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segunda-feira, 6 de abril de 2026

Apple, 50 anos: 3 sucessos e 3 fracassos da empresa em sua história

 

Loja da Apple com o logotipo branco da empresa e pessoas no seu interior

Crédito,Getty Images

    • Author,Laura Cress
    • Role,Repórter de tecnologia, BBC News
  • Tempo de leitura: 7 min

Poucas empresas conseguiram definir como as pessoas usam a tecnologia no seu dia a dia tão categoricamente quanto a Apple.

A empresa comemorou seus 50 anos de fundação na semana passada. Ela foi fundada por dois Steves, em uma garagem de São Francisco, no Estado americano da Califórnia.

Seu sucesso foi realmente estrondoso, mas a companhia também foi marcada por alguns fiascos notáveis.

Atualmente, cerca de uma a cada três pessoas do planeta tem um produto da Apple. Para Emma Wall, estrategista-chefe de investimentos da empresa de serviços financeiros Hargreaves Lansdown, este sucesso tem muito a ver com o marketing da empresa, além do seu próprio hardware.

"Eles venderam um sonho", ela conta.

Wall acredita que eles desenvolveram algo "bastante novo na época — a ideia de que a marca é tão importante quanto a linha de produtos."

A série de sucessos da Apple, sem dúvida, diminuiu após a morte do visionário Steve Jobs (1955-2011), um dos seus fundadores. A empresa passou a se concentrar mais em aprimorar sua tecnologia já existente.

Ken Segall, diretor criativo de Jobs por 12 anos, declarou à BBC que o atual executivo-chefe da Apple, Tim Cook, fez um "trabalho incrível" de adaptação com o passar do tempo, mantendo a rentabilidade da empresa.

Mas ele destaca que muitos puristas da Apple ainda não se sentem tão animados com a fase atual da companhia, pois "eles se lembram da antiga Apple, que era Steve Jobs."

Com a Apple completando meio século de existência, pedimos a especialistas e analistas da tecnologia que observassem algumas das mudanças mais significativas trazidas pela empresa para o mundo da tecnologia e as ocasiões em que ela, indiscutivelmente, errou o alvo.

iPod (sucesso)

Anúncio do iPod mostrando duas silhuetas pretas dançando com um iPod branco, com fones de ouvidos com fio brancos, contra um fundo rosa. É exibido um logo da Apple ao lado da palavra iPod.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,O iPod foi lançado em 2001 e abriu o caminho para que o download legal de música digital se tornasse o padrão do setor
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Longe de ser o primeiro aparelho de música digital portátil na época do seu lançamento, em 2001, o iPod é um dos "produtos mais simbólicos da Apple", segundo Craig Pickerill, do blog The Apple Geek — não apenas pelo que ele foi, mas "pelo que ele mudou".

"Os aparelhos de MP3 eram desajeitados, sua armazenagem era limitada e gerenciar sua biblioteca de músicas parecia dar trabalho", relembra ele. "O iPod mudou tudo isso quase da noite para o dia."

O design de anel de clique diferenciava o aparelho, que introduziu a biblioteca iTunes, abrindo o caminho para que o download legal de música digital se tornasse o padrão do setor.

Lançado em 2007, o iPod Touch foi projetado pela mesma equipe que viria a inventar o iPhone — que rapidamente superou o iPod.

"Sem o iPod, a Apple provavelmente não teria o apoio financeiro e a maturidade operacional necessárias para assumir a complexidade da indústria do smartphone", afirma o analista de tecnologia Francisco Jeronimo, da empresa de pesquisa de mercado IDC.

iPhone (sucesso)

Steve Jobs sorri e segura um iPhone, vestindo uma blusa preta

Crédito,AFP via Getty Images

Legenda da foto,'iPod, telefone e comunicador via internet': Steve Jobs apresentou a primeira versão para o mundo em 2007

Mais de 200 milhões de iPhones são vendidos todos os anos. São cerca de sete aparelhos comprados a cada segundo, em algum lugar do planeta.

Para Ben Wood, da empresa de análise de mercado CCS Insight, o iPhone é o "Hotel Califórnia dos smartphones". Quando você tem um, é "muito improvável que você saia" do ecossistema da Apple para um aparelho concorrente, com sistema Android.

