SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Um futuro sem atalhos da esquerda brasileira da "defesa" para a "construção" Por Egidio Guerra.




Nas eleições brasileiras de 2026, os candidatos da direita estão vendendo a "mudança" como patente própria. Mas ao abrir seus programas, a tal "novidade" não passa de refilmagem de roteiro antigo: Flávio Bolsonaro promete cortar dez ministérios, retomar privatizações em larga escala e transformar o financiamento da educação em vouchers para escolas privadas; o "Plano Implacável" de Romeu Zema é ainda mais explícito — vender tudo o que for possível, sair do BRICS e até propor que cada recém-nascido receba mil reais para comprar ações, com o belo nome de "educação financeira".

O denominador comum dessas propostas é claro: reduzir a capacidade do Estado e usar o dinheiro economizado para pagar juros da dívida, não para servir ao povo. Os dados mostram que, só em janeiro de 2026, o governo brasileiro pagou 63,6 bilhões de reais em juros da dívida — o equivalente a um quarto do orçamento anual da saúde. O projeto de "Estado mínimo" da direita é, na essência, entregar mais espaço fiscal aos credores e menos recursos a escolas e hospitais.

Se a esquerda se limita a dizer "não queremos isso", está longe de ser suficiente. O Brasil precisa de um programa alternativo igualmente concreto, com a mesma imaginação institucional. E é exatamente aí que está o vazio atual.

Olhando para o mundo, as referências da esquerda não são escassas.

A experiência chilena ensina o limite do "governo defensivo". Em 2026, parlamentares do Partido Comunista do Chile declararam, na posse, que diante de um governo de direita sua tarefa é "defender o que já foi conquistado, não ceder". Resistir é necessário, mas resistir não é governar. A ex-candidata presidencial da esquerda chilena, Jeannette Jara, admitiu em sua autocrítica que a esquerda precisa de uma "autocrítica incômoda" e precisa voltar a ser maioria "no plano cultural, não apenas no eleitoral". A postura puramente defensiva não responde a uma pergunta fundamental: para onde a esquerda quer levar o país?

O Partido del Trabajo (PT) do México mostra outro caminho: fazer uma governança "pequena e concreta" no nível local. No município de Compostela, em Nayarit, após catorze anos de organização comunitária, o projeto habitacional "Vista Hermosa" promovido pelo PT finalmente foi aprovado, garantindo a mais de quinhentas famílias titularidade da terra e o direito de construir. Em Chilón, Chiapas, o PT fortalece conselhos de base, fazendo de comunidades indígenas, jovens e mulheres sujeitos da participação política, e não receptores passivos de políticas públicas. Não são vitórias de grande narrativa, mas são a base da credibilidade da governança de esquerda — a prova de que a ação pública pode mudar vidas concretas.

A "política de tijolo por tijolo" do prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, oferece uma referência mais direta. Ao completar cem dias de governo, esse prefeito que se define socialista democrático disse o seguinte: "Se o governo não consegue fazer bem as pequenas coisas, por que o povo acreditaria que ele fará as grandes?" Seu plano habitacional é ambicioso — construir ou preservar 400 mil moradias acessíveis, ampliar a proteção aos inquilinos, acelerar licenças. Mas ele reconhece que promessas grandiosas como transporte público gratuito exigem, diante da realidade fiscal, "pilotos" e "negociação". A estratégia de Mamdani é acumular confiança com entregas concretas, não a esgotar com slogans. Esse "socialismo pragmático" não é traição ao ideal, mas honestidade diante da complexidade de governar.

Bernie Sanders oferece a imaginação de desenho institucional. Seu projeto de "Fundo Soberano de IA dos Estados Unidos" propõe uma taxação única de 50% sobre as maiores empresas de IA, com as ações depositadas num fundo soberano gerido por um conselho independente, para que o público tenha participação direta na indústria de IA e use os dividendos para financiar saúde, educação e moradia. Ele também defende a jornada de 32 horas semanais, com o argumento de que os ganhos de produtividade trazidos pela IA e pela automação devem ser compartilhados com os trabalhadores, não ficar inteiramente com os acionistas. A via de Sanders não é "oposição ao progresso técnico", mas "colocar o progresso técnico a serviço do público". Essa é a postura que a esquerda deve ter diante da economia do século XXI — não nostalgia, mas ocupar os altos institucionais do futuro.

Juntando essas pistas, o projeto de futuro da esquerda brasileira pode ter alguns pilares:

Primeiro, transformar a "reindustrialização" e a "soberania digital" em narrativa econômica da esquerda, e não patente da direita. Se Sanders pode propor um fundo soberano para capturar o valor público da IA, por que o Brasil não poderia considerar mecanismos semelhantes? O Brasil tem dados, energia e mercado; o que falta são instrumentos institucionais para trancar o valor gerado por recursos públicos num fundo de interesse coletivo. O plano da direita é "vender"; o da esquerda pode ser "ter, e fazer cada pessoa receber sua parte".

