SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Quem foi Anne Frank e 9 curiosidades sobre o diário mais famoso do mundo, que agora é objeto de polêmica no Brasil

 

Foto em preto e branco de Anne Frank sorrindo, com os cabelos soltos e o rosto levemente inclinado para o lado.

Crédito,Anne Frank Museum

Legenda da foto,Diário teve quatro versões, sendo a segunda uma revisão feita pela própria Anne com esperança de ter seu relato publicado
    • Author,André Bernardo e Myles Burke*
    • Role,BBC News
  • Published
  • Tempo de leitura: 9 min

O Diário de Anne Frank, um dos livros mais conhecidos sobre o Holocausto, voltou ao centro do debate no Brasil depois que uma influenciadora classificou a obra como "vitimista" durante a 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo.

Em um vídeo publicado no TikTok, o perfil @JovemLiaa abordou uma visitante do evento e pediu que ela apontasse suas leituras favoritas e aquelas que mais a haviam decepcionado.

Ao citar o diário como sua pior leitura e justificar a escolha com a palavra "vitimista", a entrevista provocou uma onda de reações nas redes sociais.

O Museu do Holocausto e a Federação Israelita divulgaram notas de repúdio à declaração. As duas instituições ressaltaram que o diário precisa ser compreendido dentro do contexto em que foi escrito: o relato de uma adolescente judia que viveu escondida durante a perseguição nazista na Holanda.

As entidades afirmaram ainda que narrar o próprio sofrimento não define uma pessoa apenas pela condição de vítima e destacaram a dimensão histórica do texto, escrito durante um dos períodos mais violentos do século 20.

Mas quem foi Anne Frank? Como era a vida no esconderijo onde ela escreveu? E como aquelas páginas, produzidas por uma adolescente de 13 a 15 anos, se transformaram em um dos livros mais lidos do mundo?

1. Quem foi Anne Frank?

Annelies Marie Frank nasceu em Frankfurt, na Alemanha, em 12 de junho de 1929. Filha de Otto e Edith Frank, ela tinha uma irmã, Margot, três anos mais velha.

A família era judia e deixou a Alemanha em 1933, após a ascensão do Partido Nazista e a chegada de Adolf Hitler ao poder. Os Frank se mudaram para Amsterdã, na Holanda, onde Anne passou a frequentar a escola, aprendeu holandês e fez novos amigos.

A segurança que encontraram no país, porém, duraria pouco. Em 10 de maio de 1940, a Alemanha invadiu a Holanda. A ocupação foi acompanhada por uma série de medidas antissemitas, que restringiam a vida dos judeus e aumentavam progressivamente sua perseguição.

Otto Frank tentou emigrar para os Estados Unidos, mas não conseguiu concluir o processo antes do fechamento dos consulados americanos nos territórios ocupados pelos alemães.

Em julho de 1942, Margot recebeu uma convocação para se apresentar a um campo de trabalhos forçados. A família decidiu então se esconder. Anne tinha 13 anos.

Foto do esconderijo de Anne Frank, com uma estante que camufla a entrada do anexo secreto.

Crédito,Reuters

Legenda da foto,O 'anexo secreto' onde Anne e sua família se escondeu durante a Segunda Guerra ficava atrás de uma prateleira de livros em prédio de Amsterdã

2. Onde Anne Frank se escondeu?

A família foi para um espaço escondido nos fundos do prédio onde funcionavam os negócios de Otto Frank, no número 263 da Prinsengracht, em Amsterdã. A entrada ficava atrás de uma estante especialmente construída para esconder o acesso.

O local, que Anne chamava de "anexo secreto", tinha cerca de 120 metros quadrados.

Além dos quatro integrantes da família Frank, ali se esconderam Hermann e Auguste van Pels e o filho deles, Peter, além do dentista Fritz Pfeffer.

Durante o dia, quando os funcionários do armazém estavam trabalhando, os oito moradores precisavam evitar qualquer ruído que pudesse revelar sua presença. Não podiam usar água corrente, dar descarga ou conversar normalmente. Risadas, tosses e espirros também precisavam ser contidos.

Anne passava as manhãs estudando e lendo. Depois do almoço, costumava ligar o rádio para acompanhar as notícias — inclusive as transmissões da BBC.

