SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

terça-feira, 2 de junho de 2026

Medir o impacto social não deveria ser opcional dentro das empresas.


 Medir o impacto social não deveria ser opcional dentro das empresas. Em praticamente todas as áreas de uma empresa, projetos são acompanhados de perto. Existem metas, KPIs, relatórios, indicadores de desempenho e acompanhamento constante de resultados.

Mas quando o assunto é impacto social, muitas vezes ainda operamos no campo da intenção. A ação acontece, as fotos são publicadas, os números mais superficiais aparecem e seguimos em frente sem entender o que realmente mudou a partir dali. Sem acompanhamento, o social corre o risco de virar apenas percepção e se esvair em poucas semanas. A provação que deixo aqui é: como medimos impacto de ações sociais de forma séria e organizada? Neste infográfico, com ajuda da voluntária Raiane Silva, trouxe algumas ideias que já vi acontecerem na prática em empresas socialmente engajadas. No processo, vale lembrar que impacto não significa transformar causas em planilhas frias. Significa dar consistência, continuidade e maturidade para iniciativas que muitas vezes já exigem tempo, orçamento, mobilização de equipes e posicionamento institucional. O social também gera resultados. Mas para enxergar isso, é preciso acompanhar para além da foto da ação.

Os insetos desempenham funções essenciais no equilíbrio natural dos jardins e plantações.


 Os insetos desempenham funções essenciais no equilíbrio natural dos jardins e plantações.


Abelhas polinizam flores, joaninhas controlam pulgões e libélulas ajudam a reduzir mosquitos perto da água. Mesmo espécies menos apreciadas, como moscas e gafanhotos, fazem parte das cadeias alimentares que sustentam aves, anfíbios e pequenos mamíferos. Em Portugal e no Brasil, muitos ecossistemas agrícolas dependem diretamente da diversidade de insetos para manter a fertilidade e a produção natural.

Um erro frequente é tratar todos os insetos como pragas perigosas. O uso excessivo de pesticidas pode eliminar espécies benéficas e desequilibrar o ambiente ao redor da casa.

Flores nativas, pequenas fontes de água e redução de químicos ajudam a atrair insetos úteis para jardins e varandas. Observar a variedade de espécies presentes também permite identificar sinais de saúde ambiental. Um jardim com diferentes insetos costuma ser mais resistente e equilibrado ao longo das estações.

Monges de Pinheirinho: como movimento messiânico no Rio Grande do Sul acabou em massacre esquecido

 

A única imagem atribuída a Monge Chico

Crédito,Domínio Público

Legenda da foto,A única imagem atribuída a Monge Chico anos depois foi identificada como do mítico monge João Maria, curandeiro que viveu entre Paraná e Santa Catarina, entre 1886 e 1905, anos depois do conflito no Taquari
    • Author,André Vargas
    • Role,De São Paulo para a BBC News Brasil
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  • Tempo de leitura: 9 min

Dono de um hotel na vila de Encantado (RS), em maio de 1902 João Ferri se recuperava de ferimentos sofridos em um ataque que lhe custara um naco da orelha direita e cortes pelo corpo. Ele havia perdido dois amigos e outros três estavam feridos, um deles gravemente.

Ainda com dores, recebeu um embrulho com um "presente" e um bilhete: "Para substituir a que perdeste". A mutilação vinha de um homem abatido a tiros de fuzil pela Brigada Militar no dia anterior, quase no final da Guerra de Pinheirinho, uma represália que virou massacre de pelo menos 28 pessoas no Vale do Alto Taquari, no sopé da Serra Gaúcha.

A brincadeira macabra se tornou lendária na comunidade e ilustra um confronto alimentado por medo, preconceito religioso e impiedosa reação policial. Apesar de descendentes dos envolvidos de ambos os lados ainda viverem na região, o episódio caiu no esquecimento após 124 anos, citado quase só em trabalhos historiográficos.

