SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sábado, 4 de julho de 2026

 

Orlando Gill, o goleiro que vendeu o próprio uniforme para salvar o filho e se tornou herói do Paraguai na Copa do Mundo

Orlando Gill posa para foto com troféu de melhor jogador

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Gill foi eleito o melhor jogador da partida entre Paraguai e Alemanha
    • Author,Ben Collins
    • Role,BBC Sport
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O goleiro paraguaio Orlando Gill passou por momentos muito difíceis, mas agora se tornou o herói do Paraguai na Copa do Mundo 2026.

Com seus quase 2 metros de altura, ele defendeu dois pênaltis e garantiu a vitória por 4 a 3 nas cobranças sobre a Alemanha — após empate em 1 a 1 no tempo regulamentar —, classificando a seleção paraguaia para as oitavas de final.

Aos 26 anos, Gill tem sido um dos grandes destaques entre os goleiros deste Mundial. Mas, poucos meses atrás, era praticamente um desconhecido.

Até janeiro de 2025, ele havia disputado apenas três partidas pela equipe principal do San Lorenzo, da Argentina.

Menos de quatro anos antes, chegou a vender o próprio uniforme para sustentar a esposa e o filho, que enfrentou complicações de saúde após nascer prematuro.

Um herói dentro de casa

Orlando Gill pulando para defender pênalti

Crédito,Reuters

Legenda da foto,Orlando Gill defendeu dois pênaltis na vitória do Paraguai sobre a Alemanha nas oitavas de final

Gill passou pelas categorias de base dos clubes paraguaios Club 13 de Junio e CS San Lorenzo.

No início de 2019, foi convocado para defender a seleção paraguaia no Campeonato Sul-Americano Sub-20. E estreou na equipe principal do San Lorenzo em setembro de 2020.

Ele havia disputado apenas duas partidas como profissional quando sua esposa, Melissa Ávalos — com quem se casou em janeiro de 2021 — engravidou em 2022

O nascimento do filho era esperado para 31 de dezembro de 2022. No entanto, devido a complicações de saúde, Melissa precisou ser internada, e os médicos induziram o parto em 7 de dezembro.

Mas o bebê, chamado Lautaro, só nasceu no dia seguinte. Devido a graves complicações, Melissa precisou passar por uma cirurgia de emergência, enquanto o recém-nascido permaneceu internado na UTI.

A família conseguiu voltar para casa a tempo do Natal, mas passava por dificuldades financeiras.

"Não tínhamos nada, e o Orlando vendeu as roupas do clube em que jogava na época para conseguir pagar as despesas", escreveu Melissa no Instagram no ano passado.

Ela também relatou o esforço do goleiro para sustentar a família durante aquele período.

"Nosso filho lutou pela vida, e o pai dele esteve sempre ao nosso lado. Vendeu tudo: vendeu a camisa da seleção sub-20, que nem pôde guardar de lembrança, vendeu suas roupas, seus tênis. Literalmente vendeu tudo", contou.

Um herói em campo

Cerca de um ano após o nascimento do filho, e depois de ter disputado apenas duas partidas como profissional, Gill recebeu a oportunidade que mudaria sua carreira.

O San Lorenzo de Almagro, da Argentina, apostou no goleiro e o contratou por empréstimo.

Ele encerrou 2024 entre os reservas e só se firmou como titular do time principal em 2025. O desempenho chamou a atenção do técnico da seleção paraguaia, Gustavo Alfaro.

Após ser convocado nas datas Fifa de março e junho, e com o Paraguai já classificado para a Copa do Mundo, Gill estreou pela seleção principal na última partida das Eliminatórias, contra o Peru, em setembro.

A partir daí, disputou cinco amistosos e conquistou a vaga de titular para o Mundial.

Orlando Gill defendendo um pênalti

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Até o início de 2025, Gill nunca havia sido convocado para a seleção principal do Paraguai. Agora, é um dos jogadores mais importantes da equipe

A estreia de Gill em Copas do Mundo começou com um tropeço: o Paraguai foi goleado por 4 a 1 pelos Estados Unidos, um dos países-sede do torneio.

