Habitante Terra da Sabedoria
SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.
quinta-feira, 9 de abril de 2026
Inseto não é inimigo.
Na verdade… muitos são os verdadeiros guardiões da produção.
Enquanto o modelo convencional tenta controlar a natureza com insumos,
a natureza já criou um sistema muito mais eficiente:
equilíbrio.
Joaninhas controlam pragas
abelhas polinizam
vespas regulam populações
louva-a-deus mantém o sistema em ordem
Sem veneno.
Sem excesso.
Sem colapso.
Agora a pergunta:
Quantos problemas na agricultura foram criados justamente por tentar eliminar esses aliados?
Quando você remove a biodiversidade,
você perde o controle do sistema.
E aí precisa de mais química.
Mais custo.
Mais dependência.
Na agrofloresta, a lógica é outra:
Não se combate a natureza.
Se colabora com ela.
E quando o sistema está equilibrado…
ele trabalha por você.
Tem gente que treme de indignação com auxílio de R$ 600.
Por que a guerra do Irã ameaça o coração do agronegócio brasileiro.

Crédito,Getty Images
- Author,Carolina Unzelte
- Role,De São Paulo para a BBC News Brasil
- Tempo de leitura: 7 min
Na noite da última terça-feira (7/4), o presidente dos Estados Unidos Donald Trump voltou atrás em sua profecia de que "uma civilização inteira morrerá" ao se referir ao Irã, a quem declarou guerra em fevereiro.
Ao invés disso, o líder norte-americano anunciou um cessar-fogo de duas semanas, condicionado à "passagem segura" de navios no estreito de Ormuz, importante rota comercial mundial.
Apesar do aparente recuo, o futuro próximo na região ainda é incerto. E, com isso, permanece a incerteza também acerca do alvo invisível da guerra: os fertilizantes, principalmente a ureia, um composto nitrogenado essencial para o cultivo em escala.
Para o Brasil, que tem a cadeia do agronegócio como propulsora da economia e não produz seus próprios fertilizantes, o baque pode ser grande.
"A causa do problema é que temos um país que tem 30% do PIB sustentado pela agricultura, mas depende de mais de 90% de fertilizante importado", diz Bernardo Silva, diretor-executivo do Sinprifert (Sindicato Nacional da Indústria de Matérias-primas para Fertilizantes).
No mesmo dia do anúncio de Trump, a Associação dos Fornecedores de Cana-de-Açúcar de Pernambuco (AFCP) e o Sindicato dos Cultivadores de Cana do Estado de Pernambuco (Sindicape) protestaram em Recife (PE), pedindo ajuda governamental para fertilizantes.
Mas o problema não fica restrito às fazendas. Como o milho e a soja são a base da ração animal, a alta nos fertilizantes tem um efeito cascata. Se o conflito no Irã persistir, o preço do frango, dos ovos e da carne bovina pode subir nos supermercados brasileiros no segundo semestre.
Nesta semana, o boletim Focus do Banco Central, que reúne expectativas para os principais indicadores macroeconômicos, mostrou pessimismo crescente acerca da inflação. Especificamente em relação aos alimentos, segundo o Rabobank, a expectativa é de alta de 4,6% até o fim do ano — acima do 1,4% em 2025.
Um gigante de pés frágeis

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O Brasil é um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, mas, ao mesmo tempo, é o maior importador global de fertilizantes. Além de importar esses produtos, o país também compra de outros países cerca de 75% dos seus defensivos agrícolas, substâncias que protegem as plantações de pragas e doenças.
Historicamente, a Rússia é a maior fornecedora brasileiro do trio NPK, potássio, nitrogênio e fósforo, essenciais para melhorar a nutritividade da terra.
Mesmo com as complicações da guerra na Ucrânia e medidas de contenção de exportação com a instabilidade no Irã, o país segue representando cerca de 25% dos fertilizantes importados pelo Brasil. Isso porque, com as sanções dos Estados Unidos e União Europeia, a Rússia redirecionou seus mercados para os emergentes Brics.
Mas, quando o tema é ureia, que é obtida por meio do gás natural e utilizada para impulsionar o crescimento das lavouras, o Irã é um dos parceiros mais estratégicos.
Em 2025, o Brasil comprou US$ 72 milhões apenas em fertilizantes deles, cerca de 80% das importações totais vindas do país do Oriente Médio. Outro importante fornecedor de ureia é o Catar, que também utiliza o estreito de Ormuz para enviar seus produtos ao Brasil.