Grande parte do registro nasceu do livro Os Monges de Pinheirinho, de 1975, do historiador local Gino Ferri (1922-2016). A partir de meados dos anos 1960 ele entrevistou alguns dos envelhecidos participantes. Quase todos entre os vencedores, como o autor lamentaria décadas depois da publicação. "Naquela época eu sabia muito pouco sobre o outro lado", comentou Ferri no início dos anos 2000.

Tudo começou com a presença incômoda e provocativa de miseráveis que abriram roçados e ergueram palhoças em uma terra sem dono às margens do rio Taquari, hoje dentro dos limites de Roca Sales. O grupo contava com uns 60 desgarrados, incluídas mulheres e crianças.

Eles praticavam rezas e curandeirismo — recorrente em comunidades sem acesso mínimo a médicos e remédios. No ápice, reuniram duas centenas de pessoas das redondezas, muitas delas agricultores, além de viajantes de passagem.

Monge furioso

O líder era um certo João Francisco Maria de Jesus, um agressivo curandeiro andarilho que pregava uma guerra santa e profetizava um futuro menos miserável aos que o cercavam. Ele falava até na ressurreição dos que defenderiam sua visão messiânica do cristianismo.

Como em outros episódios da época, foi morto à espera de um apoio que nunca chegou. Acabou em uma cova rasa à beira de uma estrada perto de onde hoje fica um campo de futebol na cidade de Muçum.

Por capricho vingativo da polícia, foi jogado de costas e com os tornozelos e pés de fora. Para que seus restos expostos não fossem alvo de animais carniceiros, foram cobertos com paus e pedras por sete seguidores aprisionados que serviram de coveiros. "Assim não há de voltar nunca mais", diziam os curiosos.

De origem desconhecida e sem registros fotográficos confirmados, ele teria razões para odiar autoridades em geral e colonos em particular. Nove anos antes havia escapado de um linchamento em um acampamento em Colônia Bastos (hoje parte de Marques de Souza), no Rio Forqueta. Cinco foram mortos na noite de Ano Novo de 1893.

Na fuga de canoa, foi conduzido pelo mateiro João Enéias, que vivia em uma cabana à beira do Taquari, a 60 quilômetros de distância. Atento, ali por 1900 Enéias ajudaria o monge a se instalar em Pinheirinho, onde este também passaria a ser chamado de São João Maria — um nome genérico, adotado por personagens que apareceram em diferentes épocas, na Revolta dos Muckers (1873-1874), em Canudos (1896-1897), na Guerra do Contestado (1912-1916) e no Massacre dos Barbudos, em Soledade (1938).

Os observadores mais atentos relataram que Enéias ajudava em milagres de pescador. Chamado de apóstolo, pegava bagres e pintados de antemão e os amarrava em uma linhada oculta submersa.

De acordo com o que Gino Ferri ouviu de testemunhas, depois o pregador reunia os fiéis e anunciava que Deus mandaria uma farta pescaria. Daí puxava a linha colocada. O amigo mateiro também fingiria transes para ser curado com uma reza ou benzedura. Era um jeito fácil de arrecadar donativos, já que a vida era precária.

Já apelidados de monges, os discípulos de vez quando cometiam pequenos furtos de ferramentas e mantimentos. Eles eram caboclos e ex-escravizados que antes de serem expulsos das terras vendidas aos colonos se dedicavam à colheita de erva-mate nas bordas do Sertão dos Bugres, como era chamada a Serra Gaúcha.

Historiador local, Gino Ferri (1922-2016)

Crédito,Arquivo familiar

Legenda da foto,Historiador local, Gino Ferri (1922-2016) resgatou a história e depois reviu sua abordagem

O mais provável é que João Maria fosse um destes desalojados, principalmente após as matanças e perseguições da Revolução Federalista (1893-1895).

O episódio atraiu a professora de história do ensino médio Mircele Giaretta em sua graduação na Universidade do Alto Taquari (Univates), em Lajeado, distante 115 quilômetros de Porto Alegre.

