Há dias que começam como continuação e terminam como ruptura. Amanhã, 3 de novembro de 2026, é um desses dias. Não porque o fascismo tenha sido definitivamente enterrado — ele nunca é —, mas porque mais um tijolo do muro que separa a barbárie da democracia será arrancado pelas mãos de quem decidiu não recuar. A sequência é conhecida: começou com Lula no Brasil, onde o presidente derrotou Flávio Bolsonaro por 51,79% a 48,21% e declarou, antes mesmo da vitória, que "esse país não voltará a ser governado pelo fascismo". Passou pela Sérvia, onde estudantes e cidadãos tomaram as praças contra o regime de Aleksandar Vučić e arrancaram das urnas uma derrota para o autocrata alinhado a Putin. Passou por Israel, onde manifestantes interromperam o ministro de extrema-direita Itamar Ben-Gvir aos gritos de "não haverá fascismo aqui", e onde as ruas de Tel Aviv voltaram a exigir o fim da guerra. Passou pela França, onde lycéens bloquearam escolas e gritaram que "a juventude está na rua", e pela Espanha, onde a juventude de Barcelona transformou a Praça Catalunha em palco de uma indignação que ecoa 1968 com sotaque digital.
Amanhã, esse arco se fecha — ou melhor, se abre — nos Estados Unidos. As eleições intercalares de 3 de novembro não são apenas uma disputa pelo Congresso. São um referendo sobre Trump, sobre o trumpismo, sobre a normalização do autoritarismo como método de governar. As últimas sondagens apontam para algo que já não se chama "onda azul", mas "tsunami": os democratas podem garantir a Câmara e desafiar o controle republicano do Senado, com candidatos à frente em sete dos nove estados decisivos. Trump, que pediu aos republicanos que votassem "como se ele estivesse no boletim", já avisou que se os democratas vencerem, ele será "o Sr. Veto". É a linguagem de quem não sabe perder dentro dos limites da democracia. E é exatamente por isso que amanhã importa.
Esta não é a primeira vez que a humanidade caminha junta nas ruas. É a mesma caminhada que derrotou o nazismo e o fascismo nos anos 1940, que explodiu em 1968 quando os paralelepípedos de Paris viraram a primeira pedra de uma geração que recusou o mundo que lhe ofereciam, que atravessou a Primavera Árabe em 2011, que ocupou Wall Street em 2011 e disse que 1% não pode governar para si mesmo, que gritou "Black Lives Matter" até que o mundo ouvisse, que encheu as ruas na Marcha das Mulheres com cores e fúria e dignidade. É a mesma caminhada de sempre: pessoas comuns que descobrem, em algum momento, que a única forma de não serem governadas por tiranos é ocuparem o espaço público e dizerem "não".
A diferença é que este é um 1968 high-tech. As redes sociais, que tantas vezes serviram à mentira e ao ódio, também servem à convocação, à organização, à denúncia em tempo real. Um vídeo de um policial batendo em um jovem em Barcelona circula antes que a notícia chegue aos jornais. Um grito de "fascista, vete" em Tel Aviv vira hashtag antes do amanhecer. A juventude que bloqueia um liceu em Le Mans sabe que a imagem do bloqueio será vista em São Paulo antes do fim do dia. A velocidade mudou. A direção, não.
Os livros que contaram essas histórias nos ensinaram que a derrota do fascismo nunca é um evento único, mas um processo. Maio de 68: A Brecha, de Castoriadis, Lefort e Morin, mostrou que a ruptura não vem de um partido, mas de uma irrupção — e que essa irrupção persiste, mesmo quando o capitalismo se reconfigura para absorvê-la. Os estudos sobre o Occupy Wall Street revelaram os limites da horizontalidade, mas também a potência de uma geração que se recusou a aceitar que a democracia fosse apenas uma palavra em um manual escolar. A literatura sobre a resistência ao fascismo na Europa dos anos 1930 e 40 nos lembrou que houve um tempo em que pessoas comuns esconderam vizinhos, imprimiram panfletos e arriscaram tudo — e que esse tempo nunca termina de fato. E os livros que retratam a Primavera Árabe, com todas as suas contradições e traições, nos ensinaram que a rua pode derrubar um ditador e que a rua, sozinha, não constrói uma democracia. É preciso mais. É preciso o voto, a instituição, a disputa pelo poder formal.
