SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

A Reinvenção da Esperança: Reexistir a mais profunda liberdade.




Há feridas que o tempo não apaga, mas há também uma força misteriosa que nasce exatamente onde a dor foi mais profunda. Aqueles que atravessaram violências, miséria, doenças e toda sorte de desigualdade carregam consigo não apenas cicatrizes, mas um conhecimento difícil de ser alcançado por quem nunca precisou lutar para existir.  

O Retorno ao Sonho 

Voltar a sonhar não é um processo linear, nem uma decisão que se toma num despertar qualquer. É, antes, uma reconquista gradual do território da imaginação — território que foi ocupado pela sobrevivência, pelo medo, pela necessidade de se tornar invisível para não ser atingido. 

O que faz alguém voltar a sonhar? Talvez seja um gesto pequeno: uma refeição quente depois de dias de fome, uma palavra dita no momento exato, um par de olhos que não desvia diante da sua dor. Ou talvez seja algo maior: encontrar uma comunidade que acolhe, descobrir que sua história tem valor, perceber que o que lhe fizeram não define quem você é. 

Sonhar novamente é também um ato de rebeldia. É dizer: "Vocês tentaram me matar, me reduzir, me apagar — e eu ainda assim posso imaginar um amanhã." 

Narrativas que Curam 

Como essas pessoas podem contar suas histórias? A palavra é, ao mesmo tempo, instrumento de libertação e território minado. Falar dói. Silenciar também. Não há caminho fácil. 

Elas nos contam suas histórias de muitas maneiras. Através da escrita, certamente — diários, poemas, romances, cartas que talvez nunca sejam enviadas. Mas também através do corpo que dança, da argila que moldam, da comida que preparam, do jardim que cultivam. Contam através do cuidado que oferecem a outros que sofrem, transformando a própria dor em acolhimento. 

Há quem precise de testemunhas — alguém que escute verdadeiramente, sem julgamento, sem pressa. Há quem precise, primeiro, narrar para si mesmo, num processo íntimo de reorganização da memória. E há quem encontre na arte uma linguagem para o que as palavras comuns não alcançam. 

Desarmando os Poderes 

Livrar-se dos poderes que massacram é, antes de tudo, reconhecê-los. Identificar o que é seu e o que foi imposto. Desmontar a culpa que não lhe pertence, o medo que foi plantado, a vergonha que não deveria ser sua. 

Esses poderes operam de muitas formas. Há a violência explícita — a guerra, a agressão, a opressão política. Há a violência silenciosa do trabalho que adoece, da escola que humilha, da família que deveria proteger e não protege. Há a violência das patologias sociais que transformam diferença em inferioridade, e das patologias individuais — narcisismos, psicopatias, vaidades — que usam corpos alheios como combustível. 

Desafiar esses poderes não exige enfrentá-los nos termos que eles impõem. Muitas vezes, a vitória está em recusar o campo de batalha que tentaram lhe impor. Está em construir redes de apoio que existem à margem do poder oficial. Está em sobreviver e, sobrevivendo, testemunhar. Está em transformar a própria existência em prova viva de que não conseguiram destruí-lo completamente. 

Vencer é Reexistir 

Vencer aqueles que tentaram destruí-lo não significa necessariamente derrotá-los no confronto direto. Muitas vezes, significa simplesmente continuar existindo de forma plena, apesar de tudo. 

É o trabalhador adoecido que organiza seus pares. A mulher que rompeu o ciclo de violência e hoje acolhe outras. O jovem da periferia que ocupou a universidade. O artista que transforma a dor de seu povo em beleza inquieta. O velho que, depois de décadas, finalmente conta o que viveu na ditadura. 

É também aquele que cuida de si, que aprendeu a reconhecer seu valor, que permite-se sentir prazer e alegria sem culpa. Que dança, mesmo sem saber dançar. Que ama, mesmo tendo aprendido que o amor pode machucar. 