"iPod, telefone e comunicador via internet. Não são aparelhos separados, este é um aparelho", declarou Steve Jobs, radiante com a primeira versão do celular nas mãos, ao apresentá-lo ao mundo em 2007.

Como muitos produtos revolucionários da Apple, o iPhone não foi o primeiro exemplo da sua espécie. Outros telefones já tinham capacidade de acesso à internet ou telas sensíveis ao toque.

Mas a jornalista especializada em tecnologia Kara Swisher defende que seu "belo marketing" ajudou a catapultar o aparelho para o público.

"Ele fez você pensar no iPhone não como um aparelho tecnológico, mas como um dispositivo de romance", afirma ela.

Apple Watch (sucesso)

Apple Watch com mostrador preto e pulseira laranja sobre uma mesa, marcando 1h03

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,O sucessor de Jobs, Tim Cook, queria produzir o melhor relógio de pulso do mundo

Na época do lançamento do Apple Watch, em 2015, Steve Jobs já havia morrido de câncer.

Mas seu sucessor, Tim Cook, assumiu com um propósito condizente com seu predecessor: produzir o melhor relógio de pulso do mundo.

Em termos de receita gerada para a Apple (cerca de US$ 15 bilhões, ou R$ 78 bilhões), é difícil argumentar que o smartwatch mais vendido do mundo não tenha atingido seu objetivo.

"Como negócio isolado, o Apple Watch ficaria confortavelmente entre as 250 a 300 maiores empresas dos Estados Unidos", segundo Wood.

Seu primeiro protótipo era relativamente básico, mas seus modelos futuros também foram pioneiros na tecnologia de saúde vestível. Funções como o monitoramento cardíaco fizeram dele um importante promotor da tecnologia de saúde e fitness.

Atualmente, acredita-se que o Apple Watch venda mais unidades todos os anos do que toda a tradicional indústria de relógios de pulso suíços.

Apple Lisa (fracasso)

O Apple Lisa, computador pessoal cinza com monitor retangular e teclado

Crédito,Science & Society Picture Library

Legenda da foto,O Apple Lisa foi lançado em 1983 por cerca de US$ 10 mil (R$ 52 mil)

De certa forma, o computador pessoal Apple Lisa, lançado em 1983 pelo alto preço de cerca de US$ 10 mil (cerca de R$ 52 mil, pelo câmbio atual), foi inovador.

Ele foi um dos primeiros PCs a incorporar uma interface gráfica de usuário (GUI, na sigla em inglês) e um mouse.

Mas o analista de tecnologia Paolo Pescatore afirma que o computador, destinado às empresas, era "caro demais", o que impediu seu sucesso comercial.

O fracasso, para ele, demonstrou que "estar à frente na curva não é suficiente se o produto estiver mal posicionado".

A Apple aprenderia com seus erros ao lançar o Macintosh original, um ano depois, com preço relativamente melhor para o consumidor final, de US$ 2.495 (cerca de R$ 13 mil, pelo câmbio atual).

Teclado 'borboleta' (fracasso)

Duas mãos digitando código em um MacBook Air cinza

Crédito,Bloomberg via Getty Images

Legenda da foto,O design do teclado foi um 'raro deslize de confiabilidade'

O teclado com design "borboleta" da Apple foi um mecanismo introduzido nos laptops em 2015. Para Pickerill, ele foi um "raro deslize de confiabilidade".

Usado em aparelhos como o MacBook Air, o design consistia em equipar os teclados com teclas de encaixe bilateral que pareciam asas de borboleta.

Mas ele dividiu opiniões. Algumas pessoas afirmavam que o mecanismo dificultou a digitação nos teclados, dando a impressão de que a Apple estaria "priorizando a pouca espessura e não a durabilidade", segundo Pickerell.

Em 2019, a empresa apresentou um novo MacBook Pro de 16 polegadas, sem o teclado borboleta.

Vision Pro (fracasso)

Homem sentado usando um headset Apple Vision Pro na cabeça, conectado a um cabo branco, em uma loja da Apple. Ele mantém as mãos à sua frente. Um funcionário da Apple sentado ao lado dele sorri.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,A grande aposta da Apple na realidade aumentada acabou sendo muito 'complicada'

Para Wood, um fracasso notável e muito mais recente da Apple foi o headset Vision Pro, o primeiro lançamento importante da empresa desde o Apple Watch.

