SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Sombr - Homewrecker - Live at Coachella 2026


 

A Nova Geografia do Dinheiro, Trabalho e Poder . Por Egidio Guerra.



Introdução.

Vivemos um momento de transformação estrutural na organização da economia global — uma transformação que está redesenhando não apenas onde o dinheiro e o trabalho se concentram, mas também quem detém o poder de moldar o futuro. Três forças simultâneas estão reconfigurando o mapa do desenvolvimento: a concentração da inovação em "clusters" geográficos, a reconfiguração geopolítica do comércio global em um mundo multipolar, e a revolução da automação que redefine o próprio significado do trabalho humano. Este artigo integra as contribuições fundamentais de Enrico Moretti em The New Geography of Jobs com análises contemporâneas do McKinsey Global Institute, dados do Banco Mundial e evidências recentes sobre as trajetórias de China, Índia e outras economias emergentes.

Parte I: A Concentração da Inovação e a Grande Divergência Interna

O Fenômeno dos "Brain Hubs"

A contribuição central de Enrico Moretti para o debate sobre desenvolvimento econômico é a identificação do que ele chama de "brain hubs" ou "innovation clusters" — regiões onde a concentração de trabalhadores altamente qualificados e empresas inovadoras cria um ciclo virtuoso de prosperidade. Em sua análise das mais de 300 áreas metropolitanas dos Estados Unidos, Moretti demonstra que a renda de um trabalhador com ensino médio em San Jose é maior do que a de um universitário em Bakersfield, Calfornia.

Este fenômeno não é acidental. Moretti identifica três forças fundamentais que impulsionam a formação desses clusters:

Primeiro, o efeito do "mercado de trabalho denso": trabalhadores altamente especializados buscam regiões com muitos empregadores em potencial, e empresas buscam regiões com muitos trabalhadores qualificados. Essa correspondência tende a ser mais produtiva e criativa em mercados mais densos.

Segundo, a especialização de fornecedores e serviços intermediários: no Vale do Silício, por exemplo, é possível encontrar advogados de propriedade intelectual, serviços de laboratório e empresas de logística extremamente especializados no nicho da indústria de tecnologia.

Terceiro, o que os economistas chamam de human capital spillovers — a transmissão informal de conhecimento que ocorre em encontros casuais, em cafés, festas ou nas escolas das crianças. Como Moretti observa, "há muitas evidências sociológicas de que este é um dos atrativos do Vale do Silício. Você está sempre perto de outras pessoas que estão na fronteira do conhecimento.

O resultado é um paradoxo fascinante: a economia global tornou-se simultaneamente mais integrada entre nações e mais fragmentada internamente. Enquanto a renda per capita converge entre países (China, Índia e Brasil experimentaram enormes aumentos no padrão de vida), a divergência dentro desses países se acelera. Moretti observa que, nos Estados Unidos, apenas 15 a 20 das 320 áreas metropolitanas se qualificam como "brain hubs" — o restante fica em uma trajetória de estagnação relativa.

O Multiplicador do Emprego Inovador

Um dos insights mais contraintuitivos de Moretti é sua descoberta sobre o "multiplicador" do emprego inovador. Para cada novo emprego criado no setor de inovação de uma área metropolitana, cinco novos empregos são criados na mesma região — três dos quais para trabalhadores sem ensino superior.

Este efeito ocorre por três razões interligadas. Primeiro, trabalhadores de alta renda gastam uma fração significativa de seus salários em serviços locais: restaurantes, cinema, táxis, terapeutas, babás. Segundo, as próprias empresas de tecnologia demandam muitos serviços locais, desde seguranças até consultores jurídicos especializados. Terceiro, o efeito de cluster atrai mais empresas e mais trabalhadores, amplificando o impacto ao longo do tempo.

No entanto, Moretti alerta que este multiplicador não é automático nem universal. "Não temos brain hubs suficientes", afirma. "Temos 320 áreas metropolitanas nos EUA e, pela minha definição, temos apenas 15 a 20 brain hubs. Nessas regiões, há criação de emprego e salários decentes para trabalhadores não qualificados. Mas temos uma grande parte do país que não está produzindo muito, em parte porque os empregos industriais estão encolhendo e a inovação não se enraizou.

