SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Plano Político-Pedagógico para a Educação Infantil no Século XXI:

 



"A Casa Poética da Infância: Tecendo Saberes, Culturas e Futuros"

Fundamentos Filosóficos e Epistemológicos

Inspirado na "casa poética" de Marina Marcondes Machado, este plano concebe a educação infantil como um espaço-tempo de habitação sensível do mundo, onde crianças são "seres de linguagem, imaginação e encontro". Integra:

  1. Ubuntu (Mungi Ngomane): "Eu sou porque nós somos" - a criança se constitui na rede de relações.

  2. Pensamento Montessoriano (Simone Davies): Ambiente preparado, autonomia, períodos sensíveis.

  3. As Cem Linguagens da Criança (Reggio Emilia): A criança como ser multimodal de expressão.

  4. Complexidade (Edgar Morin): Educação como tecido de saberes indissociáveis.

  5. Diferença (Deleuze): A criança como força criadora, produtora de singularidades.

Eixos Estruturantes do Plano

1. Eixo: A Criança como Pesquisadora Sensível

  • Laboratórios das 100 Linguagens: Ateliês permanentes de artes visuais, música, dança, teatro, luz e sombra, modelagem digital

  • Investigação Científica Poética: Observação de fenômenos naturais, experimentação com materiais não estruturados, registro através de múltiplos códigos

  • Filosofia com Pré-Socráticos: Perguntas sobre a natureza, os elementos, a vida e a morte em círculos de wonder (assombro)

2. Eixo: Autonomia e Responsabilidade Coletiva

  • Vida Prática Ampliada: Tarefas cotidianas (inspiradas no modelo japonês) integradas à matemática (Boler) e ecologia

  • Gestão Democrática da Sala: Assembleias semanais para decisões coletivas, mediação de conflitos

  • Projetos de Impacto Social: Hortas comunitárias, compostagem, cuidado com animais, trocas intergeracionais

3. Eixo: Empatia Radical e Convivência Planetária

  • Pedagogia da Empatia (modelo dinamarquês): Literacia emocional, reconhecimento de perspectivas diversas

  • Glissantianidade Pedagógica: Encontros com culturas locais e diaspóricas, relações rizomáticas, direito à opacidade

  • Simbiose como Paradigma: Biologia relacional, interdependência, cuidado como prática política

4. Eixo: Tecnologias como Extensões Poéticas

  • Inteligência Artificial Criativa: Ferramentas de IA como parceiras na criação de histórias, música, solução de problemas

  • Tecnologias Ancestrais: Tecelagem, cerâmica, construção natural junto com impressão 3D e programação básica


  • Crítica Digital Ética: Reflexão sobre algoritmos, privacidade, desinformação desde a infância

5. Eixo: Matemática como Linguagem do Universo

  • Matemática Boleriana: Jogos estratégicos, resolução de problemas reais, padrões na natureza e na cultura

  • Geometria Sensível: Formas na arquitetura, no corpo, nos cosmos

  • Estatística das Emoções: Gráficos de sentimentos, medição de impactos de ações coletivas

6. Eixo: Espiritualidade Laica e Existência Questionante

  • Contemplação Ativa: Momentos de silêncio, observação atenta, conexão com o natural

  • Mitologias como Psicogeografias: Narrativas de diferentes povos sobre origem, transformação, comunidade

  • Práticas de Presença: Respiração consciente, yoga infantil, atenção plena nas atividades cotidianas

7. Eixo: Preparação para os Desafios do Século XXI

  • Clima como Currículo: Educação climática prática, entendimento dos ecossistemas locais

  • Antifascismo na Primeira Infância: Cultivo da democracia radical, valorização da diversidade, crítica às hierarquias naturais

  • Justiça Social Concreta: Projetos de reconhecimento das desigualdades e ações transformadoras

Estrutura Organizacional

Ambiente Físico:

  • Casas-poéticas organizadas em estações de investigação

  • Pátios de risco calculado com elementos naturais

  • Espaços de convivência intercultural com elementos de diversas culturas

  • Jardins de simbiose com plantas nativas e animais não-humanos

Temporalidade:

  • Ritmos circadianos e sazonais como organizadores

  • Projetos de longa duração (2-3 meses) com investigações profundas

  • Momentos diários de comunidade e celebração

Documentação:

  • Portfólios multimodais (digitais e materiais)

  • Diários de bordo coletivos

  • Exposições de processos (não apenas produtos)

Formação de Educadores:

  • Grupos de estudo permanentes com os referenciais teóricos

  • Supervisão clínico-político-pedagógica

  • Residências em contextos culturais diversos

Avaliação como Processo Ético-Estético

  • Narrativas de desenvolvimento (não métricas)

  • Autoavaliação através de linguagens não-verbais

  • Avaliação coletiva do processo grupal

  • Foco na documentação como memória viva

Governança e Políticas Públicas

  • Conselhos de crianças com voz deliberativa

  • Parcerias com universidades, centros culturais, organizações sociais

  • Políticas de acesso universal com atenção às interseccionalidades

  • Formação de redes internacionais de intercâmbio de práticas

Princípios Éticos Finais:

  1. Toda criança tem direito à complexidade

  2. A educação é ato de esperança militante

  3. O brincar é modo de conhecimento do mundo

  4. A diferença é nutriente do coletivo

  5. O futuro se constrói com as mãos no presente

"A casa poética da infância não tem paredes fixas. É tenda nômade, árvore habitada, barco em rio de linguagens. Nela, as crianças aprendem que transformar o mundo começa pelo cuidado com o minúsculo e pelo sonho do impossível."

Este plano é um organismo vivo, que deve se adaptar a cada contexto, ouvindo sempre as crianças como suas principais teóricas e práticas.

O laboratório secreto onde o Google testa o computador mais poderoso do mundo na corrida pela IA quântica

 

Faisal Islam, editor de economia da BBC, durante visita guiada a uma instalação do Google em Santa Barbara
Legenda da foto,O editor de economia da BBC, Faisal Islam, visitou a instalação do Google em Santa Barbara, nos Estados Unidos
    • Author,Faisal Islam
    • Role,Editor de Economia, BBC News
  • Tempo de leitura: 8 min

Parece um enorme lustre dourado e abriga o lugar mais frio do universo conhecido.

O que estou vendo não é apenas o computador mais poderoso do mundo, mas uma tecnologia fundamental para a segurança financeira, o bitcoin (e outras criptomoedas), segredos de Estado, a economia global e muito mais.

computação quântica detém a chave para determinar quais empresas e países vencerão e perderão… o restante do século 21.

Diante de mim, suspenso a cerca de um metro do chão, em uma instalação do Google em Santa Bárbara (EUA), está Willow. Francamente, não era o que eu esperava.

Não há telas nem teclados, muito menos capacetes holográficos ou chips de leitura cerebral.

O Willow é um conjunto de discos circulares do tamanho de um barril de petróleo, conectados por centenas de fios de controle pretos, que descem até um refrigerador de banho de hélio líquido de bronze. O sistema mantém o microchip quântico a um milésimo de grau acima do zero absoluto — a temperatura de 273,15 °C negativos, em que a vibração de átomos e moléculas é paralisada.

A aparência e a sensação remetem aos anos 1980. Mas, se o potencial da computação quântica se concretizar, a estrutura metálica e cheia de cabos à minha frente, semelhante a uma água-viva, poderá transformar o mundo de várias maneiras.

"Bem-vindos ao nosso laboratório de Quantum AI", diz Hartmut Neven, chefe de Quantum AI do Google, ao atravessarmos a porta de alta segurança.

Neven é uma figura quase lendária: parte gênio da tecnologia, parte entusiasta de música eletrônica. Ele se veste como alguém que teria acabado de sair de uma pista de snowboard rumo a um festival de artes e música, como o Burning Man (conhecido festival anual realizado no deserto de Nevada, nos EUA) — evento para o qual, aliás, cria obras de arte. Talvez ele tenha mesmo vindo em um universo paralelo. Mais sobre isso mais adiante.

A sua missão é transformar a física teórica em computadores quânticos funcionais "capazes de resolver problemas que hoje são insolúveis". Ele admite ser parcial, mas afirma que esses "lustres" são os que apresentam melhor desempenho no mundo.

