SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Núcleos de Saúde Integrada nas Escolas: Estudo de Integração do Ecossistema de Saúde do Território Baseado na Metodologia Experimental de Michael Kremer.

 



MESTRADO EM CIÊNCIAS MÉDICAS DA UNIFOR.

Mestrando: Egídio Guerra de Freitas

Orientadora: Dra. Daniela Malta

Co- orientador: Dr. Henrique Sá

TEMA: Núcleos de Saúde Integrada nas Escolas: Estudo de Integração do Ecossistema de Saúde do Território Baseado na Metodologia Experimental de Michael Kremer.

Resumo

Este estudo baseia-se na metodologia experimental do Prêmio Nobel de Economia de 2019, Michael Kremer, para desenhar, implementar e avaliar um modelo de "Núcleo de Saúde Integrada" (NSI) sediado na escola, concebido como nó de coordenação do ecossistema de saúde do território onde a escola se localiza. Kremer recebeu o Prêmio Nobel de Economia de 2019, juntamente com Abhijit Banerjee e Esther Duflo, por sua "abordagem experimental para aliviar a pobreza global". Sua pesquisa identificou sistematicamente, por meio de ensaios clínicos randomizados (RCT), os efeitos causais de intervenções de saúde escolar — especialmente o tratamento vermífugo — sobre a participação educacional e os resultados de saúde. Em 2026, Kremer foi nomeado Economista-Chefe do Banco Mundial e Vice-Presidente Sênior de Economia do Desenvolvimento, tornando-se o primeiro economista a assumir o cargo trazendo um Prêmio Nobel. Este estudo adapta o experimento de vermifugação escolar conduzido por Kremer no Quênia e seu arcabouço metodológico, combinando-os com a base política do Programa Saúde na Escola (PSE) do Brasil, para desenhar um modelo de intervenção NSI passível de avaliação randomizada, com foco no rastreio de transtornos de aprendizagem, verificação e atualização do calendário vacinal, triagem de acuidade visual e auditiva e encaminhamento de problemas críticos de saúde. O estudo adota um desenho de ensaio clínico randomizado por conglomerados, com a escola como unidade de randomização, avaliando os efeitos do NSI sobre a acessibilidade aos serviços de saúde, cobertura vacinal, taxa de conclusão de encaminhamentos e participação educacional.

Palavras-chave: Michael Kremer; ensaio clínico randomizado; saúde escolar; rastreio de transtornos de aprendizagem; ecossistema de saúde do território; Programa Saúde na Escola 

1. Introdução

1.1 A trajetória acadêmica de Michael Kremer e suas contribuições metodológicas

Michael Robert Kremer nasceu em 12 de novembro de 1964 e obteve seu doutorado em Economia pela Universidade Harvard em 1992. Lecionou na Universidade de Chicago, no MIT e em Harvard, onde foi nomeado Professor Gates de Sociedades em Desenvolvimento em 2003. Em 2019, Kremer recebeu o Prêmio Nobel de Economia, juntamente com Abhijit Banerjee e Esther Duflo, por sua "abordagem experimental para aliviar a pobreza global".

A contribuição central de Kremer reside na introdução sistemática do ensaio clínico randomizado (RCT) — método até então utilizado principalmente em testes clínicos de medicamentos — no campo da economia do desenvolvimento. O Comitê do Nobel observou que "seu novo método experimental transformou a economia do desenvolvimento, que hoje é um campo de pesquisa florescente". Kremer e seus colaboradores decompuseram a questão ampla da pobreza em questões menores e precisamente respondíveis, conduzindo experimentos de campo em diversos países de baixa e média renda para identificar quais intervenções de política realmente funcionam.

