SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

domingo, 11 de janeiro de 2026

Luz, câmera, algoritmo: o país onde o cinema já está tomado por imagens produzidas por IA

 

A heroína do filme 'Naisha', de Vivek Anchalia, totalmente gerada por IA, vestindo blusa preta

Crédito,Vivek Anchalia

Legenda da foto,A heroína do filme Naisha, de Vivek Anchalia, totalmente gerada por IA
    • Author,Viren Naidu
    • Role,BBC Future
  • Tempo de leitura: 10 min

Quando o diretor e roteirista Vivek Anchalia apresentou seu próximo filme, os produtores não se entusiasmaram. Seu projeto só começou a ganhar força quando ele trouxe um novo tipo de colaborador.

Com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial (IA), como o ChatGPT e Midjourney, Anchalia encontrou uma forma de produzir o filme sozinho. O Midjourney forneceu os visuais e o ChatGPT serviu de placa de som.

Em pouco mais de um ano, ele conseguiu adaptar a linha de produção amplificada por IA, um quadro de cada vez.

"Acho que o Midjourney já me conhece intimamente", brinca ele.

Anchalia também é letrista. Ele tinha diversas canções românticas aguardando um pano de fundo no estilo de Bollywood para serem lançadas.

"Logo começou a surgir uma história", ele conta. E o resultado foi o filme romântico Naisha.

"Por que esperar pela aprovação de um estúdio, se a IA me permite produzir o filme como eu desejo?"

Na diversificada indústria cinematográfica indiana, a IA não é apenas uma curiosidade adotada por cineastas emergentes. Ela também se infiltrou no dia a dia da produção de filmes com grandes orçamentos.

Do rejuvenescimento de atores veteranos até a clonagem de vozes e visualização de cenas antes da filmagem, a IA já está presente em todos os campos da cinematografia indiana.

Alguns estúdios se apaixonaram rapidamente pela tecnologia, mas ela traz consigo novos riscos e dilemas éticos.

O cinema indiano adotou a IA no processo de criação e produção de filmes de forma totalmente oposta aos seus primos americanos de Hollywood.

Nos Estados Unidos, atores e roteiristas resistem firmemente ao uso da IA. Houve greves generalizadas dois anos atrás, que paralisaram programas de TV e grandes produções.

Mas, para Anchalia, a IA impulsionou sua produção. O orçamento do seu filme foi de menos de 15% de uma produção tradicional de Bollywood e 95% do longa metragem de 75 minutos foram gerados por IA.

Depois da divulgação do trailer, sua heroína Naisha, gerada por computador, chegou a conseguir um contrato publicitário com uma joalheria de Hyderabad, no sul da Índia.

Cena do filme 'Ghost', com o rosto rejuvenescido por IA do ator indiano Shiva Rajkumar

Crédito,MG Srinivas

Legenda da foto,A indústria cinematográfica da Índia (a maior do mundo) vem adotando o uso da IA com mais rapidez do que Hollywood, mas a tecnologia não agrada a todos

Anchalia conta que pode ter precisado repetir mil vezes o mesmo processo até encontrar o visual desejado. Mas, ainda assim, foi muito menos estressante do que montar uma grande produção.

"A IA democratizou a cinematografia", afirma ele. "Hoje em dia, qualquer jovem aspirante a cineasta, sem recursos, pode produzir um filme usando a IA."

Diretores já estabelecidos também adotaram a inteligência artificial.

Jithin Laal usou a IA nas primeiras etapas de criação do sucesso de bilheteria Ajayante Randam Moshanam (ARM), produzido em língua malaiala, falada no sul da Índia. O diretor gerou a visualização de um complexo sistema de travas que ele tentava, com dificuldade, explicar para sua equipe de efeitos visuais.

A pré-visualização dirigida por IA, agora, está incorporada ao processo de Laal para contar histórias.

"Para o meu próximo filme, estamos testando cenas antes de comprometer recursos financeiros com a produção em larga escala", ele conta.

