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sábado, 10 de janeiro de 2026

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Tempo Perdido- Wagner Moura amanhã é o seu dia e do cinema brasileiro.


 

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A Índia está cada vez mais rica, mas suas cidades seguem sujas e caóticas. Por quê?

 

Casas em beira de canal coberto de lixo na Índia

Crédito,AFP via Getty Images

Legenda da foto,Cidades indianas geram milhões de toneladas de lixo todos os anos, mas os sistemas de descarte de resíduos são inadequados
    • Author,Nikhil Inamdar
    • Role,Da BBC News em Mumbai
  • Tempo de leitura: 6 min

"Quer conhecer o charme real de Jaipur? Não venha aqui, compre apenas um cartão-postal", ironizou um taxista local durante minha recente visita à "Cidade Rosa", no noroeste da Índia.

Eu havia perguntado por que a capital do Rajastão, de tons âmbar — vibrante com seus turistas atraídos pelos palácios suntuosos e fortes majestosos —, parecia tão decadente.

A resposta dele refletiu um sentimento resignado de desesperança diante da deterioração urbana que afeta não apenas Jaipur, mas muitas cidades indianas: sufocadas pelo trânsito, envoltas em ar poluído, cheias de montes de lixo não recolhido e indiferentes aos vestígios de seu glorioso patrimônio histórico.

Em Jaipur, é possível encontrar exemplos sublimes de arquitetura centenária disputando espaço com oficinas mecânicas e manchas com marcas avermelhadas no chão - causadas pelo hábito de cuspir tabaco mascado.

Isso levanta uma pergunta: por que as cidades indianas estão se tornando cada vez mais inabitáveis, mesmo com centenas de bilhões gastos em um grande "embelezamento" nacional?

O rápido crescimento da Índia, apesar das altas tarifas cobradas, baixo consumo privado e manufatura estagnada, tem sido impulsionado em grande parte pelo foco do governo de Narendra Modi em obras de infraestrutura financiadas pelo Estado.

Nos últimos anos, o país construiu aeroportos modernos, rodovias nacionais de múltiplas faixas e redes de metrô reluzentes.

Ainda assim, muitas de suas cidades aparecem nas últimas posições dos índices de qualidade de vida. No último ano, a frustração chegou ao ponto de ebulição.

Em Bangalore — frequentemente chamada de o "Vale do Silício" da Índia por concentrar empresas de tecnologia e sedes de startups — houve protestos tanto de cidadãos quanto de empresários bilionários, fartos dos engarrafamentos e das pilhas de lixo.

Em Mumbai, a capital financeira, moradores realizaram um raro protesto contra o agravamento do problema dos buracos nas ruas, enquanto redes de esgoto entupidas despejavam dejetos em vias alagadas durante a prolongada temporada de monções.

No inverno em Delhi, a capital, a névoa tóxica deixou crianças e idosos sem ar, com médicos aconselhando alguns a deixar a cidade. Até a visita do jogador Lionel Messi neste mês foi ofuscada por torcedores entoando gritos contra a má qualidade do ar da capital.

Um cartaz de protesto em buraco na rua

Crédito,Hindustan Times via Getty Images

Legenda da foto,Moradores de Thane, perto de Mumbai, realizaram um protesto contra os buracos nas ruas e o congestionamento do trânsito em setembro.
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Então, por que — ao contrário da China durante seus anos de boom — o crescimento acelerado do PIB da Índia não está levando à regeneração de suas cidades decadentes?

Por exemplo, por que Mumbai — que nos anos 1990 alimentava publicamente o sonho de se tornar uma nova Xangai, o centro financeiro chinês — é incapaz de concretizar essa ambição?

"A causa raiz é histórica — nossas cidades não têm um modelo de governança confiável", disse à BBC Vinayak Chatterjee, veterano especialista em infraestrutura.

"Quando a Constituição da Índia foi escrita, ela falava da descentralização do poder para os governos central e estaduais — mas não imaginava que nossas cidades cresceriam a ponto de se tornarem tão gigantescas a ponto de precisar de uma estrutura de governança própria", afirma.

O Banco Mundial estima que mais de meio bilhão de indianos — ou quase 40% da população do país — viva hoje em áreas urbanas, um aumento impressionante em relação a 1960, quando apenas 70 milhões de indianos moravam em cidades.

Em 1992, houve uma tentativa de "finalmente permitir que as cidades assumissem o controle de seus próprios destinos" por meio da 74ª emenda à Constituição.

Os governos locais receberam status constitucional e a governança urbana foi descentralizada — mas muitas das disposições jamais foram plenamente implementadas, diz Chatterjee.

