SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

O Cálculo Imperfeito da Humanidade: Entre Lucros e Fomes

 



Há um abismo entre o mundo dos números e o mundo dos corpos famintos. Enquanto trilhões digitais dançam no ciberespaço financeiro — um capital sem lastro, sem suor, sem terra —, bilhões de seres humanos ainda lutam pelo essencial: pão, água, dignidade. As teorias econômicas, tantas vezes, tornaram-se elegantes álgebras da alienação, esquecendo que a economia deveria ser, antes de tudo, o cuidado da casa comum.

Schumpeter nos falou da “destruição criativa”, o furacão da inovação que varre o velho para dar lugar ao novo. Mas e quando essa destruição atinge não apenas máquinas obsoletas, mas vidas humanas? Quando a inovação tecnológica serve para acumular riqueza em poucas mãos, enquanto soluções sociais básicas — saneamento, alimentação, habitação digna — permanecem como problemas arcaicos? A inovação tem limites éticos: não pode ser um fetiche quando há fome.

Keynes já alertava: o mercado, sozinho, não garante o pleno emprego nem o bem-estar social. É preciso a mão visível do Estado, orientada pelo interesse coletivo. Amartya Sen ampliou o horizonte: desenvolvimento não é apenas crescimento do PIB, é expansão das liberdades reais das pessoas — saúde, educação, capacidade de escolha. Stiglitz desnudou a hipocrisia da globalização assimétrica, que enriquece corporações e empobrece nações. Piketty escancarou a matemática perversa: quando o rendimento do capital supera o crescimento econômico, a desigualdade se torna inevitável, herdada, estrutural.

E os bancos? Ah, os bancos! A Escola de Zurique, entre outras correntes pós-crise de 2008, tenta resgatar sua função social primordial: não cassinos de derivativos, mas instrumentos de financiamento de longo prazo, de projetos que constroem sociedades, não apenas dividendos. Onde estão os bancos que financiam a transição ecológica, a agricultura regenerativa, as cooperativas populares?

A história nos deu espelhos terríveis: a fome na Rússia stalinista e na China maoísta, onde projetos “socialistas” viraram máquinas de opressão e miséria, beneficiando nomenklaturas vorazes. O Leste Europeu sufocado pela burocracia cinzenta. A América Latina, tantas vezes refém do populismo de direita ou de esquerda, que promete atalhos e entrega apenas a perpetuação das elites — sejam oligarquias tradicionais ou novas boliburguesias. A globalização prometeu convergência, mas aprofundou o fosso. O neoliberalismo pregou liberdade, mas forjou novas cadeias.

E os bilionários filantropos? Suas doações, ainda que úteis, não substituem justiça estrutural. É a diferença entre esmola e direito. Entre caridade e equidade.

Então, qual o caminho?

Não há fórmulas mágicas, mas há direções, exigentes e complexas:

  1. Reenraizamento na economia real: Taxar severamente transações financeiras especulativas. Criar moedas locais e sistemas de crédito lastreados em produção comunitária. Reduzir o poder do sistema de juros compostos, essa usura moderna que concentra riqueza exponencialmente.

  2. Inovação com direção social: Direcionar pesquisa e desenvolvimento (P&D) para necessidades essenciais — medicina preventiva, agroecologia, energias renováveis descentralizadas. Inovação social como prioridade política.

  3. Democracia radical e participativa: Não apenas no voto, mas na economia. Cooperativas, empresas autogestionárias, orçamentos participativos que decidam investimentos públicos. Combater a corrupção com transparência radical e controle social.

  4. Transição Ecológica Justa: Superar a pobreza dentro dos limites planetários exige abandonar o dogma do crescimento infinito. Adotar modelos de prosperidade sem crescimento material — economia circular, bem-estar baseado em tempo livre, comunidade e saúde ecológica, não em consumo.

  5. Autodeterminação dos povos: Respeitar sabedorias locais, economias indígenas, modos de vida tradicionais que já sabem viver em equilíbrio. Apoiar, não impor.