O Que Fica 

Talvez a maior vitória de quem sobrevive ao que deveria tê-lo destruído não seja o reconhecimento externo, a reparação institucional ou mesmo a punição dos algozes — embora tudo isso seja importante. Talvez seja a reconquista silenciosa de si mesmo. 

É quando a pessoa pode finalmente dizer: "Isso que me fizeram foi terrível, mas não sou apenas isso. Sou também o que construí a partir daí. Sou as escolhas que fiz quando tive forças para escolher. Sou as pessoas que amei e que me amaram. Sou o amanhã que insisti em construir." 

E assim, na lentidão dos dias, na teimosia de quem se recusa a desaparecer, a vida vai se refazendo. Não como era antes — isso é impossível — mas como pode ser agora: mais ciente da fragilidade, mais atenta à beleza, mais generosa com a dor alheia. 

Os que sofreram muito não voltam a viver como se nada tivesse acontecido. Voltam a viver carregando o que viveram, mas sem serem carregados por isso. E nesse gesto — de carregar sem ser carregado — talvez resida a mais profunda das liberdades. 

 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Países ricos deveriam temer 'Brasileirização' da economia global, diz The Economist.

 

Print da artigo da revista The Economist

Crédito,Reprodução

Legenda da foto,Veículo afirma que o mundo rico deveria temer a 'Brasileirização'
Tempo de leitura: 4 min

A revista The Economist usou o Brasil de alerta para a economia de países ricos. Em artigo publicado nesta quinta-feira (12/2), o veículo afirma que o mundo rico deveria temer a "Brasileirização", ou seja, um cenário em que juros elevados tornam a dívida pública cada vez mais difícil de administrar.

O artigo afirma que o paradoxo do país é combinar indicadores que, à primeira vista, seriam considerados positivos, como crescimento econômico, banco central independente e orçamento primário "quase equilibrado", com uma dinâmica de endividamento considerada explosiva.

Com a selic, a taxa básica de juros, em 15% ao ano, o governo brasileiro "provavelmente tomará emprestado cerca de 8% do PIB por ano apenas para pagar a conta de juros", diz a revista, mesmo com as contas primárias próximas do equilíbrio.

"Sua dívida líquida, em 66% do PIB, é alta para os padrões de mercados emergentes, mas baixa para os do mundo rico."

Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a dívida pública bruta do Brasil vai atingir 99% do PIB em 2030. Em 2010, correspondia a 62%.

"Pode parecer dolorosamente difícil, em um mundo populista, ao mesmo tempo, prometer baixa inflação e gastar menos com os idosos. Mas isso não é nada comparado à escolha agonizante que se aproxima do Brasil: entre uma austeridade profunda e uma espiral aterradora de juros e dívida."

Mas a saída pela austeridade, diz a publicação, parece politicamente inviável. Segundo o texto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que disputa a reeleição em outubro, "afrouxou os cordões da bolsa", o que reduz as chances de um ajuste fiscal severo no curto prazo.

Foto aérea mostrando prédio do Banco Central do Brasil, em Brasília

Crédito,REUTERS/Ueslei Marcelino

Legenda da foto,Com a selic a 15%, o governo brasileiro precisará pagar conta alta de juros

Para explicar por que o país paga taxas tão superiores às de economias ricas, a revista aponta uma combinação de fatores institucionais e históricos.

As instituições brasileiras, diz a revista, seriam "frágeis" e chegaram a "vacilar" durante a tentativa de golpe do ex-presidente Jair Bolsonaro em 2022.

Além disso, a inflação teria "um pavio mais curto", em razão do trauma da hiperinflação dos anos 1980 e 1990 e da crise econômica da década passada.

Outro elemento é a rigidez do gasto público. O Brasil destina cerca de 10% do PIB ao pagamento de aposentadorias. Sem reformas, diz a revista, o país gastará mais em 2050 com pensões do que países "mais ricos e mais envelhecidos".

"Ainda assim, as pensões são protegidas na Constituição, que, por exemplo, determina que, quando o salário mínimo sobe, os aposentados também recebam mais. O controle extraordinário dos pensionistas sobre o orçamento dificulta o equilíbrio das contas e também desloca outros gastos mais valiosos."