Para ela, o conflito desenrolado no caminho que pega todos os dias pela RS-129, entre sua casa, em Muçum, e o trabalho, em Encantado, foi rascunhado em boa parte pela Lei de Terras de 1850, que dificultou a legalização fundiária por parte de posseiros tradicionais.

O resultado abriu caminho para consolidação de latifúndios ou de projetos de colonização. Ela completa: "O governo acabou contribuindo para que essas populações não tivessem para onde ir".

Mapa mostra localização do acampamento

O confronto

Diante dos relatos conflitantes e da falta de policiais em Encantado, onde viviam cerca de 300 famílias, dois subdelegados, um sargento e mais nove voluntários foram tirar satisfações dos suspeitos, seguindo as ordens do subchefe regional da polícia, coronel Ramiro de Oliveira.

Com a chegada do inverno e as cheias do rio, corria o boato que mercados e pequenos comércios em áreas afastadas seriam saqueados — o que nunca ocorreu.

O que seria um alerta virou luta desesperada. Na manhã de 4 de maio, a comitiva cruzou o rio até o acampamento. Monge Chico saiu de sua barraca com uma garrucha de dois canos e um facão na cintura para encarar o subdelegado Napoleão Maiolli, de 37 anos, um veterano duro perseguido durante a Federalista.

Após uma troca áspera de palavras, foi dada voz de prisão. Maiolli pensava que o local estava quase vazio, pois fora informado que o líder mandara buscar armas para iniciar a sua reduzida de guerra santa — o milagreiro charlatão também queria evitar um ataque como o vivenciado em Linha Bastos.

Antes de apontar a garrucha para Maiolli, Monge Chico rogou: "De hoje em diante queremos matar e roubar. E vamos começar já. Tu serás o primeiro". O tiro só não abriu o peito do subdelegado por ação do sargento Vispo, que desviou a arma com um golpe de sabre. Do mato saíram dúzias de asseclas armados de porretes, adagas e algumas espingardas.

"Matai os demônios", gritou o monge (os sobreviventes diziam que ele falava assim mesmo). Como algumas armas da patrulha falharam, em vez de conter a multidão foi criada uma batalha na proporção de 3 contra 1. O resultado foram dois colonos mortos (o caixeiro viajante Eduardo Satler, de 30 anos, e o fabricante de bebidas João Lucca, de 28 anos), assim como dois monges, além de feridos de ambos os lados.

Napoleão Maiolli, subdelegado, escapou ileso: alvo do primeiro tiro

Crédito,Reprodução - Arquivo familiar

Legenda da foto,Napoleão Maiolli, subdelegado, escapou ileso: alvo do primeiro tiro

Um dos atingidos foi o irmão de João Lucca, o subdelegado Guerino. Cercado por três e esfaqueado, foi dado como morto. Caído na mata, de tão ensanguentado seu pretenso matador errou o golpe final sem saber. A lâmina da adaga foi barrada por um botão de ouro no colarinho. Guerino só voltaria para casa na noite seguinte, após se arrastar em busca de ajuda.

Já o ferreiro Pedro Mottin, de 23 anos, levou um golpe de facão no rosto que lhe rendeu uma cicatriz da orelha ao queixo. Pelo resto da vida ele fez daquela data seu feriado pessoal, afirmando que havia renascido.

Reação e perseguição

Com os sobreviventes e os corpos dos abatidos retirados no dia seguinte, as autoridades em Porto Alegre foram alertadas. O presidente do Estado (como os governadores eram chamados na época), Borges de Medeiros (1863–1961), caudilho que ficou 25 anos no poder (1898-1908 e 1913-1928), enviou um barco com 100 policiais sob o comando do major Juvêncio Maximiliano Lemos.

Conforme relatório apresentado por Medeiros à assembleia provincial, a missão era simples: "Liquidar com os fanáticos e fazer voltar a paz à região".

