Na noite de 19 de dezembro de 1985, um grupo de jovens brancos perseguiu e espancou três homens negros em Howard Beach, no Queens, matando um deles. O caso chocou Nova York, mas não a surpreendeu. Quatro anos depois, um fiscal federal chamado Rudolph Giuliani prendia chefes da máfia em manchetes globais, um promotor público obscuro chamado Al Sharpton liderava protestos televisionados, um incorporador imobiliário endividado chamado Donald Trump comprava anúncios de página inteira exigindo a volta da pena de morte, e o cineasta Spike Lee lançava Faça a Coisa Certa — um filme que a própria imprensa temeu que incitasse rebeliões raciais.
Nova York, escreve o jornalista Jonathan Mahler em *The Gods of New York: Egotists, Idealists, Opportunists, and the Birth of the Modern City: 1986-1990*, era "uma coisa" no início de 1986; seria "algo muito diferente" quando 1989 terminasse. O que aconteceu nesses quatro anos não foi apenas uma sequência de crises. Foi, nas palavras de Mahler, o parto violento da cidade que conhecemos hoje — uma metrópole onde a riqueza financeira convive com a pobreza estrutural, onde o ativismo de base enfrenta a demagogia midiática, e onde a própria ideia de uma "cultura cívica" comum foi estilhaçada.
Abaixo, exploramos a arquitetura desse livro ambicioso, as personalidades titânicas que o habitam, as controvérsias que ele gerou e o legado inquietante que permanece.
Resumo da Obra: Quatro Anos que Estilhaçaram uma Cidade
Mahler, colunista do The New York Times Magazine e autor do aclamado Ladies and Gentlemen, the Bronx Is Burning, opera aqui em uma escala maior. Se seu livro anterior cobriu um único verão (1977), este abrange quatro anos — do auge da euforia de Wall Street à quebra da Bolsa em 1987, dos primeiros casos de AIDS ao nascimento do ACT UP, dos espancamentos raciais no Queens ao verão racial de 1989. A estrutura é cronológica, dividida em capítulos por ano (1986, 1987, 1988, 1989), mas o coração do livro é uma teia de narrativas concorrentes que Mahler entrelaça com a destreza de um romancista.
A tese central é provocativa: Nova York entrou em 1986 como uma cidade renascida, com lucros recordes em Wall Street transformando Manhattan em um parque de diversões para os ricos. Mas também entrou em 1986 como uma cidade à beira do colapso. Quase um terço dos residentes negros e hispânicos viviam abaixo da linha da pobreza. Milhares dormiam nas ruas — viciados em crack, morrendo de AIDS, sofrendo de doenças mentais não tratadas. Os empregos industriais que sustentaram a classe média por gerações haviam desaparecido.
Mahler argumenta que os quatro anos seguintes não resolveram essas contradições — pelo contrário, as transformaram em abismos. E o fizeram através de uma galeria de personagens "superdimensionados e inesquecíveis" que competiam para moldar o futuro da cidade enquanto construíam suas próprias mitologias.
O Panteão dos Deuses: Ego, Ambição e a Criação de Mitos
O título do livro não é acidental. Mahler não está apenas catalogando figuras públicas; está descrevendo um processo de deificação midiática — a transformação de homens e mulheres falíveis em símbolos maiores que a vida, para o bem e para o mal.
Ed Koch (O Rei Lear das Cinco Pontas) — No centro do caos está o prefeito de três mandatos, cuja famosa pergunta "How'm I doin'?" (Como estou indo?) recebia respostas cada vez mais hostis à medida que seu terceiro mandato avançava. Mahler retrata Koch como uma figura trágica: um liberal que governava com retórica divisiva, um populista que desprezava os pobres, um judeu que alienava eleitores negros. Sua "polarização racial" ameaçava obscurecer as conquistas reais de seus doze anos no cargo, incluindo o maior programa habitacional da história da cidade — um feito que, como veremos, recebe atenção surpreendentemente escassa no livro.