Um dos estudos mais influentes de Kremer foi o experimento de vermifugação escolar conduzido no oeste do Quênia entre 1998 e 2001. O estudo randomizou escolas, e não indivíduos, como unidade de randomização, escalonando a distribuição do medicamento vermífugo para diferentes escolas, permitindo estimar o efeito global do programa. A pesquisa descobriu que o tratamento vermífugo reduziu o absenteísmo nas escolas tratadas em um quarto, a um custo muito inferior ao de outras formas de aumentar a matrícula. Mais importante ainda, a vermifugação produziu externalidades significativas de saúde e participação educacional: estudantes não tratados nas escolas tratadas e estudantes de escolas vizinhas também se beneficiaram da redução da transmissão da doença. Essas externalidades foram tão grandes que justificaram o subsídio integral do tratamento vermífugo.

Outro experimento inicial de Kremer no Quênia teve igualmente importância metodológica crucial. Ele e seus colaboradores, incluindo Paul Glewwe, esperavam inicialmente que o fornecimento de livros didáticos gratuitos melhorasse significativamente o desempenho dos alunos, mas os resultados preliminares mostraram que os livros não tiveram efeito sobre a nota média. Kremer declarou ter ficado "completamente chocado com o resultado". Análises mais aprofundadas revelaram que os livros didáticos ajudaram apenas os alunos que já tinham bom desempenho antes do experimento. Esse "resultado nulo" levou Kremer a repensar os problemas estruturais do sistema educacional queniano: o sistema concentrava-se excessivamente nos alunos de elite, e o currículo não se adaptava à enorme variação no nível de preparo dos estudantes. Essa descoberta impulsionou diretamente pesquisas subsequentes sobre ensino em grupos de nível, educação remediar e incentivos para professores.

No campo da economia da saúde, o experimento de Kremer com Edward Miguel também revelou a extrema sensibilidade das famílias pobres ao preço de serviços de saúde preventiva: quando o medicamento vermífugo era oferecido gratuitamente na escola, 75% dos pais o buscavam para seus filhos; quando era cobrada uma taxa subsidiada de apenas 40 centavos, essa proporção caía para 18%. Essa descoberta influenciou diretamente as recomendações de política da Organização Mundial da Saúde — em áreas com taxa de infecção infantil superior a 20%, o tratamento vermífugo deve ser distribuído gratuitamente.

Em setembro de 2026, o Grupo Banco Mundial anunciou a nomeação de Kremer como Economista-Chefe e Vice-Presidente Sênior de Economia do Desenvolvimento, com efeito a partir de 1º de outubro de 2026. O presidente do Banco Mundial, Ajay Banga, declarou: "Michael dedicou sua carreira não apenas a identificar o que funciona no desenvolvimento, mas a provar sua eficácia em larga escala — exatamente o tipo de pensamento de que precisamos." Kremer é o primeiro economista a assumir o cargo de Economista-Chefe do Banco Mundial trazendo um Prêmio Nobel; anteriormente, Joseph Stiglitz e Paul Romer receberam o Nobel apenas após o término de seus mandatos como economistas-chefes. A declaração do Banco Mundial observou especificamente que os achados de pesquisa de Kremer "foram traduzidos em programas que beneficiaram centenas de milhões de pessoas, desde a expansão do acesso a vacinas e programas de saúde escolar até o apoio a pequenos agricultores".

A agenda de pesquisa de Kremer continua focada em inovações nas áreas de educação e saúde. Seu estudo sobre vermifugação escolar levou governos da África e do Sul da Ásia a fornecer 2 bilhões de tratamentos vermífugos desde 2014. O mecanismo de "Compromisso Antecipado de Mercado" (Advance Market Commitment, AMC), proposto por Kremer e Rachel Glennerster, viabilizou um AMC de 1,5 bilhão de dólares para vacinas pneumocócicas, com vacinas adquiridas por meio desse mecanismo já cobrindo 60 países em desenvolvimento.