A fé de Monge Chico foi sua sentença. Em vez de fugir, se instalou em uma gruta elevada a poucos quilômetros dali, esperando ajuda e abastecido de comida. Com ele estavam cerca de 70 pessoas, mas as armas e munições eram poucas. A seu favor, o terreno, o frio e a lama criada pelas chuvas.

O ataque final veio em 22 de maio, após dias de cerco. Com o tempo firme, a polícia saiu de sua base, a uns 500 metros de distância da gruta. Alguns fugiram, mas um núcleo mais aguerrido ficou ao lado do chefe.

Integrantes da patrulha atacado pelos monges; entre eles os feridos João Ferri, primeiro à esquerda, sentado, à frente de Pedro Mottim, em pé

Crédito,Reprodução - Os Monges de Pinheirinho

Legenda da foto,Integrantes da patrulha atacados pelos monges; entre eles os feridos João Ferri, primeiro à esquerda, sentado, à frente de Pedro Mottim, em pé

Dos 100 brigadianos, 60 subiram o morro atirando divididos em duas colunas. Ao encontrarem uma cabana, a tropa do tenente Juvenal Joaquim Teixeira abriu fogo contra as paredes finas de madeira. Sete do bando saíram sem resistência e aparentando desnutrição (na imagem). No interior, João Francisco Maria de Jesus foi encontrado morto em uma cama ao lado de outros corpos.

Foram enterrados 22 monges na mata, incluindo a última vítima, Cananea, alvejada pelas costas. Ela era a esposa de João Enéias, que desaparecera. Sob a desculpa de buscar reforços, ele fugiu para a localidade de Arvorezinha, distante 50 quilômetros, onde se instalaria.

Por ironia, anos depois o hoteleiro ferido João Ferri muda para o mesmo lugar, o que cria uma aberta inimizade até a morte do antigo mateiro.

Quatro outros fugitivos do bando foram localizados nas estradas da região e abatidos em diferentes circunstâncias. Pelo menos dez adultos e crianças ficaram escondidos nas matas por dias, passando privações enquanto esperavam a retirada das tropas.

Entre eles estava Manuel Lisboa, de apenas 12 anos. Filho de Luiz Lisboa, que trabalhava entregando roupas para um caixeiro, ele frequentava o acampamento com o pai, que era chamado de apóstolo. Manuel e o pai tiveram que comer o couro de arreios do cavalo cozido para enganar a fome naqueles dias. Tudo para preservar a montaria, um instrumento de trabalho essencial.

Sete dos integrantes do bando aprisionados pela polícia no ataque final

Crédito,Domínio Público

Legenda da foto,Sete dos integrantes do bando aprisionados pela polícia no ataque final: enterraram o líder em cova rasa e com os pés para fora: "Para que não voltasse". Levados para capital, foram soltos tempos depois

Já os soldados foram elogiados pelo comando na volta à capital. Nos registros oficiais consta que fizeram 1.560 disparos de fuzil. Para cada revoltoso eliminado foram dados 70 tiros. O que dá uma dimensão da reação.

Já os sobreviventes aos poucos se espalharam discretamente pela região, deixando o passado para trás. Adulto, Manuel Lisboa se instalou em Encantado após andanças. Ele viveu na pobreza e transmitiu sua história aos filhos que teve em idade avançada.

Um deles, Olímpio, de 74 anos, guarda a memória da penúria relatada pelo pai. Ele é o único entre os descendentes que fala abertamente sobre o massacre.

Olímpio Lisboa, 74 anos, único descendente a falar

Crédito,André Vargas

Legenda da foto,Olímpio Lisboa, 74 anos, único descendente a falar: "Meu pai era criança"

Lei de Terras e preconceitos

Para os colonizadores, a Guerra de Pinheirinho se mostrou um ato de resistência das forças da ordem. Mas não é o que pensa o professor Luís Fernando Laroque, também da Univates.

