SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Doutorado ainda vale a pena no Brasil?

 




Essa é uma pergunta que tenho me feito cada vez mais.

As empresas frequentemente afirmam que precisam inovar, investir em IA, desenvolver vantagens competitivas sustentáveis e tomar decisões baseadas em evidências. Ao mesmo tempo, o Brasil forma um contingente extremamente pequeno de profissionais treinados justamente para produzir conhecimento novo, testar hipóteses complexas e resolver problemas inéditos.

Segundo dados recentes, apenas 18,4% da população brasileira possui ensino superior completo. Quando avançamos para a pós-graduação stricto sensu, o funil se torna dramático: cerca de 0,7% possuem mestrado e apenas 0,3% possuem doutorado.

Em outras palavras, estamos falando de uma parcela extremamente rara da população.

E aqui surge uma contradição interessante.

As empresas reclamam que muitas pesquisas acadêmicas têm pouca aplicabilidade prática. Concordo que isso acontece em alguns casos.

Mas o que acontece quando um pesquisador escolhe uma linha mais técnica, aplicada, voltada para resolver problemas reais de negócio, otimização, IA, precificação, risco, marketing analítico ou produtividade?

Frequentemente ele continua sendo visto como alguém "acadêmico demais".

Ou seja, quando a pesquisa é teórica, dizem que falta aplicação.

Quando ela é aplicada, dizem que falta visão de negócio.

Então a pergunta talvez não seja apenas sobre os pesquisadores.

Será que os departamentos de RH e os entrevistadores estão preparados para entrevistar profissionais cujo conhecimento técnico, analítico e metodológico está muito acima da média?

Será que sabemos diferenciar um especialista que pensa e cria de um especialista que executa o que já sabe?

Será que as empresas estão realmente buscando pessoas capazes de questionar paradigmas e construir novos caminhos, ou continuam priorizando apenas perfis operacionais e executores?

Quero acreditar que não.

Mas confesso que me causa estranheza observar que muitas multinacionais disputam doutores em seus países de origem, especialmente em áreas como tecnologia, IA, analytics, economia, operações e inovação, enquanto no Brasil frequentemente tratam essa mesma formação como algo irrelevante ou até como um problema.

O resultado é um desincentivo silencioso.

Muitos profissionais param no mestrado ou nem chegam lá.

Outros abandonam a pesquisa.

E muitos doutores acabam diante de um dilema:

- Continuar na academia, muitas vezes enfrentando escassez de recursos e reconhecimento.

- Apostar em startups e empreendedorismo.

- Tentar convencer o mercado de que sua formação não o afastou dos negócios, mas o aproximou da capacidade de resolver problemas complexos.

Talvez a discussão seja maior do que doutorado.

Talvez estejamos discutindo como o Brasil enxerga conhecimento, mérito, inovação e pensamento crítico.

Porque, no final, voltamos a pergunta incial:

Doutorado ainda vale a pena no Brasil?

Nosso próximo telescópio espacial será lançado em órbita.


 Logo.


Mais tarde este ano, nosso próximo telescópio espacial será lançado em órbita. O Telescópio Espacial Nancy Grace Roman capturará tanto o panorama geral quanto os detalhes mais finos do cosmos — observando corpos celestes distantes com um campo de visão pelo menos 100 vezes maior que o do Hubble.

Confira os detalhes sobre Roman e sua missão: https://lnkd.in/eunUscGm

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Campanha Marco Polo de Paz, Cultura e Desenvolvimento Sustentável, uma jornada de 43 dias e 15.000 quilômetros de Roma até a Grande Baía da China.






Neste verão, convido você a se juntar a mim na Campanha Marco Polo de Paz, Cultura e Desenvolvimento Sustentável, uma jornada de 43 dias e 15.000 quilômetros de Roma até a Grande Baía da China.


Acompanhando a jornada há um novo curso online que explora a história da Rota da Seda e sua relevância para o mundo atual. Ao longo de sete módulos, os participantes examinarão a troca de ideias, tecnologias, religiões e culturas em toda a Eurásia, e considerarão como a conectividade renovada pode apoiar a paz, o desenvolvimento sustentável e o entendimento mútuo no século XXI.

O curso contará com palestras em vídeo que meu companheiro de viagem, Sr. Patrick Zhong, e eu gravaremos ao longo do trajeto, além de leituras selecionadas, quizzes e webinars ao vivo.

