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sábado, 18 de abril de 2026
'A Riqueza das Nações': como livro escrito há 250 anos ainda influencia nossas vidas.

Crédito,Getty Images
- Author,Dalia Ventura
- Role,BBC News Mundo
- Tempo de leitura: 8 min
Em 1776, o escocês Adam Smith (1723-1790) publicou a obra intitulada Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações. Nela, ele não só explicou como também transformou a economia.
O sucesso foi imediato. O livro mudou a forma como entendemos a prosperidade e passou a ser a pedra fundamental da literatura econômica moderna.
Com o título abreviado para A Riqueza das Nações, a obra gera debates acalorados até hoje e reformulou o comércio global e até os nossos salários.
Políticos de todas as tendências reivindicaram para si partes do legado de Smith.
A ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher (1925-2013), ícone da direita do país, supostamente levava um exemplar da obra no bolso. Posteriormente, outro ex-primeiro-ministro, o trabalhista Gordon Brown, também elogiou o livro.
Membros do governo republicano do ex-presidente americano Ronald Reagan (1911-2004) usavam gravatas com a imagem de Adam Smith, como uma declaração de princípios. E, anos depois, ele foi mencionado pelo ex-presidente democrata Barack Obama.
"Foi Adam Smith, o pai da economia de livre mercado, quem disse em certa ocasião: 'Aqueles que alimentam, vestem e dão moradia a toda a sociedade deveriam receber uma parte do fruto do seu próprio trabalho, que permita que eles permaneçam razoavelmente bem alimentados, vestidos e com boa moradia.'"
"E, para quem não está familiarizado com esse inglês antigo, permitam-me traduzi-lo: significa que, se você trabalhar duro, deverá poder viver decentemente."
Talvez esta seja a marca característica de uma obra clássica. Ela continua sendo fértil para quem a invoca ao longo do tempo, mesmo com ambientes e pontos de vista distintos.
Dois séculos e meio depois da sua publicação, A Riqueza das Nações não foi relegado às estantes de história. O livro continua sendo lido, citado e, sobretudo, questionado.
A pergunta é: Por quê?
Riqueza

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A Riqueza das Nações é um daqueles clássicos que muitos conhecem e citam, mas que nem todos leram.
Em suas páginas, Adam Smith apresentou conceitos que não parecem apenas familiares. Eles continuam marcando a economia moderna até hoje.
Ele começa, por exemplo, com a divisão do trabalho e a famosa ilustração de "uma manufatura muito insignificante", segundo ele: "o ofício de fabricante de alfinetes".
Smith observou que "um operário não especializado neste ofício [...] dificilmente poderia, talvez com máxima diligência, fazer um alfinete por dia".
"Mas, na forma em que, agora, se realiza este negócio [...], a importante tarefa de fabricar um alfinete é dividida em cerca de 18 operações distintas."
Ele conta ter visto fábricas em que, trabalhando apenas 10 pessoas e ainda com maquinaria deficiente, era possível fabricar "entre todos, mais de 48 mil alfinetes por dia".
E destaca uma observação valiosa: "Grande parte das máquinas empregadas naquelas indústrias onde o trabalho é mais subdividido foram inventadas originalmente por operários comuns."
Ou seja, a inovação, muitas vezes, surge da criatividade das pessoas que estão diretamente em contato com o problema. E Smith ilustra este fato com um exemplo que parece ter sido retirado de um conto de ficção.
Quando surgiram as primeiras máquinas a vapor, um menino era contratado para abrir e fechar constantemente a válvula que conectava a caldeira ao cilindro. Aquela era sua única tarefa, o dia inteiro.
Entediado, ele amarrou uma corda à válvula para que ela abrisse e fechasse sozinha. E foi brincar com seus amigos.
Smith considerava este desenvolvimento como um dos maiores avanços da máquina, desde a sua invenção.

