SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Irã ainda conseguiria fabricar bomba atômica com seu estoque de urânio enriquecido?

 

Montagem mostra cientistas em uma usina nuclear manuseando um líquido muito quente e diversas centrífugas

Crédito,Getty Images/BBC

    • Author,Luis Barrucho
    • Role,Serviço Mundial da BBC
  • Tempo de leitura: 6 min

estoque iraniano de urânio enriquecido voltou a chamar a atenção, depois que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que Teerã havia concordado em entregá-lo, como parte de um acordo para pôr fim à guerra.

Mas, na segunda-feira (20/4), o vice-ministro de Relações Exteriores do Irã, Saeed Khatibzadeh, negou a afirmação. Ele declarou à agência de notícias AP que esta ideia é "inviável".

Enquanto os dois lados negociam um caminho para novas negociações de paz, o futuro do material certamente fará parte importante das discussões.

Mas o que é o urânio enriquecido? E por que ele é tão importante?

O que é o urânio enriquecido?

Inicialmente, o urânio é transformado em gás. Este gás é introduzido em centrífugas, que são máquinas que giram em velocidades extremamente altas.

O urânio é um elemento natural, encontrado na crosta terrestre. Ele é composto principalmente de dois isótopos: U-238 e U-235. Mais de 99% do urânio natural é U-238, que não sustenta facilmente uma reação nuclear em cadeia. Apenas cerca de 0,7% é U-235, um isótopo que pode se dividir facilmente, liberando energia em um processo conhecido como fissão nuclear.

Para transformar o urânio em um material útil, é preciso aumentar a proporção de U-235, por meio de um processo chamado enriquecimento.

Inicialmente, o urânio é transformado em gás. Este gás é introduzido em centrífugas, que são máquinas que giram em velocidades extremamente altas.

À medida que elas giram, o U-238, mais pesado, move-se levemente para cima. Já o U-235, mais leve, fica mais perto do centro da máquina.

Isso permite que o U-235 (a forma de urânio útil e mais rara) seja gradualmente separado do U-238. E este urânio mais concentrado é retirado por uma das extremidades da centrífuga.

Ilustração mostrando como uma centrífuga separa os diferentes isótopos de urânio

Qual é a diferença entre o urânio usado em reatores nucleares e em armas?

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Os diferentes níveis de enriquecimento tornam o urânio apropriado para diversos usos.

O urânio com baixo enriquecimento, normalmente com 3 a 5% de U-235, é usado como combustível em usinas comerciais de energia nuclear.

Este nível é suficiente para sustentar uma reação em cadeia controlada, mas muito inferior ao teor necessário para a bomba atômica.

O urânio altamente enriquecido, com níveis de 20% ou mais, pode ser empregado em reatores de pesquisa e o urânio em grau militar, para a produção de armas, normalmente é enriquecido até cerca de 90%.

Esta concentração gera condições ideais para que uma reação nuclear saia de controle quase instantaneamente.

E, quando há quantidade suficiente desse material, os átomos começam a se dividir com extrema rapidez, liberando imensas quantidades de energia em uma fração de segundo.

Este ponto é o que diferencia os usos civis e militares do urânio.

Em um reator, o combustível é enriquecido apenas levemente e a reação tem sua velocidade deliberadamente reduzida e cuidadosamente administrada. Com isso, a energia pode ser liberada gradualmente ao longo de vários meses ou anos.

Já em uma bomba, o objetivo é o contrário: permitir que a reação se acelere ao máximo possível.

Um acordo assinado em 2015 com seis potências mundiais — Alemanha, China, Estados Unidos, França, Reino Unido e a Rússia — limitou o Irã a enriquecer urânio até, no máximo, 3,67%.

O acordo também restringiu o estoque iraniano em 300 kg, limitou o número de centrífugas em operação e proibiu o enriquecimento na sua usina subterrânea de Fordo.

Mas, em maio de 2018, durante o primeiro mandato de Donald Trump, os Estados Unidos abandonaram o acordo.

Gráfico mostrando o possível uso das diferentes concentrações de U-235 em urânio.

Por que o nível de enriquecimento é importante?

Quanto mais alto o nível de enriquecimento, mais próximo estará o urânio de poder ser utilizado em uma arma nuclear.

