SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Quando seus Destinos é em seus úteros nutrir outras sociedades . Por Egidio Guerra




O Ártico de Tamara Klink não é um útero. É uma matriz gelada, um não-lugar para a vida orgânica que conhecemos. E, no entanto, é ali, no silêncio absoluto da invernagem, que ela gesta algo muito mais potente do que um novo ser humano: ela gesta uma nova forma de existir no mundo.

A sociedade patriarcal sempre definiu o destino feminino a partir da biologia. O útero, nessa lógica, seria o cativeiro sagrado — o lugar onde se gestam os corpos que manterão a engrenagem da sociedade atual em funcionamento. Mas Tamara, como outras mulheres que desbravaram seus caminhos — de Cheryl Strayed às navegadoras solitárias, de Virginia Woolf às cientistas que desafiaram o gelo —, subverte esse lugar-comum. O útero deixa de ser o símbolo do confinamento doméstico para se tornar o epicentro da criação de outras sociedades possíveis.

Uma das passagens mais cortantes de Bom dia, inverno é quando Tamara confessa que, na imensidão branca, preferia deparar com um urso polar a encontrar um homem. Quando uma mulher coloca a ferocidade da natureza selvagem abaixo da ameaça de um desconhecido, somos obrigados a encarar o óbvio: o maior perigo para as mulheres não ronda nas montanhas ou nos oceanos, mas nas estruturas que construímos para abrigá-las. A sociedade que insiste em colocar o destino feminino dentro de casa é a mesma que a devora quando ela ousa sair. Preferir o urso é preferir o risco honesto da natureza ao risco perverso da cultura. É dizer: "Antes o gelo que me queima do que o olhar que me aprisiona."

E aqui entra a genialidade silenciosa de Amir Klink. Muitos imaginariam que o pai navegador lhe abriria os mares com mapas e atalhos. Ele fez o contrário. Recusou-se a pavimentar o caminho da filha, não por negligência, mas por uma confiança radical. Ensinou-lhe a construir a própria bússola errando. Ao não entregar o destino a ela de mão beijada, ele a obrigou a cavar o próprio chão. E ao cavar, Tamara não encontrou o legado do pai; encontrou a argila fértil de sua própria voz. Esse é o verdadeiro ato de nutrir uma nova sociedade: não proteger a mulher do mundo, mas devolvê-la a si mesma para que ela decida que mundo quer habitar.

Lendo Tamara, percebo que sua jornada não é sobre provar nada a ninguém. Essa é a armadilha que muitas mulheres caem — a de performar a força para ser aceitas. Tamara vai ao Ártico porque sua curiosidade e sua ambição a chamam. Ponto. Ela não escala montanhas para calar misóginos; escala porque a montanha (ou o gelo) faz parte de seu direito inalienável de sonhar. E é exatamente essa liberdade de agir por desejo, e não por reação, que nutre as futuras sociedades. Quando uma mulher ocupa um espaço simplesmente porque ele lhe pertence por direito de existência, ela rasga o contrato social antigo e costura um novo, onde a autonomia feminina não precisa de justificativa.

Ainda há quem estranhe uma mulher sozinha atravessando oceanos ou passando um inverno inteiro no Ártico. Mas eu estranho é o nosso espanto diante da liberdade feminina. Estranho é acharmos que o útero só serve para gerar filhos para a nação, quando ele pode — metaforicamente — gerar coragem, literatura, ciência e novos paradigmas. Tamara, em sua cabana congelada, gestou a si mesma. E ao narrar essa gestação, ela nos oferece um colo simbólico para todas as mulheres que ainda tremem diante do "não pertenço".

O destino de uma mulher, quando confiado a ela mesma, transborda os limites do lar e vai alimentar, com histórias de coragem, a alma coletiva da humanidade. Nutrir outras sociedades não é, portanto, um ato passivo de cuidado com o que já existe; é um ato revolucionário de imaginar o que ainda não é. E para isso, às vezes, é preciso atravessar o gelo, preferir o urso ao homem e escrever, com a própria mão, o mapa de um mundo onde o espanto diante da mulher livre finalmente se extingue. 


