SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

domingo, 28 de junho de 2026

Quando a seleção brasileira era formada por filhos de imigrantes e operários

 

Seleção brasileira em 1919

Crédito,Arquivo Nacional

Legenda da foto,Seleção brasileira em 1919 tinha ao menos cinco filhos de imigrantes no elenco
    • Author,João Fellet
    • Role,Da BBC News Brasil em São Paulo
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Na Copa do Mundo de 2026, as principais seleções estão repletas de atletas cujos pais nasceram em outros países.

O caso mais evidente é o da França, em que 20 dos 26 jogadores são filhos de imigrantes. Entre eles está o atacante Kylian Mbappé, cujo pai nasceu em Camarões e a mãe é de origem argelina.

Alemanha, Inglaterra e Holanda seguem a mesma tendência, com equipes que refletem sociedades profundamente moldadas por fluxos migratórios das últimas décadas.

Mas houve um tempo em que a seleção brasileira também viveu um fenômeno semelhante e era formada em grande parte por filhos de imigrantes.

Na primeira metade do século 20, enquanto o Brasil atraía grandes levas de estrangeiros, sobrenomes italianos, alemães, ingleses e espanhóis – como Lorenzato, Mutzenbecher, Neville e Ojeda – se tornaram comuns na equipe nacional.

Vários desses atletas chegaram à seleção após se destacar em clubes fundados ou frequentados por imigrantes, muitos dos quais existem até hoje e tiveram papel central na difusão do futebol pelo país. Pertencem ao grupo Palmeiras, Corinthians, Vasco, Cruzeiro e Bangu, entre outros.

Imigrantes em hospedaria

Crédito,Museu da Imigração do Estado de SP

Legenda da foto,Hospedaria de imigrantes em São Paulo; em 1920, estrangeiros eram 35% da população da cidade

Quando o Brasil conquistou seu primeiro título, o Campeonato Sul-Americano de 1919, ao menos cinco titulares eram filhos de imigrantes.

Um deles era o atacante Friedenreich, filho de um alemão. Outro, Neco, tinha pai português. Três jogadores, Marcellino, Barbuy e Bianco, eram filhos de italianos.

Os cinco se projetaram no futebol de São Paulo, onde, em 1920, estrangeiros eram 35% da população da cidade, segundo o IBGE.

Origem do futebol no Brasil

O próprio responsável pela introdução do futebol no Brasil vinha de uma família de imigrantes, o paulistano Charles Miller.

Filho de um escocês, Miller conheceu o esporte ao estudar na Inglaterra e o trouxe ao Brasil em 1895.

Outro brasileiro-britânico, Oscar Cox, ajudou a difundir o futebol no Rio de Janeiro ao participar da fundação do Fluminense, em 1902. Em poucas décadas, famílias ricas cariocas abraçaram o esporte, encampado por agremiações que tinham outras modalidades como carro-chefe – caso do Flamengo e do Botafogo, inicialmente focados no remo.

Paralelamente, o esporte também se popularizava entre as classes baixas brasileiras, engrossadas pelos milhões de europeus, árabes e japoneses que migraram ao país entre os séculos 19 e 20.

A pujança da atividade cafeeira transformou São Paulo em um importante polo industrial e destino de imigrantes. Surgem nessa época vários clubes de futebol que agregavam estrangeiros – caso do Germânia, fundado pela comunidade alemã, do Esporte Clube Sírio, da colônia árabe, e da Portuguesa de Desportos.

Partida no estádio de Laranjeiras, no Rio

Crédito,CBF

Legenda da foto,Jogo entre o Brasil e o clube inglês Exeter, em 1914, no Rio, foi a primeira partida oficial da seleção

Outros times amadores, formados principalmente por operários, disputavam torneios nas várzeas dos rios Tietê, Tamanduateí e Aricanduva - origem da expressão "futebol de várzea".

Vários desses grupos agregavam italianos - comunidade estrangeira mais numerosa na São Paulo de então - e forneceram jogadores para dois clubes fundados na época, o Corinthians e o Palmeiras.

No Rio, operários fundaram o Bangu, e imigrantes portugueses criaram o Vasco.

Fundação do Palmeiras

"Aquele italiano que estava marginalizado em uma sociedade paulistana dominada por aristocratas cafeicultores, a partir do futebol, passa a ter uma identidade e a ganhar um pertencimento", diz à BBC News Brasil o historiador Fernando Galuppo, autor de sete livros sobre o Palmeiras, nascido como Palestra Itália.

