SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

"As Cerimônias do Verão" de Marta Traba.


 

Sobre a Obra e a Autora

Publicado originalmente em 1966, As Cerimônias do Verão (Las ceremonias del verano) é uma das mais importantes novelas da crítica de arte e escritora argentino-colombiana Marta Traba, considerada uma obra fundamental da literatura latino-americana do século XX. O livro foi relançado em setembro de 2021 pela Editorial Firmamento, na coleção "Firmamento", com 180 páginas.

Marta Traba (Buenos Aires, 1930 – Madrid, 1983) foi uma figura intelectual de primeira grandeza na América Latina. Hija de emigrantes galegos, cresceu no contexto da "década infame" e do "peronismo clássico" argentinos, o que forjou seu forte compromisso político desde a juventude. Estudou Filosofia e Letras na Universidade Nacional de Buenos Aires e especializou-se em História da Arte em Roma e Paris. Instalou-se na Colômbia em 1954, onde se tornou, nas palavras de Elena Poniatowska, "uma figura imprescindível em um país no qual mandavam os militares". Foi professora de História da Arte na Universidade da América, crítica de arte mais respeitada do panorama artístico colombiano e fundadora do Museu de Arte Moderna de Bogotá, ainda em atividade.

Seu legado inclui mais de vinte volumes de história e crítica de arte, inúmeros artigos, uma coleção de poemas, sete novelas e dois livros de contos. De sua obra narrativa, destacam-se As cerimônias do verão (1966, 1981; Firmamento, 2021), Os labirintos insolados (1967), Passou assim (1968), Homérica Latina (1979), Conversa ao sul (1981) e Em qualquer lugar (1984), esta última publicada postumamente. Faleceu em novembro de 1983 em Mejorada del Campo, Madrid, em um voo com destino à Colômbia, para onde viajava para assistir ao I Encontro da Cultura Hispanoamericana, convidada pelo presidente Belisario Betancur, que meses antes lhe havia concedido a nacionalidade colombiana.

O Prêmio Casa das Américas

Em 1966, As Cerimônias do Verão recebeu o Prêmio Casa das Américas, concedido por um júri de exceção composto por Alejo Carpentier, Mario Benedetti, Manuel Rojas e Juan García Ponce. O júri justificou a premiação "por sua alta qualidade literária, que considera a vez os problemas de expressão e estrutura; pela constância de seu ritmo poético, a inteligência para equilibrar as situações e o logro de uma difícil unidade de composição". Este reconhecimento colocou Traba ao lado dos grandes nomes da literatura latino-americana emergente da época.

Estrutura da Obra

O livro está organizado em quatro partes, cada uma correspondendo a um momento distinto na vida da protagonista, dos catorze aos quarenta anos. Cada seção leva o nome de um lugar que funciona como cenário e, simultaneamente, como coadjuvante da narrativa:

ParteTítuloCenárioIdade da ProtagonistaTema Central
1"Il Trovattore"Pequena cidade nos arredores de Buenos Aires14 anosAdolescência, descoberta da literatura e da vida como romance
2"Paris era uma festa"Paris20 anosJuventude, pobreza estudantil, deslumbramento cultural, desengano amoroso
3"A vermeeriana"Castelgandolfo (Itália)Jovem mãeMaternidade solteira, isolamento voluntário vs. desejo de vida apaixonante
4"Passe! Veja! Entre! ao labirinto do amor…"Cidade sem nome (Bogotá ou Nova York)40 anosMulher madura em crise, derrubada dos mitos, busca por lugar no mundo

Cada uma dessas partes funciona como "teselas independentes, mas não autônomas, de um vasto mosaico emocional". O verão, sempre presente como pano de fundo, é o fio condutor que une essas quatro estações existenciais.

Personagem Principal: Uma Ulisses-Penélope

A protagonista, cujo nome nunca é revelado, é descrita pela crítica como uma figura que "assume o papel de Ulises ao mesmo tempo que o de Penélope em suas diversas facetas". Esta dupla identidade mítica é central para a compreensão da obra:

Ulisses representa a viagem, a aventura, a busca, o deslocamento geográfico e existencial. A protagonista percorre América do Sul, Europa e América do Norte, sempre em movimento, sempre em busca de si mesma.

Penélope, por outro lado, representa a espera, a tessitura e o destecimento, a permanência, o trabalho silencioso de construção de si através da memória e da reflexão.

Esta ambivalência estrutura toda a narrativa: a personagem é simultaneamente sujeito da ação (Ulisses que viaja e enfrenta o mundo) e objeto da própria contemplação (Penélope que tece e destece sua história). Como observa uma leitora, "a protagonista umas vezes se vê desde dentro de si mesma e outras atua como narradora onisciente que tudo vê, mas sem deixar de ser ela".

