SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

A Grande Tapeçaria do Amor: Como os Casais da Bíblia Revelam o Verdadeiro Amor. Por Egidio Guerra




Se observarmos a Bíblia como um todo, veremos que ela não oferece uma única definição de amor verdadeiro, mas sim uma galeria de retratos. Cada casal sagrado é como um fio de cor distinta que, isoladamente, parece incompleto ou até mesmo contraditório. No entanto, quando o Artista divino os tece juntos no tear da história, esses fios se entrelaçam para formar uma magnífica tapeçaria que revela a profundidade, a complexidade e a beleza do amor que vem de Deus.

O primeiro fio é azul-céu, cor da confiança e da peregrinação. É o amor de Abraão e Sara, que deixaram sua terra por uma promessa. Seu amor nos ensina que o verdadeiro amor não se apega ao conforto do conhecido, mas caminha junto em direção a um futuro que só Deus pode ver. Mesmo com falhas – a impaciência de Sara ao oferecer Hagar, o medo de Abraão ao negar que ela era sua esposa – eles permaneceram unidos. A risada compartilhada no nascimento de Isaac é o bordado dourado nesse fio: o amor verdadeiro aprende a rir das impossibilidades junto com Deus.

O segundo fio é vermelho-sangue, cor da paixão e do risco. É o amor de Isaac e Rebeca. Ele, o filho da promessa, meditativo e tranquilo. Ela, a jovem corajosa que deixou sua família para se casar com um homem que nunca vira. Ao encontrar Isaac no campo, Rebeca desce do camelo e cobre o rosto – um gesto de entrega e reverência. O texto diz que Isaac a amou e foi consolado após a morte de sua mãe. Aqui aprendemos que o amor verdadeiro traz cura e consolo, sendo um refúgio para as feridas da alma.

O terceiro fio é verde-esperança, cor da superação da decepção. É o amor de Jacó e Raquel. Jacó trabalhou quatorze anos por Raquel, e o texto diz, de forma comovente, que esses anos lhe pareceram poucos, por tanto a amava. No entanto, esse amor foi marcado pela espera, pela rivalidade com Lia e pela perda precoce de Raquel no parto. A tapeçaria nos mostra aqui que o amor verdadeiro não é imune à dor. Ele pode ser intenso e ainda assim enfrentar a perda. Jacó, ao final da vida, ainda se lembrava de Raquel com ternura, provando que o amor transcende até mesmo a sepultura.

O quarto fio é roxo-realeza, cor da lealdade e da escolha. É o amor de Rute e Boaz. Rute, a viúva moabita, jura lealdade à sua sogra Noemi e, por extensão, ao Deus de Israel. Sua decisão de ir para os campos de Boaz não foi um golpe do acaso, mas o encontro entre a fidelidade humana e a providência divina. Boaz, o homem íntegro, a chama de "filha virtuosa" e a redime. Aqui aprendemos que o amor verdadeiro é, acima de tudo, um ato de hesed – a palavra hebraica que significa amor-aliança, lealdade incondicional, bondade que não desiste. Rute e Boaz nos mostram que o amor escolhe, se compromete e protege.

O quinto fio é branco-luz, cor da pureza e da obediência. É o amor de José e Maria. Um casamento que começou em crise, com uma gravidez que parecia inexplicável. José, um homem justo, planejava se separar silenciosamente para não expor Maria à vergonha pública. Mas um anjo, em sonho, o convida a confiar. Ele confia. Ele toma Maria como esposa e assume a responsabilidade de criar o Filho de Deus. Este fio é o mais sutil, pois quase não vemos diálogos entre eles. Vemos, em vez disso, ações silenciosas: José protegendo Maria e o menino, fugindo para o Egito, voltando para Nazaré. O amor verdadeiro, aqui, é silencioso, protetor e disposto a carregar mistérios que a mente não compreende.

