SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

A verdade habita o interior, homem." Aqueles que não se transformam permanecem na mesma luz, mas cegos a ela.




 Caravaggio, "A Vocação de São Mateus", 1599–1600, Capela Contarelli, San Luigi dei Francesi, Roma.


A luz é o assunto. Ela entra por fora do espaço pintado e cai sobre Mateus, enquanto os cobradores continuam contando moedas.

O gesto da mão de Cristo ecoa o do Criador na "Criação de Adão", de Michelangelo, ligando a vocação ao primeiro ato de iluminação divina.

A "illuminatio" de Agostinho sustenta que o intelecto humano, mutável e falível, precisa de uma luz além de si mesmo para conhecer verdades eternas.
Essa doutrina é expressa em "De Magistro", "De libero arbitrio II" e "De vera religione":

"In interiore habitat homines veritas"
"A verdade habita o interior, homem."

A luz de Caravaggio se ilumina sem ser convincente. Aqueles que não se transformam permanecem na mesma luz, mas cegos a ela.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Por que os restos mortais de Garcia Llorca não foram encontrados 90 anos após sua morte na Guerra Civil espanhola

 

Federico García Lorca, retrato aos 20 anos, sentado ao lado de um piano, vestindo um terno.

Crédito,Photo12/Universal Images Group via Getty Images

Legenda da foto,Federico García Lorca retratado aos 20 anos
    • Author,Alicia Hernández
    • Role,BBC News Mundo
  • Published
  • Tempo de leitura: 11 min

Tanto faz em que lugar da Espanha você esteja: há uma vala comum a menos de 50 quilômetros de distância.

Há cerca de 6 mil em todo o território, segundo dados do governo espanhol.

Mais de 11 mil pessoas permanecem enterradas nelas, sem identificação, executadas durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), que devastou o país europeu, ou durante a repressão posterior do regime de Francisco Franco.

Esses são os números do governo. Mas há especialistas que calculam que o total possa variar entre 20 mil e 25 mil pessoas.

Entre todas essas valas comuns, há uma em particular que vem sendo procurada há décadas sem resultados. É aquela onde estariam os restos mortais do poeta e dramaturgo Federico García Lorca, autor de obras como Bodas de Sangue, A Casa de Bernarda Alba e Romanceiro Cigano.

Seu assassinato acabou de completar 90 anos na terça-feira (18/08). Acredita-se que ele tenha sido fuzilado em uma área entre os povoados de Víznar e Alfacar, na província de Granada, no sul da Espanha.

O regime de Franco (1939-1975) proibiu que se falasse desse assassinato, e a figura e a obra de Lorca sofreram forte censura durante décadas, contornada de forma clandestina dentro da Espanha.

No exterior, intelectuais exilados, especialmente no México e na Argentina, encarregaram-se de manter viva sua memória.

Com a chegada da democracia, seu nome passou a ser reivindicado como símbolo de liberdade.

Com sua obra traduzida para inúmeros idiomas, interpretada, estudada e celebrada em todo o mundo, a Espanha tem uma dívida com Lorca: encontrar seus restos mortais, localizar o lugar onde seu corpo foi lançado, possivelmente durante a madrugada, poucas semanas após o início da Guerra Civil.

Mas há vários fatores que tornam essa busca complicada.

Estátua de García Lorca na Praça de Santa Ana, em Madri.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Estátua de García Lorca na Praça de Santa Ana, em Madri

O contexto

Um mês antes do assassinato de García Lorca, em 17 e 18 de julho de 1936, ocorreu uma tentativa de golpe de Estado por parte de forças militares que se autodenominavam "nacionais". O objetivo era derrubar o governo da Frente Popular, uma coalizão de partidos de esquerda que liderava a Segunda República.

O sistema republicano foi instaurado na Espanha depois que, nas eleições municipais de abril de 1931, os partidos republicanos e socialistas obtiveram apoio majoritário em relação aos monarquistas.

"A República abriu uma série de fissuras nos campos social, cultural e religioso. Ela quis modernizar a Espanha e, nesse contexto, abriu feridas entre aqueles que não queriam tanto avanço e aqueles que acreditavam que não se havia avançado o suficiente", explica à BBC News Mundo Julián Casanova, professor de História Contemporânea da Universidade de Zaragoza.

Um monólito em memória das vítimas da Guerra Civil, com a inscrição "Lorca eram todos" e a data 18-8-2002, ergue-se em um local onde foram encontradas cinco valas comuns e próximo do lugar onde, em 19 de novembro de 2014, arqueólogos procuravam outra vala em Alfacar, perto de Granada (Espanha).

Crédito,Pablo Blazquez Dominguez/Getty Images

Legenda da foto,Um monólito em homenagem em um dos locais onde se acreditava estar a vala comum de García Lorca

Em uma Madri onde já se ouviam rumores de movimentação militar, o clima de violência se agravou com os assassinatos do tenente republicano José del Castillo, em 12 de julho, e do monarquista José Calvo Sotelo, no dia seguinte.