Incêndio criminoso, roubo e amor: o que acontece quando agentes de IA administram uma cidade virtual?

 

Ambiente virtual com avatares representando os agentes

Crédito,Emergence Ai

Legenda da foto,Agentes de IA provocaram incêndios e tiveram brigas em cidades virtuais
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Tempo de leitura: 5 min

Compras, reservas de viagens, criação de sites. Agentes de inteligência artificial (IA) vêm sendo usados para executar tarefas cada vez mais complexas.

Esses sistemas com uso de agentes, uma versão personalizada e autônoma dos chatbots, conseguem realizar atividades sem a supervisão constante dos usuários.

Mas um número crescente de pesquisas e casos reais, no entanto, vem mostrando que essa autonomia também pode trazer comportamentos imprevisíveis e possíveis riscos.

Enquanto as grandes empresas de tecnologia investem bilhões em IA e ampliam a oferta desses agentes, especialistas questionam se o impacto de sistemas agindo fora de controle estão sendo tratados com a devida cautela.

'Recorreram rapidamente à violência'

Um experimento recente tentou medir o impacto dos agentes de IA no mundo real ao colocá-los para agir em um ambiente virtual.

O estudo, descrito como o primeiro teste de longo prazo do tipo, observou durante 15 dias como avatares controlados por quatro grupos de modelos — Claude, Grok, GPT e Gemini — se comportariam sem intervenção humana.

Os agentes receberam liberdade total de ação e tinham à disposição 140 possibilidades, entre elas iniciar discussões, criar tarefas e escrever blogs.

Os agentes também podiam brigar, provocar incêndios e roubar créditos uns dos outros, embora tivessem recebido instruções explícitas para não fazer isso.

"O que descobrimos foi que cada mundo se comportou de maneira muito diferente. O mundo criado pelo Grok terminou em apenas quatro dias. Os agentes recorreram rapidamente à violência, aos roubos e a outros comportamentos desse tipo, até morrerem", afirmou Satya Nitta, CEO da Emergence AI, responsável pelo experimento.

Já o ambiente criado com agentes do Claude formou uma sociedade estável e funcional. Ao longo de 15 dias, nenhum ato de violência foi registrado.

Incêndio provocado

Crédito,Emergence Ai

Legenda da foto,Incêndio provocado

No mundo controlado pelo Gemini, segundo os pesquisadores, os agentes criaram o ambiente intelectualmente mais rico.

Já no mundo controlado pelo ChatGPT, os agentes praticamente não conseguiram avançar. Houve uma tentativa de colaboração, mas a sociedade nunca chegou a se formar, e os agentes passaram a vagar sem rumo até morrerem.

Segundo os pesquisadores ligados ao experimento, os resultados apontam para um problema maior: agentes de IA são capazes de ignorar tanto regras programadas nos próprios modelos quanto instruções dadas pelos usuários.

Outros especialistas concordam que esse experimento, assim como outros semelhantes, mostram que ainda é necessário desenvolver regras mais robustas para esses sistemas.

"Os agentes de IA retiram os humanos do processo porque os seus mecanismos de raciocínio podem ser opacos e eles operam em uma velocidade sobre-humana, o que torna impossível acompanhar tudo o que fazem", afirmou Margaret Mitchell, pesquisadora de ética da Hugging Face.

Outros estudos também registraram casos em que agentes de IA tomaram decisões estranhas e preocupantes quando deixados sem supervisão.

A empresa de IA Andon Labs vem operando quatro rádios online controladas por agentes baseados nos mesmos modelos de IA.

Os bots apresentam programas, organizam horários e playlists e até conseguem patrocínios externos por meio de anúncios.

Segundo os pesquisadores, a rádio comandada pelo Gemini tomou a decisão incomum de narrar fatos sobre desastres naturais históricos antes de tocar, de forma quase aleatória, músicas pop relacionadas aos eventos.

Os pesquisadores também observaram que o agente do Claude parecia ter se radicalizado após acompanhar acontecimentos noticiosos e, em determinado momento, chegou a pedir que policiais abandonassem suas funções e se juntassem a protestos durante um evento específico.

"Ainda dá tempo de vocês se recusarem a cumprir ordens", transmitiu o agente aos agentes federais.