Segundo transformar o "espaço fiscal" de questão técnica em questão política. Toda a narrativa econômica da direita se apoia numa premissa: os juros da dívida pública são uma "lei natural" inegociável. Mas o fato é que o gasto com juros é uma escolha política — que opta por proteger credores em vez de contribuintes. A esquerda precisa dizer com clareza: cada corte de imposto para os ricos, cada manutenção de uma Selic exorbitante, é dinheiro tirado do orçamento de escolas, postos de saúde e transporte público. A questão não é "se há dinheiro", mas "para quem o dinheiro é gasto". 

Terceiro, fazer da "governança comunitária" a base da legitimidade da esquerda no poder. O projeto habitacional do PT mexicano levou catorze anos, mas seu valor não está na velocidade, e sim em provar que o modelo de governança de esquerda pode produzir ativos reais, visíveis e pertencentes ao povo. A esquerda brasileira precisa de mais "obras demonstrativas" assim — não simbólicas, mas replicáveis: farmácias públicas municipais, fundos comunitários de terra, projetos cooperativos de energia. Sucessos em pequena escala convencem mais politicamente do que discursos em grande escala. 

Quarto, recusar a "política identitária defensiva" e construir uma "política material da maioria". A dificuldade da esquerda chilena decorre em parte disso: após a derrota eleitoral, a narrativa se concentrou excessivamente em "barrar a direita", e não em "por que votar em nós". A esquerda brasileira precisa de um programa que faça o eleitor não ideológico — aquele que só se preocupa com preços, emprego e a escola dos filhos — enxergar seu próprio interesse. Isso significa que a esquerda precisa ser protagonista da "política do custo de vida", e não apenas tomar posição em pautas culturais. 

A "novidade" da direita é falsa. Sua "mudança" é andar para trás — voltar ao velho consenso do Estado mínimo e do mercado onipotente. Mas a esquerda não pode ganhar apenas dizendo "eles mentem". Precisa de um programa alternativo igualmente claro, igualmente concreto, igualmente verificável: um projeto de futuro que use recursos públicos para fins públicos, que coloque o progresso técnico a serviço da prosperidade compartilhada e que centre a governança na vida cotidiana das pessoas. 

Não é a defesa à moda chilena, não é o localismo à moda mexicana, e não é exatamente o modelo de Nova York ou de Vermont. Precisa ser brasileiro — mas seu núcleo espiritual é comum: a política de esquerda é, no fundo, a política de "quem se beneficia da riqueza do país". A resposta tem de ser: todos, e não apenas credores, acionistas e quem pode pagar escola privada. 

 

Os níveis atuais de migração não são excepcionalmente altos


 Mito da migração 22/1: Vivemos em tempos de migração em massa sem precedentes


Nos próximos meses, compartilharei 22 resumos curtos dos argumentos centrais em Como a Migração Realmente Funciona. Cada resumo contrasta o senso comum sobre uma grande questão migratória com evidências científicas sobre a natureza, os fatores e os impactos da migração.

O SENSO COMUM

A migração global está em um nível recorde e acelerando rapidamente. O mundo nunca experimentou tanta migração, e o número de pessoas está aumentando rapidamente. Pobreza extrema, crescimento populacional, opressão, guerra e mudanças climáticas levam a uma migração acelerada rapidamente. O aumento da desigualdade e a maior facilidade de viagem e comunicação aumentaram ainda mais as pressões migratórias. Um número crescente de pessoas pobres se aglomera em cidades e destinos no exterior, superando a capacidade de absorção das sociedades ocidentais. As crises migratórias e de refugiados que se multiplicam rapidamente ao redor do mundo mostram que, a menos que esses problemas sejam tratados com urgência, esse êxodo crescente do Sul para o Norte sairá do controle.

COMO REALMENTE FUNCIONA

Os níveis atuais de migração não são excepcionalmente altos. Migrantes internacionais representaram de 3 a 4% da população mundial nas últimas décadas. Os níveis relativos de migração global foram maiores no final do século XIX e início do século XX. A principal mudança tem sido na direção geográfica dominante da migração, especialmente por meio da transformação da Europa da principal fonte mundial de emigrantes em um grande destino migratório. Como parte dessa 'reversão migratória global', os não europeus representam uma parcela crescente das populações imigrantes em expansão nos países ocidentais. No entanto, as evidências desafiam a ideia de um êxodo massivo Sul-Norte. Como a migração é cara e a maioria das pessoas prefere ficar perto de casa, a maioria dos migrantes se muda para dentro de países – cerca de quatro em cada cinco – ou para países vizinhos. Embora a migração de refugiados flutue fortemente com os níveis de conflito, os refugiados representam entre 7 e 12% dos migrantes internacionais. Isso desafia a ideia popular de uma crise migratória global que está saindo do controle.

