Há um abismo entre o mundo dos números e o mundo dos corpos famintos. Enquanto trilhões digitais dançam no ciberespaço financeiro — um capital sem lastro, sem suor, sem terra —, bilhões de seres humanos ainda lutam pelo essencial: pão, água, dignidade. As teorias econômicas, tantas vezes, tornaram-se elegantes álgebras da alienação, esquecendo que a economia deveria ser, antes de tudo, o cuidado da casa comum.
Schumpeter nos falou da “destruição criativa”, o furacão da inovação que varre o velho para dar lugar ao novo. Mas e quando essa destruição atinge não apenas máquinas obsoletas, mas vidas humanas? Quando a inovação tecnológica serve para acumular riqueza em poucas mãos, enquanto soluções sociais básicas — saneamento, alimentação, habitação digna — permanecem como problemas arcaicos? A inovação tem limites éticos: não pode ser um fetiche quando há fome.
Keynes já alertava: o mercado, sozinho, não garante o pleno emprego nem o bem-estar social. É preciso a mão visível do Estado, orientada pelo interesse coletivo. Amartya Sen ampliou o horizonte: desenvolvimento não é apenas crescimento do PIB, é expansão das liberdades reais das pessoas — saúde, educação, capacidade de escolha. Stiglitz desnudou a hipocrisia da globalização assimétrica, que enriquece corporações e empobrece nações. Piketty escancarou a matemática perversa: quando o rendimento do capital supera o crescimento econômico, a desigualdade se torna inevitável, herdada, estrutural.
E os bancos? Ah, os bancos! A Escola de Zurique, entre outras correntes pós-crise de 2008, tenta resgatar sua função social primordial: não cassinos de derivativos, mas instrumentos de financiamento de longo prazo, de projetos que constroem sociedades, não apenas dividendos. Onde estão os bancos que financiam a transição ecológica, a agricultura regenerativa, as cooperativas populares?
A história nos deu espelhos terríveis: a fome na Rússia stalinista e na China maoísta, onde projetos “socialistas” viraram máquinas de opressão e miséria, beneficiando nomenklaturas vorazes. O Leste Europeu sufocado pela burocracia cinzenta. A América Latina, tantas vezes refém do populismo de direita ou de esquerda, que promete atalhos e entrega apenas a perpetuação das elites — sejam oligarquias tradicionais ou novas boliburguesias. A globalização prometeu convergência, mas aprofundou o fosso. O neoliberalismo pregou liberdade, mas forjou novas cadeias.
E os bilionários filantropos? Suas doações, ainda que úteis, não substituem justiça estrutural. É a diferença entre esmola e direito. Entre caridade e equidade.
Então, qual o caminho?
Não há fórmulas mágicas, mas há direções, exigentes e complexas:
Reenraizamento na economia real: Taxar severamente transações financeiras especulativas. Criar moedas locais e sistemas de crédito lastreados em produção comunitária. Reduzir o poder do sistema de juros compostos, essa usura moderna que concentra riqueza exponencialmente.
Inovação com direção social: Direcionar pesquisa e desenvolvimento (P&D) para necessidades essenciais — medicina preventiva, agroecologia, energias renováveis descentralizadas. Inovação social como prioridade política.
Democracia radical e participativa: Não apenas no voto, mas na economia. Cooperativas, empresas autogestionárias, orçamentos participativos que decidam investimentos públicos. Combater a corrupção com transparência radical e controle social.
Transição Ecológica Justa: Superar a pobreza dentro dos limites planetários exige abandonar o dogma do crescimento infinito. Adotar modelos de prosperidade sem crescimento material — economia circular, bem-estar baseado em tempo livre, comunidade e saúde ecológica, não em consumo.
Autodeterminação dos povos: Respeitar sabedorias locais, economias indígenas, modos de vida tradicionais que já sabem viver em equilíbrio. Apoiar, não impor.
A superação da pobreza não virá de salvadores iluminados — nem bilionários, nem ditadores —, mas da auto-organização popular, do fortalecimento de tecidos sociais baseados na confiança e na reciprocidade. É um caminho de coragem para enfrentar os poderes constituídos. De sabedoria para aprender com os erros do socialismo real e do capitalismo selvagem. De amor político, aquele que Hannah Arendt via como a força para cuidar do mundo comum.