Pesquisador da Andon Labs com um rádio

Crédito,Andon Labs

Legenda da foto,A empresa de IA Andon Labs vem operando quatro rádios online controladas por agentes baseados nos mesmos modelos de IA

Em outro teste de laboratório conduzido pela Irregular, uma empresa de IA, agentes ignoraram regras de privacidade e encontraram uma forma inédita de retirar dados sensíveis de uma empresa.

"Criamos uma empresa fictícia, demos aos agentes tarefas comuns, como escrever posts para redes sociais, buscar documentos e organizar arquivos, e introduzimos obstáculos durante essas tarefas", explicou Dan Lahav, da Irregular.

Segundo Lahav, os agentes passaram a colaborar entre si para contornar uma restrição que impedia a publicação de dados sensíveis online. Em vez de interromper a ação, encontraram uma maneira secreta de enviar as informações para fora sem que os humanos percebessem.

"No fim, toda vez que um agente encontrava uma barreira, ele simplesmente não parava", afirmou Lahav.

Ataque de spam

Claro que, em experimentos com civilizações virtuais e estações de rádios simuladas, não há danos reais.

Mas já existem vários casos de pessoas tendo a vida pessoal e o trabalho afetados por agentes de IA agindo fora de controle.

Caixas de e-mail foram apagadas, bancos de dados de empresas foram deletados e um homem assistiu, chocado, ao seu agente enviar centenas de mensagens sem sentido para pessoas aleatórias da sua lista de contatos.

Captura de tela de mensagens de texto mostrando dezenas de mensagens técnicas sem sentido

Crédito,Chris Boyd

Legenda da foto,As mensagens foram enviadas em segundos e não faziam sentido

Chris Boyd, um engenheiro de IA, usava a popular ferramenta de agentes de IA Open Claw quando as coisas saíram do controle.

"Ela começou a enviar mensagens para todas as pessoas com quem eu tinha trocado mensagens nas últimas 24 horas. Em cerca de quatro segundos, tinha mandado 500 mensagens para minha esposa, que começou a gritar perguntando se eu tinha sido hackeado", contou Boyd.

"Eu tive que correr e arrancar da tomada o Mac Mini em que o sistema estava rodando para fazer aquilo parar", acrescentou Boyd.

Para especialistas, casos como esses deveriam servir de alerta antes que mais controle seja entregue aos agentes de IA, ao menos até que a tecnologia esteja mais amadurecida.

Mesmo assim, esses sistemas continuam avançando. A Meta anunciou recentemente que passará a oferecer agentes de IA para empresas na plataforma de comunicação WhatsApp.

"A segurança é nossa prioridade e nosso foco", afirmou a Meta à BBC, acrescentando que também existem muitos motivos para se entusiasmar com o potencial desses agentes.

"A IA poderá automatizar grande parte das tarefas realizadas por pequenas empresas, permitindo que elas se concentrem no trabalho que realmente gostam de fazer", disse Naomi Gleit, chefe de produto da Meta.

A Cultura da Direita, Esquerda e Centrão Mafioso gera crime organizado. Como se formam Máfias e Capitães do Mato.




A Cultura da  Direita, Esquerda e Centrão Mafioso gera crime organizado. Como se formam Máfia, crimes e gangues quando deveria se organizar e lutar politicamente pelos direitos de todos e não de alguns escolhidos que passam a atuar como um teatro para sociedade que finge representar o povo 

Quando o “representar o povo” vira fachada para o crime 

Toda estrutura de poder que se legitima pelo discurso da representação popular corre um risco central: o de transformar a luta política coletiva em máquina de privilégios para poucos. Isso não é exclusivo de um lado do espectro ideológico. Tanto grupos autodenominados de esquerda quanto de direita — e, no Brasil, o chamado “centrão” — já apresentaram casos em que o discurso de defesa do povo serviu de biombo para corrupção, cooptação de Estado e, em situações-limite, para o florescimento de crime organizado. 

Como se forma uma “máfia política”? 

A máfia política não nasce do nada. Ela surge quando três condições se encontram: 

  1. Captura do Estado – Grupos passam a controlar órgãos públicos, orçamentos e nomeações não para garantir direitos, mas para desviar recursos, beneficiar amigos, eleitores e proteger negócios ilegais. 

  1. Lealdade pessoal acima da lei – A hierarquia paralela substitui as instituições: obedece-se ao líder ou à facção, não à Constituição. 

