SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

domingo, 14 de junho de 2026

Por que Trump está promovendo um evento de lutas de UFC na Casa Branca?

 

Assentos e o octógono, a estrutura de luta do UFC, que será realizada no próximo evento organizado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, como parte das comemorações do 250º aniversário dos Estados Unidos.

Crédito,AFP via Getty Images

    • Author,Bernd Debusmann Jr.
    • Role,Repórter da BBC News na Casa Branca
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  • Tempo de leitura: 7 min

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assistirá neste domingo (14/06) a uma sequência de lutas de artes marciais mistas (modalidade conhecida pela sigla em inglês MMA, de mixed martial arts) em uma arena construída em plena Casa Branca.

Segundo o republicano, o espetáculo será "o maior show da Terra".

O MMA chegou a ser proibido na maioria dos estados americanos há 30 anos, mas com essas restrições já suspensas há muito tempo, o esporte de combate estará em plena exposição, em um sinal de sua crescente popularidade e influência política.

Realizado pelo Ultimate Fighting Championship (UFC), hoje uma das maiores organizações de MMA do mundo, o evento contará com 14 lutadores, que se enfrentarão nos jardins da residência presidencial.

Entre eles está o brasileiro Alex "Poatan" Pereira, que disputa contra o francês Ciryl Gane o cinturão interino dos pesos-pesados.


Crédito,Bloomberg via Getty Images

O espetáculo foi batizado de UFC Freedom 250 e tem como objetivo comemorar o 250º aniversário do país, celebrando o "espírito lutador americano".

Críticos questionaram se o evento, cuja data coincide com o 80º aniversário de Trump, é uma celebração adequada para a independência dos EUA.

Um grupo de oposição chegou a entrar com um processo na Justiça alegando que se tratava de um "uso indevido e flagrante de nossos monumentos nacionais sagrados".

A magnitude da preparação é proporcional à controvérsia. A estrutura de aço da arena, com 28 metros de altura, alterou completamente a paisagem do gramado sul da Casa Branca.

Ela foi projetada para acomodar cerca de 4 mil espectadores, enquanto outras 85 mil pessoas devem assistir em telões gigantes no Ellipse, um parque localizado nas proximidades.

A imagem de lutadores trocando golpes sob as janelas do Salão Oval não é apenas um evento isolado — é o ápice de uma aliança de um quarto de século.

Para entender como esse esporte chegou ao principal espaço político dos Estados Unidos, é preciso voltar a um período em que tanto o UFC quanto Donald Trump estavam em situações completamente diferentes.

Construção do "Claw" do Ultimate Fighting Championship (UFC) e do octógono no gramado sul da Casa Branca em 11 de junho de 2026, em Washington, DC.

Crédito,Getty Images

A força motriz por trás do evento é a amizade de 25 anos entre Trump e o presidente do UFC, Dana White.

Quando White e seus sócios compraram a organização em dificuldades por US$ 2 milhões (R$ 10,1 milhão) em 2001, o esporte enfrentava forte reação política. Apenas cinco anos antes, o senador republicano John McCain havia declarado que o MMA era "rinha de galos humana", o que levou à proibição da luta em 36 estados.

"Nenhum lugar queria [o UFC]", disse White à CBS, parceira da BBC nos EUA, em 2025.

"Eles não acreditavam nisso. Eles não gostavam e estavam preocupados com o tipo de público que apareceria para esse tipo de evento."

Excluído das arenas tradicionais, White credita a Trump o mérito de ter salvado a organização ao sediar dois eventos do UFC no cassino Trump Taj Mahal em Atlantic City em 2001.

Com a introdução de regulamentações e regras rígidas, além do uso de luvas de proteção, o esporte finalmente se livrou de seu status de ilegal.

A empresa foi vendida por US$ 4 bilhões (R$ 20,2 bilhões) em 2016 e avaliada em US$ 12 bilhões (R$ 60,7 bilhões) em 2023, tornando o evento deste fim de semana no gramado sul da arena uma celebração pessoal para ambos.

Alex Pereira e Ciryl Gane se encaram antes da luta que acontecerá no gramado da Casa Branca

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,O brasileiro Alex Pereira e Ciryl Gane se encaram antes da luta que acontecerá no gramado da Casa Branca

O evento na Casa Branca é uma estratégia calculada para atingir um perfil crucial de eleitores.