Atingir 20% de enriquecimento é uma marca importante. Neste ponto, já foi realizada a maior parte do esforço técnico necessário para produzir material em grau militar.

Transformar urânio natural em um material enriquecido a 20% exige milhares de etapas de separação repetidas, muito tempo e energia. Já o enriquecimento de urânio de 20% para cerca de 90% exige muito menos etapas adicionais.

Isso significa que o urânio enriquecido em níveis mais altos pode ser refinado em grau militar com relativa rapidez.

Quanto urânio tem o Irã?

Um ponto central das atuais negociações é o que irá acontecer com o atual estoque de urânio enriquecido do Irã.

No início da guerra, o Irã detinha cerca de 440 kg de urânio enriquecido a 60%, segundo autoridades norte-americanas. Este material pode ser enriquecido, de forma relativamente rápida, até o nível de 90% necessário para o urânio em grau militar.

O Irã também possui cerca de uma tonelada de urânio enriquecido a 20% e 8,5 mil quilos a cerca de 3,6%, normalmente usado para fins civis, como a produção de energia ou para pesquisas médicas.

Acredita-se que a maior parte do urânio altamente enriquecido que poderia ser transformado em material para armas nucleares esteja armazenada em Isfahan.

Esta usina é uma das três instalações nucleares subterrâneas no Irã que foram alvo de ataques aéreos dos Estados Unidos e Israel no ano passado.

Imagens de satélite e mapa mostrando o complexo nuclear iraniano em Isfahan

Crédito,Google Maps/BBC

Mas não se sabe ao certo quanto urânio altamente enriquecido está armazenado em outros locais.

Fontes afirmam que o Irã rejeitou a exigência de uma moratória de 20 anos para o enriquecimento nuclear. Em resposta, o país propôs uma interrupção por cinco anos, como havia sido apresentado antes do início das hostilidades.

Teerã também rejeitou as exigências de entregar seu estoque de 400 kg de urânio altamente enriquecido, mantendo sua concessão anterior de diluir o urânio enriquecido a 60%.

O chefe da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Rafael Grossi, declarou à AP em outubro do ano passado que esta quantidade, se fosse enriquecida, seria suficiente para produzir 10 bombas nucleares.

O Irã está construindo uma arma nuclear?

O Irã defende que suas instalações nucleares são totalmente destinadas a fins pacíficos e a AIEA afirma que não encontrou evidências de um programa ativo de desenvolvimento de armas nucleares.

A produção de urânio em grau militar é apenas uma etapa da construção da bomba atômica. Uma bomba operacional também exige outras etapas complexas, como o projeto e a montagem de uma ogiva e o desenvolvimento de um sistema de lançamento.

"O Irã chegou a desenvolver alguma capacidade de projeto de ogivas até 2003, quando aparentemente suspendeu o programa", segundo a especialista independente de controle de armas Patricia Lewis.

Mas ela destaca que, "após o colapso do acordo nuclear de 2015 e a falta de negociações para um novo acordo, é possível que o Irã tenha decidido iniciar novamente o desenvolvimento da produção de ogivas".

Uma avaliação da Agência de Inteligência de Defesa dos Estados Unidos afirmou, em maio de 2025, que o Irã poderia produzir urânio em grau militar suficiente para um único dispositivo "provavelmente em menos de uma semana".

Mas o organismo também declarou que o Irã "com quase certeza não estava produzindo armas nucleares", embora tenha tomado medidas que colocassem o país em posição de iniciar sua produção, se assim decidisse.

Israel afirmou possuir informações de inteligência indicando que o Irã teria realizado "progressos concretos" para o desenvolvimento de componentes para a produção de armas nucleares.

Com colaboração de Nadia Suleman e edição de Mark Shea.

Brasileiro mostra como é morar em favela chinesa pagando R$ 30 de aluguel: 'Minha viagem nunca acabou

 

Maurício no pátio onde mora em Pequim

Crédito,Arquivo pessoal

  • Tempo de leitura: 7 min

Quando chegou à China pela primeira vez, aos onze anos, Maurício da Cruz teve a sensação de que nenhum outro lugar poderia ser sua casa.

O ano era 2000 e seu pai havia sido transferido pelo trabalho para a capital, Pequim, onde Maurício morou por dois anos até voltar para ficar com a mãe no sul do Brasil.