Temas Centrais

1. A Subjetividade Feminina e a Construção da Identidade

O grande tema do livro é o "despliegue de su identidad como mujer" ao longo de três décadas de vida. Marta Traba empreende "um viajem tingido de ironia, lirismo e desencanto pelos abismos da subjetividade feminina". A obra retrata as quatro facetas da protagonista:

  • adolescente rebelde, leitora voraz que vive sua vida como se fosse uma novela

  • jovem desenganada pela perda amorosa, que descobre as dores do amor em Paris

  • mãe solteira que se debate entre a fuga e a autoafirmação, vivendo um isolamento voluntário na Itália

  • mulher em crise, asendereada e solitária que contempla o derrube de seus mitos e a duras penas encontra seu lugar em um mundo que lhe fechou as portas

2. Memória, Olvido e o Fluxo da Consciência

A obra é profundamente influenciada pelo fluxo de consciência joyciano. Como nota uma resenha, a narração se dá "com a rapidez própria das associações mentais e ao mesmo tempo com um tom poético". A memória e o olvido "sobrevoam constantemente a história; são vividos quiçá de forma obcecante por parte da protagonista".

A estrutura fragmentária do livro – quatro partes que não seguem uma linearidade cronológica estrita – reflete o próprio funcionamento da memória: associativa, saltitante, cheia de idas e vindas. Cada parte é um verão, um momento de viragem, um instante de calor extremo em que algo se decide ou se desfaz.

3. O Verão como Metáfora Existencial

O verão não é mero pano de fundo, mas personagem central da narrativa. As "cerimônias" do título referem-se aos rituais – amorosos, sociais, íntimos – que se desenrolam sob o calor estival. O verão representa:

  • intensidade máxima da experiência, quando tudo parece possível e, simultaneamente, prestes a se desfazer

  • exposição, o estar à mercê dos outros e de si mesma

  • passagem, a consciência de que a estação terminará e com ela aquela configuração específica da vida

4. As Cidades como Estados de Alma

Cada cidade na novela é mais do que um cenário: é um estado de alma, uma configuração específica da subjetividade. Como observa uma leitora, "as próprias cidades onde se desenvolve a ação e o calor sufocante do verão são co-protagonistas em toda a obra".

  • pequeno pueblo argentino representa a clausura e a possibilidade simultânea de sonhar com o mundo através da literatura

  • Paris é o deslumbramento cultural e a descoberta dolorosa do amor

  • Castelgandolfo (cidade italiana próxima a Roma) representa o isolamento voluntário da maternidade, a calma protetora em luta com o desejo de uma vida mais rica e apaixonante

  • cidade sem nome (Bogotá ou Nova York) representa a maturidade desencantada, o anonimato da metrópole, o reconhecimento de que se é apenas mais uma entre milhões

Aspectos Formais e Estilo

Estrutura Fragmentária e Vozes Narrativas

Um dos aspectos mais originais da obra é sua estrutura não linear. Como descreve uma resenha, "por meio de sequências fragmentárias que evocam quatro etapas na vida da protagonista". Esta fragmentação não é caótica, mas cuidadosamente orquestrada para produzir um efeito de mosaico emocional.

alternância de vozes narrativas é outro traço distintivo. A leitora do blog Los libros de Veda observa:

"O cambio de voz narradora (umas vezes em primeira pessoa e outras em terceira) me parece algo soberbo: a protagonista umas vezes se vê desde dentro de si mesma e outras atua como narradora onisciente que tudo vê, mas sem deixar de ser ela".

Esta técnica permite que a personagem seja ao mesmo tempo sujeito (quem vive a experiência) e objeto (quem observa e julga a experiência), criando uma distância reflexiva essencial para o tom de ironia e desencanto que permeia a obra.

Linguagem Poética e Referências Culturais

A prosa de Traba é descrita como "rica e elaborada", com um "estilo poético" que exige "atenção e concentração extras". A autora dialoga explicitamente com grandes nomes da literatura: "ecos de James Joyce ou Clarice Lispector" são perceptíveis ao longo da narrativa, tanto na técnica do fluxo de consciência quanto na atenção à interioridade feminina.

As referências culturais são abundantes e fazem parte da própria substância da narrativa. A protagonista é uma intelectual, uma leitora voraz, e sua visão de mundo é mediada pela literatura, pela arte, pela música. Isto não é mero ornamento, mas parte constitutiva de sua subjetividade.

Citações e Análise

Sobre a Felicidade

Uma das passagens mais citadas da obra, reproduzida por uma leitora, captura o tom filosófico e melancólico da narrativa:

"Hay que hacer con la felicidad lo mismo que los chinos con las cosas que quieren, aman y temen; no nombrarla, no darse por enterado de que existe y, sobre todo, no convertirla, o pretenderlo al menos, no convertirla en propiedad privada. En cuanto te afirmas en su posesión, sacas los papeles correspondientes de propietario y le pones, en todo tu derecho de poseedor, el pie encima, se arma un verdadero escándalo de alas, una subversión vertical de los ángeles, y el entrechocar de alas es tan irresistible y frenético que al fin ya no sabes lo que haces, te extravías, y te es revocada brutalmente la revelación".

