SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

A física de origem cubana que construiu avião aos 14 anos e teve trabalho citado por Stephen Hawking

 

Sabrina González Pasterski com um vestido preto falando em um microfone

Crédito,Rich Polk/Getty Images

Legenda da foto,Sabrina González Pasterski teve sua primeira candidatura à Universidade de Harvard rejeitada e ficou na lista de espera do MIT, mas depois brilhou como aluna de ambas as instituições
    • Author,Margarita Rodríguez
    • Role,BBC News Mundo
  • Tempo de leitura: 10 min

"O que seria de mim sem minha mãe e o que seria dela sem sua história familiar? É difícil separar a identidade de alguém da própria realidade."

Assim escreveu Sabrina González Pasterski em um e-mail enviado à BBC Mundo — serviço em espanhol da BBC — em 2020, para enfatizar que ela se reconhece como membro da comunidade latina.

física havia sido uma das dez jovens de origem latino-americana selecionadas pela equipe da BBC Mundo como figuras inspiradoras nos Estados Unidos.

Seis anos depois, voltamos a conversar com a cientista, que nasceu em Chicago, em 1993.

Atualmente, ela atua no prestigiado Instituto Perimeter de Física Teórica, no Canadá, onde lidera a Iniciativa de Holografia Celestial, que reúne um grupo de pesquisadores que tenta responder uma questão: seria possível uma teoria bidimensional descrever o Universo?

A jovem, que teve sua primeira candidatura à Universidade de Harvard rejeitada e ficou na lista de espera do MIT, brilhou anos depois como aluna de ambas as instituições.

Alguns dos trabalhos em que participou, junto a outros pesquisadores, foram citados por Stephen Hawking, e contribuíram para novas previsões sobre ondas gravitacionais.

Três desejos

Pasterski conta que sua mãe, Maria, nasceu em Cuba, e se mudou para os EUA ainda pequena, com os pais e a irmã.

Quando era adolescente, entre os 12 e 14 anos, Sabrina construiu seu próprio avião.

"Sempre gostei muito da ideia de ver como as coisas vão se juntando, como peças muito pequenas se juntam para formar algo maior", conta.

Aos 16 anos, pilotou o avião que ela mesmo havia construído, o que chamou atenção da imprensa americana.

Logo depois vieram as conquistas acadêmicas e reconhecimentos, com destaque em revistas como Time, Forbes e Scientific American.

Sabrina González Pasterski usa um vestido e brinca com um cachorro-robô

Crédito,Arquivo Pessoal/Sabrina González Pasterski

Legenda da foto,Sabeina Pasterski quando tinha quatro anos

Alguns veículos de comunicação chegaram a chamá-la de "a nova Einstein", um rótulo que ela considera inadequado.

Com a projeção vieram também convites para entrevistas e palestras em diferentes plataformas ao redor do mundo.

Em uma delas, durante o Perspektywy Women in Tech Summit, em 2019, ela disse que tinha três desejos para as mulheres que atuam na área de tecnologia.

"Não sucumbamos àqueles que querem nos fazer duvidar de nós mesmas", disse ela sobre o primeiro desejo.

O segundo foi: "que resistamos à pressão daqueles que querem planejar nosso futuro por nós".

E o terceiro foi sobre não ter medo de tirar um tempo de folga.

Sem medo da mudança

"Você ainda tem esses desejos?", pergunto a ela.

"Sim, mantenho o que disse", ela responde, rindo.

"Quando a gente é mais jovem, é comum sentir a necessidade de se encaixar, de acompanhar o ritmo de colegas igualmente brilhantes, mas a verdade é que cada pessoa conduz suas pesquisas de uma maneira."

"O que você deve tentar fazer é descobrir o que realmente te motiva."

Sabrina González Pasterski, usando um gorro rosa e uma jaqueta azul, e vendo peças de um avião.

