SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

O pacto que uniu Brasil e outros países sul-americanos contra 'subversivos'

 

Retrato oficial de Prudente de Morais. Governo do Brasil/ Domínio Público

Crédito,Governo do Brasil/ Domínio Público

Legenda da foto,O presidente brasileiro Prudente de Morais foi vítima de um atentado em 1897
    • Author,Edison Veiga
    • Role,De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
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Jovens e controladas por oligarquias, as repúblicas sul-americanas na virada do século 19 para o 20 ainda pisavam em ovos buscando uma estabilidade.

Em 1897, um militante do partido de oposição assassinou o presidente do Uruguai Juan Idiarte Borda (1844-1897). No mesmo ano, o presidente brasileiro Prudente de Morais (1841-1902) foi vítima de um atentado. Ele sobreviveu ao episódio.

O clima político na região começava a ficar mais tumultuado com a chegada daquilo que se convencionou chamar de "novas ideias" — uma ideologia de esquerda, principalmente ligadas ao anarquismo, que muitos dos imigrantes italianos, espanhóis e portugueses que se instalaram na América Latina naquele época trouxeram consigo.

Em 1905, um anarquista catalão tentou matar o então presidente argentino, Manuel Quintana (1835-1906). No ano seguinte, seu sucessor, José Figueroa Alcorta (1860-1931) também sobreviveria a uma emboscada anarquista.

Para o historiador e jornalista Rômulo Dias, professor de política internacional no Espaço Zeitgeist e autor do podcast ZGCast, a vinda maciça dos imigrantes, munidos de ideologias diversas, acabou sendo o ingrediente que faltava para a instabilidade política na região.

"Na Argentina a coisa fica mais pesada. As ideias anarquistas se traduzem em tentativas concretas de assassinatos", pontua.

Parafraseando a definição do chanceler alemão Otto von Bismarck (1815-1898) para a complexa situação da região europeia dos balcãs — onde eclodiria em 1914 a 1ª Guerra Mundial —, a conjuntura política antevia um barril de pólvora sendo estocado nos porões da América do Sul.

Para os que ocupavam o poder, era preciso fazer algo. Instabilidade, afinal, é a maior inimiga da manutenção do status quo. A solução veio por meio de um acordo regional de cooperação. Em 21 de janeiro de 1906, Brasil, Argentina e Uruguai assinaram o Pacto Policial Contra o Anarquismo.

Marco histórico da união dos países

O tratado, contudo, era consequência de discussões que haviam avançado muito no ano anterior entre os três governos sul-americanos. Em outubro de 1905, Buenos Aires sediou a chamada Conferência Interpolicial, na qual autoridades das nações do continente discutiram convênios de ajuda mútua e intercâmbio de tecnologias como trabalhos de datiloscopia e maneiras mais eficientes de registrar, em documentos de identidade, suas populações.

Segundo Dias, a conferência buscou "cientifizar" as polícias e conectá-las. O principal objetivo era combater os crimes políticos.

O encontro é considerado pioneiro no sentido de uma cooperação regional.

"A convocação dessa conferência vem neste contexto, pós-tentativa de assassinato do presidente argentino, na tentativa de unir as forças policiais e pensar como combater esses criminosos transnacionais, como blindar esses países do Cone Sul do impacto político e social das novas ideias que começam a circular com mais força", contextualiza Dias.

Pesquisador no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), o cientista político e jurista Enrique Natalino pontua que, no início do século 20, esses países sul-americanos tinham um contexto em comum: ao mesmo tempo em que fortaleciam institucionalmente seus Estados, buscando uma estabilização política, buscavam reprimir insurgências populares que pudessem ameaçar a dita ordem social.

"Havia na sociedade uma certa inquietação", analisa ele. "E a elite política se preocupava quanto a possíveis ameaças."

"O acordo de cooperação policial deve ser visto, em primeiro lugar como o primeiro marco de cooperação transnacional dentro do Cone Sul, que posteriormente vai avançar em 1915 para o Tratado ABC [pacto de inteligência política e arbitramento assinado entre Argentina, Brasil e Chile], de apoio recíproco na América do Sul", pontua Natalino.

Juan Borda, em foto de 1895, feita por John Fitz-Patrick

Crédito,Domínio Público

Legenda da foto,Em 1897, um militante do partido de oposição assassinou o presidente uruguaio Juan Idiarte Borda

Para o pesquisador, "em termos políticos" estava ali o que seria, mais tarde, o atual Mercado Comum do Sul, o bloco Mercosul — organização intergovernamental regional sul-americana fundada em 1991.