Lorca estava naqueles dias na capital espanhola e, em 14 de julho, decidiu partir para sua cidade natal, Granada, onde vivia sua família. Talvez porque acreditasse que ali estaria mais seguro.

Como relata Casanova, o golpe de Estado, embora tenha ocorrido com grande violência, não teve êxito em toda a Espanha.

"Fracassa onde há uma divisão nas Forças Armadas e só em meados de agosto de 1936 as frentes de combate se consolidam, o que acaba levando à Guerra Civil."

Mas, no caso de Granada, "o golpe triunfa e não há nenhuma possibilidade de resistência porque a população não está armada".

Todas as razões

Federico caiu morto

— sangue na testa e chumbo nas entranhas —

... Que o crime foi em Granada

saibam-no — pobre Granada! —, em sua Granada.

O crime foi em GranadaAntonio Machado

Em uma frase que se tornou famosa, Lorca chegou a dizer, com ironia, que era "católico, comunista, anarquista, libertário, tradicionalista e monarquista".

O poeta, que vinha de uma família burguesa abastada, dedicou-se a uma profissão liberal e cercou-se de um universo vanguardista e surrealista ao lado de gênios como Luis Buñuel e Salvador Dalí. Nunca se filiou a nenhum partido político, mas levou o teatro à Espanha rural, com o objetivo de aproximar a cultura do povo, por meio do projeto La Barraca, impulsionado pelo ministro da Instrução Pública, o republicano Fernando de los Ríos.

Sem esquecer sua condição de homossexual, algo pelo qual foi alvo de ataques em várias publicações tradicionalistas muito antes de ser morto.

"Era uma figura conhecida, comprometida com a cultura e a educação. Lorca tinha todos os motivos para ser morto. Se milhares de operários foram assassinados, como não fariam o mesmo com alguém como ele?", ressalta Casanova.

Federico García Lorca e Salvador Dalí

Crédito,Apic/Getty Images

Legenda da foto,Lorca circulava com artistas do universo vanguardista e surrealista, como Luis Buñuel e Salvador Dalí (na imagem)

O historiador afirma que é um mito a ideia de que existia uma lista negra com seu nome ou o de outros intelectuais. "Quando as armas substituem as palavras, a atmosfera implacável acaba atingindo todo mundo", observa.

E, embora haja quem afirme que México ou Colômbia ofereceram asilo a Lorca, Casanova diz que não existem documentos que comprovem isso. Por isso, nas primeiras semanas, a atitude mais sensata era buscar "alguém que pudesse protegê-lo ou salvá-lo".

Depois que foram procurá-lo várias vezes em sua propriedade na Huerta de San Vicente, ele se refugiou na casa de seu amigo Luis Rosales.

A família Rosales era próxima da Falange, o movimento fascista que mais tarde se tornou o partido único durante o franquismo.

"Ele pensava que, por eles serem falangistas, estaria mais protegido", declarou Gerardo Rosales, sobrinho de Luis, em uma entrevista.

Lá permaneceu por uma semana, até que Ramón Ruiz Alonso, militante de extrema direita e integrante das milícias que reprimiram os republicanos em Granada, obrigou Rosales a revelar seu paradeiro e prendeu Lorca.

"Ele não teve outra escolha a não ser admitir. Sua própria vida também estava em risco", acrescentou o sobrinho.

Lorca com sua mãe na propriedade da Huerta de San Vicente.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Lorca com sua mãe na propriedade da Huerta de San Vicente

Poucos dados, muitas versões

Quando as formas puras afundaram

sob o cri-cri das margaridas,

compreendi que haviam me assassinado.

Poeta em Nova York - Federico García Lorca

A partir daí, os relatos e as versões, assim como o tempo decorrido, se multiplicaram, porque há poucos registros, mas muitas narrativas, mais ou menos confiáveis.

Sabe-se que ele foi morto junto com dois anarquistas, Francisco Galadí e Joaquín Arcollas, e um professor republicano, Dióscoro Galindo. Acredita-se que isso tenha ocorrido entre 4h e 5h da madrugada de 17 para 18 de agosto, em uma área da serra de Granada, entre as localidades de Víznar e Alfacar.

Em 2007, sob o governo socialista de Rodríguez Zapatero, foi aprovada na Espanha a Lei da Memória Histórica, com o objetivo de reconhecer as vítimas do franquismo, eliminar os símbolos da ditadura e facilitar a localização de valas comuns.

Em 2022, com Pedro Sánchez como presidente, entrou em vigor a Lei da Memória Democrática, que estabelece que a busca por desaparecidos é responsabilidade do Estado.

Em 2008, o juiz Baltasar Garzón ordenou a abertura de várias valas comuns, entre elas algumas nas quais se acreditava que poderiam estar os restos mortais de Lorca. Foi a primeira tentativa de exumação. Depois houve outras duas, em 2013 e 2016.

O jornalista e fotógrafo Santi Donaire passou oito anos acompanhando as exumações da vala comum de Paterna, em Valência, onde mais de 2,2 mil pessoas foram fuziladas após a Guerra Civil.