Finalmente, há o fio que atravessa toda a tapeçaria, costurando todos os outros: o fio carmesim do amor de Cristo pela Igreja. Paulo escreve que o casamento é um "grande mistério" que aponta para essa realidade: Cristo amou a Igreja e se entregou por ela. Todos os amores bíblicos – com seus acertos, fracassos, esperas, riscos, lágrimas e risadas – são sombras e prenúncios desse amor supremo. Abraão e Sara apontam para a fé que segue a promessa. Isaac e Rebeca apontam para o encontro que traz consolo. Jacó e Raquel apontam para o trabalho árduo e a paixão que não mede esforços. Rute e Boaz apontam para a redenção e a lealdade. José e Maria apontam para a obediência silenciosa e a proteção do sagrado.

Quando contemplamos a tapeçaria completa, vemos que o verdadeiro amor, segundo a Bíblia, não é um sentimento uniforme. É uma realidade multifacetada que inclui:

  • Peregrinação (ir juntos para onde Deus chama)

  • Cura (ser consolo um para o outro)

  • Perseverança (amar mesmo com perdas e esperas)

  • Lealdade (escolher o outro dia após dia)

  • Proteção (guardar o mistério do outro)

Cada casal na Bíblia é imperfeito. Sara riu com dúvida; Rebeca participou de um engano; Jacó amou de forma parcial; Davi (cujo fio deixamos de fora por brevidade) falhou gravemente; José e Maria enfrentaram escândalo. E é justamente essa imperfeição que torna a tapeçaria tão real. O amor verdadeiro não é o amor que nunca erra. É o amor que, mesmo no erro, é resgatado pela graça de Deus e reinserido no tear da aliança.

Assim, ao olharmos para esses casais, não devemos procurar heróis românticos intocáveis. Devemos, em vez disso, ver espelhos de nossa própria jornada. Pois o mesmo Deus que teceu a história de Abraão e Sara, de Rute e Boaz, de José e Maria, continua tecendo hoje – com nossos fios falhos, nossas cores desbotadas, nossos nós imprevistos – a tapeçaria do verdadeiro amor. E quando a obra estiver completa, veremos que cada ponto, cada cruzamento, cada lágrima tecida foi necessária para formar a imagem final: a imagem do Amor que nunca falha.

O Amor como Território Incerto: Sobre Loved One, de Aisha Muharrar

 


A Fragilidade do que Não se Completa

Existe uma ideia corrente de que o amor verdadeiro é aquele que se consolida — que encontra seu lugar, se nomeia, se resolve. Mas e quando o amor não se resolve? Quando ele permanece suspenso, ambíguo, sem a cerimônia de um final ou a segurança de uma definição? É nesse território movediço que transita Loved One, o romance de estreia de Aisha Muharrar, roteirista conhecida por seu trabalho em HacksParks and Recreation e The Good Place .

A história começa onde muitas histórias de amor terminam: num funeral. Julia, trinta anos, entrega o elogio fúnebre de Gabe, seu primeiro amor que, com o tempo, tornou-se seu melhor amigo. O que ela evita dizer — "a coisa óbvia", nas palavras do romance — é que ele tinha apenas 29 anos e que sua morte foi tão súbita que faria mais sentido estar celebrando seu casamento . Este deslocamento inicial já anuncia o tom da obra: Muharrar não está interessada no amor que segue roteiros previsíveis, mas naquele que desorienta, que deixa perguntas no ar.

Ambiguous Loss: O Amor que não Encontra Palavras

O conceito que estrutura o livro vem da psicóloga Pauline Boss: ambiguous loss (perda ambígua). Diferente da perda convencional, que permite rituais de despedida e narrativas de encerramento, a perda ambígua se caracteriza pela incerteza — seja porque a pessoa desapareceu sem explicação, seja porque a relação foi rompida de forma abrupta, deixando questões insolúveis . "Não existe isso de closure", afirma Boss, contrariando uma expectativa tipicamente americana de que toda história deve ter um final arrumado .

Julia não sabe, ao longo do romance, o que exatamente estava acontecendo entre ela e Gabe no mês anterior à sua morte. Eles haviam se reaproximado? Havia algo não dito? A impossibilidade de responder a essas perguntas — porque o outro não está mais ali para responder — é o que transforma o luto de Julia em algo mais tortuoso que a simples saudade. Não é apenas a perda de uma pessoa; é a perda da própria certeza sobre o que existia entre eles.