A superação da pobreza não virá de salvadores iluminados — nem bilionários, nem ditadores —, mas da auto-organização popular, do fortalecimento de tecidos sociais baseados na confiança e na reciprocidade. É um caminho de coragem para enfrentar os poderes constituídos. De sabedoria para aprender com os erros do socialismo real e do capitalismo selvagem. De amor político, aquele que Hannah Arendt via como a força para cuidar do mundo comum.

A verdadeira Liberdade, Igualdade e Fraternidade não foram apenas derrotadas por armas; foram sequestradas pelo cálculo egoísta, pela gança disfarçada de racionalidade econômica. Recuperá-las exige mais que revolta: exige uma revolução cotidiana, paciente e obstinada, que coloque a vida — humana e não-humana — no centro de todas as equações.

É possível. Há uma esperança teimosa, brotando nas fissuras do sistema: nas comunidades que revitalizam rios, nas mulheres que criam bancos de sementes, nos jovens que recusam o consumismo vazio. Eles estão reescrevendo a economia, não com fórmulas abstratas, mas com as mãos na terra e no futuro. Essa é a poesia concreta da transformação. Gaia vence os que acham que são Deuses do capital, da corrupção e das brutais violências como guerras e outras.







 

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

MUSICAL IMPEACHIMENT TRUMP CANTADO POR SANDERS E ZOHRAN!




(Vozes baixas, batidas graves, um violoncelo inquieto. A LUZ se acende sobre um grupo vestido como os Pais Fundadores, mas com roupas rasgadas e sujas de sangue e lama. Eles são a ALMA DA DEMOCRACIA. Ao centro, um orador, com o rosto pintado de preto e branco, como um mártir da Revolução.)

ALMA DA DEMOCRACIA (em uníssono, grave):
Um, dois, três, quatro…
Quantos crimes cabem num só mandato?
Cinco, seis, sete, oito…
O povo acorda, ou dorme no relato?

(A música explode. Entra, em passos arrogantes, a FIGURA DO DITADOR. Não é Trump, mas uma caricatura grotesca de sua sombra: terno dourado, coroa de tweets falsos. Ele canta com voz áspera, autotune distorcido.)

DITADOR (Sombra de Trump):
Yo, eu sou o homem que o sistema não pegou!
Fiz a América Grande™ e o mundo tremeu!
Construí muros, assinei cheques, eu sou o deal!
E se eles perderem, o impeachment vem, tô te dizendo!
Sou o rei do capítulo onze, mestre da falência!
Agora vou à falência moral da nação, é minha ciência!

(O Ditador ri. As ALMAS DA DEMOCRACIA formam um semicírculo, apontando para ele.)

ALMA 1 (Mulher, com uma toga rasgada):
Trinta e sete acusações! Não é inveja, é estatística!
Fraude fiscal, segredos em caixas, essa arte trágica!
Espólio de documentos sagrados, como um pirata à deriva!
A Justiça é lenta, mas a conta chega, na história que se escreva!

ALMA 2 (Homem, com uma bandeira americana em farrapos):
O Capitólio não é um reality show!
Foi um ataque à casa do Povo!
Insurreição ao vivo e a cores, incitando a turba!
O Artigo II, Seção 4, grita: “É alta traição que turva!”

(O Ditador faz gestos obscenos.)

DITADOR:
Fake News! Witch Hunt! Eles querem minha pele!
Foi um passeio turístico, uma festa legítima e fiel!

ALMA 3 (Com traços indígenas):
Tu apoias a invasão, a violação da terra alheia!
Palestina sob escombros, Venezuela sob peleja!
A ONU? Uma piada. A lei internacional? Um detalhe.
O Artigo I, poder do Congresso para a guerra, tu rasgas e não vale!

ALMA 4 (Com um martelo de juiz):
Tarifas ilegais? Um presente de jato dos sheiks?
O caso Epstein, voos e ilhas, que mistérios sinistros?
Negócios do filho, conflitos de interesse, um enriquece ilícito!
A Emoluments Clause, tu cuspiste no seu preceito!