Esta passagem revela a sabedoria desencantada da narradora madura: a felicidade não pode ser nomeada, possuída, afirmada como propriedade privada. Quando se tenta fazê-lo, "arma-se um verdadeiro escândalo de asas" e a revelação é "brutalmente revogada". É uma ética do fugidio, do não apego, do deixar-ser que contrasta com a busca ansiosa de sentido das fases anteriores da vida.

Sobre a Premiação

A citação do júri do Prêmio Casa das Américas é particularmente reveladora do que a crítica da época valorizava na obra:

"Por su alta calidad literaria, que considera a la vez los problemas de expresión y estructura; por la constancia de su ritmo poético, la inteligencia para equilibrar las situaciones y el logro de una difícil unidad de composición".

O reconhecimento da "difícil unidade de composição" é especialmente significativo: o júri percebeu que, apesar da fragmentação aparente, há uma coerência profunda na obra – uma "unidade" que não é dada, mas conquistada através do trabalho formal.

Críticas e Recepção

Críticas Positivas

1. Originalidade e Inovação Formal: A obra é reconhecida por sua coragem formal. A estrutura fragmentária, a alternância de vozes narrativas e a aposta no fluxo de consciência colocam Traba na vanguarda da narrativa latino-americana dos anos 1960, ao lado de nomes como Julio Cortázar e Clarice Lispector.

2. Profundidade Psicológica: O mergulho na subjetividade feminina é descrito como "um viajem tingido de ironia, lirismo e desencanto pelos abismos da subjetividade feminina". A obra evita tanto o melodrama quanto o distanciamento frio, encontrando um tom próprio que combina paixão e reflexão.

3. Relevância Contemporânea: O relançamento de 2021 pela Editorial Firmamento indica que a obra mantém sua força décadas após a publicação original. As questões sobre identidade feminina, liberdade, maternidade, amor e envelhecimento continuam profundamente atuais.

4. Reconhecimento do Júri: O prêmio concedido por um júri composto por Carpentiere, Benedetti, Rojas e García Ponce é um atestado da qualidade literária da obra, reconhecida por alguns dos maiores nomes da literatura latino-americana.

Críticas e Desafios de Leitura

1. Dificuldade de Acesso (Crítica Mais Frequente): A obra não é descrita como uma leitura fácil. Como observa uma leitora, "não posso dizer que seja um livro para todo o mundo nem que resulte uma leitura singela. Sua linguagem é rica e elaborada, e o estilo poético e referências culturais exigem uma atenção e concentração extras na hora de pegar o livro nas mãos". A mesma leitora admite que "me custou entrar nele (de fato, decidi aparcá-lo e começar de novo em um momento mais tranquilo a nível pessoal)".

2. Tensão entre Fragmentação e Unidade: A própria estrutura que é um ponto forte da obra pode também ser um obstáculo para alguns leitores. A "difícil unidade de composição" elogiada pelo júri pode ser percebida por outros como excessiva fragmentação ou falta de linearidade narrativa.

3. Especificidade Cultural: As referências culturais abundantes – literárias, artísticas, musicais – podem ser um obstáculo para leitores não familiarizados com o cânone europeu e latino-americano ao qual Traba dialoga constantemente.

4. Tom Melancólico: O "desencanto" que marca a última parte da novela pode ser percebido por alguns leitores como pessimismo ou derrotismo, embora para outros seja precisamente aí que reside a força da obra – na recusa de finais felizes fáceis ou de resoluções redentoras.

O Debate sobre o Lugar de Traba no Cânone

Uma crítica implícita na recepção da obra diz respeito ao lugar de Marta Traba na história literária latino-americana. Como observa a revista Las Furias, "muito antes de que García Márquez traspasasse as fronteiras, Marta Traba já havia feito ouvir sua voz". Esta observação sugere que Traba pode ter sido injustamente ofuscada pelo "boom" da literatura latino-americana protagonizado por nomes masculinos.

A redescoberta de Traba nas últimas décadas – evidenciada pelo relançamento de suas obras por editoras como Firmamento – faz parte de um movimento mais amplo de recuperação da literatura escrita por mulheres na América Latina, que por muito tempo permaneceu à margem do cânone estabelecido.

A Conexão com a Obra Crítica de Traba

É impossível ler As Cerimônias do Verão sem considerar a dupla formação de Traba como crítica de arte. Sua prosa é profundamente visual, atenta à composição, à luz, à cor. A própria estrutura da obra como "mosaico emocional" ecoa sua formação em história da arte e sua familiaridade com as artes plásticas.

A escolha dos títulos das partes também revela esta sensibilidade artística:

  • "Il Trovattore" remete à ópera de Verdi

  • "Paris era uma festa" ecoa Hemingway, mas também a Paris das vanguardas artísticas

  • "A vermeeriana" é uma referência direta ao pintor holandês Johannes Vermeer, mestre da luz e da interioridade doméstica

  • "Passe! Veja! Entre! ao labirinto do amor…" remete ao tom de feira, de espetáculo, de oferta de consumo

Esta atenção à arte não é mero adorno, mas parte da própria substância da narrativa. A protagonista vê o mundo com olhos de quem foi treinada a ver – e Traba, crítica de arte, dota sua personagem deste olhar treinado.