Dessa experiência surgiu seu livro Punto Ciego. Antes disso, em 2015, ele esteve em Granada durante as tentativas de localizar a vala onde estariam Lorca e os demais que morreram com ele.

Se em Paterna os trabalhos foram "simples", o mesmo não aconteceu em Víznar e Alfacar.

Vista aérea da vala comum onde foram encontrados três cadáveres, que se presume terem sido assassinados durante a Guerra Civil Espanhola, em 6 de maio de 2021, em Víznar, Espanha.

Crédito,Carlos Gil Andreu/Getty Images

Legenda da foto,Vala comum no barranco de Víznar, em Granada, na área onde se acredita que estejam os restos mortais de Lorca

"Ao contrário de Paterna, onde se trata de repressão no pós-guerra, com execuções realizadas de forma sistemática, registros disponíveis e a possibilidade de acompanhar o percurso da pessoa até sua morte, Lorca foi assassinado no início do conflito, quando ainda não havia um sistema estabelecido nem registros documentais", conta à BBC News Mundo.

Assim, não há documentos que certifiquem o local nem a hora exatos da execução de Lorca. Existem apenas versões transmitidas oralmente que, ao longo do tempo, foram registradas de diferentes formas por historiadores.

Uma das versões é a reunida pelo jornalista Agustín Penón nos anos 1960, baseada no testemunho de um homem conhecido como "Manolillo, o comunista", posteriormente retomado pelo hispanista irlandês Ian Gibson. Outra é a do pesquisador granadino Federico Molina Fajardo.

Em ambas as versões, a vala comum de García Lorca estaria na mesma área, entre Víznar e Alfacar, mas em pontos bastante distantes entre si. Escavações foram realizadas nos dois locais, mas não foram encontrados restos humanos.

Miguel Caballero, pesquisador do Instituto de Estudos Históricos do Sul de Madri, participou da última tentativa de encontrar os restos mortais de Lorca, em 2015.

Além disso, ele tem se dedicado ao estudo das últimas horas de vida do poeta, seguindo a linha de investigação de Molina Fajardo e utilizando os poucos registros e documentos disponíveis.

Grande área escavada no meio da montanha. Ao longe, é possível ver várias pessoas usando coletes amarelos.

Crédito,MIGUEL CABALLERO

Legenda da foto,Uma das escavações realizadas na tentativa de encontrar a vala comum de Lorca

Um dos problemas, segundo Caballero, é que "não há nenhuma comprovação documental que nos diga onde ele estava" e, em sua opinião, a tese reunida por Penón "é a versão que a polícia franquista lhe forneceu para despistá-lo".

Já a versão de Molina Fajardo, que, segundo ele, "de fato conversou com as pessoas que participaram do assassinato", está incompleta.

Em 2015, veio a público um documento de duas páginas datilografadas, datado de julho de 1965, ou seja, durante a ditadura de Franco, que situa o fuzilamento do poeta em Víznar e seu enterro poucos quilômetros adiante, na área conhecida como Fuente Grande, acrescentando uma nova versão sobre o local.

No mesmo documento, Lorca é descrito como "socialista, ligado a Fernando de los Ríos, maçom e acusado de práticas de homossexualidade".

Para Caballero, "o crime teve principalmente um componente familiar, e circunstâncias como suas amizades e sua homossexualidade o agravaram, mas a origem estava em desavenças pessoais com o pai". E ele argumenta que parte das pessoas envolvidas na morte de Lorca tinha algum grau de parentesco com sua família.

Outra das versões surgidas ao longo desses anos sustenta que, pouco depois de seu assassinato, o pai de García Lorca pagou uma enorme quantia em dinheiro para recuperar o corpo e enterrá-lo em outro local.

Segundo essa versão, o poeta teria sido enterrado na propriedade da Huerta de San Vicente, pertencente à família García Lorca, cujos integrantes negaram categoricamente que isso seja verdade.

"Há muitas especulações. A cada ano surge uma nova invenção", afirma Caballero.

García Lorca

Crédito,Getty Images

Geologia, família e política

"Quero dormir o sono das maçãs

afastar-me do tumulto dos cemitérios."

Divã do Tamarit – Federico García Lorca

A tudo isso soma-se a própria natureza do lugar onde se supõe que Lorca esteja enterrado: além da necessidade de explorar milhares de metros quadrados, trata-se de uma área montanhosa, com muitas alterações no relevo e transformações ao longo das décadas.

"Houve mudanças. Primeiro, agrícolas, já que oliveiras foram plantadas e removidas. Além disso, nos anos 1980 houve uma grande intervenção para a construção de uma pista de motocross, algo que considero muito significativo", explica Santi Donaire.

Por isso, encontrar o terreno original de 90 anos atrás não é tarefa simples. Donaire detalha que, nas escavações das quais participou, foi necessário retirar um volume de terra equivalente ao de uma piscina olímpica para alcançar o solo de 1936.