"A partir daí, a vontade de me mudar definitivamente para a China nunca foi embora. Tracei meu plano de vida baseado nisso, e estudei comércio exterior esperando que fosse me ajudar", conta.

Em 2012, Maurício fez as malas para não voltar mais.

Nos primeiros dois anos na China, focou em estudar mandarim para se integrar melhor à sociedade.

Depois, foi contratado para fazer o trabalho que permeou a maior parte da sua vida no país: tradução de jogos eletrônicos do mandarim para o português.

"Mas com a evolução da inteligência artificial, perdi meu trabalho. Como Pequim é muito cara, foi assim que decidi vir morar no lar que vivo hoje, uma casa de isopor em uma das 'favelas' chinesas, que me ajuda a economizar muito."

Por fora, casa onde Maurício mora é revestida por isopor

Crédito,Arquivo pessoal

Legenda da foto,Por fora, a casa onde Maurício mora é revestida por isopor

28 metros quadrados e R$ 30 de aluguel

Quando ainda era estudante de mandarim, Maurício se apaixonou por sua professora, uma chinesa seis anos mais velha, nascida e criada em Pequim.

"Tentei convidá-la para sair, mas ela achou que não era apropriado. Mas, depois de um tempo que as aulas acabaram, acabamos nos reconectando", lembra.

O direito de morar na propriedade onde Maurício reside hoje é da mãe de sua esposa, que nos anos 1990 trabalhava em uma empresa estatal chinesa.

Esse tipo de moradia fazia parte do sistema das chamadas "unidades de trabalho", ou danwei, que organizavam não só o emprego, mas também aspectos básicos da vida urbana na China até as reformas econômicas iniciadas no fim do século 20.

Maurício mostra sua casa em Pequim

Crédito,Arquivo pessoal

Legenda da foto,Maurício mostra sua casa em Pequim
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Empresas estatais e órgãos públicos distribuíam apartamentos ou quartos a seus funcionários como benefício, com aluguéis simbólicos ou fortemente subsidiados. O acesso não era aberto ao mercado: estava vinculado ao vínculo empregatício e, em muitos casos, acabou sendo mantido dentro das famílias ao longo do tempo.

"A empresa meio que era 'dona' desses locais e deu esse direito para ela alugar sempre por um preço abaixo (do preço de mercado). E agora somos eu e minha esposa que moramos aqui, e pagamos o equivalente a R$ 30 por mês", diz Maurício.

O imóvel fica em uma área tradicional que antes era ocupada por famílias ricas. Eram casas com pátio interno — conjuntos onde uma única família controlava vários cômodos ao redor de um espaço comum. Após a tomada de poder pelo Partido Comunista, essas propriedades foram confiscadas ou redistribuídas e divididas entre várias famílias.

"Uma família inteira era dona de tudo, aí eles dividiram. Alguns dos antigos donos ficaram com um quartinho dentro do que antes era deles", afirma.

Com o tempo, esses pátios, chamados de siheyuan, foram sendo subdivididos ainda mais para acomodar novos moradores, muitos ligados às próprias empresas estatais.

Nesse processo, também surgiram adaptações informais para dar conta da falta de espaço e infraestrutura.

"Minha casinha antes não tinha banheiro até fazerem uma construção meio irregular, que é comum nesse tipo de área. São os 'puxadinhos' — você ocupa um espaço que não é de ninguém ali, do governo, e levanta uma parede. Não é legalizado, mas sempre foi feito por aqui."

Segundo ele, quem conseguiu ampliar o imóvel ganhou algum conforto. "Tem gente que fez banheiro, mas tem outros que moram em lugares bem pequenos, de 10, 15 metros quadrados."

Parte da casa onde Maurício e sua esposa vivem

Crédito,Arquivo pessoal

Legenda da foto,Parte da casa onde Maurício e sua esposa vivem
Cozinha e 'pia do banheiro'

Crédito,Arquivo pessoal

Legenda da foto,Cozinha e 'pia do banheiro'

"Tem gente que mora aqui no pátio e acompanhou o crescimento econômico do país, está bem de vida. Mas tem aqueles que ainda vivem aqui, no centro de Pequim — onde o metro quadrado hoje vale muito — e fazem parte de classes sociais mais baixas. Aqui do meu lado tem vizinho que ainda junta recicláveis para complementar a renda, e muitas das casas não têm banheiro", diz Maurício.