Desde então, porém, o goleiro sofreu apenas um gol em três partidas — incluindo a prorrogação contra a Alemanha — e defendeu 16 dos 17 chutes que foram na direção do gol.

Na disputa de pênaltis que garantiu a classificação paraguaia, Gill fez duas grandes defesas e foi eleito pela Fifa o melhor jogador da partida.

O prêmio foi dedicado à família, especialmente ao sobrinho Alexander, que, segundo o goleiro, está internado no Paraguai.

Depois de ver o próprio filho sobreviver a um parto repleto de complicações, Gill agora tenta transmitir força ao sobrinho enquanto segue escrevendo, ao lado da seleção paraguaia, uma das histórias mais improváveis desta Copa do Mundo.

"Esta classificação é para um sobrinho meu que está passando por um momento muito difícil e está internado. Espero que ele melhore logo. Eu prometi que, se fosse eleito o melhor em campo, dedicaria esta classificação a ele", afirmou o jovem goleiro.

Mãos fracas e visão turva: estamos ficando com 'corpo de celular'?

 

Ilustração mostrando uma pessoa olhando para baixo em direção ao celular, sobreposta a uma imagem de raio X na mesma posição

Crédito,BBC/Serenity Strull/Getty Images

    • Author,Thomas Germain
    • Role,BBC Future
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Nossas preocupações com os possíveis efeitos do tempo que passamos em frente às telas normalmente se concentram na nossa mente.

Mas, recentemente, observei um pequeno calo no meu dedo mínimo, exatamente no ponto onde apoio meu telefone celular. Isso me levou a imaginar o que o aparelho estaria causando para o resto do meu corpo.

Conversei com alguns especialistas para descobrir. E a resposta não é promissora, como você já deve estar adivinhando.

As recentes descobertas da ciência indicam que os nossos celulares e seus parceiros digitais podem alterar o formato do pescoço, prejudicar a visão, afetar a capacidade motora e reduzir a força muscular dos seus usuários.

As pessoas chegam a recear que a tecnologia que dirige nossas vidas possa causar aumento das rugas e que alguns desses problemas físicos talvez gerem declínios cognitivos e outros problemas mais sérios.

Não sei o que você pensa a respeito, mas eu não estou disposto a ficar simplesmente sentado assistindo (até porque o tempo que passamos sentados também é parte do problema).

Felizmente, existem algumas medidas que podemos tomar para evitar que a tecnologia prejudique o nosso corpo.

Deformação da espinha

Se você estiver lendo esta reportagem em um telefone celular, provavelmente está inclinando sua cabeça para olhar para baixo.

Esta "postura da cabeça para frente" pode colocar até 27 kg de pressão sobre o pescoço.

Ao longo do tempo, ela pode prejudicar os discos da espinha, degenerar as juntas e os músculos e até reduzir a nossa capacidade pulmonar.

Esta condição já tem um nome: "pescoço tecnológico". E pode alterar permanentemente a aparência do nosso corpo.

Exercícios específicos com orientação médica podem ajudar a corrigir o problema. Mas existem mudanças mais simples que podemos tomar de imediato, como segurar o celular em um ponto mais alto.

Posicione a tela do aparelho no nível dos olhos, idealmente à distância de um braço em relação ao rosto. O mesmo conselho se aplica aos monitores de computador.

Especialistas afirmam que intervalos de tempo de tela podem ajudar. Tente parar por 20 minutos a cada meia hora.

Pele irritada e rugas no pescoço?

Surgiu recentemente uma nova preocupação: o pescoço tecnológico causa rugas?

"Teoricamente, faz sentido", segundo a dermatologista Justine Hextall, do Colégio Real de Medicina do Reino Unido.

O estresse repetitivo causa rugas. Por isso, inclinar-se para frente e dobrar o pescoço todo o tempo pode ser um problema, segundo ela.

Mas não existem bons estudos comprovando esta relação, explica Hextall. Ela não recomenda usar os produtos para a pele anunciados na internet como sendo especiais para o "pescoço tecnológico".