Por que a relação com o Irã cresceu?

Crédito,REUTERS/Adriano Machado
Apesar de não ser o maior vendedor de fertilizantes para o Brasil, a balança com o Irã se refinou nos últimos anos. No ano passado, por exemplo, o Brasil exportou quase US$ 3 bilhões para o país persa, a grande maioria em cereais como milho e soja.
Isso porque as condições de frete se tornaram mais interessantes para os dois lados, com o chamado sistema barter, um sistema de "troca" ou escambo comum no agronegócio. Nele, o produtor rural paga pelos insumos (como sementes e o fertilizante ureia) com a sua própria colheita futura, em vez de usar dinheiro.
Na relação com o Irã, isso funciona como uma engrenagem logística: navios saem do Brasil cheios de milho para os iranianos e voltam carregados de adubo para os brasileiros, garantindo o escoamento da produção e a chegada do fertilizante com frete mais barato.
Assim, diferentemente da situação com o comércio russo, em que o bloqueio por conta de um conflito seria majoritariamente econômico, no caso do Irã, a ameaça é física: tanto na instabilidade no estreito que proporciona o barter quanto nas próprias plantas petroquímicas, que atuam também na produção de ureia.
Por exemplo, no último sábado (4/4), um ataque de Israel atingiu Mahshahr, no sudoeste do Irã, centro da indústria petroquímica do país. O ataque resultou em pelo menos cinco mortes e 170 feridos.
"Nós não temos alternativa em relação à ureia. Para a próxima safra, ainda não devemos ter esse problema, porque ninguém deixa para comprar fertilizante de última hora. Mas em 2027 vai ser uma tragédia, com esse cenário maluco da guerra", diz Silveira. "Todos os produtores estão pessimistas".
O que acontece se o fornecimento de ureia parar?
Primeiro, a situação dos produtores deve piorar.
"Os produtores já vêm com uma situação de crédito bastante apertada nos últimos anos por conta de uma alavancagem bastante alta", diz Bruno Fonseca, analista sênior de insumos agrícolas do Rabobank. "Para o próximo ano, os custos de produção aumentaram bastante e o produtor continua nessa situação bastante apertada".
Com a explosão da guerra da Ucrânia, o preço dos fertilizantes subiu, mas commodities como soja estavam em patamares recorde, o que ajudava a "pagar a conta". Agora a situação é outra.
Naquela época, a tonelada da ureia chegou a custar cerca de U$ 1000, enquanto a saca do milho estava em uma alta histórica de R$ 100 em algumas praças brasileiras, como Mato Grosso e Paraná. A saca da soja, por sua vez, era negociada por a R$ 200.
Antes dos ataques no Irã, a ureia estava em um patamar mais baixo, a cerca de US$ 350. Agora, está na casa dos US$ 550. Do outro lado, a saca do milho está na casa dos R$ 50 a R$ 60, enquanto a soja caiu para em torno de R$ 140.
Outro ponto que comprime as margens para o agronegócio é que, no início no mês, com a reforma tributária, o governo federal implementou mudanças que elevaram o PIS/Cofins e o Funrural (a contribuição previdenciária obrigatória para receitas do campo), retirando a alíquota zero de fertilizantes e sementes.
O Índice de Poder de Compra de Fertilizantes (IPCF), calculado pela Mosaic Fertilizantes, já dava sinais de alerta antes mesmo do auge do conflito. Em fevereiro, o indicador mostrou que o produtor já precisava desembolsar mais sacas de grãos para comprar a mesma quantidade de adubo devido à valorização do dólar e à alta na ureia.
Assim, a curto prazo, os produtores podem "reduzir a tecnologia", segundo Silveira. Isso significa usar menos fertilizante nos cultivos, o que resulta em uma produtividade menor por hectare.
Mas, a médio prazo, a situação é "muito complicada" para a sustentabilidade do setor, diz Silveira. Isso porque pode ser difícil e demorado substituir a ureia iraniana.
Se o Brasil perder esse fornecimento, terá que disputar o produto com a Índia e os EUA em outros mercados, o que elevará ainda mais os preços globais e a inflação de alimentos aqui dentro.
A China poderia ser uma opção de vendedor, diz Fonseca, mas o país, por enquanto, "está privilegiando o mercado doméstico". "Mas acho que a partir de agosto, quando a China volta ao mercado, seria um player que também poderia ajudar o Brasil a conseguir acessar esse produto no mercado internacional".