Crédito,Getty Images
A divisão do trabalho não é a única ideia que reverbera até hoje. O livro também fala da importância do livre comércio, embora com limites para proteger a igualdade.
Smith não inventou literalmente a expressão "livre comércio", mas foi um dos primeiros a sistematizar a teoria econômica que a sustenta.
A frase, enquanto política concreta e termo geral, seria popularizada mais tarde, especialmente no século 19, com os debates sobre tarifas de importação no Reino Unido e nos EUA.
Mas, no seu livro, Smith defendeu a eliminação de restrições comerciais e o benefício do comércio entre as nações, permitindo que cada país produza o que melhor souber fazer e tenha acesso àquilo que não produz.
Ele também alertou sobre os riscos da concentração da riqueza e dos monopólios.
E deixou uma imagem que cativou gerações: a "mão invisível", a ideia de que quem busca seu próprio benefício pode, mesmo sem intenção, contribuir para o bem comum.
Curiosamente, esta metáfora já foi mencionada inúmeras vezes nos últimos dois séculos e meio. Mas Smith a usou apenas uma vez e seu contexto original era muito mais sutil do que hoje em dia.
Ele defende que os comerciantes, quando preferem investir perto de casa, beneficiam seu país sem que tenham esta intenção. E, na mesma passagem, deixa entrever seu ceticismo em relação àqueles que invocam o bem comum como justificativa:
"Nunca tive conhecimento de que aqueles que dizem fazer comércio pelo bem público tenham feito isso muito bem." O século 20 tomou esta modesta metáfora e a transformou em lei.
É claro que Adam Smith disse muito mais. Sua obra tem quase mil páginas e resumi-la não é fácil, mas suas principais ideias continuam válidas hoje em dia.
Mas não podemos deixar de fora uma dessas ideias, que pode parecer simples, mas é radical.
Para ele, a riqueza de uma nação não reside no ouro que há nos seus cofres, nem na fortuna de alguns poucos privilegiados, mas no nível de vida da sua população.
O ano era 1776. E Adam Smith já articulava o que mundo só tentaria construir um século depois: o bem-estar social.
Radical
"Acredito que suas ideias eram radicais para a época e que ele tinha consciência disso", afirma o professor de história do pensamento político Craig Smith, da Universidade de Glasgow, na Escócia — a mesma que contou com Adam Smith como diretor.
Do edifício que leva o nome do famoso escocês, o Smith contemporâneo estuda o Smith clássico há décadas.
"Ele qualificou o livro como um ataque muito violento a todo o sistema comercial britânico. E, se você parar para pensar, é mais ou menos o que ele fez", destacou ele, em conversa com o apresentador Rob Young, no programa de rádio Business Daily, do Serviço Mundial da BBC.
Ele explica que a obra criticava as grandes corporações comerciais, como a Companhia das Índias Orientais, por serem prejudiciais para o Reino Unido.
E também questionava a expansão imperial e as colônias, quando eram acompanhadas de monopólios comerciais. Ele atacava a Igreja, as universidades e praticamente todos os elementos da ordem estabelecida no seu tempo.
Mas por que, então, ele não é lembrado como um pensador radical?
"Ele parece ter conseguido algo bastante raro na história das ideias: apresentar uma série de argumentos muito radicais, de forma tão cuidadosa e respaldada por evidências empíricas, que, para o leitor, não parece tão radical quanto realmente é."
Após a publicação do livro, ele imediatamente se tornou famoso. Muitos políticos começaram a citá-lo e a se declarar seguidores de Adam Smith.
Mas o historiador destaca que as políticas relativas a muitos aspectos criticados duramente por Smith simplesmente continuaram como eram antes.
"Foi apenas no início do século 19 que o livre comércio começou a ganhar terreno como agenda política concreta", segundo Craig Smith.

