SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

O que a disputa inesperada entre PCC e CV em São Paulo revela sobre a facção paulista

 

Vista aérea da praia do Lázaro, em Ubatuba, com adensamento urbano entre montanhas e o mar ao fundo

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Ubatuba, no litoral norte paulista, é uma das cidades onde houve disputa entre as duas facções
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Um homem e um adolescente foram mortos a tiros dentro do carro na Estrada de Camburi, na cidade de Ubatuba, no litoral norte paulista, em 10 de dezembro do ano passado.

Foi um dos 24 homicídios dolosos registrados no município em 2025, quase o dobro do ano anterior, 13, de acordo com as estatísticas da Secretaria de Segurança Pública.

As investigações apontam que o crime foi motivado por uma disputa entre o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).

Seria algo talvez corriqueiro em qualquer outro Estado. O confronto entre as duas facções rivais já deixou centenas de mortos pelo país na última década. É incomum, contudo, ouvir sobre ocorrências desse tipo em São Paulo, onde há anos o PCC é considerado a força hegemônica do crime.

Esse cenário, no entanto, pode estar mudando. Investigadores e pesquisadores ouvidos pela BBC News Brasil apontam que a facção carioca vem fazendo incursões em território paulista.

A presença do grupo se divide entre duas áreas principais: próximo à fronteira com o Rio de Janeiro, como é o caso de Ubatuba, e na região de Piracicaba.

O movimento se explica, em uma ponta, pelo próprio processo de expansão nacional do CV.

Do outro lado, o PCC, que enriqueceu e diversificou os negócios, passou a priorizar menos o varejo de drogas, abrindo espaço para a concorrência.

Essa dinâmica se combina ainda com um terceiro fator destacado pelas fontes ouvidas pela reportagem: a entrada para o crime de uma geração de jovens que muitas vezes não se identificam com a ideologia do PCC e suas regras e códigos de conduta — e estão mais suscetíveis, por exemplo, a formar alianças com rivais da facção paulista.

A BBC News Brasil pediu entrevista à Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, mas não teve retorno.

O mapa do CV em São Paulo

O enriquecimento do PCC é central, de acordo com as fontes ouvidas pela reportagem, para entender o momento atual.

Em 30 anos, o grupo que surgiu como uma associação de detentos em um presídio em Taubaté dominou o varejo de drogas em São Paulo, se expandiu para outros Estados e passou a operar no tráfico internacional e em segmentos da economia legal.

Hoje tem presença no ramo de combustíveis e até no setor financeiro, como mostrou a Operação Carbono Oculto, e embolsa uma fatia considerável dos estimados R$ 350 bilhões que o crime organizado faturou nos últimos três anos no país, número que consta em um estudo recente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

Essa diversificação de atividades, e especialmente a entrada no tráfico internacional de drogas, tem tirado em certa medida o foco da facção do tráfico interno, afirma o promotor do Ministério Público de São Paulo (MPSP) Lincoln Gakiya, integrante do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).

"O que os criminosos falam é que [o tráfico interno] dá mais trabalho pra eles e menos dinheiro. O risco de prisão é maior e, quando prende, eles têm que manter a família, têm que pagar advogado", ilustra Gakiya.

"No tráfico internacional, por sua vez, normalmente o risco é só apreensão da droga, o que já é um risco do negócio mesmo, já está embutido no 'lucro'. E a lucratividade é infinitamente maior, né? A gente está falando de US$ 1.000 (R$ 5 mil) o quilo [de cocaína], pra vender isso lá fora a no mínimo a 35 mil euros (R$ 205 mil), podendo chegar a US$ 150 mil (R$ 750 mil) na Ásia e na Oceania", completa o promotor.

Uma fonte ligada às investigações sobre a atuação do crime organizado na região do Vale do Paraíba e do Litoral Norte de São Paulo reitera essa análise e ressalta que em alguns locais o PCC chegou a abandonar pontos de vendas de drogas, as chamadas "biqueiras".

"A partir do momento em que o PCC deixou, os traficantes aqui da região começaram a disputar os locais. De outro lado, o Comando Vermelho também viu ali oportunidade de expandir. Cooptou gente, mandou gente pra cá, enfim", comenta.

Ele menciona a presença da facção carioca no Vale Paraíba em municípios paulistas como Bananal, Cruzeiro, Lorena, Ubatuba e Caraguatatuba.

Ao contrário do que acontece em outras regiões com presença do Comando Vermelho, nestas não há controle territorial armado, o que a coordenadora do Grupo de Estudos de Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (Geni/UFF) Carolina Grillo aponta como uma característica própria dessa área entre o Sul Fluminense e do Vale do Paraíba e Litoral Norte paulistas, que ela chama de "zona de transição"

"[É uma área que] não funciona sob a lógica da Região Metropolitana do Rio de Janeiro de conflito territorial armado, um contexto em que é mais fácil haver superposição de diferentes grupos criminosos", afirma a pesquisadora.