Crédito,Arquivo Pessoal/Sabrina González Pasterski

Legenda da foto,Sabrina construiu seu próprio avião quando era adolescente
Sabrina González Pasterski trabalhando com peças de metal e ferramentas

Crédito,Arquivo Pessoal/Sabrina González Pasterski

Legenda da foto,Pasterski construindo o avião na garagem de casa, quando tinha 13 anos
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Quando ela fala sobre não ter medo de tirar um tempo para si, ela se refere à importância de fazer uma pausa para "descobrir o que realmente lhe dá prazer", sem medo de que isso leve a uma mudança de rumo.

E isso se alinha não apenas com sua recomendação de "ter certeza de que você está fazendo o que quer fazer", mas também com a sua própria trajetória.

Pasterski percebeu que sua paixão de infância pela aeronáutica não era o caminho que ela queria seguir. Foi quando descobriu a física.

"Sabrina é uma das pesquisadoras que realizou trabalhos que, na ciência, chamamos de seminais — publicações que serviram como ponto de partida para uma nova área da Física Teórica", afirmou à BBC Mundo Francisco Rojas, professor da Universidade Adolfo Ibáñez, no Chile.

Ele se refere à holografia celestial, área na qual também atua.

Depois do trabalho em parceria com o físico Andrew Strominger, pioneiro dessa nova vertente da física, "Sabrina continuou sendo um dos principais nomes dessa área. É impressionante a quantidade de artigos que ela já publicou".

'Olhar para o céu noturno'

Em um vídeo do Instituto Perimeter, Pasterski fala da holografia celestial.

"Por celestial, nos referimos literalmente a olhar para o céu noturno: como o Universo físico é codificado como um holograma?", explica.

Para entender a transcendência do seu trabalho, é preciso fazer uma breve viagem no tempo, relembrar o trabalho de físicos brilhantes e ter em mente que as duas teorias mais poderosas sobre o Universo — a relatividade geral e a mecânica quântica — não são compatíveis.

Um dos físicos que tentou fazer com que elas dialogassem foi Stephen Hawking.

Ao lado de Jacob Bekenstein, Hawking realizou, nos anos 1970, cálculos que foram revolucionários.

"Esses cálculos deram o primeiro pontapé do que se chama hoje de holografia", destaca Rojas.

Stephen Hawking em sua cadeira de rodas, usando uma roupa preta. Atrás dele há um painel onde se lê: Buracos negros estão fora nosso campo de visão.

Crédito,MENAHEM KAHANA/AFP via Getty Images

Legenda da foto,Trabalhos em que Pasterski participou com outros pesquisadores foram citados por Stephen Hawking

Os dois cientistas calcularam a entropia e a temperatura de um buraco negro.

A entropia é uma grandeza fundamental, presente basicamente em todos os sistemas físicos, e está relacionada à quantidade de informação contida neles.

"Misturando as leis da relatividade geral — que descrevem o surgimento dos buracos negros — com as equações da mecânica quântica, eles chegaram a algo revolucionário", explica o especialista.

Eles descobriram que a entropia do buraco negro não era proporcional ao seu volume, mas sim à sua área.

"Como assim? Se o buraco negro tem coisas dentro, está cheio de estrelas, gases...como é possível que a entropia aumente com a área e não com o volume? Isso foi algo radical."

O princípio holográfico

Anos depois, seriam feitas algumas pesquisas que acabariam levando ao campo que hoje tem Pasterski entre suas principais referências.

Leonard Susskind publicou "The world as a hologram" (O mundo como um holograma, na tradução livre para o português), em que uniu teorias de outros físicos de destaque, entre eles Bekenstein e Hawking.

"E o que ele nos diz é: 'Olhem, o que acontece nos buracos negros talvez aconteça no Universo inteiro. Talvez a nossa realidade tridimensional seja algo que acontece nos limites do Universo, e tudo o que acontece aqui seja, na verdade, uma espécie de holograma do que está acontecendo lá fora'", explica o professor Rojas.

Andrew Strominger usando óculos, terno preto, uma camisa branca e gravata borboleta preta. Ele está sentado e na frente dele há um microfone em cima da mesa.