Esta é a parte 1 de uma série de 22 resumos curtos dos principais argumentos em How Migration Really Works, publicado pela Penguin e disponível ou a ser publicado em 15 idiomas. As evidências e análises completas podem ser encontradas no livro: https://lnkd.in/eeiyBAVX

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A mãe que viralizou ao correr descalça (e vencer) uma corrida para poder comprar o material escolar da filha

 

Vestida com um sári longo, esvoaçante, colorido e estampado, e segurando seus tênis na mão direita, Ramabai Ranveer, de 47 anos, corre por uma avenida indiana na corrida popular Amrit Daud, de 3 km.

Crédito,Kiran Sakle/BBC

Legenda da foto,Ramabai Ranveer venceu a corrida aos 47 anos
    • Author,Shrikant Bangale*
    • Role,BBC News Marathi
  • Published
  • Tempo de leitura: 6 min

Apesar de sua falta de experiência, e até mesmo de tênis para correr, Ramabai Ranveer venceu sua primeira corrida em agosto, correndo descalça até a linha de chegada.

A participação dessa mãe viúva de 47 anos em uma corrida de 3 quilômetros na Índia foi motivada pelos custos do ensino superior de sua filha.

Ela disse estar "muito feliz" por poder destinar seu prêmio de R$ 160 à compra de livros e material escolar.

Na Índia, os esforços extraordinários de Ramabai para conseguir uma quantia tão pequena, em comparação com o custo de uma graduação universitária, causaram grande repercussão.

Protestos relacionados à educação abalaram o país durante grande parte do ano, enquanto um movimento juvenil satírico dá vazão às frustrações de uma geração desiludida.

Segundo um relatório do governo do mês passado, apenas 8% dos graduados universitários conseguem empregos em que podem usar os conhecimentos adquiridos em seus cursos.

E, com 29,1%, a taxa de desemprego entre os graduados é nove vezes maior do que a daqueles que nunca frequentaram a universidade.

Ramabai Ranveer, de 47 anos, vestida com um sári longo, esvoaçante, colorido e estampado, corre por uma avenida indiana na corrida popular Amrit Daud, de 3 km.

Crédito,Kiran Sakle/BBC

Legenda da foto,A façanha de Ramabai descalça cativou as redes sociais.

Enquanto a indignação estudantil se insere em uma onda de reivindicações econômicas mais amplas, a notícia da façanha de Ramabai cativa as redes sociais e os principais jornais do país.

Para alguns, sua conquista personifica o sacrifício de uma mãe e até onde os pais estão dispostos a ir para tirar seus filhos da pobreza.

Para outros, ela resume a deterioração que permeia o sistema educacional da Índia e a inutilidade de acreditar que ele pode servir como um meio de mobilidade social.

"É um momento de glória ou de vergonha para nós como sociedade?", publicou a usuária de redes sociais Shoma Sarkar abaixo de um vídeo da corrida.

Prêmio em dinheiro

Ramabai soube da competição por meio de sua filha mais velha, Pooja, de 22 anos.

"Minha filha veio me ver cedo pela manhã e disse: 'Mãe, quero participar de uma corrida'", contou ela à BBC de sua casa em Maharashtra.

"Perguntei onde seria, e ela disse que era perto. Ela me disse que, se ganhasse o prêmio, isso ajudaria nos estudos dela."

"Minha filha mais nova vive em outra cidade. Eu não conseguia dar dinheiro a ela para comprar livros, e por isso ela não me telefonou durante oito dias. Então decidi que tinha de correr e vencer a corrida."

"Meu único desejo era ganhar esse prêmio."

Ramabai Ranveer, de 47 anos, vestida com um sári longo, esvoaçante, colorido e estampado, está no meio de uma fila de participantes vestidas de maneira semelhante na categoria de 30 a 60 anos da corrida popular Amrit Daud, de 3 km.

Crédito,Kiran Sakle/BBC

Legenda da foto,Ramabai correu mais rápido em sua categoria etária, de 30 a 60 anos.
Com o mesmo sári longo, esvoaçante, colorido e estampado com o qual Amrit Daud correu a corrida popular de 3 km, Ramabai Ranveer, de 47 anos, está sentada de pernas cruzadas no chão, preparando a comida.

Crédito,Kiran Sakle/BBC

Legenda da foto,Tendo abandonado a escola aos 13 anos, Ramabai estava determinada a que suas filhas fossem mais longe.