A verdadeira Liberdade, Igualdade e Fraternidade não foram apenas derrotadas por armas; foram sequestradas pelo cálculo egoísta, pela gança disfarçada de racionalidade econômica. Recuperá-las exige mais que revolta: exige uma revolução cotidiana, paciente e obstinada, que coloque a vida — humana e não-humana — no centro de todas as equações.
É possível. Há uma esperança teimosa, brotando nas fissuras do sistema: nas comunidades que revitalizam rios, nas mulheres que criam bancos de sementes, nos jovens que recusam o consumismo vazio. Eles estão reescrevendo a economia, não com fórmulas abstratas, mas com as mãos na terra e no futuro. Essa é a poesia concreta da transformação. Gaia vence os que acham que são Deuses do capital, da corrupção e das brutais violências como guerras e outras.
(Vozes baixas, batidas graves, um violoncelo inquieto. A LUZ se acende sobre um grupo vestido como os Pais Fundadores, mas com roupas rasgadas e sujas de sangue e lama. Eles são a ALMA DA DEMOCRACIA. Ao centro, um orador, com o rosto pintado de preto e branco, como um mártir da Revolução.)
ALMA DA DEMOCRACIA (em uníssono, grave): Um, dois, três, quatro… Quantos crimes cabem num só mandato? Cinco, seis, sete, oito… O povo acorda, ou dorme no relato?
(A música explode. Entra, em passos arrogantes, a FIGURA DO DITADOR. Não é Trump, mas uma caricatura grotesca de sua sombra: terno dourado, coroa de tweets falsos. Ele canta com voz áspera, autotune distorcido.)
DITADOR (Sombra de Trump): Yo, eu sou o homem que o sistema não pegou! Fiz a América Grande™ e o mundo tremeu! Construí muros, assinei cheques, eu sou o deal! E se eles perderem, o impeachment vem, tô te dizendo! Sou o rei do capítulo onze, mestre da falência! Agora vou à falência moral da nação, é minha ciência!
(O Ditador ri. As ALMAS DA DEMOCRACIA formam um semicírculo, apontando para ele.)
ALMA 1 (Mulher, com uma toga rasgada): Trinta e sete acusações! Não é inveja, é estatística! Fraude fiscal, segredos em caixas, essa arte trágica! Espólio de documentos sagrados, como um pirata à deriva! A Justiça é lenta, mas a conta chega, na história que se escreva!
ALMA 2 (Homem, com uma bandeira americana em farrapos): O Capitólio não é um reality show! Foi um ataque à casa do Povo! Insurreição ao vivo e a cores, incitando a turba! O Artigo II, Seção 4, grita: “É alta traição que turva!”
(O Ditador faz gestos obscenos.)
DITADOR: Fake News! Witch Hunt! Eles querem minha pele! Foi um passeio turístico, uma festa legítima e fiel!
ALMA 3 (Com traços indígenas): Tu apoias a invasão, a violação da terra alheia! Palestina sob escombros, Venezuela sob peleja! A ONU? Uma piada. A lei internacional? Um detalhe. O Artigo I, poder do Congresso para a guerra, tu rasgas e não vale!
ALMA 4 (Com um martelo de juiz): Tarifas ilegais? Um presente de jato dos sheiks? O caso Epstein, voos e ilhas, que mistérios sinistros? Negócios do filho, conflitos de interesse, um enriquece ilícito! A Emoluments Clause, tu cuspiste no seu preceito!
(A música fica caótica, com samples de discursos de Trump: “I could stand in the middle of Fifth Avenue and shoot somebody…”, “Grab ’em by the pussy…”)
ALMA DA DEMOCRACIA (em coro): Ele ataca Califórnia! (Fogo!) Nova York! (Peste!) Chicago! (Caos!) Estados que o rejeitam, ele corta o auxílio, solta a fera! Declarações sobre a Groenlândia – quer comprar uma terra inteira? México paga o muro! Colômbia, Brasil, são “bananas” na sua era!
ALMA 5 (Imigrante, com as mãos algemadas): Separação de famílias! Gaiolas! Um “shithole” de nações! Tu violas o devido processo, a dignidade, as nossas razões! A Estátua da Liberdade chora, e seu facho se apaga! Enquanto tu cospes no sonho do cansado, do pobre, da saga!