Ele conta que a criação do clube, em 1914, buscava agrupar imigrantes de todas as partes da Itália. Até então, famílias italianas em São Paulo se reuniam em associações de sua província de origem. Fazia poucas décadas que a Itália havia sido unificada, e muitos migrantes que trocaram o país pelo Brasil não falavam italiano, e sim línguas regionais.

Filhos de espanhóis, italianos, alemães e ingleses representaram Brasil no início do século 20

Crédito,CBF

Legenda da foto,Jogadores da seleção brasileira em 1914, ano em que equipe realizou as primeiras partidas oficiais

Os fundadores do Palestra publicaram anúncios em jornais para atrair futebolistas da colônia. Entre os que atenderam ao chamado havia atletas nascidos na Itália e muitos filhos de italianos – caso, segundo Galuppo, de Heitor (Ettore) Marcellino, Amilcar Barbuy e Bianco Spartaco Gambini, os três presentes na seleção brasileira vencedora do Sul-Americano de 1919.

Antes de passar ao Palestra, Gambini e Barbuy jogaram no clube que viria a ser o principal adversário do time, o Corinthians.

Em dissertação de mestrado apresentada na USP em 2014, o historiador Marco Aurélio Duque Lourenço aborda a hipótese de que a rivalidade entre os dois clubes tenha nascido com a transferência dos jogadores e rixas dentro da comunidade italiana.

Lourenço lembra que a palavra rival vem do latim "rivalis", aquele que habita a mesma margem do rio – e que os dois clubes sempre treinaram na margem esquerda do Tietê (décadas depois, o terceiro grande clube paulistano, o São Paulo, também montou um centro de treinamento no mesmo lado do rio).

De operários para operários

Autor de O Futebol Explica o Brasil, o jornalista Marcos Guterman diz que o Corinthians foi fundado quatro anos antes do Palestra para atrair imigrantes de todas as nacionalidades e brasileiros pobres.

"Era um clube de operários para operários: a ideia era que a torcida fizesse o time, e não o contrário."

Vinha do Corinthians o quarto filho de estrangeiros da seleção de 1919 – Manuel Nunes, o Neco.

Antonio Roque Citadini, conselheiro vitalício do clube e autor de uma biografia sobre o jogador, diz à BBC News Brasil que Neco era filho de um português que vivia no Bom Retiro, bairro paulistano de imigrantes.

O quinto filho de estrangeiro, Arthur Friedenreich, iniciou a carreira no Germânia e foi o grande destaque da campanha vitoriosa.

Palmeiras, campeão paulista em 1934

Crédito,Reprodução

Legenda da foto,Equipe do Palestra Itália em 1934; clube agregava famílias italianas em São Paulo

Com pai alemão e mãe brasileira negra, o atleta simbolizava ao mesmo tempo a projeção de descendentes de estrangeiros e de negros num esporte inicialmente dominado pela elite branca nacional.

Fernando Galuppo diz que, nos primórdios do futebol em São Paulo, famílias ricas "faziam campanha contra a inserção de elementos populares no jogo". Várias delas frequentavam o Club Athletico Paulistano, na época o principal rival do Palestra Itália.

Quando os dois clubes se enfrentavam, colunistas do jornal O Estado de S. Paulo que também eram sócios do Paulistano "se referiam aos jogadores do Palestra com todo tipo de impropério e ofensa", segundo o historiador.

"Era um verdadeiro choque de classes: o time do operário italiano chão de fábrica contra o dos aristocratas e barões do café."

Na época, imigrantes pobres italianos eram discriminados em São Paulo e tratados por termos pejorativos, como carcamanos e italianinhos.

Por outro lado, Galuppo afirma que os jogadores ítalo-brasileiros jamais foram contestados na seleção brasileira. "A perseguição acontecia muito mais no plano doméstico do que no nacional."

Racismo no futebol

Para Marcos Guterman, jogadores negros da seleção sofriam mais questionamentos que os filhos de imigrantes naqueles anos.

Em O Negro no Futebol Brasileiro, clássico da literatura esportiva nacional, lançado em 1964, o jornalista Mário Filho diz que Barbosa, Juvenal e Bigode – três atletas negros – levaram injustamente a culpa pela derrota do Brasil na final da Copa de 1950, postura que, para ele, indicava o racismo entre a população.

Equipe corintiana em 1910

Crédito,Divulgação/Corinthians

Legenda da foto,Corinthians em 1910, ano de sua fundação; clube atraiu muitos operários estrangeiros de São Paulo

"Quando o brasileiro acusou Barbosa, Juvenal e Bigode, acusou-se a si mesmo", escreveu Mário Filho.

Guterman diz que, na época, circulava o discurso de que "havia negros demais na seleção". "Tanto que, na Copa de 1954, quase não havia negros no time." O Brasil caiu nas quartas de final.

