SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

domingo, 19 de abril de 2026

'Estou em modo sobrevivência': por que ter trabalho na Argentina não é seguro contra pobreza

 

Mulher durante protesto ao veto do presidente argentino Javier Milei à Lei de Financiamento Universitário em Buenos Aires (Argentina), no dia 17 de setembro de 2025.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Ter emprego não é seguro contra a pobreza na Argentina
    • Author,Ayelén Oliva
    • Role,BBC News Mundo
  • Tempo de leitura: 7 min

Há dois anos, Antonela trabalha de segunda a sábado em um instituto privado de bioquímica em Buenos Aires, na Argentina. Ela atualiza agendas, organiza arquivos e gerencia as autorizações médicas.

Embora tenha um emprego formal, seu salário não é mais suficiente para cobrir os gastos que, antes, ela conseguia enfrentar com a mesma receita.

"Custa para mim, entender que, antes, eu podia levar uma vida que, agora, não posso", lamenta ela.

"Não consigo me manter com um único emprego. Não tomo como pessoal, entendo que isso acontece com muitas pessoas."

A argentina de 37 anos tem educação universitária e recebe um salário acima do mínimo. Mas ela completa sua renda com outro trabalho, sem remuneração fixa, em uma empresa farmacêutica, nas suas poucas horas livres.

"Sinto que estou em modo sobrevivência", afirma ela, com a voz entrecortada.

A pobreza na Argentina caiu para o seu nível mais baixo dos últimos sete anos. Mas o emprego formal se deteriorou ainda mais.

No ano passado, foram oito meses consecutivos de queda até dezembro, segundo as avaliações do Instituto Interdisciplinar de Economia Política da Universidade de Buenos Aires (UBA).]

Para a diretora da área de Emprego, Distribuição e Instituições Trabalhistas do instituto, Roxana Maurizio, "ter emprego não é mais um seguro contra a pobreza na Argentina".

Os institutos públicos e as consultorias privadas chamam este fenômeno de "trabalhadores pobres". São pessoas ocupadas que, mesmo com salário, vivem em situação de pobreza.

Homem com mochila esperando o ônibus em Buenos Aires.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Um em cada cinco pessoas empregadas na Argentina se encontra em situação de pobreza

"O trabalhador pobre é aquele que, mesmo tendo emprego, recebe salário que não permite que ele saia da pobreza", explica Maurizio. Ela destaca que o salário mínimo do país atingiu níveis inferiores aos registrados na crise de 2001.

Um estudo privado do Instituto de Estudos sobre a Realidade Argentina e Latino-Americana da Fundação Mediterrânea, publicado em outubro passado, registrou que um a cada cinco trabalhadores argentinos é pobre.

E, segundo o último "Panorama do Emprego Informal e da Pobreza Trabalhista", publicado em março pelo Instituto Interdisciplinar de Economia Política, a quantidade de "trabalhadores pobres" aumenta para um a cada três, entre as pessoas com empregos informais.

Redução da pobreza

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O governo do presidente argentino, Javier Milei, comemorou a redução da pobreza para 28%, atingindo seu nível mais baixo dos últimos sete anos, segundo dados apresentados pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Censos do país (Indec) no fim de março.

"A forte redução da pobreza e da indigência se deve ao crescimento econômico, ao processo de redução da inflação e ao reforço dos programas sociais sem intermediários, desde o início da gestão", destacou o ministro da Economia, Luis Caputo, na rede social X.

Mas analistas de institutos públicos e consultorias privadas questionam os números apresentados pelo governo. Os dados contrastam com outros indicadores de renda, como os salários reais e as aposentadorias, que estão em queda.

Para Daniel Schteingart, da plataforma de dados Argendata-Fundar, a "forte redução [da pobreza] é explicada tanto por causas genuínas, quanto por fatores metodológicos no momento da avaliação da pobreza monetária, que a tornam exagerada".