Antes da reforma que ele e sua esposa fizeram por dentro do imóvel, essa era a realidade da casa de Maurício.

"Minha esposa viveu sem banheiro próprio até os 20 anos de idade", diz ele, acrescentando que há um sanitário público próximo ao pátio onde muitos dos moradores fazem suas necessidades.

"Hoje, por dentro, minha casa é moderna, colocamos ar-condicionado e tudo está novinho. Apesar de ter só 28 metros quadrados, tem tudo que precisamos."

Por fora, no entanto, o contraste permanece. "Por fora você vê que é antigo, tem até revestimento de isopor", diz.

Quarto da residência

Crédito,Arquivo pessoal

Legenda da foto,Quarto da residência

Para ele, a maior diferença da vida que levava com a sua família no Brasil é a limitação de espaço e privacidade. "Quando eu saio da minha casa, já dou de cara com a porta da vizinha. Ela tem dois pedaços de casa, então fica indo e voltando o tempo todo", conta. "Essa questão da privacidade não é igual ao Brasil, onde eu tinha meu próprio espaço, mas não é um grande empecilho. Vivo tranquilo aqui."

Apesar do grande movimento no pátio, o brasileiro conta que a segurança é ótima e que nunca teve problemas com os vizinhos.

Para ele, a sensação de segurança compensa. "O que a gente compra na internet fica na porta, sabe? O pessoal passa, e mesmo assim ninguém mexe", afirma. "Nem todo mundo aqui é rico, tem gente mais humilde, mas não existe roubo."

Ele observa que ainda há marcas de um período menos seguro no passado. "Tem grades nas janelas, que são de uma época em que a China não era tão segura assim", diz. "Hoje em dia, isso chama atenção, porque é um lugar super seguro."

'Minha viagem nunca acabou'

Sem o emprego, Maurício, hoje com 37 anos, passou a investir mais tempo na produção de conteúdo sobre a vida na China — e encontrou ali uma nova fonte de renda. Seus vídeos, que mostram desde o cotidiano nos pátios históricos até curiosidades culturais, começaram a atrair milhões de visualizações de brasileiros interessados em entender como é viver no país.

"Parece que é tudo tão diferente que chama muita atenção", diz. "É uma sensação de novidade constante, sabe? Você sempre está sendo surpreendido." Para ele, a experiência de morar na China mantém viva a mesma sensação de quando se está viajando. "Sabe quando você viaja e fica maravilhado com tudo? Então, eu sinto isso até hoje. Como se a minha viagem nunca tivesse acabado."

Parte do apelo, segundo ele, está justamente nas diferenças. "No Brasil, você já está acostumado com tudo. Aqui não: são os sabores, as pessoas, a cultura… em cidades menores, por exemplo, o pessoal te nota, quer tirar foto, é muito aberto." Além disso, ele diz que o país está em constante transformação. "A China cresce muito. Você vai para o Brasil e, quando volta, já tem novidades, coisas que mudaram. Isso é muito legal."

O crescimento nas redes foi rápido. "Foi muito louco: ganhei 300 mil seguidores no Instagram em um mês", conta. Depois de resolver um problema técnico que o impedia de publicar no Facebook, a audiência aumentou ainda mais. "Em um mês, foram mais 120 mil seguidores lá. E aí começou a monetizar — em menos de duas semanas, deu uns US$ 500 só de visualização."

Hoje, ele soma mais de 1 milhão de seguidores nas diferentes plataformas e começa a ver a atividade como uma fonte possível de sustento. "Fiquei quase um ano fazendo vídeo sem ganhar praticamente nada", diz. "Agora começou a girar um valorzinho que já ajuda a manter o custo de vida aqui."

O plano, porém, vai além da monetização direta dos vídeos. Durante uma viagem recente ao Brasil, Maurício abriu uma empresa e começou a estruturar um novo projeto. "A ideia é criar uma agência de turismo, a 'China Sem Fim', para trazer brasileiros para cá em grupos", explica. "Quero usar todo esse conhecimento e a audiência que eu tenho para transformar isso em renda."

Ele diz que já recusou propostas mais lucrativas, de bets, por não se alinharem com o tipo de conteúdo que quer produzir. "Ofereceram muita grana, mas não faz parte do meu perfil. Acho que dá para construir algo sólido mostrando a China como ela é", diz.