Crédito,Kelly Sullivan/Getty Images

Legenda da foto,Andrew Strominger, um dos pioneiros da holografia celestial, ganhou em 2017 o Prêmio Breakthrough por suas contribuições "transformadoras" para a teoria quântica de campos, a teoria das cordas e a gravidade quântica

E assim chegamos ao princípio holográfico.

O que esse princípio propõe é que "toda a informação de um sistema físico — levando em conta todos os efeitos da mecânica quântica e da gravidade — não está realmente codificada no volume tridimensional em que ele existe, mas sim na borda bidimensional desse volume", explica Rojas.

Se isso for verdade na escala do Universo, a implicação seria que "a nossa própria realidade poderia estar acontecendo na borda do nosso próprio Universo".

A holografia celestial busca justamente generalizar o princípio holográfico e aplicá-lo a um Universo que não se expanda de forma acelerada.

Citada por Stephen Hawking

Na Iniciativa da Holografia Celestial do Instituto Perimeter, Pasterski lidera um grupo de pesquisadores que se dedicam a "unir nossa compreensão do espaço-tempo com a teoria quântica, codificando nosso universo como um holograma", diz o site do instituto.

Anos antes, após se graduar no MIT como a melhor aluna do programa de Física, com uma média perfeita de 5, Pasterski fez seu doutorado em Harvard sob supervisão de Andrew Strominger, um dos maiores representantes da holografia celeste.

Sabrina González Pasterski escrevendo com giz em um quadro

Crédito,Gabriela Secara/Perimeter Institute

Legenda da foto,Pasterski entrou no MIT aos 17 anos e, em 2021, integrou o Instituto Perimeter, um dos principais centros de pesquisa dedicados à física no mundo

Lá, ela ajudou a descobrir o chamado spin memory effect, ressalta o Instituto Perimeter, e ajudou a completar o chamado triângulo infravermelho — pesquisa que foi citada por Stephen Hawking.

Esse estudo está relacionado às ondas gravitacionais e aos fenômenos do eletromagnetismo quântico.

"Ao citá-lo, Hawking o destaca como um trabalho muito importante para o futuro da física", afirma Rojas.

"É uma descoberta bastante relevante porque, hoje em dia, não é comum que um artigo científico em física preveja algo que possa ser medido experimentalmente em um prazo relativamente curto."

A comparação com Einstein

Pasterski já disse que não se sentia muito confortável em ser chamada de "a próxima Einstein".

"Primeiro porque isso foi dito quando Hawking citou o trabalho que eu participei com o Andrew (Strominger). Eu estava apenas no segundo ano do meu doutorado", disse à BBC mundo.

"Foi curioso porque meus pais, que não têm nada a ver com física, ao verem esse reconhecimento, achavam que eu estava indo muito bem. Mas eu sentia que não era bem assim."

Sabrina González Pasterski sorrindo.
Legenda da foto,Pasterski durante entrevista com a BBC Mundo via chamada de vídeo

"O que mais me incomodava era pensar que, se eu realmente fosse uma grande cientista, minha vida seria diferente, e eu via isso pelas pessoas que ganhavam os prêmios Nobel. Isso sim era algo concreto e duradouro", declarou.

"A outra questão é que esse tipo de rótulo não ajuda em nada se você está em uma área com milhares de pessoas. Não é justo."

Ela afirma que a história do avião provavelmente fez com que ela chamasse mais atenção "do que outras pessoas que também eram brilhantes".

"Durante um tempo, isso me incomodou porque eu sentia que não estava à altura [da comparação] e depois veio a pergunta: será que posso transformar isso em algo útil, positivo? Acho que a maturidade e o fato de ser professora me ensinaram que o legado de Einstein é algo que todo o nosso campo está tentando dar continuidade."

"Até que ponto podemos ter um pouco mais de controle sobre essa narrativa? Não precisa ser sempre sobre estrelas que se destacam. Por exemplo, Edward Witten, qualquer um dos professores do Instituto de Estudos Avançados, em Princeton, meu orientador… há muitas estrelas, e nem todas escrevem livros ou tentam chamar atenção."