Quatro funcionários de confiança de Otto — Miep Gies, Johannes Kleiman, Victor Kugler e Bep Voskuijl — ajudavam a levar comida, roupas e outros suprimentos para os clandestinos.

Foi nesse ambiente de medo, silêncio e confinamento que Anne escreveu a maior parte de seu diário.

3. Quando Anne começou a escrever?

No dia 12 de junho de 1942, quando completou 13 anos, Anne ganhou de presente de Otto um livro de autógrafos de capa de pano xadrez. Ela decidiu transformá-lo em diário.

Na primeira anotação, escrita naquele mesmo dia, disse que esperava poder confiar no caderno como nunca havia conseguido confiar em ninguém e passou a escrever como se conversasse com uma amiga íntima.

O diário registrava o que acontecia no esconderijo, mas ia muito além da guerra.

Anne escrevia sobre as brigas entre os moradores, sua relação com os pais e a irmã, amizades, mudanças em seu corpo, sexualidade, sentimentos por Peter, livros, natureza e seus sonhos para o futuro.

Ela queria se tornar escritora ou jornalista.

Em uma das passagens mais conhecidas, descreveu sua sensação de confinamento comparando-se a um pássaro com as asas cortadas, que se atira contra as grades de uma gaiola.

Pessoa segura um exemplar de O Diário de Anne Frank em uma livraria, diante de mesas repletas de livros.

Crédito,AFP via Getty Images

Legenda da foto,Mais de 35 milhões de exemplares do diário de Anne Frank já foram vendidos no mundo

4. Quem era Kitty, para quem Anne escrevia?

Kitty não era uma colega de escola nem uma amiga imaginária de Anne. O nome era de uma personagem da série infantojuvenil Joop ter Heul, escrita pelo autor holandês Setske de Haan sob o pseudônimo de Cissy van Marxveldt.

No começo, Anne direcionava seus textos a diferentes personagens da série. Mais tarde, passou a escrever principalmente para Kitty.

A mudança aconteceu depois que ela ouviu pelo rádio o ministro da Educação do governo holandês no exílio, Gerrit Bolkestein, defender a preservação de diários, cartas e outros documentos produzidos durante a guerra.

Anne então decidiu reescrever parte de seus textos pensando em uma futura publicação.

Em 29 de março de 1944, registrou no diário uma ideia que a empolgava: transformar a experiência no esconderijo em um livro sobre o "anexo secreto".

Ela não teria tempo de concluir o projeto.

5. O diário foi escrito uma única vez?

Não. Existem quatro versões principais do texto, identificadas pelas letras A, B, C e D.

A versão A é o manuscrito original de Anne. A versão B corresponde à reescrita que ela própria começou a fazer em 1944, pensando em transformar os registros em um livro.

Já a C foi organizada por Otto Frank para a publicação de 1947. Nessa edição, ele retirou ou resumiu trechos que considerava desnecessários, incluindo passagens sobre a sexualidade de Anne e críticas à mãe, Edith.

Já a versão D, preparada pela escritora e tradutora alemã Mirjam Pressler e publicada em 1995, recuperou trechos retirados da edição de Otto e ampliou o texto. A chamada "edição definitiva" tem mais de 700 páginas.

Por isso, o texto que milhões de pessoas conhecem como O Diário de Anne Frank é resultado de um processo de escrita, reescrita e edição.

Manuscrito original do diário de Anne Frank, aberto em uma vitrine e preenchido com anotações manuscritas e fotografias.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,O diário original, exposto na Casa de Anne Frank, em Amsterdã

6. Como o diário foi publicado?

A última anotação de Anne é de 1º de agosto de 1944. Três dias depois, em 4 de agosto, a Gestapo, como era chamada a polícia secreta oficial da Alemanha nazista, invadiu o esconderijo e prendeu os oito moradores. Até hoje, a razão pela qual o local foi descoberto permanece em debate.

Os escritos de Anne ficaram no esconderijo. Miep Gies e Bep Voskuijl recolheram os cadernos e papéis e os guardaram.

Otto Frank foi o único dos oito moradores do anexo a sobreviver à guerra. Depois de retornar a Amsterdã e descobrir que a mulher e as filhas haviam morrido, recebeu os textos de Anne.

Inicialmente, ele não conseguia lê-los. A dor era grande demais.

