Sobre a Obra e o Autor
Publicado em 2024 pela Editora Bertrand do Brasil, Vadios e Ciganos, Heréticos e Bruxas é uma obra que resgata um aspecto pouco explorado da história do Brasil colonial: o papel dos degredados – pessoas condenadas ao exílio forçado de Portugal para a Colônia .
O autor, Geraldo Pieroni, é doutor em História pela Universidade de Brasília (UnB), onde foi bolsista recém-doutor no Departamento de História. O livro é fruto de um exaustivo trabalho de pesquisa em arquivos portugueses e brasileiros, incluindo livros raros, enciclopédias, coleções de leis e processos inquisitoriais, originando-se de sua tese de doutoramento .
Com cerca de 144 páginas, a obra se destaca por ser um trabalho pioneiro sobre a pena de banimento de Portugal para o Brasil durante o período colonial . O próprio autor reconhece que o livro "nasceu na universidade, no meio de documentos e teorias históricas", mas que sua intenção foi "amenizar a linguagem acadêmica" para que a história "saia da academia mas sem perder seus métodos e rigor na pesquisa sobretudo nas fontes primárias" .
Estrutura da Obra
Embora os sumários disponíveis não detalhem a estrutura capitular completa, a obra é organizada em torno dos diferentes grupos sociais que foram submetidos ao degredo:
Vadios e ociosos – punidos pela "falta de trabalho"
Ciganos – perseguidos por seus costumes nômades
Heréticos e cristãos-novos – judeus convertidos ao catolicismo, mas suspeitos de manter práticas judaicas
Bruxas e feiticeiras – acusadas de invocação demoníaca e práticas mágicas
Prostitutas e outros "indesejáveis" – incluindo ladrões e marginais em geral
Principais Teses e Argumentos Centrais
1. O Degredo como Política Imperial Portuguesa
A tese central do livro é que Portugal transformou o Brasil em uma "prisão a céu aberto" durante os séculos XVI, XVII e XVIII. O degredo funcionava como um recurso judicial e social com dupla função: "esvaziava as ruas de Lisboa dos pobres e desviantes, e ao mesmo tempo fornecia braços para a colonização" .
Pieroni demonstra que "a chamada 'migração forçada' faz parte da história do Atlântico Sul", e que o degredo insere-se no contexto mais amplo da modernidade europeia, que "presenciou as maiores transferências forçadas de população de africanos e europeus" .
2. A Construção Social do "Indesejável"
Um dos argumentos mais importantes do livro é a desconstrução da imagem tradicional do degredado como "sinônimo de pessoa marginal e violenta". Pieroni mostra que as leis sobre o degredo eram "construções inseridas no tempo no qual foram decretadas e funcionavam de acordo com os interesses do Estado e da Igreja" .
Muitas das pessoas enviadas ao degredo haviam cometido "crimes muitas vezes ridículos e que atualmente não renderiam nem uma multa de trânsito". O autor demonstra os "conchavos e interesses políticos e econômicos da coroa portuguesa por trás da imposição das penas de degredo", especialmente no caso dos cristãos-novos, cujos bens eram confiscados pela Coroa .
3. A Inquisição e o Degredo
Pieroni dedica atenção especial ao papel do Santo Ofício na política do degredo. Como ele escreve em seu artigo acadêmico sobre o tema, "para o Santo Ofício, o degredo funcionou como uma necessária defesa contra a heterodoxia" . A Inquisição Portuguesa utilizou o degredo como ferramenta de "purificação" do Reino, enviando para o Brasil aqueles considerados uma ameaça à ortodoxia católica.
Uma descoberta significativa de sua pesquisa é que, entre os degredados enviados pela Inquisição, 52% eram cristãos-novos (judeus convertidos ao catolicismo), o que levanta a questão central de seu artigo: eram eles criptojudaizantes ou católicos sinceros?
4. A Dupla Face do Degredado: Peso e Necessidade
O livro revela uma tensão fundamental na relação entre a Coroa portuguesa e os degredados. Os donatários (donos das capitanias hereditárias) "tiveram que se haver com eles, com horror, ou, mesmo, com intenção utilitária para a funcionalidade da colonização" . Os degredados eram ao mesmo tempo uma praga (indesejáveis, perigosos, imorais) e uma necessidade (mão de obra para povoar e defender o território).