1.2 Lacunas de conhecimento na área de saúde escolar no Brasil

O Programa Saúde na Escola (PSE), implementado no Brasil desde 2007, consolidou-se como um dos maiores programas de promoção da saúde escolar do mundo, cobrindo aproximadamente 99% dos municípios e mais de 99 mil escolas públicas. Seus 14 eixos temáticos abrangem saúde bucal, saúde mental, verificação vacinal, saúde auditiva e visual e outros campos prioritários, oferecendo base institucional para a colaboração entre saúde e educação.

No entanto, o desafio central que o PSE enfrenta na prática é a ausência de ferramentas metodológicas rigorosas para avaliar quais ações realmente funcionam e em que condições. As ações do PSE tendem a operar como atividades periódicas, e não como "nós de serviço" permanentemente inseridos na rotina escolar. A articulação entre escolas e Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Equipes de Saúde da Família (ESF) permanece altamente dependente de coordenação episódica.

Paralelamente, o rastreio precoce de transtornos de aprendizagem ainda não constitui mecanismo sistemático no sistema escolar brasileiro. Estudo realizado em um ambulatório público de neuropediatria no Brasil revelou que 70% dos encaminhamentos por queixa de dificuldade escolar estavam relacionados a dificuldades de aprendizagem e 79,1% a queixas de atenção, sendo os diagnósticos finais mais frequentes o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (30%), a Deficiência Intelectual (19,1%) e os Transtornos Específicos de Aprendizagem (17,7%). Muitos estudantes que apresentavam lacunas significativas de leitura não haviam recebido qualquer suporte pedagógico prévio ou avaliação especializada na rede de saúde.

1.3 Objetivo do estudo e posicionamento metodológico

Este estudo visa aplicar sistematicamente a metodologia experimental de Kremer ao campo da saúde escolar brasileira, desenhando, implementando e avaliando um modelo de "Núcleo de Saúde Integrada" (NSI) sediado na escola. A diferença crucial em relação às práticas existentes do PSE é que este estudo não se contenta em descrever o processo operacional do NSI, mas busca estimar rigorosamente, por meio de um ensaio clínico randomizado por conglomerados, os efeitos causais do NSI sobre desfechos-chave de saúde e educação.

Especificamente, este estudo responderá: no sistema escolar público brasileiro, qual é o efeito causal de um Núcleo de Saúde Integrada — operando com equipes UBS/ESF como provedoras de serviço e a escola como nó de serviço — sobre a cobertura de rastreio de transtornos de aprendizagem, a taxa de conclusão de atualização vacinal, a taxa de conclusão de encaminhamentos médicos críticos e a taxa de absenteísmo dos estudantes?

2. Revisão de Literatura

2.1 Princípios centrais da metodologia de Kremer

A metodologia experimental de Kremer e seus colaboradores baseia-se em vários princípios centrais, que têm implicações diretas para o desenho do estudo do NSI.

Primeiro, a escola como unidade de randomização. A inovação metodológica crucial do experimento de vermifugação de Kremer-Miguel no Quênia foi definir a unidade de randomização como a escola, e não o indivíduo. Essa escolha de desenho baseia-se na compreensão profunda das "externalidades": quando o tratamento vermífugo é implementado no nível escolar, estudantes não tratados se beneficiam indiretamente da redução da transmissão da doença, e a randomização no nível individual subestimaria o efeito global do tratamento. Para o estudo do NSI, esse princípio significa que a randomização deve ocorrer no nível escolar, para capturar os efeitos de transbordamento das intervenções de saúde no ecossistema escolar.

Segundo o valor diagnóstico dos "resultados nulos". O experimento do livro didático de Kremer mostrou que um "resultado nulo" não é um fracasso da pesquisa, mas uma oportunidade para repensar a estrutura do problema. Quando o livro didático não teve efeito sobre a nota média, os pesquisadores foram forçados a perguntar: onde está realmente o problema? Essa indagação levou a um desenho de intervenção mais preciso. Para o estudo do NSI, isso significa que, mesmo que algumas intervenções preestabelecidas não mostrem efeitos significativos, as "descobertas nulas" processuais têm igualmente valor científico e político.