Donald Trump (O Ídolo Branco) — Em 1986, Trump era um incorporador de 40 anos, endividado até o pescoço, mas dono de um talento sobrenatural para atrair holofotes. Mahler documenta como sua "habilidade de atrair atenção da mídia ofuscava suas modestas realizações imobiliárias". O ponto de virada, segundo o autor, foi o caso do Central Park Five, em abril de 1989 — quando cinco adolescentes negros e latinos foram presos pelo estupro de uma corredora branca. Trump comprou anúncios de página inteira em quatro jornais de Nova York exigindo o retorno da pena de morte. O gesto, escreve Mahler, transformou Trump no "id branco da cidade" — o porta-voz irresponsável do medo e da raiva brancos.
Al Sharpton (O Oportunista e o Ativista) — Nenhuma figura no livro é mais ambígua que Sharpton. Mahler o descreve como "ativista e oportunista", um "personagem maior que a vida cuja análise ocasionalmente lúcida do racismo e da brutalidade policial era obscurecida por sua demagogia e autopromoção". Durante o caso Tawana Brawley — uma adolescente negra que alegou falsamente ter sido estuprada por policiais brancos — Sharpton liderou a acusação pública contra as autoridades, promovendo alegações "demonstravelmente falsas". Para seus críticos, ele era um charlatão; para seus seguidores, uma voz necessária em uma cidade que se recusava a ouvir.
Rudy Giuliani (O Promotor que se Tornou Demagogo) — Em 1986, Giuliani era o fiscal federal que prendia chefes da máfia e processava corruptos de Wall Street. Mahler documenta como ele "mostrou promessa inicial" antes de sucumbir aos excessos de seu ofício: vazamentos para a imprensa, violações do devido processo legal e, eventualmente, "retórica racista que inflamou o público". O livro antecipa a tragédia shakespeariana de Giuliani — o herói da lei que se tornaria o arquiteto da polícia brutal e, décadas depois, uma figura patética vendendo teorias da conspiração.
Larry Kramer e o ACT UP (Os Profetas da Raiva) — Em meio a essa galeria de egos, Mahler reserva espaço para um tipo diferente de herói: os ativistas da AIDS que, diante da indiferença do governo Reagan e da estigmatização social, fundaram a Coalizão de Ativistas pela Liberação de Pessoas com AIDS (ACT UP). Kramer emerge como uma "figura incendiária" cuja raiva era tão necessária quanto desagradável. O movimento que ele ajudou a fundar usou táticas de confronto direto — invasões da Bolsa de Valores, correntes humanas em frente à Casa Branca — para forçar uma resposta federal à epidemia.
O Caldeirão de Crises: Raça, Violência e a Fragmentação da Cidade
Mahler argumenta que esses quatro anos foram definidos não por uma crise, mas por crises concorrentes que se alimentavam mutuamente.
A Violência Racial — O livro dedica atenção especial a dois assassinatos que chocaram a cidade: o de Michael Griffith, de 23 anos, perseguido e atropelado em Howard Beach (1986); e o de Yusef Hawkins, de 16 anos, baleado por uma gangue de brancos no Brooklyn (1989). Esses casos, escreve Mahler, "escancararam a ferida racial que a retórica da 'Nova York renascida' tentava esconder".
O Crack e a Guerra às Drogas — A epidemia de crack transformou bairros inteiros em zonas de guerra não declarada. Mahler documenta como o pânico midiático em torno do crack — uma droga associada a usuários negros e pobres — alimentou um endurecimento penal que prefigurou as políticas de "tolerância zero" de Giuliani na década seguinte.
A AIDS e a Indiferença Oficial — Em 1986, mais de 12.000 nova-iorquinos haviam morrido de AIDS. O governo Reagan ainda não havia pronunciado a palavra em um discurso público. Mahler mostra como a epidemia revelou não apenas a homofobia institucional, mas a falência de um sistema de saúde que abandonava os mais vulneráveis — e como, paradoxalmente, essa negligência gerou o movimento ativista mais eficaz da história americana recente.
