SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

A Justiça de Duas Velocidades rápida para LULA, inexistente para FLÁVIO BOLSONARO !

 


A Justiça de Duas Velocidades

Lula foi condenado em 2017 e preso em abril de 2018, permanecendo 580 dias encarcerado em Curitiba. A condenação, imposta pelo então juiz Sergio Moro, foi posteriormente anulada pelo Supremo Tribunal Federal, que reconheceu que a 13ª Vara Federal de Curitiba não era o "juiz natural" dos casos. Mais grave ainda: o STF também decidiu que Moro agiu com parcialidade ao condenar Lula, configurando negação ao julgamento justo. As conversas vazadas pelo The Intercept Brasil em 2019 revelaram que o próprio Moro e procuradores da Lava Jato combinavam estratégias processuais por aplicativo de mensagens — ou seja, a condenação foi construída, não conquistada.

Enquanto isso, Flávio Bolsonaro, senador e filho do ex-presidente, enfrentou investigações sobre um esquema de "rachadinha" — desvio de parte dos salários de assessores — quando era deputado estadual no Rio de Janeiro. As investigações se arrastaram, e o caso segue em tramitação com recursos e manobras protelatórias. Não houve prisão, não houve execração pública midiática, não houve campanha para destruir sua imagem. A diferença de tratamento é escancarada.

A Fome Como Escolha Política

Lula fez da luta contra a fome o centro de seus governos. Em 2003, lançou o programa Fome Zero, que combinava transferência de renda (Bolsa Família) com incentivo à agricultura familiar, educação e saneamento. O resultado foi histórico: em 2014, o Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU, com a insegurança alimentar grave caindo para menos de 5% da população. O programa não era apenas assistencialista — era estruturante, porque exigia frequência escolar e acompanhamento de saúde das crianças beneficiadas.

O que aconteceu depois? A partir de 2016, com o impeachment de Dilma Rousseff e depois com o governo de Jair Bolsonaro, os gastos sociais foram cortados, programas desmontados e a economia priorizada em detrimento das pessoas. Em 2021, o Brasil voltou ao Mapa da Fome. Mais de 33 milhões de brasileiros passaram a conviver com a fome diária.

Jair Bolsonaro ainda tentou capitalizar politicamente o Auxílio Emergencial durante a pandemia, mas o programa foi marcado por hesitações: o governo propôs inicialmente apenas 200 reais mensais, o Congresso forçou o aumento para 600, e Bolsonaro demorou um mês para sancionar, além de vetar o benefício para grupos de trabalhadores que deveriam recebê-lo. Não foi política pública — foi cálculo eleitoral.

Números Que Doem 

Os dados acadêmicos mostram que, durante os governos do PT (2003-2016), a renda de todas as classes cresceu, mas a dos pobres cresceu proporcionalmente mais. A participação de negros e pobres nas universidades saltou: entre 2003 e 2018, a proporção de estudantes brancos caiu de 59% para 43%, enquanto a de negros subiu de 34% para 51%. Isso significa que políticas de cotas e expansão do ensino superior funcionaram — e incomodaram profundamente a classe média tradicional, que via seu espaço social "invadido" por emergentes.

Após 2016, com o giro à direita, a renda de todas as classes caiu — exceto a do 1% mais rico. Os mais pobres foram os que mais perderam. 

O Que Está em Jogo 

Não se trata de defender Lula ou atacar Bolsonaro por questões partidárias. Trata-se de reconhecer que existe um projeto político que aposta na inclusão, na distribuição de renda e na dignidade dos mais pobres — e outro que aposta na concentração, na exclusão e no desprezo pelos vulneráveis. Trata-se de reconhecer que a mesma elite que aplaudiu a prisão de Lula sem provas sólidas agora silencia diante das evidências que cercam a família Bolsonaro. 

Trata-se, acima de tudo, de reconhecer que a fome voltou ao Brasil, que milhões de crianças dormem sem jantar, e que isso não é acidente — é resultado de escolhas políticas deliberadas. E quem escolheu cortar programas sociais, quem escolheu priorizar o agronegócio exportador em detrimento da agricultura familiar, quem escolheu ignorar a pandemia enquanto ela matava, não pode fingir surpresa com os números da miséria que ajudou a criar. 