Avaliação Geral e Conclusão

As Cerimônias do Verão é uma obra que recompensa o leitor disposto a aceitar seu desafio formal e sua profundidade psicológica. Não é um livro para consumo rápido ou leitura descompromissada, mas uma obra que exige e merece atenção.

Pontos fortes:

  • Originalidade formal (estrutura fragmentária, alternância de vozes narrativas)

  • Profundidade na exploração da subjetividade feminina

  • Linguagem poética de alta qualidade literária

  • Diálogo sofisticado com a tradição literária (Joyce, Lispector) e artística

  • Relevância contemporânea das questões levantadas

  • Reconhecimento crítico desde sua publicação (Prêmio Casa das Américas)

Desafios:

  • Exige leitor atento e concentrado

  • Estrutura fragmentária pode desorientar inicialmente

  • Abundância de referências culturais pode ser obstáculo para alguns

  • Tom melancólico e desencantado não agrada a todos os gostos

  • Obra ainda pouco conhecida fora do circuito especializado em literatura latino-americana

Público-alvo: A obra é recomendada para leitores de literatura latino-americana, estudantes e pesquisadores de literatura, teoria feminista, estudos de gênero e história cultural. Também interessará a leitores que apreciam a prosa de Clarice Lispector, Virginia Woolf, James Joyce ou Marcel Proust.

Avaliação final: As Cerimônias do Verão é uma das mais importantes novelas de Marta Traba e uma obra fundamental da literatura latino-americana do século XX. Sua originalidade formal, sua exploração corajosa da subjetividade feminina e sua linguagem poética a colocam ao lado das melhores obras do período. A redescoberta de Traba nas últimas décadas é um fenômeno tardio, mas bem-vindo, que permite a novas gerações de leitores acessar uma voz que "muito antes de García Márquez" já havia feito ouvir sua potência literária.

A pergunta que a obra deixa – e que ressoa além de suas páginas – é se é possível, para uma mulher, construir uma identidade que não seja definida nem pela negação nem pela aceitação simples dos papéis que lhe são oferecidos. A protagonista de Traba não oferece respostas fáceis, mas sua busca – através de quatro verões, quatro cidades, quatro idades – é, ela mesma, a resposta. Nas palavras de uma leitora, "quando consegui pegar o ponto se converteu em uma viagem alucinante não só pela(s) história(s) que nos conta e pelas cidades que tão bem nos retrata, senão pelo espaço mental da narradora e pela linguagem"

terça-feira, 7 de abril de 2026

"Ecology of the Brain" e "In Defence of the Human Being" de Thomas Fuchs


Sobre o Autor

Thomas Fuchs é Karl Jaspers Professor of Philosophical Foundations of Psychiatry na Clínica Psiquiátrica da Universidade de Heidelberg, Alemanha . É uma das principais figuras mundiais na tentativa de integrar psicopatologia fenomenológica, neurociências e filosofia da mente . Sua obra se destaca por oferecer uma alternativa robusta ao reducionismo neurobiológico e ao paradigma computacionalista que dominam as neurociências contemporâneas. Fuchs é editor-chefe da revista "Psychopathology" e autor de mais de 350 artigos e capítulos de livros .

Ecology of the Brain: The Phenomenology and Biology of the Embodied Mind (2018)

Sobre a Obra

Publicado originalmente em alemão em 2007 (Das Gehirn – ein Beziehungsorgan), Ecology of the Brain é a versão inglesa "completamente revisada e ampliada" da obra . O livro tem 334 páginas e está estruturado em duas partes principais: (1) Crítica do reducionismo neurobiológico e (2) Corpo, pessoa e cérebro .

Estrutura da Obra

ParteCapítuloConteúdo
IntroduçãoExposição do problema da relação cérebro-mente
Parte ICosmos in the head?Crítica da ideia de que o mundo é uma reconstrução cerebral
The brain as the subject's heir?Crítica do reducionismo neurobiológico e do representacionalismo
Parte IIFoundations: subjectivity and lifeFenomenologia da subjetividade encarnada
The brain as an organ of the living beingO cérebro como órgão de mediação
The brain as an organ of the personDesenvolvimento intersubjetivo e neuroplasticidade
The concept of dual aspectivitySolução do problema mente-corpo
Implications for psychiatryAplicações clínicas

Tese Central: O Cérebro como Órgão de Relação

A tese central do livro é que o cérebro não deve ser compreendido como o "produtor" da mente, mas sim como um órgão mediador – um órgão de relação, interação e ressonância entre o organismo vivo e seu ambiente .

Como Fuchs afirma na introdução:

"Nowhere is the subject found in the brain. Rather, the brain is the organ which mediates our relationship towards the world, to other people, and ourselves. The brain is the mediator making the world accessible to us, and the transformer connecting our perceptions and movements. However, in isolation, the brain would be just a dead organ." 