Existem outros problemas de pele preocupantes, especialmente entre os usuários de smartwatches (relógios inteligentes) que nunca tiram o dispositivo do pulso.

"Um ambiente escuro e úmido [como a área embaixo do relógio] é ótimo para criar fungos", segundo ela. "Por isso, você pode sofrer irritações ou até eczema."

O relógio também pode danificar a barreira da pele. Por isso, Hextall afirma que ele pode gerar sensibilidade a alguns dos ingredientes dos produtos tecnológicos, como níquel, borracha, látex e um grupo de substâncias conhecidas como acrilatos.

Aqui, a solução é simples: tire o smartwatch do pulso com mais frequência e lave a pele. A dermatologista também recomenda usar um creme de barreira, se você for usar o relógio o dia inteiro.

Prejuízos à visão

incidência de miopia vem disparando há décadas. E, se considerarmos o que terá mudado na nossa vida durante período, é fácil apontar a tecnologia como sendo a culpada.

Talvez seja verdade, mas não da forma como pensamos, segundo o professor de optometria Donald Mutti, da Universidade Estadual de Ohio, nos Estados Unidos.

"Fizemos um estudo longitudinal por mais de 20 anos do desenvolvimento dos olhos das crianças, examinando fatores de risco para o surgimento e progressão da miopia", explica Mutti.

Uma questão fundamental foi se há ou não conexão entre a miopia e o "trabalho de perto" — tarefas que mantêm você concentrado em algo que está perto do seu rosto, como o celular.

"A resposta foi 'não exatamente'", segundo o professor. Mas o estudo descobriu outro motivo: o tempo passado fora de casa parece ter efeito protetor.

"A ideia é que a luz brilhante dos ambientes externos estimula a liberação de dopamina da retina", explica Mutti. E, aparentemente, este processo pode afetar o desenvolvimento dos olhos.

Mulher jovem de óculos escuros e cabelos esvoaçantes em ambiente externo, em dia de sol

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,A luz brilhante dos ambientes externos estimula a liberação de dopamina da retina, o que pode afetar o desenvolvimento dos olhos

A tecnologia faz parte de uma mudança global que nos leva a passar mais tempo em ambientes internos. Por isso, Mutti acredita que os aparelhos eletrônicos podem causar efeitos negativos indiretos à nossa visão.

Aqui, a solução é simples, segundo ele. Precisamos apenas passar mais tempo em ambientes externos.

Além de ser bom para os olhos, pode nos ajudar a dormir melhor. Basta usar protetor solar e óculos escuros, para evitar os efeitos prejudiciais da luz do Sol.

Enfraquecimento das mãos

Os cientistas consideram cada vez mais a força de aperto das mãos como um indicador da saúde geral das pessoas.

Um estudo concluiu que este fator prevê a morte precoce melhor do que a pressão arterial. E a força das mãos está em declínio em muitos países, especialmente entre os mais jovens.

"O declínio geracional não é uma simples questão de mãos mais fracas. Ele pode ser um alerta precoce sobre a saúde futura dos grupos mais jovens", explica o professor de sociologia médica Johannes Beller, da Universidade Médica de Lausitz, na Alemanha.

"Existe uma preocupação razoável de que a mudança para o trabalho sedentário junto ao computador colabore com o declínio das condições físicas", segundo ele. E é plausível que também haja efeitos sobre a força de aperto das mãos.

Mão segura firmemente uma bola de tênis amarela, em frente a uma folhagem

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Os cientistas consideram cada vez mais a força de aperto das mãos como indicador da saúde geral das pessoas

Você deve ser capaz de apertar uma bola de tênis ao máximo possível e manter o aperto por 15 a 30 segundos. Se não conseguir, existem exercícios que podem melhorar sua condição girando os pulsos, como ensina outra reportagem da BBC.

Mas a questão não é apenas aumentar a força de aperto das mãos, mas sim melhorar as condições físicas como um todo. Ou seja, neste caso, dê um pulo na academia.