Para ele, a religião teve um peso enorme, mas pouco percebido. Em uma sociedade extremamente católica, o messianismo popular surgido com o fim do Império era visto como uma ameaça à transição de poder, já que a figura ungida de D. Pedro 2º havia saído de cena, criando um vazio no imaginário social. Algo também visto em outros movimentos, como Canudos. "Me parece que esse foi um forte elemento, pois eles [os monges] não se enquadravam", reflete.

Na dissertação Monges de Pinheirinho – A outra face (2010), Maria Lisane Machado ofereceu uma explicação direta e essencial, baseada em parte nos relatos de sua avó. "Não eram perigosos, eles na verdade eram falsários, que se diziam poderosos curadores de doenças que dificilmente seriam curadas, dada a dificuldade da medicina na época".

Olímpio, o filho de Manoel, só pensa no que ouviu: "Meu pai sofreu muito. Era uma criança".

Por que PIX incomoda tanto o governo Trump?

 

Tela de celular exibe página inicial do pix dentro do site do Banco Central

Crédito,Marcello Casal Jr/Agência Brasil

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O governo dos Estados Unidos voltou a atacar o sistema de pagamentos Pix nesta terça-feira (02/06) ao concluir uma grande investigação sobre práticas comerciais do Brasil.

Uma investigação comercial com base na chamada Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 — um instrumento legal que permite a Washington apurar práticas estrangeiras consideradas injustas ou discriminatórias contra empresas e produtos americanos — concluiu que práticas comerciais do Brasil são "irrazoáveis" e "oneram ou restringem o comércio dos EUA".

Um dos alvos do documento americano — produzido pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) — é o sistema de pagamentos Pix.

"O Brasil tem prejudicado injustamente as empresas americanas que atuam em serviços concorrentes de pagamento eletrônico, inclusive por meio de políticas que favorecem seu campeão nacional, o Pix", afirma o documento.

O governo americano acusa o Banco Central brasileiro de exercer papel duplo no Pix — "como regulador e proprietário/operador" do Pix — criando um "conflito de interesses, na ausência de salvaguardas processuais adequadas".

"O banco tem atuado como regulador para desfavorecer provedores de serviços de pagamento eletrônico dos EUA e privilegiar o Pix. Por exemplo, o Banco Central exige o uso do Pix por instituições financeiras com mais de 500 mil contas e requer que o Pix seja exibido na tela principal do aplicativo das instituições participantes com destaque igual ou superior a qualquer outra funcionalidade de pagamento ou transferência."

Além disso, há críticas pelo fato de o Banco Central exigir que o Pix seja ofertado sem taxas aos clientes. Segundo a conclusão da investigação, as autoridades brasileiras obrigam empresas americanas a promover o competidor brasileiro (Pix) sem compensações às instituições americanas.

"Os atos, políticas e práticas do Brasil relacionados ao tratamento preferencial dado ao Pix são injustos e discriminatórios. É injusto exigir que os concorrentes ofereçam vantagens ao Pix, como disponibilidade, visibilidade e limites de taxas, e o Brasil discrimina os fornecedores de serviços de pagamento eletrônico dos EUA ao conceder essas vantagens apenas a seu campeão nacional do Brasil."

Por ora, ainda não há definição sobre as consequências da conclusão das investigações americanas sobre as práticas comerciais e sobre o Pix.

O documento americano propõe tarifas retaliatórias de 25% a produtos brasileiros — mas essas medidas ainda não foram definidas e serão discutidas ao longo das próximas semanas.

Algumas datas já foram definidas:

  • O governo americano ainda está recebendo consultas do público até o dia 1º de julho sobre as medidas.
  • No dia 6 de julho, haverá uma audiência pública nos EUA.
  • O governo americano disse que estará em diálogo com o brasileiro até o dia 15 de julho, antes de anunciar qualquer decisão.

Este não foi o primeiro ataque dos EUA ao Pix.

O Pix foi mencionado em outro relatório do USTR de 31 de março em que os EUA listam o que consideram barreiras comerciais de mais de 60 países contra empresas americanas.

