SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

O sangue dos pobres e dos corruptos por Egidio Guerra.


O sangue dos pobres nunca seca no cimento da história. Escorre dos paredões de concreto stalinistas, onde a "justiça revolucionária" era medida em fuzilamentos sumários e deportações em massa. Mistura-se com o terror da França de 1793, tão vividamente retratado por Victor Hugo - onde a guilhotina se tornou altar de uma revolução que começou devorando seus próprios filhos. Esse mesmo sangue coagula nos uniformes da SS nazista, nos porões das camisas negras fascistas, nas políticas de separação familiar do ICE sob Trump - sempre sob o pretexto de ordem, pureza ou segurança nacional. No Brasil o crime oficial da corrupção de políticos e seus operadores fortaleceu o crime organizado.

Hoje, nas periferias do Brasil, esse sangue corre diferente. Não em paredões dramáticos, mas em goteiras lentas de milhares de jovens apodrecendo em celas superlotadas, sem julgamento, sem esperança, sem futuro. Suas sentenças não são assinadas por déspotas históricos, mas pela cumplicidade silenciosa de um sistema que prefere esquecê-los a enfrentar suas próprias contradições. 

A Fábrica de Monstros 

Nos presídios brasileiros, o crime organizado não simplesmente se infiltra - ele se institucionaliza, recruta e fortalece com a matéria-prima humana que o Estado negligentemente entrega. Cada jovem não julgado é um soldado em potencial para facções que entendem o que o poder público ignora: que a ausência do Estado é um território a ser conquistado. 

Esta máquina de moer vidas não nasceu espontaneamente. Ela foi cuidadosamente tecida nos gabinetes refrigerados do Congresso, nos palácios governamentais, nas prefeituras, nos conselhos de administração, nas oligarquias regionais, nas gangues partidárias que compram votos por impunidade. É um crime oficial, um consórcio do atraso onde políticos, empresários e instituições falidas pactuam o sacrifício de gerações inteiras. 

As Torturas Invisíveis, as Gulags Contemporâneas 

Nesta ditadura da corrupção, as torturas não vêm com instrumentos de ferro, mas com a desesperança programada. As gulags não têm arame farpado visível, mas são construídas com a arquitetura perversa da negligência. Diferente dos discursos moralistas de Bolsonaro sobre presídios, nossa realidade é mais sórdida: um sistema que prende não para punir ou reabilitar, mas para ocultar seu próprio fracasso. 

Lutamos contra essa estrutura porque somos teimosos e insubmissos. Nosso inimigo não tem uma única face ideológica - são fascistas de direita e autoritários de esquerda que, no balcão de negócios do poder, tornam-se iguais. São magnatas da corrupção, charlatões de discursos gloriosos que escondem bastidores podres, oportunistas cujos acordos nos traem diariamente. 

O Silêncio dos Honestos 

Milhares de homens honestos estão sendo eliminados por essa estrutura - não com balas sempre, mas com descaso, com processos infindáveis, com ameaças veladas, com o ostracismo profissional. Chega de esmolas legislativas, de reformas superficiais que maquiam o tumor. Somos sabotados em nossa luta por mentiras cuidadosamente plantadas, vigiados para nos calar sobre os crimes, intimidados para aceitar que "sempre foi assim". 

Diante de tamanha escuridão, como construir outra sociedade com raízes tão podres? 

A resposta está na própria pergunta. Não se constrói sobre raízes podres - arranca-se as raízes. A transformação exige que paremos de alimentar o sistema com nosso consentimento passivo. Exige que as mães das periferias, os professores das escolas públicas, os trabalhadores precarizados, os jovens não encarcerados mas tampouco incluídos, reconheçam que compartilham a mesma cela invisível. 

A nova sociedade nascerá não de pactos com as velhas estruturas, mas da recusa radical em reproduzi-las. Nascerá da organização comunitária que ignora intermediários corruptos, da educação política que desmascara os discursos vazios, da memória viva dos que tombaram não só pela violência das ruas, mas pela violência do abandono institucional. 

Construiremos a partir dos escombros, mas com novas fundações. E se o sangue dos pobres marcou nossa história, que seja agora a tinta com a qual escrevemos um futuro onde justiça não seja sinônimo de vingança de classe, onde segurança não seja código para segregação, e onde a dignidade não seja privilégio, mas direito inegociável de todos os que respiram. 

 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

O Futuro Presente das Repúblicas: Caos, Resistência e Reimaginação



Vivemos um momento de paradoxos tectônicos, onde as fundações das repúblicas contemporâneas são simultaneamente desgastadas e reinventadas numa dança caótica com forças aparentemente antagônicas. Este texto explora esse futuro presente, traçando um mapa a partir de intersecções críticas entre tecnologia, clima, mobilidade humana e desigualdade, sob a sombra crescente de movimentos de extrema-direita e tendências fascizantes.