"O pacto foi a consolidação de algo que já havia se iniciado no final do século 19 entre as polícias, principalmente do Brasil e da Argentina, também com contatos entre Uruguai e Chile", contextualiza o historiador Victor Missiato, pesquisador no Instituto Presbiteriano Mackenzie. Em seu doutorado, defendido na Universidade Estadual Paulista, ele estudou comparativamente as esquerdas brasileira e chilena.

"O acordo formalizou diversas conversas que já vinham sendo estabelecidas no combate não apenas à [vista como] ameaça anarquista mas também às primeiras manifestações de trabalhadores que vinham ganhando espaço", pontua Missiato.

O historiador define tais movimentos como "protossocialistas". E explica que tais ideologias eram vistas, pelas autoridades, como "ameaça pública ao Estado e à ordem social".

Professor na Universidade São Judas Tadeu e editor do blog Fora da Cadência — sobre política internacional — o jurista Luís Fernando Baracho comenta que em tempos de "sistema de controle precários", era comum que alguém procurado pela polícia mudasse para o país vizinho e, assim, seguisse a vida normalmente. "Foi constatada a necessidade de cooperação. Este é o contexto da conferência", explica. "O convênio [firmado] era para que as autoridade trocassem informações, comunicassem umas com as outras."

Missiato explica que a ação policial passou ser mais efetiva principalmente em zonas portuárias, buscando identificar a chegada de potenciais lideranças de movimentos sociais.

Contexto histórico

"O contexto europeu entre 1890 e 1915 tinha uma profusão de movimentos de insatisfação, ora articulados e defendidos por intelectuais, ora efetivamente incorporados por populares", comenta Baracho. "Eram de diversos cortes ideológicos, […] desde os de emancipação nacional até os que reivindicavam melhores condições de trabalho. Alguns pacíficos, outros violentos."

"Inevitavelmente essas tensões, de alguma maneira, se projetaram para o continente americano, por conta da grande massa migratória oriunda da Europa", salienta ele.

Segundo o professor, havia já um estigma na maneira como autoridades rotulavam esses imigrantes. Eram chamados de "estrangeiros perigosos", "delinquentes viajantes" ou mesmo de "anarquistas viajantes".

Como resposta, houve iniciativas no âmbito legal. "Vários países passaram a legislar sobre como lidar com a questão do estrangeiro", pontua Baracho.

"Era necessário ter algum controle, pela parte policial, pela parte da segurança. A ideia era 'eu aceito esse imigrante que vem para cá, mas não quero que junto com essas pessoas venham indivíduos indesejados, os criminosos'", diz o jurista.

Claro que o conceito de criminoso era bastante amplo. Contemplava desde o bandido que praticava crimes comuns até mesmo aquele visto como "arruaceiro político". Os militantes eram vistos como aqueles que de alguma forma, afinal, podiam colocar em risco a ideia de segurança pública. Eram uma ameaça à chamada "ordem social".

Manuel Quintana, em foto de autor desconhecido feita em 1905.

Crédito,Archivo General de la Nación Argentina/ Domínio Público

Legenda da foto,Em 1905, um anarquista catalão tentou matar o então presidente argentino, Manuel Quintana

Em 1902, a Argentina criou uma lei sobre a questão. No Brasil, a primeira norma do tipo é de 1907 e ganhou a alcunha de Lei Adolfo Gordo — em alusão ao proponente, o senador paulista Adolfo da Silva Gordo (1858-1929).

Estabelecia a expulsão de indivíduos estrangeiros que, por quaisquer motivos, comprometessem "a segurança nacional ou a tranquilidade pública". O foco eram os movimentos sociais que começavam a pipocar sobretudo nos meios urbanos, naquela ainda incipiente industrialização.

"A ideia era reprimir qualquer tipo de agitação interna no sentido de ameaçar a ordem pública", diz Natalino. "As duas leis buscavam a mesma coisa: deportar elementos vistos como subversivos."

"Estamos falando de um momento em que o ambiente político era muito limitante a respeito das ideologias que eram aceitas como legítimas no mercado eleitoral democrático", ressalva Baracho. "As ideologias consideradas 'perigosas', as 'de esquerda', eram então ilícitas."

"Cada um dos países tinha sua oligarquia no poder. E essas oligarquias não estavam preocupadas com democracia. Queriam manter a vulnerabilidade social e a precariedade da cidadania. Nesse contexto, o encontro das forças policiais buscava impedir que o poder dessas oligarquias fosse ameaçado", diz Dias.

Barão do Rio Branco, em foto oficial de quando era ministro das Relações Exteriores.