"Interesses arraigados não permitem que a burocracia e os níveis mais altos de governo descentralizem o poder e fortaleçam os governos locais."

Isso é bem diferente da China, onde prefeitos exercem amplos poderes executivos, controlando o planejamento urbano, a infraestrutura e até a aprovação de investimentos.

A China segue um modelo de planejamento altamente centralizado, mas os governos locais têm liberdade de implementação e são monitorados pelo centro, com sistemas de recompensas e punições, afirma Ramanath Jha, pesquisador sênior do centro de pesquisas Observer Research Foundation, da Índia.

"Há diretrizes nacionais fortes em termos de rumo e metas físicas que as cidades são encarregadas de cumprir", escreve Jha.

Prefeitos das principais cidades chinesas contam com padrinhos poderosos no alto escalão do Partido Comunista e fortes incentivos de desempenho, o que torna esses cargos "importantes trampolins para promoções futuras", segundo o centro de pesquisas Brookings Institution, dos EUA.

"Quantos nomes de prefeitos de grandes cidades indianas nós sequer conhecemos?", questiona Chatterjee.

Um homem no rio coberto de espuma tóxica, com skyline de Delhi ao fundo

Crédito,AFP via Getty Images

Legenda da foto,O ar tóxico é um problema recorrente em Delhi, especialmente durante o inverno.

Ankur Bisen, autor de Wasted (algo com "Degradado", em tradução livre), um livro sobre a história dos problemas de saneamento da Índia, afirma que os prefeitos e conselhos locais que administram as cidades indianas são "os órgãos mais fracos do Estado, os mais próximos da população, mas encarregados dos problemas mais difíceis de resolver".

"Eles estão completamente esvaziados — e têm poderes limitados para arrecadar receita, nomear pessoas e alocar recursos. Em vez disso, são os chefes de governo dos Estados que agem como superprefeitos e dão as cartas."

Houve casos excepcionais — como a cidade de Surat, após a epidemia de peste nos anos 1990, ou Indore, no estado de Madhya Pradesh — em que burocratas, empoderados pela classe política promoveram mudanças transformadoras.

"Mas esses foram exceções à regra — dependiam do brilho individual, e não de um sistema que continue funcionando mesmo depois que o burocrata já se foi", diz Bisen.

Além de uma governança fragmentada, a Índia enfrenta desafios mais profundos.

Seu último censo, realizado há mais de 15 anos, registrou 30% da população vivendo em áreas urbanas. De forma informal, acredita-se que quase metade do país já tenha assumido um caráter urbano, com o próximo censo adiado para 2026.

"Mas como começar a resolver um problema se você não tem dados sobre a dimensão e a natureza da urbanização?", questiona Bisen.

Avenida engarrafada nos dois sentidos em Bengaluru

Crédito,AFP via Getty Images

Legenda da foto,A cidade de Bengaluru é famosa pelos engarrafamentos

O vazio de dados e a não implementação dos marcos para transformar as cidades indianas, bem articulados na 74ª emenda constitucional, refletem um enfraquecimento da democracia de base da Índia, afirmam especialistas.

"É estranho que não haja um clamor em torno das nossas cidades, como houve contra a corrupção alguns anos atrás", disse Chatterjee.

A Índia terá de passar por um "ciclo natural de conscientização", afirma Bisen, citando como exemplo o Grande Fedor (Great Stink) de Londres, em 1858, que levou o governo a construir um novo sistema de esgoto para a cidade e marcou o fim de grandes surtos de cólera.

"Geralmente é em momentos como esses, quando a situação chega ao ponto de ebulição, que os problemas ganham relevância política."

Fábio Jr e Luan Santana - Choro (Clipe oficial)


 

O Eco de Nuremberg: Justiça, Banalidade do Mal e os Ditadores do Século XXI



O Julgamento de Nuremberg, concluído em 1946, não foi apenas um evento histórico; foi um mito fundador da justiça internacional, um trauma jurídico e um espelho constantemente repolido para avaliar nossa própria época. As reflexões contemporâneas, como as propostas em filmes e documentários de 2025, junto com os clássicos insights de Hannah Arendt e narrativas como O Nazista e o Psiquiatra, nos obrigam a ver Nuremberg não como um ponto final, mas como um prelúdio incompleto.