Terceiro, a medição precisa da sensibilidade ao preço. A pesquisa de Kremer sobre a sensibilidade ao preço do vermífugo (75% de adesão quando gratuito vs. 18% quando cobrados 40 centavos) demonstrou a capacidade única do RCT de identificar barreiras comportamentais. Essa descoberta tem implicações diretas para o desenho da participação em atualização vacinal e rastreio no NSI: a adesão pode ser altamente sensível aos "custos de atrito" de acesso ao serviço (tempo, transporte, informação).

Quarto, da descoberta experimental à política em escala. A característica central da metodologia de Kremer não é apenas identificar "o que funciona", mas provar sua eficácia em escala. A avaliação do presidente do Banco Mundial — "não apenas identificar o que funciona, mas provar sua eficácia em larga escala" — resume com precisão essa característica. O desenho do estudo do NSI deve considerar a escalabilidade desde o início, incluindo validação em múltiplos municípios e diferentes condições regionais.

2.2 Evidência causal sobre intervenções de saúde baseadas na escola

O experimento de vermifugação de Kremer no Quênia oferece um exemplo clássico de evidência causal sobre intervenções de saúde baseadas na escola. Suas descobertas centrais incluem: (1) o tratamento vermífugo reduziu o absenteísmo nas escolas tratadas em 25%; (2) a relação custo-benefício foi muito superior a outras formas de aumentar a matrícula; (3) houve externalidades significativas, com estudantes não tratados e escolas vizinhas também se beneficiando; (4) a vermifugação não melhorou significativamente as notas em exames acadêmicos.

Esse conjunto de descobertas tem implicações políticas importantes: o valor central das intervenções de saúde escolar pode residir na participação educacional (frequência, atenção, envolvimento em sala de aula), e não na melhoria direta do desempenho acadêmico. Para o estudo do NSI, isso significa que o arcabouço de avaliação deve adotar a taxa de absenteísmo e o envolvimento em sala de aula como principais indicadores de produção educacional, e não apenas as notas em exames padronizados.

Além do estudo de vermifugação, outros experimentos de Kremer e seus colaboradores no campo da educação oferecem referências metodológicas. Eles descobriram que, no Quênia, a redução do tamanho das turmas (com professores efetivos) não melhorou significativamente a aprendizagem, mas a contratação de professores com contrato temporário (com renovação condicionada ao desempenho dos alunos) produziu efeitos positivos. Essa descoberta enfatiza o papel central da estrutura de incentivos no desenho da intervenção. Para o NSI, isso significa que o incentivo (e não apenas a exigência institucional) para a participação de profissionais de saúde nos serviços de saúde escolar pode ser a variável-chave que determina a sustentabilidade da intervenção.

2.3 Evidência sobre rastreio escolar de transtornos de aprendizagem 

A identificação e a intervenção precoces de transtornos de aprendizagem possuem base evidencial consolidada. No arcabouço da "Resposta à Intervenção" (RTI), o modelo de suporte em três níveis — ensino para toda a turma, intervenção suplementar para alunos com dificuldades e suporte individualizado intensivo para dificuldades persistentes — tem sido amplamente adotado. A eficácia da RTI pressupõe "rastreio precoce" e "adaptação baseada em necessidades".

O Brasil já conta com pesquisas explorando instrumentos de rastreio escolar de transtornos de aprendizagem. Um estudo sobre processos de leitura em adolescentes desenvolveu critérios de risco para dislexia baseados no teste PROLEC-SE-R, demonstrando validade na identificação de dificuldades de leitura do tipo fonológica, visual e mista. Contudo, a mesma investigação constatou que muitos estudantes com lacunas significativas de leitura não haviam recebido qualquer orientação de avaliação especializada.