Crédito,Domínio Público

Legenda da foto,José Paranhos Júnior (1845-1912), o Barão do Rio Branco, foi fundamental para cooperação entre países

No Brasil, o plano de cooperação policial fazia parte da agenda do Ministério da Justiça e Negócios Interiores, capitaneado pelo jurista José Joaquim Seabra (1855-1942). Mas quem realmente articulou as relações no aspecto macro, conta Baracho, foi a figura basilar da diplomacia brasileira, o advogado, geógrafo, historiador e diplomata José Paranhos Júnior (1845-1912), o Barão do Rio Branco. Como ministro das Relações Exteriores, costurou as tratativas entre os governos.

"Ele tinha um olhar muito próprio para a América do Sul", explica Baracho. "Queria tornar a região um espaço de liderança geopolítica brasileira, mas sem antagonizar com a Argentina, evitando a ingerência de potências globais, normalizando as políticas e resolvendo, com diplomacia, as questões de fronteiras."

Baracho lembra que uma eventual "desordem" na América do Sul poderia ser usada como justificativa por potências estrangeiras para um controle territorial. Era tudo o que Paranhos buscava evitar.

Urbanização e "cordão sanitário"

Outro fator que contribuiu para esse panorama de instabilidade foi um fenômeno paralelo à chegada maciça dos imigrantes: a urbanização. Era, afinal, cenário novo o experimentado na vida das grandes cidades.

"A presença cotidiana de multidões circulando pelas ruas e bairros das cidades era uma novidade crescente em cidades latino-americanas, como Buenos Aires e São Paulo", diz o historiador Paulo Henrique Martinez, professor na Universidade Estadual Paulista.

"Rostos, idiomas, vestimentas e comportamentos coletivos geravam insegurança e pânico nas elites econômicas e sociais. O temor da multidão enfurecida, de suas palavras de ordem, reuniões, passeatas, manifestações, assombrou os padrões de ordem e de disciplina moral e social, impostos aos locais, jornadas e condições de trabalho", afirma o historiador.

Martinez diz também que indivíduos indisciplinados e rebeldes "sempre são vistos e apontados como prenúncio do mal, do caos e da subversão de valores e de hierarquias sociais".

"Como controlar essa gente, reunida numa massa disforme, movente e insatisfeita? Desde então, a vigilância e a punição sistemática instalaram-se em corações e mentes dos donos da terra, do poder e da riqueza. A repressão, a violência e a tortura tornaram-se instrumentos políticos na manutenção de privilégios econômicos e sociais", comenta o historiador.

José Alcorta, em foto de 1910, autor desconhecido.

Crédito,Domínio Público

Legenda da foto,Em 1906, o presidente argentino José Figueroa Alcorta sobreviveu a uma emboscada anarquista

Martinez lembra que, desde a Proclamação da República, havia no Brasil movimentações de trabalhadores vistas "como ameaças aos rendimentos" da economia.

"Os trabalhadores em transportes ferroviários, nas indústrias, nos portos, por exemplo, tinham consciência de sua relevância no fluxo das atividades que movimentavam a economia e os lucros alcançados com a sua rotina e expansão. Aos donos do poder a autonomia do trabalho surgia como ameaça, risco e prejuízo aos empresários industriais e de serviços", exemplifica.

"Esta indisciplina e rebeldia era apontada como resultado da ação individual e coletiva de lideranças portadoras de ideias e críticas às condições de vida e de trabalho nos centros urbanos e bairros industriais", acrescenta o historiador.

A presença cada vez maior de estrangeiros era entendida como um elemento que aumentava essas movimentações.

"O pacto policial visava basicamente a impedir que dirigentes sindicais e políticos, independentes de orientação anarquista e socialista, prosseguissem em atividade quando, perseguidos e banidos em um país, passavam ao país vizinho", sintetiza.

"A meta era estender um 'cordão sanitário' que impedisse a agitação trabalhista e popular diante da pobreza, da exploração e das péssimas condições de vida", relembra.

Operação Condor

Se alguns veem essa ideia de união transnacional entre países sul-americanos como embrião político do Mercosul, o que parece consenso entre os pesquisadores é o paralelo com outra aliança internacional que vigorou no continente — e também tinha os movimentos de esquerda como alvo.

A partir de 1975, quando os países sul-americanos viviam sob governos ditatoriais de direita, vigorou a chamada Operação Condor, um pacto de atuação conjunta dos órgãos repressores de Brasil, Chile, Argentina, Bolívia e Uruguai, com intercâmbio de informações entre seus órgãos de inteligência e repressão política, sob financiamento dos Estados Unidos.

"É uma conexão possível: tanto o pacto [de 1906] quanto a Operação Condor foram tentativas de transanacionalização da vigilância, embora em contextos e com motivações distintas", analisa Dias.

