SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

terça-feira, 21 de abril de 2026

A Ética como Ato do Coração: A Revolução dos Valores. Por Egidio Guerra

 




Introdução: A Crítica ao Imperativo Categórico 

Durante séculos, a filosofia moral foi dominada pelo fantasma do racionalismo. Desde Platão, acreditava-se que conhecer o bem era o caminho para praticá-lo; e com Immanuel Kant, no limiar da modernidade, a ética atingiu seu ápice formalista: o valor moral de uma ação residia unicamente na sua conformidade ao dever, descolada de qualquer inclinação, sentimento ou consequência material. Para Kant, agir por amor ou por simpatia era, de certa forma, menos "puro" do que agir por respeito à lei racional. 

Contra essa tradição que desconfiava da emoção e desprezava a matéria, ergueu-se a voz de Max Scheler (1874-1928) . Em sua obra monumental, O Formalismo na Ética e a Ética Material dos Valores (1913-1916), Scheler propõe um verdadeiro terremoto filosófico. Para ele, a ética não pode ser uma fria equação da razão. A ética, na perspectiva fenomenológica de Scheler, é a ciência do coração inteligente — um mergulho profundo em um cosmos de valores que não criamos, mas que intuímos através de uma capacidade única: o perceber sentimental. 

Este texto explora os pilares dessa ética revolucionária: o perceber sentimental (Fühlen) como via de acesso à verdade moral, a hierarquia objetiva dos valores, o papel central da pessoa e o fenômeno do ressentimento como cegueira moral. 

 

1. O Perceber Sentimental: A Lógica do Coração 

O ponto de partida da ética scheleriana é uma questão fundamental: como temos acesso aos valores? Para o racionalismo, os valores são abstrações secundárias, derivadas de juízos lógicos. Para Scheler, é exatamente o oposto. 

Scheler defende que existe uma intuição emocional a priori. Assim como Kant argumentou que o espaço e o tempo são formas a priori da nossa sensibilidade (ou seja, condições para percebermos o mundo), Scheler argumenta que os valores são dados em atos de perceber sentimental que são anteriores a qualquer pensamento conceitual . Nós não vemos um objeto, pensamos "isto é bom" e então sentimos apreço. Não: o apreço (o valor) é captado imediatamente, num lampejo emocional, e só depois a razão o traduz em palavras. 

Esse "perceber sentimental" não é um sentimento subjetivo ou uma emoção corporal passageira (como a fome ou a alegria momentânea). Ele é intencional: aponta para um objeto. A simpatia, por exemplo, não é um estado interno; é um ato que capta a dor ou a alegria do outro como um valor . O amor, para Scheler, é o ato emocional mais elevado, pois é através dele que os valores superiores se revelam, agindo como um "motor da ação moral" que nos permite perceber o que o outro pode vir a ser . 

Portanto, a razão não é a rainha da moral; ela é uma serva da emoção bem-orientada. A intuição intelectual analisa; a intuição emocional descobre. 

2. A Hierarquia dos Valores: A Ordem do Cosmos Moral 

Se percebemos os valores emocionalmente, como distinguir o certo do errado? Como evitar o relativismo sentimental (onde "cada um tem sua verdade")? Scheler responde com uma tese ousada: os valores não são relativos, nem meramente subjetivos. Eles formam um cosmos objetivo e hierárquico. 

Scheler organiza os valores em quatro classes fundamentais, dispostas em uma escala ascendente que vai do prazer físico à santidade. Esta hierarquia baseia-se em critérios como a durabilidade (valores mais altos são menos perecíveis) e a satisfação (a alegria de um valor espiritual é mais profunda que a do prazer sensorial). 

A hierarquia scheleriana pode ser assim resumida: 

Nível, Categoria de Valores, Exemplos, Sentimento Correlato 

Superiores, Valores do Santo / Profano, Fé, Adoração, Graça, Bem-aventurança, Desespero 

↑, Valores Espirituais da Cultura, Belo (Estética), Justo (Jurídico), Verdade (Científico), Entusiasmo, Respeito, Admiração 

↑, Valores Vitais / Nobres, Saúde, Coragem, Vitalidade, Sentimento Vital (Angústia/Coragem) 

Inferiores, Valores do Agradável / Sensível, Prazer, Dor, Utilidade, Simpatia sensorial, Gosto 

A preferência por um valor não é uma escolha arbitrária, mas um ato de percepção: sentimos que o espiritual (a verdade) é superior ao vital (a saúde), e que o vital é superior ao mero prazer. A ética, portanto, consiste em preferir (vorziehen) o valor mais alto e preterir (nachsetzen) o mais baixo . 