Os investigadores têm observado, contudo, a prática de extorsões, também comuns na atuação do CV.

Em alguns locais, como em Ubatuba, houve reação do PCC para tentar retomar parte do espaço perdido, o que se reflete em homicídios como o registrado em dezembro passado.

"Acredito que o PCC tenha se arrependido um pouco dessa expansão, até porque deixou muitos dos seus associados, que são massa de manobra, sem ganha-pão. E viram ali que perderam certa presença, né", diz um investigador.

Agente da polícia federal está de costas em sala de jantar de casa de luxo alvo da operação contra lavagem de dinheiro em postos de combustíveis

Crédito,Reprodução/Polícia Federal

Legenda da foto,Casa de luxo alvo de mandado da operação Carbono Oculto: PCC diversificou atividades e hoje lucra com uma série de outros negócios além do tráfico

Apesar dos homicídios observados no fim do ano passado, o confronto entre as facções nessa região, segundo ele, é bem menos sangrento do que na área de Piracicaba, onde "a célula, os associados ou simpatizantes do Comando Vermelho são muito mais violentos".

Nesse caso, um grupo criminoso local conhecido como "Bonde do Magrelo" se associou ao Comando Vermelho.

O homem apontado como um de seus principais líderes, Anderson Ricardo de Menezes, conhecido como "magrelo", foi preso em 2023 e cumpre pena de 23 anos.

Uma das denúncias do Ministério Público de São Paulo contra ele dessa época, ao qual a reportagem teve acesso, o definem como alguém que "não admite desaforos, seja de outros criminosos de seu grupo, seja de pessoas envolvidas com outras organizações criminosas, tal como o Primeiro Comando da Capital".

"A consequência de quem ousa contrariar as determinações de Anderson Ricardo é uma só: a morte!", diz o texto.

O Bonde do Magrelo teve origem em Rio Claro, na região metropolitana de Piracicaba, e atua no tráfico de cocaína em diferentes municípios da região.

Tem chamado atenção das autoridades locais desde 2021 pela forma de agir, com uso de fuzis em vias públicas em homicídios cometidos à luz do dia e emprego de rastreadores para seguir e matar inimigos.

Menezes está preso, mas o grupo segue atuando. No último dia 6 de maio, o Ministério Público e a Polícia Militar prenderam dois homens ligados à organização suspeitos de envolvimento com o Comando Vermelho em Rio Claro e Paulínia, conforme informou o 10º Batalhão de Ações Especiais da Polícia Militar de São Paulo.

A operação foi batizada de "Red Flag", "bandeira vermelha" em inglês, possivelmente uma referência ao emoji que costuma ser usado nas redes sociais em referência à facção carioca.

O passado da facção carioca em São Paulo

Essa não é a primeira vez que o Comando Vermelho opera em São Paulo. Antes de o PCC se tornar hegemônico no Estado, a facção carioca — que surgiu na década de 1970, também em um presídio — teve uma operação pequena na periferia da capital e uma presença mais relevante na Baixada Santista.

Saiu do Estado em meio ao processo de expansão do PCC, que aconteceu no início dos anos 2000.

"O grande salto foi 2003, 2004, quando eles foram pro tráfico, começaram a tomar as biqueiras", diz Guaracy Mingardi, analista criminal e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

O PCC chegou a travar uma guerra com o CV até expulsar a facção carioca da Baixada Santista, considerada estratégica por conta do porto, de onde a facção paulista embarca hoje droga para outros países.

Os dois grupos chegaram a viver momentos de trégua, mas o pacto foi rompido em 2016 com o assassinato em uma emboscada coordenada pelo PCC no Paraguai do traficante Jorge Rafaat, que operava o tráfico de armas e drogas na fronteira e vendia para as duas facções.

Depois disso, o PCC consolidou o controle sobre a rota do tráfico a partir do Paraguai.

Apesar do revés, o Comando Vermelho também continuou se expandindo. Depois do episódio no Paraguai, se voltou para uma via alternativa do tráfico pela região Amazônica para trazer drogas de vizinhos para o país, a chamada rota do Solimões.

Em paralelo, se capilarizou pelo território nacional com uma estrutura menos centralizada que a do PCC.

"A adesão [de membros e facções de outros Estados ao CV] é mais fluida", aponta Carolina Grillo, coordenadora do Geni/UFF.

"E isso lhe confere uma capacidade de expansão muito grande, pela possibilidade de incorporar grupos locais sob a bandeira do Comando Vermelho, sem que seja necessário nenhum critério de formalização dessa aliança. Basta estabelecer, de alguma forma, uma conexão com outras figuras importantes do Comando Vermelho", completa a pesquisadora.

Como aliado, o CV pode dar suporte contra grupos rivais e fornecer armas e drogas.