As produções de 2025 tendem a focar não nos grandes réus – já amplamente conhecidos –, mas nos arquitetos do horror: os burocratas, os industriais, os juristas que embrulharam a barbárie em papel timbrado. Elas ecoam a perturbadora intuição de Arendt sobre a “banalidade do mal”. Em Nuremberg, muitos acusados não pareciam monstros espumantes, mas homens medíocres, orgulhosos de sua eficiência, incapazes de pensar verdadeiramente sobre as consequências de seus atos. O psiquiatra Douglas Kelley, em seu trabalho com Hermann Göring (retratado em O Nazista e o Psiquiatra), encontrou não loucura patológica, mas uma perversão da normalidade: narcisismo, ambição e uma lealdade absoluta a uma nova “normalidade” criminosa.

Nuremberg estabeleceu princípios eternos: crimes contra a humanidade, responsabilidade individual mesmo sob ordens superiores, e a ideia de que há um limiar além do qual a soberania nacional não é escudo. No entanto, também revelou fissuras: a justiça dos vencedores, a dificuldade de processar um sistema inteiro e a tensão entre punição e compreensão.

Atualizando para Hoje: O que Acontece com os Atuais Ditadores e Assassinos em Guerra?

Se os espectros de Hitler, Stalin ou dos génocidas do Ruanda e da Bósnia fossem julgados hoje, o cenário seria radicalmente diferente, marcado por avanços e retrocessos paradoxais.

  1. A Justiça Internacional, uma Realidade Frágil: Ao contrário de 1945, existe hoje uma arquitetura formal: o Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia. No entanto, sua atuação é limitada pela política. Grandes potências (EUA, China, Rússia) não são partes ou não reconhecem sua jurisdição plena. Ditadores ativos sabem que podem evitar a prisão enquanto mantiverem o poder ou o apoio de um protetor global. O exemplo mais claro são os crimes de agressão na Ucrânia: o principal acusado, Vladimir Putin, foi indiciado pelo TPI, mas sua prisão é impossível enquanto ele estiver no poder na Rússia. A justiça, aqui, é primeiro simbólica – um “selo de infâmia” internacional permanente.

  2. A Justiça “Híbrida” e Universal: O modelo de Nuremberg (tribunal internacional) convive agora com outras formas:

    • Tribunais Nacionais: Baseando-se no princípio da jurisdição universal, países como a Alemanha processaram sírios por crimes contra a humanidade. A justiça é lenta, dispersa, mas cria uma rede de responsabilidade.

    • Sanções Direcionadas: No lugar da forca ou da prisão perpétua, a ferramenta imediata contra ditadores e seus cúmplices são as sanções. Congelamento de bens, proibição de viagens, exclusão do sistema financeiro global. É uma punição econômica e política que visa isolar e estrangular logisticamente as máquinas de guerra.

    • O Tribunal da Opinião Pública: As imagens de satélite, os vídeos de drones, os relatos em tempo real nas redes sociais criam um dossiê público e indelével. A condenação histórica é instantânea, mesmo que a jurídica demore. Esse “tribunal digital” pressiona governos e instituições a agirem.

  3. Os Novos Cúmplices e a Nova Banalidade: Os filmes atuais mostram que os “Görings” de hoje podem ser líderes de big tech que permitem a propagação do ódio e a vigilância em massa, banqueiros que lavam os saques de oligarcas, ou empresários de energia que financiam regimes belicistas. Sua motivação raramente é ideológica; é o lucro, a performance do acionista, a lógica distorcida do mercado – uma nova face da banalidade arendtiana.

  4. O Maior Desafio: A Impunidade pela Desinformação. O nazismo foi derrotado militarmente e sua ideologia, desacreditada globalmente. Hoje, ditadores criam narrativas paralelas através de máquinas de propaganda sofisticadas. Eles não apenas cometem crimes, mas fabricam realidades alternativas para seus povos, onde são vítimas ou libertadores. Julgá-los perante uma comunidade internacional fracturada é infinitamente mais complexo. A batalha pelo tribunal da história começa no momento do crime, nas redes sociais e nos canais de notícias estatais.

Conclusão: O Legado Inacabado

Nuremberg nos deu a linguagem e a aspiração. Hoje, temos mais ferramentas, mas menos consenso. Os atuais ditadores e assassinos em massa enfrentam um destino variável: alguns podem acabar num tribunal em Haia (se caírem do poder), outros serão julgados in absentia ou por tribunais nacionais distantes. Muitos viverão e morrerão impunes, protegidos pela soberania, por aliados poderosos ou por um mar de desinformação.

O verdadeiro julgamento, no entanto, continua. É o julgamento que fazemos sobre a eficácia das nossas instituições, sobre a nossa coragem em aplicar o princípio da jurisdição universal, e sobre a nossa capacidade coletiva de nomear o mal, mesmo quando ele vem vestido de uniforme, de terno ou de post nas redes sociais. O eco de Nuremberg não é um veredito passado; é uma pergunta permanente, dirigida a cada geração: temos a vontade política e moral para fazer a justiça que a nossa consciência exige? A resposta, hoje como em 1945, ainda está sendo escrita.



