SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O Deus do "Sim": Uma Tríade de Sangue e Poder. Eu digo NÃO! Por Egidio Guerra




Como podemos viver como povo diante de tanta corrupção e violência? Esta pergunta me consome enquanto observo um mundo onde políticos e elites brindam enquanto o povo — seja em Gaza, nos centros de detenção dos EUA ou nas periferias do Brasil — sangra até a morte. Estamos imersos numa guerra declarada contra os pobres, os imigrantes, os palestinos. Uma guerra que não usa apenas bombas, mas também a caneta da lei, a omissão criminosa e a propaganda que transforma assassinos em patriotas. 

Somos testemunhas de uma tríade de horror, onde três governos, com rostos e bandeiras diferentes, se ajoelham ao mesmo Deus do dinheiro e do poder, respondendo "sim" a todas as suas ordens, como o personagem central do filme "Yes" (2025), do diretor israelense Nadav Lapid . 

O "Sim" ao Extermínio: A Palestina de Netanyahu 

O personagem Y, no filme de Lapid, é um artista que, por dinheiro, aceita compor uma nova "canção nacional" para um Israel pós-7 de outubro. A letra que recebe não é uma metáfora, mas um texto real do grupo extremista "Civic Front": "Em um ano não sobrará nada vivo lá / E voltaremos em segurança para nossas casas / Nós os aniquilaremos a todos / E voltaremos a arar nossos campos" . É a poesia do genocídio. E o que vemos na vida real sob o governo de Benjamin Netanyahu é a execução literal dessa letra. 

Os dados são brutais e inegáveis. De acordo com o escritório do governo em Gaza, em apenas dois anos de agressão, o exército israelense despejou mais de 200 mil toneladas de explosivos sobre uma das áreas mais densamente povoadas do planeta . O número de mortos ultrapassou 70 mil palestinos, segundo o Ministério da Saúde local — números considerados confiáveis pela ONU . O Ministério da Saúde de Gaza detalha o horror: mais de 20 mil eram crianças e adolescentes, incluindo 1.015 bebês com menos de um ano . O exército de Netanyahu não distingue combatentes de civis; exterminou 2.700 famílias inteiras, apagando-as do registro civil, e matou 1.670 profissionais de saúde140 socorristas e 254 jornalistas . Apenas a função de documentar o crime e salvar os feridos já é sentença de morte. 

Lapid, com a fúria de quem testemunha a própria pátria se perder, nos mostra um herói que diz "sim" aos oligarcas e generais, que lambe as botas do poder em troca de uma vida confortável . É a mesma elite que, como descrito na crítica da Variety, vive em festas em Tel Aviv enquanto financia a máquina de guerra que transforma Gaza em escombros . E o personagem Y, assim como grande parte do mundo, tenta manter a "neutralidade". Mas o filme nos golpeia com a verdade mais dura: o silêncio e a neutralidade são cúmplices quando o "vizinho" está sendo aniquilado. 

O "Sim" à Deportação e à Morte: O ICE de Trump 

Do outro lado do Atlântico, a máquina de morte muda de nome e de alvo, mas mantém a mesma engrenagem. Nos Estados Unidos, sob a batuta de Donald Trump, o "sim" é dito à deportação em massa e ao encarceramento de imigrantes. Não se trata de cumprir a lei, mas de criar um espetáculo de crueldade. 

O "Immigration and Customs Enforcement" (ICE) tornou-se o braço armado de uma política que vê o imigrante como inimigo. Em 2025, os centros de detenção do ICE registraram o maior número de mortes em duas décadas: pelo menos 30 pessoas morreram sob custódia apenas naquele ano . A American Civil Liberties Union (ACLU) foi cirúrgica em sua análise: até 95% dessas mortes poderiam ter sido evitadas com cuidados médicos adequados . 

O que vemos são pessoas morrendo por "causas naturais" em celas superlotadas, ou por "desconforto súbito", um eufemismo grotesco para a negligência estatal . São haitianos, nicaraguenses, búlgaros — os "indesejáveis" que ousaram sonhar com a prosperidade americana e encontraram a morte em um país que diz ser a "terra da liberdade". A congressista Pramila Jayapal denunciou: "O ICE tem a responsabilidade de cuidar dessas pessoas, mas está claramente ignorando esse dever, e isso é revoltante" . É o Estado que, em vez de acolher, aprisiona e deixa morrer. É o "sim" ao extermínio dos pobres que vieram de longe, a guerra declarada contra aqueles que buscam apenas sobreviver. 