Wood acredita que a grande aposta da Apple na realidade aumentada acabou sendo muito "complicada", sem conteúdo que permitisse igualar o sucesso de outros produtos da empresa.

O site de notícias de tecnologia The Information afirma que a companhia reduziu a produção do headset de US$ 3,5 mil (cerca de R$ 18 mil) poucos meses após o lançamento, devido à baixa demanda e à grande quantidade de estoque não vendido.

O fracasso significa que a Apple "provavelmente será cautelosa para entrar rapidamente em áreas relacionadas, como óculos inteligentes", segundo Wood.

"Vadios e Ciganos, Heréticos e Bruxas: Os Degredados no Brasil-Colônia" de Geraldo Pieron


 

Sobre a Obra e o Autor

Publicado em 2024 pela Editora Bertrand do Brasil, Vadios e Ciganos, Heréticos e Bruxas é uma obra que resgata um aspecto pouco explorado da história do Brasil colonial: o papel dos degredados – pessoas condenadas ao exílio forçado de Portugal para a Colônia .

O autor, Geraldo Pieroni, é doutor em História pela Universidade de Brasília (UnB), onde foi bolsista recém-doutor no Departamento de História. O livro é fruto de um exaustivo trabalho de pesquisa em arquivos portugueses e brasileiros, incluindo livros raros, enciclopédias, coleções de leis e processos inquisitoriais, originando-se de sua tese de doutoramento .

Com cerca de 144 páginas, a obra se destaca por ser um trabalho pioneiro sobre a pena de banimento de Portugal para o Brasil durante o período colonial . O próprio autor reconhece que o livro "nasceu na universidade, no meio de documentos e teorias históricas", mas que sua intenção foi "amenizar a linguagem acadêmica" para que a história "saia da academia mas sem perder seus métodos e rigor na pesquisa sobretudo nas fontes primárias" .

Estrutura da Obra

Embora os sumários disponíveis não detalhem a estrutura capitular completa, a obra é organizada em torno dos diferentes grupos sociais que foram submetidos ao degredo:

  1. Vadios e ociosos – punidos pela "falta de trabalho"

  2. Ciganos – perseguidos por seus costumes nômades

  3. Heréticos e cristãos-novos – judeus convertidos ao catolicismo, mas suspeitos de manter práticas judaicas

  4. Bruxas e feiticeiras – acusadas de invocação demoníaca e práticas mágicas

  5. Prostitutas e outros "indesejáveis" – incluindo ladrões e marginais em geral

Principais Teses e Argumentos Centrais

1. O Degredo como Política Imperial Portuguesa

A tese central do livro é que Portugal transformou o Brasil em uma "prisão a céu aberto" durante os séculos XVI, XVII e XVIII. O degredo funcionava como um recurso judicial e social com dupla função: "esvaziava as ruas de Lisboa dos pobres e desviantes, e ao mesmo tempo fornecia braços para a colonização" .

Pieroni demonstra que "a chamada 'migração forçada' faz parte da história do Atlântico Sul", e que o degredo insere-se no contexto mais amplo da modernidade europeia, que "presenciou as maiores transferências forçadas de população de africanos e europeus" .

2. A Construção Social do "Indesejável"

Um dos argumentos mais importantes do livro é a desconstrução da imagem tradicional do degredado como "sinônimo de pessoa marginal e violenta". Pieroni mostra que as leis sobre o degredo eram "construções inseridas no tempo no qual foram decretadas e funcionavam de acordo com os interesses do Estado e da Igreja" .

Muitas das pessoas enviadas ao degredo haviam cometido "crimes muitas vezes ridículos e que atualmente não renderiam nem uma multa de trânsito". O autor demonstra os "conchavos e interesses políticos e econômicos da coroa portuguesa por trás da imposição das penas de degredo", especialmente no caso dos cristãos-novos, cujos bens eram confiscados pela Coroa .

3. A Inquisição e o Degredo

Pieroni dedica atenção especial ao papel do Santo Ofício na política do degredo. Como ele escreve em seu artigo acadêmico sobre o tema, "para o Santo Ofício, o degredo funcionou como uma necessária defesa contra a heterodoxia" . A Inquisição Portuguesa utilizou o degredo como ferramenta de "purificação" do Reino, enviando para o Brasil aqueles considerados uma ameaça à ortodoxia católica.