A Odisseia dos Dois Capitães: Escolha Luiz Henrique Saraiva Pontes.

 


Na grande travessia da vida, a Nação é um navio à mercê de tempestades. O capitão não é apenas o que segura o leme; é o farol que guia a tripulação — formada por nossas famílias, nossos amigos, nossos sonhos e a própria essência divina que nos une. Nessa odisseia real, dois comandantes se erguem em polos opostos: de um lado, o Capitão Luiz Henrique (Mandetta), homem de ciência, trabalho e justiça; de outro, o Capitão Jair Bolsonaro, arauto da desordem, da maldade e do caos.

O Bom Capitão: Luiz Henrique, o "Sócrates" da Gestão

Luiz Henrique é o capitão que joga e vive como o lendário Sócrates, o Doutor da Seleção. Assim como o meio-campista que chutava com a cabeça e a alma, Mandetta governa com a inteligência de quem respeita a ciência e a ética. Ele é o técnico Telê Santana dos tempos modernos: justo, trabalhador e verdadeiro, que não abre mão do jogo limpo para vencer a qualquer preço. Enquanto líder, lembra Nelson Mandela — não pela política partidária, mas pela capacidade de unir adversários em torno da vida. Como empresário, tem a visão de um Abílio Diniz, que constrói impérios com suor e planejamento; como cientista, encarna Oswaldo Cruz, que enfrentou epidemias de peito aberto, sem jamais negar a realidade.

Este capitão é leal à sua tripulação. Sabe que Deus se revela no cuidado com o próximo, e que a verdadeira pátria não se constrói com uivos de ódio, mas com o abraço apertado entre amigos e a mesa farta com a família. Sua bússola aponta para o bem comum, e suas ordens são claras: "Remem juntos, protejam os mais frágeis, acreditem na vacina".

O Mau Capitão: Bolsonaro, o "Nero" do Negacionismo

No extremo oposto, temos o Capitão Bolsonaro. Se Luiz Henrique é Sócrates, Bolsonaro é o atacante que simula pênaltis e vive de mergulhos na piscina da mentira. Injusto como um juiz corrupto que apita faltas inexistentes, ele comanda o barco como Nero: toca uma harpa desafinada enquanto o navio arde em chamas. Sua maldade não é apenas a brutalidade explícita, mas a indiferença genocida com que tratou a pandemia — chamando a covid de "gripezinha" enquanto mais de 700 mil brasileiros morriam no silêncio dos hospitais lotados.

Vagabundo da verdade, ele é o Lance Armstrong da política: construiu uma carreira inteira sobre o doping da desinformação, destruindo adversários com a violência de um fascista de Araxá. Desleal e inimigo das pessoas de bem, ele não poupou cientistas (a quem chamou de "charlatões"), nem empresários sérios (a quem perseguiu com a caneta do orçamento secreto). Sua liderança é a do técnico que escala o time sem goleiro, que recusa o mapa do tesouro (as vacinas) e ordena que a tripulação navegue direto para o abismo, alimentando a ignorância como combustível para o autoritarismo.

A Odisseia da Pandemia: Onde a Bola e a Vida Não Entram em Campo

Foi nos corredores da COVID-19 que essa odisseia se tornou trágica. Enquanto Luiz Henrique, como um bom médico de plantão, pedia isolamento, máscaras e ciência (como o herói Édison Arantes do Nascimento, o Pelé, que unia o país com alegria), Bolsonaro fazia o contrário: incentivava aglomerações, pregava o "tratamento precoce" ineficaz e dançava o "passinho do afrouxamento" sobre os túmulos das vítimas. A violência não vinha apenas de um tiro, mas da omissão criminosa; o fascismo não vestia farda, mas a camisa da negligência; a ignorância não era um simples erro, mas uma arma de destruição em massa.