Na ocasião, o governo brasileiro reagiu e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que o "o Pix é do Brasil". "Ninguém vai fazer a gente mudar o Pix", ele declarou em entrevista na semana passada.

Até o presidente da Colômbia saiu em defesa do sistema de pagamentos brasileiro. Gustavo Petro elogiou o modelo e, em uma longa publicação nas redes sociais, pediu que o sistema fosse estendido a seu país.

Com a conclusão das investigações sobre o Pix, surge agora uma pergunta: o que os EUA podem fazer de concreto contra o sistema de pagamentos brasileiro?

Mulher está pagando com celular por hamburguer que comprou em carrinho de comida. Ela aproxima o aparelho de uma maquininha de cartão.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Especialistas apontam que o pix contraria interesses de big techs e de empresas de cartão

As armas dos EUA

Os especialistas em comércio exterior e regulação econômica ouvidos pela reportagem frisaram que os EUA não têm jurisdição para agir diretamente contra o Pix.

As ferramentas à disposição dos americanos se concentram no âmbito comercial e estão descritas na própria legislação que foi usada para abrir a investigação contra o Brasil, a seção 301 da Lei de Comércio de 1974.

Vão desde a suspensão de benefícios e acordos comerciais à restrição de importações de produtos e serviços ou imposição de tarifas sobre esses bens e serviços.

Ou seja, os EUA poderiam, por exemplo, dar início a um novo tarifaço sobre as exportações brasileiras com destino aos portos americanos ou retirar o Brasil do Sistema Geral de Preferências (SGP), um programa de benefícios tarifários instituído nos anos 1970 para países em desenvolvimento.

"Trata-se, portanto, mais de um mecanismo de pressão externa e econômica sobre o Estado brasileiro do que um poder regulatório sobre a infraestrutura de pagamentos em si", disse Camila Villard Duran, especialista em direito econômico e regulação do mercado monetário.

Duran destaca que no relatório de março do USTR a linguagem usada no capítulo do Brasil é semelhante à que descreve supostas "práticas desleais" no setor de pagamentos em diversos outros países que também são criticados pelos EUA.

"O caso brasileiro, nesse sentido, não é isolado, mas integrado a uma estratégia política mais ampla de contestação de práticas nacionais em serviços financeiros digitais", diz ela, que é professora associada de direito da ESSCA School of Management, na França, e cofundadora do Instituto Mulheres na Regulação.

"Assim, a consequência mais plausível não é uma medida direcionada tecnicamente ao Pix, mas sim alguma forma de retaliação comercial mais ampla", avalia Duran.

Nesse sentido, uma fonte brasileira próxima às negociações diz ser difícil arriscar dizer o que exatamente virá após a investigação.

Historicamente, pondera a fonte, os EUA pouco usaram o instrumento da seção 301 da Lei de Comércio de 1974 e, no caso específico da investigação contra o Brasil, o escopo de temas analisados pelo USTR é amplo e vai bem além do Pix.

Também inclui, por exemplo, as tarifas a que os produtores de etanol americanos estão submetidos para acessar o mercado brasileiro e até o desmatamento ilegal, acusado de dar vantagem competitiva injusta às exportações agrícolas brasileiras.

Renê Medrado, sócio do escritório Pinheiro Neto Advogados, faz avaliação semelhante e exemplifica: ainda que os EUA por ventura optassem por uma retaliação comercial ampla, é difícil estimar se as eventuais tarifas seriam colocadas para uma lista ampla de produtos ou se seriam seletivas.

"E tem isso de que o governo americano às vezes fala que vai [fazer alguma coisa], depois volta atrás…", ele acrescenta, ao comentar sobre o desafio de se traçar possíveis cenários.

"O alcance dessas medidas dependerá muito mais da dinâmica da política bilateral e da eficácia da diplomacia brasileira", comenta a professora Camila Villard Duran.