Já o cineasta Arun Chandu produziu uma sátira de ficção científica com um orçamento muito limitado, de 20 milhões de rúpias indianas (cerca de US$ 240 mil, ou R$ 1,3 milhão). "É menos que o custo de um casamento indiano", exclama Chandu, rindo.

Ele usou Photoshop, programas gráficos e uma ferramenta de aprendizado profundo chamada Stable Diffusion para criar uma sequência militar no seu filme pós-apocalíptico, Gaganachari, também falado em idioma malaiala.

Paralelamente, os designers de som Sankaran AS e KC Sidharthan adotaram ferramentas alimentadas por IA, como Soundly (uma biblioteca de sons em nuvem) e Reformer, do Krotos Studio, uma ferramenta de design de som que permite aos artistas editar de forma lúdica os efeitos sonoros, usando indicações como sua própria voz.

"Antigamente, se um cineasta tivesse uma ideia radical de última hora, era preciso alugar um estúdio", explica Sankaran. "Hoje, nosso enfoque é 'podemos fazer isso imediatamente'."

Mas, enquanto o cinema indiano adota a IA sem restrições, surge uma grande preocupação: estarão os cineastas indianos prejudicando a criatividade humana e gerando riscos desnecessários para os seus projetos?

Cineastas como Laal defendem que, ao contrário dos artistas humanos, a inteligência artificial não tem a profundidade emocional, nuances culturais e a intuição humana, que são fundamentais para a criação de grandes roteiros.

Uma versão do filme Raanjhanaa (2013) em idioma tâmil (falado no sul da Índia, entre outros países) foi relançada em agosto de 2025. Seu trágico final foi substituído por um final feliz, criado por IA.

A nova versão foi idealizada pela mesma companhia que produziu o filme, sem o consentimento do diretor original.

Modelo de trava complexa criado por IA, como ilustração para o novo filme do diretor indiano Jithin Laal

Crédito,Jithin Laal

Legenda da foto,O diretor Jithin Laal usou a IA para visualizar uma trava complexa que ele tinha dificuldade para descrever para sua equipe de efeitos visuais

Paralelamente, cineastas indianos expressaram ceticismo sobre a real possibilidade de que a IA ajude os filmes de baixo orçamento. Outros criticaram a falta de profundidade emocional da tecnologia.

"Ela não consegue criar mistério, sentir medo ou amor", declarou o diretor Shekhar Kapur à BBC, em 2023.

No cinema ocidental, o rejuvenescimento digital de atores chegou a causar controvérsia. Um caso foi o da versão rejuvenescida de Tom Hanks no drama Aqui (2024).

Mas, quando os cineastas da Índia usaram IA para inserir uma versão rejuvenescida do veterano ator indiano Mammootty, no filme em malaiala Rekhachithram (2025), as redes sociais ficaram repletas de elogios.

Alguns fãs aclamaram o rejuvenescimento como "a melhor recriação por IA do cinema indiano". A obra se tornou um dos filmes malaialas de maior bilheteria do ano.

Em Rekhachithram, Mammootty, que tem 73 anos de idade, aparece como se tivesse pouco mais de 30. Andrew Jacob D'Crus, um dos fundadores e supervisor de efeitos visuais da Mindstein Studios, conduziu o processo.

Ele e sua equipe alimentaram inicialmente modelos de IA com dados visuais de Mammootty, retirados do filme Kathodu Kathoram (1985). Mas a filmagem resultante ficou granulada.

"O material usado para alimentar a IA não era bom", explica D'Crus. A equipe tentou, então, usar cenas de Mammootty no filme Manu Uncle (1988), que foi remasterizado em 4k.

O veterano ator Sathyaraj, mundialmente conhecido pela franquia Baahubali, tem sua própria opinião a respeito.

"Se a IA puder estender minha vida útil, permitindo que eu interprete protagonistas em filmes de ação, em uma indústria marcada pelo etarismo como a nossa, por que não usá-la?"

Ele se refere à sua cena de rejuvenescimento no filme de super-herói Weapon (2024), em idioma tâmil. A tecnologia fez com que sua aparência se transformasse dos atuais 70 anos de idade para a casa dos 30 anos.