Quando finalmente abriu os diários, Otto descobriu uma faceta da filha que, segundo ele próprio, não conhecia daquela maneira. As páginas mostravam uma adolescente inteligente, expressiva e em processo de amadurecimento, além de revelar seus conflitos familiares, medos, desejos e ambições.

Otto fez cópias do material e mostrou os textos a amigos. Um deles, ligado a uma editora, o convenceu de que o diário não deveria permanecer apenas como um documento privado.

Em 25 de junho de 1947, sob o título Het Achterhuis — ou O Anexo Secreto — foi publicado na Holanda. A primeira tiragem teve pouco mais de 3 mil exemplares.

Nos Estados Unidos, o livro foi lançado em 1952 com o título Anne Frank: The Diary of a Young Girl, ou Anne Frank: O Diário de uma Garota. Antes disso, teve sua publicação recusada por 15 editoras americanas.

7. Quando Anne Frank morreu?

Depois de serem presos, os moradores do anexo foram levados para o complexo de campos de concentração Auschwitz-Birkenau. Otto foi separado da mulher e das filhas.

Anne e Margot foram posteriormente transferidas para Bergen-Belsen, na Alemanha. As condições no campo eram extremamente precárias e as duas adoeceram.

Elas morreram de tifo — um grupo de doenças infeciosas e agudas transmitidas através da picada de piolhos, pulgas ou ácaros — em fevereiro de 1945, com poucos dias de diferença. Anne tinha 15 anos.

Uma das últimas pessoas a vê-la com vida foi Nanette Blitz Konig, sua antiga colega no Liceu Judaico de Amsterdã. As duas voltaram a se encontrar em Bergen-Belsen, separadas por uma cerca de arame farpado.

Anne morreu poucas semanas antes de o campo ser libertado por tropas britânicas, em abril de 1945.

Seu corpo e o de Margot foram enterrados em uma vala comum.

Nanette Konig sobreviveu e, mais tarde, se casou e se mudou para São Paulo.

Foto em preto e branco de Otto Frank, um homem idoso, sentado e segurando um manuscrito aberto de O Diário de Anne Frank.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,O pai de Anne, Otto, recebeu os diários após a morte dela, em 1945

8. O diário é verdadeiro?

Sim. Mesmo assim, durante décadas o diário foi alvo de alegações de falsificação, sobretudo entre pessoas que negavam ou relativizavam o Holocausto.

Entre as teorias que circularam estava a de que Otto Frank teria escrito os textos da filha. Outras apontavam Miep Gies ou o dramaturgo americano Meyer Levin como possíveis autores.

Especialistas em caligrafia contratados pelo Instituto para Documentação de Guerra examinaram os manuscritos e confirmaram sua autenticidade.

O diário também já foi alvo de tentativas de censura. Em 1983, uma escola no Alabama, nos Estados Unidos, tentou bani-lo por considerá-lo "depressivo". Em 2018, uma escola de Vitória, no Espírito Santo, suspendeu sua leitura depois que trechos foram classificados como "pornográficos".

9. Por que o diário se tornou tão famoso?

Anne morreu aos 15 anos sem ver seu sonho de se tornar escritora realizado. Mas seu relato acabou chegando a milhões de pessoas.

O livro foi traduzido para mais de 70 idiomas e vendeu mais de 35 milhões de exemplares em todo o mundo — cerca de 400 mil deles no Brasil.

A obra também foi adaptada para o teatro, cinema, documentários, quadrinhos, animações e experiências de realidade virtual. Em 1956, a versão teatral recebeu o Prêmio Pulitzer. Três anos depois, a história foi levada às salas de cinema.

Em 1960, o antigo esconderijo da família em Amsterdã foi transformado na Casa de Anne Frank, aberta ao público. O local recebe, em média, cerca de 1,2 milhão de visitantes por ano.

O diário original está preservado e exposto no museu.

A importância da obra está também na perspectiva que ela oferece: em vez de apresentar apenas números e acontecimentos históricos, registra o cotidiano de uma adolescente que continuava estudando, brigando com os pais, se apaixonando, fazendo planos e escrevendo enquanto era perseguida pelos nazistas.

Anne registrou certa vez que queria "continuar vivendo depois da minha morte".