"Foi uma troca de informações e de tecnologias em termos de tortura, práticas de perseguição e até mesmo de burocracias para controle dos indivíduos considerados subversivos", diz o sociólogo e cientista político Paulo Niccoli Ramirez, professor na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

Em outro momento, 70 anos depois, e sob outra intensidade, a história se repetia. "O temor era evitar de todas as formas que movimentos revolucionários vingassem na América Latina", explica Ramirez.

Esses esforços contra a "ameaça vermelha" podem ter se transformado em uma espécie de ranço que persiste no tecido social brasileiro, avalia o historiador Missiato. "Eu diria que a mentalidade de um parte da sociedade latino-americana ainda traduz a 'esquerda' como um movimento antifamília, anti-Estado, e que ainda deve ser perseguido", pontua. "É um resquício que ficou."

Martinez acrescenta que "as dissidências políticas, sejam de esquerda ou não, são apresentadas como fantasmas sem sossego e que retornam para atormentar a sociedade". Como se, em um regime democrático, a discordância não fosse salutar, não fosse parte indissociável do jogo.

"Seguimos pagando esse preço. Há 120 anos", lamenta o historiador.

Para o professor Dias, é interessante notar que as motivações centrais que buscam justificar convênios transnacionais em luta "contra um inimigo comum" mudam no decorrer do tempo.

Ele lembra que há 120 anos, o pacto cooperativo focava na "ameaça estrangeira representada pelo imigrante que chegava com novas ideias, que seria baderneiro". Cinquenta anos atrás, a Operação Condor batia as asas contra a "ameaça ideológica", buscando "impedir que a ideologia comunista alienígena penetrasse na América do Sul".

"Hoje, quando olhamos a América Latina, a grande força motivadora, a grande força motriz para a existência de um diálogo no sentido de unir forças de segurança do continente é o narcotráfico. Neste cenário, ele destaca a institucionalização da Ameripol, a Comunidade de Polícias das Américas, que atua desde 2007 e foi formalizada em tratado assinado, inclusive pelo Brasil, em 2023.

A indústria global de falsos médicos feitos por IA que usa o medo para viralizar entre idosos no Brasil: 'Achei que fosse real'

 

Idosa manuseia smartphone e é fotografada em ângulo lateral, sem mostrar o rosto

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Vídeos gerados por IA com médicos viralizam entre idosos no Brasil e superam 70 milhões de visualizações
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Celi Ferreira, de 82 anos, decidiu não fazer a cirurgia de catarata recomendada por seu oftalmologista. Avaliou que ainda enxerga bem e que o procedimento não seria necessário.

Enquanto assistia a vídeos no YouTube, recebeu uma recomendação sobre o tema, narrada por um suposto médico que prometia proteger a visão por meio do consumo de frutas.

"Não me animei [com a orientação do oftalmologista], pois ainda vejo bem. Agora vou seguir sua orientação", escreveu ela nos comentários do vídeo.

médico do YouTube não existe. É um avatar criado por inteligência artificial.

Embora o YouTube sinalize que o conteúdo foi gerado por IA, o vídeo alcançou quase 300 mil visualizações e cerca de 300 comentários, muitos de pessoas como Celi, que buscam informações sobre saúde na terceira idade e acreditam estar recebendo orientação de um profissional de saúde real.

A publicação faz parte de uma estratégia adotada há pelo menos um ano por criadores de conteúdo em diversos países, que enxergam no público idoso um nicho lucrativo.

O modelo também se espalhou pelo Brasil, muitas vezes copiado e adaptado de canais estrangeiros e impulsionado por criadores brasileiros, que produzem e ensinam a produzir esse tipo de conteúdo.

O lucro pode vir tanto das visualizações no próprio YouTube quanto da venda de e-books e produtos anunciados nos canais.

Para aumentar a audiência, tutores ensinam a criar títulos e roteiros que despertem medo e sensação de urgência, levando o espectador a acreditar que corre um risco imediato à saúde e incentivando-o a assistir ao vídeo até o fim.

Segundo esses criadores, os idosos são um público ideal porque passam horas assistindo a vídeos longos, podem ter renda disponível para gastar e tendem a confiar em quem promete ajudá-los.

A produção desse tipo de material pode ainda configurar crimes, segundo professores de direito ouvidos pela reportagem, como falsa identidade e exercício ilegal da medicina.

Avatar gerado por IA de médico no Youtube

Crédito,Reprodução/Youtube

Legenda da foto,O rosto e a voz são gerados por inteligência artificial; roteiros podem ser escritos por plataformas como o ChatGPT, a narração é produzida por ferramentas de voz sintética e as imagens também são criadas por IA

'Achei que fosse um médico real'

Celi disse à BBC News Brasil que a decisão de não fazer a cirurgia nos olhos não foi motivada pelo vídeo e que costuma seguir apenas dicas de alimentação encontradas no YouTube.