Homem passa em frente à estação de metrô Constitución, em Buenos Aires, enquanto uma pessoa dorme no chão.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,A pobreza na Argentina se encontra no seu nível mais baixo dos últimos sete anos

Entre as causas genuínas, o especialista em sociologia econômica destaca o aumento da renda, frente ao custo da cesta básica, mas questiona a própria metodologia do índice de pobreza.

Na Argentina, a pobreza é calculada por meio de pesquisas com base no valor de uma cesta de produtos básicos e comparada ao nível de renda da população.

Esta metodologia pode gerar distorções quando a inflação é muito alta, exagerando o aumento da pobreza em processos de aceleração inflacionária e a sua redução, em processos de queda da inflação, segundo Schteingart.

"Quando corrigimos os vieses, concluímos que a diminuição da pobreza é consideravelmente menor", explica ele.

Além disso, a queda da pobreza ocorre em comparação com o pico gerado pelo próprio presidente Milei, devido à brusca desvalorização decretada no início do seu mandato.

Nos primeiros seis meses do atual governo, a pobreza subiu 11 pontos, atingindo quase 53% da população. Este é o número mais alto em duas décadas, comparável apenas à saída da crise de 2001.

'Trabalhadores pobres'

Se ter emprego não garante a saída da pobreza na Argentina, o efeito da deterioração é maior entre as pessoas que trabalham no setor informal que com emprego registrado.

A Pesquisa da Dívida Social Argentina da Universidade Católica do país (UCA) concluiu que quase 20% dos trabalhadores empregados se encontram em situação de pobreza e que este percentual aumenta para 26% entre os trabalhadores do setor informal, segundo o último relatório publicado.

"O principal problema do mercado de trabalho na Argentina é a precariedade trabalhista", afirma o pesquisador da UCA Eduardo Donza. "Mais da metade dos trabalhadores empregados está no setor microinformal da economia."

Na mesma linha, os dados de março da Argendata-Fundar, com base na Pesquisa Permanente de Lares do Indec, registram que, entre os trabalhadores assalariados formais, o nível de pobreza é de 10%.

Já entre os assalariados informais (pessoas que trabalham para um empregador, mas não são legalmente registradas e não colaboram com o Sistema de Previdência Social), o nível de pobreza é de mais de 33%.

Homem de bicicleta na cidade de Buenos Aires, na Argentina.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,A pobreza entre as pessoas ocupadas afeta mais intensamente os assalariados informais

"Um trabalhador informal tem três vezes mais probabilidade de ser pobre do que um formal", concorda Maurizio.

Por fim, entre os trabalhadores autônomos (pessoas com trabalho que não têm remuneração fixa), o nível de pobreza é de 27%. Este percentual é maior que a média dos empregados, mas menor que o da população em geral.

Entre eles, os profissionais mostram índices de pobreza similares aos dos assalariados formais, enquanto os de baixa qualificação, como os repositores, se aproximam dos assalariados informais.

"Por isso, embora o índice de pobreza medido pela receita tenha se reduzido, quase 20% dos trabalhadores empregados moram em lares em situação de pobreza", explica Donza.

É preciso esclarecer que os trabalhadores formais representam hoje menos da metade das pessoas empregadas. E é um setor que vem em queda, segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Inflação e informalidade

"Meu salário foi derretendo, o que traz uma mudança muito forte do meu estilo de vida", conta Antonela.

A UCA destaca que a capacidade de compra do salário médio mensal caiu em mais de 20% no período entre 2010 e 2025, o que explica casos como o de Antonela.

Isso ocorre porque a economia argentina ainda atravessa uma situação delicada. A inflação de 33% acumulada nos últimos 12 meses ainda é menor que a de anos anteriores, mas continua sendo alta e sua tendência é de crescimento nos últimos nove meses.

Por outro lado, o aumento do trabalho informal debilitou os salários na Argentina.

Atualmente, cerca de seis milhões de pessoas trabalham na informalidade no país. Elas não têm acesso a direitos trabalhistas básicos, como cobertura de saúde, licenças ou contribuições para a aposentadoria, segundo dados da OIT.