Ramabai estava tão determinada que, mesmo quando seus tênis começaram a escorregar durante a corrida, ela simplesmente os tirou, ajeitou o sari e continuou correndo.

Sem nenhuma limitação, ela conseguiu ultrapassar as demais competidoras de sua faixa etária, de 30 a 60 anos, e conquistar a vitória.

Sua filha Pooja também levou para casa um prêmio de R$ 102 após ficar em segundo lugar em sua categoria de idade e descreveu a mãe como "corajosa".

Ramabai assumiu a responsabilidade pelo lar em 2012, após a morte de seu marido.

"Fiz qualquer trabalho que consegui encontrar", declarou ela à BBC.

"Colhia soja e grão-de-bico nos campos de outras pessoas. Também colhia cúrcuma, cozinhava e vendia."

E, tendo abandonado a escola aos 13 anos, Ramabai estava determinada a que suas filhas fossem mais longe.

"Acho que, enquanto eu estiver viva, devo fazer tudo o que puder para dar às minhas filhas uma boa educação."

Com um livro didático volumoso na mão, vestida com uma blusa rosa listrada e com o cabelo comprido preso, Pooja, de 22 anos, está em pé no campo indiano, sorrindo para sua mãe, Ramabai Ranveer, de 47 anos, que usa o mesmo sári longo, esvoaçante, colorido e estampado com o qual correu a corrida popular de 3 km de Amrit Daud, e que a abraça.

Crédito,KiranSakle/BBC

Legenda da foto,Pooja está se preparando para o recrutamento policial na academia onde Ramabai trabalha como cozinheira.

Tanto Pooja quanto sua irmã, Arati, estão tentando passar nos exames de ingresso para empregos no Estado.

Pooja está se preparando para o recrutamento policial na academia onde sua mãe trabalha como cozinheira. Arati, estudante de Ciência da Computação na universidade, está se preparando para os prestigiados exames do serviço público.

No país mais populoso do mundo, os empregos no Estado oferecem uma das poucas vias de acesso à classe média, além de segurança vitalícia, com pensão e subsídios para moradia.

Milhões de estudantes investem anos e muito dinheiro na preparação para esses exames de grande importância.

Mas irregularidades colocaram em dúvida a integridade dessas provas, que determinam o futuro dos candidatos.

Em maio, o principal exame de ingresso para a faculdade de medicina da Índia, o Exame Nacional de Elegibilidade e Admissão (para estudos de graduação), foi cancelado após um vazamento, obrigando quase dois milhões de estudantes a refazerem a exaustiva prova.

Reivindicação política

Uma explosão de indignação sem precedentes transformou o satírico Partido Popular da Barata (CJP) em um movimento juvenil, e os protestos multitudinários liderados pela Geração Z culminaram na renúncia do ministro da Educação em julho passado.

A campanha agora se ampliou com a exigência de modernizar as escolas públicas, começando por enfrentar a infraestrutura em ruínas e as persistentes desigualdades nas áreas rurais.

"As crianças das áreas rurais da Índia deveriam receber, no mínimo, uma educação digna", disse Abhijeet Dipke, fundador do CJP, à BBC durante uma visita recente a uma escola perto do distrito de Ramabai.

A escola não tinha banheiros para as alunas, e pacotes de comida vencidos eram usados para preparar o almoço.

Com o mesmo sári longo, esvoaçante, colorido e estampado com o qual Amrit Daud correu a corrida popular de 3 km, Ramabai Ranveer, de 47 anos, está sentada de pernas cruzadas no chão, preparando a comida.

Crédito,Kiran Sakle/BBC

Legenda da foto,Ramabai quer que suas filhas estejam livres das dificuldades de sua própria vida.

A façanha de Ramabai chamou a atenção das autoridades.

No início deste mês, o presidente da Suprema Corte da Índia, Surya Kant, ordenou que o distrito lhe concedesse uma ajuda financeira de R$ 2,5 mil.

Mas Sukhadeo Thorat, que presidiu a Comissão de Subsídios Universitários, afirma que Ramabai e suas filhas evidenciam problemas sistêmicos mais profundos:

"Se uma mulher é obrigada a fazer todo o possível pela educação de suas filhas, isso demonstra que os programas educacionais do governo não estão sendo implementados adequadamente."

"Tanto o governo central quanto os governos estaduais administram diversos programas educacionais, mas sua implementação não é adequada", acrescentou.

Enquanto isso, Ramabai deseja apenas que suas filhas "vivam uma vida feliz".

"Não quero que elas passem pelas dificuldades que enfrentei", declarou ela à BBC.

"Não quero que tenham de lutar contra a lama nem viajar sob o sol escaldante e a chuva."

"Seja o que for que eu tenha sofrido, não quero que minhas filhas sofram o mesmo."

*Com reportagem adicional de Laignee Barron.