A Fragilidade dos Clusters 

Um aspecto frequentemente negligenciado na análise de Moretti é sua advertência sobre a impermanência dos clusters. "Clusters anteriores colapsaram de maneiras espetaculares", recorda ele. "O Vale do Silício dos anos 1950 era Detroit" Nos anos 1950, não havia lugar melhor no mundo para um engenheiro automotivo do que Detroit — e, no entanto, a cidade entrou em uma espiral de declínio da qual nunca se recuperou totalmente.

O que explica a resiliência de alguns clusters e o colapso de outros? Moretti sugere que a resposta está na capacidade de "reinvenção contínua". O Vale do Silício era pomares, depois tornou-se hardware, depois software, e agora está se transformando novamente em biotecnologia e tecnologia limpa. "Alguns tipos de clusters não sobrevivem a grandes choques negativos", resume, "enquanto outros conseguem se alavancar para a próxima onda.

Parte II: O Fim da Globalização Neoliberal e a Emergência de um Mundo Multipolar.

A Transição Estrutural

Paralelamente à concentração geográfica da inovação, o sistema global está passando por uma transformação igualmente profunda na arquitetura do comércio e das finanças. De acordo com análise do CIGP, "após várias décadas dominadas por instituições ocidentais do pós-guerra que promoviam um modelo específico de globalização através de políticas neoliberais (mercados livres, privatização, desregulamentação), o mundo está agora entrando em uma era multipolar definida por maior intervenção estatal e equilíbrios regionais de poder.

Esta transição é estrutural, não cíclica — e suas raízes são múltiplas. A crise financeira de 2008 expôs os excessos do modelo financeiro ocidental. A década de 2010 viu reações populistas contra a desigualdade em muitas economias avançadas. E, decisivamente, eventos geopolíticos no final dos anos 2010 marcaram a ruptura: a guerra comercial EUA-China e, especialmente, o embargo de semicondutores dos EUA à China em 2018 sinalizaram o fim da cooperação automática no comércio global.

O Retorno do Estado como Ator Econômico

Uma das características mais marcantes desta nova era é o retorno do Estado como ator econômico central. "Nos últimos anos, os governos têm assumido um papel muito mais ativo em suas economias. Isso representa um pivô da ideologia neoliberal de que 'o mercado sabe o que é melhor' para um modelo frequentemente descrito como capitalismo patrocinado pelo Estado ou economic statecraft.

As grandes potências estão agora conscientemente trocando alguma eficiência econômica por maior controle, segurança e resiliência. Estão perseguindo políticas industriais, subsidiando campeões nacionais e alavancando o balanço patrimonial do Estado para atingir objetivos estratégicos. Isso se manifesta em um boom de gastos de capital em áreas estrategicamente importantes: energia, defesa e semicondutores — a maioria impulsionada por iniciativas governamentais.

Uma consequência crucial desta transição são as pressões inflacionárias estruturais. "Intervenções estatais (como tarifas) tendem a aumentar custos. Cadeias de suprimento redundantes e 'friend-shoring' são, por definição, menos eficientes em termos de custo do que a globalização pura, pois duplicar instalações estratégicas adiciona ineficiência — um vento contrário estrutural de custos, não meramente pressões de preços cíclicas.

O Caso da Índia: Entre a Interdependência e a Autonomia.

A posição da Índia neste novo cenário ilustra vividamente os dilemas enfrentados por economias emergentes em um mundo multipolar. O comércio bilateral Índia-China atingiu um recorde de US$ 155 bilhões em 2025, com crescimento anual superior a 12%. Quase 80% das importações indianas da China concentram-se em quatro categorias industriais: eletrônicos (US$ 38 bilhões), máquinas e bens de capital (US$ 25,9 bilhões), produtos químicos orgânicos (US$ 11,5 bilhões) e plásticos (US$ 6,3 bilhões)

Esta dependência vai além de bens acabados. Setores-chave da economia indiana dependem de maquinário de origem chinesa e, em muitos casos, de equipes técnicas chinesas durante a comissionamento e fase de ramp-up. O ecossistema de baterias da Índia — central para a transição para veículos elétricos e a meta de emissões líquidas zero até 2070 — importa atualmente cerca de 75-80% de suas baterias de íon-lítio da China, que também controla 60-70% da produção global e quase 90% da capacidade de refino de minerais críticos como lítio, cobalto e níquel.