Muharrar, que escreveu o livro após perder quatro pessoas próximas em um curto período, inclusive durante a pandemia, encontrou nesse conceito uma chave para narrar a dor sem cair no melodrama . "Há muitos livros sobre luto agora", observa a autora, "mas eu queria escrever algo que, se você estivesse passando por uma perda, pudesse ler e não se sentir mais deprimido ao final" .

Duas Mulheres, um Morto, Muitas Versões

O grande achado narrativo de Loved One é introduzir Elizabeth, a última namorada de Gabe, como contraponto a Julia . As duas mulheres se encontram pela primeira vez no banheiro do funeral — um cenário deliberadamente pouco romântico, quase cômico — e a fala de Elizabeth é um golpe: "Eu sei exatamente quem você era para o Gabe" .

Esta afirmação desestabiliza Julia porque contém uma pretensão de saber algo que talvez ela mesma não saiba. Mas contém também uma ameaça: de que a versão que Elizabeth tem de Gabe — e do lugar de Julia na vida dele — pode ser diferente, talvez contraditória. A tensão que move o romance não é, portanto, uma rivalidade romântica banal. É uma disputa epistemológica: quem realmente conhecia Gabe? Qual das duas mulheres tem o direito de reivindicar a versão mais autêntica daquele homem?

Muharrar conta que a ideia para o livro surgiu de uma conversa trivial: uma amiga lhe contou que sua amiga estava namorando um ex-namorado da autora — um ex sobre o qual ela só tinha elogios. A amiga, no entanto, achava o homem um péssimo namorado. "Eu não sou o Yelp de namorados!", brincou Muharrar na época . Mas a pergunta persistiu: quem está certa? A resposta, evidentemente, é que ninguém está. Somos pessoas diferentes em relacionamentos diferentes, e o outro nunca é uma essência estável, mas um feixe de relações possíveis .

Humor como Forma de Suportar o Insuportável

O que impede Loved One de ser um romance depressivo é o humor — e aqui a formação de Muharrar na televisão se faz sentir. Julia pensa em tropos de comédia romântica, em "conteúdo nunca antes visto que mantém o filme da vida dele em exibição" . O humor não é um alívio superficial; é, para as personagens, o único terreno neutro onde podem se encontrar. "Você não pode fingir uma boa risada", diz Muharrar, "e ao mesmo tempo é difícil conter o riso" .

Elizabeth e Julia têm razões para desconfiar uma da outra — ciúmes, inveja, a sensação de que a outra recebeu algo que lhe era devido. Mas o humor as desarma. A química entre elas, observa a autora, não é necessariamente sexual, mas é uma química real: "Elas são atraídas uma pela outra" . É essa atração — feita de inteligência compartilhada, de timing cômico, de reconhecimento mútuo — que permite que a história avance para além da suspeita inicial.

O Amor como Pergunta, não Resposta

Ao final do livro, não há grande revelação. Não há uma carta deixada por Gabe que explique tudo. Não há uma cena catártica em que Julia finalmente "supera" sua perda. O que há, em vez disso, é um aprendizado mais sutil: que o amor não precisa de resolução para ter sido real. "Closure pode ser pedir demais para essas mulheres enlutadas", escreve a crítica da AP, "mas é o suficiente que elas percebam que ainda têm vidas para viver sem o objeto do título do livro" .

Muharrar deliberadamente evita falar sobre luto de forma direta. "Achei que a maneira de expressar isso no livro viria de como as pessoas se comportam naturalmente. Você está em um momento pensando em alguém que não está mais ali. E em outro momento, alguém pergunta o que você quer para o jantar" . Essa alternância entre a dor e a banalidade da vida cotidiana é, talvez, a representação mais honesta do que significa perder alguém.

