SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sábado, 31 de outubro de 2026

O Amor venceu o ódio em 2026!

 


A vitória de Lula em 2022, com margem apertada de 50,9% a 49,1% dos votos válidos, não representou apenas uma alternância de poder, mas um sintoma de um Brasil profundamente dividido que exige novas formas de habitar o mundo. A partir desse marco, a construção de "novas formas de ser, viver e governar" exige articulação entre a concretude das políticas públicas, a crítica à fragmentação digital e uma pedagogia da convivência que nos retire das bolhas e nos insira em ecossistemas plurais. Mas a eleição de 2026 não repetiu o roteiro de 2022. Em 25 de outubro de 2026, Lula venceu o segundo turno com 51,79% dos votos válidos (64.256.232 votos), derrotando Flávio Bolsonaro, que obteve 48,21% (59.826.041 votos). Mas o dado decisivo está no primeiro turno: Flávio liderou com 47,03% contra 45,16% de Lula — vantagem de cerca de 2,2 milhões de votos. Lula tornou-se, assim, o primeiro presidente desde a redemocratização a perder o primeiro turno e virar no segundo, numa virada de mais de 4,4 milhões de votos. No segundo turno, Lula cresceu em todos os 26 estados e no Distrito Federal, somando mais de 10 milhões de votos em relação ao primeiro turno — 2,6 milhões só em São Paulo, 1,1 milhão em Minas Gerais (onde virou o placar) e 872 mil no Rio de Janeiro, território político de Flávio.

O Desafio Antropológico: Sair da "Curadoria do Eu" para o Ecossistema

A eleição evidenciou um fenômeno que a pesquisadora Catharina Vale chama de "curadoria do eu": a tendência de jovens e cidadãos de filtrarem radicalmente o conteúdo que consomem nas redes sociais como forma de proteção contra o cansaço da polarização. Se, por um lado, essa blindagem protege o indivíduo de agressões virtuais, por outro, ela cria bolhas onde o outro desaparece, impedindo o diálogo social.

Para governar e viver agora, é preciso transmutar essa lógica de isolamento em ecossistemas sociais. Isso significa compreender a sociedade não como uma soma de identidades isoladas, mas como uma rede de interdependência. O desafio antropológico é resgatar a ideia de que a sobrevivência do "eu" depende da vitalidade do "nós". A vitória nas urnas, embora tenha sido celebrada nas ruas e nas redes por parte da população, só se sustenta politicamente se houver a coragem de romper as bolhas e criar espaços de convivência onde a diversidade não seja uma ameaça, mas um nutriente para a inovação social e política.

A Dimensão Espiritual e Educacional: O Amor como Prática Política

A transição do ódio para o amor, mencionada como força motriz da vitória, encontra ressonância em pensadores como Howard Thurman e Thich Nhat Hanh. Thurman argumentava que o amor não é uma sentimentalidade fraca, mas uma disciplina espiritual radical que exige compreender as raízes da raiva no outro e em si mesmo para, só então, ser capaz de transformar a realidade. Nhat Hanh complementa ao afirmar que "matar a raiva" é a única guerra justa, pois remove o sofrimento e traz paz.

No campo educacional, Edgar Morin oferece a bússola metodológica para essa transformação. Sua crítica à "cabeça bem cheia" (acúmulo de informações fragmentadas) em favor da "cabeça bem-feita" (capacidade de contextualizar e ligar saberes) é crucial. Para governar com o povo e transformar a pobreza e as violências, a educação precisa ser um exercício de complexidade. Não basta ensinar fatos; é preciso ensinar a condição humana, a compreensão e a ética do gênero humano. Isso implica uma pedagogia que una a espiritualidade (o cuidado com o outro) à sustentabilidade ambiental e à justiça social, formando cidadãos capazes de habitar os "ecossistemas" mencionados sem medo.

O Governar com o Povo: Sustentabilidade e Reconstrução

No plano concreto da gestão, as "novas formas de governar" anunciadas no discurso de posse apontam para uma tentativa de reverter o desmonte das políticas públicas e reintegrar o Brasil ao circuito da sustentabilidade. A promessa de desmatamento zero e a revogação de decretos armamentistas sinalizam uma mudança de paradigma: o Estado deixa de ser um facilitador da destruição (ambiental e social) para se tornar um garantidor da vida.