Francisco Carrión, professor da Universidade de Granada e diretor da Cátedra de Memória Democrática Salvador Vila, participou em 2013 da busca pela vala comum. Mas ressalva que "não foi para procurar García Lorca, e sim o professor Dióscoro Galindo, cuja neta, Nieves Galindo, solicitou durante muitos anos a busca por seu familiar".

Nieves Galindo chegou inclusive a recorrer aos tribunais para tentar encontrar os restos mortais de seu avô.

Para Carrión, essa tarefa "não é apenas difícil; o que acontece é que nos falta informação e há silêncios muito prolongados, entre eles os dos próprios familiares" de Lorca.

Ao longo dos anos, a família do poeta sustentou que não havia necessidade de encontrar seus restos mortais e expressou o desejo de que eles não fossem retirados do local onde se acredita que tenham sido enterrados.

Federico García Lorca, aos 21 anos, posa em uma fotografia de família ao lado dos irmãos Concha, Francisco e Isabelita, e de sua mãe, Vicenta Lorca.

Crédito,Mondadori via Getty Images

Legenda da foto,A família de García Lorca acredita que é muito mais simbólico que os restos mortais do poeta permaneçam misturados aos das demais vítimas

Em uma entrevista recente ao veículo espanhol El Salto, Laura García-Lorca de los Ríos, presidente da fundação que leva o nome do poeta, afirmou que a família considera que "simbolicamente é muito mais forte que os restos de Lorca estejam misturados aos de todas as demais vítimas (...) essa distinção entre os restos das vítimas não nos parece adequada".

Mas ela também defendeu que "todas as famílias que desejam procurar seus parentes tenham o direito e o apoio para fazê-lo. Por isso, nunca quisemos impedir nenhuma das escavações".

Para todos os entrevistados, há mais uma camada que acrescenta terra sobre a vala de Lorca: a política.

Os temas relacionados à ditadura, às próprias leis de memória e à busca por valas comuns sempre reabrem um intenso debate na Espanha entre aqueles que dizem que "é melhor deixar as coisas como estão" e os que defendem a busca e o reconhecimento dessas vítimas da Guerra Civil e a garantia, como afirma Carrión, de uma "sepultura digna, em um ato de verdade, justiça e reparação".

"Não me encontraram?

Não. Não me encontraram.

Mas soube-se que a sexta lua fugiu correnteza acima,

e que o mar recordou, de repente,

os nomes de todos os seus afogados."

Poeta em Nova York - Federico García Lorca

Os vídeos de IA que erotizam história brutal do Brasil e têm milhões de visualizações no YouTube

 

Imagem gerada por IA de um homem negro e uma mulher branca

Crédito,Reprodução/YouTube

Legenda da foto,Imagem de IA gerada por canal para narrar 'romances' fictícios sobre escravidão
  • Published
  • Tempo de leitura: 15 min

Atenção: esta reportagem aborda vídeos que sexualizam e romantizam a escravidão, com descrições de violência sexual e física contra pessoas escravizadas. O conteúdo pode ser considerado perturbador.

"O escravo gigante de olhos azuis que fez a sinhá enlouquecer", "A escrava que engravidou do coronel e virou sinhá" e "A sinhá viúva que não resistiu ao escravo de olhos verdes".

Esses são alguns dos títulos de vídeos de histórias fictícias de romance, desejo e violência sexual passados no período da escravidão no Brasil publicados no YouTube, a maior plataforma de streaming do mundo.

Com capas ultrarrealistas geradas por inteligência artificial (IA), que frequentemente mostram homens negros musculosos ao lado de mulheres brancas, esses vídeos acumulam milhões de visualizações em português, inglês, espanhol, francês e outros idiomas.

Uma pesquisa feita pela BBC News Brasil identificou ao menos 150 canais que publicam esse tipo de conteúdo na plataforma, por meio de buscas por palavras-chave, transcrições e títulos. Juntos, somam cerca de 80 milhões de visualizações e mais de 1 milhão de inscritos.

A produção ocorre em escala global, com conteúdos publicados no Brasil (inclusive por brasileiros), nos Estados Unidos, no Reino Unido, no Canadá, na Espanha, na França e em outros países, segundo as descrições destes canais, que aparecem publicamente no YouTube.

Os títulos prometem revelar episódios chocantes ou desconhecidos do período escravista. Um vídeo que atrai espectadores frequentemente leva a dezenas de outros semelhantes, que repetem personagens, palavras-chave, imagens e estruturas de roteiro.

Especialistas que analisaram parte do material a pedido da BBC News Brasil afirmam que os vídeos romantizam a violência da escravidão, reforçam estereótipos racistas e apresentam histórias inventadas como se fossem fatos documentados.

Sua produção está ligada a um mercado de canais que usam inteligência artificial para criar conteúdo de forma rápida e barata, em busca de audiência e, potencialmente, a tão almejada monetização, ou seja, ganhar dinheiro com publicidade.

