoiam esta técnica. Pesquisadores do Instituto do Câncer Dana-Farber, nos Estados Unidos, criaram recentemente vacinas personalizadas para nove pessoas com um tipo de câncer renal.

Após a retirada cirúrgica dos seus tumores, os pacientes foram vacinados, para eliminar do corpo eventuais células de tumor remanescentes.

Em uma pesquisa publicada em 2025, a equipe relatou que todos os nove pacientes tiveram reação imunológica contra o câncer e permaneceram livres do tumor por anos após a cirurgia. E as vacinas personalizadas também se mostraram promissoras para o tratamento de melanoma.

"É um mundo totalmente novo", segundo Knudsen. "É a definição da medicina de precisão."

"Talvez possamos, agora, desenvolver estratégias de vacinação contra o tumor específico do paciente com muita rapidez."

Ilustração de dois corpos humanos em pé, da cintura para cima, mostrando seus vasos sanguíneos

Crédito,Emmanuel Lafont/BBC

Legenda da foto,Com imunoterapias personalizadas, os médicos serão capazes de ativar as defesas do corpo com maior precisão, aumentando as chances de remissão

Mas, apesar de todo este entusiasmo, existe um longo caminho pela frente.

São necessários mais estudos para respaldar alguns dos métodos encorajadores sendo investigados e chegar a um futuro em que os médicos poderão oferecer aos pacientes, de forma precisa e confiável, tratamentos que funcionarão contra seus cânceres específicos.

"Existem muitos alvos muito promissores e novos agentes que não progrediram além dos testes clínicos de fase inicial", alerta Sandra Demaria.

É possível que um subconjunto de pacientes não reaja a nenhum tipo de imunoterapia, segundo Diaz. Os cânceres têm "superpoderes" diferentes, que permitem seu crescimento e expansão, explica ele, e o sistema imunológico é um oponente melhor para algumas pessoas do que outras.

Mas, para os pacientes que reagem ao tratamento, a imunoterapia já está mostrando que pode salvar e mudar vidas.

Maureen Sideris, a paciente de Nova York que participou do teste de Luis Diaz, se sente parte de um futuro brilhante para a oncologia.

"Estamos seguindo em uma direção ótima", segundo ela.

"Um dos médicos me disse que, em questão de 10 anos, passar por qualquer tipo de quimio e radioterapia será como fazer sangria: algo muito antiquado."

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Health.