Contudo, para que isso se torne um "mundo novo" economicamente sustentável e justo, a governança precisa incorporar a dimensão do cuidado. Isso significa olhar para a pobreza não apenas como falta de renda, mas como falta de acesso a ecossistemas saudáveis (saneamento, cultura, segurança alimentar). A reconstrução do Estado é, portanto, indissociável da reconstrução do tecido social. Governar "com o povo" exige canais de participação que não sejam apenas digitais (e, portanto, sujeitos a algoritmos), mas presenciais e comunitários, onde o "bem, o belo e o justo" possam ser debatidos e experienciados na prática cotidiana.

Em síntese, a eleição de Lula abriu uma janela para a reinvenção, mas a arquitetura desse novo mundo depende de uma síntese inédita: a espiritualidade que nutre a resistência não violenta, a educação que complexifica o olhar para além das bolhas, e a política que traduz essa complexidade em políticas públicas de sustentabilidade e cuidado com os vulneráveis. O caminho da sabedoria, nesse contexto, é a recusa constante da simplificação (seja a das redes sociais ou a dos discursos de ódio) em favor da construção paciente de ecossistemas onde a vida — em sua diversidade biológica, cultural e espiritual — seja o centro das decisões.


sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Quando o denunciante adoece e a oligarquia dorme!




Dizem que o corpo fala quando a boca é calada. E que psiquismo nenhum suporta o peso de uma verdade que exige o sacrifício da própria sanidade. Hoje, enquanto a corrupção ri nos corredores do poder, quem a denúncia é internado, medicado, ameaçado de morte e perseguido até o osso. A perseguição não é mais a masmorra úmida; é o bombardeio de violências, o assédio moral travestido de legalidade, a difamação sistemática que corrói o sono e implanta o pânico. Jornalistas e delatores adoecem de ansiedade, depressão e pânico; seus algozes, de cinismo. É a mesma engrenagem que, noutros tempos e latitudes, quebrou homens e mulheres com métodos que a humanidade jurava ter enterrado.

Lembremos Dreyfus. Em 1894, um capitão judeu foi condenado por traição com base num dossiê forjado. A França inteira gritou "morte ao traidor". Ele foi degradado, enviado a prisão, e a nação assistiu ao linchamento moral de um inocente enquanto a razão de Estado exigia silêncio. A peça central não foi a espada, mas a mentira institucionalizada. Zola precisou fugir para não ser preso por dizer a verdade. O psiquismo de Dreyfus, o que restou dele após cinco anos de ilha do Diabo, ninguém mediu. A República só o reabilitou em 1906, quando a ferida já era gangrena.

Na Itália, a máfia não processa; ela explode. Giovanni Falcone, juiz que ousou tocar no intocável, foi assassinado em 1992 com 500 quilos de explosivo na autoestrada de Capaci. Com ele morreram a esposa e três agentes. Falcone não sofreu de depressão; foi desintegrado. O terror como resposta à denúncia é a forma mais brutal de censura: o silêncio feito de carne carbonizada. E Paolo Borsellino, seu parceiro, morreu semanas depois. O Estado italiano, que hoje os chora, conviveu com a máfia por décadas. A violência não é acidente: é o preço que se cobra de quem vê o que não devia.

Na América Latina, as ditaduras dos anos 1970 e 1980 transformaram o Estado em máquina de desaparecimento. No Chile de Pinochet, na Argentina de Videla, no Uruguai de Bordaberry, opositores eram jogados de aviões, torturados em centros clandestinos, enterrados como "NN". A psiquiatria política não existia: o trauma era a regra, não a exceção. Quem sobreviveu carregou no corpo e na mente o peso de uma noite que não terminou. E quantos denunciaram a corrupção militar? Foram chamados de subversivos e tratados como tal. A lógica é idêntica à de hoje: quem ameaça o sistema é patologizado, criminalizado, eliminado.