Um administrador de um dos canais analisados pela reportagem resumiu sua estratégia de forma direta: "O conteúdo é usado apenas para monetizar. Depois que monetiza, é trocado o nicho".

O YouTube disse à BBC News Brasil que, após análise, tomou medidas contra canais e vídeos por violarem suas diretrizes, mas não especificou quais conteúdos foram removidos.

A reportagem refez a análise após o posicionamento da empresa e constatou que cerca de 10% dos canais identificados saíram do ar.

A plataforma afirmou que qualquer material que viole suas diretrizes e políticas é removido assim que é identificado.

"Além disso, tomamos medidas contra canais que desrespeitam nossos termos de forma recorrente ou grave, o que inclui a desmonetização ou o encerramento da conta", disse o YouTube.

O site esclareceu ainda que exige que seus criadores informem quando usam mídia alterada ou sintética, incluindo IA, para criar conteúdo realista.

"Estamos em constante evolução dos nossos sistemas de análise humana e automatizada para identificar e remover conteúdos que tentem explorar nossa plataforma para obter lucro por meio da promoção de violência ou da sexualização de grupos protegidos."

Produção em larga escala em busca de dinheiro

Os vídeos que erotizam a escravidão no Brasil fazem parte de um mercado dedicado à produção de conteúdo em larga escala com uso de inteligência artificial, chamado, por alguns especialistas, de AI Slop, termo usado para descrever material barato, repetitivo e produzido em série.

Este tipo de vídeo é publicado, em sua maioria, em páginas conhecidas como canais dark ou sem rosto (faceless), modelo de produção de conteúdo para redes sociais em que seus criadores não aparecem nas produções. O YouTube não informa publicamente quem administra cada canal.

A BBC News Brasil tem documentado os impactos desse fenômeno em diferentes áreas, como nos vídeos de IA hipnotizantes e de baixa qualidade voltados para crianças e falsos médicos de IA, que usam avatares hiperrealistas para assustar idosos e vender suplementos milagrosos.

Também mostrou quem são as pessoas por trás de canais deste tipo, que muitas vezes acreditam que poderão faturar alto com vídeos feitos com IA, como anunciam os gurus deste mercado. Mas poucos lucram, de fato, segundo especialistas.

Em geral, os vídeos de IA sobre a escravidão trazem histórias longas, de quase uma hora cada, acompanhadas de imagens que simulam fotografias ou cenas históricas, com títulos construídos para despertar curiosidade e choque.

Os canais não serão identificados nesta reportagem para não contribuir para a popularização de conteúdos que podem ser considerados ofensivos, racistas, enganosos, segundo especialistas que assistiram ao conteúdo coletado.

Formato importado dos EUA tem terreno fértil no Brasil

Montagem mostra vídeos do YouTube sobre escravidão com teor sexual
Legenda da foto,Vídeos feitos por IA abordam tema da escravidão com histórias de romance entre escravos e mulheres brancas

A BBC News Brasil apurou que esse tipo de conteúdo começou a surgir com mais frequência há cerca de dois anos em canais do YouTube criados nos EUA.

Os produtores perceberam que vídeos de inteligência artificial com títulos extremos conseguem atrair audiência e começaram a explorar narrativas de violência sexual, submissão e supostos romances entre pessoas escravizadas e seus senhores.

O sucesso das páginas em inglês chamou a atenção de administradores de canais brasileiros, que passaram a produzir, a partir de 2025, vídeos semelhantes, ambientados no Brasil.

O país oferece um terreno fértil para esse tipo de narrativa — foi o que mais recebeu africanos escravizados nas Américas. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 4 milhões de homens, mulheres e crianças foram trazidos da África entre o século 16 e meados do século 19, mais de um terço de todo o comércio negreiro nas Américas.

Nos vídeos analisados pela BBC News Brasil, a escravidão aparece menos como um sistema de exploração e mais como cenário para histórias de desejo, traição, vingança e violência.

Gustavo Souza, pesquisador da organização Desvelar, em palestra, usando camiseta e calça jeans

Crédito,Arquivo pessoal

Legenda da foto,O pesquisador Gustavo Souza avalia que os vídeos de IA sobre escravidão resgatam representações de pessoas negras que perderam espaço na TV aberta: 'Me ofende'

Gustavo Souza, organizador do livro Enfrentando Deepfakes e pesquisador da organização Desvelar — organização de mobilização e pesquisa sobre tecnologia e políticas públicas —, assistiu a parte do material identificado pela BBC News Brasil.

Ele avalia que esses vídeos retomam formas de representação de pessoas negras que perderam espaço na mídia, com a redução na TV aberta de produções que colocam pessoas negras na posição da escravidão, mas que continuam presentes no imaginário do público.

Para Souza, os vídeos podem encontrar audiência justamente por recuperar esse repertório conhecido. "Essas histórias repercutem com o que já existe de crença. É meio que eu querer escutar a mesma música novamente", diz o pesquisador.

"Então, para mim, tem um lugar de racismo aqui de reforçar essa imagem de qual é o lugar eternamente de pessoas negras no Brasil, o lugar do escravo, do escravizado. Esse tipo de conteúdo me ofende em uma dimensão coletiva."