Loved One nos lembra que o amor raramente cabe nas categorias que inventamos para domesticá-lo — amizade, romance, ex, amante. Ele transborda, deixa rastros, se recusa a ser arquivado. E é precisamente essa recusa que faz com que valha a pena amá-lo, mesmo quando — talvez especialmente quando — ele dói.

domingo, 5 de abril de 2026

DJ Fixman – Hatikvah Rising (Israeli Ethnic Melodic Techno Remix 2026 | Israel National Anthem)


 

הבאנו שלום עליכם/ Hevenu Shalom Alehem /Jerusalem Academy flashmob for Taglit at Ben Gurion Airport


 

Judaísmo Hoje: 5786 Anos de História, Desafios e Renovação Espiritual em Tempos de Guerra

 



O ano de 5786 no calendário judaico não é apenas um número; é um convite à reflexão sobre a longa caminhada do povo judeu através dos séculos e, sobretudo, sobre o momento crítico que se vive agora. Em uma era marcada por guerras, ataques terroristas e um preocupante aumento do antissemitismo global, líderes religiosos progressistas têm oferecido respostas teológicas e éticas que buscam equilibrar a legítima autodefesa com a compaixão pelo sofrimento alheio. Este texto explora o pensamento do Rabino Elliot Cosgrove e de outros importantes rabinos progressistas — como Nilton Bonder, Sharon Brous e Bradley Shavit Artson — que, cada um à sua maneira, têm iluminado o caminho para um judaísmo mais consciente, moral e esperançoso.

1. O Pensamento do Rabino Elliot Cosgrove: "Para um Momento Como Este"

Em seu livro "For Such a Time as This: On Being Jewish Today" (Para Um Momento Como Este: Sobre Ser Judeu Hoje), o Rabino Elliot Cosgrove, da Park Avenue Synagogue em Nova York, enfrenta a questão central da identidade judaica no século XXI. Longe de oferecer respostas simplistas, Cosgrove propõe que a força do judaísmo reside na capacidade de manter em tensão duas forças aparentemente opostas: a empatia e a vigilância.

A Tensão Fundamental: Empatia e Vigilância

Para Cosgrove, ser judeu é herdar uma memória de ser o "estranho em uma terra estranha". Essa experiência histórica, gravada no DNA judaico, exige uma profunda empatia pelo outro, incluindo aqueles que hoje são vistos como adversários. Ele argumenta que a tradição judaica nos obriga a nos importarmos com o sofrimento de todos os seres humanos, inclusive os palestinos que sofrem em Gaza. No entanto, essa empatia não pode ser ingênua. A mesma história de perseguição e exílio, somada à realidade de um Estado de Israel sitiado por inimigos declarados, exige uma vigilância constante. Cosgrove ecoa a Haggadah da Páscoa ao lembrar que "em todas as gerações, um faraó se levanta para nos destruir". O grande desafio do momento, portanto, é conseguir "manter os escudos de autodefesa" enquanto se estende "a mão aberta e estendida" para a paz.

Crítica a Netanyahu e o Sionismo Progressista

O Rabino Cosgrove é um firme crítico do Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu e de sua coalizão governante. Ele vê as políticas de "expansão de assentamentos" e a "deriva à direita" de Israel como responsáveis por afastar os judeus liberais da América do sionismo. Em seus discursos, ele defende um "novo capítulo do sionismo americano" que seja "ousado o suficiente para abraçar as vozes, complexidades, paradoxos e até contradições da nossa era". Para ele, tornar o "apoio incondicional ao governo israelense um teste decisivo para a identidade judaica... causou danos ao futuro judaico". Ainda assim, Cosgrove traça linhas vermelhas claras: a crítica legítima às políticas de Israel é bem-vinda, mas o antissionismo que beira a cumplicidade com o terror é inaceitável.

"Perigo para a Comunidade": O Caso Mamdani

A coragem do Rabino Cosgrove ficou evidente em sua posição pública contra o candidato a prefeito de Nova York, Zohran Mamdani. Em um sermão contundente, ele afirmou: "Para ser claro, inequívoco e registrado, eu acredito que Zohran Mamdani representa um perigo para a segurança da comunidade judaica de Nova York". No entanto, ele usou o episódio não apenas para denunciar, mas para fazer uma autocrítica na comunidade, argumentando que os apoiadores de Israel "não deveriam ficar surpresos" com o voto de judeus liberais em candidatos antissionistas. Para Cosgrove, isso é um sintoma de um mal mais profundo: o fracasso do governo israelense em representar os valores democráticos e progressistas que ressoam com grande parte da diáspora judaica.