Crédito,Getty Images
Adam Smith é frequentemente chamado de pai da economia ou do capitalismo. Mas é possível atribuir a ele a responsabilidade pela economia globalizada que temos hoje em dia?
"Esta é uma pergunta difícil", responde Craig Smith.
Para ele, Smith forneceu ferramentas analíticas para entendermos como funciona uma sociedade comercial. E, "quando você tem essas ferramentas, pode desenvolver melhor os tipos de estratégias para as empresas e as diferentes políticas para os governos".
"Mas não acredito que A Riqueza das Nações seja uma espécie de plano para o capitalismo global."
De fato, o termo "capitalismo" levaria décadas para surgir e só se popularizaria no início do século 20.
"Acredito que Smith esperava que seu livro fornecesse uma compreensão mais clara, uma compreensão científica de como funciona a economia política", explica o professor.
"E que, como resultado, as pessoas não ficassem sujeitas a teorias falsas, nem se deixassem persuadir por argumentos interesseiros de certos protagonistas econômicos poderosos."
Esta esperança, em grande parte, continua sendo uma aspiração.
Apreciar a leitura
Adam Smith se autodescrevia como filósofo moral.
Sua obra foi escrita para um público interessado no assunto, mas não especializado. Ele não tem jargão incompreensível, mas sim relatos de observações pessoais e faz constar seus pensamentos e análises sobre o mundo que o rodeava.
Mundo este que estava em total ebulição.
Como destaca o economista Robert Reich, a antiga ordem da Igreja e a prerrogativa real estavam dando espaço para uma noção totalmente nova: de que as sociedades existem para as pessoas que as integram.
Não por acaso, o livro foi publicado em 1776, o mesmo ano em que os americanos declararam sua independência, com direito natural à vida, à liberdade e à busca da felicidade.
Os grandes pensadores do Iluminismo tinham como certo que os indivíduos se esforçariam para melhorar suas vidas, não por egoísmo, mas porque esta é a motivação fundamental de todo ser humano. A boa sociedade seria, portanto, aquela que oferecesse esta possibilidade.
As ideias de Smith se encaixavam perfeitamente nesta nova concepção.
Ele observou o capitalismo industrial que acabava de nascer e não poderia prever a magnitude da transformação que aquele sistema sofreria nos séculos seguintes.
Mas o tempo não o transformou em arquivo morto.
Em 2023, a economista Gita Gopinath, então vice-diretora do Fundo Monetário Internacional (FMI) (hoje, de volta à Universidade Harvard, nos Estados Unidos), deu uma conferência na Universidade de Glasgow comparando a inteligência artificial com a Revolução Industrial, que Smith presenciou em vida.
Gopinath destacou que a IA "poderá mudar nossas vidas de formas espetaculares e, possivelmente, existenciais. Poderá até redefinir o que significa ser humano."
Ela afirmou que Smith, considerando seu interesse por uma economia que beneficiasse a todos, provavelmente também teria tido suas ressalvas.
"A mão invisível sozinha pode não ser suficiente para garantir benefícios amplos para a sociedade", segundo a economista.
O título da conferência, adequadamente, era "O poder e os perigos da mão artificial".
Um homem do século 18, que nunca usou a palavra capitalismo, que se considerava filósofo e não economista, que escreveu sobre fabricantes de alfinetes e um menino entediado ao lado de uma máquina a vapor, continua sendo referência obrigatória quando a humanidade enfrenta suas maiores transformações.
Esta talvez seja a melhor definição de um clássico.
Por tudo isso, provavelmente vale a pena seguir o conselho de Craig Smith em um vídeo da Universidade de Glasgow, por motivo do 250° aniversário do livro:
"Pegue este exemplar empoeirado de A Riqueza das Nações, que você mantém na estante desde que era estudante universitário... leia... você apreciará a leitura."
Algumas das fontes consultadas para esta reportagem (em inglês):
"O livro que construiu a economia moderna", episódio do programa de rádio Business Daily, do Serviço Mundial da BBC.
"O 250º aniversário do revolucionário texto de Adam Smith", de Robert Reich.
O que faz de Terence Tao 'o melhor matemático vivo do mundo'