Templo secreto da alta ciência

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Grande parte da nossa conversa gira em torno do que não podemos filmar nesse laboratório restrito. Essa tecnologia estratégica está sujeita a controles de exportação, sigilo e ocupa o centro de uma corrida por supremacia comercial e econômica. Qualquer pequena vantagem, do formato de novos componentes às empresas que integram as cadeias globais de suprimentos, é fonte de alavancagem estratégica.

Há um clima tipicamente californiano nesse templo da alta ciência, perceptível nas cores e nas obras de arte. Cada computador quântico recebe um nome, como Yakushima ou Mendocino; todos são "envelopados" por peças de arte contemporânea, e murais em estilo grafite decoram as paredes, iluminadas pelo sol intenso do inverno.

Neven mostra Willow, o mais recente chip quântico do Google, que atingiu dois marcos importantes. Segundo Neven, o chip encerrou "de uma vez por todas" o debate sobre se computadores quânticos conseguem realizar tarefas que computadores clássicos não conseguem.

O Willow também resolveu, em minutos, um problema usado como referência que levaria 10 septilhões de anos; ou seja, mais de 1 trilhão de trilhões, um número com 25 zeros no final, um período muito superior à idade do universo.

Esse resultado teórico foi aplicado recentemente ao algoritmo Quantum Echoes, impossível para os computadores convencionais, que ajuda a aprender a estrutura de moléculas a partir da mesma tecnologia usada em aparelhos de ressonância magnética.

Neven enumera as formas como acredita que o chip quântico Willow será usado "para ajudar a enfrentar muitos dos problemas que a humanidade tem hoje".

"Ele vai nos permitir descobrir medicamentos de forma mais eficiente", diz. "Vai ajudar a tornar a produção de alimentos mais eficiente, a produzir energia, a transportar energia, a armazenar energia… a enfrentar as mudanças climáticas e a fome."

"Isso nos permite compreender muito melhor a natureza e, a partir daí, desbloquear seus segredos para construir tecnologias que tornem a vida mais agradável para todos nós", afirma.

Alguns pesquisadores acreditam que a verdadeira inteligência artificial só será plenamente possível com a computação quântica.

Integrantes da equipe que trabalha no laboratório receberam recentemente o Prêmio Nobel de Física pelo trabalho original sobre "qubits supercondutores", a base da tecnologia usada ali.

O chip Willow tem 105 qubits. O projeto quântico da Microsoft conta com oito qubits, mas adota uma abordagem diferente. A corrida global é chegar a 1 milhão de qubits para uma "máquina em escala utilitária", capaz de realizar tarefas como química quântica e desenvolvimento de medicamentos sem erros. A tecnologia, no entanto, é frágil.

O computador quântico Willow, do Google, é um conjunto do tamanho de um barril de óleo, formado por discos circulares ligados por centenas de fios pretos de controle, que descem até um tambor de bronze suspenso a cerca de um metro do chão em um laboratório
Legenda da foto,O Willow é um conjunto de discos circulares do tamanho de um barril de petróleo, conectados por centenas de fios de controle pretos, que descem até um refrigerador de banho de hélio líquido de bronze. O sistema mantém o microchip quântico a um milésimo de grau acima do zero absoluto

O que acontece aqui está sendo acompanhado atentamente em todo o mundo. O professor Peter Knight, presidente do conselho estratégico do Programa Nacional de Tecnologias Quânticas do Reino Unido, afirma que o Willow abriu um novo caminho.

"Todas essas máquinas ainda estão, na prática, na fase de modelos de brinquedos; elas cometem erros. Precisam de correção de erros. O Willow foi o primeiro a demonstrar que é possível fazer essa correção, por meio de rodadas repetidas de ajustes, com melhora progressiva", diz.

Isso coloca a tecnologia em uma trajetória para ser escalada até executar com precisão 1 trilhão de operações, possivelmente dentro de sete ou oito anos, em vez das duas décadas que antes se supunham necessárias.

Se o primeiro quarto deste século foi marcado pela ascensão da internet e, depois, da inteligência artificial, os próximos 25 anos tendem a inaugurar a era quântica.

Como funciona?