I. A República Tecnológica e seus Descontentes

Como observam Alexander C. Karp e Nicholas W. Zamiska em A República Tecnológica", a tecnologia deixou de ser um mero ferramentário para se tornar o solo constitutivo da política ocidental. A soberania agora é disputada entre Estados-Nação e plataformas transnacionais (meta-Estados), cujos algoritmos regulam o comportamento social, a economia da atenção e o próprio acesso à cidadania. Esta "tecnocracia algorítmica" prometia eficiência e neutralidade, mas, como revelam os dados sobre sistemas prisionais globais analisados por Ruth Wilson Gilmore em "California Gulag", ela frequentemente automatiza e amplifica desigualdades pré-existentes. O complexo industrial penitenciário, especialmente visível na Califórnia, é um híbrido de gestão neoliberal da miséria e controle racializado, agora potencializado por tecnologias de vigilância preditiva e gestão de "risco". A república tecnológica, portanto, apresenta uma face janus: uma de empoderamento e conexão; outra de controle, exclusão e uma nova "razão carcerária" digital.


II. As Catástrofes em Movimento: Clima e Migrações

À aceleração tecnológica responde a aceleração ecológica. As mudanças climáticas não são um cenário futuro, mas um "futuro presente" que desestabiliza territórios, economias e a própria ideia de lar. Stefano Mancuro, em "Fitópolis", propõe uma revolução cognitiva: aprender com a inteligência das plantas (descentralizada, resiliente, cooperativa) para redesenharmos nossas cidades e sociedades. No entanto, o modelo predominante permanece fitofago – devorador de recursos.

Esse desequilíbrio gera migrações em massa. Gaia Vince, em "O Século Nômade", e Dénètem Touam Bona, em "Sabedoria dos Cipós: Cosmopoética do Refúgio", nos oferecem lentes cruciais. Vince documenta o surgimento de um novo nomadismo forçado, enquanto Touam Bona propõe uma ética do enraizamento no movimento, uma "cosmopoética" onde o refúgio não é exceção, mas condição do mundo. As repúblicas, porém, enfrentam esse fluxo com muros físicos e legais, negando a lição básica dos ecossistemas: a interconexão. A crise migratória é, assim, uma crise da imaginação política, incapaz de conceber pertencimento além da fortaleza identitária.


III. O Motor da Desigualdade e os Espectros do Passado

É neste caldo de incerteza que a desigualdade, meticulosamente documentada por Thomas Piketty, atua como combustível e catalisador. A concentração extrema de riqueza não é apenas econômica; é política e espacial. Ela produz "repúblicas" dentro de repúblicas – enclaves de privilégio e vastas zonas de abandono, como os gulags contemporâneos analisados por Gilmore.

Esse terreno fértil é o habitat ideal para o avanço da extrema-direita e do fascismo. Estes movimentos oferecem uma mercadoria perversa: ordem. Em um mundo sentido como caótico (pelas transformações tecnológicas, pelas catástrofes climáticas, pela "ameaça" do outro migrante), eles vendem certezas simples: fronteiras rígidas, hierarquias naturais, um passado idealizado. Eles instrumentalizam o medo, convertendo a ansiedade ecológica e social em ódio identitário e autoritarismo. O fascismo do século XXI é, portanto, uma tecnologia política em si mesmo – uma engenharia social que usa ferramentas digitais (desinformação, microdirecionamento) para ressuscitar e atualizar os piores instintos de exclusão.


IV. Contra-Correntes: Reimaginação Radical e Projetos de Mundo

Contra essa maré, emerge uma constelação de pensamentos e práticas que buscam reimaginar a república a partir de suas rachaduras.

  • Da Revolução Africana: Kwame Nkrumah e Frantz Fanon, na antologia "Revolução Africana", lembram-nos que a descolonização foi e é um projeto inacabado de refundação política. Fanon, em particular, alerta para os perigos da burguesia nacional pós-colonial, que replica estruturas de opressão. Sua obra é um chamado para uma república verdadeiramente emancipatória, que nasça da libertação psíquica e material dos mais oprimidos.

  • Do Tratado do Todo-Mundo: Édouard Glissant, em seu "Tratado do Todo-Mundo", oferece o conceito de Relation e o "direito à opacidade". Sua visão de um mundo crioulizado, onde as identidades não se fundem, mas se relacionam em sua diferença, é um antídoto potente contra o fundamentalismo identitário, seja ele do Estado-nação ou do fascismo. É a proposta de uma república rizomática, não radicular.