Para Pasterski, o ponto central é como usar a visibilidade e o reconhecimento de uma forma que beneficie o campo da física como um todo e ajude a criar pontes com outras áreas, como o setor de tecnologia e a Inteligência Artificial, por exemplo.

"Eu adoro a ideia de transformar esse tipo de atenção em algo positivo — de promover uma colaboração entre a academia e a indústria que nos ajude a resolver problemas e a fazer pesquisa de maneira mais eficiente, inovadora e interessante."

Uma lacuna a ser preenchida

Tentar unir a teoria da relatividade geral e a mecânica quântica se tornou um dos maiores desafios da física, que já mobilizou várias gerações de cientistas.

Mas é assim que a pesquisa científica funciona, afirma Pasterski.

Edificio do Instituto Perimeter

Crédito,Universal Images Group via Getty Images

Legenda da foto,O Instituto Perimeter, onde Sabrina Pasterski lidera um grupo de pesquisa

Quando você se dedica a estudar um problema pequeno na física, está se apoiando "nos ombros de gigantes" que ficaram presos em um ponto específico — e é justamente ali que você encontra uma lacuna importante a ser preenchida.

É isso que ela, junto com sua equipe, está tentando fazer com suas pesquisas, que levam em conta a gravidade quântica, os estudos de Hawking, os experimentos realizados a partir deles, a teoria quântica de campos e a teoria das cordas, entre outros.

"Existem exemplos específicos em que foram feitas tentativas de se estudar uma teoria da gravidade quântica procurando uma descrição que fosse equivalente, mas sem gravidade — e é nisso que eu trabalho", afirma.

Com seu grupo de pesquisadores, ela procura criar um marco teórico geral que seja "mais realista" do ponto de vista da física.

"É como se a própria física nos dissesse que existem descrições mais simples que podem nos levar a compreender muito mais coisas."

E, para encontrar respostas, é fundamental contar com um "marco matematicamente consistente".

"O objetivo é tentar encontrar um conjunto de leis altamente condensadas que depois expliquem todos esses outros fenômenos que estamos observando. Acho que essa é a missão que temos como grupo."

Outra forma de ver o Universo

É assim que Pasterski e sua equipe estão tentando ver o Universo de uma forma totalmente nova.

"Eu gostaria que as pessoas soubessem que a descrição do Universo pode ser mais simples do que todas as coisas que surgem a partir dele — e que estamos tentando encontrá-la."

"No fundo, acho que acreditamos que existe, em algum lugar, um conjunto de regras fundamentais das quais tudo emerge. Seria incrível entender quais são. Isso é fascinante."

"Então, o Universo é um holograma?", pergunto.

"Acredito que podemos descrevê-lo como um holograma, sim. E então surge a pergunta: é essa uma descrição útil?"

E, se você, leitor, está se perguntando por que a palavra "celestial" aparece no nome desse ramo da física, o professor Rojas explica que é porque a teoria propõe que muitos dos fenômenos físicos que observamos — como as interações entre partículas subatômicas ou os vestígios deixados por colisões de buracos negros no espaço — podem ser compreendidos como uma projeção em uma esfera…

Tal como as estrelas projetam seu brilho no céu noturno.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

A Filosofia do Amor-Condenação: Uma Ética da Ferida Compartilhada Por Egidio Guerra.






I. A Primeira Lei: O Coração Partido é um Espelho

Heathcliff e Catherine Earnshaw, Edmond Dantès e Mercédès. Em ambos os épicos, o amor não é uma força suave, mas um elemento da natureza, tão vital e devastador quanto um vendaval no morro ou uma tempestade no mar. A filosofia que emerge destas narrativas nos ensina uma verdade primordial e cruel: o coração de quem amamos não é um território separado do nosso; é uma extensão da nossa própria alma.

