SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sábado, 15 de agosto de 2026

A IA pode estar retirando os primeiros degraus da carreira. E isso muda a escola.

 




É o que sugere um novo estudo de Stanford Digital Economy Lab (Erik Brynjolfsson, Bharat Chandar e Ruyu Chen), com dados de milhões de trabalhadores nos EUA até junho de 2026.

👥 O impacto se concentra nos jovens: entre 22 e 25 anos, o emprego nas ocupações mais expostas está 19% abaixo do que estaria se seguisse as menos expostas;

📉 E a distância cresce: era 15% em julho de 2025;

🚪 O problema está na entrada: menos contratações, não demissões;

🤖 O uso importa: onde a IA substitui tarefas, o emprego juvenil cai; onde complementa, fica estável ou cresce, sobretudo entre os experientes;

💰 O ajuste aparece no emprego, não nos salários-base.

O mecanismo: a IA substitui com facilidade o conhecimento codificado, o que cabe em livros, aulas e manuais, e complementa o tácito, o que nasce da prática, da convivência e do erro. Assim, comprime tarefas que abriam a porta da carreira e amplia o valor da experiência acumulada. É uma associação, não uma prova causal.

O ponto que considero decisivo: o tácito se forma no trabalho, e é justamente a porta do trabalho que se estreita para os jovens. O emprego de entrada, além de bens e serviços, produz experiência.

Nada disso reduz o papel da escola e da universidade na produção e transmissão do conhecimento codificado. Ao contrário: é ele que sustenta as boas perguntas e o julgamento. O desafio é construir pontes para o tácito, pela investigação, criação, convivência, prática orientada e resolução de problemas reais.

A escola que precisamos trazer do futuro.

Ela seguirá democratizando o acesso ao patrimônio de conhecimentos e acolhendo cada geração em um mundo comum. Quando máquinas informam, explicam e simulam, sua singularidade será garantir o que elas não produzem: a experiência de construir esse mundo no encontro entre gerações, diferenças e territórios. Ciência, arte, tecnologia, saberes ancestrais e vida vivida em diálogo e presença real, sob uma ética da interdependência.

Uma lupa adicional sobre o 9º ano, o projeto de vida e a educação profissional, no ensino médio. Os jovens precisam interagir mais com o setor produtivo, com vivências, aprendizagem profissional e estágios. Não para subordinar a escola às empresas, nem para enfraquecer o ensino propedêutico: a Constituição articula formação humana, cidadania e qualificação para o trabalho.

Defender a formação propedêutica sem congelá-la. A nova BNCC é a chance de aproximar conhecimento disciplinar, cultura, tecnologia, experiência, território e mundo do trabalho.

Retirar o primeiro degrau fragiliza a equidade: o primeiro emprego é a porta de entrada para quem não herdou redes de relacionamento que encurtam o acesso ao mercado.

Com a IA ocupando os primeiros degraus, é preciso criar outros caminhos para que todos os jovens adquiram a experiência que leva aos próximos.

Uma comida. Sete Mundos Regulatórios.

 


Uma comida. Sete Mundos Regulatórios.

Um produto alimentício não se torna "globalmente compatível" simplesmente porque é seguro.

O mesmo produto pode ser:
✅ em conformidade na Índia
❌ não conformes na UE
⚠️ sujeito a requisitos adicionais nos EUA
🔍 sob rigorosa fiscalização de importação no Japão ou na China.

Por quê?

Porque a regulamentação alimentar não é um único manual global.

É uma rede de filosofias regulatórias, autoridades, padrões, avaliações de risco e sistemas de fiscalização.

Olhe o mapa.

🇪🇺 UE → harmonizada e altamente estruturada
🇺🇸 EUA → múltiplas agências federais
🇨🇳 China → sistema centralizado liderado pelo governo
🇮🇳 Índia → autoridade alimentar centralizada
🇯🇵 Japão → controles de importação rigorosos e baseados em riscos
🇦🇺 Sistema conjunto de padrões alimentares Austrália/Nova Zelândia →
🇧🇷 Brasil → abordagem baseada em ciência e risco

Sistemas diferentes.

Autoridades diferentes.

Diferentes caminhos regulatórios.

Mas um objetivo comum:

ALIMENTOS SEGUROS + PROTEÇÃO DA SAÚDE PÚBLICA

E é exatamente por isso que Assuntos Regulatórios de Alimentos está se tornando uma habilidade profissional global.

Os mercados financeiros começaram a precificar o El Niño

 




Uma matéria incisiva no Financial Times desta semana mostra como um fundo hedge está levantando um fundo criado especificamente para lucrar com o El Niño deste ano e por que bancos de toda a indústria agora publicam resumos de clientes sobre suas implicações no mercado.

☕ Os preços do café e do cacau dispararam, já que os comerciantes antecipam danos à colheita na África Ocidental e no Brasil
🌾 O trigo na Austrália e o arroz na Índia enfrentam sérias ameaças, já que as chuvas de monção indianas já estão mais de um décimo abaixo da média
🚢 Os preços dos leilões de trânsito do Canal do Panamá atingiram recordes históricos, enquanto as preocupações com a queda dos níveis de água ecoam a severa seca de 2023–24
⚡ A mineração de cobre enfrenta interrupções na Zâmbia devido à seca e no Chile devido a inundações como o mesmo evento, gerando riscos opostos em diferentes lugares
🍬 Um impacto na produção indiana de açúcar está sendo acompanhado de perto por analistas

World Meteorological Organization diz que não há evidências de que as mudanças climáticas estejam aumentando a frequência de eventos extremos de El Niño. Mas o que é claro é que o aquecimento global eleva a tensão de cada evento que ocorre, sobrepondo-se ao típico aumento de temperatura de 0,1–0,2°C de El Niño a um já perigoso 1,4°C de aquecimento, e carregando uma atmosfera mais quente com mais umidade para alimentar chuvas mais fortes onde El Niño já traz chuva.

O número mais preocupante não é o de mercado. O World Food Programme alerta que esse evento ameaça empurrar pelo menos mais 49 milhões de pessoas para a insegurança alimentar, um lembrete de que o verdadeiro dano é mais duro para aqueles com menor capacidade de absorvê-los. E isso não termina rápido: um estudo de 2023 na revista Science constatou que grandes episódios de El Niño deprimem o crescimento nos países afetados por anos depois.

É exatamente por isso que o tempo de previsão que a OMM vem fornecendo desde a primavera é tão importante. Os mercados já estão se posicionando em torno desse evento, meses antes do pico. A questão é se essa mesma visão alcança pequenos agricultores, planejadores de segurança alimentar e comunidades vulneráveis com a mesma urgência com que alcança fundos de hedge. 🛰️

📰 Fonte: Financial Times, "Como o El Niño vai impactar a economia mundial?" (Moral Money, 12 de agosto de 2026)