O Veredito da Vida Real

Hoje, a Nação de verdade — aquela que acorda cedo, que leva os filhos à escola, que reza antes do jantar e que acredita no amanhã — precisa escolher seu capitão. Luiz Henrique representa a odisseia que vale a pena ser vivida: a jornada do herói que sofre, mas que mantém a lealdade à família, a amizade como escudo, Deus como proa e a ciência como remo.

Bolsonaro é o capitão que nos levaria à Terra do Fim, onde a lei da selva impera, onde o amigo vira inimigo e onde a verdade é apenas uma peça de teatro para enganar tolos.

Que fique claro: o futebol da vida não se ganha com dribles desonestos, mas com passes precisos para o bem. Que vença o capitão que honra a nossa torcida — a torcida dos que amam a vida, a democracia e a esperança. Contra o capitão mau, a única jogada possível é a união. A pátria de verdade não se curva ao autoritarismo, ela se levanta pela vacina, pela justiça e pela memória eterna de todos aqueles que se foram por causa de um comando que se recusou a ver o iceberg. Escolha o time da vida.

Viver entre a Mística, a Moral, a Liberdade, a Escuridão, o Tempo, as Coisas Materiais e a Imaginação. Por Egidio Guerra.




Vivemos tempos de fragmentação. O sujeito moderno, proclamado soberano pela doutrina liberal, encontra-se, na prática, aprisionado num labirinto de abstrações: ora reduzido a um feixe de preferências subjetivas, ora sufocado pela acumulação de objetos inertes, ora cego pela claridade excessiva de uma razão que já não distingue a árvore da floresta. Para habitar verdadeiramente o mundo — e não apenas geri-lo — somos convocados a uma tarefa hercúlea: tecer uma existência que reconcilie o apelo da mística com o rigor da moral, a ânsia de liberdade com a espessura do tempo, a opacidade da matéria com a potência visionária da imaginação. Os pensadores que nos guiam neste percurso não nos oferecem consolos fáceis, mas sim ferramentas para escavar a complexidade do real. 

A primeira armadilha que se ergue diante de nós é o primado das coisas materiais. Iain McGilchrist, em The Matter With Things, diagnostica o mal-estar contemporâneo como uma hegemonia do hemisfério esquerdo do cérebro: uma visão que despedaça o mundo em partículas manipuláveis, reduzindo a realidade a meros correlatos utilitários. A matéria, assim, deixa de ser o solo fértil da experiência para se tornar um estoque de recursos. Esta lógica da fragmentação estende-se à própria liberdade. Patrick Deneen, em Why Liberalism Failed, demonstra como o ideal liberal de autonomia negativa, ao desenraizar o indivíduo de tradições e comunidades, não o libertou, mas o entregou à tirania do mercado e do Estado. A liberdade tornou-se um direito vazio, desprovido de qualquer telos substantivo, gerando solidão e servidão voluntária sob o manto do consumo. 

Esta perda de orientação é o cerne da crise moral dissecada por Alasdair MacIntyre em After Virtue. Sem uma narrativa coerente que conecte o passado, o presente e o futuro, a linguagem ética degenera em emotivismo — meras exclamações de gosto e aversão. Perdemos o conceito de virtude como hábito que nos conduz à eudaimonia, o florescimento humano, porque abandonamos a noção de que a vida é uma unidade narrativa. MacIntyre nos recorda que a moral não é um código intemporal, mas uma prática enraizada em comunidades que partilham uma história. A resposta a esta crise, no entanto, não pode ser um retorno nostálgico a um passado idealizado, mas exige uma reinvenção radical do nosso enraizamento no tempo. 