(A música fica caótica, com samples de discursos de Trump: “I could stand in the middle of Fifth Avenue and shoot somebody…”, “Grab ’em by the pussy…”)

ALMA DA DEMOCRACIA (em coro):
Ele ataca Califórnia! (Fogo!)
Nova York! (Peste!)
Chicago! (Caos!)
Estados que o rejeitam, ele corta o auxílio, solta a fera!
Declarações sobre a Groenlândia – quer comprar uma terra inteira?
México paga o muro! Colômbia, Brasil, são “bananas” na sua era!

ALMA 5 (Imigrante, com as mãos algemadas):
Separação de famílias! Gaiolas! Um “shithole” de nações!
Tu violas o devido processo, a dignidade, as nossas razões!
A Estátua da Liberdade chora, e seu facho se apaga!
Enquanto tu cospes no sonho do cansado, do pobre, da saga!

(A figura de MUSK, espectral, aparece em uma projeção.)

PROJEÇÃO DE MUSK (em sample digital):
“Ele é um risco! Um cara que não deveria ter poder!”
Até o barão da tech, que flerta com o caos, quis se mover!
Quando o deus do foguete teme o seu reator…
É o sinal de que o ego virou um ditador!

DITADOR (agora defensivo, raivoso):
São todos ingratos! Inimigos! Losers! A mídia é lixo!
Eu sou o seu punho! Eu sou o seu vingador!
A lei é para fracos! A Constituição? Um obstáculo, um atraso!
(“So much winning” até não poder mais… de um país em pedaços!)

(As ALMAS avançam. A música para subitamente. Fica só o som de um coração batendo – o coração da República.)

ALMA 1 (sussurrando, mas ecoando):
Teu império foi de vidro, de dívidas e bluff.
O “The Art of the Deal” era a arte de enganar.
Teu pai te ensinou: “Seja killer”, sem escrúpulos, truque.
Transformaste a Casa Branca em um casino em chamas.
Mas a casa sempre cai para quem joga com as regras da trapaça.

ALMA DA DEMOCRACIA (crescendo, como uma maré):
Nós somos o Preâmbulo. Nós, o “We the People”.
Nós somos as emendas. O freio. O contrapeso.
Nós somos os Federalist Papers, que tu nunca leu.
Somos a voz que não se cala pelo Twitter que tu apagas.
Somos os votos que tu questionas. Somos a paz que tu ameaças.

ALMA 2:
Não é sobre esquerda ou direita! É sobre tirania ou Lei!
É sobre um homem que pensa que o Estado é sua LLC!
Que troca a liberdade por aplausos de uma seita enfurecida!
Que vende o futuro por uma horda, uma mentira, uma vida!

(A música retorna, triunfal e revolucionária, como em “Yorktown”).

TODOS:
Então ergue-se o manifesto! Não de um herói, mas da Nação!
Contra o déspota de plantão, essa perversa distorção!
O impeachment não é vingança! É a cura! A purgação!
É o povo relembrando: AQUI, TODO PODER TEM LIMITAÇÃO!

(O Ditador tenta falar, mas seu microfone corta. Ele é envolto por documentos judiciais, fitas de áudio de “Access Hollywood”, bandeiras amarelas de alerta. As ALMAS viram as costas.)

ALMA 3 (para a plateia, direto):
A história tem os olhos em você. O que vai contar?
De um povo que dormiu, ou que soube se levantar?
O roteiro não está escrito. O musical está em seu final.
E o prêmio não é um Tony. É o futuro, ideal, fundamental.

(Batida final, seca. Escuridão. O som do papel da Constituição sendo aberto.)






LEGIÃO URBANA - T R I B U T O - SE FIQUEI ESPERANDO MEU AMOR PASSAR


 




A Noite - Tiê e João Gomes

 


'Depois da Venezuela, Trump vai tentar influenciar eleições no Brasil, mas pode prejudicar a direita', diz especialista americano.

