SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

terça-feira, 30 de junho de 2026

Uma Busca Contínua pela Beleza e pelo Conhecimento. Por Egidio Guerra



A beleza da matemática, a precisão dos experimentos científicos e a mística da alquimia formam uma tríade fascinante que revela a incessante busca humana por compreender o universo. Longe de serem campos isolados, eles se entrelaçam em uma narrativa única sobre a ordem, a descoberta e a transformação, como explorado nas obras de Ian Stewart, Philip Ball, Sarah C. Campbell e Danica McKellar.

A Sinfonia Silenciosa da Natureza: A Beleza da Matemática

A matemática é frequentemente vista como um conjunto de regras abstratas, mas, como Ian Stewart demonstra em The Beauty of Numbers in Nature, ela é a linguagem silenciosa que tece a própria tapeçaria do mundo natural. Das listras de uma zebra à teia de uma aranha, das dunas de areia aos flocos de neve, a natureza é repleta de padrões governados por princípios matemáticos.

Stewart nos convida a uma jornada que vai da geometria básica da Grécia Antiga à complexidade dos fractais. Ele explora como a natureza, muitas vezes, rejeita formas geométricas regulares como esferas e cilindros em favor de formas mais orgânicas e irregulares, como os galhos de uma árvore ou o terreno acidentado de uma montanha. O livro começa com uma pergunta aparentemente simples sobre a forma única de um floco de neve, desvendando a estranha mistura de regularidade e irregularidade que existe em um pequeno cristal de água congelada.

Complementando essa visão, Sarah C. Campbell, em Growing Patterns: Fibonacci Numbers in Nature, foca em um dos mais belos mistérios matemáticos: a sequência de Fibonacci. Através de fotografias impressionantes, Campbell demonstra como essa sequência numérica simples (1, 1, 2, 3, 5, 8, 13...) surge nos lugares mais inesperados, desde o número de pétalas de uma flor até a espiral de um caracol. É uma introdução maravilhosa à conexão entre a matemática e o mundo natural, mostrando que a natureza guarda segredos numéricos que a matemática nos ajuda a decifrar.

A Arte da Investigação: Experimentos Científicos

Se a matemática revela a beleza inerente à natureza, os experimentos científicos são a ferramenta que usamos para desvendá-la. Em Beautiful ExperimentsAn Illustrated History of Experimental Science, Philip Ball celebra a engenhosidade de cientistas e filósofos naturais ao longo dos tempos. Com duzentas pranchas coloridas, o livro é um tributo à beleza e à elegância dos experimentos, seja em seu design, concepção ou execução.

Ball nos guia por uma história visual do ofício da investigação científica, destacando o valor estético dos instrumentos, desde os primeiros microscópios até os gigantescos colisores de partículas. A obra demonstra como o conceito de "experimento" é uma noção contestada e em evolução, ao mesmo tempo que nos mostra como chegamos a entender o funcionamento do mundo. O livro é uma viagem visualmente cativante pelos anais da experimentação científica, imbuída da profunda fascinação de Ball pela metodologia experimental.

A Origem da Química: Alquimia e a Arte da Descoberta 

Antes da química moderna, existiu a alquimia, e Philip Ball, em AlchemyAn Illustrated History of ElixirsExperimentsand the Birth of Modern Science, resgata essa disciplina do obscurantismo, mostrando-a como uma fase crucial no desenvolvimento da ciência experimental. Ball situa a alquimia no contexto da história da ciência e da cultura, argumentando que ela não era apenas uma fantasia esotérica, mas uma importante fase no desenvolvimento da filosofia natural.

O livro é uma celebração visual das técnicas desenvolvidas em oficinas alquímicas, da busca pela pedra filosofal e pelos "elixires da vida" em diversas culturas. Ball traça a ascensão da alquimia desde a cultura helenística, passando pela idade de ouro da filosofia natural islâmica, até o surgimento da magia natural no Renascimento e seu papel no início da ciência moderna. Longe de serem apenas "cientistas fracassados", os alquimistas eram artesãos e filósofos que lançaram as bases para a química que conhecemos hoje, unindo química, medicina, arte e religião. A alquimia, portanto, personifica a arte da descoberta, onde a experimentação e a busca por conhecimento andavam de mãos dadas com a filosofia e a espiritualidade. 