James K. A. Smith, em How to Inhabit Time, confronta a nossa ansiedade existencial perante o fluxo cronológico. A modernidade tenta domesticar o tempo, transformando-o numa linha reta e mensurável — um recurso a ser otimizado. Porém, habitar o tempo autenticamente é abraçar a sua espessura litúrgica: é carregar o peso das memórias que nos constituem (a tradição) e estender-se em direção a um futuro que não controlamos, mas que esperamos. É neste intervalo, nesta espera ativa, que a escuridão se revela não como ausência, mas como condição de possibilidade para o encontro com o transcendente. 

É precisamente aí que a mística e a escuridão irrompem como antídotos contra a soberba da razão analítica. Simon Critchley, em Mysticism, e James K. A. Smith, em Make Your Home in This Luminous Dark, convergem ao apontar a via negativa como o caminho para o real. A mística não é uma fuga irracional, mas a coragem de encarar o "não saber" — o agnosia — como a única postura adequada diante do mistério que sustenta o ser. A escuridão luminosa de que fala Smith não é o caos, mas o útero gerador de sentido, onde as certezas do hemisfério esquerdo se dissolvem para que a totalidade viva do mundo (o hemisfério direito, segundo McGilchrist) possa ser novamente intuída. É nas bordas do indizível, onde a linguagem titubeia, que a mística resgata a dimensão poética e sacrificial da existência, oferecendo um escape à lógica estéril da utilidade. 

Contudo, como transpor este abismo entre a fragmentação material e a unidade mística? A ponte é a imaginação teológica, tal como formulada por Judith Wolfe em The Theological Imagination. Longe de ser mero devaneio estéril, a imaginação é a faculdade primária da percepção — o órgão que nos permite interpretar a realidade como um dom, e não como um dado bruto. Wolfe mostra que a fé e a arte partilham esta estrutura hermenêutica: ambas moldam o que vemos ao nos ensinarem como ver. A imaginação não foge da matéria; pelo contrário, ela a satura de significado, revelando que as coisas não são apenas objetos físicos, mas portadoras de glória e de sofrimento. É ela que resgata a narrativa moral que MacIntyre considera perdida, ao reconfigurar o passado e o futuro num presente denso de vocação. 

Assim, viver entre estes polos é aceitar a tensão constitutiva da condição humana. Não podemos abandonar a matéria, pois somos corpóreos; mas devemos recusar o materialismo que a coisifica, utilizando antes a imaginação para ver nela o eco de algo maior. Não podemos descartar a moral, mas precisamos recuperá-la das garras do emotivismo, ancorando-a na tradição e na virtude, sem cair no tradicionalismo rígido. A liberdade exige a crítica de Deneen para despir-se do individualismo tóxico e reencontrar-se na dependência mútua da comunidade. O tempo deve ser habitado com a paciência de quem espera na escuridão, confiando que a noite é o véu da proximidade divina, enquanto a mística nos ensina a linguagem do silêncio e do espanto. 

O resultado não é uma síntese pacífica, mas um equilíbrio instável e criativo. Como bem sintetiza a obra de McGilchrist, a sabedoria está em atender à totalidade sem desprezar as partes, em usar a precisão analítica a serviço da visão compreensiva. Ao integrarmos a crítica de MacIntyre, a denúncia de Deneen, a fenomenologia temporal e mística de Smith, a neuro-filosofia de McGilchrist e a hermenêutica visionária de Wolfe, descobrimos que a existência autêntica é um ato de alquimia espiritual: transformamos a opacidade do mundo material em ícone, a solidão da liberdade em comunhão, a ansiedade do tempo em esperança, e a rigidez da moral em compaixão. 

Viver, afinal, é navegar entre a claridade cegante do conceito e a escuridão fecunda do mistério, sabendo que a imaginação é a bússola, a virtude é o leme, o tempo é o mar, e a mística é o horizonte que nunca alcançamos, mas que confere direção à viagem. Nas palavras de Smith, a casa que construímos na escuridão luminosa é a única morada possível para uma alma que recusa ser aprisionada pelas coisas, mas que insiste em ver nelas o reflexo de uma beleza que a razão, sozinha, jamais poderá domesticar.