2. As Raízes da Tradição: A Guerra e a Paz no Pensamento Judaico

Antes de aprofundar em outros pensadores contemporâneos, é crucial entender o arcabouço tradicional que eles interpretam. O judaísmo não é uma religião pacifista, mas também não glorifica a guerra.

A Ética da Guerra na Tradição (Halachá)

A tradição judaica distingue entre guerras obrigatórias (guerras de autodefesa ou comandadas por Deus) e guerras opcionais (por expansão territorial). Com o tempo, os rabinos restringiram enormemente a justificativa para a guerra. Como explica o Rabino Bradley Shavit Artson, "apenas um tipo de guerra, a guerra defensiva, ainda é permitida. Apenas o combate que responde a um ataque, apenas a defesa para evitar uma matança iminente, pode ser moralmente justificada". Isso cria uma tensão ética fundamental: o direito à autodefesa é uma obrigação religiosa, mas a imunidade de civis é um princípio sagrado. "Isso cria uma tensão, pois você tem dois objetivos legítimos que podem entrar em conflito", resume Artson .

O Valor Supremo da Paz (Shalom)

O valor máximo não é a ausência de conflito, mas a shalom — uma paz que implica integridade, plenitude e justiça. Como observa uma análise da obra de Artson, "os sábios do judaísmo não apenas proibiram a guerra agressiva, mas insistiram em defender a shalom e a vida contra agressões". Em um mundo não redimido, a recusa em se defender resulta na perda da própria paz e da vida que se busca proteger .

3. Outras Vozes Progressistas em Tempos de Guerra

Diante da guerra entre Israel e Hamas que eclodiu em outubro de 2023, líderes progressistas têm se destacado por oferecer uma resposta moral que rejeita falsas dicotomias.

Rabino Nilton Bonder: O "Macaco Interior" e a Luta Contra o Antissemitismo

O Rabino Nilton Bonder, uma das vozes mais originais do judaísmo brasileiro, oferece uma perspectiva psicossocial única. Para ele, o aumento do antissemitismo e do racismo no mundo não é uma anomalia, mas a reativação de um "instinto animal" ou "comportamento de macaco" que habita em todos os seres humanos. "A gente se surpreende que essas coisas voltem, mas elas voltam porque dentro do ser-humano habita um macaco", afirma Bonder. Em momentos de crise — imigração, terrorismo, competição econômica — esses instintos tribais são reativados .

Bonder argumenta que os judeus são alvo frequente porque representam a "força civilizadora" e a transgressão, sendo historicamente "sonhadores utópicos" que desafiam o establishment. Sua mensagem, contudo, é de introspecção e responsabilidade individual: a verdadeira luta contra o ódio não começa no outro, mas dentro de cada um. "As pessoas devem pensar que existe dentro delas algo que faz coisas totalmente contrárias dos valores que elas têm... Essa é a minha luta civilizadora: conter a mim mesmo", conclui o rabino .

Em seus escritos, como "Judaísmo para o Século XXI" (em coautoria com Bernardo Sorj), Bonder também aborda a necessidade de diálogo entre o judaísmo secular e a tradição religiosa, a questão dos casamentos mistos e a complexidade da identidade judaica na modernidade .

Rabina Sharon Brous: Contra a "Falsa Binária" e a Favor da Libertação Coletiva

A Rabina Sharon Brous, fundadora da congregração IKAR em Los Angeles, tornou-se uma voz profética após o 7 de outubro. Seu livro, "The Amen Effect" (O Efeito Amém), publicado coincidentemente após o ataque, oferece um caminho para a reconciliação em um mundo polarizado .