O diretor Guhan Senniappan idealizou uma sequência estilizada, similar às de Kill Bill (2003-2004).

"Mas não tínhamos orçamento, nem tempo suficiente", relembra ele. "Não fosse pela IA, teríamos postergado o lançamento."

Falta diversidade cultural

Apesar da eficiência que a IA trouxe para o projeto, Senniappan também observou peculiaridades da tecnologia.

"Tente colocar prompts como 'semideus' e ela irá fornecer resultados irreconhecíveis", ele conta. "A IA desconhece completamente referências hiperlocais enraizadas na mitologia indiana."

No caso de cenas culturalmente ricas, ele continua contratando artistas tradicionais para preparar storyboards.

Frustrado e, segundo ele, quase ofendido, Senniappan destaca que as ferramentas de IA são derivadas de conjuntos de dados ocidentais. Por isso, ela é insensível em relação à estética indiana.

"Você pode criar uma sequência de um filme regional indiano usando o ChatGPT, mas precisaria alimentar a memória cultural do roteiro original", explica ele. "Aquele roteiro precisaria ser escrito por um roteirista humano."

O cineasta MG Srinivas ficou surpreso com a ignorância cultural da IA quando usou a tecnologia para clonar a voz do ator principal, Shiva Rajkumar, no seu filme Ghost (2023), em idioma canarês, falado no sul da Índia.

Srinivas precisou de engenheiros humanos para reescrever os modelos fonéticos regionais e retificar inconsistências de fala, como sigmatismo.

"Quando o trailer foi publicado em diversos idiomas, funcionou", ele conta. "O público não percebeu que a voz de Shiva Rajkumar nas versões em hindi, telugu e malaiala não era dele."

Senniappan e Srininvas acreditam que, para uma indústria cinematográfica como a indiana, com sua diversidade linguística, a inteligência artificial atualmente não compreende nuances culturais e emocionais. Por isso, a intervenção humana é fundamental.

Dois retratos lado a lado do ator indiano Shiva Rajkumar, com sua imagem real à esquerda e a versão rejuvenescida por IA, à direita

Crédito,MG Srinivas

Legenda da foto,A IA rejuvenesceu o rosto do ator Shiva Rajkumar no filme de ação Ghost. O ator real aparece na imagem à esquerda e a versão rejuvenescida, à direita.

Para ajudar a enfrentar estas questões, o cineasta Arun Chandu está treinando modelos de IA para espelhar sua própria criatividade.

"Estou criando um clone de mim mesmo", ele conta.

Ex-fotógrafo, Chandu está alimentando todo seu trabalho, incluindo suas características de composição, cores e estilo visual, em um modelo de IA. Ele espera que esse modelo copie sua personalidade artística.

Um dos riscos é que as pessoas comecem a recolher indevidamente propriedade intelectual e imagens dos atores, pois não existe legislação específica no país para proteger as pessoas contra o mau uso da inteligência artificial.

"Não existe um único estatuto abrangente neste sentido", segundo a advogada especializada em entretenimento Anamika Jha, fundadora da organização Attorney for Creators.

Para pessoas vivas, existem na Índia proteções legais em relação ao uso das suas imagens e vozes, segundo ela. Mas essas proteções, atualmente, são restritas a apresentações ao vivo ou gravadas e não se estendem especificamente às imitações geradas por IA.

"A ausência de reformas legislativas explícitas para cobrir esses usos comprova que as leis não estão acompanhando a velocidade da IA", explica Jha.

Existe também uma aparente falta de proteção para os profissionais da indústria cinematográfica, cujos empregos são ameaçados pela inteligência artificial.

"Na Índia, as leis trabalhistas atuais não incluem o uso da IA para eliminar ou reproduzir o trabalho humano", segundo a advogada.

Alguns cineastas consideram as implicações éticas da adoção de IA.