(A figura de MUSK, espectral, aparece em uma projeção.)
PROJEÇÃO DE MUSK (em sample digital): “Ele é um risco! Um cara que não deveria ter poder!” Até o barão da tech, que flerta com o caos, quis se mover! Quando o deus do foguete teme o seu reator… É o sinal de que o ego virou um ditador!
DITADOR (agora defensivo, raivoso): São todos ingratos! Inimigos! Losers! A mídia é lixo! Eu sou o seu punho! Eu sou o seu vingador! A lei é para fracos! A Constituição? Um obstáculo, um atraso! (“So much winning” até não poder mais… de um país em pedaços!)
(As ALMAS avançam. A música para subitamente. Fica só o som de um coração batendo – o coração da República.)
ALMA 1 (sussurrando, mas ecoando): Teu império foi de vidro, de dívidas e bluff. O “The Art of the Deal” era a arte de enganar. Teu pai te ensinou: “Seja killer”, sem escrúpulos, truque. Transformaste a Casa Branca em um casino em chamas. Mas a casa sempre cai para quem joga com as regras da trapaça.
ALMA DA DEMOCRACIA (crescendo, como uma maré): Nós somos o Preâmbulo. Nós, o “We the People”. Nós somos as emendas. O freio. O contrapeso. Nós somos os Federalist Papers, que tu nunca leu. Somos a voz que não se cala pelo Twitter que tu apagas. Somos os votos que tu questionas. Somos a paz que tu ameaças.
ALMA 2: Não é sobre esquerda ou direita! É sobre tirania ou Lei! É sobre um homem que pensa que o Estado é sua LLC! Que troca a liberdade por aplausos de uma seita enfurecida! Que vende o futuro por uma horda, uma mentira, uma vida!
(A música retorna, triunfal e revolucionária, como em “Yorktown”).
TODOS: Então ergue-se o manifesto! Não de um herói, mas da Nação! Contra o déspota de plantão, essa perversa distorção! O impeachment não é vingança! É a cura! A purgação! É o povo relembrando: AQUI, TODO PODER TEM LIMITAÇÃO!
(O Ditador tenta falar, mas seu microfone corta. Ele é envolto por documentos judiciais, fitas de áudio de “Access Hollywood”, bandeiras amarelas de alerta. As ALMAS viram as costas.)
ALMA 3 (para a plateia, direto): A história tem os olhos em você. O que vai contar? De um povo que dormiu, ou que soube se levantar? O roteiro não está escrito. O musical está em seu final. E o prêmio não é um Tony. É o futuro, ideal, fundamental.
(Batida final, seca. Escuridão. O som do papel da Constituição sendo aberto.)
Crédito,ANDREW CABALLERO-REYNOLDS/AFP via Getty Images
Legenda da foto,"O único que é grande o suficiente (na América Latina) para parar Trump e dizer 'chega' aos EUA é o Brasil", diz Erick Langer, professor de história na Universidade de Georgetown, em WashingtonArticle Information
Mas as ações de Trump não serão iguais para todos porque cada país tem um peso global e uma conjuntura interna diferentes.
A avaliação é de Erick Langer, professor de história na Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos.
Em entrevista à BBC News Brasil, o professor diz que "Trump quer criar uma colônia econômica na Venezuela", com foco na extração de petróleo por empresas dos Estados Unidos.
"Os Estados Unidos querem transformar a Venezuela em um país dependente do próprio Estados Unidos, através do petróleo venezuelano. Tudo indica que, para Trump, não importa o regime que esteja lá na Venezuela. Ou seja, a ditadura chavista pode continuar, mudando apenas de nome, e com o mesmo sofrimento do povo venezuelano", diz Langer, que foi diretor do Centro Latino-Americano da Universidade de Georgetown e é casado com uma venezuelana.
O especialista avalia que a operação americana que deteve Maduro contou com o apoio de integrantes da cúpula do chavismo, como Delcy Rodríguez, vice-presidente do país nomeada presidente interina da Venezuela.
"[Trump] não quer a María Corina porque ela não é tão manipulável como Delcy Rodríguez apesar de, claramente, María Corina também querer abrir o mercado para empresas de petróleo de fora", avalia o professor.