Ela se surpreendeu, porém, ao descobrir pela reportagem que o médico do vídeo não existia.

"Esse vídeo apareceu para mim. Uso muito o YouTube. Não percebi que era inteligência artificial. Achei que fosse um médico de verdade, até porque o que ele falava parecia plausível. Não eram coisas absurdas. Pela minha idade, até me considero esperta com computador, mas ainda não sei distinguir o que é IA e o que é real", afirmou.

Ela contou à reportagem que esse tipo de conteúdo aparece com frequência em seu feed porque saúde é um dos assuntos que mais pesquisa na internet. Seus comentários estão espalhados por vários canais de IA do tipo.

"Quando entro, aparecem vários vídeos. Aí acabo clicando para assistir."

Celi disse que nunca seguiria recomendações de um vídeo para tomar ou interromper medicamentos e que é acompanhada pelo mesmo médico há mais de 20 anos.

"Jamais seguiria um estranho. Eu sigo o meu médico."

Ela afirma, porém, que coloca em prática orientações sobre alimentação.

"Há canais que falam sobre prevenção de quedas, sarcopenia, quais frutas e vegetais fazem bem... Essas dicas eu sigo porque parecem ser verdade."

A BBC News Brasil chegou até Celi depois de coletar cerca de 27 mil comentários publicados nos vídeos desses canais no YouTube e utilizar uma triagem para identificar relatos de mudanças de comportamento relatados por usuários.

Dezenas de comentários atribuídos a pessoas que dizem ser idosas relatam ter seguido orientações dos "médicos" gerados por IA, seja iniciando tratamentos caseiros, seja interrompendo medicamentos já prescritos.

Em um deles, um usuário que afirma ter 85 anos diz ter trocado o omeprazol por batata-doce. Em outro, uma mulher de 77 anos afirma que não vai ao médico há três anos e agradece ao "médico" de IA pelos conselhos sobre Alzheimer.

Há também o relato de uma mulher de 80 anos que diz acordar cinco vezes por noite para urinar.

Ela conta que interrompeu o medicamento prescrito por sua ginecologista e passou a tomar, por conta própria, 20 gramas de óleo de abóbora por dia.

Retrato de corpo inteiro de Celi Ferreira, mulher de 82 anos, sentada no sofá

Crédito,Arquivo pessoal

Legenda da foto,Celi Ferreira recebeu e comentou em videos de médicos gerados por IA

70 milhões de visualizações

Esta reportagem partiu de uma pesquisa da organização sem fins lucrativos CTRL+Z, que mapeou 29 canais em português dedicados a esse tipo de conteúdo, a maioria deles criada no último ano.

Juntos, esses canais já somam ao menos 70 milhões de visualizações, de acordo com a CTRL+Z. A produção dos vídeos ocorre em "escala industrial", segundo a organização: são cerca de 10 vídeos por dia e aproximadamente 267 mil visualizações diárias.

O levantamento aponta ainda indícios de uma operação em rede — a reportagem encontrou vídeos com conteúdo idêntico publicados em diferentes canais do mapeamento.

A partir desses dados, a BBC localizou vídeos com títulos praticamente iguais em inglês e espanhol, além de tutoriais que ensinam a produzir material para esse nicho, conhecido como "saúde sênior".

Ele é apresentado como uma forma de faturar milhares de reais por mês trabalhando sozinho, apenas com um computador e ferramentas gratuitas de IA.

Tatiana Dias, jornalista e diretora de programas da CTRL+Z, diz que viu um dos vídeos por acaso, e que os seguintes vieram por recomendação do próprio YouTube.

"Deixou claro que se tratava de uma rede organizada, com conteúdos que se retroalimentavam impulsionados pelos algoritmos de recomendação", disse.

Ela avalia que um dos principais achados da pesquisa foi o tamanho da rede.

"Isso mostra um problema massivo e premiado pelo YouTube com alcance e monetização. Porque não haveria esse tipo de conteúdo se não houvesse incentivo financeiro do YouTube para isso."

Para a organização, a remoção dos vídeos não resolve o problema. "Nossa ideia não é fazer (de graça) o trabalho que o Google/YouTube deveria estar fazendo, mas sim que essas plataformas sejam responsabilizadas legalmente por incentivarem e lucrarem com conteúdos nocivos para a saúde pública", diz Luã Cruz, diretor de litigância da CTRL+Z.

Em nota, o Google afirmou que todo o conteúdo do YouTube, inclusive gerado por IA, deve seguir as diretrizes da comunidade.

"Isso abrange nossas políticas sobre desinformação médica, que proíbem informações incorretas a respeito de prevenção e tratamentos capazes de causar, comprovadamente, danos graves no mundo real."

