SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

3 de Novembro de 2026! O TSUNAMI DEMOCRATA VENCE O FASCISMO!




Por um mundo livre e justo — Brasil, Sérvia, Israel e EUA: vencemos o fascismo.

Há dias que começam como continuação e terminam como ruptura. Amanhã, 3 de novembro de 2026, é um desses dias. Não porque o fascismo tenha sido definitivamente enterrado — ele nunca é —, mas porque mais um tijolo do muro que separa a barbárie da democracia será arrancado pelas mãos de quem decidiu não recuar. A sequência é conhecida: começou com Lula no Brasil, onde o presidente derrotou Flávio Bolsonaro por 51,79% a 48,21% e declarou, antes mesmo da vitória, que "esse país não voltará a ser governado pelo fascismo". Passou pela Sérvia, onde estudantes e cidadãos tomaram as praças contra o regime de Aleksandar Vučić e arrancaram das urnas uma derrota para o autocrata alinhado a Putin. Passou por Israel, onde manifestantes interromperam o ministro de extrema-direita Itamar Ben-Gvir aos gritos de "não haverá fascismo aqui", e onde as ruas de Tel Aviv voltaram a exigir o fim da guerra. Passou pela França, onde lycéens bloquearam escolas e gritaram que "a juventude está na rua", e pela Espanha, onde a juventude de Barcelona transformou a Praça Catalunha em palco de uma indignação que ecoa 1968 com sotaque digital.

Amanhã, esse arco se fecha — ou melhor, se abre — nos Estados Unidos. As eleições intercalares de 3 de novembro não são apenas uma disputa pelo Congresso. São um referendo sobre Trump, sobre o trumpismo, sobre a normalização do autoritarismo como método de governar. As últimas sondagens apontam para algo que já não se chama "onda azul", mas "tsunami": os democratas podem garantir a Câmara e desafiar o controle republicano do Senado, com candidatos à frente em sete dos nove estados decisivos. Trump, que pediu aos republicanos que votassem "como se ele estivesse no boletim", já avisou que se os democratas vencerem, ele será "o Sr. Veto". É a linguagem de quem não sabe perder dentro dos limites da democracia. E é exatamente por isso que amanhã importa.

Esta não é a primeira vez que a humanidade caminha junta nas ruas. É a mesma caminhada que derrotou o nazismo e o fascismo nos anos 1940, que explodiu em 1968 quando os paralelepípedos de Paris viraram a primeira pedra de uma geração que recusou o mundo que lhe ofereciam, que atravessou a Primavera Árabe em 2011, que ocupou Wall Street em 2011 e disse que 1% não pode governar para si mesmo, que gritou "Black Lives Matter" até que o mundo ouvisse, que encheu as ruas na Marcha das Mulheres com cores e fúria e dignidade. É a mesma caminhada de sempre: pessoas comuns que descobrem, em algum momento, que a única forma de não serem governadas por tiranos é ocuparem o espaço público e dizerem "não".

A diferença é que este é um 1968 high-tech. As redes sociais, que tantas vezes serviram à mentira e ao ódio, também servem à convocação, à organização, à denúncia em tempo real. Um vídeo de um policial batendo em um jovem em Barcelona circula antes que a notícia chegue aos jornais. Um grito de "fascista, vete" em Tel Aviv vira hashtag antes do amanhecer. A juventude que bloqueia um liceu em Le Mans sabe que a imagem do bloqueio será vista em São Paulo antes do fim do dia. A velocidade mudou. A direção, não.

Os livros que contaram essas histórias nos ensinaram que a derrota do fascismo nunca é um evento único, mas um processo. Maio de 68: A Brecha, de Castoriadis, Lefort e Morin, mostrou que a ruptura não vem de um partido, mas de uma irrupção — e que essa irrupção persiste, mesmo quando o capitalismo se reconfigura para absorvê-la. Os estudos sobre o Occupy Wall Street revelaram os limites da horizontalidade, mas também a potência de uma geração que se recusou a aceitar que a democracia fosse apenas uma palavra em um manual escolar. A literatura sobre a resistência ao fascismo na Europa dos anos 1930 e 40 nos lembrou que houve um tempo em que pessoas comuns esconderam vizinhos, imprimiram panfletos e arriscaram tudo — e que esse tempo nunca termina de fato. E os livros que retratam a Primavera Árabe, com todas as suas contradições e traições, nos ensinaram que a rua pode derrubar um ditador e que a rua, sozinha, não constrói uma democracia. É preciso mais. É preciso o voto, a instituição, a disputa pelo poder formal.