Stalin fez escola. Os expurgos dos anos 1930 não visavam apenas inimigos reais; visavam qualquer um que pudesse, um dia, sussurrar uma verdade inconveniente. O terror era sistêmico, calculado, burocrático. Milhões passaram pelos gulags, e os que saíram vivos — quando saíram — não eram mais os mesmos. Havel descreveu o comunismo tardio como uma "ausência de lei de luvas de pelica", que trocou as câmaras de tortura por escritórios acarpetados de burocratas sem rosto. A doença mental como efeito colateral do medo constante era esperada. O regime não precisava matar todos: bastava quebrar os que falavam. 

No Leste Europeu, a Stasi mantinha arquivos sobre o psiquismo alheio. Denunciar corrupção partidária era entregar-se à vigilância, à chantagem, ao isolamento social. A censura não era só externa; era internalizada. O sujeito adoecia porque a realidade era insuportável e a fala, proibida.

No Oriente Médio, regimes de terror fizeram da delação uma indústria e da psique humana um campo de batalha. Jornalistas iranianos, sírios, egípcios que denunciaram corrupção conhecem a tortura, a prisão perpétua, o exílio forçado. A violência não é metáfora: é cotidiana, e o sofrimento psíquico, inevitável.

Brecht escreveu sobre os que lutam no escuro. Shakespeare mostrou Hamlet enlouquecendo diante da podridão de um reino. A literatura sabe o que os tribunais ignoram: a injustiça adoece. Mas os algozes de hoje não querem ser chamados de algozes. Preferem o eufemismo: "famílias políticas", "alianças", "regulação da liberdade". Enquanto isso, o denunciante toma antidepressivo, muda de cidade, vê a família ameaçada.

A revolta é esta: o mundo condenou Dreyfus, chorou Falcone, enterrou os desaparecidos da América Latina, jurou "nunca mais" diante dos gulags. E, no entanto, a mesma engrenagem segue operando — agora com toga, com algoritmo, com mandatos comprados por emendas e corrupção. Quem luta contra a corrupção não morre mais só de bala. Morre de exaustão, de pânico, de solidão. E a sociedade, anestesiada, chama isso de normalidade.

Enquanto isso nas redes sociais, o mal impera com campanhas políticas que propagam o ódio, a mentira, a ignorância sem ciência, o preconceito, as violências, um mundo que tenta apagar a História e a memória da humanidade para atingir a META de idiotas! 64 % das pessoas que acessam facebook/ instagram se tornam extremistas, compartilhando coisas que te deixam com raiva. É hora de enfrentar os poderosos, elites e oligarquias, nas redes sociais e nas ruas em nome do bom, belo, justo economicamente sustentável.


quarta-feira, 28 de outubro de 2026

À Senadora Luizianne Lins e ao Governador Elmano:




Escrevo esta carta em nome dos milhões que morreram de pobreza, de ausência de políticas públicas e de violência. Vocês não podem se calar. Diante de tantas tragédias, qualquer pacto de silêncio para se manter no poder é um segundo assassinato dos mortos.

A política do Ceará não é política, é um negócio de família que dura quarenta anos. A família Ferreira Gomes, a família Acilon Gonçalves e tecnocratas como Idilvan Alencar trocam de partido como quem troca de camisa; a única coisa que não muda é o controle da máquina estadual. Cid Gomes agora se filia ao PSB e leva Júnior Mano para a disputa — e Júnior Mano é aliado de Bolsonaro, investigado pela Polícia Federal por milhões em emendas eleitorais. Ao mesmo tempo, Cid convida Acilon Gonçalves para candidato a deputado federal — mais uma família que vive há décadas da corrupção.

Vou colocar os nomes e os números na mesa, porque a Assembleia Legislativa silenciosa não fará isso.

O "Aquário" de Cid Gomes: 112 milhões de reais, zero peixes. A obra começou em 2009, nunca foi concluída e o terreno acabou cedido à UFC. Os "Tatuzões": 138 milhões de reais em quatro tatuzões (shield machines) comprados, nenhum metro de túnel escavado, peças roubadas, viraram sucata. Arena Castelão: a Operação Colosseum da Polícia Federal apontou 11 milhões de reais em propinas a Cid e Ciro Gomes em troca da vitória da Galvão Engenharia na licitação.