A empresa diz que adicionou rótulos a conteúdos gerados por IA "para garantir que os espectadores estejam informados sobre o que estão assistindo."

Após o contato da BBC News Brasil, o Google excluiu alguns dos maiores canais que aparecem no levantamento, que somavam cerca de 41 milhões de visualizações.

Chá para gastrite?

Os canais seguem uma fórmula.

"Doutores" de aparência confiável, que podem ser homens ou mulheres, de jaleco branco e voz calma, falam diretamente para a câmera. Revelam um "segredo que não querem que você saiba", apresentam alimentos milagrosos e terminam pedindo curtidas, inscrições e, algumas vezes, a compra de um e-book.

O rosto e a voz são gerados por inteligência artificial. Os roteiros podem ser escritos por plataformas como o ChatGPT, a narração é produzida por ferramentas de voz sintética e as imagens também são criadas por IA.

A prática é uma versão dos chamados canais dark ou faceless (sem rosto), em que o criador não aparece nem utiliza a própria voz, prática que se popularizou em canais em inglês e foi impulsionada com a chegada da inteligência artificial, que reduziu custos de produção.

Os conteúdos dos canais de bem-estar para idosos misturam informações reais, exageros e pseudociência.

Um dos vídeos, por exemplo, fala sobre "o chá que pode curar a gastrite em 15 dias".

Para ser convincente, o falso médico de IA cita o caso de um paciente idoso que chegou ao seu consultório com gastrite severa e diagnóstico de H. pylori (bactéria que causa infecção no estômago ou duodeno) e que se recusava a tomar antibióticos. E que o convenceu a fazer um tratamento com plantas medicinais que funcionou.

Essa estratégia de citar pacientes com nomes se repete em diversos vídeos.

Jaime Zaladek Gil, médico gastroenterologista do Einstein Hospital Israelita, diz que o uso de chás pode até aliviar os sintomas, mas que a presença da bactéria exige o tratamento com antibióticos.

“O risco maior é a pessoa tomar substâncias que não são eficazes, que podem piorar o quadro ou até mesmo atrasar o diagnóstico. Ainda mais em pacientes idosos, que têm maior risco de lesões nessa área, mais graves. É necessária uma investigação, uma rede de diagnóstico melhor, não só um vídeo que fala que algo vai resolver todos os seus problemas", diz.

Criadores podem responder por crimes de falsa identidade e exercício ilegal da medicina

Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil afirmam que esse tipo de material pode levar a situações perigosas, ao desestimular tratamentos legítimos ou incentivar práticas sem respaldo científico.

"A saúde das pessoas é algo individualizado. Uma medicação ou orientação pode ser benéfica a uma pessoa e maléfica a outra, a depender das comorbidades, da interação com outros medicamentos. Vemos isso como um grande risco", diz o vice-presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Jeancarlo Cavalcante.

O risco, segundo ele, é maior entre idosos, que podem deixar de buscar atendimento adequado — como visto pela reportagem nos relatos de idosos em diversos comentários dos vídeos.

Ele afirma que o Conselho pode denunciar esses conteúdos ao Ministério Público e à polícia.

Para Thiago Bottino, professor da FGV Direito Rio, o conteúdo em si não é crime — mas passa a ser quando o falso médico age como profissional.

"O problema é quando alguém que não é médico, seja pessoa real ou inteligência artificial, atua como médico, prescrevendo medicação, dizendo qual seria o tratamento adequado. É um caso de exercício irregular da medicina, que é crime previsto no Código Penal."

Ele acrescenta que os criadores também podem responder por falsa identidade ao se passarem por médicos sem avisar que são personagens de IA — algo comum nos vídeos analisados pela reportagem, em que os apresentadores alegam anos de experiência e relatam supostos casos de pacientes.

Personagens de IA se apresentam como médicos de verdade

Uma análise da BBC News Brasil da descrição dos vídeos e das legendas mostra que praticamente todos os perfis tentam se passar por médicos de verdade, com afirmações de que possuem "anos de experiência" ou menções a títulos acadêmicos e especializações.

Filipe Medon, professor da FGV Direito Rio e coordenador adjunto do AI Hub, resume onde está o problema: "Você pode criar um canal que fale sobre conteúdos de medicina, pegue artigos científicos e fale sobre eles. O que você não pode, e aí que mora o dano, é criar uma persona que simula uma pessoa real e, a partir dessa simulação, enganar pessoas que, por conta desse engano, podem adotar condutas que causem danos à sua saúde."

Para ele, um aviso claro de que se trata de um personagem de IA mudaria a natureza do conteúdo.