Esta ambiguidade é capturada por uma leitora do blog Mar de Histórias, que observa que Pieroni "vai além de desvendar a história dos degredados no Brasil-Colônia. Ao desfazer algumas das construções da historiografia sobre degredados, como sinônimos de pessoas marginais e violentas, ele nos mostra as nuanças das leis e a lógica da atuação do Estado e da Igreja portugueses nos séculos XVI-XVII" .
5. Os Degredados e a Formação da Identidade Brasileira
Uma das contribuições mais originais do livro é a tese de que os degredados foram agentes ativos na formação da cultura brasileira. Pieroni argumenta que "junto com os corpos, vieram crenças, saberes e práticas condenadas na Europa. O Brasil tornou-se laboratório de hibridismos culturais: rezas, feitiços, saberes de ervas, rituais mágicos e heresias se mesclaram com tradições indígenas e africanas" .
Esta perspectiva desafia a visão tradicional da colonização como um processo exclusivamente conduzido por heróis, exploradores e missionários, revelando uma "face oculta" do Brasil colonial feita de "marginais, perseguidos e malditos" .
Os Grupos de Degredados em Detalhe
Ciganos
A perseguição aos ciganos na Península Ibérica remonta ao século XV. Pesquisas demonstram que os ciganos chegaram ao Brasil ainda no período colonial, "não existe um consenso quanto à data exata. Essas informações remetem ao degredo de indivíduos ou famílias ciganas, por determinação da Coroa Portuguesa. As deportações de ciganos de Portugal para o Brasil se estenderam até o final do século XVIII" .
Pieroni destaca o século XVII "como o momento em que se generalizou o degredo de 'bandos' de ciganos para o Brasil, principalmente após a resolução real de 1686 baseada nas orientações de Filipe II (1610) que determinava o degredo de ciganos para a África, e posteriormente para o território brasileiro" .
Cristãos-Novos e Heréticos
Os cristãos-novos constituíram o grupo mais numeroso entre os degredados religiosos, representando 52% do total . A perseguição a este grupo estava ligada à suspeita de criptojudaísmo – a prática secreta do judaísmo após a conversão forçada ao catolicismo.
Pieroni mostra como "os bens das famílias, claro, não cruzavam o oceano com elas" – o confisco de propriedades era um motivador econômico significativo por trás das perseguições religiosas .
Bruxas e Feiticeiras
O livro inclui a análise de casos concretos, como o de Maria Seixas, "acusada de bruxaria e invocação ao demônio", cujo processo inquisitorial é descrito na Introdução da obra . Pieroni demonstra como a acusação de bruxaria servia frequentemente para punir mulheres que desafiavam as normas sociais ou religiosas de sua época.
Citações e Análise Detalhada
Sobre a Natureza do Degredo
"O degredo era um recurso judicial e social: esvaziava as ruas de Lisboa dos pobres e desviantes, e ao mesmo tempo fornecia braços para a colonização" .
Esta citação captura a dupla função do degredo: punição para o indivíduo, utilidade para o Estado.
Sobre a Injustiça das Penas
"O autor resgatou todo um grupo de indivíduos que ao longo da história do país foi mal compreendido e pior ainda descrito... desmentindo velhos tabus que atribuem toda sorte de desgraças sociais do Brasil de agora aos degredados enviados para cá por crimes muitas vezes ridículos e que atualmente não renderiam nem uma multa de trânsito" .
Esta passagem (de uma resenha) destaca um dos principais objetivos do livro: desfazer a imagem negativa dos degredados como fontes da criminalidade brasileira.
Sobre a Hibridização Cultural
"O Brasil tornou-se laboratório de hibridismos culturais: rezas, feitiços, saberes de ervas, rituais mágicos e heresias se mesclaram com tradições indígenas e africanas" .
Pieroni sugere que os degredados, longe de serem meramente "escória descartada", contribuíram ativamente para a formação da cultura popular brasileira.