Coordenação entre as mãos e os olhos

Aparentemente, a tecnologia também afeta as habilidades motoras, que conectam a mente e o corpo para gerar movimentos precisos.

Ela pode melhorar suas habilidades de clicar e deslizar, como diz o professor de psicologia do desenvolvimento e educação Sebastian Suggate, da Universidade de Regensburg, na Alemanha.

"Mas, se você examinar o desenvolvimento da coordenação motora como um todo, particularmente as habilidades motoras finas, as evidências convergem para um efeito negativo", segundo o professor.

Neste ponto, nós sabemos muito mais sobre os efeitos nas crianças do que nos adultos. A própria pesquisa de Suggate mostra uma associação entre o aumento do tempo de tela e a pouca coordenação motora.

Isso é especialmente alarmante porque existe correlação entre a coordenação motora e o desenvolvimento acadêmico e cognitivo de crianças e adolescentes.

Seu conselho é não entrar em pânico, nem proibir as telas. Em vez disso, introduza conscientemente atividades manuais no seu dia a dia.

Mão escreve com caneta em um caderno pautado

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,O simples e, às vezes, esquecido ato de escrever à mão pode nos ajudar a manter a coordenação motora

Tarefas manuais continuadas podem ajudar, como cozinhar ou se dedicar ao artesanato. Suggate, por exemplo, faz trabalhos com madeira, mas você pode aprender a tocar um instrumento ou simplesmente escrever à mão.

"Não é o fim do mundo", segundo ele. "Os efeitos são sutis."

"Mas, mesmo se os efeitos individuais forem pequenos ou moderados, coletivamente, ao longo de gerações, estamos falando em uma possível degradação intelectual da sociedade e incapacidade de pensar na realidade, já que as mãos são um ponto central de contato que temos com o mundo."

Thomas Germain é jornalista sênior de tecnologia da BBC. Ele escreve (em inglês) a coluna Keeping Tabs e é um dos apresentadores do podcast The Interface. Seu trabalho revela os sistemas ocultos que conduzem sua vida digital e como você pode viver melhor dentro deles.

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Technology.

Como expansão territorial e populacional dos EUA em 250 anos transformou o país em uma potência marcada por divisões

 


Capitão Clark e seus homens caçando ursos. Ilustração original: Do 'Diário de Viagens' de Peter Gass - publicado em 1811.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Um desenho de 1811 retrata a exploração da fronteira americana por Louis e Clark.
    • Author,Anthony Zurcher
    • Role,Correspondente da BBC News na América do Norte
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  • Tempo de leitura: 7 min

Nos 250 anos desde que os EUA declararam sua independência da Grã-Bretanha, a nação cresceu de um conjunto pouco povoado de assentamentos dispersos ao longo da costa atlântica para uma potência global que se estende por todo um continente e além.

Partindo das 13 colônias originais que cobriam 430.000 milhas quadradas (1,1 milhão de quilômetros quadrados), sua extensão geográfica aumentou oito vezes, para aproximadamente 3,7 milhões de milhas quadradas.

A população dos EUA passou por uma expansão igualmente dramática. Em 1790, ano do primeiro censo americano, havia aproximadamente quatro milhões de americanos, incluindo escravos. Em 2025, esse número havia crescido para 343 milhões – um aumento de 8.475%.

Embora os Estados Unidos de hoje possam ser praticamente irreconhecíveis para os fundadores da nação há 250 anos, as influências culturais e políticas no país provavelmente lhes seriam familiares.

Em retrospectiva, é possível rastrear muitas das principais promessas políticas do presidente Donald Trump — limitar a imigração e expandir o poder e o território dos EUA — até as primeiras distinções e divisões do país.

Os fundadores dos Estados Unidos tinham grandes esperanças para sua nova nação. Seu sucesso, no entanto, estava longe de ser garantido. Debates acalorados sobre a escravidão, a constituição e o sistema econômico e político criaram divisões evidentes na população.