3. A Pessoa como Executora dos Valores 

Se os valores são objetivos, quem os realiza? Não é a "consciência transcendental" de Kant, nem o "indivíduo egoísta" do utilitarismo. O protagonista da ética scheleriana é a Pessoa. 

A pessoa, para Scheler, não é uma substância fixa (uma alma ou um corpo), mas a unidade concreta de seus atos . A pessoa é aquilo que age intencionalmente. Não se pode "objetivar" a pessoa (transformá-la em objeto de estudo científico) porque ela é justamente o centro que vive e executa os valores. A pessoa é o locus do amor e do ódio, e através desses atos, ela modifica o mundo. 

Diferente do formalismo kantiano, onde o bem está na forma da lei (o dever pelo dever), para Scheler o bem estar na realização concreta de um valor pelo ato da pessoa. O ato bom não é aquele que segue uma regra cega, mas aquele que, na situação concreta, intui e realiza o valor mais alto possível. O herói não age porque a lei manda, mas porque intui que a coragem é superior à covardia. 

4. A Doença da Ética Moderna: O Ressentimento 

Se a hierarquia dos valores é natural, por que a sociedade moderna parece valorizar tanto o prazer barato e a utilidade, em detrimento do sagrado e do espiritual? Por que trocamos a nobreza pela eficiência? 

Scheler dedicou um estudo profundo ao fenômeno do Ressentiment. Não se trata da raiva passageira, mas de um veneno lento e crônico que corrói a alma. O ressentiment surge quando um indivíduo ou grupo sente desejo por valores que não pode alcançar (por fraqueza, medo ou incapacidade), mas, em vez de buscar a superação, ele desvaloriza esses bens . 

É o mecanismo psicológico descrito na fábula "A raposa e as uvas": se não posso alcançar as uvas (valores altos), convenço-me de que elas estão verdes (não têm valor). A inveja transforma-se em crítica moral. Scheler aplica isso à modernidade: a ética do humanitarismo e do utilitarismo moderno seria, em grande parte, uma revolta dos "baixos" contra os "altos". O homem moderno, incapaz de sustentar os valores nobres (sacrifício, heroísmo, hierarquia espiritual), inventa valores "democráticos" e "compassivos" de superfície para envenenar a fonte dos valores tradicionais . A crise ética da contemporaneidade, portanto, é uma crise de cegueira emocional induzida pelo ressentimento. 

Conclusão: Por uma Reeducação do Sentir 

A ética de Max Scheler é um convite à humildade emocional. Ao contrário da tradição racionalista que via nos sentimentos um obstáculo à moralidade, Scheler demonstra que é justamente a atrofia do sentir que nos torna moralmente cegos. Não se trata de abandonar a razão, mas de reconhecer que ela opera sobre um terreno já preparado pela intuição afetiva. 

Diante de um mundo cada vez mais utilitarista e dominado pelo "ressentimento" das redes sociais, a proposta scheleriana é radical: precisamos reaprender a sentir. Precisamos reeducar o Ordo Amoris — a ordem do coração — para que possamos, diante da complexidade da vida, preferir o que é verdadeiramente superior, mesmo que isso custe o prazer imediato ou a aceitação social. Como bem resumiu o próprio Scheler, o ser humano, antes de ser um animal rationale, é um ens amans — um ser que ama, e é na qualidade desse amor que reside o seu destino moral 

 

Ciências da Cultura.




Introdução: O Animal Symbolicum

Antes de Ernst Cassirer, a tradição filosófica ocidental definiu o ser humano de diversas maneiras: o animal rationale (o animal racional) foi talvez a mais influente. No entanto, ao observar a riqueza e a diversidade das manifestações culturais — dos mitos primitivos à física quântica, das pinturas rupestres à poesia moderna — Cassirer percebeu que a razão pura, por si só, não daria conta da totalidade da experiência humana. Em sua obra seminal Ensaio sobre o Homem, ele propõe uma nova definição: o homem é um animal symbolicum .

Para Cassirer, a realidade não nos é dada de forma pronta e acabada. Nós não vivemos em um universo puramente físico, mas sim em um universo simbólico. A linguagem, o mito, a arte e a ciência não são meros reflexos de um mundo objetivo exterior; eles são os próprios fios que tecem a teia da realidade humana . Este ensaio busca explorar, a partir da Filosofia das Formas Simbólicas, como a Arte, a Linguagem e a Ciência operam como funções distintas, porém complementares, na constituição do mundo humano.