Uma descoberta significativa de sua pesquisa é que, entre os degredados enviados pela Inquisição, 52% eram cristãos-novos (judeus convertidos ao catolicismo), o que levanta a questão central de seu artigo: eram eles criptojudaizantes ou católicos sinceros? 

4. A Dupla Face do Degredado: Peso e Necessidade

O livro revela uma tensão fundamental na relação entre a Coroa portuguesa e os degredados. Os donatários (donos das capitanias hereditárias) "tiveram que se haver com eles, com horror, ou, mesmo, com intenção utilitária para a funcionalidade da colonização" . Os degredados eram ao mesmo tempo uma praga (indesejáveis, perigosos, imorais) e uma necessidade (mão de obra para povoar e defender o território).

Esta ambiguidade é capturada por uma leitora do blog Mar de Histórias, que observa que Pieroni "vai além de desvendar a história dos degredados no Brasil-Colônia. Ao desfazer algumas das construções da historiografia sobre degredados, como sinônimos de pessoas marginais e violentas, ele nos mostra as nuanças das leis e a lógica da atuação do Estado e da Igreja portugueses nos séculos XVI-XVII" .

5. Os Degredados e a Formação da Identidade Brasileira

Uma das contribuições mais originais do livro é a tese de que os degredados foram agentes ativos na formação da cultura brasileira. Pieroni argumenta que "junto com os corpos, vieram crenças, saberes e práticas condenadas na Europa. O Brasil tornou-se laboratório de hibridismos culturais: rezas, feitiços, saberes de ervas, rituais mágicos e heresias se mesclaram com tradições indígenas e africanas" .

Esta perspectiva desafia a visão tradicional da colonização como um processo exclusivamente conduzido por heróis, exploradores e missionários, revelando uma "face oculta" do Brasil colonial feita de "marginais, perseguidos e malditos" .

Os Grupos de Degredados em Detalhe

Ciganos

A perseguição aos ciganos na Península Ibérica remonta ao século XV. Pesquisas demonstram que os ciganos chegaram ao Brasil ainda no período colonial, "não existe um consenso quanto à data exata. Essas informações remetem ao degredo de indivíduos ou famílias ciganas, por determinação da Coroa Portuguesa. As deportações de ciganos de Portugal para o Brasil se estenderam até o final do século XVIII" .

Pieroni destaca o século XVII "como o momento em que se generalizou o degredo de 'bandos' de ciganos para o Brasil, principalmente após a resolução real de 1686 baseada nas orientações de Filipe II (1610) que determinava o degredo de ciganos para a África, e posteriormente para o território brasileiro" .

Cristãos-Novos e Heréticos

Os cristãos-novos constituíram o grupo mais numeroso entre os degredados religiosos, representando 52% do total . A perseguição a este grupo estava ligada à suspeita de criptojudaísmo – a prática secreta do judaísmo após a conversão forçada ao catolicismo.

Pieroni mostra como "os bens das famílias, claro, não cruzavam o oceano com elas" – o confisco de propriedades era um motivador econômico significativo por trás das perseguições religiosas .

Bruxas e Feiticeiras

O livro inclui a análise de casos concretos, como o de Maria Seixas, "acusada de bruxaria e invocação ao demônio", cujo processo inquisitorial é descrito na Introdução da obra . Pieroni demonstra como a acusação de bruxaria servia frequentemente para punir mulheres que desafiavam as normas sociais ou religiosas de sua época.

Citações e Análise Detalhada

Sobre a Natureza do Degredo

"O degredo era um recurso judicial e social: esvaziava as ruas de Lisboa dos pobres e desviantes, e ao mesmo tempo fornecia braços para a colonização" .

Esta citação captura a dupla função do degredo: punição para o indivíduo, utilidade para o Estado.

Sobre a Injustiça das Penas

"O autor resgatou todo um grupo de indivíduos que ao longo da história do país foi mal compreendido e pior ainda descrito... desmentindo velhos tabus que atribuem toda sorte de desgraças sociais do Brasil de agora aos degredados enviados para cá por crimes muitas vezes ridículos e que atualmente não renderiam nem uma multa de trânsito" .

Esta passagem (de uma resenha) destaca um dos principais objetivos do livro: desfazer a imagem negativa dos degredados como fontes da criminalidade brasileira.