A grande maioria dos fãs do UFC são homens com menos de 30 anos — um grupo que apoiou fortemente Trump na última eleição, embora pesquisas recentes sugiram que sua aprovação entre eles tenha diminuído.

Katie Zacharia, ex-porta-voz do Departamento de Segurança Interna e comentarista conservadora, disse à BBC que o evento poderia atrair homens jovens e transmitir uma mensagem de "masculinidade positiva" em resposta ao que ela chamou de "fragilidade introduzida pela extrema esquerda".

Ela também rejeitou as críticas dirigidas ao evento, afirmando que os princípios do UFC "são o tipo de princípios que fundaram nossa República Constitucional".

"Trata-se de não desistir da luta até o fim", disse ela. "Acho que não há melhor resumo do espírito americano do que uma boa luta do UFC."

Dois críticos do evento — um veterano da Guerra do Vietnã residente na Virgínia e um ativista cívico local — tentaram impedi-lo com um processo judicial de última hora, mas um juiz decidiu que ele poderia prosseguir.

O processo, movido pelo escritório de advocacia anticorrupção Public Integrity Project, alegava que o evento era "profundamente corrupto", citando os interesses financeiros de Trump na TKO, empresa controladora do UFC, e seus laços estreitos com White.

"Este é um caso de corrupção", disse Brendan Ballou, fundador do Public Integrity Project, em um comunicado à BBC, citando a venda de pacotes de patrocínio, direitos de transmissão e anúncios na Casa Branca e no Lincoln Memorial.

"A pergunta fundamental que precisamos fazer como país é se queremos usar nossos monumentos nacionais mais sagrados para enriquecer o presidente e seus aliados. Acreditamos que a resposta para essa pergunta se dá por si só."

É sabido que Trump possui ligações financeiras com o UFC, com registros públicos mostrando que ele comprou entre US$ 15 mil e US$ 50 mil (entre R$ 60,7 mil e R$253 mil) em ações da TKO em março deste ano.

Mas a Casa Branca rejeitou qualquer possibilidade de irregularidade, apontando que os bens de Trump estão em um fundo fiduciário administrado por seus filhos e ressaltando que não haveria "conflitos de interesse".

Os lutadores peso-leve do UFC, Mauricio Ruffy e Michael Chandler, se encaram durante a pesagem

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Os lutadores peso-leve do UFC Mauricio Ruffy e Michael Chandler se encaram durante a pesagem

• Custo: O UFC afirma estar investindo US$ 60 milhões (R$ 303,7 milhões) para realizar o evento — incluindo US$ 700 mil (R$3,5 milhões) para restaurar a grama do gramado sul — e não espera obter lucro.

• Lista de convidados: Espera-se que o público na arena seja composto por autoridades governamentais, militares e convidados especiais. O público que se inscreveu para ingressos gratuitos ficará na área reservada aos fãs, um espaço conhecido como Ellipse, localizado em um parque próximo.

• Segurança: As autoridades locais devem gastar entre US$ 10 milhões e US$ 12 milhões (R$ 50,6 milhões a R$ 60,7 milhões) em fundos federais com segurança e fechamento de vias.

• Como assistir: O evento começa no domingo à noite, às 20h (horário de Brasília). Será transmitido exclusivamente pelo Paramount+ nos EUA, serviço administrado por David Ellison, aliado de Trump. No Brasil, a transmissão será no Paramount+ (pay-per-view) a partir das 21h (de Brasília).

• As lutas: Os 14 lutadores serão os primeiros atletas a competir profissionalmente nos jardins da Casa Branca. O grupo, composto exclusivamente por lutadores homens, terá como luta principal Ilia Topuria defendendo seu título de peso-leve contra Justin Gaethje.

Dana White com Donald Trump

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,O presidente do UFC, Dana White, com Donald Trump

Não é incomum que presidentes realizem grandes eventos no gramado sul da Casa Branca, desde feiras rurais a festivais de jazz, além das comemorações anuais do Dia da Independência e da tradicional caça aos ovos de Páscoa — mas a escala e o conteúdo do evento de domingo à noite são bem diferentes.

"Acho que podemos usar a palavra 'sem precedentes' aqui", disse Edward Lengel, ex-historiador-chefe da Associação Histórica da Casa Branca, à BBC.

"Houve muitos episódios diferentes de entretenimento na Casa Branca, mas geralmente eram musicais ou performáticos. Realmente nunca houve nada parecido com isso antes."

