SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quarta-feira, 11 de março de 2026

Porque Guerra? Por Egidio Guerra

 



Overy estrutura sua investigação em duas grandes frentes. A primeira explora as explicações "primárias" ou de longo prazo para a guerra, enraizadas na biologia, psicologia, antropologia e ecologia. A segunda parte foca nos "motivadores imediatos" ou racionais: a disputa por recursos, o poder, a crença e a busca por segurança. A tese central do autor é que a guerra é um fenômeno persistente não por uma única razão, mas pela confluência complexa e variável desses múltiplos fatores, tornando a ideia de um mundo sem conflitos uma expectativa irrealista. 

Análise Detalhada dos Drivers da Guerra 

1. As Raízes Profundas: Biologia, Psicologia e Antropologia 

Na seção inicial, Overy navega por teorias que buscam a origem da guerra na própria natureza humana. 

  • Biologia e Evolução: O livro examina o legado de Charles Darwin e as interpretações neodarwinistas que viam a guerra como uma ferramenta de seleção natural para "eliminar os fracos e elevar os fortes". Overy também discute pesquisas etológicas, como as de Jane Goodall com chimpanzés, que demonstram capacidade para violência planejada e assassinato entre primatas, sugerindo uma possível base evolutiva compartilhada para o comportamento territorial e agressivo. No entanto, o autor é cauteloso, apontando que as evidências são disputadas e que a correlação não é uma explicação definitiva. A resenha acadêmica do DOAJ observa que, embora abrangente, a abordagem de Overy sobre ciências naturais pode ser por vezes superficial. 


  • Psicologia Individual e de Grupo: A obra revisita a teoria freudiana do "instinto de morte" (Thanatos) como um impulso destrutivo inerente. Contudo, Overy expande a discussão para a psicologia social, destacando a formação de grupos de pertencimento (in-groups) e a consequente desumanização do "outro" (out-group). Essa dinâmica, observada em conflitos onde inimigos são rotulados como "subumanos" (como os 'Huns' na Primeira Guerra Mundial ou 'gooks' no Vietnã), corta laços afetivos e facilita a violência em massa. Para atualizar esta visão, podemos recorrer à obra "The Better Angels of Our Nature" (2011) de Steven Pinker. Pinker argumenta que, apesar dessas tendências psicológicas, forças civilizatórias como o Estado, o comércio e o cosmopolitismo têm levado a um declínio histórico da violência, um contraponto otimista à análise de Overy. 


  • Antropologia e Evidências ArqueológicasOvery contrapõe-se à ideia da antropóloga Margaret Mead de que a guerra seria uma "invenção" cultural recente. Utilizando evidências arqueológicas de traumas em esqueletos do período Neolítico (datando de milhares de anos antes das primeiras cidades-estado), ele demonstra a antiguidade e persistência da violência organizada entre grupos humanos, citando o antropólogo Pierre Clastres: "a sociedade primitiva [...] é uma sociedade para a guerra". O trabalho de Keith F. Otterbein, como em "How War Began" (2004), corrobora essa visão, utilizando evidências etnográficas e arqueológicas para traçar a evolução da guerra desde os primórdios da humanidade, reforçando o argumento de Overy sobre suas profundas raízes históricas. 

2. Os Motivadores Imediatos e Contemporâneos: Recursos, Crença, Poder e Segurança 

A segunda metade do livro é considerada pela crítica como mais direta e relevante para a análise de conflitos atuais. 

  • RecursosOvery documenta como a busca por recursos é um motor perene da guerra, desde a captura de escravos na Gália por Júlio César até as guerras do petróleo no século XX. Ele alerta para o potencial de conflitos futuros devido ao esgotamento de recursos, citando a disputa da Rússia por reservas de petróleo no Ártico, onde plantou uma bandeira no leito marinho em 2007. Esta análise é dramaticamente atualizada pelo The Armed Conflict Survey 2025, do International Institute for Strategic Studies (IISS), que documenta o papel de grupos armados não-estatais na exploração ilegal de recursos, como o tráfico de minerais no leste da RDC pelo grupo M23 e a emergente indústria de tráfico de armas provenientes da Ucrânia. 