Este fenômeno atinge com mais força os jovens e as mulheres, como é o caso de Antonela.

"Quanto mais informalidade, maior é a pressão dos que tentam conseguir empregos registrados e, consequentemente, mais se debilitam as condições trabalhistas do emprego com registro", explica a pesquisadora da UBA.

Mulher empurra carrinho de venda de produtos em Buenos Aires, na Argentina.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,O aumento da informalidade trabalhista reduz o poder de compra dos trabalhadores na Argentina

A precariedade trabalhista, os efeitos limitados das políticas de emprego e os ajustes estruturais propostos por Milei explicam o fenômeno dos trabalhadores empregados que moram em lares em situação de pobreza, segundo os especialistas.

Tudo isso demonstra que, segundo as fontes consultadas, ter trabalho na Argentina não é um seguro contra a pobreza.

Donza destaca que, nas últimas décadas, a mobilidade social ascendente — a noção de que os filhos podem atingir melhor situação econômica que a dos pais — vem se debilitando na Argentina.

Segundo a UCA, quatro em cada dez pessoas entrevistadas afirmam estar, hoje, em pior situação do que seus pais.

Da mesma forma que grande parte dos trabalhadores argentinos, Antonela espera deixar em breve de precisar do seu segundo emprego, da ajuda da família e do endividamento para poder cobrir seus gastos fixos.

Ela espera sair definitivamente do "modo sobrevivência".

"Tudo o que faço agora é sobreviver", ela conta.

"Gostaria de ter uma vida em que pudesse gastar com outro tipo de coisa, como ir à academia, sair para comer com minhas amigas ou fazer uma viagem por ano."

O zoológico de Moctezuma que surpreendeu os espanhóis há 500 anos — e que só agora começamos a entender.

 

Ilustraçao

Crédito,Códice Florentino

    • Author,Darío Brooks
    • Role,BBC News Mundo
  • Tempo de leitura: 7 min

Os animais tinham um papel fundamental na relação dos mexicas (ou astecas) com o universo.

No coração da antiga cidade de Tenochtitlán, capital dos mexicas, havia um espaço único onde vivia, em cativeiro, uma grande variedade de animais vindos de todo o império pré-hispânico.

Ele ficava na residência do imperador Moctezuma II, em uma área que hoje corresponde ao centro da Cidade do México, e era mantido com cuidado por centenas de homens.

Relatos de cerca de 500 anos já descreviam o quanto esse lugar impressionava os espanhóis que o viram pela primeira vez, como o conquistador Hernán Cortés.

Mas só agora começam a surgir detalhes baseados em evidências científicas.

Embora hoje seja frequentemente chamado de zoológico, na verdade tratava-se de um vivário, já que tinha uma função mais complexa do que apenas o entretenimento de Moctezuma II, seus sacerdotes e nobres.

"Os animais permitiam que eles entendessem o mundo, faziam parte dos mitos de criação. Alguns desses mitos explicavam a própria origem desses animais", disse à BBC Mundo o arqueólogo mexicano Israel Elizalde Méndez.

Segundo ele, esses animais também representavam poder, força e coragem: "Se analisarmos algumas fontes, vemos que lhes eram atribuídos poderes mágicos nesse sentido".

Para os mexicas, os animais eram parte essencial da forma como compreendiam o mundo presente, o passado e o além. "A relação que tinham com eles era muito rica", afirma Elizalde.

O vivário contava com cerca de dez tanques de pedra vulcânica, com água doce ou salgada, onde viviam diversos peixes e aves aquáticas. Em diferentes recintos, havia desde rãs e serpentes até jaguares, lobos e pumas.

Também existiam grandes viveiros com aves que não eram nativas da região da Cidade do México, como águias-reais, harpias, araras e quetzais, trazidas de outras partes do império.

"Sem dúvida, esses animais eram capturados e mantidos em cativeiro, mas a relação deles com o meio ambiente era muito diferente da que temos hoje", explica Elizalde.