Crítica ao Reducionismo Neurobiológico

O primeiro capítulo, "Cosmos in the head?", denuncia a contradição inerente ao reducionismo neurobiológico. Fuchs argumenta que a ideia segundo a qual a percepção do mundo é redutível a representações produzidas pelo cérebro é autocontraditória . A crítica se desenvolve em três frentes:

1. Crítica ao Representacionalismo: A teoria representacionalista considera que o que chamamos de realidade é sempre reconstruído no cérebro através de processos neuronais. O mundo seria, segundo esta visão, uma entidade fictícia reconstruída pelo cérebro do sujeito. Fuchs refuta esta teoria recorrendo a três ideias fenomenológicas fundamentais: a percepção encarnada, a distinção entre corpo vivido e corpo físico, e a coconstituição do mundo da vida como realidade objetiva compartilhada .

2. Crítica ao Computacionalismo: A visão do cérebro como máquina computacional ou hardware que executa programas (softwares) também é insustentável. Fuchs pergunta retoricamente:

"How is the brain supposed to know itself? How should a physically describable and localized mechanism be in a position to bring forth the world of scientific experience in which it emerges at the same time?" 

O argumento é metateórico: o cérebro é simultaneamente ponto de partida (como aquilo que supostamente produz a mente) e resultado (produto teórico de uma série de procedimentos científicos que explicam seu funcionamento). O sujeito não é encontrado em lugar algum no cérebro. A neurobiologia, portanto, é "primariamente uma forma altamente especializada da prática comum que emerge do mundo da vida" .

3. Crítica ao Determinismo Neurológico: Fuchs adverte contra o risco ético do determinismo proclamado por certas neurociências:

"De-anthropomorphizing nature would turn into the complete naturalization of the human being." 

O Conceito de Percepção como Enactment

Em oposição ao representacionalismo, Fuchs adota a teoria ecológica da percepção (Gibson) e a abordagem enativa (Varela, Thompson). A percepção não é uma "imagem" que o cérebro faz da realidade, mas sim um enactment – a capacidade de um organismo vivo co-criar seu ambiente e ajustar-se constantemente a ele . Esta capacidade de autoprodução, chamada autopoiesis, requer a contribuição do corpo, tornando a natureza encarnada da cognição um pré-requisito para qualquer forma de percepção.

Como Fuchs sintetiza:

"Human reality is therefore always co-constituted or, as we might say, 'interenacted'. We live in a shared objective reality because we continuously 'interenact' it through our joint activities and participatory sense-making." 

A Dupla Aspectividade: Leib e Körper

Um dos conceitos mais originais do livro é a teoria da dupla aspectividade (dual aspectivity), que reformula o tradicional problema mente-corpo como um "problema corpo-corpo" . Inspirado na fenomenologia husserliana e merleau-pontyana, Fuchs distingue duas dimensões do corpo:

Corpo Vivo (Leib)Corpo Físico (Körper)
Dimensão subjetiva e experiencialDimensão objetiva e material
É o "pano de fundo" de toda experiênciaÉ o organismo estudado pelas ciências naturais
Conjunto de habilidades e capacidades à nossa disposiçãoEstrutura fisiológica observável externamente
Experiência do "eu posso" (Husserl)Objeto de exame científico

Estes dois aspectos não são opostos, mas sim "características objetivamente distintas de um único e mesmo ser vivo" . Como Fuchs explica, a relação entre eles é de coextensividade fundamental:

"The lived body and life itself therefore become the bridge between the 'mental' and the 'physical'." 

A analogia utilizada é a de uma moeda: dois lados da mesma realidade, que requerem duas formas diferentes de pensamento (ciências naturais e ciências humanas), mas que não constituem um dualismo substancial .

Ressonância: O Conceito-Chave

Fuchs introduz o conceito de ressonância para descrever a relação de retroalimentação entre organismo e ambiente. Em vez de falar de "representações" ou "informação" (termos que pressupõem um sujeito que interpreta), Fuchs propõe que:

"The central function of the brain for the experiencing and acting living creature consists in transforming configurations of individual elements into resonant patterns that form the basis of integral acts of life. Thus, the brain becomes the organ of mediation between, on the one hand, the microscopic world of material-physiological processes and, on the other, the macroscopic world of living creatures." 

A ressonância corporal está fortemente em jogo na interafetividade e nas respostas emocionais, levando à conclusão de que a consciência não está "localizada" no cérebro, mas é uma estrutura abrangente da pessoa viva que envolve o organismo inteiro: "O sistema nervoso periférico e autônomo, os sentidos, a pele, os músculos, o coração, as vísceras – todos estes são portadores de subjetividade também" .

Causalidade Circular

Outro conceito fundamental é o de causalidade circular e integral (circular and integral causality), que descreve a relação recíproca entre organismo e ambiente . Em sistemas autopoiéticos, os organismos vivos são simultaneamente diferenciados de seu ambiente e continuamente relacionados a ele. Cada estímulo leva à reconfiguração de todo o sistema, ligando diferentes níveis da experiência.