Quando Catherine declara "Eu sou Heathcliff", ela não está apenas sendo poética. Ela está enunciando a lei fundamental desta filosofia. Ferir a pessoa amada não é um ato dirigido a um "outro", é uma automutilação. A vingança, nesse contexto, revela-se o mais trágico dos equívocos. Heathcliff, ao destruir tudo o que Catherine amava, acreditava estar punindo o mundo que os separou, mas a cada golpe, era a sua própria imagem no espelho que se estilhaçava. Monte Cristo, ao orquestrar a queda meticulosa de seus inimigos, descobriu que a ruína que espalhava ao redor respingava de volta, enegrecendo a memória do amor que o guiava. A ética que daqui se extrai é: antes de agir, pergunta-te se a dor que desejas infligir é uma dor que estás disposto a habitar para sempre.

II. A Segunda Lei: O Amor como Condenação Sem Justiça

O amor, em sua forma mais absoluta, não é uma escolha. É uma condenação. Não há tribunal, não há apelo, não há justiça que possa revertê-la. Heathcliff não escolheu amar Catherine; estava destinado a ela desde o momento em que foram forjados pelo mesmo barro selvagem. Dantès não escolheu amar Mercédès; era a âncora que o mantinha são antes do abismo do Castelo de If.

Esta condenação é intrinsecamente injusta. Não nos é prometido que o amor será correspondido na mesma medida, nem que o mundo permitirá que ele floresça. A sociedade, as mentiras, o tempo e o acaso conspiram contra ele. Catherine casou-se com Edgar Linton por status e segurança, uma "injustiça" que condenou a si e a Heathcliff a uma vida de tormento. Mercédès, acreditando Edmond morto, sucumbiu à pressão do tempo e casou-se com Fernand, um erro que nenhum dos dois pôde reparar completamente.

A ética desta condenação não está em buscar a justiça onde ela não existe, mas em reconhecer a soberania da ferida. Aceitar que amamos alguém é aceitar que carregaremos a sua marca, como um ferrete, para sempre. Não há como apagar. A justiça é um conceito humano; o amor, uma força da natureza. Ela não pede permissão para existir e não oferece consolo para a sua ausência.

III. A Terceira Lei: A alma Necessária

"E não podemos viver sem a alma de quem amamos". Esta "alma" é tudo o que há de terreno, de imperfeito e de real no outro. É a teimosia de Catherine, a ambição de Heathcliff, a inocência perdida de Dantès, a fragilidade de Mercédès. Amar a ideia pura de alguém é fácil. Amar a sua alma — seus defeitos, suas escolhas erradas, sua humanidade falha — é o verdadeiro teste da condenação.

Heathcliff não amava uma Catherine idealizada; amava a Catherine que era tão selvagem e imperfeita quanto ele. Dantès, no fundo, amava a Mercédès que existia em sua memória, mas também precisou aprender a amar (ou a perdoar) a mulher que ela se tornou, marcada pelo tempo e pelas circunstâncias. A ética aqui é de uma aceitação radical. Não podemos viver sem a presença física, emocional e imperfeita do ser amado porque é nessa "alma" que as nossas raízes se enterram. Arrancá-las é morrer lentamente, como uma planta arrancada da terra. A tentativa de viver sem ela é o que leva ao definhamento da alma, visível nos olhos vazios de um Heathcliff que vaga pelos pântanos ou na frieza calculista de um Monte Cristo que esqueceu como sentir.

IV. A Ética Final: Amar Até Morrer, Mas Viver na Luz

Se o amor é uma condenação e a vingança é uma ferida autoinfligida, qual é o caminho?

A resposta está em "amar até morrer", mas interpretando essa morte não como um fim físico, e sim como uma morte do ego, do orgulho e da sede de vingança. Heathcliff e Dantès só encontraram paz (ou a sua versão dela) quando abandonaram o projeto de retribuir o mal com o mal. Heathcliff, nos seus momentos finais, perde a vontade de destruir, porque percebe que Catherine já não está ali para ser atingida — e ele mesmo já não existe sem ela. Dantès só consegue recomeçar quando perdoa Mercédès e a si mesmo, quando abandona o papel de "anjo vingador" e se permite ser, novamente, Edmond.

A filosofia e ética do amor, portanto, ensina-nos que:

  1. A vingança é um caminho que nos leva de volta à nossa própria porta. Aquele que fere o coração amado, fere-se a si mesmo em um eco infinito.