Langer também acredita que Trump passará a pressionar o México para que não ajude Cuba, porque seu objetivo é "estrangular ainda mais" a economia cubana.
Segundo o especialista, o presidente dos Estados Unidos quer dominar todo "o hemisfério americano" e buscará influenciar as eleições presidenciais brasileiras neste ano.
"Mas vai acabar prejudicando a direita porque o nacionalismo falará mais forte", pontua.
"O Brasil é o grande contrapeso" contra as investidas de Trump, acrescenta.
A seguir, os principais pontos da entrevista.
Crédito,Divulgação
Legenda da foto,'A Venezuela é o país mais urbano da América Latina. O problema agora é que Trump quer estabelecer uma colônia econômica, e isso não é tão fácil'
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BBC News Brasil - Qual é a sua opinião sobre a retirada de Maduro da Venezuela e sobre as declarações de Trump de que vai governar ("run") o país e abrir as portas para as petrolíferas dos Estados Unidos?
Erick Langer - Foi bom que tiraram o ditador. Mas, em primeiro lugar, não há um plano para o retorno da democracia. E isso combina com Trump, porque Trump não está a favor da democracia nem nos Estados Unidos.
Acho que o que ele quer fazer é criar uma colônia econômica na Venezuela. Porque o que ele disse, na verdade, é que Delcy Rodríguez "tem que me obedecer ou vou invadir e fazer o que for.."
[Frase do entrevistado, como se estivesse falando no lugar de Trump. Em entrevista à revista americana The Atlantic, publicada no domingo (4/1), Trump ameaçou tomar medidas contra Rodriguez, caso ela não seguisse os planos de Washington. "Se ela não fizer o que é certo, pagará um preço muito alto, provavelmente maior do que Maduro", disse o republicano à revista].
Isso é coisa de mafiosos.
Acho falso o Trump dizer que roubaram o petróleo dos Estados Unidos. Ou argumentar que a Venezuela não pagou... Mas o petróleo continua sendo da Venezuela. O que existe é um contrato que pode não ter sido cumprido.
[A Venezuela realizou a nacionalização do petróleo em 1976, criando a estatal PDVSA. Durante o governo de Hugo Chávez, a medida foi ampliada com a promulgação de uma lei, em maio de 2007, que determinou o controle nacional na produção da zona do Orinoco, onde existe uma das maiores concentrações de petróleo do planeta. A maioria das empresas estrangeiras que exploravam petróleo ali teria aceitado fazer um acordo com o governo Chávez, ficando como sócias minoritárias do Estado venezuelano. Mas as empresas americanas ExxonMobil e ConocoPhilips decidiram deixar o país sul-americano e cobraram compensações financeiras pelas consequências da nacionalização.]
Mas isso é muito diferente. Evidentemente, Trump não sabe muito de história, porque não sabemos se ele se refere à nacionalização dos anos 1970 ou se faz referência aos contratos posteriores durante o chavismo, quando foi feito um contrato e sabemos que só foi paga uma parte.
Quer dizer que a Venezuela deve ainda certo dinheiro a estas companhias. Então, é bom que Maduro tenha saído, mas o problema é que o chavismo continua.
Entendo que Trump não queira colocar María Corina no poder porque ela tem o apoio dos venezuelanos.
Ela, então, tem muito mais possibilidade de ação porque tem o apoio do povo venezuelano.
Delcy Rodríguez não tem esse respaldo. E ela depende da máfia chavista...
BBC News Brasil - Ou dos Estados Unidos...
Erick Langer - Exato. Vai depender dos Estados Unidos, mas é o povo, realmente, o dono do que está debaixo da terra [petróleo], não os Estados Unidos.
Ou seja, [Trump] não quer a María Corina porque ela não é tão manipulável como Delcy Rodríguez apesar de, claramente, María Corina também querer abrir o mercado para empresas de petróleo de fora e etc...
BBC News Brasil - O senhor falou em "colônia". Por quê?
Erick Langer - Porque os Estados Unidos querem transformar a Venezuela em um país dependente dos Estados Unidos, através do petróleo venezuelano.
Tudo indica que, para Trump, não importa o regime que esteja lá na Venezuela.
Ou seja, a ditadura chavista pode continuar, mudando apenas de nome, e com o mesmo sofrimento do povo venezuelano.
É o que podemos ler de tudo o que Trump disse até agora.