 

Presidente dos EUA Donld Trump sentado ao lado de presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva durante encontro bilateral na cúpula da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean) realizada em outubro de 2025 em Kuala Lumpur, na Malásia

Crédito,ANDREW CABALLERO-REYNOLDS/AFP via Getty Images

Legenda da foto,"O único que é grande o suficiente (na América Latina) para parar Trump e dizer 'chega' aos EUA é o Brasil", diz Erick Langer, professor de história na Universidade de Georgetown, em Washington
    • Author,Marcia Carmo
    • Role,De Buenos Aires para a BBC News Brasil
  • Tempo de leitura: 13 min

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vai continuar "se metendo" nos países da América Latina depois da operação militar que resultou na prisão de Nicolás Maduro, no último sábado (3/1).

Mas as ações de Trump não serão iguais para todos porque cada país tem um peso global e uma conjuntura interna diferentes.

A avaliação é de Erick Langer, professor de história na Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos.

Em entrevista à BBC News Brasil, o professor diz que "Trump quer criar uma colônia econômica na Venezuela", com foco na extração de petróleo por empresas dos Estados Unidos.

"Os Estados Unidos querem transformar a Venezuela em um país dependente do próprio Estados Unidos, através do petróleo venezuelano. Tudo indica que, para Trump, não importa o regime que esteja lá na Venezuela. Ou seja, a ditadura chavista pode continuar, mudando apenas de nome, e com o mesmo sofrimento do povo venezuelano", diz Langer, que foi diretor do Centro Latino-Americano da Universidade de Georgetown e é casado com uma venezuelana.

O especialista avalia que a operação americana que deteve Maduro contou com o apoio de integrantes da cúpula do chavismo, como Delcy Rodríguez, vice-presidente do país nomeada presidente interina da Venezuela.

"Acho que Delcy Rodríguez e Diosdado Cabello [um dos quadros fortes do chavismo] fizeram um acordo e traíram Maduro...para ficar com o poder", afirmou à BBC News Brasil.

Em contrapartida, Rodríguez teria sido apoiada por Washington em detrimento de María Corina Machado, líder da oposição venezuelana.

"[Trump] não quer a María Corina porque ela não é tão manipulável como Delcy Rodríguez apesar de, claramente, María Corina também querer abrir o mercado para empresas de petróleo de fora", avalia o professor.

Langer também acredita que Trump passará a pressionar o México para que não ajude Cuba, porque seu objetivo é "estrangular ainda mais" a economia cubana.

Segundo o especialista, o presidente dos Estados Unidos quer dominar todo "o hemisfério americano" e buscará influenciar as eleições presidenciais brasileiras neste ano.

"Mas vai acabar prejudicando a direita porque o nacionalismo falará mais forte", pontua.

"O Brasil é o grande contrapeso" contra as investidas de Trump, acrescenta.

A seguir, os principais pontos da entrevista.

Erick Langer sorrindo para foto

Crédito,Divulgação

Legenda da foto,'A Venezuela é o país mais urbano da América Latina. O problema agora é que Trump quer estabelecer uma colônia econômica, e isso não é tão fácil'
Pule Whatsapp! e continue lendo
BBC Brasil no WhatsAp
No WhatsApp

Agora você pode receber as notícias da BBC News Brasil no seu celular.

Clique para se inscrever

Fim do Whatsapp!

BBC News Brasil - Qual é a sua opinião sobre a retirada de Maduro da Venezuela e sobre as declarações de Trump de que vai governar ("run") o país e abrir as portas para as petrolíferas dos Estados Unidos?

Erick Langer - Foi bom que tiraram o ditador. Mas, em primeiro lugar, não há um plano para o retorno da democracia. E isso combina com Trump, porque Trump não está a favor da democracia nem nos Estados Unidos.

Acho que o que ele quer fazer é criar uma colônia econômica na Venezuela. Porque o que ele disse, na verdade, é que Delcy Rodríguez "tem que me obedecer ou vou invadir e fazer o que for.."

[Frase do entrevistado, como se estivesse falando no lugar de Trump. Em entrevista à revista americana The Atlantic, publicada no domingo (4/1), Trump ameaçou tomar medidas contra Rodriguez, caso ela não seguisse os planos de Washington. "Se ela não fizer o que é certo, pagará um preço muito alto, provavelmente maior do que Maduro", disse o republicano à revista].