  2. O amor é uma condenação que nos obriga a habitar a injustiça. Não podemos consertar o mundo para que ele seja justo com o nosso amor, mas podemos escolher não aumentar a sua injustiça com o nosso ódio.

  3. Precisamos da "alma" do outro porque é nela que reside a nossa humanidade partilhada. Aceitar a imperfeição do ser amado é aceitar a nossa própria.

  4. Amar até morrer significa amar até que o nosso "eu" vingativo, orgulhoso e rancoroso morra dentro de nós. Significa escolher, a cada instante, a lembrança do amor que nos uniu em vez da lembrança da dor que nos separou. É entender que, no final, a única coisa que resta, para além da tempestade e da prisão, é a capacidade de olhar para o outro e dizer, como Catherine, "Eu sou ele", e encontrar aí, não a danação, mas uma estranha e possível redenção.




O Carnaval de minha mãe e as Mulheres: Entre Máscaras, Silêncios e Ressurgimentos ! Por Egidio Guerra.

 

O Corpo que Dança Contra o Corpo que Aprisiona 

No turbilhão do Carnaval, as mulheres sempre encontraram um paradoxo: a festa que liberta é a mesma que as vigia. Enquanto multidões celebram nas ruas, carregamos séculos de silêncio nas costas, como serpentinas que nunca desenrolamos completamente. 

Vivemos uma adolescência tecnológica que nega o sagrado e a história. Nossos algoritmos celebram o novo enquanto apagam as marcas do passado, como se os tribunais da Inquisição e a caça às bruxas tivessem sido apenas pesadelos distantes. Mas os corpos queimados das mulheres que sabiam curar com ervas ainda ecoam na desconfiança que depositam sobre nosso conhecimento. 

Onde Estavam Nossas Vozes? 

Enheduana, a princesa e sacerdotisa acadiana que há 4.300 anos ousou assinar seus hinos à deusa Inanna, foi a primeira escritora conhecida da história. Mas quantas Enheduanas foram silenciadas? Quantas tiveram seus nomes arrancados como folhas de papiro ao vento? 

Safo de Lesbos, a quem Platão chamava de "a Décima Musa", teve sua poesia reduzida a fragmentos. Sete séculos antes de Cristo, ela dirigia uma escola para mulheres e escrevia sobre amor com uma liberdade que ainda hoje nos assombra. O que perderemos para sempre desses pergaminhos que o tempo e o patriarcado queimaram? 

Virginia Woolf compreendeu essa ferida: "Anônimo era uma mulher". E quantas anônimas ainda somos? Até J.K. Rowling, em nosso supostamente iluminado século XXI, precisou ocultar seu nome para que meninos lessem sobre Harry Potter sem preconceito. 

Atenas: O Berço da Democracia que Excluía 

Voltemos a Atenas, essa "caixa de ouro da civilização ocidental". Enquanto os homens filosofavam nas ágoras sobre liberdade e cidadania, as mulheres atenienses viviam confinadas em seus lares, em espaços chamados gineceu. Eram consideradas eternas menores, tuteladas primeiro pelo pai, depois pelo marido. 

Aristótelesesse gigante do pensamento, escreveu que a mulher era "um homem incompleto". Sócrates agradecia aos deuses todos os dias por não ter nascido mulher. As atenienses não podiam herdar propriedades, não participavam da vida política, raramente aprendiam a ler. Eram escravizadas domesticamente, corpos produtores de herdeiros legítimos, confinadas em casas de pedra enquanto a "democracia" florescia nas praças. 

O Estatuto do Silenciamento 

A exclusão foi deliberada. Não foi acaso, foi projeto. 

Durante séculos, negaram-nos a educação. Escritoras publicaram sob pseudônimos masculinos: George SandGeorge Eliot, os irmãos Brontë tornaram-se Currer, Ellis e Acton Bell. Cientistas como Marie Curie enfrentaram laboratórios que lhes fechavam as portas. Artistas como Artemisia Gentileschi pintaram mulheres fortes enquanto eram julgadas por serem estupradas. 