Medon afirma ainda que o crime pode respingar nas próprias plataformas.

Com a recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o Marco Civil da Internet, avalia ele, um avatar que finge ser médico pode configurar falsa identidade — o que torna o YouTube corresponsável caso não retire o conteúdo após ser avisado.

"A plataforma passa a ser responsabilizada civilmente se, após uma notificação extrajudicial, ela não retirar esse conteúdo."

A responsabilidade é ainda maior, segundo ele, quando há impulsionamento pago: nesse caso, a plataforma teria de remover os vídeos mesmo sem qualquer notificação, por se tratarem de contas inautênticas.

Conteúdo é copiado e reproduzido em massa com apoio de IA

Um personagem de IA mostra thumbs de vídeos no Youtube

Crédito,Reprodução/Youtube

Legenda da foto,Vídeo em inglês ensina a criar canais de IA para dar dicas de saúde e bem estar a idosos

O conteúdo dos vídeos é, em boa parte, produzido em escala, sem qualquer revisão, em um esquema deliberado de copiar e adaptar roteiros com apoio de IA.

A BBC News Brasil identificou ao menos 50 vídeos em português com avatares de médicos que tinham títulos semelhantes aos de outros publicados em canais em outros idiomas dias ou até meses antes.

Algumas adaptações nem sequer trazem exemplos do Brasil. Citam supostos pacientes americanos, futebol americano e estatísticas de saúde dos Estados Unidos.

Identificamos que um mesmo roteiro foi reaproveitado entre canais sem sequer alterar a identidade apresentada pelo narrador.

Em um dos vídeos analisados, por exemplo, a voz se apresenta como uma médica cardiologista com mais de 15 anos de experiência, apesar do vídeo ter sido publicado em um canal que utiliza a identidade de um falso médico homem.

Essas situações não são por acaso.

Instrutores de criação de conteúdo com dezenas de milhares de seguidores ensinam como produzir canais com base na cópia e na produção em massa, para aumentar o número de visualizações.

Um dos tutoriais, por exemplo, ensina a capturar a tela de um canal em inglês, enviar a imagem ao ChatGPT e solicitar a criação de títulos e roteiros equivalentes em português. Há também o caminho inverso, de fazer em português e depois traduzir para outros idiomas.

"Vou mostrar a vocês um dos nichos mais lucrativos do YouTube, sem apresentadores, que está bombando no momento: o nicho de saúde e nutrição para idosos. Estes canais estão crescendo a uma velocidade insana, usando vídeos 100% criados por IA, avatares simples e edição básica. Mesmo assim, alcançam dezenas de milhares de inscritos em apenas alguns meses."

A descrição acima é de um vídeo publicado em novembro do ano passado pelo canal AI Maskman no YouTube. Tem 18 mil visualizações. A identidade de quem o produz não é divulgada.

"O público da terceira idade é enorme, pouco atendido e altamente receptivo. Essas pessoas assistem por mais tempo, compram mais produtos e confiam nos criadores de conteúdo que as ajudam com problemas reais, como pernas fracas, dores nas articulações, dificuldades para dormir, perda muscular e nutrição", explica o canal AI Maskman.

O mesmo canal ensina a fazer vídeos virais com personagens fictícios e até de acidentes de carro para viralizar, tudo feito com IA.

A página divulga em sua descrição um clube de criadores de conteúdo de IA com cerca de 6 mil membros. Há ainda um grupo no WhatsApp com dicas de como criar os vídeos que já tem quase 10 mil números cadastrados.

A BBC News Brasil tentou entrar em contato com o canal, mas não obteve resposta até o fechamento da reportagem.

'Não, não dá problema': brasileiros estimulam criação de vídeos e prometem ganhos elevados

Youtuber mostra canal de médico gerado por IA

Crédito,Reprodução/Youtube

Legenda da foto,Youtuber mostra canal de médico gerado por IA

A prática de ensinar outros criadores a fazer vídeos de IA para idosos também chegou ao Brasil.

Um desses instrutores é Jhef Coimbra, que tem 10,7 mil inscritos em seu canal. Ele cita ganhos de R$ 30 mil por mês e afirma que o uso de avatares de médicos gerados por IA não é um problema.

Ao mostrar um canal do tipo com uma médica falsa, ele diz:

"Antes que você pergunte: não, não dá problema. O YouTube, o que ele vai pegar mais é a questão da sua cópia, a questão de que você fala dentro do vídeo e o que você coloca dentro do link de afiliado."

O exemplo que ele cita leva para uma página que vende um "guia médico para proteger a próstata depois dos 60", com um avatar de médico gerado por IA.