Otto Frank, ao explicar décadas depois por que decidiu publicar os escritos da filha, resumiu o sentido que atribuía àquela frase: por meio do diário, Anne continuaria vivendo na memória e no coração de outras pessoas.

*Texto escrito a partir de reportagens publicadas originalmente em 11 de junho de 2019, 29 de abril de 2022 e 24 de junho de 2024.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Mudar o mundo, mudando a si mesmo e suas circunstâncias




Ideia central: o indivíduo não é o único motor da história, nem uma peça totalmente determinada pelo ambiente. A verdadeira transformação ocorre quando a agência pessoal entra em "ressonância" com as instituições, o ambiente e as condições de sua época — primeiro mudando a forma como se compreende o mundo, depois mudando o pequeno ambiente ao redor, e a partir daí se desdobra o efeito borboleta.

A nova obra de Jared Diamond, Profits, Prophets, Coaches, and Kings: (When) Do Leaders Matter? (Lucros, Profetas, Treinadores e Reis: Quando os Líderes Importam?), publicada em setembro de 2026, é uma contribuição acadêmica importante para entender a questão de "como um indivíduo pode mudar o mundo". Diamond, conhecido por Armas, Germes e Aço, defendeu por muito tempo que forças geográficas e ecológicas moldam a história humana muito mais do que os indivíduos. Neste novo livro, ele revisa parcialmente essa posição, admitindo que, em condições específicas, os líderes realmente podem alterar o rumo da história, mas enfatiza o "quando" e não o "se".

O argumento central de Diamond

A descoberta central de Diamond é que os líderes nem sempre importam, nem nunca importam. Ele utiliza o método de "experimentos naturais" — observando as consequências de mortes súbitas ou substituições inesperadas de líderes — para chegar a uma conclusão fundamental: a influência de um líder depende fortemente do contexto. Quando as restrições institucionais são fortes e o poder é disperso, o papel individual é limitado; quando as instituições são frágeis, o poder é concentrado e surge uma "janela de oportunidade", o indivíduo pode ter uma influência desproporcional.

Ele propõe o "teste de Hamlet": somente quando ninguém mais pode substituir alguém e produzir o mesmo resultado é que essa pessoa realmente tem influência única. Diamond considera Shakespeare um dos pouquíssimos a passar nesse teste, enquanto a maioria dos líderes políticos e empresariais provavelmente não. Por exemplo, se Jesus não tivesse tido Paulo e a disseminação organizada pelo Império Romano, talvez fosse apenas um entre vários líderes de seitas judaicas da época; a ascensão de Gengis Khan está intimamente ligada às condições de precipitação das estepes.

Evidências e aprofundamentos da pesquisa acadêmica

A relação simbiótica entre instituições e liderança

Pesquisas recentes publicadas na ScienceDirect propuseram o quadro "Liderança como Mecanismo Institucional" (LaIM), indicando que a liderança eficaz não é produto do carisma pessoal, mas um processo social embutido em estruturas institucionais. As três dimensões da liderança — autoridade e poder, direção da governança e estrutura institucionalizada — determinam conjuntamente o sucesso ou fracasso dos sistemas de governança. Isso significa que mudar a si mesmo implica aprender a operar dentro das restrições institucionais, em vez de fantasiar em transcendê-las.

O historiador econômico Lee Alston revela ainda o mecanismo crucial pelo qual a liderança exerce seu papel: o papel modelador das crenças em "janelas de oportunidade". Quando choques econômicos ou políticos abalam as crenças existentes, os líderes podem reformular problemas, construir consenso e promover mudanças institucionais por meio de "cognição, coordenação, adaptação, imaginação e autoridade moral". Figuras como os fundadores dos Estados Unidos e Mandela são importantes precisamente porque aproveitaram essas janelas.

Evidências da gestão: os líderes realmente importam, mas de forma inesperada

Um estudo internacional publicado no Quarterly Journal of Economics descobriu que a contribuição de bons gestores para o desempenho da equipe é aproximadamente igual à soma da capacidade produtiva de toda a equipe. Mas o ponto crucial é que o sucesso do gestor depende principalmente da "capacidade de decisão econômica", não do carisma ou da personalidade. O estudo também descobriu que as pessoas mais motivadas a se tornarem gestoras frequentemente não são as mais adequadas.