Amanhã, esse "mais" acontece. As urnas nos Estados Unidos são o complemento necessário das ruas. Sem as ruas, as urnas viram formalidade. Sem as urnas, as ruas viram grito no deserto. O fascismo do fim dos tempos — aquele que Klein e Taylor diagnosticaram com precisão — não se combate apenas com protesto, nem apenas com voto. Combate-se com a recusa absoluta de aceitar que o mundo acabará e que só alguns sobreviverão em bunkers. Combate-se com a insistência teimosa de que "aqui" é o único lugar que temos, e que "aqui" vale a pena ser defendido.

Brasil, Sérvia, Israel e EUA: vencemos o fascismo. Não é uma frase de vitória final. É um grito de passagem. É o que se diz quando se atravessa uma porta que parecia trancada e se descobre que do outro lado há mais gente, mais ruas, mais mundos possíveis. Amanhã, mais um tijolo cai. E o muro, que parecia eterno, racha mais um pouco.  

Fascismo do Fim dos Tempos!

"End Times Fascism: And the Fight for the Living World" (tradução literal: Fascismo do Fim dos Tempos: e a luta pelo mundo vivo) é um livro de Naomi Klein e Astra Taylor, publicado em setembro de 2026 pela Farrar, Straus and Giroux, com 384 páginas. Não se trata de uma discussão teológica sobre profecias distantes, mas de um diagnóstico sobre a estrutura de poder contemporânea: as pessoas mais poderosas do mundo estão se preparando para o fim do mundo — e são elas mesmas que estão acelerando esse fim.

A tese central: a convergência de três tipos de "fim-dos-tempistas"

A contribuição central de Klein e Taylor é identificar uma aliança de direita que parece dispersa, mas é altamente coerente em sua lógica. As autoras a decompõem em três forças que, apesar de diferenças ideológicas, compartilham a mesma convicção: algum tipo de catástrofe "purificadora" está chegando, e eles estão entre os sobreviventes escolhidos.

O primeiro grupo são os fundamentalistas religiosos do fim dos tempos. Eles buscam legitimidade política nas profecias bíblicas e interpretam cada desastre real — guerra, pandemia, colapso climático — como um "sinal" em vez de um problema a ser resolvido. O livro traça a história da imbricação entre messianismo e fascismo e aponta uma mudança crucial: no passado, esses fanáticos estavam à margem do poder; hoje, pessoas que acreditam que "o fim dos tempos é uma coisa boa" já ocupam os mais altos cargos de decisão, incluindo o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, e o diretor do Escritório de Gestão e Orçamento, Russ Vought.

O segundo grupo são os tecnofim-dos-tempistas. Os bilionários do Vale do Silício admitem publicamente que a inteligência artificial tem uma probabilidade considerável de exterminar a humanidade, enquanto aceleram seu desenvolvimento a toda velocidade. A solução deles não é parar, mas construir bunkers. Um dos casos mais contundentes do livro é o da implantação do supercomputador "Colossus" de Elon Musk na comunidade de Boxtown, em Memphis: a instalação — batizada em homenagem ao computador de ficção científica que se rebela contra os humanos e desencadeia uma guerra nuclear — elevou os níveis de dióxido de nitrogênio em 79% em poucos meses numa comunidade operária de maioria negra. A empresa de capital de risco de Peter Thiel chegou a promover um "baile do fim do mundo", com convidados instruídos a usar "gravata preta ou traje apocalíptico".

O terceiro grupo são os nacionalistas étnicos. Eles imaginam o Estado-nação como um "bunker purificado", protegido contra a "ameaça existencial" representada pela imigração. Fortificação de fronteiras, deportações em massa e o medo da "substituição cultural" constituem o programa político dessa corrente.

Klein e Taylor batizam esses fenômenos de "fascismo do fim dos tempos": uma ideologia adotada por atores que buscam tornar esse mundo inabitável e depois se proteger disso. A definição de fascismo que oferecem também merece atenção: não se trata apenas de movimentos de massa uniformizados da história, mas de um estado em que "o capitalismo mostra os dentes" — uma tendência recorrente quando a ordem econômica existente deixa de servir à elite.