Críticas e Debates
Críticas Positivas
1. Pioneirismo e Relevância: O livro é descrito como um "trabalho específico pioneiro que aborda a pena de banimento de Portugal para o Brasil durante o período colonial", preenchendo "uma lacuna histórica que permite reconstruir as trajetórias daqueles que atravessaram o Atlântico premidos pelas necessidades fundamentais do estabelecimento da colonização na América do Sul" .
2. Rigor de Pesquisa: A obra é fruto de um "exaustivo trabalho de pesquisa em arquivos, livros raros, enciclopédias, coleções de leis e processos de degredados" . O autor realizou pesquisas "nos diversos arquivos de Portugal e Brasil" .
3. Desconstrução de Mitos: Um dos maiores méritos do livro é "desfazer algumas das construções da historiografia sobre os banidos vistos como sinônimo de pessoas marginais e violentas" .
4. Linguagem Acessível: A obra é elogiada por sua "linguagem clara e direta que se lê com prazer", afastando-se do "academicismo metido a besta" .
Críticas e Limitações
1. Irregularidade no Tom Narrativo (Crítica Mais Frequente): Uma resenha detalhada no blog Mar de Histórias aponta que o livro, embora escrito com "fluência e boa cadência narrativa", não consegue "deixar de ser didático". A crítica observa que "quando a leitura embala, lá vem uma certa sisudez cortar o barato" .
Esta irregularidade é atribuída à origem acadêmica do livro: "Geraldo Pieroni é um historiador e o livro deriva de sua tese de doutorado". Embora o autor tenha tentado "amenizar a linguagem acadêmica", o texto mantém uma certa sisudez que pode afastar leitores em busca de uma narrativa mais romanceada .
2. Falta de "Romanceamento" Histórico: A mesma resenha compara a obra desfavoravelmente com autores como Eduardo Bueno e Laurentino Gomes (jornalistas que escrevem história de forma romanceada). Pieroni "não avança além do relato dos fatos, como um professor faria em sala de aula, sem aquela pincelada romanesca que o tema sugere" .
A resenha cita o exemplo de O Português que nos Pariu, de Angela Dutra de Menezes, que "igualmente sério no seu teor histórico documental, mas deliciosamente leve na forma" teria conseguido equilibrar melhor rigor acadêmico e leveza narrativa .
3. Público-Alvo Restrito: Uma consequência da irregularidade narrativa é que o livro "é leitura no mínimo, para quem curtiu muito as aulas de História no ensino médio. Sendo que alguns trechos realmente falam mais ao coração dos pesquisadores profissionais". O leitor em busca de aventura "não se sente seduzido a também singrar os mares na companhia dos homens e mulheres que foram condenados ao desterro" .
4. Resposta do Autor às Críticas: Em uma nota notável de abertura ao diálogo, o próprio Geraldo Pieroni respondeu a esta resenha crítica, reconhecendo as limitações apontadas:
"Realmente a pesquisa nasceu na universidade, no meio de documentos e teorias históricas. Tentei o máximo amenizar a linguagem acadêmica quando publiquei Vadios e Ciganos…. Acho que a história tem que sair da academia mas sem perder seus métodos e rigor na pesquisa sobretudo nas fontes primárias. O meu outro livro que é minha tese de doutoramento, 'Os excluídos do Reino' aprofunda bem mais o tema, no entanto, como vc escreveu, 'a sisudez corta o barato' de quem prefere viajar com os degredados" .
Esta resposta é importante porque revela que o autor está consciente das limitações da obra e que existe um livro acadêmico mais aprofundado (Os excluídos do Reino) para leitores que desejam maior rigor teórico.
5. Ausência de Aprofundamento em Temas Específicos: Embora a obra cubra múltiplos grupos de degredados (ciganos, cristãos-novos, bruxas, vadios), a extensão relativamente curta do livro (144 páginas) pode implicar que alguns temas recebem tratamento menos aprofundado do que mereceriam. O autor reconhece que sua tese de doutorado, Os excluídos do Reino, "aprofunda bem mais o tema" .