Embora o país quase tenha dobrado de tamanho após a compra do território da Louisiana da França em 1803, quando os EUA entraram em guerra novamente com a Grã-Bretanha em 1812, não era garantido que a nação resistiria.

"Qualquer pessoa que tenha observado as colônias tentando criar esta nação diria: tudo o que precisamos fazer é ficar aqui e esperar até que elas se desintegrem para depois voltar e reconstruí-las", disse Heather Cox Richardson, professora de história dos EUA no Boston ColleEmbora o futuro da América naqueles primeiros anos fosse incerto, as forças que contribuíram para a trajetória futura da nação já estavam estabelecidas.

Colin Woodard, diretor do Laboratório de Nacionalidade da Universidade Salve Regina, divide os EUA em uma série de identidades distintas, ligadas a essas primeiras fissuras.

A região norte, que Woodard chama de "Yankeeland", tem suas raízes nos primeiros colonos puritanos que fugiram da perseguição religiosa na Europa, com adições posteriores de colonos alemães e escandinavos ajudando a consolidar uma visão pluralista.

Uma faixa central, que ele denomina "Grande Apalaches", foi inicialmente povoada por escoceses e irlandeses de espírito independente. Sua visão política, moldada em parte pela experiência com a opressão inglesa nas ilhas britânicas, era muito mais desconfiada da autoridade governamental.

"Para eles, liberdade significa maximizar a autonomia e a liberdade do indivíduo, e qualquer aumento no poder do governo significa, axiomaticamente, que os indivíduos são menos livres", disse Woodard. "É o oposto da filosofia ianque da Grande Nova Inglaterra."

Enquanto isso, o Sul profundo era constituído por uma classe de proprietários de terras, alguns dos quais haviam se mudado de plantações escravistas no Caribe, que formavam uma "sociedade oligárquica e hierárquica".

Um mapa histórico dos EUA de 1928.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Em 1828, os EUA já haviam se expandido até o Pacífico, com a aquisição do Oregon.

Embora a identidade americana seja definida pelas culturas concorrentes daqueles que chegaram do exterior, o primeiro século completo da existência dos Estados Unidos incluiria a tentativa concertada de apagar a cultura dos povos indígenas que ocuparam a terra durante séculos antes da chegada dos primeiros europeus ao Atlântico.

À medida que a nação continuava a expandir-se para oeste, o movimento adquiriu uma força ideológica própria, uma vez que alguns americanos acreditavam que era o "destino manifesto" da nação expandir-se não apenas até o Pacífico, mas por todo o Hemisfério Ocidental.

A BBC criou uma faixa publicitária inspirada na bandeira nacional dos EUA: à esquerda, há estrelas brancas sobre um fundo azul e, à direita, a inscrição "USA 250". Na lateral esquerda, também há estrelas brancas sobre fundo vermelho, sem texto.

Essa expansão territorial levou essas culturas a novos pontos de convergência e conflito. O interior do oeste, com sua paisagem inóspita, assemelhava-se mais à região selvagem dos Apalaches e atraía indivíduos com visões individualistas igualmente austeras. Ao longo da costa do Pacífico, esses valores entraram em conflito com os dos comerciantes e marinheiros que haviam se mudado do nordeste americano.

Na era moderna, essas divisões são evidentes em um mapa eleitoral presidencial – com os "estados vermelhos" controlados pelos republicanos e os "estados azuis" controlados pelos democratas. O nordeste dos EUA e a Costa Oeste são conhecidos como bastiões do liberalismo – e muito mais favoráveis à intervenção do governo no cotidiano – enquanto o sul americano, do Texas à Flórida, e o interior do oeste se tornaram o baluarte do conservadorismo republicano.

Fotografia em preto e branco de uma família imigrante na cidade de Nova Iorque. A mãe está sentada com o bebê no colo.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,O século 20 testemunhou uma explosão de imigrantes de todo o mundo vindo para os EUA.

Embora os EUA tenham praticamente parado de se expandir geograficamente no final do século 19, a população continuou a crescer drasticamente - em grande parte devido à imigração.