O que está em jogo

Por que então os EUA estão atacando o Pix este ano? No relatório do USTR de março do ano passado, o sistema de pagamentos instantâneo brasileiro não havia nem sido mencionado diretamente, ao contrário do que aconteceu no deste ano.

Mesmo no documento em que formalizou a investigação contra o Brasil, a agência não citou o Pix nominalmente, apesar de ter feito referência indireta a ele ("O Brasil também parece se envolver em uma série de práticas desleais com relação a serviços de pagamento eletrônico, incluindo mas não se limitando a favorecer seus serviços de pagamento eletrônico desenvolvidos pelo governo", diz o texto).

A fonte ouvida pela BBC News Brasil que tem proximidade com as negociações comenta que uma das hipóteses para o endurecimento no tom agora foi o desfecho de uma reunião recente da Organização Mundial do Comércio (OMC) em que o Brasil bloqueou uma proposta dos EUA e outros países para estender a moratória de tarifas aduaneiras sobre transmissões eletrônicas, que inclui serviços digitais como streamingssoftwares e jogos.

E há ainda a grande derrota que o tarifaço de Trump sofreu no judiciário americano em fevereiro deste ano, quando a Suprema Corte considerou que o instrumento que vinha sendo usado para embasar as medidas (a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional, ou IEEPA, na sigla em inglês), na verdade não autorizava o governo americano a instituir as tarifas.

Em um artigo de março deste ano, duas analistas do centro de pesquisas americano Brookings Institute pontuaram que, diante desse revés, a Seção 301, usada na investigação contra o Brasil, pode entrar no cardápio do governo americano como opção para voltar a taxar seus parceiros comerciais.

Do lado do setor financeiro, a jurista Camila Villard Duran chama atenção para a expansão do Pix no Brasil, "que altera diretamente o equilíbrio competitivo para empresas americanas, como Visa e Mastercard", mas especialmente para o fenômeno mais amplo no qual ele está inserido, de transformação estrutural e reorganização da ordem monetária e financeira internacional.

"O Pix já não é apenas um sistema de pagamentos eficiente. Ele representa um modelo de infraestrutura pública, que reduz a dependência de redes privadas estrangeiras e concentra, no âmbito doméstico, o controle jurisdicional sobre dados e fluxos financeiros", destaca Duran.

A professora aponta que, no relatório do USTR, os EUA fazem críticas semelhantes às feitas ao Brasil a países como Índia, Tailândia e Paquistão, "onde políticas públicas nacionais promovem sistemas domésticos de pagamento, impõem requisitos de localização de dados ou criam barreiras regulatórias à atuação de empresas estrangeiras".

"Em todos esses casos, o argumento dos EUA é semelhante: tais medidas seriam discriminatórias e restringiriam o acesso de empresas americanas a mercados nacionais", completa.

Postagem no X (antigo Twitter) aborda o fato de os EUA terem aberto uma investigação sobre o funcionamento do Pix

Crédito,Reprodução/X/Governo Federal

Legenda da foto,Post do governo federal de julho de 2025: gestão Lula tem procurado usar episódios para tentar melhorar imagem

Da economia à política

Diante desse panorama, Duran avalia que a pressão sobre o Pix e sobre sistemas de pagamentos de outros países também está ligada a uma questão ainda mais ampla, de soberania.

O que está em jogo, diz ela, já não é apenas a concorrência entre empresas, "mas o controle sobre infraestruturas consideradas como críticas".

"Nas minhas pesquisas, tanto sobre a criação do euro digital como sobre os projetos de plataformas alternativas para transações financeiras transfronteiriças, noto que a ideia de 'soberania monetária' está se deslocando muito rapidamente da autonomia da política monetária para o controle jurisdicional sobre as infraestruturas de pagamento e dos dados monetários que elas geram", afirma Duran.

"A moeda, na economia digital, torna-se cada vez mais informação e, nesse contexto, o controle jurisdicional sobre esses dados passa a ser um elemento central do poder monetário estatal."