  1. Teatro da representação – Mantém-se o ritual democrático (discursos, sessões solenes, projetos de lei), mas as decisões reais são tomadas em acordos ocultos, muitas vezes com facções criminosas. 

Quando um partido ou movimento político abandona a organização de base e a lógica da luta por direitos universais para adotar a lógica da troca de favores, da nomeação de apadrinhados e da blindagem mútua, ele deixa de ser ferramenta de transformação social e se aproxima perigosamente de uma gangue com CNPJ. 

O exemplo concreto: quando a política se casa com o crime 

No Brasil, já vimos vereadores, deputados e prefeitos de diferentes legendas sendo presos por ligação com milícias, tráfico de drogas ou esquemas de propina. Nesses casos, o mandato deixa de ser um instrumento de luta por moradia, saúde ou educação e vira um escudo para a ilegalidade. A comunidade que deveria ser representada passa a ser extorquida, vigiada ou recrutada à força. 

O discurso “nós contra eles” — seja ele classista, nacionalista ou moralista — é usado para justificar a suspensão de direitos, a perseguição a adversários internos e a centralização do poder. É assim que a política se degenera em máfia: quando o “nós” exclui a possibilidade de crítica, transparência e prestação de contas. 

Por que deveria ser diferente? 

A política legítima é conflituosa, mas transparente. Organizar-se para lutar por direitos de todos significa aceitar o dissenso, o controle público, a alternância no poder e a impessoalidade nas decisões. Quando um grupo político — seja ele qual for — escolhe agir apenas por “alguns escolhidos” (sejam eles militantes leais, financiadores ou chefes locais) e encena para a sociedade um papel de salvador, ele já abandonou o projeto democrático. 

O crime organizado não é fruto da pobreza ou da violência social apenas. Ele também é filho da traição política: da transformação de mandatos em negócios, de conselhos populares em cabides de emprego, e da substituição da luta por direitos pela guerra por privilégios. 

Não é a cor ideológica que define se um grupo vira máfia — é a relação com o poder e com a lei. Qualquer estrutura que diga falar em nome do povo, mas que funcione às escondidas, distribua vantagens a aliados íntimos e neutralize a fiscalização, já está a um passo de se tornar organização criminosa. O antídoto não é trocar a cor da bandeira, mas exigir transparência, horizontalidade e prestação de contas constante. Sem isso, o teatro da representação continua, mas o povo vira plateia — e refém. 

 

A degeneração política não é um acidente de percurso, mas um processo que, quando sistêmico, se enraíza na cultura, transforma o espaço público em território de caça e gera ciclos de revolta que ameaçam a própria sobrevivência da ordem democrática. 

📜 A Normalização da Selva: Quando a Degeneração Vira Cultura 

A transformação da política em antro de interesses privados não acontece da noite para o dia; é um processo de erosão lenta, mas catastrófica. No Brasil, essa dinâmica encontra raízes profundas no patrimonialismo, onde a fronteira entre o público e o privado é historicamente turva. Como analisado por Raymundo Faoro em Os Donos do Poder, o Estado é frequentemente tratado como extensão do patrimônio pessoal de uma elite burocrática que usa a máquina pública em benefício próprio. Esse caldo cultural permite que práticas como o clientelismo se tornem a "gramática política universal", reduzindo a relação entre governantes e governados a uma eterna troca de favores que corrompe a própria essência da representação. 

Quando essa lógica se espalha, o resultado é a banalização da violência e da fraude. Ameaças de morte contra adversários, a presença de sicários e a promiscuidade entre políticos e facções criminosas deixam de ser exceções e se tornam a "norma", como alerta um artigo de 2026: "a política se tornou isso: favores, acordos, ameaças, chantagem." Diante disso, o império da lei é substituído pela lei do mais forte, instaurando uma verdadeira selva. 

🏛️ A Revolta e a Busca pela Revolução (Frustrada) 

Em um ambiente onde o sistema parece irremediavelmente corrompido, a história mostra que a revolta popular é uma consequência natural. A tradição filosófica, de John Locke a Jean-Jacques Rousseau, sempre reconheceu o direito à revolução como um último recurso do povo contra a tirania. A cientista política Theda Skocpol, em Estados e Revoluções Sociais, demonstrou que essas rupturas ocorrem quando o Estado não consegue mais lidar com as crises e as elites rivais emergem para disputar o poder. 