Isso é coisa de mafiosos.

Acho falso o Trump dizer que roubaram o petróleo dos Estados Unidos. Ou argumentar que a Venezuela não pagou... Mas o petróleo continua sendo da Venezuela. O que existe é um contrato que pode não ter sido cumprido.

[A Venezuela realizou a nacionalização do petróleo em 1976, criando a estatal PDVSA. Durante o governo de Hugo Chávez, a medida foi ampliada com a promulgação de uma lei, em maio de 2007, que determinou o controle nacional na produção da zona do Orinoco, onde existe uma das maiores concentrações de petróleo do planeta. A maioria das empresas estrangeiras que exploravam petróleo ali teria aceitado fazer um acordo com o governo Chávez, ficando como sócias minoritárias do Estado venezuelano. Mas as empresas americanas ExxonMobil e ConocoPhilips decidiram deixar o país sul-americano e cobraram compensações financeiras pelas consequências da nacionalização.]

Mas isso é muito diferente. Evidentemente, Trump não sabe muito de história, porque não sabemos se ele se refere à nacionalização dos anos 1970 ou se faz referência aos contratos posteriores durante o chavismo, quando foi feito um contrato e sabemos que só foi paga uma parte.

Quer dizer que a Venezuela deve ainda certo dinheiro a estas companhias. Então, é bom que Maduro tenha saído, mas o problema é que o chavismo continua.

Entendo que Trump não queira colocar María Corina no poder porque ela tem o apoio dos venezuelanos.

Ela, então, tem muito mais possibilidade de ação porque tem o apoio do povo venezuelano.

Delcy Rodríguez não tem esse respaldo. E ela depende da máfia chavista...

BBC News Brasil - Ou dos Estados Unidos...

Erick Langer - Exato. Vai depender dos Estados Unidos, mas é o povo, realmente, o dono do que está debaixo da terra [petróleo], não os Estados Unidos.

Ou seja, [Trump] não quer a María Corina porque ela não é tão manipulável como Delcy Rodríguez apesar de, claramente, María Corina também querer abrir o mercado para empresas de petróleo de fora e etc...

BBC News Brasil - O senhor falou em "colônia". Por quê?

Erick Langer - Porque os Estados Unidos querem transformar a Venezuela em um país dependente dos Estados Unidos, através do petróleo venezuelano.

Tudo indica que, para Trump, não importa o regime que esteja lá na Venezuela.

Ou seja, a ditadura chavista pode continuar, mudando apenas de nome, e com o mesmo sofrimento do povo venezuelano.

É o que podemos ler de tudo o que Trump disse até agora.

Mas Trump não se expressa muito bem, o que deixa mais difícil entender o que vai acontecer a partir de agora.

Mas acho que o acordo é assim: se vocês não nos derem o que queremos, que é o petróleo, voltaremos a atacar novamente.

Todo o demais fica igual, porque ele disse que não haverá presença norte-americana [no país caribenho]. Que os Estados Unidos vão administrar a Venezuela, mas sem seu pessoal na Venezuela. Algo difícil de se fazer.

Suponho que ele vá fazer isso através dos próprios chavistas [que estão no governo]. Ou seja, os chavistas têm um campo amplo para fazer o que estão fazendo desde que mandem petróleo para os Estados Unidos.

Hoje mesmo [domingo, 04/01, à noite], depois do sequestro de Maduro, a situação politica não mudou.

O chavismo continua no poder. O Exército [venezuelano] parece continuar na mesma linha e com seus arranjos de corrupção. Com o que existe há tempos nas Forças Armadas de Venezuela. Ou seja, as únicas mudanças que ocorreram foram: Maduro não está mais na Venezuela, agora está nos Estados Unidos.

Os venezuelanos que moram na Venezuela estão confusos, não sabem o que fazer...

Eu acho que o que María Corina deveria fazer é mobilizar as pessoas e assumir o poder, com a parte do Exército que não quer continuar com isso....