Mas Trump não se expressa muito bem, o que deixa mais difícil entender o que vai acontecer a partir de agora.
Mas acho que o acordo é assim: se vocês não nos derem o que queremos, que é o petróleo, voltaremos a atacar novamente.
Todo o demais fica igual, porque ele disse que não haverá presença norte-americana [no país caribenho]. Que os Estados Unidos vão administrar a Venezuela, mas sem seu pessoal na Venezuela. Algo difícil de se fazer.
Suponho que ele vá fazer isso através dos próprios chavistas [que estão no governo]. Ou seja, os chavistas têm um campo amplo para fazer o que estão fazendo desde que mandem petróleo para os Estados Unidos.
Hoje mesmo [domingo, 04/01, à noite], depois do sequestro de Maduro, a situação politica não mudou.
O chavismo continua no poder. O Exército [venezuelano] parece continuar na mesma linha e com seus arranjos de corrupção. Com o que existe há tempos nas Forças Armadas de Venezuela. Ou seja, as únicas mudanças que ocorreram foram: Maduro não está mais na Venezuela, agora está nos Estados Unidos.
Os venezuelanos que moram na Venezuela estão confusos, não sabem o que fazer...
Eu acho que o que María Corina deveria fazer é mobilizar as pessoas e assumir o poder, com a parte do Exército que não quer continuar com isso....
Crédito,Getty Images
Legenda da foto,Maduro e a esposa foram levados ao tribunal, em Nova York, nesta segunda-feira (5/1)
BBC News Brasil - Com Edmundo González ou sem Edmundo González [candidato da oposição, apoiado por María Corina, que disputou as eleições presidenciais contra Maduro em 2024]?
Erick Langer - Obviamente, não sou conselheiro de María Corina e não sei o que ela vai fazer.
Mas o que eu faria, no lugar dela, seria chamar manifestações e assumir a Presidência... Porque com María Corina na presidência, Trump não voltaria a invadir a Venezuela.
Mas aos Estados Unidos não interessa, neste momento, ter um governo legítimo na Venezuela. O objetivo é pegar o petróleo e ter um país supostamente amigo, pelo menos na cúpula, e o restante não interessa....
No meu entender, e aqui estou especulando, os Estados Unidos não parecem querer uma democracia.
Uma democracia significa que haverá voto também sobre o que acontecerá com o petróleo.
Crédito,AFP
Legenda da foto,Para professor americano, apoio popular a María Corina Machado torna ela 'menos manipulável' pelos EUA
BBC News Brasil - O senhor acha que o que acontece na Venezuela gera incerteza também nos outros países da nossa região?
Erick Langer - Claro que sim. Os Estados Unidos são agora o inimigo, o que pode mudar situações... Mas existe uma grande diferença.
À exceção de Nicarágua e de Cuba, não há nenhum governo que não tenha o respaldo popular.
Quer dizer que todos os demais foram eleitos democraticamente e tirá-los seria muito mais difícil.
Por exemplo, Trump citou Petro [Gustavo Petro, presidente da Colômbia, a quem Trump já atacou em diversas ocasiões], especificamente, e até usando uma expressão vulgar.
Se ele quiser tirar Petro, até pode ser, mas a Colômbia viraria um caos.
A Colômbia tem um histórico, muita experiência de guerrilha... Seria mais difícil uma ação militar dos Estados Unidos. Na Venezuela, é outra situação.
BBC News Brasil - O senhor acha que Cuba passou a ficar ainda mais na mira dos Estados Unidos?
Erick Langer - Isso é o que Marco Rubio [secretário de Estado dos EUA, equivalente a um ministro das Relações Exteriores] adoraria. Marco Rubio é...
BBC News Brasil- Ele é de família cubana...
Erick Langer- De cubanos que chegaram nos Estados Unidos antes que Fidel Castro tomasse o poder. Rubio se sente muito identificado [com suas raízes cubanas].
Sim, acho que é uma possibilidade, mas tenho certeza que a resistência militar cubana seria mil vezes maior que na Venezuela.
BBC News Brasil - Pela recompensa que os Estados Unidos ofereceram de US$ 50 milhões por informações sobre o paradeiro de Maduro?