O arqueólogo dedica mais de uma década ao estudo da relação entre os povos pré-hispânicos e os animais, e suas descobertas fazem parte de novas publicações, como o livro "El cautiverio de los animales en la antigua ciudad de Tenochtitlan", lançado neste ano.


Israel Elizalde Mendez realizando pesquisas sobre restos mortais em uma mesa.

Crédito,INAH

Legenda da foto,O arqueólogo Israel Elizalde Mendez dedicou anos de seu trabalho à pesquisa da relação entre o povo mexica e a fauna

Relatos antigos

Hernán Cortés já estava havia quase um ano em Tenochtitlán quando escreveu aos reis da Espanha sobre o que havia encontrado — incluindo o vivário de Moctezuma II.

"Ele tinha todas as espécies de aves aquáticas que existem nessas terras, que são muitas e diversas, todas domesticadas; e para as aves do mar havia tanques de água salgada, e para as dos rios, lagoas de água doce, cuja água era trocada de tempos em tempos para mantê-la limpa", relatou, no espanhol da época.

"A cada tipo de ave era dado o alimento próprio de sua natureza, aquilo de que se alimentavam no ambiente natural. Assim, às que comiam peixe, davam peixe; às que comiam vermes, vermes; às que comiam milho, milho; e às que comiam outras sementes menores, também lhes davam essas sementes", descreveu.

"Havia cerca de 300 homens encarregados de cuidar das aves, dedicados exclusivamente a essa função. Outros homens cuidavam apenas das aves doentes. Sobre cada tanque e lago havia corredores e mirantes muito bem construídos, onde o próprio Moctezuma vinha se recrear e observá-las."

Mas Cortés não foi o único a registrar esse espaço. Cerca de 14 fontes documentais mencionam a existência do vivário de Moctezuma.

O Mapa de Nuremberg — o material cartográfico mais antigo sobre Tenochtitlán, datado de 1524 — já retrata esse local dedicado aos animais, com aves, mamíferos e seus cuidadores.

Israel Elizalde Méndez explica que é provável que o local descrito estivesse onde hoje fica o Palácio Nacional, ao lado do Templo Mayor — o mais importante vestígio da cultura mexicas ainda existente na Cidade do México.

Fontes documentais, como o Códice Florentino, mencionam um aviário que provavelmente ficava nas antigas casas do pai de Moctezuma II, Axayácatl — área que hoje corresponde à Torre Latinoamericana e ao antigo convento de São Francisco, a menos de um quilômetro do Templo Mayor.

"Ele tinha outra casa muito bonita, onde havia um grande pátio pavimentado com pedras elegantes, todo disposto como um tabuleiro de xadrez; e as construções eram profundas, com cerca de um andar e meio, e tão grandes quanto seis passos de largura", descreveu Hernán Cortés.

E continuava: "Metade de cada uma dessas casas era coberta com lajes, e a outra metade tinha por cima uma rede de madeira muito bem feita; e em cada uma dessas casas havia uma ave de rapina — desde falcões até águias — todas as que existem na Espanha e muitas outras espécies que lá nunca foram vistas."

Fragmentos ósseos de um animal em um sepultamento cerimonial no Templo Mayor.

Crédito,INAH

Legenda da foto,Animais de diversos tipos foram encontrados nas oferendas funerárias do Templo Mayor

Determinar exatamente quais espécies existiam é parte do desafio científico das pesquisas iniciadas no século 20 e que Israel Elizalde Méndez continua até hoje.

O arqueólogo e outros colegas estudaram restos de 28 exemplares enterrados, entre eles águia-real, harpia, codorna, jaguar, lobo e colhereiro-rosado.

"A pesquisa consiste em examinar uma seleção de amostras representativas de vários indivíduos e realizar análises de paleopatologia, que é o estudo de doenças antigas em busca de condições incapacitantes", explica o arqueólogo.