O Agente Secreto chega mais forte que Ainda Estou Aqui ao Globo de Ouro?

 

Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho nos bastidores de O Agente Secreto

Crédito,Victor Jucá

Legenda da foto,O Agente Secreto chega ao Globo de Ouro com mais de 50 prêmios no currículo
    • Author,
    • Role,Da BBC News Brasil em São Paulo
  • Tempo de leitura: 6 min

O filme brasileiro O Agente Secreto concorre ao Globo de Ouro neste domingo (11/1) já tendo mais de 50 prêmios nacionais e internacionais no currículo.

Até agora, o longa-metragem já conquistou 54 troféus em 35 premiações, incluindo Melhor Diretor e Melhor Ator no Festival de Cannes, e chega à premiação americana com uma campanha numericamente mais robusta do que a de Ainda Estou Aqui no ano passado.

Em 4 de janeiro de 2025, véspera do Globo de Ouro, o filme de Walter Salles havia vencido 17 prêmios em 12 festivais e premiações, no Brasil e no exterior.

O desempenho quantitativo ajuda a entender uma parte da força da campanha atual. Ainda Estou Aqui ganhou fôlego após a vitória de Fernanda Torres no Globo de Ouro na categoria de Melhor Atriz - Drama. O filme encerrou a temporada com 70 prêmios em 42 festivais.

Mas, àquela altura, o filme tinha apenas quatro meses de carreira: havia estreado no Festival de Veneza, em setembro de 2024, onde venceu o prêmio de Melhor Roteiro. A partir dali, construiu forte reconhecimento principalmente em festivais ibero-americanos.

Já O Agente Secreto estreou mundialmente em maio de 2025, no Festival de Cannes, e chega ao Globo de Ouro com oito meses de circulação internacional, o que amplia sua presença em festivais, premiações e campanhas de divulgação.

Desde que estreou em Cannes, o filme de Kleber Mendonça Filho vem acumulando reconhecimento de importantes associações de críticos norte-americanos, como o New York Film Critics Circle, a Los Angeles Film Critics Association e o National Board of Review.

As indicações deste ano no Globo de Ouro já são históricas. É a primeira vez que um filme brasileiro concorre em três categorias no Globo de Ouro: Melhor Filme – Drama, Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Filme – Drama.

Também é a primeira indicação do país na principal categoria da premiação. Em edições anteriores, produções brasileiras haviam sido lembradas apenas na disputa de Melhor Filme em Língua Não Inglesa.

Wagner Moura também se tornou o primeiro brasileiro indicado a Melhor Ator em Filme – Drama.

No ano passado, Ainda Estou Aqui concorreu ao Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Não Inglesa, mas perdeu para Emilia Pérez. A vitória de Fernanda Torres, no entanto, impulsionou a campanha internacional do longa, que meses depois conquistaria o inédito Oscar de Melhor Filme Internacional para o Brasil.

Wagner Moura em cena de O Agente Secreto

Crédito,Victor Jucá

Legenda da foto,Wagner Moura também se tornou o primeiro brasileiro indicado a Melhor Ator em Filme de Drama no Globo de Ouro
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Além dos prêmios tradicionais, O Agente Secreto também tem acumulado honrarias e menções divertidas e inusitadas.

Na quinta-feira (8/1), a gata Carminha recebeu o troféu Golden Beast ("Bicho de Ouro", em tradução livre), em reconhecimento às atuações das personagens Liza e Elis. O prêmio foi concedido pelo New York Film Festival, criado em 1963 e dedicado à celebração de filmes de destaque mundial.

Já o jornal americano The New York Times destacou a atuação da atriz Tânia Maria como uma das melhores de 2025, descrevendo-a como provavelmente a "melhor atuação com cigarro" do ano.

Embora as comparações entre os dois filmes brasileiros sejam inevitáveis, Dora Amorim, produtora executiva de O Agente Secreto, ressalta que cada obra percorre um caminho próprio.

"Cada filme tem a sua trajetória, o seu DNA. Mas é impossível não pensar nos dois juntos, porque no ano passado Ainda Estou Aqui fez uma trajetória histórica, e agora estamos vivendo algo semelhante com outro filme", afirmou.