Erick Langer - Não acho que foi pela recompensa. Mas para ficar com o poder. Eles já têm dinheiro suficiente. E fica claro que neste acordo [para a "entrega" de Maduro] que o combinado era que María Corina não assumisse o poder.
Acho que este foi um dos motivos para que María Corina e Edmundo González não assumissem a Presidência, como deveria ter sido.
BBC News Brasil - Cuba recebe hoje ajuda da Venezuela, do México e da China, que tem investimentos no país, por exemplo, na área de energia limpa. Na sua visão, o que poderia estar nos planos dos Estados Unidos [para Cuba]? Uma ação como a que foi feita na Venezuela para a retirada de Maduro?
Erick Langer - Acho que não. Mas sim um estrangulamento econômico ainda maior por parte dos Estados Unidos.
O que de fato vai acontecer é uma pressão ainda maior contra o México para que não substitua a Venezuela [na ajuda dada a Cuba] porque, nos últimos tempos, o México tem enviado petróleo para Cuba porque a Venezuela não pode, porque não tem produção suficiente.
Ou seja, agora [os Estados Unidos] aumentarão a pressão contra Claudia Sheinbaum [presidente do México] para que ela não mande mais petróleo para Cuba, para que a crise cubana seja ainda pior, arrochando ainda mais o regime comunista cubano.
BBC News Brasil- O senhor concorda que Trump está buscando ter maior influência e poder no hemisfério americano desde que retornou em janeiro à Casa Branca? Porque foi a partir daquele momento que ele passou a olhar mais para o continente e especialmente para a América do Sul.
Erick Langer - Acho que a visão de Trump é em termos de esfera de poder, como tinha Hitler, por exemplo. [A ideia de que] "essa parte de terra é minha".
Já a Rússia pode fazer o que quiser [na disputa] pela Ucrânia, que os chineses tenham a Ásia e não tem problema, enquanto nós [dos EUA] ficamos com todo o hemisfério americano.
Crédito,Getty Images
Legenda da foto,'Tudo indica que, para Trump, não importa o regime que esteja lá na Venezuela', diz Erick Langer
BBC News Brasil- Qual o papel do Brasil nesta conjuntura? O presidente Lula condenou a ação dos Estados Unidos na Venezuela e vinha mantendo diálogo com Trump, nos últimos tempos, depois do tarifaço imposto aos produtos brasileiros. O Brasil é o maior país da América Latina, mas não conseguiu desencorajar a ação dos Estados Unidos na Venezuela.Qual é sua visão?
Erick Langer - O Brasil é o grande contrapeso contra Trump. Claro que ele lamenta que Bolsonaro tenha sido preso. Mas o Brasil tem um papel muito importante.
Desde Obama, com Lula, principalmente, o Brasil passou a responder pela América do Sul.
Mas isso agora mudou porque Trump não vai permitir que isto ocorra, como fizeram Obama e Biden [Barack Obama e Joe Biden, ex-presidentes democratas dos EUA].
BBC News Brasil– Há muita preocupação regional. Qual é a sua expectativa em relação ao que pode acontecer na Venezuela e nos demais países da América do Sul?
Erick Langer - É sempre difícil prever o futuro. Mas o fato é que Trump mudou o cenário que existia desde a Guerra Fria. Isso significa se meter cada vez mais e mais na América Latina, no Oriente Médio, voltando-se agora para a China...
Acho que isso vai prejudicar os próprios americanos, se continuar assim.
E não convém, de nenhuma maneira, para a América Latina, porque com o objetivo de explorar os recursos econômicos...
Mas existe um fator essencial que é a China. É preciso ver como a China vai reagir.
Porque o que a China fez, de forma inteligente, foi atuar na área econômica, comercial e não na área militar... E sabendo muito bem que não tinha condições de competir com os Estados Unidos em termos de poder.
O teste é a Venezuela, porque a China tem investimentos na Venezuela.
O que vai acontecer com estas companhias chinesas quando Trump disser "o petróleo é nosso", "para nossas companhias"?
Vamos ver como esta relação [entre EUA e China] ficará [depois da operação militar americana na Venezuela].
Só se a China disser: "Ok, vocês ficam com a Venezuela, mas nós pegamos Taiwan".
BBC News Brasil - O que está em jogo é um novo desenho geopolítico....