No governo Camilo Santana, o "Escândalo dos banheiros" desviou recursos que deveriam construir banheiros públicos — que nunca foram entregues — e Camilo teve bens bloqueados pela Justiça. Em oito anos de governo, gastou cerca de 1,1 bilhão de reais em publicidade e mais de 15 milhões de reais por ano em aluguel de jatinhos e helicópteros.

A família Acilon Gonçalves: o TCU abriu representação sobre repasses federais ao município de Eusébio, apontando fraude em licitações e desvio de recursos públicos em obras de habitação, sistema de saúde e centros de convivência. O filho Bruno Gonçalves aparece em áudio oferecendo de 150 mil a 250 mil reais a um pré-candidato para comprar apoio partidário, dizendo "pedi 2,5 milhões a Roberto Cláudio" e mencionando "na eleição passada ele deu 1,2 milhão". O Ministério Público instaurou procedimento. O capitão Wagner chamou Bruno publicamente de "criminoso" e acionou a mãe dele, Marta Gonçalves, na Justiça.

Idilvan Alencar: de auditor fiscal da SEFAZ a secretário de Educação e depois deputado federal. Usa a COGEP para perseguir professores, libera mestrados antecipados para correligionários, nomeia quem não cumpriu estágio probatório. O dinheiro da educação vai para construtoras e editoras de livros. Isso não é gestão educacional, é máquina eleitoral.

Júnior Mano: relatório da Polícia Federal revela um esquema suspeito envolvendo 800 milhões de reais em emendas que pode ter atingido pelo menos 50 campanhas municipais, com crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro e crimes eleitorais. Diálogos com o prefeito cassado de Choró, Bebeto Queiroz, mostram retenção de 12% a 15% das emendas como "taxa".

Tudo isso sob o silêncio da Assembleia Legislativa. Como no Rio de Janeiro de Sérgio Cabral e Pezão, quando os tribunais e o parlamento também se calaram. O Ceará não é exceção; o Ceará é outro Rio, só que mais pobre e com mais mortos. 

E Flávio Bolsonaro tem que ser julgado e preso como o pai. Ele está envolvido no golpe de 8 de janeiro, no tarifaço contra os Estados Unidos, na "rachadinha", nos depósitos em dinheiro da loja de chocolates, no Banco Master de Daniel Vorcaro — a quem pediu 61 milhões de reais para o filme biográfico do pai, "Dark Horse" —, na compra de pelo menos 51 imóveis em dinheiro e na concessão de medalha ao miliciano Adriano da Nóbrega. Não são "acusações": são fatos registrados pela Polícia Federal e pela Justiça.

Mas não podemos apenas esperar os tribunais. Temos que aprender a cortar na pele essas oligarquias — que trocam de partido, de aliança, de máscara, e a única coisa que não trocam é a posse do Estado. Luizianne, Elmano: ou vocês dizem esses nomes e enfrentam essas estruturas, ou são signatários do pacto de silêncio. Os mortos do Ceará não votam, mas os vivos lembrarão quem escolheu calar e quando.

Nós precisamos ter a coragem de Jones Manoel, Erika Hilton, Ana Elisa e de outros militantes da esquerda que se elegeram este ano: a coragem de enfrentar as reais estruturas de poder, as oligarquias e tecnocratas corruptos e dar os nomes, aos aliados do Bolsonaro no Ceara como Acylon, Idilvan, Ferreira Gomes e outros. É imperativo que sejamos corajosos como São Paulo e outros estados brasileiros têm sido, nas ruas com a juventude e o povo enfrentando as oligarquias com seus 01, 02, 03, 04...como a família Bolsonaro.

Um dos milhões de mortos pela pobreza, pela violência e pela ausência de políticas públicas geradas pela ditadura da corrupção da oligarquia dos Ferreira Gomes, dos Acilon Gonçalves e de outros.