A filosofia da resistência: "aqui"

O livro não se limita ao diagnóstico. A segunda metade volta-se para as possibilidades de contra-ataque, tendo como conceito central o "aqui" (hereness). Em contraste com a lógica do "escapar" dos fim-dos-tempistas — escapar para o céu, para Marte, para o Estado-nação fortificado —, o "aqui" significa uma ética de enraizamento: reconhecer que compartilhamos o mesmo planeta, que não há plano B, que não há cápsula de escape, e que a solidariedade entre vizinhos é o único "seguro".

O livro usa a candidatura de Zohran Mamdani à prefeitura de Nova York como contraponto a essa política: uma campanha focada na vida material, que celebra as diferenças em vez de negá-las, mostrando outra possibilidade. As autoras também registram ações em nível comunitário contra operações do ICE (serviço de imigração dos EUA) e contra a construção de data centers, vendo nelas o germe de uma política nutrida por "um novo senso de vizinhança de braços abertos".

Diálogo com outras obras relevantes

A trajetória intelectual de Klein é um pano de fundo importante para entender este livro. De No Logo, com sua crítica ao capitalismo de marca, passando por A Doutrina do Choque, que revela como desastres são usados como oportunidade para impor políticas neoliberais, por Isto Muda Tudo, que argumenta pela incompatibilidade entre crescimento infinito e clima habitável, até Doppelganger, sobre a confusão política pós-pandemia, este livro pode ser lido como a síntese de mais de duas décadas de "reconhecimento de padrões". Taylor traz, por sua vez, a perspectiva de Democracia Pode Não Existir, mas Vamos Sentir Falta Dela e The Age of Insecurity, sobre dívida, solidariedade e ação coletiva.

No panorama editorial mais amplo, a pentalogia "M" de Antonio Scurati constitui uma referência histórica fundamental. Seu volume final, M. O Fim e o Princípio, centra-se no colapso do regime de Mussolini nos últimos seiscentos dias, retratando o niilismo violento mais sombrio que o fascismo libera às vésperas da morte — aqueles que "nada têm e só desejam arrastar todos consigo". O alerta de Scurati ecoa Klein e Taylor: a última página do fascismo é justamente a semente do neofascismo do pós-guerra. A história oferece uma amostra do desfecho; o livro atual pergunta: podemos evitar o mesmo final, terminando de outra maneira?

Por que lê-lo agora

A Publishers Weekly o chamou de "um relato visionário"; o resenhista do Chicago Tribune confessou ter aberto o livro com medo e terminado a leitura com esperança. Essa curva emocional, do medo à esperança, talvez seja o mais honesto deste livro: ele não promete otimismo, mas insiste na possibilidade da ação. Quando os que controlam os códigos das armas nucleares acreditam que o fim dos tempos merece ser acelerado, quando os que constroem bunkers constroem ao mesmo tempo o mundo que torna os bunkers necessários, escolher "ficar aqui", ao lado dos vizinhos, deixa de ser apenas uma postura moral e passa a ser uma estratégia política.

O título do capítulo final talvez seja o melhor resumo: "Um novo movimento de desarmamento: a urgência de acabar com a impunidade". O oposto do fascismo do fim dos tempos não é outro fim dos tempos melhor, mas um mundo vivo — que precisa ser disputado, não esperado.


Por que os EUA têm tantos políticos idosos e poucos jovens disputando eleições

 

O Capitólio americano em Washington, D.C., EUA, no sábado, 17 de outubro de 2026
Legenda da foto,Hal Rogers, de 88 anos, Donald Trump, de 80, Joe Biden e Nancy Pelosi, que deixaram seus cargos aos 82, e Chuck Grassley, de 93, que iniciou a carreira política em 1958 e continua no Senado, estão entre os políticos mais velhos dos Estados Unidos
    • Author,James FitzGerald
    • Role,Repórter dos EUA, BBC News
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Poucos políticos dos Estados Unidos têm uma carreira tão longa quanto Hal Rogers. Aos 88 anos, o republicano disputará as eleições legislativas, nesta terça-feira (03/11), em busca de seu 24º mandato na Câmara dos Representantes (equivalente à Câmara dos Deputados brasileira).