Uma meta-análise intercultural sobre liderança transformacional mostra que a influência do estilo de liderança no desempenho é significativamente moderada pelo contexto cultural. Em culturas com alta aversão à incerteza, forte coletivismo e grande distância de poder, o impacto positivo da liderança transformacional sobre o comportamento de cidadania organizacional é mais pronunciado. Isso significa que a forma de "mudar a si mesmo" deve se adaptar às características culturais do ambiente, em vez de simplesmente transplantar modelos.

A perspectiva da liderança distribuída

Pesquisas de governança publicadas pela Cambridge University Press enfatizam que, mesmo quando surgem novos problemas e se exige "liderança forte", a liderança eficaz é, por natureza, distribuída. Comandos não se convertem automaticamente em ações; outras pessoas precisam compreender, interpretar, mobilizar recursos e superar resistências. Isso significa que o processo de mudar o mundo nunca é um monólogo de uma só pessoa, mas sim a amplificação da influência por meio da mudança da rede de relações e do ambiente institucional em que se está inserido.

Quadro integrado: por onde começa a mudança

Combinando a análise histórica de Diamond com a pesquisa acadêmica contemporânea, é possível extrair um quadro de ação:

Primeiro passo: mudar a si mesmo. Isso significa, antes de tudo, mudar os padrões cognitivos — compreender a estrutura da situação em que se está inserido, identificar quais restrições são rígidas e quais são moldáveis. O Hitler retratado por Diamond não mostrava nenhum sinal antes dos 30 anos de que se tornaria o Hitler posterior, o que demonstra que a própria "possibilidade de transformação" do indivíduo é uma variável histórica. A "cognição" e a "imaginação" enfatizadas por Alston também são pré-requisitos para que os líderes mudem estruturas de crenças.

Segundo passo: mudar o próprio pequeno ambiente. As pesquisas sobre liderança concordam que a influência começa em campos institucionais concretos. O quadro LaIM indica que os líderes precisam incorporar sua autoridade em rotinas diárias e estruturas de governança, em vez de depender do carisma pessoal. Estudos de campo no varejo mostram que, quando a qualidade dos gestores passa da média para excelente, as vendas anuais crescem 25% — este é um resultado direto de mudar a si mesmo em um ambiente organizacional concreto.

Terceiro passo: identificar e aproveitar as "janelas de oportunidade". A pesquisa de Alston mostra que choques (crises econômicas, mudanças políticas, disrupções tecnológicas) tornam as crenças existentes moldáveis. Nessas janelas, os indivíduos podem promover mudanças sistêmicas por meio da coordenação e do estabelecimento de quadros interpretativos. A análise de Diamond sobre Seretse Khama também mostra que os recursos diamantíferos de Botsuana só se transformaram em prosperidade sob um quadro institucional adequado, e Khama forneceu esse quadro.

Quarto passo: aceitar a influência distribuída. As mudanças mais duradouras geralmente não vêm da ação de um único "grande homem", mas da institucionalização de novas crenças e práticas que transcendem o mandato individual. O sucesso da Igreja Mórmon é atribuído por Diamond à combinação de "fundador carismático + organizador excelente + líder militar". A disseminação do cristianismo dependeu de Paulo e do Império Romano, não apenas de Jesus

Conclusão

O livro de Diamond oferece, em última análise, uma resposta de coloração dialética: as pessoas que mudam o mundo realmente existem, mas elas só conseguem mudá-lo porque primeiro compreendem como o mundo funciona e, em seguida, ao mudarem a si mesmas e ao pequeno ambiente em que estão inseridas, amplificam sua influência no momento adequado. Como a própria trajetória acadêmica de Diamond demonstra: ele primeiro mudou o quadro de explicação histórica (passando da visão de história dos grandes homens para o determinismo geográfico) e depois revisou parcialmente sua posição (reconhecendo o papel condicional dos líderes) — esse processo em si é uma prática de "mudar a si mesmo e suas circunstâncias".

A base para a ação não está na questão grandiosa demais de "posso eu mudar o mundo", mas sim em: Na situação atual, o que é moldável? Em qual rede de relações concreta posso começar a mudar? Estou preparado para identificar e aproveitar a "janela de oportunidade" que me pertence?