Crédito,Steve Jennings/Getty Images for Breakthrough Prize
- Author,Margarita Rodríguez
- Role,BBC News Mundo
- Tempo de leitura: 10 min
Quando Terence Tao tinha sete anos, começou a frequentar o ensino médio para estudar matemática e outras disciplinas.
"Lembro que colocaram uma almofada especial na cadeira porque eu não alcançava a mesa", contou à BBC Mundo, de Los Angeles, onde leciona e pesquisa há mais de 25 anos.
Tao nasceu na Austrália em 1975. Seus pais, Billy e Grace, haviam chegado ao país vindos de Hong Kong.
Quando começou a ter aulas no ensino médio em seu país natal, ele era tão pequeno que os professores designaram um estudante para acompanhá-lo até as salas de aula, caso pudesse "se perder".
"Eu parecia diferente dos outros porque era cinco anos mais novo, mas depois de algumas semanas isso já não importava tanto, porque todos tínhamos dificuldades com as mesmas tarefas — estávamos praticamente no mesmo nível."
Esse prodígio se tornou um dos matemáticos mais destacados da história da disciplina.
"Tao, apelidado de 'Mozart da matemática' e amplamente considerado o melhor matemático vivo do mundo, transformou vastas áreas da matemática", afirma a Universidade da Califórnia, em Los Angeles (UCLA), onde ele trabalha.
Em 2006, quando ganhou a Medalha Fields, considerada o Nobel da matemática, sua habilidade para resolver problemas foi descrita como "suprema", e o impacto de seu trabalho em várias áreas como "espetacular".
"Ele combina um poder técnico puro, uma engenhosidade quase de outro mundo para encontrar novas ideias e um ponto de vista surpreendentemente natural, que faz outros matemáticos se perguntarem: 'Por que ninguém viu isso antes?'".
Números para limpar

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Terence Tao conta que, desde que se lembra, sempre gostou de números e jogos relacionados a eles.
"Uma das primeiras lembranças que tenho é de quando eu tinha três ou quatro anos: minha avó ia até nossa casa limpar as janelas, e eu pedia para que ela fizesse números com o sabão no vidro. Eu dizia: 'coloque o 3 ali e o 7 lá'."
Ele se lembra de quando ficava muito agitado durante a noite e seus pais lhe davam livros com exercícios de matemática para ele fazer contas e operações.
"Eu adorava fazer a lição de aritmética. Acho que era uma das poucas crianças que realmente gostava disso."
Mas o interesse pelos números começou ainda antes.
Pelos relatos dos pais, quando tinha dois anos, ele ensinava outras crianças mais velhas a contar, somar e soletrar.
Depois, percebeu que a matemática era muito mais do que uma espécie de jogo ou fazer cálculos rapidamente; descobriu que "podia ser usada para entender o mundo e que tinha aplicações práticas".

Crédito,Arquivo pessoal/Terence Tao
Seu talento excepcional fez com que, aos sete anos, sua família e seus professores decidissem adiantá-lo para cursar matemática e outras matérias ligadas às ciências no ensino médio.
"Ainda frequentava o ensino fundamental para estudar disciplinas como inglês e educação física", lembra. "Minha mãe me buscava, me levava para o ensino médio e depois me trazia de volta para a escola."
"Por muitos anos, ela passou a vida dirigindo", diz ele, com um sorriso. Isso porque, além dele, seus pais tiveram outros dois filhos que também estudavam em escolas diferentes.
Ele conta que, quando voltava da escola, batia na porta do vizinho, que tinha a mesma idade, para saírem para brincar. "A gente ia andar de bicicleta."
Dessa época, Tao guarda boas lembranças — com uma exceção: o baile de fim de ano no ensino médio.
"Eu ainda era muito novo para ir, e fiquei triste porque todo mundo ia participar, menos eu."
Uma visita a Princeton
Quando era criança, Terence Tao gostava muito de física, porque percebeu que essa disciplina pega aspectos do mundo e os transforma em equações que podem ser resolvidas.
"Outras disciplinas foram mais difíceis para mim, como biologia e química, porque eu sentia que não conseguia resolver as questões a partir de princípios básicos — muitas vezes precisava memorizar muitos dados."
"Inglês foi minha pior disciplina", confessa. "Quando criança, eu tinha dificuldade em entender a intenção por trás de uma pergunta; levava as coisas de forma muito literal."
"Por exemplo, em uma prova pediram que eu escrevesse sobre minha casa, e eu não entendi o que queriam dizer — então apenas fiz uma lista de todos os cômodos da casa e de todos os móveis em cada um deles."