A vulnerabilidade se estende a setores legados. Quase 48-50 GW da capacidade de geração térmica existente na Índia opera com equipamentos de origem chinesa. Em setembro de 2025, a Associação de Produtores de Energia da Índia observou que as restrições pós-2020 limitaram a capacidade dos fornecedores domésticos de oferecer preços competitivos e prazos confiáveis para projetos programados para 2030, sugerindo que o acesso calibrado a equipamentos chineses poderia reduzir os custos do projeto para cerca da metade dos ₹130-140 milhões por megawatt atualmente praticados.

O Economic Survey 2025-26 da Índia reconhece explicitamente este dilema. O documento adverte que "suposições ingênuas sobre acesso permanente a insumos, tecnologias e mercados não são mais sustentáveis" e faz um forte apelo ao Swadeshi — não como protecionismo cego, mas como "uma estratégia disciplinada e vinculada ao desempenho. Como observa Piyush Doshi, da Foundation for Economic Development: "A Índia definitivamente deve buscar a autossuficiência no sentido de que, sempre que uma grande potência global espirrar, nossa economia não deve pegar um resfriado. Isso significa tornar-se uma economia forte orientada para exportações, com um papel significativo nas cadeias de suprimentos globais.

Parte III: A Revolução da Automação e o Futuro do Trabalho.

O Número que assuta (e o que Ele Realmente Significa)

Em novembro de 2025, o McKinsey Global Institute publicou o relatório AgentsRobotsand Us, que oferece a análise mais abrangente até o momento sobre o impacto da automação no trabalho. O dado mais citado — e frequentemente mal interpretado — é que as tecnologias de IA atualmente demonstradas poderiam, em teoria, automatizar atividades equivalentes a 57% das horas de trabalho atuais nos Estados Unidos.

No entanto, os pesquisadores do McKinsey enfatizam que este número não é uma previsão de perda de empregos. É uma medida da fronteira tecnológica. A adoção real levará décadas. Levou mais de trinta anos para a eletricidade se tornar generalizada. A robótica industrial seguiu um caminho similar. Em 2023, apenas uma em cada cinco empresas executava a maioria de suas aplicações na nuvem, embora a tecnologia estivesse disponível desde meados dos anos 2000.

A conclusão central do relatório é contraintuitiva e, em última análise, otimista: "A automação poderia, em teoria, assumir a maioria do trabalho agora realizado por pessoas nos Estados Unidos. Isso não significa que metade de todos os empregos desapareceriam; muitos mudariam à medida que tarefas específicas são automatizadas, mudando o que as pessoas fazem, em vez de eliminar o trabalho em si.

O que a IA Não Pode Ser.

O aspecto mais revelador do relatório McKinsey não é o que a IA pode automatizar — é o que não pode. Mais de 70% das habilidades que os empregadores estão procurando hoje se aplicam tanto a empregos automatizáveis quanto a não automatizáveis. Isso significa que a maioria das habilidades humanas não vai desaparecer; elas vão migrar, encontrar novos contextos e novas maneiras de gerar valor.

As habilidades que resistem à automação com uma resiliência que nenhum modelo pode replicar são aquelas que exigem algo que a IA simplesmente não possui: julgamento formado pela experiência vivida, empatia construída em fracassos reais, a capacidade de ler uma sala, de sentir quando uma conversa está prestes a quebrar e saber como mantê-la.

O McKinsey desenvolveu o Skill Change Index para este relatório, que mede o impacto potencial da automação em cada habilidade. Habilidades altamente especializadas e automatizáveis, como contabilidade e programação, podem enfrentar a maior disrupção, enquanto habilidades interpessoais como negociação e coaching podem mudar menos. E, no centro de tudo, resistindo com resiliência, estão negociação, resolução de problemas, liderança e coaching.

A estatística que talvez melhor resuma a velocidade da mudança: a demanda por alfabetização em IA — entendida como a capacidade de usar e gerenciar ferramentas de IA — multiplicou-se quase sete vezes em dois anos, mais rápido do que qualquer outra habilidade nas ofertas de emprego dos EUA.