Como resolver a situação?
Para tentar contornar o bloqueio no Golfo Pérsico, o Ministério da Agricultura concluiu uma negociação estratégica com a Turquia. O acordo permite que cargas brasileiras utilizem o território turco para trânsito direto ou armazenamento temporário, permitindo um alívio diante das restrições em Ormuz.
Além disso, a Petrobras reativou unidades para fertilizantes — duas delas, em Sergipe e na Bahia, antes da guerra, em dezembro e janeiro. Neste mês, uma planta no Paraná iniciou a produção.
"Com esses projetos, a expectativa é que a produção nacional de ureia atenda até 35% da demanda do mercado brasileiro nos próximos anos", segundo a Petrobras.
Mas, para Bernardo Silva, do Sinprifert, o Brasil tem "escolhido sempre a saída mais fácil" para um problema antigo, o da dependência externa para o abastecimento de fertilizantes.
"São escolhas políticas erradas que a gente tomou ano após ano nos últimos 30 anos que deixaram a indústria nacional perder absoluta competitividade. Privilegiamos e incentivamos a importação, ou seja, o Brasil subsidiou a indústria estrangeira", diz.
Em 2023, foi editado o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), que visa reduzir a dependência externa para 50% até 2050.
Parte dessa estratégia envolve o Profert, um programa de incentivos fiscais para modernizar a infraestrutura de produção nacional e simplificar o ressarcimento de tributos para fábricas de fertilizantes no Brasil. Instituído em um projeto de lei, o Profert ainda espera para ser aprovado no Legislativo.
"O plano é um diagnóstico muito bem feito", diz Silva. "Mas ele precisa agora ser uma ferramenta de ação. O que precisa é que haja uma vontade política para reverter isso. Hoje, o problema é a guerra. Amanhã pode ser outro, se continuarmos assim".
Nature mostrou que mais de 110 mil artigos de 2025 podem conter referências fabricadas, não imprecisas, mas simplesmente inexistentes
Um levantamento recente publicado na Nature mostrou que mais de 110 mil artigos de 2025 podem conter referências fabricadas, não imprecisas, mas simplesmente inexistentes. Papers que nunca foram publicados, foram citados como se fossem reais.
À primeira vista, isso parece um problema de tecnologia. Mas não é. LLMs fazem exatamente o que foram projetados para fazer, que é gerar texto plausível. Eles não verificam fatos, não validam fontes, não distinguem verdade de probabilidade. Isso nunca foi promessa. O erro começa quando tratamos plausibilidade como evidência.
Pesquisadores estão usando esses sistemas para buscar literatura, montar bibliografias e estruturar artigos, e, simplesmente, não estão verificando o resultado.
Antes da IA, erros de citação já eram comuns. Mas eram erros. Agora estamos falando de fabricação de erros em escala. Existe uma diferença qualitativa aqui e e ela não veio só da tecnologia, veio do comportamento.
O dado mais revelador não é o volume, é a trajetória. Em algumas conferências de ciência da computação, a incidência de citações potencialmente alucinadas saltou de 0,3% para 2,6% em um ano. Isso não é ruído. É mudança de hábito comportamental.
E o mais preocupante é que essas citações não são absurdas. Elas são convincentes. Misturam nomes reais, títulos plausíveis, periódicos legítimos. Um tipo de “Frankenstein acadêmico” difícil de detectar em uma revisão superficial. Ou seja, o sistema de validação, que sempre dependeu de confiança e amostragem, começa a falhar exatamente onde parecia mais sólido.
As editoras estão reagindo, com ferramentas de detecção, rejeições automáticas e camadas adicionais de controle. Mas isso é atacar o sintoma, não a causa.
Porque o problema real não é a IA gerar referências falsas. É alguém incluí-las em um paper… e submeter assim mesmo.
Isso expõe algo mais estrutural que é uma cultura que, pressionada por volume, velocidade e produtividade, começa a relaxar no ponto mais básico da ciência, a verificação.
Talvez seja aqui que a discussão precise amadurecer. A IA não está “quebrando” a ciência. Ela está tornando visível algo que sempre esteve lá, como dependência de confiança, validação imperfeita e incentivos desalinhados. A diferença é que agora isso escala.
Então a pergunta não é se modelos alucinam. Isso já sabemos. A pergunta é se os cientistas ainda estão conferindo o que publicam? Porque, se a resposta for “nem sempre”, o problema não é tecnológico. É institucional. Aí a preocupação aumenta!