Crédito,Arquivo pessoal/Terence Tao
A matemática sempre foi sua matéria favorita. Aos 9 anos, Terence Tao já estava mergulhado em problemas complexos.
Nessa idade, seu pai o levou ao Institute for Advanced Study, em Princeton, onde se encontraram com dois matemáticos de destaque, Enrico Bombieri e Charles Fefferman — ambos vencedores da Medalha Fields.
O pai fez uma pergunta direta: "Esse menino tem talento de verdade?". Para avaliar sua criatividade, os matemáticos propuseram alguns problemas a Tao.
O desempenho dele levou Fefferman a dizer: "Se eu tivesse dito que não, isso entraria para uma lista muito curta dos erros mais tolos que cometi na vida".
Essa história foi relembrada em fevereiro por Rodney D. Priestley, decano da pós-graduação da Universidade de Princeton, ao conceder a Tao a Medalha James Madison da instituição.
"Seu brilho técnico, sua criatividade excepcional, sua curiosidade ampla e seu espírito colaborativo levaram a múltiplas descobertas revolucionárias", afirmou o professor.
"O trabalho dele também melhorou vidas de forma tangível", acrescentou, referindo-se ao desenvolvimento de algoritmos que contribuíram para avanços em exames de ressonância magnética.
Na universidade
Aos 14 anos, Terence Tao começou a estudar em tempo integral na Universidade de Flinders, em Adelaide.
A instituição afirma que ele ainda é um dos estudantes mais jovens a se matricular em Flinders, tendo se formado com um mestrado aos 16 anos.
Um ano depois, viajou novamente aos Estados Unidos para iniciar o doutorado na Universidade de Princeton.
"Era a primeira vez que eu morava longe de casa", conta.
Embora Tao — que aos 13 anos venceu as Olimpíadas de Matemática — já tivesse viajado algumas vezes para participar de competições, nunca havia ficado longe da família por mais de uma semana.
Seu pai viajou junto para ajudá-lo a se instalar em Princeton e ficou com ele por uma semana.
"Ele me ensinou o básico: lavar roupa — algo que minha mãe sempre fazia —, abrir uma conta bancária, fazer compras."

Crédito,Arquivo pessoal/Terence Tao
Como ele, havia outros estudantes de matemática e física enfrentando a primeira experiência de viver longe de casa.
Desse período, Terence Tao guarda muitas lembranças agradáveis com os novos amigos, indo ao cinema e jogando videogame.
Concluiu o doutorado aos 21 anos e seguiu para a Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), onde começou como professor assistente.
Três anos depois, foi promovido a professor titular.
"Eu tinha praticamente a mesma idade que meus alunos. Acho que eles ficaram um pouco surpresos quando me viram caminhar até o quadro."
De fato, Tao se tornou o professor catedrático mais jovem da UCLA.
'Um Leonardo da Vinci'
Daniel Peralta, pesquisador do Instituto de Ciências Matemáticas (ICMAT), vinculado ao Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC), considera Tao "uma pessoa de enorme humildade, nada parecido com uma estrela do rock".
"A gente pode pensar que alguém que tem tanto conhecimento, que contribuiu tanto, que é tão importante, que ganhou todos os prêmios, não vai ouvir ninguém — mas é exatamente o contrário: ele escuta muito."