Conclusão: Uma Busca Contínua pela Beleza e pelo Conhecimento 

A beleza da matemática, a precisão dos experimentos e a mística da alquimia não são capítulos isolados da história do conhecimento, mas fios de uma mesma tapeçaria. A matemática, como mostrado por Stewart e Campbell, revela a ordem subjacente à natureza. Os experimentos, celebrados por Ball, são a ponte que nos permite testar e validar essa ordem. E a alquimia, longe de ser um desvio, foi o cadinho onde muitas das técnicas e filosofias da ciência moderna foram forjadas. 

Juntas, essas perspectivas nos convidam a ver o mundo com outros olhos: a reconhecer a simetria em um floco de neve, a admirar a engenhosidade de um experimento histórico e a compreender que a busca pelo conhecimento é uma jornada contínua, que combina a lógica da matemática com a criatividade da descoberta. Como Danica McKellar sugere em Hot X: Algebra Exposed!, a matemática não precisa ser temida; ela pode ser dominada com confiança e até mesmo com estilo. Afinal, a beleza está em toda parte, esperando para ser decifrada pela mente curiosa. 

 

 

Daqui a 10 anos, o maior produtor de chocolate do mundo pode não ter uma única árvore de cacau.

 


Daqui a 10 anos, o maior produtor de chocolate do mundo pode não ter uma única árvore de cacau.


A Celleste Bio acabou de fazer barras de chocolate com manteiga de cacau cultivada por tecnologia.

Conseguem produzir manteiga de cacau em biorreatores, com uma fração do impacto no uso da terra.

As próximas grandes empresas alimentares não vão ser agrícolas. Vão ser empresas de tecnologia.

Em Portugal, a Cell4Food, onde investimos através da Olisipo Way, está a desenvolver polvo em laboratório para reduzir a pressão sobre os oceanos.

O cacau enfrenta o colapso climático, o marisco enfrenta a extinção, a agricultura tradicional enfrenta limites físicos.

A solução não vem de explorar mais o planeta, mas de o libertar através da tecnologia.

É irónico. Olhamos para a biotecnologia com desconfiança, enquanto convivemos pacificamente com os ultraprocessados na nossa despensa.

Comias um polvo produzido em laboratório se soubesses que o sabor, a textura e o valor nutricional são iguais, mas o impacto no oceano é menor?

O Espetáculo da Ilusão: Alfabetização sem tempo certo




A narrativa de sucesso construída em torno de políticas públicas no Brasil frequentemente se baseia em indicadores isolados que, quando confrontados com a realidade mais ampla, revelam uma profunda desconexão entre a propaganda oficial e os resultados efetivos. Este fenômeno, que consiste em celebrar casos de sucesso de uma minoria enquanto se negligencia a situação da maioria da população, permite que governos gastem bilhões em publicidade para construir uma imagem de eficiência, mascarando o fracasso estrutural de suas políticas. O caso do Ceará, com seu emblemático Programa Alfabetização na Idade Certa (PAIC), é talvez o exemplo mais contundente dessa prática no campo educacional.

A Dupla Face da Educação Cearense

Enquanto o governo do Ceará e o governo federal celebram o estado como um "case de sucesso" na alfabetização, os dados mais recentes do IBGE pintam um retrato bem diferente. O Programa Alfabetização na Idade Certa (PAIC), criado em 2007 e que serviu de inspiração para o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada do governo federal, é apresentado como um modelo a ser seguido. O governador Elmano de Freitas comemora que o Ceará alcançou 85,3% de crianças alfabetizadas na idade certa até o final do 2º ano do ensino fundamental em 2024, consolidando-se como o melhor índice do Brasil. Esta é a métrica que alimenta a publicidade e justifica o investimento de mais de R$ 2 bilhões do governo federal inspirado no modelo cearense.

Contudo, ao ampliarmos o foco para a população total, o cenário se inverte drasticamente. Em 2025, o Ceará figurava como o quarto estado com a maior taxa de analfabetismo do Brasil, com 11,7% de sua população com mais de 15 anos incapaz de ler e escrever um bilhete simples. Isso representa cerca de 867 mil cearenses excluídos do acesso básico à leitura e à escrita. A disparidade é ainda mais gritante quando se observa a distribuição regional: enquanto estados do Sul e Sudeste, como o Rio Grande do Sul (2,2%) e São Paulo (1,9%), apresentam taxas ínfimas, o Nordeste como um todo concentra 57,4% dos 8,4 milhões de analfabetos do país. A taxa nacional de 4,9%, embora seja a menor da série histórica, ainda esconde abismos regionais que são convenientemente ignorados na propaganda oficial.