A redenção ocorreu em 1958, com a conquista do primeiro Mundial sob a liderança de Pelé. Desde então, negros se tornaram presença permanente na seleção.

Perseguição na 2ª Guerra

Ainda que, segundo os pesquisadores entrevistados, a xenofobia no Brasil contra atletas filhos de imigrantes não fosse tão forte quanto na Europa atual, jogadores e clubes brasileiros ligados ao Japão, à Alemanha e à Itália sofreram grandes pressões durante a 2ª Guerra Mundial (1939-1945), quando o governo Getúlio Vargas rompeu laços com as três nações.

O clube Germânia, que lançara Friedenreich, foi forçado a mudar de nome, virando Pinheiros.

Soldados da FEB na viagem de retorno ao Brasil

Crédito,CPDOC

Legenda da foto,Soldados brasileiros retornam da Itália em 1945; guerra gerou ofensiva contra clubes alemães, italianos e japoneses no Brasil

O Palestra se tornou Palmeiras, tirou as cores da bandeira da Itália do escudo e afastou todos os dirigentes italianos. O clube chegou a pedir salvo-condutos para que sócios pudessem acompanhar jogos do time em outras cidades.

Galuppo afirma que a repressão à identidade italiana talvez esteja na origem de um hábito presente até hoje entre palmeirenses. "É a única torcida que, enquanto toca o hino nacional, canta uma paródia em cima do hino."

Em Belo Horizonte, outro clube criado por italianos e que também se chamava Palestra Itália foi rebatizado como Cruzeiro.

Cornetar e terminar em pizza

Sob a forte agenda nacionalista do governo Vargas, palavras estrangeiras associadas ao futebol foram abrasileiradas. Mesmo assim, Galuppo diz que termos criados por ítalo-brasileiros que frequentavam estádios sobrevivem até hoje no vocabulário nacional, caso do verbo cornetar (criticar, reclamar) e da expressão "terminar em pizza".

"A expressão surgiu no Palestra, onde jantares com pizza apaziguavam os sócios após debates acalorados", afirma.

Seleção brasileira de futebol em 1925

Crédito,CBF

Legenda da foto,Filho de alemão e de brasileira negra, Friedenreich (à frente e à esq.) foi um dos primeiros destaques da seleção

Galuppo diz que a 2ª Guerra acelerou o abrasileiramento do Palmeiras e de outros clubes de estrangeiros. Nas décadas seguintes, conforme a imigração para o Brasil arrefeceu, a presença de filhos de imigrantes na seleção se diluiu.

Com o fim do conflito mundial, ele afirma que clubes ítalo-brasileiros deixaram de ser oficialmente perseguidos, mas que a crise só foi realmente superada em 1965, quando o Palmeiras representou o Brasil numa partida contra o Uruguai, no Mineirão. Os atletas palmeirenses venceram o jogo por 3 a 0.

A paz estava selada.

Este texto foi publicado originalmente em 14 de julho de 2018

'Irmãs de esperma': 'Só descobrimos que somos filhas do mesmo doador após os 20 anos'

 

Três mulheres se abraçam e riem juntas. A mulher à esquerda tem cabelos escuros e veste uma blusa preta. A do meio também tem cabelos escuros e usa blusa preta com jeans azul. A mulher à direita é loira e veste uma blusa preta sob um macacão estampado com imagens do sol e da lua.

Crédito,Sperm Sisters

Legenda da foto,Natasha, Gemma e Helen se tornaram inseparáveis desde que descobriram ser irmãs
    • Author,Gemma Dunstan
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Natasha, Gemma e Helen cresceram acreditando que sabiam quem eram seus pais.

Foi apenas décadas mais tarde, após realizarem testes de DNA, que elas descobriram que foram concebidas a partir do mesmo doador de esperma, um homem do País de Gales.

Como foram concebidas antes da introdução das normas que passaram a regular esse tipo de procedimento, em 1991, elas dizem pertencer à geração de crianças nascidas durante o período do "Velho Oeste" da doação de esperma.

Elas se autodenominam "irmãs de esperma" e vêm explorando juntas essa recém-descoberta relação de irmandade. O primeiro encontro entre elas foi descrito como "um conto de fadas; parecia algo mágico, havia lágrimas de alegria".

