SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

'Pix americano'? O que é o Zelle, sistema de pagamentos citado por Eduardo Bolsonaro para negociação entre Brasil e EUA

 

Uma mão segurando um celular com o logotipo do aplicativo Zelle na tela, com letras roxas sobre um fundo branco. Ao fundo, é possível ver o mesmo logotipo, nas cores preto e roxo

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Zelle foi criado por bancos nos EUA
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Em meio às críticas do governo de Donald Trump ao Pix, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) sugeriu na quarta-feira (3/6) que o Brasil pode "ir para a mesa de negociação" ao mencionar o uso do Zelle, que ele chamou "o Pix americano".

Ao canal TMC News, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro disse que os "EUA têm mecanismos muito semelhantes ao Pix, como por exemplo o Zelle".

"Então dá pra você ir para uma mesa de negociação com os americanos com bons argumentos", seguiu o ex-deputado cassado que vive nos EUA há mais de um ano fazendo articulações políticas que buscam favorecer o campo bolsonarista.

A declaração de Eduardo foi dada em meio à pressão americana sobre o Pix, que foi um dos alvos do documento em que governo Trump propõe uma nova taxação de 25% sobre produtos brasileiros.

"O Brasil tem prejudicado injustamente as empresas americanas que atuam em serviços concorrentes de pagamento eletrônico, inclusive por meio de políticas que favorecem seu campeão nacional, o Pix", afirma o documento da investigação comercial iniciada contra o Brasil em julho do ano passado.

O governo americano acusou o Banco Central brasileiro de exercer papel duplo no Pix — "como regulador e proprietário/operador" do Pix — criando um "conflito de interesses, na ausência de salvaguardas processuais adequadas".

As críticas americanas seguem citando a exigência do uso do Pix por instituições financeiras com mais de 500 mil contas e a de que o sistema de pagamentos seja exibido na tela principal do aplicativo dos bancos no Brasil.

Em pré-campanha à reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vem usando o argumento de que os Estados Unidos e a família Bolsonaro seriam contra o Pix.

O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), por sua vez, tem citado que o Pix foi lançado em 2020, durante o governo de Jair Bolsonaro (PL) — apesar de o projeto ter sido iniciado ainda no governo Michel Temer (MDB), em 2018.

As declarações de Eduardo Bolsonaro repercutiram no campo governista, com o deputados do PT acusando os filhos do ex-presidente de agir contra o Brasil.

O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) os chamou de "entreguistas": "Eduardo Bolsonaro confessa que quer entregar nosso Pix público e gratuito, operado pelo nosso Banco Central, aos americanos. Nós não vamos permitir".

Já a ex-ministra Gleisi Hoffmann (PT-PR), disse que Eduardo "quer trocar o nosso Pix pelo sistema americano chamado Zelle, como ponto de negociação pra retirar a taxação americana, que eles ajudaram articular".

Diante das críticas, Eduardo publicou nas redes sociais que jamais falou em substituir o Pix pelo Zelle.

"Pix foi criado pelo meu pai, sem taxas e assim deve permanecer. Sou pró-PIX", escreveu na rede social X.

O que é o Zelle e como se compara ao Pix

Diferentemente do Pix — um sistema de pagamentos público, criado e operado pelo Banco Central brasileiro —, o Zelle é um sistema privado de pagamentos e transferências, operado por bancos americanos.

O serviço é operado desde 2017 pela Early Warning Services, empresa que é copropriedade de sete dos maiores bancos americanos: Bank of America, Capital One, JPMorgan Chase, PNC Bank, Truist, U.S. Bank e Wells Fargo.

Segundo a empresa, o Zelle está disponível em mais de 2,4 mil aplicativos bancários no país. Ou seja, depende de cada banco a decisão de usar ou não.

Já no Brasil, a participação no Pix é obrigatória para todas as instituições financeiras autorizadas pelo Banco Central com mais de 500 mil contas ativas.

O serviço americano anunciou que alcançou 151 milhões de usuários cadastrados em 2024, entre consumidores e pequenos negócios, fazendo mais de US$ 1 trilhão (cerca de R$ 5 trilhões) em transferências naquele ano.