A Parceria Humano-Máquina.

O futuro do trabalho, argumenta o McKinsey, não é um campo de batalha entre humanos e máquinas. É uma parceria. E, como em qualquer parceria bem-sucedida, cada parte contribui com o que a outra não pode. As máquinas trazem velocidade, escala e precisão. Os humanos trazem o que o relatório chama de "habilidades interpessoais": negociação, liderança, empatia e coaching — o que há muito tempo chamamos simplesmente de ser humano.

Os pesquisadores do McKinsey argumentam que a força de trabalho se assemelhará cada vez mais a uma parceria tripla entre pessoas, agentes impulsionados por IA e robôs, com humanos dirigindo fluxos de trabalho, garantindo segurança e trazendo julgamento para decisões que a IA não pode navegar.

Até 2030, aproximadamente US$ 2,9 trilhões em valor econômico poderiam ser desbloqueados nos Estados Unidos se as organizações prepararem suas pessoas e redesenham fluxos de trabalho em torno da colaboração entre pessoas, agentes e robôs. Este valor não será gerado apenas pela tecnologia. Será gerado pela capacidade humana de fazer a tecnologia funcionar de forma significativa, com direção e propósito.

Parte IV: A Nova Geografia Digital e a Divisão Global da IA

O Abismo da Prontidão Digital

Enquanto economias avançadas e algumas emergentes competem na fronteira da inovação em IA, grande parte do mundo em desenvolvimento corre o risco de ser deixada para trás. O relatório Digital Progress and Trends Report 2025 do Banco Mundial pinta um quadro preocupante para países como a Etiópia, classificada entre os países com pior desempenho global em prontidão para IA.

O relatório classifica a Etiópia como um país de baixa renda com desempenho inferior em ambas as dimensões de prontidão para IA — ou seja, carece tanto do tamanho de mercado quanto da infraestrutura para desenvolver tecnologias de IA, quanto da capacidade per capita necessária para adotar e usar IA em serviços públicos, empresas e vida cotidiana.

A advertência do Banco Mundial é direta: "Países de baixa renda, como Etiópia e Quênia, têm desempenho inferior em escala e intensidade, destacando a necessidade de investir em facilitadores fundamentais, como banda larga acessível e de alta qualidade, alfabetização digital e habilidades da força de trabalho.

O Banco Mundial adverte que países com fundamentos limitados de IA correm o risco de se tornarem consumidores permanentes de plataformas de IA estrangeiras, em vez de criadores ou modeladores de tecnologia adaptada às necessidades locais. O mercado digital pequeno e fragmentado da Etiópia, combinado com infraestrutura de computação limitada e escassez de habilidades, coloca o país firmemente nesta categoria vulnerável.

As Barreiras Estruturais

Um obstáculo central identificado é o acesso limitado a computação, incluindo centros de dados domésticos e serviços de nuvem acessíveis. Centros de dados são intensivos em capital e energia, exigindo eletricidade estável e conectividade de internet de alta qualidade — condições que permanecem não confiáveis em muitos países de baixa renda. Mais de 60% dos países em desenvolvimento enfrentam sérios desafios de segurança energética, minando a viabilidade do investimento em infraestrutura.

Mesmo onde a infraestrutura existe, há escassez de habilidades digitais e de IA avançadas. O acesso limitado a treinamento avançado, instituições educacionais com poucos recursos e a contínua fuga de cérebros para países de renda mais alta enfraquecem ainda mais a capacidade de gerenciar e adaptar sistemas de IA.

O relatório também destaca lacunas de idioma e dados como restrições importantes. Sem conjuntos de dados localizados e modelos adaptados aos contextos nacionais, as ferramentas de IA correm o risco de excluir grandes segmentos da população, particularmente na educação, agricultura e serviços públicos. "Sem investimentos dedicados em modelos de idiomas locais e interfaces culturalmente relevantes, a IA corre o risco de replicar e até mesmo reforçar as desigualdades existentes", adverte o Banco Mundial.