Maduro e esposa caminhando com uniformes de presidiários e de braços dados com 3 agentes de segurança

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Maduro e a esposa foram levados ao tribunal, em Nova York, nesta segunda-feira (5/1)

BBC News Brasil - Com Edmundo González ou sem Edmundo González [candidato da oposição, apoiado por María Corina, que disputou as eleições presidenciais contra Maduro em 2024]?

Erick Langer - Obviamente, não sou conselheiro de María Corina e não sei o que ela vai fazer.

Mas o que eu faria, no lugar dela, seria chamar manifestações e assumir a Presidência... Porque com María Corina na presidência, Trump não voltaria a invadir a Venezuela.

Mas aos Estados Unidos não interessa, neste momento, ter um governo legítimo na Venezuela. O objetivo é pegar o petróleo e ter um país supostamente amigo, pelo menos na cúpula, e o restante não interessa....

No meu entender, e aqui estou especulando, os Estados Unidos não parecem querer uma democracia.

Uma democracia significa que haverá voto também sobre o que acontecerá com o petróleo.

María Corina Machado sorrindo em pé em cima de trio elétrico, com multidão atrás

Crédito,AFP

Legenda da foto,Para professor americano, apoio popular a María Corina Machado torna ela 'menos manipulável' pelos EUA

BBC News Brasil - O senhor acha que o que acontece na Venezuela gera incerteza também nos outros países da nossa região?

Erick Langer - Claro que sim. Os Estados Unidos são agora o inimigo, o que pode mudar situações... Mas existe uma grande diferença.

À exceção de Nicarágua e de Cuba, não há nenhum governo que não tenha o respaldo popular.

Quer dizer que todos os demais foram eleitos democraticamente e tirá-los seria muito mais difícil.

Por exemplo, Trump citou Petro [Gustavo Petro, presidente da Colômbia, a quem Trump já atacou em diversas ocasiões], especificamente, e até usando uma expressão vulgar.

Se ele quiser tirar Petro, até pode ser, mas a Colômbia viraria um caos.

A Colômbia tem um histórico, muita experiência de guerrilha... Seria mais difícil uma ação militar dos Estados Unidos. Na Venezuela, é outra situação.

BBC News Brasil - O senhor acha que Cuba passou a ficar ainda mais na mira dos Estados Unidos?

Erick Langer - Isso é o que Marco Rubio [secretário de Estado dos EUA, equivalente a um ministro das Relações Exteriores] adoraria. Marco Rubio é...

BBC News Brasil- Ele é de família cubana...

Erick Langer- De cubanos que chegaram nos Estados Unidos antes que Fidel Castro tomasse o poder. Rubio se sente muito identificado [com suas raízes cubanas].

Sim, acho que é uma possibilidade, mas tenho certeza que a resistência militar cubana seria mil vezes maior que na Venezuela.

Na verdade, na Venezuela, acho que Delcy Rodríguez e Diosdado Cabello [um dos quadros fortes do chavismo] fizeram um acordo e traíram Maduro.

BBC News Brasil - Pela recompensa que os Estados Unidos ofereceram de US$ 50 milhões por informações sobre o paradeiro de Maduro?

Erick Langer - Não acho que foi pela recompensa. Mas para ficar com o poder. Eles já têm dinheiro suficiente. E fica claro que neste acordo [para a "entrega" de Maduro] que o combinado era que María Corina não assumisse o poder.

Acho que este foi um dos motivos para que María Corina e Edmundo González não assumissem a Presidência, como deveria ter sido.

BBC News Brasil - Cuba recebe hoje ajuda da Venezuela, do México e da China, que tem investimentos no país, por exemplo, na área de energia limpa. Na sua visão, o que poderia estar nos planos dos Estados Unidos [para Cuba]? Uma ação como a que foi feita na Venezuela para a retirada de Maduro?

Erick Langer - Acho que não. Mas sim um estrangulamento econômico ainda maior por parte dos Estados Unidos.