Duas meninas sorriem para a câmera e apontam para os espaços deixados pelos dentes de leite que caíram. A mais velha, à esquerda, veste uma blusa branca sem mangas e tem cabelos castanho-claros com franja. A irmã mais nova usa uma blusa vermelho-alaranjada e tem cabelo curto na altura do queixo. As duas estão sentadas em um sofá marrom-escuro estampado

Crédito,Gemma Hicks

Legenda da foto,Helen e Gemma passaram boa parte da vida sem saber que haviam sido concebidas com a ajuda de um doador. A descoberta só veio quando se aproximavam dos 30 anos

Gemma e Helen Hicks cresceram juntas em Berkshire, sul da Inglaterra, e acreditavam que o pai que as criou era seu pai biológico.

Foi só quando estavam perto dos 30 anos que descobriram ter sido concebidas com o auxílio de um doador de esperma. Mas na época em que nasceram, os registros eram limitados e elas não tinham como saber se o doador era o mesmo.

"Naqueles tempos, a doação de esperma era uma espécie de 'Velho Oeste'. Muitos pais eram orientados a criar a criança como se fosse biologicamente deles e a não contar nada", disse Gemma, de 36 anos, que mora na Inglaterra.

Somente em agosto de 1991 foi criada a Autoridade de Fertilização Humana e Embriologia do Reino Unido, órgão regulador da fertilidade no país, e passaram a existir diretrizes para o setor.

Um teste de DNA não apenas confirmou que as duas tinham o mesmo pai biológico, como também as apresentou a outras irmãs.

"Fisicamente, eu me senti diferente. Tive a sensação de que já não sabia quem eu era e comecei a questionar cada pequeno aspecto da minha vida, me perguntando se aquilo vinha da minha genética", afirmou Gemma.

Para Helen, de 35 anos, que vive em Hampshire, sudoeste de Londres, depois do choque inicial, a notícia trouxe uma sensação de clareza.

"Uma estranha sensação de calma tomou conta de mim. Passei a olhar para determinados momentos da minha vida e, de repente, muitas coisas começaram a fazer sentido."

Uma menina posa no jardim ao lado de um gato tigrado de pelos longos. Ela sorri para a câmera, tem cabelos castanhos compridos e veste calça jeans e uma blusa branca sem mangas, com uma jaqueta esportiva laranja amarrada na cintura

Crédito,Natasha Goldstein-Opasiak

Legenda da foto,Natasha só descobriu que havia sido concebida por meio de uma doação de esperma quando já estava na casa dos 20 anos

Desde então, elas encontraram mais duas irmãs do mesmo doador. Uma delas é Natasha Goldstein-Opasiak, de 36 anos, moradora de Essex, leste de Londres.

Natasha descobriu aos 21 anos que havia sido concebida por meio de doação de esperma, mas só fez um teste de DNA quando tinha 31. "Fiz o teste porque tinha muita curiosidade de saber de onde vinha a outra metade de mim. Nunca imaginei que encontraria irmãos", disse.

"Você recebe um e-mail avisando que tem parentes. É literalmente como o Tinder: aparece uma mensagem dizendo que houve uma combinação e mostra quem são suas meio-irmãs."

Helen e Gemma entraram em contato com Natasha e, em menos de um mês, as três combinaram de se encontrar.

"Sempre dizemos que fomos atraídas umas às outras como ímãs", afirmou Gemma.

"Acho que bastou um minuto sentadas à mesa com a Natasha para percebermos que falamos do mesmo jeito e temos opiniões parecidas sobre muitas coisas. É meio estranho, mas também mágico."

Elas também descobriram que, por pouco, seus caminhos não haviam se cruzado anos antes.

Gemma e Natasha moraram na mesma residência estudantil da universidade que frequentaram em Leeds, no norte da Inglaterra, cerca de 15 anos atrás.

"É muito triste pensar que fomos privadas dessa convivência durante a infância. Poderíamos ter passado tempo juntas, comemorado aniversários juntas. Dá tristeza pensar em tudo o que perdemos", disse Gemma.

As três compartilham características semelhantes, entre elas a criatividade. Gemma seguiu as artes visuais, Helen se dedicou à música e Natasha à dança. Em algum momento da vida, todas também trabalharam como professoras ou docentes.

"Não cresci em um ambiente especialmente criativo, mas saber que venho de uma família com essa inclinação muda muita coisa. Tudo parece se encaixar, inclusive a forma como você se vê e valoriza a si mesma", afirmou Gemma.

Gemma e Helen tiram uma selfie nas arquibancadas do Principality Stadium. Gemma tem cabelos escuros na altura dos ombros. Helen é loira e usa óculos de armação escura e marcante. As duas vestem chapéus em forma de ovelha; Gemma sorri para a câmera, enquanto Helen faz um biquinho

Crédito,Gemma Hicks

Legenda da foto,Os jogos da seleção galesa de rúgbi foram uma parte importante da infância de Gemma e Helen

As três irmãs falam sobre como conhecer suas origens influencia a construção da própria identidade.