Eles conseguiram determinar que, se não fosse pelo cuidado e tratamento desses animais, "eles não teriam vivido tanto tempo em liberdade". Isso oferece pistas que reforçam a existência do vivário descrito nas fontes históricas.

Sabe-se que os mexicas reuniram em sua capital fauna de diversas regiões de seu vasto império, que se estendia de costa a costa entre o Golfo do México e o Pacífico, indo do centro do que hoje é o México até áreas próximas à fronteira com a Guatemala.

"Eles traziam espécies de todo tipo. Era um ecossistema muito variado", afirma Elizalde, destacando que essa região continua sendo, até hoje, uma das mais ricas em biodiversidade do mundo.

Um 'grande enigma'

Na pesquisa de Israel Elizalde Méndez, o arqueólogo analisou amostras de exemplares encontrados nas oferendas dos mexicas, descobertos em escavações do Templo Mayor.

Para os mexicas, alguns animais tinham um papel na forma como concebiam o universo.

"No caso das oferendas, isso é muito importante, porque era necessário ter esses animais para fazer preces ou pedidos. Cada objeto que encontramos nas oferendas tem um significado, uma ideia de ser ou de estar ali", explica Elizalde.

"Se não houvesse as águias que deveriam estar ali — e com elas pedir uma mensagem clara e direta aos deuses — talvez o pedido não chegasse", acrescenta. Nesse sentido, manter animais em um vivário à disposição era também um símbolo de poder para Moctezuma II e seus sacerdotes.

Nas batalhas, os guerreiros "águia" ou "jaguar" usavam vestimentas inspiradas nesses animais, associadas à coragem e à força. As penas — como as das araras — também faziam parte de trajes ligados ao poder.

"Cada um desses elementos biológicos tinha um significado, um simbolismo. E isso aparece claramente nas oferendas, que são o bem mais precioso oferecido no Templo Mayor, o principal cenário ritual", afirma.

Mas há um "grande enigma" nessa investigação sobre o vivário de Moctezuma II: quais são as evidências arqueológicas concretas daquele espaço impressionante descrito há cinco séculos por Hernán Cortés.

Maquetes das pirâmides astecas no Museu do Templo Mayor, com o Palácio Nacional ao fundo, na Cidade do México.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,O Templo Mayor é o maior sítio arqueológico já recuperado no centro da Cidade do México, ao lado do Palácio Nacional.

Menos de um ano depois da carta, o espanhol Hernán Cortés e seus homens destruíram grande parte da cidade de Tenochtitlán em seu objetivo de conquistar o império — o que conseguiram em 1521, embora tenham relatado o "pesar" e os gritos aterradores dos animais durante os incêndios.

Os vestígios das construções de Moctezuma II onde ficavam o vivário e o aviário podem ainda estar lá, mas isso permanece um enigma, já que é muito difícil para arqueólogos escavarem sob o Palácio Nacional, a Torre Latinoamericana e o templo do antigo convento de São Francisco para descobrir o que restou.

Paradoxalmente, explica Israel Elizalde Méndez, a reconstrução da cidade pelos espanhóis sobre muitas estruturas mexicas acabou ajudando a preservá-las por séculos no subsolo da Cidade do México.

"O rico contexto arqueológico que temos é magnífico, somado ao fato de que muito dele foi preservado justamente por causa da destruição promovida pelos espanhóis."

Descobrir o que existe alguns metros abaixo das movimentadas ruas do centro da Cidade do México tem sido o trabalho de quase 50 anos do Projeto Templo Mayor, iniciado em 1978 e que, desde então, tem produzido — e continua produzindo — importantes descobertas.

sábado, 18 de abril de 2026

Lula se emociona: “Nós não queremos guerra, nós queremos paz e um mundo mais justo”


 

'A Riqueza das Nações': como livro escrito há 250 anos ainda influencia nossas vidas.