O diretor e roteirista Srijit Mukherji fez uso de inteligência artificial para recriar as vozes de dois artistas bengalis já falecidos: o vencedor do Oscar Satyajit Ray (1921-1992), no filme Padatik, e Uttam Kumar (1926-1980) em Oti Uttam.

"Acho que não se trata realmente de um dilema ético, se você fizer da forma certa", explica Mukherji. "Nós trouxemos as famílias para participar."

Mas Jha destaca que "os direitos póstumos à personalidade não são formalmente reconhecidos" na Índia. Isso significa que "a voz ou a aparência de um ator poderia ser utilizada após a morte, sem consentimento".

"As famílias podem oferecer permissões informais, mas não existe uma estrutura jurídica", explica ela.

Duas imagens lado a lado do ator indiano Sathyaraj, com sua aparência real à esquerda e a versão rejuvenescida por IA, à direita

Crédito,Guhan Senniappan

Legenda da foto,O ator Sathyaraj, agora com 71 anos, foi rejuvenescido com ajuda da IA e aparece na casa de 30 anos no filme Weapon

Existem outras questões a serem consideradas, como o fato de que a IA pode produzir imagens que parecem "estranhas" para os olhos humanos. A tecnologia também pode criar alucinações ou confundir detalhes das imagens geradas.

"Sempre existe a preocupação de que algo possa surgir com aparência 'deslocada'", explica D'Crus. "Um sorriso que não parece natural ou uma mecha de cabelo rígida. O público percebe essas falhas."

O diretor do Laboratório de Ideias da Universidade Purdue, nos Estados Unidos, Aniket Bera, trabalhou em dois projetos muito diferentes na área de IA: a restauração de um fragmento de filme de 1899, que se acredita ser a filmagem mais antiga remanescente na Índia, e um experimento anterior baseado em inteligência artificial, com o filme Pather Panchali (1955), de Satyajit Ray.

"A IA suaviza as sombras e contraste que eram tão fundamentais para a ambientação do filme", explica ele. "A IA não entende simbolismo, só adivinha padrões."

Bera afirma que todas as etapas exigiram revisão humana, para garantir que o resultado fosse fiel ao original.

"A IA alucinava detalhes com frequência, alterando a linguagem visual para 'melhorar' coisas. Com isso, nos arriscamos a reescrever a história."

Para Mukherji, a inteligência artificial permitiu que ele transformasse sua visão de cineasta em realidade. Afinal, de que outra forma ele poderia escalar dois atores mortos?

A IA recriou a voz de Uttam Kumar em todo o filme Oti Uttam. Mas ele destaca que o projeto dependeu muito, como sempre, da intervenção humana, para a criação do roteiro, seleção de material de arquivo, obtenção de autorizações legais e verificação do material produzido por inteligência artificial.

As ferramentas de IA estão evoluindo rapidamente, criando uma série de questões éticas e regulatórias. Mas Mukhreji pede otimismo.

"Em vez de entrarem em pânico, os seres humanos devem ficar confortáveis com a IA", aconselha ele. "Aprenda, domine e aproveite."

"Ela não é um monstro com aparência de androide, tentando devorar sua criatividade. Ela ajuda a criatividade, não a substitui."

Ainda assim, para outros, as limitações da inteligência artificial permanecem evidentes.

Chandu compartilha na sala de aula seu aprendizado no set de filmagem, como professor em um curso universitário sobre IA no cinema.

Em um dos módulos, ele pede aos alunos que produzam dois filmes, um usando o ChatGPT e ferramentas de vídeo baseadas em IA e o outro inteiramente com técnicas tradicionais.

"Depois, comparamos qual versão parece mais autêntica", explica ele. "O objetivo é compreender se ambas podem coexistir."

Geralmente é mais rápido e fácil criar filmes com IA, segundo ele. "Mas a versão mais refinada é sempre a humana."

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Innovation.

sábado, 10 de janeiro de 2026

Tempo Perdido- Wagner Moura amanhã é o seu dia e do cinema brasileiro.


 

Bella ciao | Pink Martini ft. Storm Large - Live




 

A Índia está cada vez mais rica, mas suas cidades seguem sujas e caóticas. Por quê?