No plano da intervenção, programas de aprendizagem sócio emocional para estudantes com transtornos de aprendizagem têm demonstrado efeitos significativos. Ensaio clínico randomizado publicado em 2025 avaliou os efeitos de 12 sessões de intervenção scio emocional sobre sofrimento psíquico e desregulação emocional em estudantes com transtornos específicos de aprendizagem. Os resultados revelaram melhora estatisticamente significativa no grupo de intervenção tanto no sofrimento psíquico (p < 0,001) quanto na desregulação emocional (p < 0,001). Essa evidência sustenta a necessidade de integrar o apoio sócio emocional aos serviços de saúde escolar e indica que o pacote de intervenção do NSI deve incluir componentes de apoio psicossocial para estudantes com transtornos de aprendizagem. 

3. Perguntas de Pesquisa e Hipóteses

3.1 Perguntas principais de pesquisa

No sistema escolar público brasileiro, um Núcleo de Saúde Integrada (NSI) sediado na escola, com equipes UBS/ESF como provedoras de serviço, em comparação com as atividades convencionais do PSE, produz qual efeito causal sobre os seguintes desfechos:

  1. Cobertura de rastreio de transtornos de aprendizagem: a cobertura do rastreio sistemático no início do ano letivo nas escolas NSI é significativamente superior à das escolas de controle?

  1. Taxa de conclusão de atualização vacinal: a taxa de conclusão de atualização entre estudantes com esquema vacinal incompleto nas escolas NSI é significativamente superior à do grupo de controle?

  1. Taxa de conclusão de encaminhamentos médicos críticos: a taxa de conclusão encaminhamento-consulta entre estudantes com problemas identificados no rastreio nas escolas NSI é significativamente superior à do grupo de controle?

  1. Taxa de absenteísmo dos estudantes: a taxa média de absenteísmo nas escolas NSI é significativamente inferior à do grupo de controle?

  1. Envolvimento educacional: os indicadores de envolvimento em sala de aula e atenção nas escolas NSI são significativamente superiores aos do grupo de controle?

3.2 Hipóteses de pesquisa

H1 (Efeito do rastreio): a cobertura do rastreio sistemático no início do ano letivo nas escolas NSI será significativamente superior à do grupo de controle (diferença esperada > 30 pontos percentuais).

H2 (Efeito da imunização): a taxa de conclusão de atualização entre estudantes com esquema vacinal incompleto nas escolas NSI será significativamente superior à do grupo de controle (diferença esperada > 20 pontos percentuais).

H3 (Efeito do encaminhamento): a taxa de conclusão encaminhamento-consulta entre estudantes com problemas identificados no rastreio nas escolas NSI será significativamente superior à do grupo de controle (diferença esperada > 25 pontos percentuais).

H4 (Efeito sobre a frequência): a taxa média de absenteísmo nas escolas NSI será significativamente inferior à do grupo de controle (tamanho de efeito esperado com referência à redução de 25% no absenteísmo do estudo de vermifugação de Kremer-Miguel).

H5 (Efeito sobre o envolvimento): os indicadores de envolvimento em sala de aula nas escolas NSI serão significativamente superiores aos do grupo de controle.

4. Métodos 

4.1 Desenho do estudo: ensaio clínico randomizado por conglomerados

Este estudo adota um desenho de ensaio clínico randomizado por conglomerados, com a escola como unidade de randomização. Essa escolha baseia-se no princípio metodológico do experimento de vermifugação de Kremer-Miguel no Quênia: a randomização no nível escolar captura os efeitos de externalidade das intervenções de saúde (como redução da transmissão de doenças, efeitos de pares, formação de cultura de saúde escolar), enquanto a randomização no nível individual subestimaria esses efeitos.

Esquema de randomização: na área de estudo selecionada, as escolas elegíveis são randomizadas para o grupo de intervenção (implementação do NSI) ou grupo de controle (manutenção das atividades convencionais do PSE). A randomização utiliza estratificação, com variáveis de estratificação incluindo: porte da escola (número de alunos), tipo de escola (ensino fundamental I/II), índice de vulnerabilidade social da área (alto/médio/baixo).