Como Fuchs explica a partir de Aristóteles: "Com base em capacidades existentes, uma nova coerência situacional do organismo e do ambiente é criada" . O cérebro desempenha um papel crucial neste processo como órgão de mediação e transformação.

O Cérebro como Órgão da Pessoa

O capítulo 5 explora o "cérebro como órgão da pessoa", recorrendo a descobertas da psicologia do desenvolvimento e da teoria do apego . Fuchs demonstra que a neuroplasticidade e os achados recentes em epigenética mostram que:

"The brain becomes a social, cultural, and biographically shaped organ." 

Isto significa que "cada interação com os outros, por meio da aprendizagem sináptica, deixa vestígios no nível neural; não na forma de 'memórias', 'imagens' ou 'representações' localizáveis, mas na forma de disposições para perceber, sentir e comportar-se de certas maneiras" .

A intersubjetividade é, portanto, chave para o desenvolvimento do cérebro. Fuchs e De Jaegher desenvolveram este ponto em trabalhos colaborativos, introduzindo o conceito de participatory sense-making – a ideia de que o significado é co-criado através da interação .

Implicações para o Livre-Arbítrio

O capítulo 6 aborda as implicações da teoria de Fuchs para o problema do livre-arbítrio. Longe de negar a liberdade, Fuchs argumenta que:

"Taking a decision is not the intervention of an autonomous self, but the activity of an embodied subject which must have learned and incorporated the capacities for inhibition and reflection in the course of his biography. Free will is thus a complex capacity of human agents whose components can only be acquired and practiced through a self-cultivation in the course of social interactions." 

A liberdade não é um "módulo" do cérebro, mas uma capacidade complexa que se desenvolve através da aprendizagem incorporada e da interação social. O cérebro, como "órgão de capacidades", suporta este processo sem reduzi-lo.

Implicações para a Psiquiatria

Fuchs aplica sua abordagem a várias condições psiquiátricas. Em trabalhos anteriores, ele analisou a depressão, a esquizofrenia e o luto sob uma perspectiva fenomenológica . Por exemplo, na esquizofrenia, há uma perturbação da "minidade" (mineness) das próprias sensações, pensamentos e ações, ameaçando a pessoa com uma perda de si mesmo . Na depressão, há uma desestruturação da intercorporeidade e da interafetividade .

In Defence of the Human Being: Foundational Questions of an Embodied Anthropology (2021)

Sobre a Obra

Publicado pela Oxford University Press em 2021, In Defence of the Human Being é uma obra que aplica os conceitos de embodiment e enativismo desenvolvidos em Ecology of the Brain aos desafios científicos, tecnológicos e culturais do século XXI . Com 272 páginas, o livro está estruturado em três partes: (1) Inteligência Artificial, Transumanismo e Virtualidade; (2) Cérebro, Pessoa e Realidade; (3) Psiquiatria e Sociedade .

O Contexto: A Crise da Imagem Humanista

O ponto de partida do livro é um diagnóstico da situação contemporânea. Fuchs argumenta que o paradigma humanista ocidental está sendo suplantado por uma visão tecnológica e transumanista que visa desenvolver uma versão cada vez mais previsível e controlável do ser humano . Como ele explica:

"It is not my concern to defend humanity against an accusation but against a questioning. Because today, in question is what one could call—with unavoidable imprecision—the humanistic image of man. At the center of this image is the human person as a physical or embodied being, as a free, self-determining being, and ultimately as an essentially social being connected with others." 

O livro se posiciona explicitamente contra as teses de Yuval Noah Harari em Homo Deus (2017), segundo as quais "Homo sapiens é um algoritmo obsoleto" . Fuchs descontrói três pressupostos que sustentam esta "visão cientificista do humano": o naturalismo reducionista, a eliminação do vivo e o funcionalismo (segundo o qual os fenômenos da consciência são atribuídos a processos de processamento neuronal de informação) .

Inteligência Artificial: Humanos não são Programas

O primeiro capítulo esclarece a distinção fundamental entre inteligência humana e inteligência artificial. Fuchs argumenta que:

"There can be no real intelligence without life and consciousness." 

A ideia de "inteligência artificial" ou "vida artificial" é, portanto, autocontraditória. Fuchs explica que "informação só existe onde alguém compreende algo – isto é, notícias como notícias, signos como signos. Informação existe apenas para seres vivos conscientes ou para pessoas" . Um computador não "compreende" mensagens; ele as "computa".

A consequência é clara:

"Persons are living beings, not programs." 

Fuchs adverte que estamos projetando nossas próprias habilidades, estados mentais e emoções nas máquinas. "Estamos lidando aqui apenas com metáforas" . A IA desafia inconscientemente a imagem que temos dos seres humanos, de sua finitude e de suas capacidades.