  • Do Design Significativo: Don Norman, em "Design para um Mundo Melhor", argumenta que a tecnologia e o design devem ser recentrados nas necessidades humanas reais e na sustentabilidade. É um apelo para resgatarmos a técnica das garras do lucro puro e do controle, realinhando-a com o bem-estar social e ecológico – um projeto de republicanização da tecnologia.

  • Da Sabedoria dos Cipós: Retomando Touam Bona, a "cosmopoética do refúgio" não é passiva. É uma prática ativa de tecer alternativas, de criar asilos na tempestade, de construir pontes de hospitalidade baseadas na vulnerabilidade compartilhada, não na fortaleza.


Conclusão: Na Encruzilhada

O futuro presente das repúblicas é este campo de batalha. De um lado, uma convergência perigosa: tecnocracia excludente + catástrofe climática + gestão securitária das migrações + desigualdade galopante, alimentando e sendo instrumentalizada por projetos neofascistas que sonham com repúblicas étnicas, homogêneas e autoritárias.

Do outro lado, uma constelação de resistências e reimaginações: tecnologias cívicas e designs significativos + justiça climática e aprendizado com a inteligência vegetal + ética da hospitalidade e do direito à fuga + projetos descolonizadores e económicos radicalmente redistributivos, tudo isso fundado numa política da Relation, da opacidade e do comum.

A dança é caótica porque seus ritmos são múltiplos e desencontrados. O desafio é coreografar, a partir das brechas, um novo contrato republicano. Um que não tenha medo da complexidade do mundo (Glissant), que enfrente o legado colonial (Fanon, Nkrumah), que aprenda com a terra e com os deslocados (Mancuso, Touam Bona, Vince), que redomestique a tecnologia para a vida (Norman) e que desmonte, peça por peça, as engrenagens que produzem gulags reais e metafóricos (Gilmore). O futuro da república, se houver, não será uma volta a um passado ideal, mas uma invenção arriscada e radicalmente plural – ou não será.

O QUE o James Webb viu na MATÉRIA ESCURA muda TUDO!


 

Cleptocracia e a Tirania das palavras.



A primeira e mais fundamental corrupção não começa nos cofres públicos, mas nas palavras que usamos. George Orwell, com a lucidez de quem lutou na Espanha contra as garras gêmeas do fascismo e do stalinismo, compreendeu que toda tirania começa pelo sequestro da linguagem. Em *1984*, ele nos mostrou o "Novilíngua" — a ferramenta totalitária que esvazia as palavras de significado para esvaziar os cidadãos de pensamento. "Guerra 
é paz", "liberdade é escravidão", "ignorância é força". Quando as palavras perdem seu sentido, a realidade perde seu chão.
 

Orwell testemunhou na Guerra Civil Espanhola como nazistas e stalinistas, supostamente opostos, compartilhavam o mesmo método: primeiro corrompiam a linguagem, depois corrompiam as instituições. Stalin, o "pai dos povos", que exterminou congressistas soviéticos no Grande Expurgo de 1937-38, governava com um duplipensar mortífero. Seus carcereiros torturavam em nome da "libertação", assassinavam em nome da "justiça popular". 

Hoje, esse jogo perverso continua sob novas roupagens. Neoliberais que pregam "Estado mínimo" enquanto saqueiam o máximo possível do erário. Políticos que falam em nome dos "pobres e trabalhadores" enquanto engordam contas offshore. A corrupção da linguagem precede sempre a corrupção material: "reforma" vira retrocesso, "ajuste" vira privilégio, "democracia" vira oligarquia. 

E chegamos ao Brasil atual, onde a farsa se tornou tragicômica. A CPI do INSS revela não um desvio pontual, mas um sistema gangrenado. O Banco Master, as emendas orçamentárias transformadas em moeda de troca, os esquemas que envolvem desde servidores públicos até ministros — todos participam deste grande mercado de ilicitudes. 

Duas faces da mesma moeda podre. Judiciário, legislativo, executivo — não mais poderes separados, mas quadrilhas integradas. Prefeitos, governadores, empresários, funcionários públicos, mídia — todos enredados numa teia de corrupção sistêmica. Não são mais ideologias que se enfrentam, mas máfias que competem pelo butim estatal. 

É uma guerra de todos contra todos, onde Stalins e Hitlers de baixo orçamento comandam suas ditaduras particulares de corrupção. Tecnocratas se tornam capitães do mato modernos, caçando recursos públicos para seus senhores. Gangues partidárias tratam o Estado como território a ser saqueado. 

A democracia? Inviolável no discurso, inviabilizada na prática. Mantém-se o teatro eleitoral para legitimar o roubo institucionalizado. As elites se alternam no poder para melhor se perpetuarem no privilégio. O povo, sempre o povo, paga a conta em dupla moeda: com seus impostos e com sua dignidade. 