Erick Langer- Sim, uma nova estrutura econômica no mundo inteiro. Com estas ações na Venezuela, as primeiras peças [do novo desenho geopolítico] já estão em movimento.
BBC News Brasil - O senhor citou a doutrina Monroe. É possível fazer algum paralelo entre o que aconteceu com Maduro e o que ocorreu com o ex-presidente da Venezuela Cipriano Castro (1858-1924), que foi deposto e morreu no exílio, e em seu lugar assumiu seu vice?
Erick Langer- A diferença é que Juan Vicente Gómez [que tomou o poder de Cipriano Castro] pôde consolidar seu poder rapidamente, sob um regime que também não foi muito popular.
Mas era outro contexto, porque Venezuela é hoje, economicamente, outro país.
A Venezuela foi um país democrático durante cinquenta anos, e antes de [Cipriano] Castro e Gómez, não foi. Era uma oligarquia no poder.
Então, toda a situação de como se governa um país e a legitimidade popular necessária agora, com essa complexidade das sociedades atuais, é bem diferente do que se viveu no século 19, quando a Venezuela era um país principalmente rural, dependia do café, do cacau, da carne....
BBC News Brasil - Agora é o petróleo.
Erick Langer - Sim e a Venezuela é o país mais urbano da América Latina. O problema agora é que Trump quer estabelecer uma colônia econômica, e isso não é tão fácil.
Mas um eventual acordo de Trump com os chavistas [que ficaram na cúpula de Caracas] não é sustentável no longo prazo.
Os venezuelanos não vão permitir isso, e o mais provável é que acabem ocorrendo novas eleições...
BBC News Brasil - Muitas incertezas.
Erick Langer- O chavismo ainda tem o apoio de cerca de 20%, 30% da população.
Na verdade, não se sabe exatamente. Muitos dos que nas últimas eleições votaram pelos chavistas foram obrigados a votar neles. Sei porque tenho conhecidos na Venezuela.
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Legenda da foto,Delcy Rodríguez foi nomeada presidente interina; para entrevistado, houve 'traição' por parte da cúpula chavista a Maduro
BBC News Brasil - Neste ano, 2026, serão realizadas eleições no Peru, na Colômbia, no Brasil, no Haiti e na Costa Rica. Depois do que ocorreu na Venezuela, Trump poderá buscar influenciar nestes pleitos — como a oposição em Honduras, por exemplo, diz ter ocorrido na eleição recente no país?
Erick Langer - Tenho certeza de que Trump vai se meter, quando puder. Mas acho que os povos não se deixam vender. Mas claro que temos que pensar no que aconteceu com Milei [Javier Milei, presidente da Argentina, nas eleições legislativas de outubro passado], quando os Estados Unidos anunciaram ajuda de US$ 20 bilhões.
Não entendo muito bem por que os argentinos votaram como votaram [ampliando a participação da base governista de Milei no Congresso].
Acho que o eleitorado não via alternativas porque o peronismo está muito desgastado para boa parte da população do país. No caso do Peru, acho que a classe política não tem muita presença popular...
Mas no Peru a economia funciona bem, apesar da instabilidade política já tradicional — porque os presidentes costumam durar pouco tempo no cargo, além de perderem a popularidade rapidamente.
BBC News Brasil - No Peru, existe uma espécie de divórcio entre o caminhar da economia e o que ocorre na cúpula da política, com quedas seguidas de presidentes...
Erick Langer - Exato. Já na Colômbia, é outro cenário. A divisão entre direita e esquerda é proporcionalmente quase igual. Quem vai ganhar e como vai ganhar a eleição presidencial, não sei, porque depende do papel de Petro, e acho que as opiniões estão muito divididas.
BBC News Brasil - E em relação às eleições no Brasil? Na sua opinião, pode ocorrer alguma forma de influência de Trump?
Erick Langer – Com certeza. Não tenho a menor dúvida. E acho que a interferência dos Estados Unidos na vida política brasileira não vai favorecer os partidos da direita, porque isto servirá como arma para o nacionalismo dos demais.
E claro que, se Lula continuar sendo forte e se continuar assim, muito contido com o que aconteceu na Venezuela — porque, na verdade, foi muito contido —, esta calma continuará sendo uma potência contra [a direita].
O único que é grande o suficiente para parar [Trump] e dizer "chega" aos Estados Unidos é o Brasil.