Transumanismo: A Utopia do "Novo Homem"

O segundo capítulo avalia a ideologia desenvolvida pelo transumanismo. Fuchs argumenta que o transumanismo visa eliminar aquilo que é mais saliente da humanidade: o embodiment. Ao considerar os seres humanos como "máquinas biológicas" ou "mentes puras" a serem programadas, o transumanismo nega o próprio "fundamento de nossa existência" .

A crítica de Fuchs é dupla:

  1. Falácia epistemológica: O transumanismo identifica erroneamente o cérebro com a pessoa, e a pessoa com o algoritmo.

  2. Beco sem saída filosófico: A utopia da imortalidade e da libertação dos constrangimentos corporais aniquila a própria ideia de liberdade:

"This embodied and thus, of course, mortal individuation is the price we have to pay in order to experience the freedom and wonder of earthly existence." 

Fuchs conclui que o transumanismo é, em última análise, uma forma de neognosticismo – uma rejeição do corpo como prisão da alma, com consequências éticas significativas .

Virtualidade e Empatia

O terceiro capítulo analisa o impacto da virtualização crescente em nossa sociedade sobre a empatia e as relações intersubjetivas. Fuchs pergunta: "Que consequências podem advir para a intersubjetividade e os relacionamentos em nossa sociedade devido à virtualização crescente da percepção e da comunicação? Como a empatia se transforma quando é cada vez mais dirigida a um outro virtual?" 

A resposta de Fuchs baseia-se em uma distinção fundamental entre dois níveis de empatia:

Empatia Primária (Implícita)Empatia Secundária (Explícita)
Corporal, involuntária, pré-reflexivaImaginativa, voluntária, reflexiva
Baseada na intercorporeidadeEnvolve "colocar-se no lugar do outro"
Não requer mediação simbólicaJá contém um elemento de "como se" e, portanto, de virtualidade

O problema é que a virtualização crescente ameaça desconectar a empatia secundária de sua base na empatia corporal primária:

"The culture of growing virtuality and simulation is connected with disembodiment, a retreat from bodily and intercorporeal experience. Simultaneously, empathy tends to separate itself from these experiences and to shift into virtuality – into a space where we are confronted by hybrid forms of the other as a mixture of appearance, simulation, and illusion." 

A consequência é que a comunicação virtual, embora nos dê a impressão de estarmos todos facilmente interconectados, "mina consideravelmente a realidade da experiência qualitativa que passamos ao enfrentar – de verdade – a presença do outro" . Fuchs conclui:

"Only when others become real for us in this manner can we become real for ourselves. Today, our relationships come increasingly to be mediated, even produced, by images. But no one encounters us through a smartphone. The virtual presence of the other cannot replace inter-corporeality." 

Crítica do Cerebrocentrismo

A segunda parte do volume fornece uma crítica do cerebrocentrismo (cerebrocentrism) e da forma como o paradigma cerebral molda nossa concepção de realidade e identidade pessoal. Fuchs argumenta que:

"For neurobiology, the brain becomes the new subject, the thinker of our thoughts and doer of our actions; subjectivity itself is only a useful illusion." 

Esta concepção neurobiológica desqualifica nossa concepção ordinária de liberdade e tomada de decisão, impondo uma visão determinista do mundo humano como se pensamentos e ações fossem governados por movimentos e conexões neuronais previsíveis. Como Fuchs ironiza: "pessoas são sujeitos cerebrais, e imagens do cérebro são os ícones modernos da pessoa" .

Contra esta visão, Fuchs reafirma:

"The brain is only an organ of the person, not the seat of the person. In other words: personhood means embodied subjectivity." 

Críticas e Debates

Críticas Positivas

1. Integração Interdisciplinar Exemplar: Fuchs é reconhecido como "um dos principais estudiosos do mundo tentando fundir psicopatologia, fenomenologia e neurociências" . Sua capacidade de transitar entre filosofia, psiquiatria e neurobiologia é considerada exemplar.

2. Relevância Contemporânea: Ambas as obras são descritas como "um avanço na filosofia das ciências cognitivas" e como livros que "abrem uma reflexão ética decisiva sobre a visão de mundo que subjaz à epistemologia contemporânea" .

3. Alternativa ao Reducionismo: Fuchs oferece uma alternativa robusta e filosoficamente bem fundamentada ao reducionismo neurobiológico, sem cair em dualismos ou posições anticientíficas.

4. Aplicabilidade Clínica: As obras têm implicações significativas para a psiquiatria e a psicoterapia, oferecendo uma compreensão mais rica e fenomenologicamente informada dos transtornos mentais.

Críticas e Limitações

1. Tensão entre Descrição e Prescrição (Is-Ought Distinction): Uma crítica recorrente, articulada por Harzheim e retomada por Lockhart, é que o discurso de Fuchs ocasionalmente confunde reivindicações descritivas e normativas, borrando a distinção entre "ser" e "dever ser". Lockhart escreve: "Uma demarcação rigorosa entre observações empíricas e prescrições éticas é essencial para evitar que conclusões normativas sejam erroneamente derivadas de dados empíricos" .