 

Casas em beira de canal coberto de lixo na Índia

Crédito,AFP via Getty Images

Legenda da foto,Cidades indianas geram milhões de toneladas de lixo todos os anos, mas os sistemas de descarte de resíduos são inadequados
    • Author,Nikhil Inamdar
    • Role,Da BBC News em Mumbai
  • Tempo de leitura: 6 min

"Quer conhecer o charme real de Jaipur? Não venha aqui, compre apenas um cartão-postal", ironizou um taxista local durante minha recente visita à "Cidade Rosa", no noroeste da Índia.

Eu havia perguntado por que a capital do Rajastão, de tons âmbar — vibrante com seus turistas atraídos pelos palácios suntuosos e fortes majestosos —, parecia tão decadente.

A resposta dele refletiu um sentimento resignado de desesperança diante da deterioração urbana que afeta não apenas Jaipur, mas muitas cidades indianas: sufocadas pelo trânsito, envoltas em ar poluído, cheias de montes de lixo não recolhido e indiferentes aos vestígios de seu glorioso patrimônio histórico.

Em Jaipur, é possível encontrar exemplos sublimes de arquitetura centenária disputando espaço com oficinas mecânicas e manchas com marcas avermelhadas no chão - causadas pelo hábito de cuspir tabaco mascado.

Isso levanta uma pergunta: por que as cidades indianas estão se tornando cada vez mais inabitáveis, mesmo com centenas de bilhões gastos em um grande "embelezamento" nacional?

O rápido crescimento da Índia, apesar das altas tarifas cobradas, baixo consumo privado e manufatura estagnada, tem sido impulsionado em grande parte pelo foco do governo de Narendra Modi em obras de infraestrutura financiadas pelo Estado.

Nos últimos anos, o país construiu aeroportos modernos, rodovias nacionais de múltiplas faixas e redes de metrô reluzentes.

Ainda assim, muitas de suas cidades aparecem nas últimas posições dos índices de qualidade de vida. No último ano, a frustração chegou ao ponto de ebulição.

Em Bangalore — frequentemente chamada de o "Vale do Silício" da Índia por concentrar empresas de tecnologia e sedes de startups — houve protestos tanto de cidadãos quanto de empresários bilionários, fartos dos engarrafamentos e das pilhas de lixo.

Em Mumbai, a capital financeira, moradores realizaram um raro protesto contra o agravamento do problema dos buracos nas ruas, enquanto redes de esgoto entupidas despejavam dejetos em vias alagadas durante a prolongada temporada de monções.

No inverno em Delhi, a capital, a névoa tóxica deixou crianças e idosos sem ar, com médicos aconselhando alguns a deixar a cidade. Até a visita do jogador Lionel Messi neste mês foi ofuscada por torcedores entoando gritos contra a má qualidade do ar da capital.

Um cartaz de protesto em buraco na rua

Crédito,Hindustan Times via Getty Images

Legenda da foto,Moradores de Thane, perto de Mumbai, realizaram um protesto contra os buracos nas ruas e o congestionamento do trânsito em setembro.
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Então, por que — ao contrário da China durante seus anos de boom — o crescimento acelerado do PIB da Índia não está levando à regeneração de suas cidades decadentes?

Por exemplo, por que Mumbai — que nos anos 1990 alimentava publicamente o sonho de se tornar uma nova Xangai, o centro financeiro chinês — é incapaz de concretizar essa ambição?

"A causa raiz é histórica — nossas cidades não têm um modelo de governança confiável", disse à BBC Vinayak Chatterjee, veterano especialista em infraestrutura.

"Quando a Constituição da Índia foi escrita, ela falava da descentralização do poder para os governos central e estaduais — mas não imaginava que nossas cidades cresceriam a ponto de se tornarem tão gigantescas a ponto de precisar de uma estrutura de governança própria", afirma.

O Banco Mundial estima que mais de meio bilhão de indianos — ou quase 40% da população do país — viva hoje em áreas urbanas, um aumento impressionante em relação a 1960, quando apenas 70 milhões de indianos moravam em cidades.