Elenco de Ainda Estou Aqui em cena do filme

Crédito,Divulgação/Sony Pictures

Legenda da foto,Ainda Estou Aqui conquistou o inédito Oscar de Melhor Filme Internacional para o Brasil

Segundo ela, o fato de O Agente Secreto ser uma produção nordestina, realizada no Recife por uma produtora de pequeno porte, amplia o simbolismo do momento.

"Esse lugar é muito significativo para os técnicos do audiovisual brasileiro e também para os brasileiros, por causa da representatividade cultural", disse.

Amorim destaca ainda o impacto simbólico de ver um filme falado em português disputar espaço em premiações tradicionalmente dominadas por Hollywood.

"A gente cresceu assistindo a esses prêmios pela televisão. Ver um filme brasileiro ocupar esse espaço e as pessoas comentarem a atuação do Wagner é algo incrível para o reconhecimento da nossa cultura e do cinema como indústria."

Forte campanha nos Estados Unidos

Kleber Mendonça Filho recebe prêmio no Festival de Cannes

Crédito,MIGUEL MEDINA/AFP via Getty Images

Legenda da foto,Filme de Kleber Mendonça Filho recebeu três prêmios no Festival de Cannes

A produtora explica que o desempenho internacional do filme também está ligado à estratégia de distribuição nos Estados Unidos. No país, o filme foi lançado pela Neon, distribuidora independente responsável por títulos como Parasita e Anora, vencedores do Oscar.

"O filme estreou em novembro, ao mesmo tempo no Brasil e nos Estados Unidos, e está indo muito bem lá fora. Hoje temos três pessoas da equipe em Los Angeles participando de encontros e sabatinas com membros da Academia", diz.

Para Amorim, as próximas semanas são decisivas para o futuro do filme, principalmente em relação ao Oscar, considerada a principal premiação do cinema.

"Esse é um momento de convencimento. Para votar, as pessoas precisam assistir ao filme. A indicação ao Globo de Ouro de Melhor Filme – Drama foi algo incrível, que a gente não esperava, porque é a primeira vez que o Brasil chega a essa categoria."

O Agente Secreto também chega com a vantagem de Wagner Moura já ser conhecido internacionalmente. Ele já concorreu ao Globo de Ouro, em 2016, como Melhor Ator em Série – Drama por Narcos. Ele perdeu o prêmio para Jon Hamm, de Mad Men.

Além disso, o ator também tem uma carreira com participação em grandes produções internacionais, como Elysium Guerra Civil.

Redes sociais, memes e engajamento

No ano passado, Ainda Estou Aqui contou com um "exército de likes", com brasileiros determinados a fazer bombar toda e qualquer postagem nas redes sociais sobre o filme.

Na madrugada de 6 de janeiro, por exemplo, logo após Fernanda Torres vencer o Globo de Ouro de Melhor Atriz – Drama, brasileiros comentaram e curtiram em massa as publicações do perfil da premiação.

Já uma foto de Torres publicada no perfil oficial do Oscar alcançou 1 milhão de curtidas e dezenas de milhares de comentários em menos de 24 horas.

Amorim avalia que, embora a campanha de O Agente Secreto não seja centrada nas redes sociais, o engajamento digital tem desempenhado um papel importante. "É a primeira vez que participo de uma campanha tão estruturada de divulgação também nas redes", afirmou.

Ela citou a repercussão de memes e postagens virais, como uma montagem de Wagner Moura caracterizado como personagem de Wicked, além da fala do ator durante a cerimônia em que apresentou o prêmio de Melhor Filme.

"Quando ele anunciou o vencedor e disse 'melhor filme estrangeiro' para os brasileiros, isso viralizou. Eles distinguem muito bem o que é estrangeiro, e acho que nós estamos começando a fazer essa distinção agora", disse. "Essas coisas surgem espontaneamente e acabam virando munição para a equipe trabalhar."

Já a atriz Tânia Maria, que cativou o público com a personagem Sebastiana, também tem sido objeto de memes e vídeos virais. "Esse burburinho só acontece quando as pessoas assistem. Para a gente, o boca a boca é essencial", afirmou.

Apesar das comparações com Ainda Estou Aqui, Amorim reforçou que se trata de trajetórias paralelas. "São diretores, histórias e pontos de partida muito diferentes. Acho que, no futuro, a lembrança vai ser positiva."

Embora distintos, os dois filmes são de época e dialogam com períodos históricos próximos, ainda que com abordagens diferentes.

O Agente Secreto já ultrapassou dez semanas em cartaz no Brasil e foi visto por mais de 1 milhão de pessoas. Já o filme de Walter Salles levou 6 milhões de pessoas ao cinema. "Que bom que, em dois anos, tivemos uma safra tão forte do cinema brasileiro", diz a produtora.