O Pix, por sua vez, é usado por mais de 170 milhões de pessoas físicas no Brasil, ou 80% da população do país, movimentando R$ 35,4 trilhões em transferências somente em 2025.

A CBS News, parceira da BBC nos Estados Unidos, classifica o Zelle como uma "resposta da indústria bancária ao crescente sucesso de serviços de pagamento entre pessoas, como PayPal", uma plataforma global de pagamentos online separada dos bancos.

Uma limitação de serviços como PayPal, Venmo e Cash App é que os usuários precisam usar o mesmo serviço para transferir dinheiro. Já com o Zelle, qualquer pessoa com uma conta bancária em uma instituição financeira participante pode enviar dinheiro.

Assim como o Pix, o serviço americano permite que um cliente bancário envie recursos rapidamente para outra pessoa usando apenas seu endereço de e-mail ou número de telefone. No Brasil, os clientes podem usar ainda o CPF ou uma "chave aleatória" para as transferências.

De acordo com a Early Warning Services, o dinheiro é depositado diretamente na conta bancária "em poucos minutos". Já o Pix é um serviços instantâneo, que realizar pagamentos em segundos, estando disponível 24 horas por dia, 7 dias por semana, inclusive em fins de semana e feriados.

O Bank of America ressalta também em seu site que, "em algumas situações, a instituição financeira do destinatário pode causar um atraso no processamento da transferência" via Zelle.

Ainda segundo a Early Warning Services, "normalmente não há tarifas para consumidores enviarem ou receberem dinheiro por meio do Zelle", mas essa não é uma regra. É possível que bancos cobrem taxas para transações, por isso é preciso verificar com as instituições financeiras.

No Brasil, o Pix é gratuito para pessoas físicas, microempreendedores individuais (MEIs) e empresários individuais, e cobra taxas baixas de pessoas jurídicas, que variam de 0,89% a 1,45% por transação, dependendo do banco, do volume de recebimentos e do canal utilizado.

Os limites de envio e recebimento de dinheiro pelo Zelle são definidos por cada banco ou cooperativa de crédito participante.

No Pix, os limites para pessoas físicas são definido pelas instituições financeiras, com base no perfil de risco e de comportamento do usuário.

Mãos segurando um celular em que na tela se lê "Pix enviado"

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,O Pix é um sistema de pagamentos público e gratuito para pessoas físicas, criado e operado pelo Banco Central brasileiro

Em um artigo publicado em 2025 em que elogiou o Pix, o economista americano Paul Krugman, vencedor do prêmio Nobel, disse que "o Pix é uma espécie de versão pública do Zelle".

"Mas o Pix é muito mais fácil de usar. E, embora o Zelle seja grande, o Pix se tornou simplesmente enorme, sendo usado por 93% dos adultos brasileiros. Parece estar rapidamente substituindo dinheiro em espécie e cartões", escreveu Krugman.

Após a citação do Pix no relatório produzido pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) nesta semana, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) defendeu o meio de pagamento e disse que a conclusão da investigação dos EUA decorre de "informações incompletas" acerca dos objetivos e funcionamento do sistema financeiro.

"O Pix é uma infraestrutura de pagamento, e não um produto comercial, que favorece a competição e o bom funcionamento do sistema de pagamentos e consequentemente da atividade econômica. Trata-se de um modelo aberto e não discriminatório, com participação de bancos, fintechs, instituições financeiras nacionais e estrangeiras", afirmou a entidade.

A Febraban pontuou ainda que "não há qualquer restrição à entrada de novos participantes, de qualquer porte ou segmento da indústria financeira, desde que operem no mercado nacional".

Por que PIX incomoda tanto o governo Trump?

A menção ao Pix no relatório publicado pelo USTR nesta semana não foi o primeiro ataque dos EUA ao sistema de pagamentos.

O Pix foi mencionado em outro relatório do USTR de 31 de março em que os EUA listam o que consideram barreiras comerciais de mais de 60 países contra empresas americanas. Na ocasião, o governo brasileiro reagiu e o presidente Lula afirmou que "o Pix é do Brasil".

No relatório de março do ano passado, no entanto, o sistema de pagamentos não foi mencionado diretamente, ao contrário do que aconteceu no deste ano.