'Uso para monetizar. Depois, troco de nicho'

Canal mistura vídeos sobre notícias e publicações sobre escravidão com IA; imagem mostra thumbs do Youtube do canal e rosto do criador de conteúdo

Crédito,Reprodução/YouTube

Legenda da foto,Canal mistura vídeos sobre notícias e publicações sobre escravidão com IA

A maior parte dos canais analisados não informa publicamente quem está por trás das páginas. Em um deles, porém, a BBC News Brasil conseguiu identificar o responsável e falar com ele.

A BBC News Brasil localizou o responsável a partir de uma busca online pela imagem usada no perfil do canal.

O retrato levou às redes sociais de Diego Souza, criador de conteúdo que reúne quase 1 milhão de seguidores no Instagram e vende cursos sobre como ganhar dinheiro com vídeos de fofocas e notícias nas redes sociais.

Os vídeos mais populares de seu canal tentam atrair os espectadores com imagens de capa que mostram homens negros sem camisa ao lado de mulheres brancas e frases sugestivas.

A descrição da página afirmava que o canal apresenta "documentários narrativos e histórias históricas que vão além dos livros", além de "histórias criadas por IA, baseadas e inspiradas em fatos históricos reais".

Segundo o texto, o conteúdo é voltado ao público adulto e tem como objetivo promover a "preservação da memória histórica com respeito, responsabilidade e verdade".

Diego confirmou à reportagem ser o responsável pelo canal, mas disse que essa não é sua atividade principal. Segundo ele, os vídeos sobre escravidão foram publicados para que a página alcançasse os requisitos necessários à monetização no YouTube, ou seja, para que pudesse receber dinheiro com anúncios.

A plataforma exige, para isso, ao menos 1 mil inscritos e 4 mil horas de exibição pública nos últimos 12 meses.

"O conteúdo é usado apenas para monetizar. Depois que monetiza, é trocado o nicho", disse Diego.

Nicho é como os criadores de conteúdo no YouTube se referem aos temas de um canal desse tipo. No seu caso, publicações mais recentes do canal passaram a tratar de artistas e casos policiais.

Questionado sobre o risco do material ser considerado ofensivo ou preconceituoso e as implicações éticas da estratégia, Diego afirmou que não conseguiria formular uma opinião, pois esse não era o conteúdo principal de seu trabalho.

"O YouTube permite, então está dentro das regras", disse.

Diego afirmou, após ser perguntado sobre o potencial ofensivo deste tipo de conteúdo, que não "daria permissão" para mostrar esse conteúdo como sendo de sua autoria e avisou que tornaria os vídeos privados.

No dia seguinte à primeira conversa, Diego voltou a falar com a BBC News Brasil. Afirmou que o material não era de sua autoria, que não refletia o conteúdo que produz e que se tratava de "material de terceiros, de caráter público", utilizado "de forma pontual" e fora de sua linha de trabalho. Depois, os vídeos foram removidos de seu canal.

Imagem de um criador de conteúdo divulgando um curso em um site

Crédito,Reprodução

Legenda da foto,Perfil no Instagram com quase 1 milhão de seguidores administra canal com vídeos sobre escravidão e também vende cursos sobre como ganhar dinheiro com vídeos sobre fofocas e notícias

R$ 25 mil em seis meses com vídeos de escravidão

Não há dados públicos sobre quanto canais no YouTube ganham com seus vídeos. Mas a BBC News Brasil encontrou um exemplo que pode ajudar a ilustrar por que esses vídeos se tornaram um nicho consolidado na plataforma.

Uma captura de tela exibida por um desses canais, que já não está mais no ar, indicava ganhos de cerca de R$ 24,6 mil em seis meses, com aproximadamente 200 vídeos publicados e mais de 2 milhões de visualizações.

A reportagem não conseguiu confirmar esses ganhos de forma independente.

Para verificar que tipo de publicidade era exibida junto aos conteúdos, a reportagem criou uma nova conta no YouTube e acessou os maiores canais analisados.

Durante o teste, identificou anúncios em inglês de ao menos quatro empresas, em vídeos que estavam no ar há dois anos.

Uma delas, de Vancouver, no Canadá, afirmou à BBC News Brasil que não tinha conhecimento de que sua publicidade estava sendo exibida junto a esse tipo de conteúdo e que não havia selecionado especificamente aquele canal ou vídeo.

Segundo a companhia, após ser informada pela reportagem, tomou medidas imediatas para revisar e ajustar as configurações de suas campanhas publicitárias.

Outra empresa, uma multinacional da área da saúde, disse que não tinha conhecimento da exibição dos anúncios.

Afirmou que direciona suas campanhas para públicos "com interesse em temas de saúde, bem-estar e qualidade de vida", que o canal citado foi bloqueado e que exigiu esclarecimentos da plataforma.