Em seus discursos, Brous ataca diretamente a "falsa binária" que emergiu após o massacre: a ideia de que é preciso escolher entre apoiar israelenses ou apoiar palestinos. "Essa falsa binária é falsa. Não faz sentido. Você pode, e você deve, e eu o faço, e todos nós devemos nos importar profundamente com a justiça para os palestinos", afirma. "Isso não justifica estupro, sequestro e assassinato de inocentes." Para Brous, a moralidade exige a defesa de ambas as vítimas: "Não é certo atacar inocentes, mesmo que você acredite que uma causa é justa" .

Sua mensagem central é de que "no mundo das falsas binárias, ninguém vence. Se não tivermos uma premissa de libertação coletiva, não há libertação para ninguém". Essa postura a colocou em rota de colisão tanto com a extrema-direita israelense quanto com setores da esquerda americana que justificaram o terrorismo.

Rabino Bradley Shavit Artson: Defesa, Moralidade e a Busca por Soluções de Longo Prazo

O Rabino Bradley Shavit Artson, uma das maiores autoridades do judaísmo conservador, oferece uma perspectiva que combina halachá (lei judaica) com realismo político. Em entrevista recente, ele reafirmou: "Não somos uma religião pacifista. A lei judaica afirma o direito à autodefesa como uma obrigação religiosa" .

No entanto, Artson não ignora o custo humano da guerra. "Afirmo o direito de Israel de se defender. Estou com Israel. E sinto angústia pelas mortes de civis de ambos os lados", declarou. Sua esperança é que "Israel traga sua criatividade e inovação para a possibilidade de criar soluções de longo prazo". Em suas obras, como "Love, Peace and Pursue Peace", Artson já havia desenvolvido um arcabouço ético para pensar a guerra na era das armas de destruição em massa, reafirmando que, embora a guerra defensiva seja permitida, a shalom continua sendo o valor absoluto em torno do qual todos os outros giram .

Rabino Donniel Hartman: Reimaginando a História Judaica para o Século XXI

O Rabino Donniel Hartman, presidente do Shalom Hartman Institute, oferece um arcabouço teórico fundamental. Em seu livro "Who Are the Jews—And Who Can We Become?" (Quem São os Judeus — E Quem Podemos Nos Tornar?), ele argumenta que a identidade judaica sempre foi uma síntese viva de duas alianças concorrentes: a Aliança de Gênesis (que define o judeu pelo pertencimento tribal) e a Aliança de Êxodo (que define o judeu por um sistema de valores e comportamentos) .

Para Hartman, quando uma dessas narrativas se torna muito dominante, a identidade coletiva judaica se distorce. O tribalismo cego (Gênesis sem Êxodo) leva à "mediocridade moral e até à depravação", enquanto o universalismo vazio (Êxodo sem Gênesis) leva ao abandono da comunidade. Ele aplica esse modelo a desafios contemporâneos como o conflito israel-palestino, o casamento inter-religioso e o relacionamento tenso entre Israel e a diáspora, oferecendo um caminho para uma identidade judaica mais robusta e inclusiva no século XXI.

Conclusão: Um Judaísmo para Tempos Difíceis

O ano de 5786 encontra o povo judeu em uma encruzilhada. As imagens de horror do 7 de outubro, a dor dos reféns, a devastação em Gaza e o aumento do antissemitismo global criaram um ambiente de profunda ansiedade e luto. No entanto, os pensamentos dos rabinos Cosgrove, Bonder, Brous, Artson e Hartman oferecem mais do que consolo; eles oferecem um mapa moral.

A mensagem que emerge dessas vozes progressistas é clara: o caminho a seguir não é o da simplificação ou da tribalização cega. É o caminho da complexidade madura. É possível, e necessário, defender o direito de Israel existir e se defender ao mesmo tempo que se chora a morte de crianças inocentes em Gaza. É possível sentir orgulho judaico e criticar as políticas do governo israelense. É possível combater o antissemitismo ferozmente enquanto se combate a islamofobia e o racismo.