Para a The Economist, o país sul-americano funciona como um "alerta antecipado" do que pode acontecer com economias avançadas. "A aflição fiscal do Brasil lança em relevo os orçamentos do mundo rico", diz.

O editorial afirma que os Estados Unidos já exibem sintomas iniciais do processo de "brasileirização": instituições sob pressão e uma inflação mais difícil de controlar após a pandemia.

O texto cita o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que "politizou o Departamento de Justiça", deseja controlar o Federal Reserve e "cogita federalizar as eleições".

A revista também observa que, assim como no Brasil, o peso crescente de aposentadorias e gastos com saúde tende a pressionar os orçamentos do mundo rico.

Problemas vão além de 'desperdícios' de Lula

Na quinta-feira (11/2), a revista havia publicado outra análise sobre o Brasil.

A revista afirma que, apesar de indicadores positivos, a trajetória da dívida brasileira é "insustentável" e que "os pessimistas estão certos em prever problemas".

Para a The Economist, a crise fiscal não se explica apenas pela política do governo Lula, mas por um sistema capturado por interesses poderosos, muitos protegidos pela Constituição.

No texto, a revista britânica afirma que as eleições de outubro serão fundamentais para evitar que a economia do Brasil não estagne e entre em crise, caso os parlamentares eleitos "encontrem a coragem" para "enfrentar os interesses arraigados".

Print da artigo da revista The Economist

Crédito,Reprodução

Legenda da foto,A revista classificou sistema tributário brasileiro como uma 'bagunça'

A revista também criticou o sistema tributário, classificado como uma "bagunça".

"As estimativas dos custos econômicos variam, mas são da mesma ordem de grandeza da perda de crescimento devido à falta de credibilidade fiscal, o que equivale a talvez meio ponto percentual do PIB anualmente."

A falta de reformas, diz a The Economist, mina a confiança do mercado e custa ao Brasil até um ponto percentual de crescimento por ano.

A revista reconhece avanços recentes, como o teto para isenções e o IVA dual, que pode elevar o PIB em até 4,5% até 2033, mas avalia que, sem mudanças estruturais, o país seguirá preso a um modelo fiscal insustentável.

A Revolução Silenciosa contra os guardiões autorizados da Ciência!

 



Os Revolucionários do Pensamento. 

Houve uma revolução que não consta nos manuais de história política. Não teve barricadas nas ruas, nem exércitos em confronto, nem tratados assinados em palácios. No entanto, transformou tão profundamente nossa compreensão do mundo quanto qualquer movimento que tenha redesenhado fronteiras. Seus protagonistas foram Buffon, Lynn Margulis, Ilya Prigogine, Max Planck, Kurt Gödel e Conrad Hal Waddington — cada qual em seu domínio, cada qual rompendo com paradigmas estabelecidos, não para destruí-los, mas para revelar o que eles excluíam. 

Georges-Louis Leclerc, Conde de Buffon, no século XVIII, ousou pensar a Terra para além do tempo bíblico. Enquanto seus contemporâneos viam um planeta com poucos milênios de existência, ele enxergou eras geológicas, transformações lentas, uma natureza que se fazia continuamente. Lynn Margulis, já no século XX, desafiou a ortodoxia neodarwinista ao propor que a evolução não era apenas competição, mas cooperação — que células complexas nasceram da simbiose, da aliança entre organismos antes independentes. Ilya Prigogine demonstrou que a desordem não é inimiga da ordem, mas sua parceira criativa; que sistemas longe do equilíbrio geram estruturas novas, imprevisíveis. Max Planck, ao introduzir o quantum, revelou que a matéria não é substância contínua e previsível, mas pulsação descontínua, possibilidade, salto. Kurt Gödel demonstrou matematicamente que todo sistema formal é, por natureza, incompleto — que há verdades que não podem ser provadas dentro do próprio sistema. E Conrad Hal Waddington propôs que o desenvolvimento de um organismo não é mera execução de um programa genético, mas uma negociação com o ambiente, uma dança entre herança e circunstância. 