Rogers representa o 5º distrito eleitoral de Kentucky desde 1981 e é o deputado há mais tempo em exercício na Câmara. Rogers foi eleito na mesma noite em que Ronald Reagan venceu sua primeira eleição presidencial, com o slogan Let's Make America Great Again (Vamos Tornar a América Grande Novamente, em tradução livre), expressão que seria retomada décadas depois pelo atual presidente americano, Donald Trump.

Na disputa pela indicação do Partido Republicano neste ano, Rogers derrotou, entre outros adversários, um candidato 60 anos mais jovem. Mas o congressista, nascido na década de 1930, está longe de ser o único político americano a continuar em atividade depois dos 80 anos.

O próprio Trump tem 80 anos. Seu antecessor, Joe Biden, deixou a Presidência dos EUA aos 82, mesma idade que Nancy Pelosi tinha quando deixou a liderança democrata na Câmara dos Representantes. Chuck Grassley, de 93 anos, continua no Senado. Ele iniciou a carreira política em 1958, antes mesmo do Alasca e Havaí se tornarem Estados americanos.

Hal Rogers, à esquerda, ao lado de Bob Dole, junto a uma bomba de combustível, cercados por apoiadores que seguram cartazes de campanha de Dole
Legenda da foto,Hal Rogers (à esquerda) ao lado de Bob Dole (ao centro), então candidato republicano à Presidência dos Estados Unidos, em 1996

A idade avançada e as condições de saúde de alguns desses políticos, no entanto, têm gerado preocupação tanto entre republicanos quanto entre democratas, reacendendo o debate sobre a adoção de limites de idade ou a exigência de exames médicos para quem ocupa cargos políticos.

Os EUA são conhecidos por sua "gerontocracia", sistema de governo em que o poder é exercido por pessoas muito mais velhas do que a maior parte da população adulta.

Ao mesmo tempo, o país está entre as democracias com menor proporção de parlamentares com menos de 45 anos, segundo pesquisa da União Interparlamentar (UIP), organização internacional que reúne parlamentos de diferentes países.

Mas por que tão poucos jovens entram para a política? Será que é muito difícil conseguir ingressar nesse meio e construir uma carreira bem-sucedida?

Um país sem espaço para os jovens?

O republicano Riley Owen, de 27 anos, é um dos poucos candidatos da geração Z (nascida entre 1995 e 2010) a disputar uma vaga no Congresso dos EUA nas eleições de 3 de novembro deste ano.

Owen concorre por um distrito eleitoral recém-criado em Utah, onde, segundo especialistas e pesquisas, os democratas podem ter vantagem. Suas propostas incluem licença-maternidade remunerada, restrições à negociação de ações por parlamentares e medidas de proteção ambiental, temas que também podem atrair eleitores do partido adversário, o Democrata.

Ao ser confirmado como candidato republicano pelo 1º distrito eleitoral do Estado, Owen subiu ao palco ao som de We Didn't Start the Fire ("Não fomos nós que começamos o incêndio", em tradução livre), do cantor americano Billy Joel, e defendeu que sua geração precisa ajudar a renovar o sonho americano.

Para Owen, a gerontocracia é "uma questão bipartidária".

"Temos pessoas que fizeram da política uma carreira e passam a vida inteira no Congresso", afirmou. Segundo Owen, isso é um sinal de que o sistema político não está atendendo às necessidades dos americanos.

O candidato aponta como um dos maiores obstáculos o peso do dinheiro na política dos EUA. Pesquisas indicam que doadores de campanhas eleitorais tendem a preferir candidatos que já estão no poder.

De fato, seu adversário, o democrata Ben McAdams, de 51 anos, que já foi deputado na Câmara dos Representantes, arrecadou até agora muito mais recursos para a campanha.

Até meados de outubro, McAdams havia arrecadado mais de US$ 2,6 milhões (cerca de R$ 13,9 milhões), enquanto Owen havia conseguido US$ 150 mil (cerca de R$ 800 mil), segundo registros disponíveis no site da Comissão Eleitoral Federal dos EUA (FEC, na sigla em inglês).

Owen argumenta que sua geração está em uma posição privilegiada para compreender questões políticas atuais, como os desafios impostos pela tecnologia.