Imagine tentar encontrar uma bola de tênis em uma entre mil gavetas fechadas. Um computador clássico abre cada uma, em sequência. Um computador quântico abre todas ao mesmo tempo. Ou, de modo semelhante, em vez de precisar de cem chaves para abrir cem portas na computação tradicional, a computação quântica permite abrir as cem com uma única chave, instantaneamente.

Essas máquinas não serão para todos. Não vão encolher a ponto de caber em celulares, óculos de IA ou laptops. O ponto central é que o poder desses computadores cresce de forma exponencial, e todo mundo quer participar.

Perguntei ao CEO da Nvidia, Jensen Huang, se isso representa uma ameaça ao modelo da empresa, baseado no fornecimento de chips especializados para IA. "Não", respondeu. "No futuro, um processador quântico será acrescentado ao computador."

Um dos principais especialistas do Reino Unido destaca o que está em jogo no mundo quântico: o poder potencial de descriptografar quase tudo, de segredos de Estado ao bitcoin.

"Todo o universo das criptomoedas também terá de ser reavaliado por causa da ameaça da computação quântica", afirma Knight, do Programa Nacional de Tecnologias Quânticas do Reino Unido.

Um parceiro de destaque da Nvidia no ano passado disse que, embora o bitcoin ainda tenha alguns anos de margem, a tecnologia precisará migrar para uma blockchain — uma espécie de banco de dados descentralizado que usa criptografia para registrar transações — mais forte até o fim da década.

Fontes do setor de tecnologia usam a expressão Harvest Now, Decrypt Later ("Colher Agora, Decifrar Depois", em tradução livre) para descrever como agências estatais estariam armazenando grandes volumes de dados criptografados, internos e externos, com a expectativa de que gerações futuras consigam acessá-los.

Corrida global

E há também a corrida global. A abordagem da China é muito diferente da disputa comercial observada nos Estados Unidos e outros países do chamado Ocidente.

Segundo Knight, do Programa Nacional de Tecnologias Quânticas do Reino Unido, o volume total de recursos comprometidos com tecnologia quântica na China, cerca de US$ 15 bilhões (aproximadamente R$ 82,7 bilhões), pode equivaler à soma de todos os demais programas governamentais do mundo.

Desde 2022, a China publicou mais artigos científicos sobre computação quântica do que qualquer outro país. Os esforços são liderados pelo físico pioneiro Pan Jianwei e fazem parte central do 14º plano quinquenal de Pequim.

A China decidiu impedir que empresas de tecnologia como Baidu e Alibaba desenvolvessem suas próprias pesquisas em computação quântica, concentrando profissionais e infraestrutura em uma iniciativa estatal. A estratégia chinesa busca vantagem sobretudo em comunicações quânticas e satélites.

No ano passado, Pan desenvolveu e testou o computador quântico Zuchongzhi 3.0, usando tecnologia semelhante, embora com abordagem diferente, à do Willow, e afirmou ter alcançado resultados comparáveis. No outono, o sistema foi aberto para uso comercial. A sensação lembra o Projeto Manhattan da Segunda Guerra Mundial (para vencer a Alemanha no desenvolvimento de armas atômicas) ou a corrida espacial, agora, no século 21.

O Reino Unido é um dos principais polos científicos em pesquisa quântica. Foi um cientista britânico quem realizou os estudos originais sobre qubits supercondutores.

O país abriga dezenas de empresas e pesquisas de ponta, e o governo planeja anunciar investimentos significativos nas próximas semanas. A tecnologia é considerada vital para a economia, o uso militar e a geopolítica, com a ambição de que o Reino Unido se torne a terceira potência nesse campo.

Universos paralelos

De volta ao laboratório do Willow, surgem questões ainda mais existenciais. No ano passado, Neven sugeriu que a velocidade inédita do sistema daria respaldo a algumas teorias sobre a existência de um multiverso. Em linhas gerais, a ideia de que o Willow teria recorrido a universos paralelos para ampliar seu poder de processamento. Nem todos os cientistas concordaram com essa teoria.