O que café de R$ 34 no Reino Unido revela sobre a turbulenta economia global

 

Café servido

Crédito,Getty Images

    • Author,Faisal Islam
    • Role,Editor de Economia da BBC News
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  • Tempo de leitura: 10 min

São 9h na Kew Bridge, no oeste de Londres, e turistas, corredores e pessoas passeando com seus cães fazem fila no carrinho de café italiano vintage Dear Coco.

É um café de alta qualidade feito com grãos arábica, preparado em uma máquina cara La Marzocco — e o preço reflete isso: 4,50 libras (R$ 30) por um café gelado, 4,10 libras (R$ 27) por um latte de 300ml e 3,90 libras (R$ 26) por um café flat white de 300ml.

No passado, esses preços seriam considerados muito altos, mas em grande parte do Reino Unido já é normal se pagar o equivalente a quase R$ 30 em um café — inclusive em cadeias que não usam grãos de alta qualidade. Um café grande no centro de Londres, servido com um leite alternativo, como soja ou amêndoa, está agora mais próximo da marca de 5 libras — ou R$ 34.

No início deste mês, nos EUA, o CEO da Starbucks, Brian Niccol, foi criticado por sugerir que uma “experiência de US$ 9 [R$ 45]” em um de seus pontos de venda era uma “experiência premium realmente acessível”.

O homem que trabalha no carrinho em Kew não concorda. Ele é relativamente sortudo; os carrinhos pagam taxas de comércio ambulante em vez de altos aluguéis e taxas comerciais. Ainda assim, ele sente a pressão.

“Queremos muito manter o preço de um flat white abaixo de 4 libras pelo maior tempo possível”, diz Anthony Duckworth, enquanto os barcos a remo passam.

“Mas está se tornando cada vez mais difícil, porque cada parte da cadeia de suprimentos se tornou mais cara. Achamos que há um limite psicológico muito importante em torno dessa marca de 4 libras.”

O café não é apenas um ritual matinal repetido em todo o mundo: na verdade, é uma visão da economia global moderna. O café com leite revela tudo — desde a inflação de commodities até o caos comercial; de conflitos geopolíticos e mudanças climáticas aos gostos culturais da geração Z. Ele nos ensina sobre a nova demanda crescente da classe média chinesa e os efeitos econômicos duradouros da Guerra do Vietnã.

Está tudo ali, em cada xícara espumosa.

Oscilações no setor

A jornada moderna do café começou em Turim, no norte da Itália, em uma estação ferroviária em 1895. Máquinas de café movidas a vapor foram desenvolvidas para atender viajantes com pouco tempo, muitas vezes no trem expresso de Milão — uma das teorias para o nome "espresso". Foi o início do consumo em massa de uma bebida que originalmente era um luxo.

Perto do anel viário de Turim, em uma estrutura de vidro e aço, converso com Giuseppe Lavazza, cujo bisavô lançou a marca de café Lavazza há 131 anos.

"O segredo para sobreviver é ter uma empresa pronta para se adaptar", ele me diz enquanto segura o que espera ser sua próxima grande inovação: um tablete de café, chamado tabli, que ele espera atender ao crescente mercado de café em casa, sem a necessidade de cápsulas de metal ambientalmente problemáticas.

Giuseppe Lavazza

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Giuseppe Lavazza diz que, apesar dos altos preços, a demanda por café permaneceu resiliente

Nos últimos anos, a sua indústria enfrentou sérios contratempos — afetando os dois grãos de café mais importantes do mundo.

Num extremo do mercado, os grãos arábica, conhecidos pela doçura e aroma, são colhidos à mão em altitudes frias no Brasil, Etiópia e Quénia; é um processo cuidadoso, ainda mais intricado do que a colheita de uvas para o melhor champanhe.

No outro extremo, os grãos robusta, conhecidos pelos elevados níveis de cafeína, são colhidos em massa por máquinas. O Vietnã dominou o mercado de robusta desde que ele surgiu da guerra na década de 1970.

A pressão climática

Há dois anos, uma convergência de eventos climáticos levou o preço de ambos os grãos a máximas em várias décadas.

No início de 2024, o Vietnã sofreu a sua pior seca em décadas (o nível de chuvas caiu em 30%); em seguida, no final do ano passado, um tufão durante a colheita também afetou a produção. E no Brasil, agricultores ainda sofrem para se recuperar de uma geada severa em 2021 que danificou a safra de arábica.