Ele também contesta a ideia de que candidatos mais jovens necessariamente tenham menos experiência. Como exemplo, cita sua própria trajetória como oficial militar e analista de políticas públicas da Casa Branca.

"Acho que, na política, assim como na indústria, precisamos do que chamamos de inovação disruptiva", afirmou.

A idade dos principais líderes políticos americanos é tema de debate há décadas.

Em 1984, Ronald Reagan, que, aos 73 anos, era o então presidente mais velho da história dos EUA, reagiu aos questionamentos sobre sua idade com uma piada sobre a "juventude e inexperiência" de seu adversário, Walter Mondale, de 56 anos.

Nos EUA, cada Estado também tem seu próprio Legislativo, formado por um Senado e uma Câmara dos Representantes, onde muitos políticos iniciam a carreira.

Vários dos atuais membros do Congresso americano passaram anos na política estadual antes de disputar uma vaga no Legislativo federal, sediado na capital americana, Washington D.C..

Mitch McConnell, de terno azul-marinho e gravata listrada, mantém as mãos unidas, com as pontas dos dedos encostadas
Legenda da foto,O afastamento prolongado do senador republicano Mitch McConnell nos últimos meses levantou questionamentos

A idade dos integrantes do Congresso americano, porém, vem aumentando ao longo das décadas. Segundo registros do próprio Congresso, a Câmara dos Representantes e o Senado atingiram suas menores idades medianas no início dos anos 1980, quando eram de 48 e 52 anos, respectivamente.

No início da atual legislatura, a idade média dos deputados era de 58 anos, enquanto a dos senadores chegava a 65, segundo uma análise do Pew Research Center (centro de pesquisas dos EUA). Já a idade mediana da população americana é de 39 anos.

A saúde e a capacidade de raciocínio dos políticos mais velhos do país também passaram a receber maior atenção. A idade de Joe Biden se tornou um dos principais temas de debate durante sua Presidência. Trump também enfrentou questionamentos, embora em menor escala.

O senador republicano Mitch McConnell, de 84 anos, também tem sido alvo de questionamentos cada vez mais frequentes sobre sua saúde, após passar meses afastado do Congresso para receber tratamento médico.

Entre os democratas, Maxine Waters, de 88 anos, enfrenta uma disputa para continuar como principal representante do partido na influente Comissão de Serviços Financeiros da Câmara dos Representantes. Para alguns, sua idade pesa contra ela.

Idade versus prioridades políticas

Alguns dos críticos mais contundentes da chamada gerontocracia são candidatos que se identificam como socialistas democráticos, cujas posições políticas estão mais à esquerda do que as defendidas pela ala predominante do Partido Democrata. Esses candidatos costumam concentrar suas campanhas no custo de vida e em outras questões que preocupam os millennials (nascidos entre 1980 e 1995) e a geração Z. Seus apoiadores também tendem a ser mais jovens.

O perfil dos eleitores, por outro lado, costuma ser mais velho, assim como o dos próprios políticos eleitos. Pesquisas do Pew Research Center mostram que a proporção de jovens entre 18 e 29 anos entre os americanos que não votam vem aumentando. Nas eleições de 2020, essa faixa etária representava 25% dos que não compareceram às urnas, segundo o instituto. Quatro anos depois, o percentual chegou a 30%.

O Pew Research Center também aponta que os jovens com menos de 30 anos foram subrepresentados nas eleições de 2024. Embora correspondessem a 20% dos americanos aptos a votar, foram responsáveis por apenas 15% dos votos registrados.

Para ativistas políticos, esses números são importantes porque ajudam a explicar por que determinados temas recebem menos atenção no debate público.

"Sim, isso pode resultar na eleição de pessoas mais velhas. Mas acho que também influencia muito as questões consideradas importantes e os temas que políticos se sentem incentivados a discutir e enfrentar", afirmou Grace Mausser, uma das coordenadoras da seção de Nova York dos Socialistas Democráticos da América (DSA, na sigla em inglês).

Zohran Mamdani acena no palco, diante de um cartaz com os dizeres 'Zohran para Nova York'
Legenda da foto,Zohran Mamdani mostrou que há espaço para candidatos mais jovens na política

Mausser participou da campanha vitoriosa de Zohran Mamdani, que, no ano passado, foi eleito prefeito de Nova York aos 34 anos, tornando-se o mais jovem a ocupar o cargo desde 1892. Mamdani passou a ser visto como um raro exemplo de sucesso de um político jovem. Mas, para Mausser, sua aliada, as ideias de um político importam mais do que sua idade.