 

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Um sistema de vida genuinamente sustentável é sustentável porque seus processos regenerativos estão funcionando.




Uma empresa não pode ser regenerativa. Nem um edifício ou um produto podem.


E a regeneração não é o próximo passo após a sustentabilidade. No entanto, grande parte da conversa trata dessa forma. Continuamos desenhando a mesma pequena escada:

Menos ruim → Sustentável → Regenerativo

O problema é que sustentabilidade e regeneração não são duas posições na mesma escala. Eles descrevem coisas diferentes.

Sustentabilidade é uma condição. Um sistema é sustentável quando pode persistir ao longo do tempo sem degradar os sistemas ecológicos e sociais dos quais depende.

Regeneração é um processo. É a renovação, reparo e evolução contínuas através das quais os sistemas vivos mantêm e aumentam sua capacidade de prosperar.

O que também significa que alcançar a sustentabilidade não torna a regeneração desnecessária. Quase o oposto.

Um sistema vivo permanece sustentável justamente porque seus processos regenerativos continuam funcionando.

Pense em uma floresta saudável. Ela não atinge um "estado sustentável" final e então para de se regenerar. O solo continua a se formar, os nutrientes ciclam, as espécies se reproduzem, as perturbações são absorvidas e os relacionamentos se reorganizam.

Parar esses processos e o estado supostamente sustentável começa a desmoronar.

Portanto, sustentabilidade descreve a condição. Regeneração descreve os processos que continuam tornando essa condição possível.

É também por isso que chamar um edifício, produto ou empresa de "regenerativo" faz pouco sentido. Essas coisas podem participar de processos regenerativos, capacitá-los ou contribuir para eles. Mas o objeto ou organização em si não é o processo.

O mesmo problema aparece quando chamamos um produto individual de "sustentável". Sustentabilidade não é simplesmente uma qualidade que pode ser atribuída a um objeto. Ela surge no nível de um sistema maior e ao longo do tempo.

Regeneração, então, não é "melhor sustentabilidade". E sustentabilidade não é o ponto em que a regeneração se torna desnecessária.

Um sistema de vida genuinamente sustentável é sustentável porque seus processos regenerativos estão funcionando.

Ainda assim, continuamos agrupando ambos os conceitos em categorias de marketing:

Ruim.
Menos ruim.
Sustentável.
Regenerativo. 🌱

E, uma vez que fazemos isso, grande parte do significado deles desaparece.

Antes de inventar outro edifício, empresa ou produto "regenerativo", talvez seja necessário esclarecer melhor o que regeneração realmente descreve.

O trabalho de Joe Brewer, r3.0 e Daniel Christian Wahl é um bom ponto de partida.

Também confira o novo artigo do Stockholm resilience center nos comentários abaixo 👇

Educação na Era da IA — Saúde Mental, Economia, Clima e a Emergência de outra Civilização. Por Egidio Guerra

 



Introdução: Do Currículo Técnico ao Despertar Civilizatório

O livro Futureproof: Teaching the AI Generation — Book 01: Key Stage Zero (Ages 0–5) — The Imaginative Explorer, da Dra. Caroline Whalley CBE, propõe que a educação na primeira infância não se limite a ensinar tecnologia, mas prepare a criança para ser humana num mundo que se torna código. A autora, que se descreve como "uma especialista em ser humano", parte da premissa de que a imaginação, a empatia e a exploração sensorial são as fundações insubstituíveis da mente que a IA não pode replicar.

Contudo, uma leitura mais profunda dessa proposta — especialmente à luz das pesquisas acadêmicas atuais — revela que a educação para a era da IA não é apenas uma questão pedagógica. Ela está intrinsecamente ligada à saúde mental de alunos e professores, à economia do futuro, à crise climática e à concentração de poder nas mãos de uma elite tecnológica. Mais do que preparar crianças para o mercado de trabalho, trata-se de formar cidadãos capazes de salvar o planeta e a humanidade de uma destruição ambiental, algorítmica e autoritária. É o alvorecer de uma nova civilização onde a sabedoria — e não o dinheiro, a IA ou o clima — ocupa o centro.