Em 1992, houve uma tentativa de "finalmente permitir que as cidades assumissem o controle de seus próprios destinos" por meio da 74ª emenda à Constituição.

Os governos locais receberam status constitucional e a governança urbana foi descentralizada — mas muitas das disposições jamais foram plenamente implementadas, diz Chatterjee.

"Interesses arraigados não permitem que a burocracia e os níveis mais altos de governo descentralizem o poder e fortaleçam os governos locais."

Isso é bem diferente da China, onde prefeitos exercem amplos poderes executivos, controlando o planejamento urbano, a infraestrutura e até a aprovação de investimentos.

A China segue um modelo de planejamento altamente centralizado, mas os governos locais têm liberdade de implementação e são monitorados pelo centro, com sistemas de recompensas e punições, afirma Ramanath Jha, pesquisador sênior do centro de pesquisas Observer Research Foundation, da Índia.

"Há diretrizes nacionais fortes em termos de rumo e metas físicas que as cidades são encarregadas de cumprir", escreve Jha.

Prefeitos das principais cidades chinesas contam com padrinhos poderosos no alto escalão do Partido Comunista e fortes incentivos de desempenho, o que torna esses cargos "importantes trampolins para promoções futuras", segundo o centro de pesquisas Brookings Institution, dos EUA.

"Quantos nomes de prefeitos de grandes cidades indianas nós sequer conhecemos?", questiona Chatterjee.

Um homem no rio coberto de espuma tóxica, com skyline de Delhi ao fundo

Crédito,AFP via Getty Images

Legenda da foto,O ar tóxico é um problema recorrente em Delhi, especialmente durante o inverno.

Ankur Bisen, autor de Wasted (algo com "Degradado", em tradução livre), um livro sobre a história dos problemas de saneamento da Índia, afirma que os prefeitos e conselhos locais que administram as cidades indianas são "os órgãos mais fracos do Estado, os mais próximos da população, mas encarregados dos problemas mais difíceis de resolver".

"Eles estão completamente esvaziados — e têm poderes limitados para arrecadar receita, nomear pessoas e alocar recursos. Em vez disso, são os chefes de governo dos Estados que agem como superprefeitos e dão as cartas."

Houve casos excepcionais — como a cidade de Surat, após a epidemia de peste nos anos 1990, ou Indore, no estado de Madhya Pradesh — em que burocratas, empoderados pela classe política promoveram mudanças transformadoras.

"Mas esses foram exceções à regra — dependiam do brilho individual, e não de um sistema que continue funcionando mesmo depois que o burocrata já se foi", diz Bisen.

Além de uma governança fragmentada, a Índia enfrenta desafios mais profundos.

Seu último censo, realizado há mais de 15 anos, registrou 30% da população vivendo em áreas urbanas. De forma informal, acredita-se que quase metade do país já tenha assumido um caráter urbano, com o próximo censo adiado para 2026.

"Mas como começar a resolver um problema se você não tem dados sobre a dimensão e a natureza da urbanização?", questiona Bisen.

Avenida engarrafada nos dois sentidos em Bengaluru

Crédito,AFP via Getty Images

Legenda da foto,A cidade de Bengaluru é famosa pelos engarrafamentos

O vazio de dados e a não implementação dos marcos para transformar as cidades indianas, bem articulados na 74ª emenda constitucional, refletem um enfraquecimento da democracia de base da Índia, afirmam especialistas.

"É estranho que não haja um clamor em torno das nossas cidades, como houve contra a corrupção alguns anos atrás", disse Chatterjee.

A Índia terá de passar por um "ciclo natural de conscientização", afirma Bisen, citando como exemplo o Grande Fedor (Great Stink) de Londres, em 1858, que levou o governo a construir um novo sistema de esgoto para a cidade e marcou o fim de grandes surtos de cólera.

"Geralmente é em momentos como esses, quando a situação chega ao ponto de ebulição, que os problemas ganham relevância política."