Como nos ensina o Rabino Cosgrove, citando a Rainha Ester, talvez a liderança judaica de hoje tenha chegado a este momento crítico exatamente "para um momento como este". E a resposta, longe de ser uma fuga para trincheiras ideológicas, é um convite para uma vivência judaica mais profunda, mais ética e mais engajada com a cura de um mundo dilacerado. Em um ano de guerra, o judaísmo progressista reafirma que a esperança não é ingênua, mas um ato de resistência espiritual e uma aposta no futuro.

Call Me Antifa – A Patriotic Protest Anthem for Freedom, Justice, and Love


 

O Pensamento e os Discursos do Rabino Elliot Cosgrove: Uma Liderança Corajosa em Tempos de Crise

 



Rabino Elliot Cosgrove, líder espiritual da Park Avenue Synagogue em Nova York, emergiu como uma das vozes mais influentes e, simultaneamente, mais controversas do judaísmo americano contemporâneo. Seus pensamentos e discursos, especialmente no período que se seguiu ao fatídico 7 de outubro de 2023, oferecem um retrato de um líder que busca navegar pelas águas turbulentas da identidade judaica moderna com uma combinação de coragem moral, profundidade intelectual e um compromisso inabalável com o sionismo progressista.

A Base de Seu Pensamento: Empatia e Vigilância em Tensão

O cerne da filosofia do Rabino Cosgrove, conforme articulado em seu livro de 2024, "For Such a Time as This: On Being Jewish Today", é a necessidade de manter duas ideias aparentemente opostas em equilíbrio: a empatia e a vigilância . Para ele, essa tensão está gravada no próprio DNA judaico.

Por um lado, a experiência histórica judaica de ser o "estranho em uma terra estranha" exige uma profunda empatia pelo outro, incluindo os palestinos que sofrem em Gaza. Cosgrove argumenta que "ser judeu é saber que, por causa de quem somos, por causa da nossa experiência histórica, nos importamos com o outro" . Ele reconhece o "sofrimento real que está acontecendo em Gaza" e insiste que a comunidade judaica precisa encontrar uma maneira de reconhecer tanto a necessidade de autodefesa de Israel quanto o sofrimento palestino .

Por outro lado, a história de perseguição e a realidade de um Estado de Israel sitiado por inimigos como o Irã e seus proxies exigem vigilância constante. Cosgrove cita a Haggadah da Páscoa, que nos lembra que "em todas as gerações, um faraó se levanta para nos destruir" . Essa tensão entre "manter os escudos de autodefesa" e estender "a mão aberta e estendida" é, para ele, o grande desafio do momento .

A Coragem de Falar: O Caso Mamdani e a Defesa da Comunidade

Talvez o exemplo mais marcante da liderança do Rabino Cosgrove tenha sido sua corajosa posição contra o candidato a prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, a quem ele se referiu como um perigo para a segurança da comunidade judaica . Em um sermão de Shabat, ele foi direto: "Para ser claro, inequívoco e registrado, eu acredito que Zohran Mamdani representa um perigo para a segurança da comunidade judaica de Nova York" .

Esta ação foi amplamente elogiada como um momento de clareza moral em um momento em que muitos líderes relutam em rotular o antissionismo como antissemitismo . No entanto, Cosgrove foi além da mera denúncia. Ele usou o episódio para fazer uma autocrítica na comunidade judaica, argumentando que os apoiadores de Israel "não deveriam ficar surpresos" que cerca de 33% dos eleitores judeus tenham votado em Mamdani .

Para ele, o voto em um candidato antissionista por judeus liberais é um sintoma de um mal mais profundo: o distanciamento entre o judaísmo americano, predominantemente liberal, e um governo israelense cada vez mais à direita. Cosgrove criticou abertamente a "expansão de assentamentos", a "deriva à direita" de Israel e os "partidos extremistas" no governo de Benjamin Netanyahu, que ele vê como responsáveis por afastar os judeus americanos .