"Ainda há um debate intenso", diz ele. "Como você viu na visita ao laboratório, a razão de os computadores quânticos serem tão poderosos é que, em um único ciclo de relógio, eles conseguem acessar 2 das 105 combinações simultaneamente. Isso te faz questionar: onde estão todas essas possibilidades?... Há uma versão da mecânica quântica que pensa nisso, a da formulação de Muitos Mundos [MWF, na sigla em inglês], que fala em universos ou realidades paralelas."

Neven ressalta que o Willow não prova essa hipótese, mas considera que o resultado é "sugestivo o suficiente para levarmos a ideia a sério".

Essa é a fronteira mais avançada do mundo, da tecnologia, do crescimento econômico e do poder global. O governo britânico deve investir centenas de milhões para tentar alcançar o Willow e os avanços chineses. Soa como ficção científica, mas está rapidamente se tornando um fato econômico.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Protestos tomam o Irã na maior demonstração de força da oposição em anos; país tem 'apagão' de internet

 

Imagem de baixa qualidade mostra multidão na rua à noite, em foto tirada de cima

Crédito,Reprodução/X

Legenda da foto,Manifestações continuaram nesta quinta-feira (08/01), um dia após aquele que foi considerado o mais letal nas manifestações segundo a organização IHR
    • Author,David Gritten
    • Role,BBC News
  • Tempo de leitura: 5 min

Multidões estão tomando as ruas da capital Teerã e de outras cidades no que já está sendo considerado a maior demonstração de força dos últimos anos por parte de opositores ao regime clerical que domina o Irã.

Em vídeos publicados nas redes sociais, é possível ouvir manifestantes pedindo a deposição do Líder Supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, e o retorno de Reza Pahlavi, filho exilado do falecido ex-xá, que havia incitado seus apoiadores a irem às ruas.

Imagens de manifestações pacíficas em Teerã e na segunda maior cidade do Irã, Mashhad, na noite desta quinta-feira (08/01), foram verificadas pela BBC Persian.

A agência de monitoramento da internet NetBlocks afirma ter detectado um "apagão nacional" no Irã.

"Métricas em tempo real mostram que o Irã está em meio a um apagão nacional da internet; o incidente ocorre após uma série de medidas crescentes de censura digital contra protestos em todo o país e prejudica o direito da população à comunicação em um momento crítico", diz um comunicado da NetBlocks.

Este foi o 12º dia consecutivo de manifestações, desencadeadas pela indignação com o colapso da moeda iraniana e que logo se transformaram em protestos de insatisfação generalizada com o governo.

Inicialmente, comerciantes foram às ruas de Teerã para expressar sua indignação com mais uma forte queda no valor da moeda iraniana, o rial, em relação ao dólar americano no mercado paralelo.

O rial atingiu uma mínima histórica no último ano e a inflação disparou para 40%, à medida que as sanções impostas pelo programa nuclear iraniano pressionam uma economia já fragilizada pela má gestão governamental e pela corrupção.

Estudantes universitários logo se juntaram aos protestos, que começaram a se espalhar para outras cidades, com multidões frequentemente entoando slogans críticos ao clero à frente do poder no país.

Protestos desde 28 de dezembro já tomaram mais de 100 cidades e vilas em todas as 31 províncias iranianas, segundo grupos de direitos humanos.

A agência de notícias HRANA (Human Rights Activist News Agency), sediada nos EUA, afirmou que pelo menos 34 manifestantes e oito membros das forças de segurança foram mortos, e que outros 2.270 manifestantes foram presos.

A organização Iran Human Rights (IHR), sediada na Noruega, afirmou que pelo menos 45 manifestantes, incluindo oito crianças, foram mortos pelas forças de segurança.

A BBC Persian confirmou as mortes e as identidades de 21 pessoas, enquanto as autoridades iranianas relataram a morte de seis membros das forças de segurança.

Vídeos verificados pela BBC Persian da noite desta quinta-feira mostram uma grande multidão de manifestantes se deslocando ao longo de uma importante avenida em Mashhad, no nordeste do país.

Assista

Legenda do vídeo,Pessoas saíram às ruas para protestar contra situação econômica

É possível ouvir gritos de "Viva o xá" e "Esta é a batalha final! Pahlavi retornará".