Segundo ela, permanecer muitos anos na política não é necessariamente um problema. A dificuldade está nas consequências que isso pode trazer.

"Você fica tão acostumado com a linguagem e as ideias dos políticos tradicionais que qualquer coisa diferente, qualquer ideia nova, venha ela de jovens ou de pessoas mais velhas, parece absurda."

Mausser cita o senador independente Bernie Sanders, de 85 anos, como exemplo de um político que, apesar de sua longa trajetória no Congresso americano, soube acompanhar as mudanças e defender propostas que conquistaram apoio de diferentes gerações.

Jovens desiludidos com a política

Nos EUA, as pessoas mais velhas têm uma opinião muito mais favorável sobre os políticos do que os jovens. Essa diferença entre gerações é ainda maior do que em muitos outros países, segundo uma pesquisa do Pew Research Center realizada no primeiro semestre de 2025.

Entre os americanos de 18 a 34 anos, 62% afirmaram acreditar que poucos ou nenhum dos políticos eleitos são honestos. Entre as pessoas com mais de 50 anos, o percentual foi de 45%. Dos 25 países analisados pelo Pew Research Center, apenas os jovens adultos da Grécia demonstraram uma visão mais negativa sobre a honestidade dos políticos.

Para um especialista que estuda a participação política nos EUA e na Europa, a desilusão dos jovens ajuda a explicar por que muitos não querem se envolver com a política.

Segundo James Sloam, pesquisador da Royal Holloway, da Universidade de Londres, no Reino Unido, a situação é agravada pelas regras que estabelecem uma idade mínima para ocupar cargos no Congresso americano. Para disputar uma vaga no Senado, é preciso ter pelo menos 30 anos. Já para a Câmara dos Representantes, a idade mínima é de 25 anos.

"Uma coisa leva à outra", afirmou Sloam. "Se não há jovens suficientes participando da política de modo geral, eles também não vão chegar a ocupar cargos de representação."

Sloam acrescentou que os jovens, tanto nos EUA quanto no Reino Unido, sabem que a política não é o único caminho para exercer poder e influência.

Duas pessoas votam em uma seção eleitoral com os dizeres 'Eu votei' na lateral da cabine
Legenda da foto,Os eleitores mais jovens tendem a participar menos da política do que os mais velhos

Para os jovens que conseguem chegar a cargos políticos de destaque, surge outra questão: como conciliar a carreira com a vida familiar, especialmente quando se têm filhos pequenos? Durante o verão no hemisfério norte, os casos de duas jovens mulheres que ocupavam posições importantes em Washington D.C. reacenderam o debate sobre as dificuldades de conciliar a maternidade com o trabalho na política.

A congressista democrata Alexandria Ocasio-Cortez, de 37 anos, que assumiu o cargo aos 29, anunciou que havia iniciado o processo de congelamento de óvulos.

Na mesma semana, em agosto, Karoline Leavitt, de 29 anos, anunciou que deixaria o governo Trump para passar mais tempo com a família, incluindo seu bebê recém-nascido. Quase dois anos antes, ela havia se tornado a pessoa mais jovem da história a assumir o cargo de porta-voz da Casa Branca.

"Não consigo ser a melhor mãe que meus dois filhos pequenos merecem e, ao mesmo tempo, dedicar todo o tempo, a energia e a atenção que o cargo de porta-voz da Casa Branca exige", explicou Leavitt.

Poucas mulheres deram à luz enquanto exerciam mandato no Congresso americano. Além disso, apenas algumas dezenas de congressistas são mães de crianças e adolescentes com menos de 18 anos. O governo federal, assim como muitos empregadores nos EUA, não oferece licença parental remunerada.

O atual vice-presidente americano, J.D. Vance, de 42 anos, um dos mais jovens da história dos EUA, reconheceu recentemente que ter filhos pequenos pode influenciar sua decisão de disputar a Presidência em 2028.

"Temos quatro filhos pequenos", afirmou Vance, que pertence ao Partido Republicano.