Como resultado, os preços do arábica atingiram no ano passado mais de US$ 4 (R$ 20) por libra de grãos verdes, acima dos cerca de US$ 1,20 (R$ 6) historicamente. Agora os preços se estabilizaram em US$ 3,08 (R$ 15,60). Os grãos robusta subiram ainda mais, alcançando US$ 2,59 (R$ 13,10) antes de se estabilizarem em cerca de US$ 1,56 (R$ 7,90). Ambos os grãos agora custam significativamente mais do que antes de 2020.

Lavazza diz que os últimos anos foram um "período sem precedentes em termos de complexidade e problemas". E diz que os preços dificilmente cairão em breve. "Infelizmente, precisamos esperar pelo menos alguns anos, porque precisamos de duas grandes safras do Brasil e do Vietnã chegando ao mercado que possam criar uma condição de mercado diferente."

A Lavazza também aponta para a especulação nos mercados financeiros.

Todas as manhãs, às 4h30, milhares de produtores vietnamitas de café verificam seus smartphones para ver os preços (e previsões de preços futuros) dos grãos robusta. Isso virou um ritual diário.

E o escritório em Hanói do Serviço Agrícola Externo do governo dos EUA afirma que, com as informações de preços facilmente disponíveis online, muitos agricultores estão optando por armazenar — em vez de vender — seus grãos após a colheita, na esperança de que os preços subam ainda mais.

Essencialmente, eles estão especulando no mercado.

Todos os olhos agora estão na safra de julho no Brasil. Alguns analistas esperam uma colheita abundante de arábica, o que deve pressionar os preços para baixo. Por outro lado, a perspectiva de um "super" El Niño previsto para este outono — um aquecimento do Oceano Pacífico que ocorre a cada poucos anos — pode causar mais turbulência.

E, claro, há ainda outra fonte — essa mais familiar — de perturbação nos mercados de café.

Guerras comerciais

Uma curiosidade das tarifas do "Dia da Libertação" de Donald Trump, anunciadas no ano passado, foi que países produtores de café foram fortemente atingidos.

O Vietnã enfrentou uma tarifa de 46%, a Indonésia de 32% e o Brasil de 50% (após um aumento a partir de 10%).

Isso provocou caos nos mercados globais de café. As exportações brasileiras para os EUA caíram abruptamente, diminuindo mais de metade no verão passado no hemisfério norte. E os preços dos grãos de países com tarifas mais baixas (como a Colômbia) também subiram, à medida que fornecedores americanos correram para importá‑los.

E os consumidores americanos perceberam isso.

Os preços do café torrado nos EUA subiram 17% no ano até março, enquanto o café instantâneo aumentou quase um recorde de 25% — mais rápido do que os preços da gasolina (na verdade, foram o item que mais subiu em toda a cesta de inflação, exceto o combustível para aquecimento).

Um pacote de café moído que custava US$ 4,30 (R$ 21,80) em 2020 já estava em US$ 6,32 (R$ 32) dólares em 2024, e agora está em US$ 9,61 (R$ 48,67) e rumo aos US$ 10 (R$ 50). As formas mais baratas de café foram as mais afetadas, prejudicando os americanos mais pobres.

Donald Trump

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Donald Trump impôs tarifas contra alguns países produtores de café no ano passado — mas depois assinou uma ordem executiva com isenções

As exportações do Brasil foram desviadas para a Europa, com a Alemanha ultrapassando os EUA como maior importador de grãos brasileiros ao longo de 2025, amortecendo em certa medida o impacto para os consumidores europeus.

Com eleitores americanos indignados enfrentando preços mais altos nos supermercados, em novembro do ano passado Trump assinou uma ordem executiva permitindo que grãos de café (junto com outros alimentos como bananas e carne bovina) escapassem de suas tarifas.

Para muitos, o café expôs uma falha na política tarifária da Casa Branca. Trump disse que impôs tarifas contra países que estavam "prejudicando a América" — mas, possivelmente, o domínio do Vietnã na produção de café é simplesmente resultado do que economistas chamam de "vantagem comparativa" (principalmente clima e baixos custos de trabalho), e não de práticas desleais.

Trump também afirmou que tarifas ajudariam a trazer a indústria de volta ao país — mas isso é em grande parte irrelevante no caso do café, que exige clima subtropical.

Foi preciso um colapso das importações e um aumento de preços para que uma lição bastante previsível se tornasse clara.