Uma fonte ouvida pela BBC News Brasil que tem proximidade com as negociações entre Brasil e EUA comenta que uma das hipóteses para o endurecimento no tom agora foi o desfecho de uma reunião recente da Organização Mundial do Comércio (OMC) em que o Brasil bloqueou uma proposta dos EUA e outros países para estender a moratória de tarifas aduaneiras sobre transmissões eletrônicas, que inclui serviços digitais como streamings, softwares e jogos.

Há ainda a grande derrota que o tarifaço de Trump sofreu no judiciário americano em fevereiro deste ano, quando a Suprema Corte considerou que o instrumento que vinha sendo usado para embasar as medidas (a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional, ou IEEPA, na sigla em inglês), na verdade não autorizava o governo americano a instituir as tarifas.

Em um artigo de março deste ano, duas analistas do centro de pesquisas americano Brookings Institute pontuaram que, diante desse revés, a Seção 301, usada na investigação contra o Brasil, poderia entrar no cardápio do governo americano como opção para voltar a taxar seus parceiros comerciais.

Do lado do setor financeiro, a jurista Camila Villard Duran chama atenção para a expansão do Pix no Brasil, "que altera diretamente o equilíbrio competitivo para empresas americanas, como Visa e Mastercard", mas especialmente para o fenômeno mais amplo no qual ele está inserido, de transformação estrutural e reorganização da ordem monetária e financeira internacional.

"O Pix já não é apenas um sistema de pagamentos eficiente. Ele representa um modelo de infraestrutura pública, que reduz a dependência de redes privadas estrangeiras e concentra, no âmbito doméstico, o controle jurisdicional sobre dados e fluxos financeiros", destaca Duran.

A professora aponta que, no relatório do USTR, os EUA fazem críticas semelhantes às feitas ao Brasil a países como Índia, Tailândia e Paquistão, "onde políticas públicas nacionais promovem sistemas domésticos de pagamento, impõem requisitos de localização de dados ou criam barreiras regulatórias à atuação de empresas estrangeiras".

"Em todos esses casos, o argumento dos EUA é semelhante: tais medidas seriam discriminatórias e restringiriam o acesso de empresas americanas a mercados nacionais", completa.

Captura de tela de postagem do Governo do Brasil no X. O texto diz: “O PIX é do Brasil e dos brasileiros! Parece que nosso PIX vem causando um ciúme danado lá fora, viu? Tem até carta reclamando da existência do nosso sistema Seguro, Sigiloso e Sem taxas.” Abaixo, há uma ilustração em fundo verde com a frase em destaque: “O PIX É NOSSO, MY FRIEND!”, acompanhada de ícones de moedas, bandeira do Brasil e duas mãos segurando um celular.

Crédito,Reprodução/X/Governo Federal

Legenda da foto,Post do governo federal de julho de 2025: gestão Lula tem procurado usar episódios para tentar melhorar imagem

Da economia à política

Diante desse panorama, Duran avalia que a pressão sobre o Pix e sobre sistemas de pagamentos de outros países também está ligada a uma questão ainda mais ampla, de soberania.

O que está em jogo, diz ela, já não é apenas a concorrência entre empresas, "mas o controle sobre infraestruturas consideradas como críticas".

"Nas minhas pesquisas, tanto sobre a criação do euro digital como sobre os projetos de plataformas alternativas para transações financeiras transfronteiriças, noto que a ideia de 'soberania monetária' está se deslocando muito rapidamente da autonomia da política monetária para o controle jurisdicional sobre as infraestruturas de pagamento e dos dados monetários que elas geram", afirma Duran.

"A moeda, na economia digital, torna-se cada vez mais informação e, nesse contexto, o controle jurisdicional sobre esses dados passa a ser um elemento central do poder monetário estatal."

Com informações de Vitor Tavares, Thais Carrança, Daniel Gallas e Camilla Veras Motta, da BBC News Brasil em São Paulo e em Londres.

Zelensky propõe encontro com Putin e cessar-fogo: 'A escolha agora é sua, chega de guerra'

 

Volodymyr Zelensky em um pódio branco em frente a um prédio. O pódio tem a bandeira da Ucrânia e dois microfones, e o presidente está vestido de preto e gesticula para o lado direito da imagem com a mão

Crédito,EPA

Legenda da foto,Zelensky publicou uma carta aberta endereçada a Putin nesta quinta-feira (4/6)
    • Author,Dan Sales
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O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky sugeriu nesta quinta-feira (4/6) um encontro presencial entre ele e Vladimir Putin em uma nova tentativa de pôr fim à guerra entre Rússia e Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022.