A BBC procurou Coimbra por um número de WhatsApp que ele divulga em seu canal, mas não obteve resposta. Após o contato, o acesso ao vídeo foi bloqueado.

Outro canal no YouTube, Lucrando com IA, ensina como criar páginas que usam médicos gerados por IA e até a copiar outros perfis semelhantes com o ChatGPT.

"Muita gente não gosta desse nicho porque é um doutor e tudo mais. Mas pra quem não tem frescura e já quer entrar no nicho que monetiza fácil, você passando informações verdadeiras, ou seja, ajudando as pessoas, então você consegue monetizar."

A reportagem tentou entrar em contato com o canal por meio de um número de WhatsApp deixado pelo criador da página nos comentários, mas não obteve resposta.

Objetivo é fazer espectador 'sentir algo forte' e 'realizar uma ação final'

Vídeos no Youtube sobre saúde dos idosos

Crédito,Reprodução/Youtube

Legenda da foto,Canal brasileiro no YouTube diz que ganho com nicho de saúde de idosos é 'mina de ouro'

Alguns dos tutores divulgam guias em texto com orientações sobre como falar com os chatbots para produzir o roteiro dos vídeos.

Um deles, compartilhado pelo canal Marcos de Castro, que tem 56 mil inscritos, sugere que o objetivo é "fazer o espectador sentir algo forte (medo, esperança, admiração, choque, inspiração, desconforto ou empatia), assistir até o fim e realizar uma ação final (comentar, compartilhar ou comprar)."

O canal Jhef Coimbra também cita em um dos seus vídeos modelos e estratégias de como pegar o espectador pelo medo. "Antes de se deitar, tome cuidado com isso. Cuidado para não morrer dormindo. Pegando realmente pesado."

Castro descreve o nicho em seus vídeos como uma "mina de ouro" que "monetiza rápido". Em uma das publicações, ele resume por que recomenda o público idoso:

"Esse é o melhor público que existe para você conseguir escalar os ganhos do seu canal."

O argumento, explica, é que "essas pessoas mais idosas assistem a vídeos longos, passam horas no YouTube, compram por confiança, e não só porque a pessoa aparece, têm tempo para consumir um produto atrás do outro e têm renda para gastar".

Diferentemente de outros canais analisados pela reportagem, seu tutorial não usa rostos de falsos médicos gerados por IA, e sim imagens genéricas que ilustram o tema.

Ele também orienta que criadores coloquem um aviso na descrição do vídeo de que as informações "não têm o intuito de substituir a consulta médica".

Procurado pela BBC News Brasil, Castro afirmou que ensina seus alunos, que diz já serem 8 mil, a produzir conteúdo informativo e educativo, sempre com um aviso de que os vídeos não foram feitos por um médico.

"O profissional que ensina a fazer conteúdo para vender encapsulado, remédio, algo que pode afetar a saúde do idoso, o próprio YouTube se encarrega de punir esses canais. Sou completamente contra. Mas conteúdo informativo e educativo, no sentido de saúde física, emocional e principalmente mental, você pode criar tranquilamente, com disclaimer."

Castro afirma ser contrário a qualquer conteúdo ilegal, enganoso ou que coloque pessoas em risco, seja produzido por IA ou por um ser humano.

"A tecnologia é uma ferramenta. O problema não está na ferramenta, mas na forma como ela é utilizada", disse. "Não responsabilizamos uma câmera por uma notícia falsa nem um editor de vídeo por um conteúdo enganoso. A responsabilidade é de quem cria e publica a informação."

Para ele, o debate relevante "não é se existe IA envolvida, mas se o conteúdo é verdadeiro, transparente e está dentro das regras".

Guia mostra a usar final marcante, com 'desfecho emocional forte'

Crédito,Reprodução/Youtube

Legenda da foto,Guia mostra a usar final marcante, com 'desfecho emocional forte'

Guias em português são vendidos até de fora do Brasil

A reportagem identificou ao menos quatro guias de saúde em português sendo vendidos nos canais de YouTube brasileiros com apresentadores de IA. São receitas para diabéticos, dicas de saúde para quem tem mais de 60 anos, um guia de saúde masculina e outro sobre glicose.

A partir dos metadados das páginas desses e-books, chegamos aos e-mails de alguns dos produtores que colocaram esse material no ar.

Os endereços estavam vinculados a uma advogada no Rio de Janeiro, a uma empresa de games, a uma loja de eletrônicos em São Paulo e a um homem que diz em suas redes sociais que é de Maputo (Moçambique).

Apesar de terem seus e-mails vinculados como vendedores desses guias, a reportagem não conseguiu confirmar se de fato essas pessoas produziram os livros ou se são responsáveis pelos canais que os divulgam. Como também não foi possível contatá-los, eles não serão identificados.