Amanhã, esse "mais" acontece. As urnas nos Estados Unidos são o complemento necessário das ruas. Sem as ruas, as urnas viram formalidade. Sem as urnas, as ruas viram grito no deserto. O fascismo do fim dos tempos — aquele que Klein e Taylor diagnosticaram com precisão — não se combate apenas com protesto, nem apenas com voto. Combate-se com a recusa absoluta de aceitar que o mundo acabará e que só alguns sobreviverão em bunkers. Combate-se com a insistência teimosa de que "aqui" é o único lugar que temos, e que "aqui" vale a pena ser defendido.
Brasil, Sérvia, Israel e EUA: vencemos o fascismo. Não é uma frase de vitória final. É um grito de passagem. É o que se diz quando se atravessa uma porta que parecia trancada e se descobre que do outro lado há mais gente, mais ruas, mais mundos possíveis. Amanhã, mais um tijolo cai. E o muro, que parecia eterno, racha mais um pouco.
Fascismo do Fim dos Tempos!
"End Times Fascism: And the Fight for the Living World" (tradução literal: Fascismo do Fim dos Tempos: e a luta pelo mundo vivo) é um livro de Naomi Klein e Astra Taylor, publicado em setembro de 2026 pela Farrar, Straus and Giroux, com 384 páginas. Não se trata de uma discussão teológica sobre profecias distantes, mas de um diagnóstico sobre a estrutura de poder contemporânea: as pessoas mais poderosas do mundo estão se preparando para o fim do mundo — e são elas mesmas que estão acelerando esse fim.
A tese central: a convergência de três tipos de "fim-dos-tempistas"
A contribuição central de Klein e Taylor é identificar uma aliança de direita que parece dispersa, mas é altamente coerente em sua lógica. As autoras a decompõem em três forças que, apesar de diferenças ideológicas, compartilham a mesma convicção: algum tipo de catástrofe "purificadora" está chegando, e eles estão entre os sobreviventes escolhidos.
O primeiro grupo são os fundamentalistas religiosos do fim dos tempos. Eles buscam legitimidade política nas profecias bíblicas e interpretam cada desastre real — guerra, pandemia, colapso climático — como um "sinal" em vez de um problema a ser resolvido. O livro traça a história da imbricação entre messianismo e fascismo e aponta uma mudança crucial: no passado, esses fanáticos estavam à margem do poder; hoje, pessoas que acreditam que "o fim dos tempos é uma coisa boa" já ocupam os mais altos cargos de decisão, incluindo o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, e o diretor do Escritório de Gestão e Orçamento, Russ Vought.
O segundo grupo são os tecnofim-dos-tempistas. Os bilionários do Vale do Silício admitem publicamente que a inteligência artificial tem uma probabilidade considerável de exterminar a humanidade, enquanto aceleram seu desenvolvimento a toda velocidade. A solução deles não é parar, mas construir bunkers. Um dos casos mais contundentes do livro é o da implantação do supercomputador "Colossus" de Elon Musk na comunidade de Boxtown, em Memphis: a instalação — batizada em homenagem ao computador de ficção científica que se rebela contra os humanos e desencadeia uma guerra nuclear — elevou os níveis de dióxido de nitrogênio em 79% em poucos meses numa comunidade operária de maioria negra. A empresa de capital de risco de Peter Thiel chegou a promover um "baile do fim do mundo", com convidados instruídos a usar "gravata preta ou traje apocalíptico".