1. A Linguagem: A Articulação do Mundo

A linguagem, para Cassirer, vai muito além da simples nomeação de objetos. Superando as teorias que viam a palavra como um mero rótulo (a teoria "designativa"), Cassirer, influenciado por Wilhelm von Humboldt, defende que a linguagem é um ato de formação e articulação do mundo .

Enquanto a percepção sensorial nos oferece um fluxo contínuo e indiferenciado de impressões, a linguagem introduz descontinuidades, categorias e relações. Ao dar um nome a algo, não estamos apenas anexando um som a uma coisa; estamos criando um "centro de pensamento", uma unidade conceitual que organiza a percepção . A proposição "isto é uma árvore" não é a cópia de uma árvore, mas a aplicação de uma regra simbólica que seleciona, isola e estabiliza um elemento do fluxo da experiência.

A linguagem é, portanto, a forma simbólica que busca a objetividade estável. Ela visa fixar referências, permitir a comunicação intersubjetiva e construir o senso comum que nos orienta no dia a dia. É através dela que construímos o mundo dos objetos e das relações práticas.

2. A Arte: A Dinâmica da Emoção

Se a linguagem comum busca fixar o mundo, a arte busca revelar sua vida interior. Cassirer rejeita a ideia de que a arte seja uma simples imitação da natureza ou uma mera expressão catártica de emoções. A arte é, como ele define em Ensaio sobre o Homem, uma "nova objetividade", um conhecimento da realidade por outros meios.

Enquanto a linguagem científica opera com conceitos gerais que subsumem particularidades (a lei da gravidade aplica-se a todas as maçãs), a arte opera com formas vivas e dinâmicas . Ela não classifica; ela intensifica. O artista não reproduz a aparência superficial das coisas, mas sim a forma de nossa experiência emocional e intuitiva.

Cassirer argumenta que a arte é uma linguagem autônoma, mas com uma direção oposta à da linguagem comum. A linguagem proposicional precisa de estabilidade (um substantivo deve significar a mesma coisa hoje e amanhã). A linguagem artística — seja na pintura, na música ou na poesia — precisa de movimento. Uma pintura não conta uma história estática; ela captura um instante de tensão, uma "metamorfose da natureza" em sentimento . Onde a ciência nos dá a lei, a arte nos dá a intuição da essência. Ela nos permite "ver mais do que os olhos veem", mergulhando na "trama dinâmica dos valores estéticos" .

3. A Ciência: A Pureza da Relação

No ápice da pirâmide simbólica está a ciência. Para Cassirer, a ciência não é a negação das outras formas simbólicas, mas a sua radicalização lógica.

Se a linguagem comum busca estabilidade e a arte busca expressividade, a ciência busca a pura significação. Ela representa o esforço máximo do espírito humano para se libertar da prisão da intuição sensível. Enquanto a arte ainda trabalha com imagens (mesmo que abstratas) e a linguagem com signos cotidianos, a ciência trabalha com símbolos puros — como os números e as equações matemáticas .

Uma equação como E=mc² não "parece" com a energia ou a massa; ela é a relação que as define. Cassirer mostra que a ciência, especialmente a física moderna (quântica e relativística), abandonou a ideia de "substância" (o bloco de construção da realidade) e passou a operar com "funções" e "invariantes". O objetivo da ciência não é descrever como o mundo é em si mesmo (coisa em si), mas sim estabelecer um sistema de relações lógicas e matemáticas que permita prever, controlar e conectar os fenômenos .

Conclusão: A Unidade na Diferença

A grande lição de Cassirer em Ciências da Cultura é que a filosofia da cultura não pode ser uma ditadura de uma forma simbólica sobre as outras. A ciência não é "mais verdadeira" que a arte, nem a linguagem é "menos pura" que a matemática.

Cada forma simbólica — Arte, Linguagem, Ciência — é um modo específico de objetivação do espírito. A arte nos revela a profundidade da vida emocional (formas vivas); a linguagem nos dá a estabilidade da convivência social (referências fixas); a ciência nos oferece o poder da previsão abstrata (relações puras). A tragédia do homem moderno, talvez, seja tentar medir a pintura com o termômetro da física, ou tentar traduzir a poesia na prosa seca de um manual técnico.

Compreender Cassirer é compreender que a cultura é um grande diálogo onde a Arte pergunta pela "forma do sentimento", a Ciência pergunta pela "estrutura da relação" e a Linguagem pergunta pelo "sentido da ação". A totalidade do ser humano só se revela quando conseguimos transitar por essas três dimensões, reconhecendo que não há hierarquia entre elas, mas uma sinfonia de vozes que, juntas, compõem o que chamamos de realidade.