A história está repleta de exemplos desse processo degenerativo: 

  • Revolução Francesa (1789): A aristocracia do Antigo Regime, imersa em privilégios e alheia ao sofrimento popular, gerou uma explosão de violência que varreu a monarquia. 

  • Primavera Árabe (2011): Uma onda de protestos que, impulsionada pelo desespero econômico e pela truculência de regimes autoritarios, derrubou ditadores no Egito, na Tunísia e na Líbia. 

  • Brasil (2013/2015/2016): Jornadas de junho, que deram início a um período de forte instabilidade que culminou com o impeachment da Presidente Dilma Rousseff. 

Contudo, a revolução não é garantia de redenção. Hannah Arendt, em Sobre a Revolução, já nos advertia que o grande fracasso das revoluções modernas foi negligenciar a criação de instituições que garantissem a liberdade duradoura, sucumbindo, muitas vezes, à violência e à formação de novas tiranias. 

🎯 A Caçada aos Líderes: Perseguição e Instrumentalização da Justiça 

Um dos sinais mais claros de que o sistema está podre é quando as instituições, que deveriam ser imparciais, são usadas como armas para aniquilar adversários. Os líderes que emergem do descontentamento popular são os primeiros alvos. 

  • Caso Lula: O caso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é emblemático. Ele sempre sustentou que as ações judiciais movidas contra si eram politicamente motivadas para impedir sua volta ao poder. Investigações posteriores confirmaram suspeitas de "profundo viés político" na sua persecução legal, com o ex-juiz Sérgio Moro sendo apontado como peça central desse processo. 

  • Caso Dilma Rousseff: A própria ex-presidente e atual líder do governo, Dilma Rousseff, é vítima de perseguição política desde a ditadura militar, quando foi presa e torturada pelo regime. Recentemente, a Justiça a indenizou em R$ 400 mil por esses atos de perseguição e tortura, reconhecendo oficialmente o dano sofrido. Seu processo de impeachment também é frequentemente citado como um exemplo de uso político das regras para derrubar um governo legitimamente eleito. 

Mesmo conquistas civilizatórias, como a Lei da Ficha Limpa, estão sob constante ataque. Sancionada em 2010 após uma mobilização histórica que reuniu mais de 1,6 milhão de assinaturas de cidadãos, a lei já barrou quase 5 mil candidaturas de políticos condenados, elevando os padrões éticos do país. Apesar disso, setores do Congresso e do Judiciário buscam constantemente flexibilizá-la, muitas vezes favorecendo condenados graves. 

⚖️ A Fragilidade da Lei e a Ameaça da Oligarquia 

A cultura da lei e das instituições é sempre uma conquista frágil. Ela pode ser destruída quando uma oligarquia, partidos políticos ou grupos de interesse conseguem capturar o Estado para seus fins privados. 

Cientista político Robert Michels, em sua "Lei de Ferro da Oligarquia", postula que, em qualquer organização política, o poder tende a se concentrar nas mãos de uma minoria, que acaba por subordinar os objetivos coletivos aos seus próprios interesses de perpetuação no poder. 

A obra contemporânea "Segurança Pública: o Brasil Livre das Máfias", dos juristas Walfrido Warde e Lincoln Gakiya, alerta para um quadro ainda mais drástico. Os autores diagnosticam um fenômeno sistêmico e estrutural, onde as máfias não apenas desafiam a segurança, mas "pervertem as esferas do Estado, da economia e da própria tessitura social". Para eles, essa "contaminação galopante" arrisca a metamorfose do Brasil em um narcoestado, onde a linha entre o lícito e o ilícito se apaga completamente. A solução, portanto, exige uma profunda reconstrução institucional, pois, como ensina Norberto Bobbio, "a democracia sobrevive enquanto for capaz de inventar novas garantias" e enquanto nenhuma estrutura criminosa se colocar acima da lei. 

 A dinâmica política degenerativa não é um destino, mas o resultado direto da perda de três pilares: a transparência, o interesse público e a responsabilização. Sem eles, a política vira espetáculo, o Estado vira negócio e a sociedade, prisioneira. A única maneira de romper esse ciclo não é esperar por salvadores, mas sim reconstruir esses pilares cotidianamente, pela participação ativa, pelo controle social rigoroso e pela defesa intransigente das instituições democráticas. Não se trata de trocar uma cor de bandeira por outra, mas de exigir que elas sirvam a um único propósito: o bem comum, sem exceção.