O terceiro grupo são os nacionalistas étnicos. Eles imaginam o Estado-nação como um "bunker purificado", protegido contra a "ameaça existencial" representada pela imigração. Fortificação de fronteiras, deportações em massa e o medo da "substituição cultural" constituem o programa político dessa corrente.
Klein e Taylor batizam esses fenômenos de "fascismo do fim dos tempos": uma ideologia adotada por atores que buscam tornar esse mundo inabitável e depois se proteger disso. A definição de fascismo que oferecem também merece atenção: não se trata apenas de movimentos de massa uniformizados da história, mas de um estado em que "o capitalismo mostra os dentes" — uma tendência recorrente quando a ordem econômica existente deixa de servir à elite.
A filosofia da resistência: "aqui"
O livro não se limita ao diagnóstico. A segunda metade volta-se para as possibilidades de contra-ataque, tendo como conceito central o "aqui" (hereness). Em contraste com a lógica do "escapar" dos fim-dos-tempistas — escapar para o céu, para Marte, para o Estado-nação fortificado —, o "aqui" significa uma ética de enraizamento: reconhecer que compartilhamos o mesmo planeta, que não há plano B, que não há cápsula de escape, e que a solidariedade entre vizinhos é o único "seguro".
O livro usa a candidatura de Zohran Mamdani à prefeitura de Nova York como contraponto a essa política: uma campanha focada na vida material, que celebra as diferenças em vez de negá-las, mostrando outra possibilidade. As autoras também registram ações em nível comunitário contra operações do ICE (serviço de imigração dos EUA) e contra a construção de data centers, vendo nelas o germe de uma política nutrida por "um novo senso de vizinhança de braços abertos".
Diálogo com outras obras relevantes
A trajetória intelectual de Klein é um pano de fundo importante para entender este livro. De No Logo, com sua crítica ao capitalismo de marca, passando por A Doutrina do Choque, que revela como desastres são usados como oportunidade para impor políticas neoliberais, por Isto Muda Tudo, que argumenta pela incompatibilidade entre crescimento infinito e clima habitável, até Doppelganger, sobre a confusão política pós-pandemia, este livro pode ser lido como a síntese de mais de duas décadas de "reconhecimento de padrões". Taylor traz, por sua vez, a perspectiva de Democracia Pode Não Existir, mas Vamos Sentir Falta Dela e The Age of Insecurity, sobre dívida, solidariedade e ação coletiva.
No panorama editorial mais amplo, a pentalogia "M" de Antonio Scurati constitui uma referência histórica fundamental. Seu volume final, M. O Fim e o Princípio, centra-se no colapso do regime de Mussolini nos últimos seiscentos dias, retratando o niilismo violento mais sombrio que o fascismo libera às vésperas da morte — aqueles que "nada têm e só desejam arrastar todos consigo". O alerta de Scurati ecoa Klein e Taylor: a última página do fascismo é justamente a semente do neofascismo do pós-guerra. A história oferece uma amostra do desfecho; o livro atual pergunta: podemos evitar o mesmo final, terminando de outra maneira?
Por que lê-lo agora
A Publishers Weekly o chamou de "um relato visionário"; o resenhista do Chicago Tribune confessou ter aberto o livro com medo e terminado a leitura com esperança. Essa curva emocional, do medo à esperança, talvez seja o mais honesto deste livro: ele não promete otimismo, mas insiste na possibilidade da ação. Quando os que controlam os códigos das armas nucleares acreditam que o fim dos tempos merece ser acelerado, quando os que constroem bunkers constroem ao mesmo tempo o mundo que torna os bunkers necessários, escolher "ficar aqui", ao lado dos vizinhos, deixa de ser apenas uma postura moral e passa a ser uma estratégia política.
O título do capítulo final talvez seja o melhor resumo: "Um novo movimento de desarmamento: a urgência de acabar com a impunidade". O oposto do fascismo do fim dos tempos não é outro fim dos tempos melhor, mas um mundo vivo — que precisa ser disputado, não esperado.