O caos no transporte marítimo global também desempenha seu papel. Navios transportando esses grãos vietnamitas para a Europa agora precisam contornar o sul da África para evitar a ameaça de militantes houthis no Estreito de Bab al-Mandab, no extremo sul do Mar Vermelho, entre o Iêmen e o Chifre da África. Essa rota é cerca de 6,4 mil km mais longa do que era antes de 2024.

E novas regras da União Europeia contra o desmatamento, previstas para entrar em vigor ao longo de 2026 e 2027, também estão tendo impacto.

Para exportar café para a Europa, fornecedores vietnamitas e brasileiros em breve terão de fornecer as coordenadas GPS de suas plantações. Autoridades da UE usarão imagens de satélite para verificar se os grãos não vêm de áreas que eram floresta nos últimos cinco anos. A política vem sendo adiada repetidamente, mas o custo para os agricultores já está aumentando.

Café 'premium'

Mas aqui está o ponto mais interessante sobre o atual choque do café. Até agora, os consumidores continuam pagando mais. A demanda é o que economistas chamam de inelástica, ou seja, não responde aos sinais de preço.

"Vimos que, apesar dos preços altos, as pessoas adoram tomar café", diz Lavazza, em Turim. "Não vemos nenhuma queda significativa em termos de volume nos principais países."

Em uma era de preços mais altos, ele diz que é importante reconhecer que há "diferentes maneiras de abordar o café" — como aumentar a produção de extração a frio (cold brew), cada vez mais popular.

De forma geral, a crescente popularidade do cold brew entre os jovens pode ser vista como um exemplo de "premiumização", em que empresas tornam seus produtos mais sofisticados para justificar preços mais altos.

Matcha

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,O matcha tem ganhado espaço entre clientes mais jovens

Outro exemplo é a rede anteriormente conhecida como Blank Street Coffee, fundada em Nova York e desenvolvida por ex-investidores de capital de risco. Os baristas, que vendem bebidas elaboradas com temas de frutas e bolos, são incentivados a se conectar com clientes como "embaixadores da marca".

A empresa utiliza essa experiência para justificar preços mais altos.

E algumas cafeterias se tornaram tão sofisticadas que abandonaram o café completamente. Em vez disso, o matcha tem ganhado espaço entre clientes mais jovens. A cor verde‑esmeralda da bebida atraiu a geração do TikTok, e o teor mais suave de cafeína do chá verde em pó agrada consumidores preocupados com a saúde que valorizam um bom sono.

A Blank Street reformulou sua marca no ano passado, retirando a palavra "coffee" do nome e adotando uma tonalidade verde.

E a China está indicando um possível caminho para esse mercado. A Luckin Coffee, fundada em Pequim, disputa com a Starbucks o título de maior rede de café do mundo. A Luckin se desenvolveu como uma empresa de tecnologia, com dados extremamente detalhados sobre como as preferências dos clientes mudam ao longo do dia e conforme o clima.

Clientes se sentam do lado de fora de um café Blank Street Coffee no Soho

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Cadeias de café como a Blank Street adotaram a 'premiumização', vendendo experiência além do café

Eles também sabem exatamente quando os celulares dos clientes estão dentro do alcance de um quiosque. O café é servido de forma personalizada, permitindo escolher níveis de açúcar e proporções entre café e leite, com recomendações acionadas pelo sol ou pela chuva. As lojas não são projetadas para permanência, mas para entrega rápida de café, pedido por aplicativos. A Luckin está se expandindo para os EUA.

E, no outro extremo do mercado, a rede britânica Greggs conseguiu manter preços baixos por meio de automação. A rede usa máquinas suíças bean‑to‑cup para preparar parte do café. Um latte comum custa cerca de 2,40 libras (R$ 16), bem abaixo de outras cafeterias no Reino Unido. Ela é agora a maior rede de café do país, com mais pontos de venda do que a rival Costa.

Em essência, essa é uma história com duas faces.

Por um lado, há um tsunami na cadeia de suprimento — envolvendo problemas climáticos e tensões geopolíticas — pressionando os preços para cima.

Por outro lado, há um público apaixonado por café disposto a pagar os custos extras.

O aumento dos preços das commodities é mais relevante nos supermercados do que nas cafeterias, que agora vendem experiências, e não apenas bebidas.

E os preços devem permanecer elevados, mesmo que as safras no Brasil e no Vietnã se normalizem e o preço do café diminua um pouco.

Esse "latte grande" de R$ 34 pode ter chegado para ficar.