Sobre a Hibridização Cultural

"O Brasil tornou-se laboratório de hibridismos culturais: rezas, feitiços, saberes de ervas, rituais mágicos e heresias se mesclaram com tradições indígenas e africanas" .

Pieroni sugere que os degredados, longe de serem meramente "escória descartada", contribuíram ativamente para a formação da cultura popular brasileira.

Críticas e Debates

Críticas Positivas

1. Pioneirismo e Relevância: O livro é descrito como um "trabalho específico pioneiro que aborda a pena de banimento de Portugal para o Brasil durante o período colonial", preenchendo "uma lacuna histórica que permite reconstruir as trajetórias daqueles que atravessaram o Atlântico premidos pelas necessidades fundamentais do estabelecimento da colonização na América do Sul" .

2. Rigor de Pesquisa: A obra é fruto de um "exaustivo trabalho de pesquisa em arquivos, livros raros, enciclopédias, coleções de leis e processos de degredados" . O autor realizou pesquisas "nos diversos arquivos de Portugal e Brasil" .

3. Desconstrução de Mitos: Um dos maiores méritos do livro é "desfazer algumas das construções da historiografia sobre os banidos vistos como sinônimo de pessoas marginais e violentas" .

4. Linguagem Acessível: A obra é elogiada por sua "linguagem clara e direta que se lê com prazer", afastando-se do "academicismo metido a besta" .

Críticas e Limitações

1. Irregularidade no Tom Narrativo (Crítica Mais Frequente): Uma resenha detalhada no blog Mar de Histórias aponta que o livro, embora escrito com "fluência e boa cadência narrativa", não consegue "deixar de ser didático". A crítica observa que "quando a leitura embala, lá vem uma certa sisudez cortar o barato" .

Esta irregularidade é atribuída à origem acadêmica do livro: "Geraldo Pieroni é um historiador e o livro deriva de sua tese de doutorado". Embora o autor tenha tentado "amenizar a linguagem acadêmica", o texto mantém uma certa sisudez que pode afastar leitores em busca de uma narrativa mais romanceada .

2. Falta de "Romanceamento" Histórico: A mesma resenha compara a obra desfavoravelmente com autores como Eduardo Bueno e Laurentino Gomes (jornalistas que escrevem história de forma romanceada). Pieroni "não avança além do relato dos fatos, como um professor faria em sala de aula, sem aquela pincelada romanesca que o tema sugere" .

A resenha cita o exemplo de O Português que nos Pariu, de Angela Dutra de Menezes, que "igualmente sério no seu teor histórico documental, mas deliciosamente leve na forma" teria conseguido equilibrar melhor rigor acadêmico e leveza narrativa .

3. Público-Alvo Restrito: Uma consequência da irregularidade narrativa é que o livro "é leitura no mínimo, para quem curtiu muito as aulas de História no ensino médio. Sendo que alguns trechos realmente falam mais ao coração dos pesquisadores profissionais". O leitor em busca de aventura "não se sente seduzido a também singrar os mares na companhia dos homens e mulheres que foram condenados ao desterro" .

4. Resposta do Autor às Críticas: Em uma nota notável de abertura ao diálogo, o próprio Geraldo Pieroni respondeu a esta resenha crítica, reconhecendo as limitações apontadas:

"Realmente a pesquisa nasceu na universidade, no meio de documentos e teorias históricas. Tentei o máximo amenizar a linguagem acadêmica quando publiquei Vadios e Ciganos…. Acho que a história tem que sair da academia mas sem perder seus métodos e rigor na pesquisa sobretudo nas fontes primárias. O meu outro livro que é minha tese de doutoramento, 'Os excluídos do Reino' aprofunda bem mais o tema, no entanto, como vc escreveu, 'a sisudez corta o barato' de quem prefere viajar com os degredados" .

Esta resposta é importante porque revela que o autor está consciente das limitações da obra e que existe um livro acadêmico mais aprofundado (Os excluídos do Reino) para leitores que desejam maior rigor teórico.

5. Ausência de Aprofundamento em Temas Específicos: Embora a obra cubra múltiplos grupos de degredados (ciganos, cristãos-novos, bruxas, vadios), a extensão relativamente curta do livro (144 páginas) pode implicar que alguns temas recebem tratamento menos aprofundado do que mereceriam. O autor reconhece que sua tese de doutorado, Os excluídos do Reino, "aprofunda bem mais o tema" .