Um Sionismo de Tendas Amplas, mas com Linhas Vermelhas

O Rabino Cosgrove se autodenomina um "sionista liberal" e, em seu discurso na Convenção do Movimento Sionista Americano (AZM), pediu um "novo capítulo do sionismo americano" que fosse "ousado o suficiente para abraçar as vozes, complexidades, paradoxos e até contradições da nossa era" . Ele critica a "intolerância na comunidade judaica americana em relação a pontos de vista políticos divergentes" e argumenta que tornar o "apoio incondicional ao governo israelense um teste decisivo para a identidade judaica... causou danos ao futuro judaico" .

No entanto, essa defesa da diversidade de opiniões tem limites claros. Cosgrove traça uma linha vermelha entre a dissidência legítima e o antissionismo que beira a cumplicidade com o terror. Ele distingue entre participar de uma manifestação pró-democracia com bandeiras israelenses e "ficar em um acampamento ao lado de alguém que pede uma intifada global" . Para ele, dentro da "tenda sionista" há espaço para críticas às políticas do governo, mas não para aqueles que desejam o mal do povo judeu.

Controvérsias: A Crítica da Direita e a Condição para o Diálogo

A postagem progressista do Rabino Cosgrove não passou sem críticas do espectro político oposto. Figuras como Morton Klein, presidente da Organização Sionista da América (ZOA), o acusaram de hipocrisia, alegando que o rabino só tolera "pontos de vista diversos" da esquerda . Klein relatou que Cosgrove teria exigido que ele escrevesse um artigo de opinião apoiando a criação de um Estado palestino como condição para falar em sua sinagoga, o que Klein recusou .

Este episódio ilustra perfeitamente a posição do rabino. Para Cosgrove, acredita-se que uma solução de dois Estados é uma necessidade para garantir o futuro democrático e judeu de Israel. Para a direita sionista, a criação de um Estado palestino é vista como um perigo existencial. A exigência de Cosgrove, portanto, não foi um capricho, mas sim um teste de alinhamento com sua visão fundamental de um sionismo que busca a paz e a autodeterminação para ambos os povos, um pré-requisito para o diálogo em seu púlpito.

Conclusão

O pensamento e os discursos do Rabino Elliot Cosgrove representam um esforço sincero e, por vezes, desconfortável para definir o que significa ser um judeu sionista em um mundo pós-7 de outubro. Ele se recusa a escolher entre o amor a Israel e a crítica às suas políticas, entre a autodefesa feroz e a empatia pelo sofrimento do outro. Sua liderança é um chamado à complexidade, à maturidade e à responsabilidade, convidando sua comunidade a abandonar o papel de espectadora e a se tornar agente ativa na construção de um futuro judaico que seja ao mesmo tempo seguro, justo e profundamente enraizado nos valores éticos da tradição. Ele pode não agradar a todos, mas, como sua referência bíblica favorita, Rainha Ester, Cosgrove parece ter chegado à sua posição de liderança "para um momento como este"

The Night the Red Sea Split _ A Song for Pesach


 

sábado, 4 de abril de 2026

Impossivél.

 



Curioso — como você define um "professor ideal"?

 

Opinião impopular: 
O "professor ideal" não é aquele que está sempre calmo. 
E definitivamente não é aquele que é sempre "divertido". Na minha opinião, o professor ideal é aquele que sabe: 
Quando é hora de se divertir... 
e quando é hora de ficar calmo e composto. Porque ensinar não é sobre manter uma personalidade o dia todo. 
É sobre responder ao momento. As crianças não precisam de um artista sempre animado. 
E eles também não precisam de uma figura de autoridade constantemente controlada. Eles precisam de um adulto que possa: • trazer energia quando for necessário engajamento • criar alegria no aprendizado • e também manter limites calmos e firmes quando necessário Esse equilíbrio é o que cria: • segurança emocional • respeito • e aprendizado real O desafio é — esse tipo de ensino não "parece perfeito". Parece dinâmico. 
Parece humano. 
Às vezes, por fora, até parece bagunçado. Mas dentro da sala de aula, funciona. Então talvez a pergunta não seja: 
"Como deveria ser um professor?" Mas, na verdade: 
"Esse professor sabe ler a sala... e responder conforme corresponde?" Porque é aí que está a verdadeira habilidade. Curioso — como você define um "professor ideal"?