1. Saúde Mental: O Custo Emocional Invisível da Revolução Digital

A integração acelerada da IA na educação tem gerado um paradoxo emocional: ao mesmo tempo em que promete personalização e eficiência, produz pressão, ansiedade e desconexão. Pesquisas recentes mostram que a ausência de suporte coordenado durante transições digitais rápidas coloca estudantes em risco de "trauma acadêmico", marcado por confusão, ansiedade e um senso diminuído de pertencimento ao ambiente educacional.

Os professores não estão imunes. Educadores relatam sobrecarga de papel, incerteza tecnológica e preocupações com deslocamento profissional, enquanto estudantes expressam medo de serem substituídos pela IA. Em um cenário de alta integração de IA sem infraestrutura emocional paralela, tanto alunos quanto docentes experimentam tecno estresse, ansiedade algorítmica e burnout.

Os dados são alarmantes: 63,4% dos estudantes universitários e professores recorrem à IA para pedir conselhos sobre ansiedade, estresse, depressão ou tristeza, e 58,5% a utilizam para desabafar ou sentir que alguém os escuta. A IA estar se tornando um substituto perigoso do acompanhamento humano — um sintoma de que a escola falhou em oferecer o cuidado que a tecnologia não pode prover.

A educação proposta por Whalley, centrada na imaginação e no brincar, emerge aqui não como uma escolha pedagógica, mas como uma necessidade de saúde pública: ambientes que privilegiam a interação humana, o vínculo e a expressão emocional são a única defesa contra a desumanização algorítmica.


2. Economia: A Armadilha da Marginalização Digital

O impacto econômico da IA na educação não é neutro. Pesquisas indicam que mais de 9,1 milhões de trabalhadores em ocupações de média qualificação enfrentam pressões significativas de deslocamento, especialmente em funções cognitivas rotineiras. O efeito é assimétrico: enquanto alguns se adaptam e prosperam, outros ficam presos na subocupação persistente — uma forma de marginalização digital.

O Fundo Monetário Internacional (2024) alerta que essa transformação pode reduzir o crescimento anual de longo prazo dos EUA em aproximadamente 0,05 a 0,35 pontos percentuais, ao mesmo tempo em que aumenta a desigualdade intergeracional. Trabalhadores em ocupações vulneráveis à IA já registram emprego 3,6% menor após cinco anos, com os mais atingidos sendo os trabalhadores de nível inicial — justamente aqueles que a educação deveria proteger.

A educação para a era da IA, portanto, não pode ser reduzida a "ensinar programação". O ativo mais valioso numa economia dominada por IA não será um conjunto específico de habilidades, mas a adaptabilidade — a capacidade de aprender, desaprender e reaprender continuamente. Países que investirem na formação humana profunda (imaginação, pensamento crítico, empatia) colherão os benefícios; os que se limitarem à alfabetização técnica reproduzirão a marginalização.


3. Mudanças Climáticas: A IA como Ferramenta — e como Ameaça

A relação entre educação, IA e clima é dupla. Por um lado, ferramentas de IA podem ampliar a conscientização ambiental, permitindo que estudantes interpretem grandes conjuntos de dados sobre biodiversidade e mudanças climáticas, desenvolvendo maior compreensão ecológica. Projetos como o TEACH-AI capacitam futuros educadores a usar a IA de forma ambientalmente consciente, ensinando lições sobre clima e sustentabilidade.

Por outro lado, os setores de tecnologia e IA são altamente poluentes. A Oxfam alerta que as empresas que controlam a IA são "setores altamente lucrativos, altamente poluentes e com poder de censura e vigilância". A infraestrutura necessária para treinar e operar modelos de IA consome quantidades massivas de energia e água, contribuindo para a crise climática que a educação deveria ajudar a resolver.