Sequenciamento da implementação da intervenção: adota-se a estratégia de "escalonamento faseado" (phased rollout), na qual a randomização determina a ordem temporal de entrada das escolas do grupo de intervenção na implementação do NSI. O primeiro grupo de escolas inicia o NSI no 1º semestre, o segundo no 2º semestre e o terceiro no 3º semestre. Esse desenho permite estimar efeitos de curto e médio prazo antes da cobertura total da intervenção, ao mesmo tempo que garante que todas as escolas eventualmente recebam a intervenção, atendendo a requisitos éticos.

4.2 Locais e tamanho da amostra

Seleção de regiões: selecionar um município de médio porte em cada uma das diferentes regiões geográficas do Brasil (por exemplo, Nordeste, Sudeste, Norte) como área de estudo. Os critérios de seleção incluem: (1) adesão ao PSE com GTI ativo; (2) pelo menos 30 escolas públicas elegíveis na região; (3) cobertura da rede UBS/ESF na área de estudo.

Critérios de inclusão de escolas: (1) escola pública de ensino fundamental I ou II; (2) no mínimo 200 alunos; (3) adesão ao PSE; (4) existência de equipe UBS/ESF funcional no território.

Cálculo do tamanho da amostra: utilizando a taxa de absenteísmo como desfecho primário, com base no efeito de redução de 25% observado no estudo de vermifugação de Kremer-Miguel, assumindo coeficiente de correlação intraclasse (ICC) de 0,05, poder de 80% e nível de significância de 5%, o número necessário de escolas é de aproximadamente 20 por grupo, totalizando 40 escolas.

4.3 Desenho da intervenção: modelo operacional do Núcleo de Saúde Integrada

4.3.1 Estrutura organizacional 

O NSI não estabelece uma clínica escolar independente, mas opera com as equipes UBS/ESF existentes como provedoras de serviço e a escola como nó de serviço. Sua estrutura central compreende:

  • Coordenação dupla: um educador designado pela escola e um profissional de saúde designado pela UBS atuam conjuntamente como coordenadores do NSI, responsáveis pela coordenação cotidiana, fluxo de informações e articulação com os dois sistemas.

  • Reuniões mensais de colaboração: equipes UBS/ESF e equipe pedagógica da escola reúnem-se mensalmente para discutir necessidades de saúde dos estudantes, andamento de encaminhamentos e planejamento de ações preventivas.

  • Módulo de informações de saúde do estudante: criação de módulo de informações de saúde no sistema de gestão escolar, permitindo, mediante autorização dos pais, o compartilhamento de status vacinal, resultados de rastreio e andamento de encaminhamentos.

4.3.2 Protocolo de rastreio de transtornos de aprendizagem

Adota-se estratégia de rastreio em duas etapas:

Primeira etapa (rastreio universal): no início do ano letivo, aplicação de instrumentos padronizados de rastreio a todos os estudantes das escolas NSI, incluindo avaliação rápida de fluência de leitura (versão simplificada baseada no PROLEC-SE-R), tarefa de escrita ortográfica e teste de habilidades matemáticas básicas. O rastreio é realizado por professores treinados e técnicos da UBS em conjunto.

Segunda etapa (avaliação direcionada): estudantes com desempenho abaixo do ponto de corte na primeira etapa são submetidos a avaliação mais aprofundada por psicólogo ou psicopedagogo da equipe UBS/ESF, abrangendo função cognitiva, atenção e condições socioemocionais. Os resultados orientam o encaminhamento a serviços especializados ou a implementação de intervenções direcionadas no ambiente escolar.

4.3.3 Verificação vacinal e encaminhamento de problemas críticos de saúde

No início do ano letivo, realiza-se verificação sistemática do status vacinal, identificando estudantes com esquema incompleto. Em articulação com a UBS, organizam-se ações de vacinação na escola, com atenção especial às vacinas HPV, meningocócica e influenza. Para problemas de acuidade visual, auditiva ou condições crônicas identificadas no rastreio, estabelece-se fluxo de ciclo fechado "rastreio-encaminhamento-confirmação-retorno".