Em uma carta aberta a Putin, o líder ucraniano disse que seria "errado simplesmente esperar" até que a guerra na Europa volte a ser o foco da atenção dos Estados Unidos, acrescentando que a paz só poderia vir "através do engajamento direto" entre a Ucrânia e a Rússia.

Ele também pediu um cessar-fogo total durante o período das negociações propostas — algo que Putin já havia descartado mais cedo na quinta-feira.

Donald Trump disse nesta quinta-feira que acharia "ótimo" se os dois líderes se encontrassem.

O Kremlin confirmou ter recebido a carta e que Putin seria informado sobre ela.

Em declarações a jornalistas estrangeiros em São Petersburgo, aparentemente sem ter visto o conteúdo da carta, Putin afirmou estar "certamente preparado e disposto a chegar a um acordo com a Ucrânia", mas ressaltou que certos compromissos seriam necessários.

As negociações de cessar-fogo entre os dois países estão paralisadas nos últimos meses, desde o início da guerra com o Irã, em fevereiro. Tentativas anteriores de paz, negociadas em encontros em Genebra, Abu Dhabi e Istambul, fracassaram.

Na carta, Zelensky afirma: "Não é como se nós, na Ucrânia, estivéssemos preocupados com o destino dos soldados russos depois de tudo o que a sua guerra trouxe ao nosso país. Mas eu me importo com os ucranianos. Estamos perdendo nosso povo, e cada perda é dolorosa para nós."

Zelensky diz que os russos estão cansados dos ataques de drones e mísseis ucranianos, da escassez de gasolina e do aumento dos preços, bem como da guerra.

"Não tenha medo de trilhar o caminho para fora desta guerra. É isso que mais se exige de você agora", escreveu.

Ele afirma que a Ucrânia está propondo o fim da guerra "por meio de um diálogo direto".

Acrescenta que, embora os EUA estivessem "totalmente focados na questão do Irã", seria "errado simplesmente esperar" até que a guerra na Europa voltasse a ser o centro das atenções.

Zelensky diz que negociações presenciais podem ocorrer em um país como a Suíça ou a Turquia.

A carta do presidente ucraniano foi enviada num dia em que Putin está em São Petersburgo, onde acontece um importante fórum econômico.

No dia anterior, Kiev havia lançado um ataque com drones nos arredores da cidade, mencionado na mensagem de Zelensky como uma "visita".

Em outro incidente, autoridades apoiadas pela Rússia na Crimeia ocupada culparam a Ucrânia pela morte de quatro pessoas em ataques a Simferopol. A Ucrânia afirmou ter atingido um depósito de combustível.

Putin mencionou a guerra durante uma coletiva de imprensa com jornalistas na quinta-feira, no fórum.

Nela, ele pareceu lançar dúvidas sobre a possibilidade de um encontro ou que qualquer acordo possa ser realizado.

Putin, vestido com um terno escuro, camisa clara e gravata de bolinhas, fala ao microfone, em uma coletiva de imprensa

Crédito,EPA

Legenda da foto,Putin falando na quinta-feira durante um fórum econômico em São Petersburgo

"Se o Sr. Zelensky é um representante legítimo da Ucrânia, isso é uma questão para os advogados, para uma análise jurídica", disse o líder russo.

Putin também sinalizou que ainda queria controlar toda a região de Donbas e sugeriu que a União Europeia poderia convencer Zelensky a se render.

Em sua carta, Zelensky acusa Putin de adiar regularmente seus próprios prazos para capturar partes da Ucrânia e menciona especificamente a região de Donetsk, que fica em Donbas. "Vocês não a capturarão", disse ele.

O presidente Trump reconheceu a carta de Zelensky e disse acreditar que os EUA foram fundamentais para aproximar os dois países da paz.

"Fico feliz que eles estejam talvez falando sobre se encontrar. Acho que tivemos muito a ver com isso", disse Trump.