A Contribuição de Pieroni aos Estudos Ciganos
Uma crítica indireta, mas significativa, vem do campo dos estudos ciganos. O antropólogo Renato Athias, em artigo acadêmico, cita Pieroni como uma das referências importantes para a compreensão da presença cigana no Brasil colonial. Athias observa que "historiadores, entre os quais Geraldo Pieroni destaca o Séc. XVII como o momento em que se generalizou o degredo de 'bandos' de ciganos para o Brasil" .
Esta citação acadêmica indica que, apesar das limitações narrativas apontadas por resenhistas, o trabalho de Pieroni é reconhecido como uma contribuição substantiva para o conhecimento histórico sobre os ciganos no Brasil.
Contexto Historiográfico
O livro insere-se em um movimento mais amplo da historiografia brasileira que busca dar voz a grupos tradicionalmente marginalizados nas narrativas históricas oficiais. Como observa o blog Factótum Cultural:
"Quando falamos de Brasil-colônia, pensamos logo em jesuítas, índios catequizados, senhores de engenho e escravos africanos. Mas Geraldo Pieroni, em Vadios e ciganos, heréticos e bruxas, nos lembra que há outra face da história: o Brasil foi também terra de exílio, castigo e purgação" .
Esta "face oculta" da colonização inclui não apenas os degredados europeus, mas também as populações indígenas e africanas com as quais eles interagiram, formando um "caldeirão de culturas, crenças, misérias e resistências" .
A Pergunta Final do Livro
Uma das contribuições mais provocativas do livro é a pergunta que lança sobre o presente:
"No fim, a pergunta que o livro lança é perturbadora: se fomos formados por degredados e marginalizados, até que ponto nossa sociedade ainda repete, hoje, o hábito de expulsar, estigmatizar e silenciar os que não se encaixam?" .
Esta questão conecta a análise histórica a problemas contemporâneos, sugerindo que o estigma que recai sobre "povos nômades, sobre práticas religiosas afro-brasileiras, sobre pobres considerados 'vadios' vem dessa mentalidade colonial" .
Avaliação Geral e Conclusão
Vadios e Ciganos, Heréticos e Bruxas é uma obra que cumpre com sucesso seu objetivo declarado: trazer à luz um aspecto pouco conhecido, mas fundamental, da história do Brasil colonial.
Pontos fortes:
Pioneirismo no tratamento do tema do degredo no Brasil colonial
Rigor de pesquisa em fontes primárias portuguesas e brasileiras
Desconstrução de mitos e estereótipos sobre os degredados
Linguagem acessível (dentro dos limites do gênero acadêmico)
Conexão entre passado colonial e problemas sociais contemporâneos
Limitações:
Irregularidade no tom narrativo (alternância entre fluidez e sisudez acadêmica)
Público-alvo restrito a leitores com alguma familiaridade com história acadêmica
Extensão relativamente curta para a amplitude do tema
Falta de aprofundamento em alguns subtemas (remetendo o leitor a Os excluídos do Reino)
Público-alvo: O livro é recomendado para estudantes de história (ensino médio e superior), pesquisadores interessados em história colonial portuguesa e brasileira, e leitores em geral com interesse em aspectos menos conhecidos da formação do Brasil. Como observa uma resenha, é "leitura obrigatória para quem quer compreender o Brasil além da superfície" .
Relação com outras obras do autor: Pieroni recomenda que leitores que desejam maior aprofundamento teórico e documental consultem sua tese de doutorado, Os excluídos do Reino: Inquisição e degredo para o Brasil-Colônia, que "aprofunda bem mais o tema" . Vadios e Ciganos funcionaria, portanto, como uma versão mais acessível e sintética do mesmo universo de pesquisa.
Avaliação final: O livro representa uma contribuição significativa para a historiografia brasileira ao resgatar a "categoria silenciada" dos degredados . Sua principal virtude é desfazer a imagem negativa destes personagens como meramente "marginais e violentos", revelando as complexidades das leis, dos interesses políticos e religiosos, e das trajetórias individuais que moldaram a colonização do Brasil. A despeito de suas limitações narrativas, é uma obra que "faz emergir, para a história brasileira, a categoria silenciada até então – os degredados e sua trajetória" .