A Contribuição de Pieroni aos Estudos Ciganos

Uma crítica indireta, mas significativa, vem do campo dos estudos ciganos. O antropólogo Renato Athias, em artigo acadêmico, cita Pieroni como uma das referências importantes para a compreensão da presença cigana no Brasil colonial. Athias observa que "historiadores, entre os quais Geraldo Pieroni destaca o Séc. XVII como o momento em que se generalizou o degredo de 'bandos' de ciganos para o Brasil" .

Esta citação acadêmica indica que, apesar das limitações narrativas apontadas por resenhistas, o trabalho de Pieroni é reconhecido como uma contribuição substantiva para o conhecimento histórico sobre os ciganos no Brasil.

Contexto Historiográfico

O livro insere-se em um movimento mais amplo da historiografia brasileira que busca dar voz a grupos tradicionalmente marginalizados nas narrativas históricas oficiais. Como observa o blog Factótum Cultural:

"Quando falamos de Brasil-colônia, pensamos logo em jesuítas, índios catequizados, senhores de engenho e escravos africanos. Mas Geraldo Pieroni, em Vadios e ciganos, heréticos e bruxas, nos lembra que há outra face da história: o Brasil foi também terra de exílio, castigo e purgação" .

Esta "face oculta" da colonização inclui não apenas os degredados europeus, mas também as populações indígenas e africanas com as quais eles interagiram, formando um "caldeirão de culturas, crenças, misérias e resistências" .

A Pergunta Final do Livro

Uma das contribuições mais provocativas do livro é a pergunta que lança sobre o presente:

"No fim, a pergunta que o livro lança é perturbadora: se fomos formados por degredados e marginalizados, até que ponto nossa sociedade ainda repete, hoje, o hábito de expulsar, estigmatizar e silenciar os que não se encaixam?" .

Esta questão conecta a análise histórica a problemas contemporâneos, sugerindo que o estigma que recai sobre "povos nômades, sobre práticas religiosas afro-brasileiras, sobre pobres considerados 'vadios' vem dessa mentalidade colonial" .

Avaliação Geral e Conclusão

Vadios e Ciganos, Heréticos e Bruxas é uma obra que cumpre com sucesso seu objetivo declarado: trazer à luz um aspecto pouco conhecido, mas fundamental, da história do Brasil colonial.

Pontos fortes:

  • Pioneirismo no tratamento do tema do degredo no Brasil colonial

  • Rigor de pesquisa em fontes primárias portuguesas e brasileiras

  • Desconstrução de mitos e estereótipos sobre os degredados

  • Linguagem acessível (dentro dos limites do gênero acadêmico)

  • Conexão entre passado colonial e problemas sociais contemporâneos

Limitações:

  • Irregularidade no tom narrativo (alternância entre fluidez e sisudez acadêmica)

  • Público-alvo restrito a leitores com alguma familiaridade com história acadêmica

  • Extensão relativamente curta para a amplitude do tema

  • Falta de aprofundamento em alguns subtemas (remetendo o leitor a Os excluídos do Reino)

Público-alvo: O livro é recomendado para estudantes de história (ensino médio e superior), pesquisadores interessados em história colonial portuguesa e brasileira, e leitores em geral com interesse em aspectos menos conhecidos da formação do Brasil. Como observa uma resenha, é "leitura obrigatória para quem quer compreender o Brasil além da superfície" .

Relação com outras obras do autor: Pieroni recomenda que leitores que desejam maior aprofundamento teórico e documental consultem sua tese de doutorado, Os excluídos do Reino: Inquisição e degredo para o Brasil-Colônia, que "aprofunda bem mais o tema" . Vadios e Ciganos funcionaria, portanto, como uma versão mais acessível e sintética do mesmo universo de pesquisa.

Avaliação final: O livro representa uma contribuição significativa para a historiografia brasileira ao resgatar a "categoria silenciada" dos degredados . Sua principal virtude é desfazer a imagem negativa destes personagens como meramente "marginais e violentos", revelando as complexidades das leis, dos interesses políticos e religiosos, e das trajetórias individuais que moldaram a colonização do Brasil. A despeito de suas limitações narrativas, é uma obra que "faz emergir, para a história brasileira, a categoria silenciada até então – os degredados e sua trajetória" .