Disputa entre dois partidos

O sistema político dos EUA, dominado por dois partidos, também é apontado como um obstáculo à participação dos jovens na política.

Segundo Sloam, pesquisador da Universidade de Londres, isso ocorre porque o sistema oferece espaço a uma variedade relativamente limitada de posições políticas. Ele cita estudos que indicam que os jovens tendem a se mobilizar mais em torno de movimentos sociais ou campanhas por causas específicas do que pela política partidária.

Dentro dos próprios partidos, Sloam destaca o exemplo de Mamdani e de outros políticos de esquerda que vêm conseguindo atrair o apoio dos jovens com propostas que se afastam das posições tradicionais do Partido Democrata. Ele ressalva, porém, que esse movimento "ainda acontece de forma um tanto esporádica".

O Partido Republicano também passou por divisões internas na última década, com o surgimento do movimento Make America Great Again (Maga), liderado por Trump. Nas eleições presidenciais de 2024, o movimento conquistou o apoio de uma parcela expressiva dos homens jovens.

Segundo Sloam, algumas democracias europeias mostram que um sistema político com maior diversidade de partidos pode estimular a participação dos jovens.

Ele cita como exemplo os países escandinavos, onde os sistemas multipartidários são mais comuns. Nesses países, os partidos que integram o governo "trabalham com os movimentos sociais para tentar incorporá-los ao sistema político".

Ao mencionar países como a Noruega, Sloam afirma que existe uma relação de reforço mútuo: quanto maior a participação dos jovens nas eleições e a confiança deles no sistema político, maior tende a ser seu envolvimento com a política.

Perspectivas para o futuro

Alguns especialistas defendem que certos parlamentares deveriam estar considerando a hora de se aposentar. Ao mesmo tempo, argumentam que os eleitores não devem ignorar as qualidades que vêm com a idade nem confundir envelhecimento com perda de capacidade.

"A idade, por si só, diz muito pouco sobre a capacidade de uma pessoa", afirmou Tracey Gendron, professora de gerontologia da Universidade da Comunidade da Virgínia, nos EUA, cujas pesquisas questionam a ideia de que envelhecer significa necessariamente perder capacidades.

"Uma pessoa de 45 anos pode estar enfrentando depressão ou problemas com o consumo de drogas e não ter as condições cognitivas necessárias para exercer o cargo", disse.

Por outro lado, segundo Gendron, "uma pessoa de 85 anos pode ter uma integridade extraordinária, além de discernimento político e sabedoria, e ser plenamente capaz de desempenhar suas funções".

Gendron reconhece que a composição etária do Congresso americano não reflete a da população do país. Mas, para ela, isso também mostra que há vários outros aspectos em que o Legislativo poderia se tornar mais representativo.

"É curioso chamarmos isso de gerontocracia e concentrarmos a discussão apenas na idade", afirmou Gendron. "Quando analisamos outros aspectos da representatividade, como gênero, orientação sexual, religião e raça, percebemos que o Congresso também não reflete a diversidade da população."

Maxine Waters está usando óculos de aro grosso, uma blusa preta por baixo de um blazer verde
Legenda da foto,A idade da democrata Maxine Waters também tem sido alvo de debate

O republicano Riley Owen acredita que tem chances de vencer a eleição em Utah, apesar de seu adversário dispor de muito mais recursos para a campanha.

Ao falar sobre o que o motiva como candidato da geração Z, ele destaca questões como o papel da tecnologia na sociedade, a imigração e o custo de vida.

"Estou começando a formar minha própria família, olhando para os custos e [me perguntando] como vou dar conta de tudo?", afirmou Owen.

Questionado sobre possíveis semelhanças entre sua campanha e as de candidatos jovens do campo político oposto, Owen defende a superação das divisões partidárias.

"Eu tentaria desconstruir essa lógica de 'nós contra eles' e talvez deixá-la um pouco de lado. [Existe uma] mensagem bipartidária sentida por muitos americanos dos dois lados do espectro político: a de que Washington D.C. não está funcionando para eles."

Owen compartilha a visão de Grace Mausser, a socialista democrática de Nova York, de que os eleitores não devem escolher um candidato apenas por ser jovem. O que importa são suas ideias.

"Para mim, importa muito mais o que você defende e por quem está lutando do que o ano em que nasceu", afirmou Mausser.