4.3.4 Intervenção em grupo de aprendizagem socioemocional

Com base no princípio da metodologia de Kremer de que "o desenho da intervenção deve abordar barreiras específicas", oferece-se intervenção em grupo de 12 sessões para estudantes com transtornos de aprendizagem confirmados no rastreio, cobrindo autoconhecimento, regulação emocional e habilidades sociais. A intervenção é conduzida por psicopedagogo escolar treinado ou psicólogo da UBS, uma vez por semana, com duração aproximada de 60 minutos por sessão.

4.4 Coleta de dados

Desfechos primários:

  • Cobertura de rastreio: número de estudantes que receberam a primeira etapa do rastreio / total de estudantes matriculados

  • Taxa de absenteísmo: média de dias de ausência por semestre, com base nos registros administrativos da escola

Desfechos secundários:

  • Taxa de conclusão de atualização vacinal: proporção de estudantes com esquema vacinal incompleto que completaram a atualização

  • Taxa de conclusão de encaminhamentos: proporção de estudantes com problemas identificados no rastreio que compareceram à UBS

  • Envolvimento em sala de aula: escala de envolvimento em sala de aula avaliada por professores (ao final de cada semestre)

  • Sofrimento psíquico e desregulação emocional: escalas padronizadas (DASS-21 e escala de desregulação emocional), medidas no início e no final do ano letivo

Fontes de dados: 

  • Registros administrativos escolares (frequência, rastreio, encaminhamentos)

  • Registros eletrônicos de saúde da UBS (status vacinal, registros de consultas)

  • Questionários de avaliação de professores

  • Escalas de autoavaliação de estudantes

4.5 Análise de dados

Análise principal: adota-se a análise por intenção de tratar (Intention-to-Treat, ITT), na qual todas as escolas randomizadas para o grupo de intervenção são incluídas na análise, independentemente do grau de implementação efetiva do NSI. A análise ITT preserva as vantagens da randomização e fornece uma estimativa conservadora do efeito da intervenção.

Métodos estatísticos: utiliza-se modelo linear hierárquico (HLM) ou equações de estimação generalizadas (GEE) para lidar com efeitos de agrupamento no nível escolar. O modelo de análise para os desfechos primários é:

Yij=β0+β1⋅Tratamentoj+β2⋅Yij,baseline+γ⋅Xij+uj+εijYij =β0 +β1 Tratamentoj +β2 Yij,baseline +γXij +uj +εij 

onde YijYij  é o desfecho do estudante ii na escola jjTratamentojTratamentoj  é a variável indicadora de alocação da escola jj ao grupo de intervenção, XijXij  são covariáveis no nível do estudante, ujuj  é o efeito aleatório no nível escolar.

Relato do tamanho de efeito: relata-se a diferença média padronizada (d de Cohen) com intervalo de confiança de 95%, para permitir comparação com evidências existentes, como o estudo de vermifugação de Kremer-Miguel.

Análises de subgrupo: análises de subgrupo pré-especificadas por tipo de escola (fundamental I/II), nível de vulnerabilidade social e cobertura vacinal basal, para identificar heterogeneidade do efeito do NSI em diferentes condições.

5. Considerações Éticas

Este estudo requer aprovação de Comitê de Ética em Pesquisa. A participação de estudantes no rastreio e nas intervenções requer consentimento informado dos pais ou responsáveis. O retorno dos resultados de rastreio deve ser realizado de forma sensível e desestigmatizante, evitando efeitos de rotulação.

Justificativa ética do escalonamento faseado: o desenho de escalonamento faseado garante que todas as escolas participantes eventualmente recebam a intervenção NSI, havendo diferença apenas no momento de recebimento. Esse desenho é metodologicamente superior ao desenho com grupo de controle puro e eticamente superior ao desenho com grupo de intervenção puro.