A educação climática na era da IA, portanto, precisa ser crítica e integrada: não basta ensinar crianças a usar ferramentas de IA para analisar dados climáticos; é preciso ensiná-las a questionar quem controla essa tecnologia, qual é seu custo ambiental e como ela pode ser usada para perpetuar ou combater a destruição planetária.


4. Concentração de Poder: Bilionários, Ditadores e a Ameaça à Democracia

A dimensão mais sombria da revolução da IA é a concentração de poder. Segundo relatório da Oxfam, seis bilionários controlam nove das dez maiores plataformas de redes sociais do planeta, enquanto três bilionários concentram quase 90% do mercado global de chatbots de IA. Esse poder digital acumulado "não apenas gera lucros bilionários, como também está sendo usado para restringir liberdades, vigiar opositores e manipular o debate público".

A diretora-executiva da Oxfam Brasil classifica esse processo como "uma ameaça concreta à democracia", alertando que "há em curso uma tentativa de controle de narrativa, de reinterpretação da história e de limitação do acesso à informação". A IA, nas mãos de uma elite bilionária, deixa de ser ferramenta democrática e se torna mecanismo de concentração de riqueza e poder.

O CEO da Anthropic, Dario Amodei, alertou que a IA pode viabilizar "ditaduras superpotentes, armas biológicas e lavagem cerebral em massa". Robinhood CEO Vlad Tenev corroborou que a IA estar exacerbando a "concentração econômica extrema de poder nas mãos dos financiadores da IA no Vale do Silício".

Pesquisadores descrevem o surgimento de uma "anocracia" — uma zona cinzenta precária entre democracia e autoritarismo — impulsionada pela proliferação de IA e plataformas digitais. Outros falam de um "equilíbrio neo-feudal" onde uma classe minúscula de proprietários de infraestrutura exerce poder comparável ao de monarcas pre-iluministas.

A educação para a era da IA não pode ignorar essa realidade. Uma pedagogia que ensina crianças a usar ferramentas de IA sem ensiná-las a questionar quem as controla, para que fins e com que consequências está formando súditos digitais, não cidadãos. 

 

5. A Nova Civilização: Sabedoria como Fundamento 

Diante desse cenário — saúde mental em colapso, economia excludente, clima em crise e democracia ameaçada —, emerge a necessidade de uma nova civilização. Não uma civilização tecnológica, mas uma civilização sábia. 

Leonardo Boff e outros pensadores já apontam que "a vida humana e a integridade do planeta estão em risco" e que é necessário um "novo paradigma civilizatório" que liberte a vida da destruição. Essa nova etapa civilizatória exigiria "sustentabilidade da vida e do planeta, cuidado com a natureza, respeito ao direito de existir, responsabilidade universal e cooperação". 

A proposta de Caroline Whalley — a criança como "Exploradora Imaginativa" — dialoga profundamente com essa visão. Se a imaginação é o que a IA não pode replicar, então a educação que a cultiva é, ao mesmo tempo, um ato de resistência civilizatória e um projeto de sobrevivência planetária. 

Nessa nova civilização, mais importante que o dinheiro será a sabedoria de salvar o planeta da destruição ambiental; mais importante que a IA será a capacidade humana de usá-la com ética; mais importante que o clima será a consciência ecológica que nos conecta à Terra. 

 

Conclusão: Educar para Salvar a Humanidade de Si Mesma 

A educação na era da IA não é apenas sobre preparar crianças para um mercado de trabalho em transformação. É sobre formar seres humanos capazes de resistir à desumanização algorítmica, à concentração de poder, à destruição ambiental e à erosão da democracia. 

O livro de Whalley, ao colocar a imaginação, a empatia e a exploração no centro da primeira infância, oferece uma contribuição valiosa. Mas a pesquisa acadêmica atual nos mostra que isso não basta. Precisamos de uma educação que una alfabetização crítica em IA, saúde mental, consciência climática e educação para a cidadania democrática. 

A nova civilização que emerge não será definida por quem controla a IA, mas por quem tem a sabedoria de usá-la para salvar o planeta e libertar a humanidade. E essa sabedoria começa nos primeiros cinco anos de vida — no brincar, na imaginação, no cuidado com o outro e na conexão com a Terra.