2. Potencial Reducionismo Inverso: Embora Fuchs critique o reducionismo neurobiológico, alguns críticos sugerem que sua abordagem pode incorrer em um "reducionismo fenomenológico" inverso, superestimando o papel da experiência subjetiva em detrimento de fatores biológicos e sociais.

3. Necessidade de Integração com Modelos Funcionalistas: Lockhart argumenta que "a ênfase de Fuchs na cognição incorporada, embora profunda, necessita de integração com modelos funcionalistas. Abordagens funcionalistas, que se concentram no processamento de informação e estruturas computacionais, poderiam complementar sinergicamente as perspectivas incorporadas" .

4. Subestimação do Potencial Tecnológico: A crítica de Fuchs ao transumanismo e à IA é considerada por alguns como excessivamente pessimista ou redutiva. Harzheim sugere que "uma síntese de perspectivas funcionalistas e incorporadas poderia produzir uma compreensão mais robusta dos fenômenos cognitivos" .

5. Questões de Justiça Social: Lockhart aponta que a análise de Fuchs "poderia ser aumentada pela incorporação de considerações de acesso e equidade tecnológica entre diferentes estratos socioeconômicos" . As questões de justiça social na distribuição de tecnologias e tratamentos não são suficientemente desenvolvidas.

6. Determinismo Tecnológico: Doede critica Fuchs por um potencial "determinismo tecnológico", sugerindo que Fuchs pode subestimar a "complexa interação entre tecnologia e experiências humanas" .

7. Integração de Modelos Cognitivos: Tanto Harzheim quanto Doede argumentam que Fuchs poderia integrar melhor diferentes modelos cognitivos com a cognição incorporada, em vez de apresentar o embodiment como uma alternativa exclusiva a outras abordagens .

O Debate sobre o "What It Means to Be Human"

O artigo de Lockhart (2024) no Cambridge Quarterly of Healthcare Ethics oferece uma avaliação equilibrada da obra de Fuchs, reconhecendo sua importância mas também apontando limitações. Lockhart conclui:

"Reflecting on Harzheim's review and the critiques of Fuchs' In Defense of the Human Being, I recognize the importance of addressing the complexities and nuances in the discourse on embodied cognition. Fuchs' focus on embodiment is crucial, yet integrating functionalist models, evaluating technological impacts comprehensively, and addressing ethical and social justice issues are necessary for a more holistic view." 

Avaliação Geral e Conclusão

As duas obras de Thomas Fuchs analisadas constituem um dos mais importantes projetos contemporâneos de filosofia da mente e antropologia filosófica. Juntas, oferecem:

Em Ecology of the Brain: Uma fundamentação teórica para uma compreensão não-redutivista da relação entre cérebro e mente, baseada na fenomenologia, no enativismo e na biologia de sistemas autopoiéticos.

Em In Defence of the Human Being: Uma aplicação deste arcabouço teórico aos desafios colocados pela IA, pelo transumanismo e pela virtualização crescente da vida social.

Pontos fortes:

  • Fundamentação filosófica sólida na tradição fenomenológica (Husserl, Merleau-Ponty)

  • Integração com descobertas empíricas das neurociências e da psicologia do desenvolvimento

  • Relevância ética e social imediata

  • Alternativa coerente tanto ao dualismo cartesiano quanto ao reducionismo eliminativista

  • Aplicabilidade clínica na psiquiatria e psicoterapia

Limitações:

  • Tensão não resolvida entre descrição fenomenológica e prescrição normativa

  • Potencial superestimação do papel da experiência subjetiva

  • Necessidade de maior integração com modelos funcionalistas e computacionais

  • Subdesenvolvimento das questões de justiça social e acesso tecnológico

  • Risco de determinismo tecnológico na crítica ao transumanismo

Público-alvo: Estudiosos e estudantes de filosofia da mente, fenomenologia, psiquiatria, psicologia, neurociências cognitivas, antropologia filosófica e ética da tecnologia.

Avaliação final: A obra de Thomas Fuchs representa uma das mais sofisticadas tentativas contemporâneas de articular uma visão do ser humano que seja ao mesmo tempo cientificamente informada e filosoficamente rigorosa, sem ceder ao reducionismo ou ao dualismo. Seu projeto de uma "antropologia encarnada" (embodied anthropology) oferece recursos conceituais valiosos para enfrentar os desafios colocados pelas tecnologias emergentes e pelo paradigma neurocêntrico dominante.

A pergunta fundamental que permanece em aberto é se a ênfase de Fuchs na experiência vivida (Leib) e na ressonância pode ser adequadamente integrada com as abordagens funcionalistas e computacionais que ele critica, ou se a tensão entre estas perspectivas é irreconciliável. Como Lockhart sugere, "uma abordagem híbrida que incorpora tanto insights funcionalistas quanto incorporados" pode ser necessária para uma compreensão verdadeiramente abrangente da mente humana . Fuchs oferece um ponto de partida indispensável para este diálogo, mas a última palavra ainda está por ser escrita.