O que de fato vai acontecer é uma pressão ainda maior contra o México para que não substitua a Venezuela [na ajuda dada a Cuba] porque, nos últimos tempos, o México tem enviado petróleo para Cuba porque a Venezuela não pode, porque não tem produção suficiente.

Ou seja, agora [os Estados Unidos] aumentarão a pressão contra Claudia Sheinbaum [presidente do México] para que ela não mande mais petróleo para Cuba, para que a crise cubana seja ainda pior, arrochando ainda mais o regime comunista cubano.

BBC News Brasil- O senhor concorda que Trump está buscando ter maior influência e poder no hemisfério americano desde que retornou em janeiro à Casa Branca? Porque foi a partir daquele momento que ele passou a olhar mais para o continente e especialmente para a América do Sul.

Erick Langer - Acho que a visão de Trump é em termos de esfera de poder, como tinha Hitler, por exemplo. [A ideia de que] "essa parte de terra é minha".

Já a Rússia pode fazer o que quiser [na disputa] pela Ucrânia, que os chineses tenham a Ásia e não tem problema, enquanto nós [dos EUA] ficamos com todo o hemisfério americano.

Trump discursando no microfone, com olhar sério

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,'Tudo indica que, para Trump, não importa o regime que esteja lá na Venezuela', diz Erick Langer

BBC News Brasil- Qual o papel do Brasil nesta conjuntura? O presidente Lula condenou a ação dos Estados Unidos na Venezuela e vinha mantendo diálogo com Trump, nos últimos tempos, depois do tarifaço imposto aos produtos brasileiros. O Brasil é o maior país da América Latina, mas não conseguiu desencorajar a ação dos Estados Unidos na Venezuela. Qual é sua visão?

Erick Langer - O Brasil é o grande contrapeso contra Trump. Claro que ele lamenta que Bolsonaro tenha sido preso. Mas o Brasil tem um papel muito importante.

Desde Obama, com Lula, principalmente, o Brasil passou a responder pela América do Sul.

Mas isso agora mudou porque Trump não vai permitir que isto ocorra, como fizeram Obama e Biden [Barack Obama e Joe Biden, ex-presidentes democratas dos EUA].

BBC News Brasil– Há muita preocupação regional. Qual é a sua expectativa em relação ao que pode acontecer na Venezuela e nos demais países da América do Sul?

Erick Langer - É sempre difícil prever o futuro. Mas o fato é que Trump mudou o cenário que existia desde a Guerra Fria. Isso significa se meter cada vez mais e mais na América Latina, no Oriente Médio, voltando-se agora para a China...

Acho que isso vai prejudicar os próprios americanos, se continuar assim.

E não convém, de nenhuma maneira, para a América Latina, porque com o objetivo de explorar os recursos econômicos...

Mas existe um fator essencial que é a China. É preciso ver como a China vai reagir.

Hoje, a China é o principal sócio econômico da maioria dos países da América Latina e não tem como ir contra a nova doutrina Trump ou "donroe" [uma combinação do nome de Donald Trump com a doutrina Monroe, que defendia a primazia dos EUA no continente americano].

Porque o que a China fez, de forma inteligente, foi atuar na área econômica, comercial e não na área militar... E sabendo muito bem que não tinha condições de competir com os Estados Unidos em termos de poder.

O teste é a Venezuela, porque a China tem investimentos na Venezuela.

O que vai acontecer com estas companhias chinesas quando Trump disser "o petróleo é nosso", "para nossas companhias"?

Vamos ver como esta relação [entre EUA e China] ficará [depois da operação militar americana na Venezuela].

Só se a China disser: "Ok, vocês ficam com a Venezuela, mas nós pegamos Taiwan".

BBC News Brasil - O que está em jogo é um novo desenho geopolítico....

Erick Langer- Sim, uma nova estrutura econômica no mundo inteiro. Com estas ações na Venezuela, as primeiras peças [do novo desenho geopolítico] já estão em movimento.

BBC News Brasil - O senhor citou a doutrina Monroe. É possível fazer algum paralelo entre o que aconteceu com Maduro e o que ocorreu com o ex-presidente da Venezuela Cipriano Castro (1858-1924), que foi deposto e morreu no exílio, e em seu lugar assumiu seu vice?