Onde estariam as cientistas, filósofas, arquitetas, compositoras que tiveram seus talentos podados na raiz? Hipátia de Alexandria foi esquartejada por uma multidão de cristãos por ousar ensinar matemática e astronomia. Queimaram sua biblioteca, seu corpo, sua memória. 

Dados do Silêncio Contemporâneo 

Ainda hoje, segundo a UN Women, as mulheres ocupam apenas 24% dos cargos de liderança na indústria cultural. Recebemos menos prêmios literários, menos exposições em museus, menos publicações em revistas científicas. Na música, nos palcos do Carnaval, somos frequentemente mais corpos ornamentais que criadoras. 

Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (IBGE) mostra que mulheres dedicam quase o dobro de horas ao trabalho doméstico, esse tempo roubado da criação, do estudo, da arte. O teto de vidro permanece intacto. 

Livros que Reescrevem a História 

Felizmente, escrevemos nossas próprias narrativas de resgate: 

"Um Teto Todo Seu" (Virginia Woolf) nos lembra que "uma mulher precisa de dinheiro e um teto todo seu para poder escrever ficção" – e para existir plenamente. 

"O Segundo Sexo" (Simone de Beauvoir) desnudou o mecanismo da construção do "outro": "Ninguém nasce mulher: torna-se mulher". 

"Calibã e a Bruxa" (Silvia Federici) resgata a caça às bruxas como parte da transição para o capitalismo, um genocídio de corpos femininos que sabiam demais. 

"Mulheres que Correm com os Lobos" (Clarissa Pinkola Estés) reconecta com o instinto selvagem que tentaram domesticar. 

"Quem Tem Medo de Virginia Woolf?" (Edward Albee) expõe as violências cotidianas. 

E no Brasil, Conceição Evaristo nos presenteia com sua "escrevivência": "A nossa escrevivência não é para adormecer os da casa grande, mas sim para acordá-los de seus sonos injustos". 

O Carnaval e a Reinvenção do Feminino 

No Carnaval, as mulheres sempre encontraram brechas. Nas folias medievais, nas máscaras venezianas, nos ranchos e escolas de samba, inventamos espaços de liberdade provisória. Mas mesmo ali, fomos vigiadas – a fantasia que liberta é a mesma que condena. 

Hoje, nossas rainhas de bateria, compositoras, passistas, baianas, escritoras de enredos reivindicam autoria. O samba-enredo que fala de nós não pode mais ser escrito apenas por eles. 

Poesia Final: Lições de Superação 

Que nos ensinem as que vieram antes: 

Safo canta em fragmentos: 
"Alguém, eu juro, lembrará de nós no futuro" 

Emily Dickinson resiste em seus versos apertados: 
"Eu sou ninguém! Quem é você? / Ninguém também?" 

Adélia Prado celebra o cotidiano: 
"Não quero faculdade, quero lambuzar-me" 

Cora Coralina transforma doce em poesia: 
"Eu sou aquela mulher que fez a escalada da montanha da vida, removendo pedras e plantando flores" 

Hilda Hilst grita das margens: 
"Loucos, amemos! Loucos, criemos! Porque se formos lúcidos, morreremos." 

Elisa Lucinda ensina: 
"Não vou mais lavar a louça. Não vou." 

 

Que neste Carnaval, quando as mulheres dançarem, não dancem apenas para o olhar masculino. Dancem para Enheduana, para Safo, para Hipátia, para todas as anônimas queimadas, confinadas, silenciadas. Dancem por Virginia, por Conceição, por cada menina que ainda ousa escrever seu nome. 

Porque, como escreveu a poeta Audre Lorde: 
"As ferramentas do senhor nunca desmontarão a casa do senhor." 

Nossa ferramenta é a palavra. Nossa casa é o corpo. Nossa resistência é a festa. 

E quando a última máscara cair, que encontrem não o rosto que esperavam, mas um país inteiro de mulheres escrevendo sua própria história – na avenida, no livro, na vida. 

Que o passado e o presente sejam reescritos e o futuro seja escrito pelas mãos das mulheres.