O Abandono Escolar e a Falácia do Acesso Universal

A mesma lógica se repete quando analisamos o acesso e a permanência no ensino médio. O governo do Ceará divulga com entusiasmo a redução pela metade da taxa de abandono escolar, que caiu de 3% em 2022 para 1,5% em 2025. Mais uma vez, um indicador positivo é usado para construir uma narrativa de sucesso. No entanto, este dado isolado não reflete a realidade de milhões de jovens que, embora tecnicamente não tenham "abandonado" a escola, estão em situação de defasagem idade-série ou concluem o ensino médio sem a proficiência necessária.

A imagem fornecida pelo usuário, que mostra as taxas de rendimento e abandono, sugere que a problemática do acesso e da conclusão do ensino médio é complexa e varia significativamente entre as regiões. O foco em um único indicador de "abandono" serve para desviar a atenção de problemas mais profundos, como a qualidade do ensino oferecido e a evasão silenciosa de alunos que, embora matriculados, não aprendem. Esta é uma estratégia comum: comemora-se a queda na evasão como se ela, por si só, garantisse o direito à educação, quando, na verdade, o que se vê é a perpetuação de um sistema que exclui qualitativamente a maioria.

A Cortina de Fumaça da Publicidade Bilionária

A estratégia de construir "falsos casos de sucesso" não se sustenta apenas com dados manipulados; ela é impulsionada por um gigantesco aparato de propaganda. O governo federal, sob a gestão do presidente Lula, planejou gastar até R$ 3,5 bilhões em contratos de publicidade em 2025, com o objetivo explícito de divulgar programas que possam ser "emplacados como marcas do terceiro mandato". Este montante é utilizado para veicular uma imagem de eficiência e progresso que os dados objetivos, como os do IBGE, contradizem frontalmente.

A publicidade, neste contexto, deixa de ser um instrumento de transparência e prestação de contas para se tornar uma ferramenta de manipulação. Ao celebrar os 85,3% de alfabetização na idade certa no Ceará, o governo omite que este índice se refere apenas a uma parcela específica da população (crianças até o 2º ano do fundamental) e ignora os 11,7% de analfabetos funcionais ou absolutos na população adulta. Gasta-se bilhões para que a população acredite que o problema da educação está sendo resolvido, enquanto 8,4 milhões de brasileiros seguem à margem da sociedade letrada.

Conclusão: O Espetáculo da Ilusão

O caso do Ceará é a personificação de uma prática perversa na gestão pública: a criação de uma realidade paralela, onde índices específicos e bem-sucedidos são usados como escudo para esconder o fracasso generalizado. O Programa Alfabetização na Idade Certa, ao focar em uma métrica restrita, consegue construir uma imagem de excelência que não se sustenta quando se observa o analfabetismo na população como um todo. A publicidade bilionária, então, entra em cena para consolidar essa ilusão, transformando exceções em regra e convencendo a sociedade de que o acesso à educação é uma realidade para todos.

Esta é a grande falácia: gasta-se uma fortuna para fazer parecer que se está resolvendo o problema, enquanto a maioria da população continua excluída. O direito à educação, garantido pela Constituição, é transformado em um espetáculo midiático, onde o que importa não é a efetividade da política, mas a imagem de sucesso que ela projeta. Enquanto essa lógica prevalecer, o Brasil continuará a comemorar vitórias menores enquanto perde a batalha mais importante: a de garantir uma educação verdadeiramente universal e de qualidade para todos os seus cidadãos.

40% das pessoas confiam em seu governo nacional, segundo a pesquisa #OECDTrustData mais recente


 40% das pessoas confiam em seu governo nacional, segundo a pesquisa #OECDTrustData mais recente.


Abrangendo 33 países #OECD e cinco candidatos à adesão, a pesquisa ajuda os governos a acompanhar os níveis de confiança entre as instituições e a identificar onde a reforma é mais necessária.

O que as pessoas dizem em toda a OCDE?

➡️ 40% confiam no governo nacional
➡️ 46% confiam no governo local
➡️ 42% acreditam que as decisões são baseadas em evidências
➡️ 68% acreditam que votar faz diferença
➡️ 31% acreditam que pessoas como eles têm uma palavra real no que o governo faz.
➡️ 41% veem potencial no uso governamental da IA

A Pesquisa da OCDE sobre Fatores de Confiança em Instituições Públicas 2026 Resultados aponta prioridades claras para a ação: fortalecer a tomada de decisões em questões complexas, promover a participação significativa dos cidadãos, usar tecnologias de forma transparente e focar no que gera confiança em cada instituição.