O Sul da Ásia na Encruzilhada 

O Sri Lanka oferece um estudo de caso adicional sobre os desafios enfrentados por economias em desenvolvimento na era da IA. De acordo com Jonah Rexer, economista do Banco Mundial, aproximadamente 20% dos empregos no Sul da Ásia estão atualmente expostos à IA — principalmente em setores de maior qualificação, como TIC, finanças e gestão de processos de negócios (BPM). Com a adoção precoce de IA generativa no Sri Lanka já em torno de 10%, maior do que a maioria dos mercados emergentes, os impactos no mercado de trabalho podem se materializar mais cedo do que o esperado.

Rexer descreve um "ponto de pressão duplo" emergindo no Sri Lanka: o deslocamento impulsionado pela IA ameaça setores tradicionalmente utilizados para absorver trabalhadores jovens e educados — particularmente os setores de TIC e BPM orientados para exportação — enquanto o regime de proteção comercial de longa data do país continua a restringir a competitividade.

Vagisha Gunasekara, economista do UNDP, destaca que apenas 37% dos adultos no Sri Lanka são usuários de internet, com números significativos de domicílios ainda offline. A alfabetização digital, habilidades de computador e propriedade de dispositivos permanecem baixas, particularmente entre mulheres, comunidades rurais e pessoas com deficiência. "IA e comércio podem ser poderosos impulsionadores de transformação no Sri Lanka", observa Gunasekara. "Mas apenas se garantirmos que todos tenham a oportunidade de participar. Devemos mudar quem está na fila digital antes de abrir o portão.

Parte V: Convergências e Tensões

O Paradoxo da Convergência- Divergência

Uma das descobertas mais importantes de Moretti — validada por dados subsequentes do Banco Mundial e de outras instituições — é o que poderíamos chamar de paradoxo da convergência-divergência. Globalmente, a renda per capita convergiu nas últimas décadas: o aumento dramático no padrão de vida na China, Índia e Brasil é uma das maiores histórias de sucesso econômico da história.

No entanto, dentro desses mesmos países, a divergência se acelerou. Moretti observa que "a parte inovadora da economia chinesa está concentrada em um punhado de megalópoles. O mesmo padrão se repete na Índia, onde o crescimento econômico tem sido dramaticamente desigual entre estados e regiões.

Este paradoxo tem implicações profundas para formuladores de políticas. Sugere que o crescimento liderado pela inovação, embora necessário para a competitividade nacional, pode exacerbar desigualdades regionais a menos que seja acompanhado por políticas explícitas de redistribuição e desenvolvimento regional.

A Tensão entre Eficiência e Resiliência.

A transição para um mundo multipolar está forçando uma reavaliação fundamental da troca entre eficiência e resiliência. Durante décadas, a globalização neoliberal priorizou a eficiência — cadeias de suprimentos just-in-time, alocação global de produção conforme vantagens comparativas, minimização de estoques.

A nova era prioriza a resiliência. Países estão dispostos a aceitar custos mais altos em troca de maior segurança e autonomia estratégica. Isso se manifesta em políticas industriais, subsídios domésticos, restrições comerciais e esforços para "friend-shoring" — realocar cadeias de suprimentos para aliados geopolíticos.

O Economic Survey da Índia captura esta tensão com precisão: "A questão política não é mais se o Estado deve encorajar o Swadeshi, mas como deve fazê-lo sem minar a eficiência, inovação ou integração global.

A Reconfiguração do Sistema Financeiro Global.

Uma dimensão frequentemente subestimada da transição multipolar é a reconfiguração do sistema financeiro global. O congelamento de aproximadamente US$ 300 bilhões em ativos russos por países do G7 em 2022 enviou um sinal poderoso para economias emergentes sobre os riscos da dependência excessiva do dólar e do sistema financeiro ocidental.

Em resposta, há um movimento acelerado em direção à desdolarização — uma redução gradual na dependência global do dólar americano como meio de liquidação de comércio internacional e ativo de reserva. A China está promovendo ativamente a liquidação comercial baseada em RMB através de linhas de swap bilaterais e seu Sistema de Pagamentos Interbancários Transfronteiriços (CIPS) como alternativa à infraestrutura de pagamentos centrada no dólar.