O pai que criou Gemma e Helen é galês, e as duas cresceram visitando o País de Gales e torcendo pela seleção galesa de rúgbi.

"Acho que ser galesa foi uma parte muito importante da nossa criação. Crescemos com um forte sentimento de orgulho dessa identidade", disse Gemma.

Por coincidência, o teste de DNA mostrou que o pai biológico delas também tinha ascendência galesa.

"Felizmente, para nós, pouca coisa mudou. Não sei como teria sido descobrir que somos francesas ou algo assim. Eu ficaria muito triste se percebesse que essa ligação com a comunidade galesa não fazia parte de quem somos", acrescentou Gemma.

Natasha não cresceu acreditando ser galesa, mas também mantinha vínculos com o país.

"Passei muito tempo no norte do País de Gales durante a infância, em lugares como Bangor e Gwynedd, então, de certa forma, eu já me sentia muito conectada ao país. Descobrir que o doador era de lá me deixou muito feliz."

Helen acrescentou: "Quando você finalmente descobre quem é de fato, e somos muito privilegiadas por termos conseguido isso, sente uma enorme paz."

As irmãs conseguiram descobrir a identidade do pai biológico e entraram em contato com ele. Segundo elas, a iniciativa foi recebida com "gentileza e receptividade".

A Autoridade de Fertilização Humana e Embriologia do Reino Unido informou que mais de 85 mil pessoas nasceram por meio de tratamentos com doadores realizados em clínicas britânicas licenciadas desde 1991.

Após uma mudança na legislação do Reino Unido em 2005, deixou de ser permitido doar esperma, óvulos ou embriões de forma anônima.

Isso significa que, ao completar 18 anos, uma pessoa concebida por meio da doação de óvulos, esperma ou embriões pode optar por acessar informações que identifiquem o doador e tentar entrar em contato com ele.

As três irmãs gravam um episódio do podcast que criaram para compartilhar suas histórias e experiências

Crédito,Sperm Sisters

Legenda da foto,Em março, as irmãs criaram um podcast para trocar experiências e contar suas histórias

A título de comparação, no Brasil, a regra continua sendo o sigilo da identidade do doador, segundo a resolução nº 2.320/2022 do Conselho Federal de Medicina — que também estabelece que a doação deve ser voluntária e recomenda que um doador gere no máximo dois nascimentos por milhão de habitantes na região, para reduzir o risco de relações entre irmãos biológicos.

As três dizem que se tornaram inseparáveis como "irmãs de esperma" e criaram um podcast com esse mesmo nome.

"Acho que todas nós nos sentíamos bastante sozinhas. Percebemos que, ao falar sobre isso, poderíamos encontrar respostas e também nos conhecer melhor", disse Natasha. "Construímos essa relação de irmandade por meio do podcast."

"Temos mais de 30 anos para colocar em dia", acrescentou Gemma. Segundo ela, o projeto também a aproximou ainda mais de Helen.

As três também querem ampliar a conscientização sobre a concepção por doação de gametas, um tema que Natasha descreve como "silencioso".

Ela conta que, quando diz às pessoas que foi concebida com a ajuda de um doador, costuma encontrar "muita confusão e pouca compreensão do que isso realmente significa".

Embora hoje existam regras mais rígidas para o setor, elas afirmam que ainda não há proteção suficiente para todas as crianças concebidas dessa forma.

As irmãs não sabem quantos irmãos ou irmãs podem ter. Quando foram concebidas, ainda não existia o limite atual de dez famílias por doador.

Uma investigação recente da BBC País de Gales revelou como a doação de esperma fora dos sistemas regulados vem sendo impulsionada por redes sociais e aplicativos.

"A Autoridade de Fertilização Humana e Embriologia do Reino Unido fez um enorme trabalho para garantir a regulamentação do setor e para que as pessoas possam conhecer a identidade de seus doadores", afirmou Gemma.

"As leis melhoraram muito, mas, infelizmente, parece que parte desse avanço está sendo desfeita com o crescimento de fenômenos como os grupos de doação de esperma no Facebook."

"Nascemos em uma época em que praticamente não havia regras, e em alguns aspectos a situação de hoje não é tão diferente. Acho que, se pudermos dar voz à próxima geração de crianças concebidas por doação, talvez possamos incentivar alguns pais a pensar duas vezes antes de manter isso em segredo ou evitar fazer perguntas."

Helen afirmou que as pessoas concebidas com a ajuda de doadores de esperma continuam "sem voz" nessa discussão e que ela e as irmãs esperam contribuir para expor "as implicações que esse tipo de concepção pode ter".