Os Princípios que os Moviam 

O que impulsionava esses pensadores? Se percorrermos suas biografias, encontraremos não a fria adesão a um método, mas algo mais profundo e vibrante. 

Buffon foi movido pela curiosidade cosmológica — a necessidade de situar a humanidade em um tempo vasto, quase infinito, e compreender a Terra como processo. Margulis, pela admiração diante da cooperação invisível — ao examinar microscópios, viu não guerra, mas casamento entre espécies. Prigogine tinha uma inquietação com o transitório — queria compreender por que o mundo não se dissipa no caos, mas cria formas. Planck foi movido pela intuição estética — acreditava que a natureza, em seu nível mais fundamental, deveria ser elegante. Gödel, pela honestidade radical — preferiu demonstrar os limites de seu próprio campo a fingir uma completude que não existia. Waddington, pela integração — recusou-se a ver o organismo separado do ambiente. 

Nenhum deles estava simplesmente "aplicando o método científico". Estavam, antes, perguntando o que o método deixava de fora. 

Comparação com Revoluções Políticas 

Revoluções políticas frequentemente emergem da percepção de que o sistema vigente exclui vozes, oculta realidades, impede transformações. A Revolução Francesa não foi apenas sobre derrubar a monarquia, mas sobre afirmar que o poder não reside em alguns, mas no povo. A Revolução Russa não foi apenas sobre mudar governantes, mas sobre reimaginar as relações de produção. 

As revoluções científicas protagonizadas por esses pensadores operam de modo análogo. Não negavam a ciência que os precedia — assim como os revolucionários políticos não negavam a existência do Estado —, mas denunciavam sua incompletude. Buffon não negava o criacionismo, mas mostrava que ele não explicava os fósseis. Margulis não negava Darwin, mas mostrava que a competição não explicava a complexidade celular. Gödel não negava a matemática, mas mostrava que ela jamais poderia provar todas as suas próprias verdades. 

Se a revolução política nasce da exclusão social, a revolução científica nasce da exclusão epistemológica — da percepção de que o paradigma dominante deixa de fora fenômenos, relações, dimensões inteiras da realidade. 

A Síntese: Outra Ciência Emerge 

Dessas trajetórias e descobertas, emerge um retrato de uma ciência que não pode ser reduzida ao método científico — pelo menos não à sua caricatura. O método científico, tal como frequentemente ensinado nas escolas, parece um roteiro: hipótese, experimento, conclusão. Linear. Previsível. Limpo. 

Mas a ciência que Buffon, Margulis, Prigogine, Planck, Gödel e Waddington praticaram não era assim. Era: 

Transdisciplinar — Suas descobertas não cabiam em departamentos. Waddington era embriologista, geneticista, filósofo da biologia. Margulis uniu microbiologia e teoria evolutiva. Prigogine, físico e químico, dialogava com a filosofia e a arte. 

Incompleta por princípio — Gödel demonstrou matematicamente que todo sistema formal é incompleto. Isso não é uma falha, é a própria condição do conhecimento. A ciência não avança apesar da incompletude, mas por causa dela. 

Criativa — Planck não descobriu o quantum por dedução lógica a partir de dados existentes. Ele imaginou que a energia só poderia ser emitida em pacotes. Foi um ato de criação. 

Simbiótica — Margulis mostrou que a novidade evolutiva surge mais frequentemente da cooperação do que da competição. Talvez o mesmo valha para as ideias. 

Temporal — Prigogine demonstrou que o tempo não é ilusão, mas realidade criadora. Sistemas abertos, longe do equilíbrio, produzem novidade. A ciência não descreve um mundo estático; participa de um mundo em devir. 

Histórica — Buffon compreendeu que a Terra tem história, e que essa história não é mero desdobramento de leis eternas, mas sequência de eventos singulares. Assim também a ciência: tem história, e essa história importa. 