Paralelamente, os bancos centrais estão acumulando ouro em níveis não vistos desde o fim do padrão ouro. E novas formas de ativos digitais — incluindo stablecoins atreladas ao dólar e títulos do Tesouro tokenizados — estão emergindo como uma camada paralela de liquidação para finanças globais.

Parte VI: Implicações para Políticas e Estratégia

Para Economias Avançadas: Gerenciando a Divergência Interna

Para países como Estados Unidos e membros da União Europeia, o principal desafio não é aumentar a inovação — é gerenciar suas consequências distributivas. Moretti é cético em relação a políticas que tentam criar artificialmente "clusters de inovação" onde eles não existem. "Não encontrei um exemplo de um hub de inovação nos EUA que tenha sido criado por política deliberada", admite. Taiwan pode ser uma história de sucesso, mas "escolher a próxima grande novidade é muito difícil para o capitalista de risco. É virtualmente impossível para o funcionário público.

Em vez disso, Moretti recomenda políticas que facilitem a mobilidade laboral (incluindo reformas de zoneamento para tornar os hubs de inovação mais acessíveis para trabalhadores de baixa renda) e apoio público para P&D, com base em fortes evidências de que as empresas capturam apenas uma pequena fração dos ganhos sociais de suas invenções.

Para Economias Emergentes: Navegando na Dependência 

Para países como Índia, Brasil e Indonésia, o desafio é mais complexo. Eles precisam equilibrar a necessidade de acesso a tecnologia e mercados globais com o imperativo de construir capacidades domésticas. O caminho sugerido pelo Economic Survey indiano — uma abordagem "disciplinada e vinculada ao desempenho" para o Swadeshi — oferece um modelo potencial: proteção temporária para indústrias nascentes, vinculada a metas explícitas de exportação e melhoria de produtividade. 

Survey também enfatiza a importância de reduzir custos de insumos como pré-condição para a competitividade manufatureira. "A proteção de insumos de uso geral beneficia um conjunto restrito de produtores enquanto enfraquece múltiplas cadeias de valor a jusante", adverte o documento. 

Para Países de Baixa Renda: Construindo Fundamentos 

Para países como Etiópia e outros na África Subsaariana, a prioridade imediata não é competir na fronteira da IA — é construir os fundamentos digitais que permitirão eventual participação na economia digital global. Isso significa investimento urgente em conectividade confiável, computação acessível, governança robusta de dados e desenvolvimento de habilidades digitais em larga escala.

O Banco Mundial é inequívoco: a trajetória da Etiópia para se beneficiar da IA não está na inovação de fronteira, mas no investimento urgente nesses facilitadores fundamentais. Sem isso, o país corre o risco de ficar permanentemente preso como consumidor de tecnologias desenvolvidas em outros lugares.

 Conclusão: O Mapa em Transformação

A nova geografia do dinheiro, trabalho e poder que emerge das análises integradas aqui é complexa e, em muitos aspectos, contraditória. Vivemos em um mundo onde:

  1. A inovação se concentra em um pequeno número de "brain hubs" globais, criando prosperidade sem precedentes para alguns lugares e estagnação para outros. 

  1. A globalização está se fragmentando, substituindo a ordem neoliberal unipolar por um sistema multipolar caracterizado por rivalidade geopolítica, políticas industriais e troca de eficiência por resiliência.

  1. A automação está transformando o trabalho, não eliminando empregos em massa, mas redefinindo quais habilidades são valiosas — com habilidades interpessoais e julgamento humano tornando-se mais, não menos, importantes.

  1. A divisão digital está se aprofundando, com países de baixa renda correndo o risco de exclusão permanente da economia da IA.

  1. O sistema financeiro está se reconfigurando, com movimentos em direção à desdolarização e ao surgimento de novas infraestruturas de pagamento.

Para formuladores de políticas, líderes empresariais e cidadãos, o imperativo é claro: precisamos de estratégias que reconheçam esta nova realidade. Estratégias que equilibrem inovação com inclusão, eficiência com resiliência, e ambição global com capacitação local.

Como Moretti observa, não há soluções fáceis. Mas há um ponto de partida: compreender as forças que moldam a nova geografia econômica é o primeiro passo para navegá-la com sucesso. O mapa está sendo redesenhado diante de nossos olhos. Cabe a nós decidir onde queremos estar quando a tinta secar.