 

Os dois volumes e a primeira página da primeira edição do livro 'A Riqueza das Nações', de Adam Smith

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Exemplar da primeira edição de A Riqueza das Nações, exibido na biblioteca da Câmara dos Deputados holandesa na cidade de Haia. Ele foi encontrado por acaso no ático do edifício.
    • Author,Dalia Ventura
    • Role,BBC News Mundo
  • Tempo de leitura: 8 min

Em 1776, o escocês Adam Smith (1723-1790) publicou a obra intitulada Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações. Nela, ele não só explicou como também transformou a economia.

O sucesso foi imediato. O livro mudou a forma como entendemos a prosperidade e passou a ser a pedra fundamental da literatura econômica moderna.

Com o título abreviado para A Riqueza das Nações, a obra gera debates acalorados até hoje e reformulou o comércio global e até os nossos salários.

Políticos de todas as tendências reivindicaram para si partes do legado de Smith.

A ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher (1925-2013), ícone da direita do país, supostamente levava um exemplar da obra no bolso. Posteriormente, outro ex-primeiro-ministro, o trabalhista Gordon Brown, também elogiou o livro.

Membros do governo republicano do ex-presidente americano Ronald Reagan (1911-2004) usavam gravatas com a imagem de Adam Smith, como uma declaração de princípios. E, anos depois, ele foi mencionado pelo ex-presidente democrata Barack Obama.

"Foi Adam Smith, o pai da economia de livre mercado, quem disse em certa ocasião: 'Aqueles que alimentam, vestem e dão moradia a toda a sociedade deveriam receber uma parte do fruto do seu próprio trabalho, que permita que eles permaneçam razoavelmente bem alimentados, vestidos e com boa moradia.'"

"E, para quem não está familiarizado com esse inglês antigo, permitam-me traduzi-lo: significa que, se você trabalhar duro, deverá poder viver decentemente."

Talvez esta seja a marca característica de uma obra clássica. Ela continua sendo fértil para quem a invoca ao longo do tempo, mesmo com ambientes e pontos de vista distintos.

Dois séculos e meio depois da sua publicação, A Riqueza das Nações não foi relegado às estantes de história. O livro continua sendo lido, citado e, sobretudo, questionado.

A pergunta é: Por quê?

Riqueza

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A Riqueza das Nações é um daqueles clássicos que muitos conhecem e citam, mas que nem todos leram.

Em suas páginas, Adam Smith apresentou conceitos que não parecem apenas familiares. Eles continuam marcando a economia moderna até hoje.

Ele começa, por exemplo, com a divisão do trabalho e a famosa ilustração de "uma manufatura muito insignificante", segundo ele: "o ofício de fabricante de alfinetes".

Smith observou que "um operário não especializado neste ofício [...] dificilmente poderia, talvez com máxima diligência, fazer um alfinete por dia".

"Mas, na forma em que, agora, se realiza este negócio [...], a importante tarefa de fabricar um alfinete é dividida em cerca de 18 operações distintas."

Ele conta ter visto fábricas em que, trabalhando apenas 10 pessoas e ainda com maquinaria deficiente, era possível fabricar "entre todos, mais de 48 mil alfinetes por dia".

E destaca uma observação valiosa: "Grande parte das máquinas empregadas naquelas indústrias onde o trabalho é mais subdividido foram inventadas originalmente por operários comuns."

Ou seja, a inovação, muitas vezes, surge da criatividade das pessoas que estão diretamente em contato com o problema. E Smith ilustra este fato com um exemplo que parece ter sido retirado de um conto de ficção.

Quando surgiram as primeiras máquinas a vapor, um menino era contratado para abrir e fechar constantemente a válvula que conectava a caldeira ao cilindro. Aquela era sua única tarefa, o dia inteiro.

Entediado, ele amarrou uma corda à válvula para que ela abrisse e fechasse sozinha. E foi brincar com seus amigos.

Smith considerava este desenvolvimento como um dos maiores avanços da máquina, desde a sua invenção.

Medalhão com o retrato de Adam Smith de perfil.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Na sua primeira obra, A Teoria dos Sentimentos Morais (1759), Adam Smith definiu as bases psicológicas que serviriam para a elaboração de A Riqueza das Nações

A divisão do trabalho não é a única ideia que reverbera até hoje. O livro também fala da importância do livre comércio, embora com limites para proteger a igualdade.