  • Crença e Poder: O capítulo sobre crença explora como textos religiosos e cosmologias são reinterpretados para justificar a violência, do Jihad islâmico e das Cruzadas cristãs aos sacrifícios humanos astecas para apaziguar o deus Sol e evitar o fim do mundo. Na análise do "poder", Overy apresenta o conceito de "poder hubrístico", personificado na "tríade tóxica" de Alexandre, Napoleão e Hitler, líderes cuja ambição pessoal e senso de destino providente os levaram a guerras de conquista intermináveis. Para Hitler, por exemplo, "a guerra era a principal e necessária expressão do poder". A análise contemporânea do poder é complexificada por obras como "Glocalized Security" (2025), organizado por Abu Bakarr Bah, que introduz o conceito de segurança "geolocalizada". A obra mostra como as dinâmicas de poder locais (etnia, governança) se fundem com interesses externos, criando zonas de conflito onde intervenções falham por não entenderem essa interseção, como no Afeganistão e no Iraque. 


  • Segurança: O capítulo final aborda o dilema da segurança, inspirado em Thomas Hobbes, onde a preparação para a guerra (através de fortificações, exércitos ou armas nucleares) é vista como garantia de paz. Overy conclui com uma análise sombria da era nuclear, onde jogos de guerra da Guerra Fria mostraram que o risco de uma troca nuclear poderia vir de má gestão de crises ou pânico momentâneo, em vez de uma estratégia calculada. O conceito de "destruição mutuamente assegurada" (MAD) não eliminou a insegurança, mas a elevou a um patamar existencial. A atualização mais premente deste debate é fornecida pelo artigo "The Return of War in International Politics" (2025), de Chick Edmond e Nkenglefack Dessailly Forku, que analisa o ressurgimento de guerras interestatais (como a da Ucrânia) e a erosão das normas internacionais, pintando um quadro de instabilidade crescente que valida a preocupação de Overy sobre a persistência da guerra. 

Tabela Comparativa: Causas da Guerra em Diferentes Perspectivas 

A seguir, uma tabela que sintetiza os drivers propostos por Overy e os conecta com as atualizações e visões de outros autores: 

Categoria (Driver) 

Visão de Overy em Why War? 

Atualizações e Autores Complementares 

Biologia/Psicologia 

A guerra pode ter raízes em impulsos evolutivos (agressão em primatas) e na psicologia de grupos (desumanização do inimigo) . 

Steven Pinker (The Better Angels of Our Nature) oferece um contraponto, argumentando que o declínio da violência se deve a forças que superam esses impulsos. 

Recursos/Ecologia 

Disputa por recursos materiais (petróleo, escravos) é um motor histórico, com potencial de novos conflitos por recursos escassos como no Ártico. 

The Armed Conflict Survey 2025 (IISS) documenta a economia de guerra atual: grupos armados financiam-se por tráfico de minerais, drogas e armas, tornando os conflitos autossustentáveis. 

Poder e Crença 

Líderes com "poder hubrístico" (a "tríade tóxica") e sistemas de crença (religião, ideologia) são motivadores cruciais para a guerra em larga escala. 

Abu Bakarr Bah (Glocalized Security) mostra como o poder local e global se fundem, criando dinâmicas que vão além da ambição de um único líder, tornando a resolução de conflitos mais complexa. 

Segurança 

A busca pela segurança, num dilema hobbesiano, leva a uma preparação para a guerra que, na era nuclear, resulta em risco existencial (MAD) . 

Chick Edmond & Nkenglefack Dessailly Forku ("The Return of War") analisam o fracasso do pós-Guerra Fria, com o retorno de guerras interestatais e a erosão da ordem internacional, confirmando a "volta da guerra" . 

Conclusão 

Richard Overy conclui Why War? com uma nota de sóbrio realismo. A ideia de que a guerra está programada para desaparecer, argumenta, "é impossível de reconciliar com a safra de conflitos desde 2000 ou com a antecipada crise ecológica, estresse de recursos e conflito religioso nas próximas décadas". 

Ao atualizar a obra de Overy com pesquisas contemporâneas, o panorama se torna ainda mais nítido e preocupante. A análise do IISS sobre a complexidade dos conflitos atuais, o estudo sobre a "geolocalização" da segurança de Bah e o trabalho de Edmond e Forku sobre o retorno da guerra interestatal, não apenas corroboram a tese de Overy, mas aprofundam a compreensão de como os antigos drivers da guerra — recursos, poder e segurança — se manifestam de formas novas e igualmente perigosas no século XXI. A principal contribuição de Overy, validada por essas fontes, é demonstrar que a guerra não é uma aberração, mas sim um fenômeno profundamente enraizado na experiência humana, cujas causas, embora variáveis, têm uma persistência histórica inegável.