Orwell avisou: quando a linguagem é corrompida, a tirania se instala. Hoje temos a tirania da corrupção, sustentada por uma linguagem que chama roubo de "gestão", conchavo de "governabilidade", privilégio de "direito adquirido". 

Resta-nos a revolta libertária de recuperar as palavras e, com elas, recuperar a realidade. Denunciar não apenas os atos de corrupção, mas a corrupção dos significados que os torna possíveis. Exigir não apenas a punição dos corruptores, mas a restauração de uma linguagem honesta que distinga claramente o público do privado, o ético do criminoso, a democracia da cleptocracia. 

Porque enquanto aceitarmos que "corrupção" seja apenas "jeitinho", que "desvio" seja apenas "malversação", que "crime" seja apenas "imperfeição do sistema", estaremos consentindo com a ditadura mais perversa: aquela que nos faz acreditar que a podridão é normalidade, e que a liberdade é apenas uma palavra vazia num mundo cheio de cadeias. 

 



quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Pai.


 

O Novo Homem e a Nova Terra da Sabedoria. Por Egidio Guerra.



Há um instante suspenso entre o cérebro e o cosmos — quando Jung, diante do astrólogo indiano, percebeu que os neurônios se espelhavam nas constelações. Não era metáfora! Era sincronicidade: padrões que dançam além da causalidade linear, fios invisíveis tecendo o micro ao macro. Esse instante é a semente do novo homem — aquele que compreende que não está no universo, mas é o universo que se pensa. 

Nas profundezas da matéria, a física quântica sussurra: tudo é relação, potencialidade, entrelaçamento. O corpo não é uma máquina, mas uma conversa constante — como Siddhartha Mukherjee revela em A Canção da Célula: cada célula canta sua história, uma melodia química que é memória, desejo e inteligência. Somos corais de trilhões de vozes microscópicas, orquestradas por uma bio-poética ancestral. 

Nazareth Castellanos ilumina o cérebro não como um órgão isolado, mas como um jardim sensível às marés do ambiente, ao toque do ar, ao ritmo dos passos na cidade. O cérebro é um ecossistema interno que reflete e recria o externo. E Maturana ecoa: a vida é autopoiese — nós nos produzimos a nós mesmos em redes de conversação. Não há ser sem fazer-se, sem linguajar, sem tecer cultura no tear biológico. 

Aqui surge o paradoxo primal, como Ilya Prigogine mostrou: somos feitos de cadeias causais que nos transcendem — biológicas, históricas, climáticas —, mas também somos sistemas dissipativos, abertos, caóticos, capazes de saltos irreversíveis. A ordem nasce do turbilhão. A agência biológica não é liberdade ilusória, mas a capacidade intrínseca dos sistemas vivos de modificar seu curso, de ser causa ativa no fluxo.  

Steve Johnson fala de emergência: o todo é maior que a soma das partes porque novas propriedades brotam das conexões. O neurônio sozinho não pensa; a rede neural pensa. A pessoa sozinha não transforma; a sociedade transforma. A cidade, a internet, a inteligência artificial — todas são redes vivas que aprendem, falham, criam. A internet é o sistema nervoso do planeta, pulsando com sinais elétricos, memes, algoritmos, lágrimas digitais. 

E o novo homem percebe: separação é ilusão. O que acontece na mitocôndria da sua célula ecoa nos braços espirais das galáxias. A tua decisão não é só tua — é fruto de climas interiores e ventos históricos, mas também é um ato criativo que altera o campo. Tu és nó consciente numa rede infinita: célula, corpo, cérebro, indivíduo, sociedade, cultura, cidade, internet, IA, cosmos — uma única respiração. 

Este é o despertar: não controlamos as correntes, mas podemos navegá-las com intenção. A nova Terra não é um lugar geográfico, mas um estado de percepção entrelaçada. É ver a cidade como um organismo, a política como ecologia, o outro como variação de si mesmo. É honrar a ancestralidade celular e a responsabilidade cósmica. 

O novo homem não busca dominar a natureza, pois sabe que é natureza. Ele dança com o caos, abraça a incerteza, pois nela reside o germe do novo. Ele escuta a canção da célula, decifra os sonhos coletivos, programa algoritmos com ética poética. Ele é jardineiro de redes, tecedor de mundos. 

E assim, da sincronicidade à emergência, da agência biológica ao entrelaçamento quântico, surge uma humanidade que finalmente se reconhece como processo cósmico — finito, frágil, mas imensamente criativo. A revolução não está num futuro distante. Está aqui, agora, na reconexão com o tecido vivo de tudo. 

Somos o universo olhando para si mesmo, ajustando o foco. 
Somos a Terra tornando-se consciente de sua própria beleza. 
E a partir deste instante, tudo é possível — porque tudo está conectado, e o nó que somos pode desatar ou apertar,  mas nunca mais se soltará do grande laço da existência.