As Manchetes e a Máquina de Fogo — Um protagonista invisível do livro são os tabloides de Nova York — o Daily News, o New York Post, o Newsday — descritos como "prontos para derramar gasolina em cada fogo". Mahler documenta como a competição feroz entre esses jornais transformou tragédias humanas em espetáculos de audiência, inflamando tensões raciais e elevando figuras como Trump e Sharpton a proporções míticas.
O Estilo Narrativo: Um Romance com Personagens Reais
Os críticos são unânimes em elogiar a prosa de Mahler. A Publishers Weekly descreve o livro como "expansivo, mas acelerado", uma "história astuta e propulsiva". O All About History elogia como as "figuras históricas saltam da página", com o autor dedicando tempo para estabelecer seus backgrounds e personalidades. Mesmo quando Mahler se permite digressões longas, observa o mesmo crítico, "os desvios resultantes são tão agradáveis que seria mesquinho reclamar".
Mahler, escreve o Shelf Awareness, adota uma "abordagem de romancista" para o material, entrelaçando múltiplas narrativas e desenvolvendo personagens que são "quixotescos, auto engrandecedores, carismáticos e vingativos, frequentemente tudo ao mesmo tempo". O resultado é um livro de não-ficção que lê como um épico — uma Bíblia dos anos 1980 em Nova York.
Críticas e Controvérsias: O Que o Livro Ignora
Apesar da aclamação generalizada — o livro foi nomeado Editors' Choice do New York Times Book Review e elogiado pelo ganhador do Pulitzer Jonathan Eig como uma "obra de história essencial, profundamente reportada e brilhantemente observada" — uma crítica significativa emerge, particularmente da crítica especializada e de veteranos da política nova-iorquina.
A Crítica Central: A Política e a Economia Invisíveis
Neil Barsky, ex-repórter do New York Daily News e diretor do documentário Koch (2012), publicou uma longa análise no Vital City que se tornou a referência para as críticas ao livro. Seu argumento é cortante:
"Mahler acerta Nova York e ama Nova York. Mas ao ignorar virtualmente as forças econômicas e políticas que impulsionavam a cidade ('é a economia, estúpido'), The Gods of New York falha em explicar como Nova York se recuperou do caos para se reafirmar como uma capital mundial."
Barsky aponta omissões específicas e surpreendentes:
O Programa Habitacional de Koch — O programa de 10 anos e US$ 5,1 bilhões que construiu ou reformou 250.000 unidades habitacionais recebe "apenas uma menção passageira" no livro inteiro. Barsky cita o lendário jornalista Wayne Barrett, do Village Voice, que comparou o programa habitacional de Koch à "construção das pirâmides".
A Revitalização da Times Square — Um dos maiores projetos de reurbanização urbana da história americana — que transformou a Times Square de um pornô-zona em um parque temático familiar — "não é mencionado nem uma vez".
A Retenção de Empresas — Os "esforços exaustivos" da administração Koch para reter corporações que ameaçavam fugir da cidade — e assim preservar a base tributária que financiava serviços públicos — são completamente ignorados.
Para Barsky, a consequência dessa omissão é grave: o livro sugere que a Nova York moderna nasceu apenas do caos, quando na verdade nasceu tanto do caos quanto de uma "construção silenciosa" de políticas públicas que estabilizaram bairros, atraíram investimentos e reduziram o crime a longo prazo.
A Crítica da Nostalgia Seletiva: Trump é Superdimensionado?
Outra crítica, expressa pelo blog History Nerds United, questiona a decisão de Mahler de fazer de Trump um dos três "pilares" do livro — ao lado da AIDS e das relações raciais. O revisor argumenta que "Trump parece enfiado à força" na narrativa:
"Sim, ele era um grande player na cidade na época, mas, no final das contas, ele é tangencial a todo o resto do livro. Até mesmo suas seções curtas frequentemente têm mais a ver com Atlantic City do que com Nova York... Este não é o primeiro livro ultimamente que parece adicionar Trump para chamar atenção, não porque ele seja vital para a história que está sendo contada."