Smith não inventou literalmente a expressão "livre comércio", mas foi um dos primeiros a sistematizar a teoria econômica que a sustenta.

A frase, enquanto política concreta e termo geral, seria popularizada mais tarde, especialmente no século 19, com os debates sobre tarifas de importação no Reino Unido e nos EUA.

Mas, no seu livro, Smith defendeu a eliminação de restrições comerciais e o benefício do comércio entre as nações, permitindo que cada país produza o que melhor souber fazer e tenha acesso àquilo que não produz.

Ele também alertou sobre os riscos da concentração da riqueza e dos monopólios.

E deixou uma imagem que cativou gerações: a "mão invisível", a ideia de que quem busca seu próprio benefício pode, mesmo sem intenção, contribuir para o bem comum.

Curiosamente, esta metáfora já foi mencionada inúmeras vezes nos últimos dois séculos e meio. Mas Smith a usou apenas uma vez e seu contexto original era muito mais sutil do que hoje em dia.

Ele defende que os comerciantes, quando preferem investir perto de casa, beneficiam seu país sem que tenham esta intenção. E, na mesma passagem, deixa entrever seu ceticismo em relação àqueles que invocam o bem comum como justificativa:

"Nunca tive conhecimento de que aqueles que dizem fazer comércio pelo bem público tenham feito isso muito bem." O século 20 tomou esta modesta metáfora e a transformou em lei.

É claro que Adam Smith disse muito mais. Sua obra tem quase mil páginas e resumi-la não é fácil, mas suas principais ideias continuam válidas hoje em dia.

Mas não podemos deixar de fora uma dessas ideias, que pode parecer simples, mas é radical.

Para ele, a riqueza de uma nação não reside no ouro que há nos seus cofres, nem na fortuna de alguns poucos privilegiados, mas no nível de vida da sua população.

O ano era 1776. E Adam Smith já articulava o que mundo só tentaria construir um século depois: o bem-estar social.

Radical

"Acredito que suas ideias eram radicais para a época e que ele tinha consciência disso", afirma o professor de história do pensamento político Craig Smith, da Universidade de Glasgow, na Escócia — a mesma que contou com Adam Smith como diretor.

Do edifício que leva o nome do famoso escocês, o Smith contemporâneo estuda o Smith clássico há décadas.

"Ele qualificou o livro como um ataque muito violento a todo o sistema comercial britânico. E, se você parar para pensar, é mais ou menos o que ele fez", destacou ele, em conversa com o apresentador Rob Young, no programa de rádio Business Daily, do Serviço Mundial da BBC.

Ele explica que a obra criticava as grandes corporações comerciais, como a Companhia das Índias Orientais, por serem prejudiciais para o Reino Unido.

E também questionava a expansão imperial e as colônias, quando eram acompanhadas de monopólios comerciais. Ele atacava a Igreja, as universidades e praticamente todos os elementos da ordem estabelecida no seu tempo.

Mas por que, então, ele não é lembrado como um pensador radical?

"Ele parece ter conseguido algo bastante raro na história das ideias: apresentar uma série de argumentos muito radicais, de forma tão cuidadosa e respaldada por evidências empíricas, que, para o leitor, não parece tão radical quanto realmente é."

Após a publicação do livro, ele imediatamente se tornou famoso. Muitos políticos começaram a citá-lo e a se declarar seguidores de Adam Smith.

Mas o historiador destaca que as políticas relativas a muitos aspectos criticados duramente por Smith simplesmente continuaram como eram antes.

"Foi apenas no início do século 19 que o livre comércio começou a ganhar terreno como agenda política concreta", segundo Craig Smith.