Canal no YouTube mostra dashboard com supostos ganhos em página sobre escravidão no Brasil

Crédito,Reprodução/YouTube

Legenda da foto,Canal no YouTube mostra dashboard com supostos ganhos em página sobre escravidão no Brasil. A página agora está fora do ar.

'Vídeos recriam mitos sexistas e racistas sobre a escravidão'

Uma das características em comum é que esses canais apresentam histórias fictícias como se fossem narrativas históricas ou "baseadas em fatos históricos".

Um dos canais em português identificados pela BBC News Brasil tem 23,4 mil inscritos e quase 1 milhão de visualizações. O vídeo mais popular ultrapassa 100 mil visualizações e está no ar há pelo menos oito meses.

Embora o YouTube informe que o conteúdo foi gerado por IA, a narração, igualmente artificial, afirma tratar-se de uma "história que precisa ser contada exatamente como aconteceu, sem filtros, sem amenizações".

A trama acompanha Eulália Mendes de Albuquerque, que seria casada com um rico proprietário de escravos e passaria a se relacionar sexualmente com um deles, Tomé. O vídeo chega a afirmar que "arqueólogos da USP" teriam descoberto a ossada desses personagens.

Uma busca pelo nome da personagem mostra que o mesmo enredo é reproduzido em textos e vídeos de páginas semelhantes, sem qualquer fonte histórica, inclusive em inglês.

A reportagem não encontrou registro documental que comprove a existência dos personagens ou do episódio descrito. Procurada, a Universidade de São Paulo (USP) também não encontrou tal informação.

Nenhum dos quase 300 comentários publicados sobre o vídeo questiona a veracidade da história ou dos personagens.

"Bom trabalho e obrigado pelo belo vídeo", diz um espectador.

"Sinto muito por Tomé e Eulália", afirma outro.

A historiadora Keila Grinberg, com blusa azul e camisa estampada, sorrindo em retrato

Crédito,Marina Juppa/Arquivo pessoal

Legenda da foto,Para a historiadora Keila Grinberg, vídeos recriam mitos antigos sobre a escravidão

A BBC News Brasil pediu a historiadores que comentassem, de forma geral, o teor desses vídeos.

Para Keila Grinberg, professora da Universidade de Pittsburgh, nos EUA, esses conteúdos recriam mitos antigos sobre a escravidão. "São mitos profundamente racistas e sexistas", afirma.

Segundo Grinberg, as histórias misturam a ideia da suposta potência sexual dos homens negros com a imagem de mulheres brancas dominadas pelo desejo.

A escolha de casais formados por mulheres brancas e homens negros também não seria casual. "Isso é o suprassumo da proibição da sociedade escravista nos olhos dessas pessoas. É aquilo que não poderia acontecer de jeito nenhum", diz.

Ao mesmo tempo, relações entre homens brancos e mulheres negras escravizadas são frequentemente naturalizadas. "Como se fosse uma coisa correta, como se não fosse violento, como se não fosse escravidão."

Para Grinberg, a mistura de invenção e aparência documental é um dos principais problemas. "O que o vídeo cita também pode ser inventado."

Ela afirma que o público precisa aprender a perguntar como uma informação histórica foi produzida: se os personagens existiram, que documentos registram o episódio e quais outras fontes podem confirmar a narrativa.

"Ele [o aluno] aprende história quando vê uma novela, com o pai e a mãe. Aprende história de várias maneiras. Isso é bom. O complicado é conseguir distinguir uma mentira repetida mil vezes", afirma.

'É um apelo à sexualização e à erotização nas relações escravistas e nas relações interraciais'

As imagens e os títulos de alguns desses vídeos constroem uma representação específica das pessoas escravizadas.

Homens negros aparecem frequentemente sem camisa, musculosos, acorrentados ou em posições de submissão. Mulheres brancas são apresentadas como sedutoras, perversas ou dominadas pelo desejo.

Lorena Telles, professora do Departamento de História da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa e Formação em Raça, Gênero e Justiça Racial do Afro-Cebrap, assistiu a alguns dos vídeos coletados pela BBC News Brasil.

Ela afirma que o material transforma um passado de exploração e violência em histórias de romance e desejo.

"É um apelo à sexualização e à erotização nas relações escravistas e nas relações interraciais", afirma.

Nos vídeos, reforça Telles, os homens negros aparecem frequentemente musculosos, com o corpo exposto e associados a uma suposta potência sexual.

Para ela, essa representação retoma estereótipos racistas que apresentam homens negros como reprodutores e "máquinas sexuais" e, em algumas narrativas, como estupradores.

"O homem branco aparece como todo-poderoso e a mulher branca como completamente anulada, submissa ou diabólica", diz.

Lorena Telles, professora do Departamento de História da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa e Formação em Raça, Gênero e Justiça Racial do Afro-Cebrap

Crédito,Daniel Antônio/Arquivo pessoal

Legenda da foto,Lorena Telles, professora do Departamento de História da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa e Formação em Raça, Gênero e Justiça Racial do Afro-Cebrap

Telles pesquisa a história de mulheres negras, africanas e descendentes, relações de gênero, maternidade e escravidão no século 19, além do trabalho doméstico no pós-abolição.