Proteção de dados: a proteção de dados deve observar a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), com acesso a informações de saúde restrito a pessoal autorizado. Os dados de pesquisa são desidentificados antes da análise.

6. Resultados Esperados e Impacto

6.1 Produtos acadêmicos

  • Modelo operacional de "Núcleo de Saúde Integrada" escolar validado por ensaio clínico randomizado, incluindo estrutura organizacional, fluxos de colaboração e protocolo de rastreio-encaminhamento

  • Estimativa do efeito causal de intervenções de saúde baseadas na escola sobre a participação educacional (taxa de absenteísmo), comparável ao estudo de vermifugação de Kremer-Miguel

  • Dados de validação local brasileira de instrumentos de rastreio escolar de transtornos de aprendizagem

  • Contribuição metodológica sobre a aplicação de mecanismos de colaboração intersetorial no campo da saúde escolar brasileira

6.2 Impacto prático e político

  • Fornecer base evidencial experimental para a atualização do PSE, impulsionando a transição paradigmática de "atividade" para "nó de serviço"

  • Fornecer ferramenta de fluxo padronizado para a colaboração entre equipes UBS/ESF e escolas

  • Estabelecer base evidencial causal para a identificação precoce e a intervenção de estudantes com transtornos de aprendizagem no sistema escolar

  • Fornecer referência para decisões de investimento de instituições internacionais como o Banco Mundial na interseção entre educação e saúde

6.3 Diálogo com a metodologia de Kremer

A contribuição metodológica central deste estudo é expandir a metodologia experimental de Kremer de uma "intervenção única" (como a distribuição de vermífugo) para uma "intervenção sistêmica" (a operação global do Núcleo de Saúde Integrada). O experimento de vermifugação de Kremer-Miguel provou a vantagem da randomização no nível escolar para capturar externalidades; o estudo do NSI aplica esse princípio a um pacote de intervenção mais complexo, testando o efeito causal do desenho institucional (e não de uma única tecnologia). Se o NSI mostrar efeitos significativos, isso fornecerá evidência experimental para a questão institucional de "como organizar os serviços de saúde no sistema escolar"; se não mostrar efeitos, seu "resultado nulo" terá igualmente valor diagnóstico, apontando para barreiras institucionais que exigem experimentos adicionais.

7. Limitações e Desafios

Primeiro, complexidade da intervenção. Em comparação com o experimento de vermifugação de Kremer, o NSI é uma intervenção multicomponente (rastreio, encaminhamento, imunização, apoio socioemocional), e identificar "qual componente está impulsionando o efeito" é mais difícil. O desenho do estudo deve prever uma avaliação de processo para rastrear a fidelidade de implementação de cada componente.

Segundo heterogen.eidade de implementação. Diferenças significativas na capacidade das equipes UBS/ESF, no grau de envolvimento da gestão escolar e na disposição dos professores em participar podem afetar a intensidade real de implementação do NSI. A avaliação de processo e a análise dose-resposta são cruciais para compreender a heterogeneidade dos efeitos.

Terceiro, horizonte temporal. O ciclo de pesquisa de 24 meses pode ser insuficiente para capturar os efeitos do NSI sobre desfechos de longo prazo, como o desempenho acadêmico (o estudo de vermifugação de Kremer-Miguel também não encontrou efeitos de curto prazo sobre as notas em exames). A justificativa para adotar a taxa de absenteísmo como desfecho primário reside em sua sensibilidade a intervenções de saúde de curto prazo.

Quarto, restrições políticas e institucionais. O PSE já possui arcabouço estabelecido e mecanismos de alocação de recursos. A viabilidade do NSI como modelo de reforço no âmbito do PSE está condicionada ao compromisso político local e à carga de trabalho real das equipes UBS/ESF.

Referências

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