Em determinado momento, vários homens são vistos subindo em um viaduto e removendo o que parecem ser câmeras de vigilância.

Outro vídeo mostra uma grande multidão de manifestantes caminhando por uma importante avenida no leste de Teerã, enquanto no norte da cidade um pequeno grupo foi ouvido gritando "Viva o xá" e "Morte ao ditador" — uma referência a Khamenei.

Manifestantes também foram filmados gritando "Viva o xá" em uma praça principal na cidade de Babol, no norte do país.

Reza Pahlavi, cujo pai foi deposto pela Revolução Islâmica de 1979 e vive em Washington D.C., capital dos Estados Unidos, convocou os iranianos a "irem às ruas e, como uma frente unida, gritarem suas reivindicações".

Enquanto isso, a mídia estatal iraniana está minimizando a dimensão dos protestos e, em alguns casos, negando que estejam ocorrendo.

Diversos canais controlados pelo Estado publicaram vídeos de ruas vazias em cidades como Shiraz, Isfahan, Sanandaj e Bushehr, alegando que a situação está normal.

Já ocorrências em Teerã estão sendo descritas como resultado da ação de um pequeno número de "manifestantes violentos".

Quarta-feira violenta

Mais cedo, imagens de Lomar, uma pequena cidade na província ocidental de Ilam, mostraram uma multidão gritando "Canhões, tanques, fogos de artifício, os mulás devem sair" — uma referência ao clero que comanda o país.

Outro vídeo mostra pessoas jogando papéis para o alto em frente a um banco que parecia ter sido invadido.

Há também imagens de lojas fechadas em diversas cidades e vilas predominantemente curdas em Ilam, bem como nas províncias de Kermanshah e Lorestan.

Grupos de oposição curdos exilados convocaram uma greve geral em resposta à repressão violenta aos protestos na região.

Pelo menos 17 manifestantes foram mortos pelas forças de segurança em Ilam, Kermanshah e Lorestan durante os distúrbios, e muitos deles eram membros das minorias étnicas curda ou lor, de acordo com o grupo curdo de direitos humanos Hengaw.

Na quarta-feira, houve confrontos violentos entre manifestantes e forças de segurança em vários locais.

A organização IHR afirmou que foi o dia mais letal dos protestos, com 13 manifestantes mortos em todo o país.

"As evidências mostram que a repressão está se tornando mais violenta e abrangente a cada dia", disse o diretor do grupo, Mahmood Amiry-Moghaddam.

Donald Trump ameaça Irã em caso de mortes de manifestantes

Mulher segura cartaz com foto de Pahlavi que diz: Obrigada Trump, vida longa a Pahlavi'

Crédito,EPA

Legenda da foto,Manifestante em Londres mostra cartaz que diz: 'Obrigada Trump, vida longa a Pahlavi'

Nesta quinta-feira, o presidente dos EUA, Donald Trump, reiterou sua ameaça de intervir militarmente caso as autoridades iranianas matem manifestantes.

"Deixei claro para eles que, se começarem a matar pessoas, o que costumam fazer durante seus protestos — e eles têm muitos protestos —, se fizerem isso, vamos atacá-los com muita força", disse Trump em entrevista ao programa de rádio The Hugh Hewitt Show.

O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, havia pedido anteriormente às forças de segurança que exercessem "máxima contenção" ao lidar com protestos pacíficos.

"Qualquer comportamento violento ou coercitivo deve ser evitado", afirmou um comunicado.

Khamenei, que detém o poder supremo no Irã, disse no sábado que as autoridades deveriam "conversar com os manifestantes", mas que "os arruaceiros devem ser colocados em seus devidos lugares".

Os protestos já são os maiores desde 2022, quando houve grande comoção no país pela morte de Mahsa Amini, uma jovem curda detida pela polícia da moralidade por supostamente não usar o hijab corretamente.

Mais de 550 pessoas foram mortas e 20.000 detidas pelas forças de segurança ao longo de vários meses, segundo grupos de direitos humanos.

Os maiores protestos desde a Revolução Islâmica ocorreram em 2009, quando milhões de iranianos foram às ruas das principais cidades após uma eleição presidencial contestada.

Dezenas de opositores ao regime foram mortos e milhares detidos.