"Acho que seria ótimo se eles se encontrassem. Deveriam. Que isso se resolva."

Questionado sobre os compromissos que os dois lados teriam que fazer, ele disse que "preferia não dizer" quais seriam, mas acrescentou: "Quero que cada um faça certos compromissos, e acho que eles vão fazer isso."

Mais cedo, na quinta-feira, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, disse que a posição dos EUA em relação à Ucrânia "não era diferente" da de seus aliados europeus.

Ele acrescentou: "A guerra de Biden se tornou a guerra de Trump."

'Completamente louco': a tensa ligação telefônica entre Trump e Netanyahu que complica negociações com o Irã

 

Trump e Netanyahu

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Trump e Netanyahu falaram por telefone na segunda-feira (1/6)
    • Author,Bernd Debusmann Jr
    • Role,Correspondente da BBC na Casa Branca
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O presidente americano, Donald Trump, entrou em confronto com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, devido às ações militares israelenses no Líbano que causaram uma crise nas conversas entre os governos dos EUA e do Irã para o fim da guerra.

O Irã respondeu aos ataques de Israel contra o Líbano ameaçando suspender as conversas com os EUA, um possível revés para os esforços de Trump de se desvincular do impopular conflito no Oriente Médio.

Um jornalista perguntou a Trump sobre uma informação do portal de notícias americano Axios que afirmava que, durante uma ligação telefônica na segunda-feira (1/6), o presidente havia dito a Netanyahu que ele estava "completamente louco" e o acusara de ingratidão.

"Eu disse", assumiu Trump ao podcast Pod Force One, em uma entrevista exibida na quarta-feira (3/6).

"Não diria que estava irritado. Estava um pouco incomodado com seu constante conflito com o Líbano".

E acrescentou: "Gosto muito do Bibi [apelido de Benjamin Netanyahu]. E trabalho muito bem com ele".

Trump está longe de ser o único presidente americano a ter atritos com o primeiro-ministro israelense.

Netanyahu tem um longo histórico de testar a paciência da Casa Branca, mas também de sobreviver politicamente a quaisquer consequências que isso implique.

Este mais recente confronto ocorre em um momento em que Trump avalia um acordo que ampliaria o cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irã e abriria caminho para conversas sobre o futuro do programa nuclear de Teerã.

Também está em jogo a reabertura do estreito de Ormuz, uma via marítima vital para o transporte de combustível global.

Benjamin Netanyahu

Crédito,Reuters

Legenda da foto,Benjamin Netanyahu confirmou a ligação, mas minimizou a discordância entre os dois

'Grandes amigos'

Netanyahu descartou com uma risada qualquer sugestão de tensões com seu aliado americano.

"Às vezes temos — como acontece nas melhores famílias — esse tipo de desacordo tático", declarou à emissora america CNBC em uma entrevista na quarta-feira. "Sempre encontramos uma maneira de resolvê-los, e o fazemos como grandes amigos".

Ele acrescentou que ambos podem "discordar pela manhã" e chegar a um acordo à tarde.

No entanto, especialistas advertiram que a ligação pode ser um indício de certa frustração na Casa Branca em relação ao alinhamento dos objetivos militares e políticos dos Estados Unidos e de Israel, quase 100 dias após ambos os países terem lançado ataques contra alvos no Irã.

"Netanyahu tem um longo histórico de agir em seu próprio ritmo, independentemente do que tenha ouvido de Washington", disse à BBC Brett Bruen, ex-diplomata e presidente da agência de comunicação de crise Global Situation Room.

"Trump decidiu embarcar nessa ao lado dele e agora está aprendendo uma lição dura sobre o que acontece quando se entra em guerra ao lado de um líder bastante volátil, cuja agenda nem sempre coincide com suas prioridades", acrescentou.

Fumaçã por trás de casas e prédios em montanha arborizada no Líbano

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Os ataques de Israel no Líbano estão complicando as conversas sobre a guerra

Diminui o apoio a Israel

Em termos gerais, Netanyahu e Trump concordam com o objetivo central dos Estados Unidos de impedir que o Irã produza ou possua uma arma nuclear.