Moeda com os dizeres 'Riqueza das Nações', em inglês, mostrando navios no mar e produtos em terra

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Moeda escocesa de 1797, homenageando a obra de Adam Smith

Adam Smith é frequentemente chamado de pai da economia ou do capitalismo. Mas é possível atribuir a ele a responsabilidade pela economia globalizada que temos hoje em dia?

"Esta é uma pergunta difícil", responde Craig Smith.

Para ele, Smith forneceu ferramentas analíticas para entendermos como funciona uma sociedade comercial. E, "quando você tem essas ferramentas, pode desenvolver melhor os tipos de estratégias para as empresas e as diferentes políticas para os governos".

"Mas não acredito que A Riqueza das Nações seja uma espécie de plano para o capitalismo global."

De fato, o termo "capitalismo" levaria décadas para surgir e só se popularizaria no início do século 20.

"Acredito que Smith esperava que seu livro fornecesse uma compreensão mais clara, uma compreensão científica de como funciona a economia política", explica o professor.

"E que, como resultado, as pessoas não ficassem sujeitas a teorias falsas, nem se deixassem persuadir por argumentos interesseiros de certos protagonistas econômicos poderosos."

Esta esperança, em grande parte, continua sendo uma aspiração.

Apreciar a leitura

Adam Smith se autodescrevia como filósofo moral.

Sua obra foi escrita para um público interessado no assunto, mas não especializado. Ele não tem jargão incompreensível, mas sim relatos de observações pessoais e faz constar seus pensamentos e análises sobre o mundo que o rodeava.

Mundo este que estava em total ebulição.

Como destaca o economista Robert Reich, a antiga ordem da Igreja e a prerrogativa real estavam dando espaço para uma noção totalmente nova: de que as sociedades existem para as pessoas que as integram.

Não por acaso, o livro foi publicado em 1776, o mesmo ano em que os americanos declararam sua independência, com direito natural à vida, à liberdade e à busca da felicidade.

Os grandes pensadores do Iluminismo tinham como certo que os indivíduos se esforçariam para melhorar suas vidas, não por egoísmo, mas porque esta é a motivação fundamental de todo ser humano. A boa sociedade seria, portanto, aquela que oferecesse esta possibilidade.

As ideias de Smith se encaixavam perfeitamente nesta nova concepção.

Ele observou o capitalismo industrial que acabava de nascer e não poderia prever a magnitude da transformação que aquele sistema sofreria nos séculos seguintes.

Mas o tempo não o transformou em arquivo morto.

Em 2023, a economista Gita Gopinath, então vice-diretora do Fundo Monetário Internacional (FMI) (hoje, de volta à Universidade Harvard, nos Estados Unidos), deu uma conferência na Universidade de Glasgow comparando a inteligência artificial com a Revolução Industrial, que Smith presenciou em vida.

Gopinath destacou que a IA "poderá mudar nossas vidas de formas espetaculares e, possivelmente, existenciais. Poderá até redefinir o que significa ser humano."

Ela afirmou que Smith, considerando seu interesse por uma economia que beneficiasse a todos, provavelmente também teria tido suas ressalvas.

"A mão invisível sozinha pode não ser suficiente para garantir benefícios amplos para a sociedade", segundo a economista.

O título da conferência, adequadamente, era "O poder e os perigos da mão artificial".

Um homem do século 18, que nunca usou a palavra capitalismo, que se considerava filósofo e não economista, que escreveu sobre fabricantes de alfinetes e um menino entediado ao lado de uma máquina a vapor, continua sendo referência obrigatória quando a humanidade enfrenta suas maiores transformações.

Esta talvez seja a melhor definição de um clássico.

Por tudo isso, provavelmente vale a pena seguir o conselho de Craig Smith em um vídeo da Universidade de Glasgow, por motivo do 250° aniversário do livro:

"Pegue este exemplar empoeirado de A Riqueza das Nações, que você mantém na estante desde que era estudante universitário... leia... você apreciará a leitura."

Algumas das fontes consultadas para esta reportagem (em inglês):

"O livro que construiu a economia moderna", episódio do programa de rádio Business Daily, do Serviço Mundial da BBC.