O "Sim" à Ignorância: Bolsonaro e a Pandemia 

No Brasil, o "sim" ao Deus do dinheiro e da morte foi dito por Jair Bolsonaro durante a pandemia de COVID-19. Enquanto o mundo se fechava e a ciência implorava por distanciamento, Bolsonaro chamou o vírus de "gripezinha" e "fantasia", sabotando ativamente as medidas de isolamento e colocando a população em um mortal experimento social . 

Ele dizia "sim" aos empresários que queriam a economia aberta a qualquer custo, e "não" à vida. O governo federal brigou na justiça para derrubar medidas restritivas estaduais, promoveu aglomerações e espalhou desinformação . O resultado? Até março de 2025, o Brasil contabilizava mais de 715 mil mortos pela doença . Em 2025, cinco anos depois do início da crise, o país ainda registrava 13 mortes por dia . 

Os dados mostram que a tragédia poderia ter sido menor. Infectologistas alertam que o risco de morte para um idoso com mais de 85 anos é 340 vezes maior do que para um jovem . E foram justamente os mais velhos, os mais pobres e os vulneravéis que pagaram o preço mais alto pela negligência criminosa de um governo que trocou a ciência pelo negacionismo. Enquanto isso, a elite política e econômica, como sempre, estava a salvo, muitas vezes vacinada às escondidas, enquanto o povo era levado ao cadafalso da ignorância oficial. 

A Guerra Contra os Pobres: Um Único Projeto de Morte 

Ao olharmos para Netanyahu, Trump e Bolsonaro, não vemos três fenômenos isolados, mas faces da mesma moeda cunhada no cinismo e na violência. Todos eles comandaram ou comandam máquinas estatais que usam seu poder militar ou policial para dizimar populações vulneráveis. 

Em Gaza, o poder militar arrasa prédios e soterra famílias inteiras. Nos EUA, a força policial e burocrática do ICE tranca e abandona imigrantes em celas. No Brasil, o poderio da desinformação presidencial condenou milhões à morte por um vírus que a ciência já sabia como combater. 

Em todas essas tragédias, encontramos o mesmo padrão: a corrupção da moral. Uma corrupção que não é apenas financeira, mas é a podridão da alma que permite a um político trocar vidas por poder. Como aponta um estudo acadêmico, a corrupção — o abuso do poder governamental para benefício pessoal — é um dos principais fatores que geram violência, insegurança e conflitos internos, aumentando a ira e a insatisfação popular até o ponto de ruptura . 

É exatamente isso que vemos. A elite que financia as festas em Tel Aviv e os mísseis sobre Gaza é a mesma que financia campanhas nos EUA e no Brasil. Eles sorriem. Eles brindam. Eles dizem "sim" uns aos outros. E nós? Nós soterrados, nós detidos, nós entubados, nós esquecidos. 

Construindo Caminhos em Outra Direção 

Nós devemos, com razão e amor a vida, construir juntos caminhos em outra direção. E essa é a nossa única esperança. A crítica de Nadav Lapid em "Yes" não é niilista; ela é um chamado às armas da consciência. Ao mostrar um homem que se perde por dizer "sim" ao poder, ele nos convoca a dizer "NÃO". Um "não" tão alto e estridente quanto o barulho das bombas. 

O personagem Y, no deserto, diante da fumaça negra que encobre a Palestina, é confrontado pela culpa e pela história. Nós também estamos no deserto da indiferença global. Mas podemos escolher não ser como ele. Podemos nos recusar a lamber as botas dos poderosos. 

Construir outro caminho é denunciar os 67.139 mortos em Gaza e os 9.500 desaparecidos sob os escombros . É lembrar que o número de mortos palestinos é pelo menos 58 vezes maior que o das vítimas israelenses do 7 de outubro, e que essa "proporção" é a assinatura de um genocídio. 

Construir outro caminho é gritar contra os 30 mortos nos centros do ICE em um único ano . É repetir que 95% dessas vidas poderiam ter sido salvas . 

Construir outro caminho é não esquecer os 715 mil brasileiros que se foram, muitos deles vítimas de um governo que escolheu a economia em detrimento da vida . É honrar a memória da diarista Rosana Urbano, a primeira vítima, e de todos os outros que vieram depois, com o compromisso inabalável com a ciência e a solidariedade . 

Viver como povo em meio a tanta corrupção e violência é um ato de resistência diária. É olhar para esses políticos entregues ao Deus do mal e do dinheiro e dizer: nós não nos curvaremos. Nós lembraremos. Nós resistiremos. E, principalmente, nós construiremos, nos escombros deixados por vocês, um mundo onde o "sim" seja dito apenas à vida, à justiça e ao amor. Um mundo onde o povo não chore e morra, mas viva e floresça. Essa é a nossa guerra. E é a única que vale a pena ser vencida.