O Tratamento de Sharpton: Muito Suave?
O mesmo revisor sugere que Mahler "passa fácil demais com Al Sharpton", embora reconheça que "isso pode ser apenas eu". A crítica ecoa uma tensão mais ampla: Sharpton permanece uma figura polarizadora, e alguns leitores podem sentir que Mahler não condena suas ações no caso Tawana Brawley com o vigor que esperariam.
O Legado: O Que Sobrou dos Deuses
A força do livro, ironicamente, não está em sua análise da política pública (onde Barsky demonstra que é deficiente), mas em seu retrato do momento em que a cultura cívica comum morreu — e foi substituída por uma cultura de celebridade, escândalo e demagogia midiática.
Mahler escreve em seu epílogo: "A grande cidade da classe trabalhadora havia desaparecido, e com ela qualquer expectativa realista de que pudesse ser unificada por uma única cultura cívica". Barsky discorda dessa conclusão ("Nova York sempre foi uma cidade de tribos lutando para coexistir"), mas a frase captura algo real sobre o espírito da época que o livro documenta.
O destino dos "deuses" que Mahler retrata é, em si, uma história sobre a decadência da própria ideia de liderança urbana:
Ed Koch morreu em 2013, sua reputação manchada por sua retórica divisiva, mas suas conquistas habitacionais esquecidas.
Donald Trump — que em 1986 era um "azarão endividado" — "devolveu-se de uma queridinha relativamente inofensiva dos tabloides a uma força maligna de dimensões globais".
Rudy Giuliani é agora "uma figura patética vendendo teorias da conspiração enquanto enfrenta seus problemas legais".
Al Sharpton "amoleceu", tornando-se uma figura respeitada na política convencional.
A máfia está "diminuída", e a divisão racial, embora ainda profunda, parece "menos pronunciada hoje do que era então".
Mas o que permanece, sugere Mahler, é a própria lógica dos deuses — a ideia de que a política é um esporte de celebridades, que a indignação é uma moeda, que a raiva vende mais jornais do que a esperança. O livro termina em 1990, com a posse de David Dinkins, o primeiro prefeito negro de Nova York — uma "figura simpática" que Mahler descreve como "um dos prefeitos mais subestimados da cidade". A escolha de Dinkins sobre Giuliani em 1989 representou, por um breve momento, a possibilidade de uma política diferente: conciliadora, paciente, institucional. Foi uma promessa que durou apenas quatro anos.
Conclusão: Uma História Que Precisa de um Segundo Volume
The Gods of New York é um triunfo da narrativa histórica e uma leitura compulsória para qualquer pessoa fascinada pela interseção entre celebridade, crise e poder urbano. Mahler escreve com uma energia que faz justiça ao caos de sua matéria-prima, transformando quatro anos de manchetes em um épico sobre a fragilidade da civilidade e a sedução do autoritarismo midiático.
No entanto, como a crítica de Barsky demonstra, o livro é também um estudo de caso sobre os limites da "história de personalidades". Ao focar nos deuses — seus egos, suas rivalidades, suas quedas — Mahler corre o risco de tornar invisíveis as forças estruturais que realmente transformaram Nova York: as políticas habitacionais, as decisões de zoneamento, os investimentos em infraestrutura, a lenta e ingrata construção de instituições que, décadas depois, ainda sustentam a cidade.
O leitor ideal deste livro, talvez, não é o especialista em políticas urbanas, mas o fã de dramas shakespearianos. The Gods of New York é Júlio César ambientado nos tabloides — uma história sobre o momento em que uma república se desfez porque seus cidadãos preferiram acreditar em deuses falsos. E como na peça de Shakespeare, a lição final não é sobre os deuses que caíram, mas sobre o vazio que eles abandonaram.