Erick Langer- A diferença é que Juan Vicente Gómez [que tomou o poder de Cipriano Castro] pôde consolidar seu poder rapidamente, sob um regime que também não foi muito popular.

Mas era outro contexto, porque Venezuela é hoje, economicamente, outro país.

A Venezuela foi um país democrático durante cinquenta anos, e antes de [Cipriano] Castro e Gómez, não foi. Era uma oligarquia no poder.

Então, toda a situação de como se governa um país e a legitimidade popular necessária agora, com essa complexidade das sociedades atuais, é bem diferente do que se viveu no século 19, quando a Venezuela era um país principalmente rural, dependia do café, do cacau, da carne....

BBC News Brasil - Agora é o petróleo.

Erick Langer - Sim e a Venezuela é o país mais urbano da América Latina. O problema agora é que Trump quer estabelecer uma colônia econômica, e isso não é tão fácil.

Mas um eventual acordo de Trump com os chavistas [que ficaram na cúpula de Caracas] não é sustentável no longo prazo.

Os venezuelanos não vão permitir isso, e o mais provável é que acabem ocorrendo novas eleições...

BBC News Brasil - Muitas incertezas.

Erick Langer- O chavismo ainda tem o apoio de cerca de 20%, 30% da população.

Na verdade, não se sabe exatamente. Muitos dos que nas últimas eleições votaram pelos chavistas foram obrigados a votar neles. Sei porque tenho conhecidos na Venezuela.

Delcy Rodríguez gesticulando enquanto discursa no microfone

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Delcy Rodríguez foi nomeada presidente interina; para entrevistado, houve 'traição' por parte da cúpula chavista a Maduro

BBC News Brasil - Neste ano, 2026, serão realizadas eleições no Peru, na Colômbia, no Brasil, no Haiti e na Costa Rica. Depois do que ocorreu na Venezuela, Trump poderá buscar influenciar nestes pleitos — como a oposição em Honduras, por exemplo, diz ter ocorrido na eleição recente no país?

Erick Langer - Tenho certeza de que Trump vai se meter, quando puder. Mas acho que os povos não se deixam vender. Mas claro que temos que pensar no que aconteceu com Milei [Javier Milei, presidente da Argentina, nas eleições legislativas de outubro passado], quando os Estados Unidos anunciaram ajuda de US$ 20 bilhões.

Não entendo muito bem por que os argentinos votaram como votaram [ampliando a participação da base governista de Milei no Congresso].

Acho que o eleitorado não via alternativas porque o peronismo está muito desgastado para boa parte da população do país. No caso do Peru, acho que a classe política não tem muita presença popular...

Mas no Peru a economia funciona bem, apesar da instabilidade política já tradicional — porque os presidentes costumam durar pouco tempo no cargo, além de perderem a popularidade rapidamente.

BBC News Brasil - No Peru, existe uma espécie de divórcio entre o caminhar da economia e o que ocorre na cúpula da política, com quedas seguidas de presidentes...

Erick Langer - Exato. Já na Colômbia, é outro cenário. A divisão entre direita e esquerda é proporcionalmente quase igual. Quem vai ganhar e como vai ganhar a eleição presidencial, não sei, porque depende do papel de Petro, e acho que as opiniões estão muito divididas.

BBC News Brasil - E em relação às eleições no Brasil? Na sua opinião, pode ocorrer alguma forma de influência de Trump?

Erick Langer – Com certeza. Não tenho a menor dúvida. E acho que a interferência dos Estados Unidos na vida política brasileira não vai favorecer os partidos da direita, porque isto servirá como arma para o nacionalismo dos demais.

E claro que, se Lula continuar sendo forte e se continuar assim, muito contido com o que aconteceu na Venezuela — porque, na verdade, foi muito contido —, esta calma continuará sendo uma potência contra [a direita].

O único que é grande o suficiente para parar [Trump] e dizer "chega" aos Estados Unidos é o Brasil.