Além do Laboratório: Ciência, Cultura, Espiritualidade, Imaginação 

Esses pensadores não habitavam apenas laboratórios. Habitavam também a cultura de seu tempo, suas inquietações espirituais, os voos de sua imaginação. 

Buffon era também administrador, naturalista, escritor — sua História Natural foi um dos livros mais lidos do século XVIII, lido não apenas por cientistas, mas por filósofos e literatos. Margulis encontrou na contracultura dos anos 1960 um ambiente fértil para pensar para além do neodarwinismo ortodoxo. Prigogine dialogava com filósofos como Isabelle Stengers e mantinha correspondência com artistas. Planck era profundamente religioso — não no sentido dogmático, mas na convicção de que a racionalidade científica apontava para uma ordem que a transcendia. Gödel lia Leibniz e Kant com a mesma seriedade com que lia Russell e Hilbert. Waddington era também artista gráfico e publicou textos sobre ética e estética. 

Suas descobertas não vieram apenas da aplicação do método. Vieram também de sua imersão na cultura, de suas convicções filosóficas, de suas intuições estéticas, de seus questionamentos espirituais. Vieram, enfim, de sua humanidade completa — não de uma versão amputada dela. 

O Nome Dessa Diversidade 

Como chamar essa forma de conhecer que não se reduz ao método, que não separa as disciplinas, que não exclui a imaginação, que reconhece sua própria incompletude, que dialoga com a cultura e acolhe o mistério? 

Talvez não tenha um único nome. Talvez o que une Buffon, Margulis, Prigogine, Planck, Gödel e Waddington não seja uma categoria estável, mas uma postura diante do mundo: humildade epistemológica aliada a ousadia criativa. Eles sabiam que seus instrumentos — matemáticos, experimentais, conceituais — eram poderosos, mas também sabiam que o real é sempre maior que nossos mapas. 

Se fosse necessário nomear essa postura, poderíamos chamá-la de Sabedoria. Não a sabedoria como acúmulo de informações, nem como doutrina revelada, mas como reconhecimento dos limites e, simultaneamente, abertura ao infinito. Sabedoria que sabe que o conhecimento não é posse, mas relação. Que a verdade não é encontro com o já-sabido, mas emergência do inesperado. Que o mundo não é problema a ser resolvido, mas mistério a ser habitado. 

Essa sabedoria não substitui a ciência — a transcende, sem negá-la. Ela é a consciência de que a realidade, em sua profundidade, é sempre mais rica que qualquer representação que dela façamos. É a disponibilidade para aprender não apenas com experimentos controlados, mas com a arte, com a história, com as tradições de sabedoria, com o sofrimento e com o espanto. 

Buffon, Margulis, Prigogine, Planck, Gödel e Waddington foram, cada um a seu modo, sábios. Não porque soubessem mais que seus contemporâneos — embora soubessem muito —, mas porque mantiveram viva a pergunta que antecede e sucede todo conhecimento: O que mais existe, para além do que já sei? 

Essa pergunta, e não o método, foi o verdadeiro motor de suas revoluções. Ela permanece, hoje, como herança e convite: para que também nós ousemos conhecer de outro modo, e de forma incompleta com nos ensina Kurt Godel e Rancière. 



A Revolução Silenciosa na Literatura: O Testemunho de Rancière 

Mas essa revolução — silenciosa, profunda, desierarquizante — não ocorreu apenas nas ciências. Ocorreu também, e talvez antes, nas artes. Jacques Rancière, filósofo francês, dedicou-se a compreender o que chamou de "revolução silenciosa" da literatura: a passagem do sistema clássico das belas-letras para o que denomina "regime estético das artes". 