"Uma das coisas que realmente está no centro dos Estados Unidos da América é a imigração", disse Richardson. "A única coisa que nos une é o conceito de que podemos construir o futuro que desejamos."

A primeira onda migratória começou na década de 1840 e durou até 1889, trazendo aproximadamente 14 milhões de pessoas para as costas do país, principalmente de nações do norte e oeste da Europa.

A onda seguinte, com mais de 18 milhões de migrantes, veio do sul e do leste da Europa e estendeu-se de 1890 até a década de 1920. Com cada onda, veio uma reação inevitável, à medida que os americanos temiam que os recém-chegados tomassem seus empregos e ameaçassem seu modo de vida. Cotas e legislação restritiva, como a Lei de Exclusão Chinesa, logo se seguiram.

A Lei de Imigração de 1924 limitou a imigração de forma tão drástica que isso pode ser percebido por uma nítida curvatura no gráfico de crescimento populacional anual dos EUA.

A onda migratória mais recente começou na década de 1960, quando essas restrições foram suspensas. Desde então, mais de 70 milhões de imigrantes entraram nos EUA, muitos vindos da Ásia e da América Latina, incluindo aproximadamente 18 milhões apenas do México.

Em 2024, 14,8% da população dos EUA era composta por imigrantes – um número equivalente ao pico histórico de 1890, segundo o Migration Policy Institute. A imigração foi responsável por 84% do crescimento populacional total dos EUA.

Segundo Woodard, as primeiras ondas de imigração – impulsionadas principalmente pela industrialização – ajudaram a aumentar o poder político do norte americano.

E esse desequilíbrio geográfico contribuiu para alimentar ainda mais as divisões ideológicas.

Os líderes do Sul pressionaram pela expansão territorial – e pela expansão dos estados escravistas – para garantir a manutenção do poder político em nível nacional, antes de se separarem completamente, dando início à Guerra Civil.

Mas as tendências modernas inverteram essa divisão geográfica. Muitos imigrantes — e pessoas vindas do norte — são agora atraídos para o sul, especialmente pelas economias pujantes das cidades do Texas e da Flórida. Enquanto isso, uma recente onda de imigrantes ilegais na fronteira sul dos EUA aumentou as tensões.

O conservadorismo populista de Trump, portanto, pode ser visto como uma resposta às mudanças nos centros de poder dos Estados Unidos.

Ao retornar à Casa Branca, Trump cumpriu sua promessa de campanha de promover deportações em massa.

Entretanto, ele expressou nostalgia pela expansão territorial do século 19, falando em adquirir a Groenlândia, repatriar o Canal do Panamá e adicionar o Canadá e a Venezuela como o "51º estado" dos Estados Unidos.

Sua versão do expansionismo americano é, portanto, uma espécie de imagem espelhada dos últimos 250 anos de história. O país passou seu primeiro século expandindo-se fisicamente, depois parou de tentar conquistar novos territórios e se concentrou — às vezes hesitante — em abrir a nação para imigrantes.

Agora, Trump mudou de rumo, com o objetivo de expandir novamente as fronteiras físicas dos Estados Unidos e limitar o número de pessoas que o país permite entrar.

Trump e seus apoiadores afirmam que o caráter da nação americana corre o risco de ser alterado de forma fundamental e permanente. "Não teremos mais um país" é um refrão comum de Trump sobre os perigos da imigração em massa.

"Isso não surge do nada", disse Woodard. "Temos a metaluta na história americana: somos uma nação cívica dedicada a... uma sociedade onde cada indivíduo possa ser igualmente, universalmente e sustentavelmente livre ao longo do tempo? Ou este é um estado que pertence a um certo grupo de pessoas que são os verdadeiros americanos por sangue e descendência?"

Na imensidão da história mundial, 250 anos são um mero instante, um lampejo, um piscar de olhos. Mas para os EUA, 250 anos foram transformadores – mesmo que as divisões no âmago da nação e as preocupações com o seu futuro tenham sido uma constante.ge e autora de Letters From an American, disponível no Substack.