No Líbano, no entanto, esses interesses divergem parcialmente, dado que Israel prometeu atacar a milícia do Hezbollah — apoiada pelo Irã — mesmo enquanto prosseguem as conversas entre Estados Unidos e Irã.

Teerã tem insistido que qualquer cessar-fogo deve incluir também o Líbano.

Isso ocorre em um momento em que uma parcela crescente da opinião pública americana tem se tornado crítica ao apoio de longa data que os Estados Unidos oferecem a Israel.

Uma pesquisa do instituto Pew Research Center publicada em abril revelou que 60% dos americanos entrevistados têm agora uma visão negativa de Israel. Antes do início da guerra com o Hamas em Gaza, em 2023, 42% tinham uma visão negativa.

Várias figuras conservadoras proeminentes também se manifestaram publicamente contra o suposto papel de Israel em convencer Trump a entrar em guerra contra o Irã, algo que tanto a Casa Branca quanto Netanyahu negam.

Entre os críticos destacados da guerra está Joe Kent, que dirigiu o Centro Nacional de Contraterrorismo antes de renunciar em março, alegando sua convicção de que "iniciamos esta guerra devido à pressão de Israel e de seu poderoso lobby nos Estados Unidos".

O Comitê de Assuntos Públicos Estados Unidos-Israel (Aipac, na sigla em inglês), um poderoso grupo de lobby pró-Israel, respondeu à renúncia de Kent republicando uma declaração em que o acusava de recorrer a "velhos estereótipos antissemitas".

Nesse clima político, alguns analistas acreditam que Trump tem um incentivo para divergir de Netanyahu a fim de apaziguar seus críticos no cenário interno dos Estados Unidos.

"Acho que agora existe uma necessidade política de marcar distância entre Israel e Estados Unidos", afirmou Brett Bruen.

"Seja no Líbano ou em Gaza, há ações que Netanyahu decidiu empreender que são politicamente problemáticas, mesmo para Trump ou para os republicanos", disse o especialista.

Relações historicamente tensas

Outros presidentes americanos se viram frustrados por Netanyahu.

O primeiro-ministro israelense protagonizou um confronto marcante com o ex-presidente Bill Clinton a respeito da implementação dos Acordos de Paz de Oslo, entre israelenses e palestinos, de 1993.

Manteve uma relação ainda mais difícil com o ex-presidente Barack Obama, particularmente após um discurso perante o Congresso em março de 2015 — centrado na política em relação ao Irã — que foi agendado sem o conhecimento da Casa Branca.

A relação de Netanyahu com Joe Biden também pareceu se deteriorar depois que ele acusou os Estados Unidos de reter armas e munições; comentários que autoridades da Casa Branca classificaram como "irritantes" e "profundamente decepcionantes".

"Ele manteve relações extremamente tensas com os presidentes americanos", diz Natan Sacks, especialista em relações entre Estados Unidos e Israel do Instituto do Oriente Médio, com sede em Washington.

Netanyahu "é um negociador muito difícil; não apenas por ser duro, mas também por ser muito desconfiado", acrescenta Sacks.

Trump já havia expressado anteriormente sua frustração com Netanyahu e, no ano passado, fez um comentário grosseiro diante das câmeras e na frente de jornalistas, depois que ataques israelenses contra o Irã colocaram em risco um frágil cessar-fogo ao final da chamada "guerra de 12 dias" com Teerã.

Mas, em termos gerais, sua relação tem sido majoritariamente positiva, e Netanyahu tem descrito repetidamente Trump como o "melhor amigo de Israel" na história dos Estados Unidos.

"Com Trump, ele [Netanyahu] encontrou alguém disposto a romper os padrões na forma como os assuntos do Oriente Médio são conduzidos", afirmou Sacks.

"Isso é algo com o qual Netanyahu se identificou com muita facilidade. Ele queria mudar as regras do jogo, assim como a disposição dos Estados Unidos e de Israel de confrontar militarmente o eixo iraniano".

No entanto, não está claro se seu recente e aparente desacordo alterará essa relação cordial no longo prazo.

"Pode ser algo significativo. Não sabemos se foi um incidente isolado ou o prenúncio de acontecimentos de maior dimensão", apontou Sacks.

"Eu não descartaria isso. O presidente mudou de opinião em relação a muitas pessoas no passado".