O que estava em jogo nessa passagem? No regime representativo clássico, a literatura (ou as belas-letras) obedecia à mímesis — a imitação da ação nobre, com personagens nobres, em linguagem nobre. Havia uma hierarquia rigorosa: certos gêneros (a tragédia, a epopeia) eram superiores a outros (a comédia, a sátira); certos temas mereciam ser narrados, outros não; certas palavras pertenciam à poesia, outras apenas à prosa vulgar. Essa hierarquia não era meramente estética — era política. Refletia e sustentava uma ordem social igualmente hierárquica: quem podia falar, sobre o quê, em que tom. 

O que derrubou essa ordem, segundo Rancière, foi a palavra órfã e errante — a palavra que perdeu seu pai, sua origem garantida, sua autoridade transcendente. Essa palavra, que emerge com força na literatura do século XIX (em Flaubert, em Balzac, em Hugo, em Dostoiévski), não pede licença para existir. Ela não se submete à distinção entre temas nobres e vulgares, entre linguagem elevada e linguagem comum. Ela trata o gesto de um camponês com a mesma atenção que antes se reservava aos príncipes. Ela dá voz aos que não tinham voz. Ela instaura o que Rancière chama de perturbação democrática. 

Essa revolução literária é silenciosa porque não ocorre por meio de manifestos ou decretos. Ocorre na própria fatura do texto, na escolha de um adjetivo, no ritmo de uma frase, na atenção concedida a um detalhe antes invisível. Flaubert não escreveu um tratado sobre a igualdade; escreveu Madame Bovary, e ao descrever com a mesma minúcia os pensamentos de Emma e a paisagem da Normandia, ao consagrar tanta arte a uma vida provinciana supostamente "menor", ele abalou a hierarquia mimética mais profundamente do que qualquer panfleto poderia fazê-lo. 

A literatura, nesse sentido, não é apenas um modo de fatura artística. É, como escreve Renan Ferreira da Silva no livro que examina o pensamento de Rancière, "um sistema de possibilidades, um modo de vida próprio". Ela não representa o mundo — ela o reconfigura. Não diz como as coisas são — mas faz ver que poderiam ser de outro modo. 

Há uma afinidade profunda entre essa revolução literária e as revoluções científicas antes descritas. Buffon, ao tratar a história da Terra como digna de investigação tanto quanto a história dos reis, praticava uma desierarquização análoga à de Flaubert. Margulis, ao mostrar que a cooperação entre bactérias é tão fundamental para a evolução quanto a competição entre predadores e presas, perturbava a hierarquia que colocava a guerra acima da aliança. Gödel, ao demonstrar a incompletude dos sistemas formais, lembrava que mesmo a matemática — esse reino aparentemente puro e autossuficiente — está fundada sobre um silêncio, sobre algo que não pode ser dito dentro dela mesma. 

Tanto na ciência quanto na literatura, a revolução silenciosa consiste em devolver a palavra aos que foram silenciados: aos fósseis que testemunham eras esquecidas, às bactérias que habitam nossas células, aos sistemas instáveis que geram ordem, às vidas ordinárias que a tradição julgou indignas de narrativa. É uma revolução que não busca tomar o poder, mas dissolver a própria ideia de que o conhecimento deva ter um centro, uma hierarquia, um guardião autorizado. 

 



Essa pergunta, e não o método ou a tradição, foi o verdadeiro motor de suas revoluções. Ela permanece, hoje, como herança e convite: para que também nós ousemos conhecer e criar de outro modo. Para que também nós reconheçamos, na palavra órfã e errante, na cooperação invisível, no tempo profundo, na incompletude fundamental de todo saber, os sinais de uma revolução que jamais termina — porque jamais deve terminar. 

A Sabedoria, essa diversidade em perpétuo movimento, é o nome que damos à coragem de pensar sem grades, de criar sem permissão, de viver a pergunta. Ela não se ensina nos currículos, não se mede em publicações, não se premia com láureas. Ela se aprende — quando se aprende — no espanto diante do real, na leitura atenta de uma página, na observação paciente de uma célula, na escuta daqueles que a hierarquia mandou calar. E, uma vez aprendida, não pode mais ser esquecida. Ela se torna, ela mesma, o modo como habitamos o mundo.