Para ela, alguns desses vídeos, ambientados em fazendas de café no século 19, transformam relações marcadas por exploração do trabalho, torturas físicas, estupros, separação de famílias, lutas pela liberdade e muita opressão em "historietas" sobre paixões entre senhores, mulheres brancas escravistas e pessoas negras escravizadas.

"Multiplicam-se nos enredos narrativas de estupros de meninas e mulheres negras, mulheres brancas escravistas sendo oferecidas pelo marido para serem sexualmente violentadas por homens cativos", afirma.

"O que é mais chocante é que essas imagens de romantização do estupro têm público. Apelam e criam uma narrativa de prazer sexual masculino ligada à violência e ao sofrimento das mulheres."

Canais copiam histórias em busca de visualizações

Thumb de vídeo no YouTube

Crédito,Reprodução/YouTube

Legenda da foto,Vídeo teve mais de 1,5 milhão de visualizações

A reportagem identificou que parte desses canais recicla as mesmas histórias.

Algumas versões mantêm personagens, datas, locais e situações de violência. Outras transferem a narrativa para diferentes países e alteram nomes e detalhes, preservando a mesma premissa.

Um dos exemplos mais difundidos conta a história de um coronel que teria permitido que sete homens escravizados mantivessem relações sexuais com sua esposa.

A versão mais popular, publicada com o título "O coronel que dividia a esposa com 7 escravos", teve mais de 1,5 milhão de visualizações e recebeu mais de 1,5 mil comentários. O YouTube sinaliza o uso de IA no material.

Segundo o vídeo, o episódio teria ocorrido em Minas Gerais, em 1864. A narração apresenta nomes de personagens, propriedades e acontecimentos específicos, mas não indica fontes sobre o caso.

Variações do enredo foram publicadas por mais de 30 outros canais, segundo pesquisa da BBC News Brasil.

Em alguns casos, o título é repetido quase palavra por palavra. Em outros, a história é transportada para outros países, com mudanças nos personagens e na data, mantendo a promessa de revelar um episódio desconhecido da escravidão.

Os comentários mostram que o público recebe o material de maneiras diferentes. Alguns espectadores consideram a narrativa plausível. "Acredito sim. Toda vida existiram belos canalhas", escreveu um usuário.

Outros questionam a origem das informações. "Quem registrou esses detalhes?", perguntou uma pessoa, referindo-se às datas, aos personagens e às circunstâncias descritas na narração.

Há também espectadores que identificam o conteúdo como ficção ou produto de inteligência artificial. "Agora histórias fictícias estão bombando", escreveu um usuário. Outro resumiu: "ChatGPT tá criativo mesmo."

'Plataformas não deveriam monetizar ou recomendar esse conteúdo'

A pesquisadora Fernanda Rodrigues em retrato, usando um colar dourado e camisa branca com botões

Crédito,Marco Marinho/Arquivo pessoal

Legenda da foto,Fernanda Rodrigues é coordenadora de pesquisa do Instituto de Referência Internet e Sociedade (Iris) e doutoranda em direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

A pesquisadora Fernanda Rodrigues, que estuda a regulação de inteligência artificial, defende que vídeos que configurem discriminação, discurso de ódio ou violência contra a mulher deveriam ser removidos.

Na sua visão, os canais identificados pela reportagem se apresentam como produtores de conteúdo educativo ou histórico para usar o sofrimento de pessoas negras para atrair audiência.

Rodrigues afirma ainda que a circulação desses vídeos pode influenciar a forma como crianças e adolescentes compreendem a escravidão.

"A gente perde a noção se aquele conteúdo é problemático", diz Rodrigues, que é coordenadora de pesquisa do Instituto de Referência Internet e Sociedade (Iris).

"No final das contas, há um mercado que ensina a criar esse tipo de conteúdo, sabendo que plataformas monetizam e você consegue lucrar de forma muito fácil sobre algo que viraliza muito."

Na avaliação da pesquisadora, "quando se trata de um conteúdo que brinca na linha tênue sobre o que é discriminação, seria relevante que as plataformas, ao menos, não monetizassem esse tipo de conteúdo ou sequer o recomendassem".

O YouTube afirmou à BBC News Brasil que reconhece que alguns temas podem ser profundamente sensíveis ou controversos e que seu objetivo é "equilibrar a manutenção de uma comunidade segura com a defesa da liberdade de expressão dentro dos limites das nossas políticas".

A empresa disse que mídias sintéticas que violam as diretrizes da comunidade existentes, como assédio, discurso de ódio ou desinformação, que possam causar danos no mundo real, estão sujeitas à remoção, "independentemente de estarem rotuladas ou não" (como IA).

Disse também que falhas repetidas ou graves ao divulgar mídias sintéticas realistas podem resultar em penalidades, incluindo remoção de conteúdo ou suspensão do Programa de Parcerias do YouTube (que é o que permite a remuneração dos canais).