Crédito,Arquivo pessoal/Terence Tao
Terence Tao trabalhou em áreas da matemática que, à primeira vista, podem parecer muito diferentes — da teoria dos números às equações diferenciais, da análise harmônica a, mais recentemente, problemas ligados à computação.
"Eu diria que ele é um Mozart da matemática no sentido da precocidade, mas também é um Leonardo da Vinci", afirma Daniel Peralta.
"Ele traz uma visão enorme, uma amplitude de conhecimento e uma genialidade para todas as áreas da matemática que tocou — e são muitas."
"É uma exceção ter uma figura como ele na matemática moderna. É praticamente impossível, muito raro, que alguém consiga abarcar tantas áreas."
"Não consigo pensar em outro matemático nos últimos 50 anos que tenha chegado tão alto quanto ele", conclui Peralta.
Ele também destaca os livros didáticos publicados por Tao, que classifica como "extraordinários": "É impressionante o que se aprende — eles sintetizam de forma brilhante o tema que abordam."
'Como se estivesse com Newton'
A ideia do gênio da matemática que trabalha sozinho e resolve problemas extremamente complexos por conta própria parece ter ficado no passado.
Terence Tao não apenas demonstra isso na forma como trabalha, como também faz questão de destacar esse ponto.
"Talvez há uns 100 anos fosse uma atividade mais individual, mas o campo amadureceu muito", afirma. "Hoje, por exemplo, há muitas publicações em matemática."
"O campo é tão vasto que não existe uma única pessoa, por mais inteligente que seja, que domine todas as técnicas, tudo o que já foi feito."

Crédito,Arquivo pessoal/Terence Tao
"Quando eu era jovem, participava de competições de matemática em que te davam alguns problemas, te colocavam em uma sala por três horas, sem poder consultar livros ou anotações, nada — e você tinha que resolvê-los sozinho. Achei que era disso que se tratava a matemática."
Mas hoje, ele diz, quando quer resolver um problema matemático, muitas vezes trata-se de entender o que outras pessoas já fizeram e usar essas técnicas.
Terence Tao destaca que, em muitos casos, é necessário trabalhar com alguém que domine essas técnicas.
A colaboração é fundamental em qualquer área da matemática — e não apenas com "pessoas do presente", afirma.
"Quando você colabora, quando usa um resultado da literatura matemática, é como se estivesse trabalhando com, por exemplo, Isaac Newton, Carl Friedrich Gauss ou com alguém que viveu décadas atrás."
'As melhores ideias vêm de todo o mundo'
E a colaboração não acontece apenas entre matemáticos, mas também entre pesquisadores de outras áreas.
"Os problemas em que trabalhamos hoje são tão complexos e interdisciplinares que basicamente ninguém consegue fazer tudo sozinho."
Em suas palestras públicas, Terence Tao tenta mostrar como a matemática está escondida em muitos dos dispositivos e serviços que usamos no dia a dia.
Por exemplo, explica, quando surgiram os primeiros celulares, havia um problema de interferência quando muitas pessoas, em um mesmo lugar, faziam chamadas ao mesmo tempo. Isso foi resolvido graças a métodos matemáticos.

Crédito,Jesse Grant/Getty Images
Ele destaca que muitos dos grandes avanços científicos e tecnológicos começaram com pesquisa básica financiada com recursos públicos. Depois, esse conhecimento foi compartilhado em publicações para que qualquer pessoa pudesse utilizá-lo livremente, criando um amplo sistema de cooperação.
"Não se trata apenas de pessoas na sua empresa ou no seu país — as melhores ideias vêm de todo o mundo."
Em um ensaio publicado em 2025 no site *Home of the Brave*, Terence Tao falou dos Estados Unidos, país que escolheu como seu "lar adotivo": um lugar onde "a ciência é valorizada como um bem público, e onde pesquisadores de todo o mundo vêm contribuir com suas ideias e energia".
Ele disse à BBC Mundo que "com frequência, as universidades alcançam grandes resultados porque reúnem muitas pessoas com interesses diferentes, no mesmo lugar, que conversam entre si e estabelecem conexões que talvez não surgissem de outra forma".
Por isso, Tao alerta para os riscos desse ecossistema — o mesmo que moldou sua trajetória profissional — se enfraquecer com cortes no financiamento de projetos de pesquisa e instituições acadêmicas, além de obstáculos migratórios para estudantes internacionais.
"Isso vai prejudicar e reduzir oportunidades no futuro. Muitas descobertas podem deixar de acontecer porque as pessoas que precisamos que se encontrem e troquem ideias talvez nunca cheguem a se conhecer — ou até aconteçam, mas fora dos Estados Unidos."