Marcola caminha de algemas e óculos escuros acompanhados por cinco agentes fortemente armados

Crédito,Reuters

Legenda da foto,Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola: cúpula da facção paulista teria se dividido há cerca de dois anos

'Jovens querem ganhar dinheiro; não estão ligando muito pro PCC'

O rearranjo do crime organizado em São Paulo tem como pano de fundo uma tendência que pesquisadores e autoridades que conversaram com a BBC News Brasil consideram que pode ter um impacto relevante no cenário no médio prazo: a menor adesão à ideologia da facção paulista entre gerações mais jovens envolvidas no crime.

"O PCC tem perdido um pouco a força entre os integrantes jovens", diz o promotor Lincoln Gakiya.

"A força no sentido de manter a disciplina, a hierarquia. Esses jovens não estão mais imbuídos [da ideia] de luta contra o sistema, de [combater a] opressão no sistema [prisional], que foi o que levou à criação do PCC, à ascensão do Marcola", acrescenta ele, referindo-se à origem da facção, que surgiu como uma reação ao massacre do Carandiru, com objetivo de conquistar melhores condições aos detentos nas prisões.

"Eles estão imbuídos da vontade de ganhar dinheiro. Eles não estão ligando muito pro PCC ou para a hierarquia", completa.

Essa desconexão tem tido reflexos no sistema prisional. Há, por exemplo, um aumento de ocorrências de agressões e homicídios em dia de visita, segundo Gakiya, algo que é proibido pelo código do PCC.

"Isso demonstra que essas gerações mais jovens, que era de criminoso na rua, era de batizado [pela facção] e está indo para o sistema não está obedecendo muito aquela ideologia, aquela disciplina e aquela hierarquia que era aplicada a ferro e fogo pelo PCC", afirma o promotor.

Na outra ponta, Gakiya diz ter percebido "uma certa desorganização interna do PCC", que ele cogita como possível reflexo do racha na cúpula da facção, de criminosos da chamada "sintonia final" que romperam com Marcola, ou do isolamento das lideranças, algumas foragidas em países como a Bolívia.

Essa dinâmica se repete, com suas particularidades, do lado de fora do sistema prisional, nas periferias da cidade de São Paulo, por exemplo. É o que observa o sociólogo Eduardo Dyna, que pesquisa sobre a governança criminal do PCC — o controle social e as regras informais estabelecidas pela facção nas áreas em que está presente.

Ordens dadas pelo PCC antes cumpridas à risca não são mais necessariamente respeitadas pelos mais jovens. Isso vai desde regras de conduta, como a proibição de "chamar no grau" (empinar a moto), até a prática de crimes, como a proibição de roubar nas periferias.

Entre os membros mais velhos da facção, que em teoria poderiam assumir um papel mais disciplinador, alguns nem mais nas periferias vivem, mas em bairros de classe média e alta da capital paulista.

"Houve um processo de ascensão social pelo crime", destaca Dyna, voltando à questão do enriquecimento da facção paulista.

"Esse acúmulo de capital [pelo PCC] provocou um enfraquecimento de uma ordem local nas periferias."

Nem Dyna nem Gakiya consideram, contudo, que o PCC deixou de ser hegemônico em São Paulo ou perdeu força.

"Eu não vejo ainda essa presença do Comando Vermelho em São Paulo como uma presença preocupante, no sentido de provocar uma guerra sangrenta aqui no Estado. Eu acho que é uma coisa ainda bem embrionária e incipiente", afirma o promotor de Justiça.

Uma eventual disputa entre duas ou mais facções em São Paulo poderia reproduzir no Estado dinâmicas semelhantes às que hoje se veem em diferentes partes do país, diz Guaracy Mingardi, com consequências bastante negativas.

"Se você tiver dois grupos fortes aqui guerreando, os dois lados vão começar a se armar mais, vão começar a atirar da polícia, vão querer ter o controle da área", ilustra o pesquisador.

Ele lembra que a última vez em que São Paulo foi palco de disputa entre diferentes grupos criminosos foi no fim dos anos 90 e início dos anos 2000, quando o conflito se dava entre pequenas quadrilhas, antes da ascensão do crime organizado.

Esse período coincidiu com os recordes nos índices de homicídios no Estado, que chegou a 35,27 por 100 mil habitantes em 1999 e caiu de forma expressiva nas últimas décadas, chegando a 5,46 em 2025.

O recado do papa Leão 14 sobre a inteligência artificial em seu primeiro 'cartão de visitas' ao completar um ano de pontificado

 

Papa Leão durante audiência. Em sua frente, várias pessoas usam celulares para filmá-lo.

Crédito,AFP via Getty Images

    • Author,Edison Veiga
    • Role,De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
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Um ano após assumir o comando da Igreja Católica, o papa Leão 14 divulgou na manhã desta segunda (25/05) o documento Magnifica Humanitas — ou, "Magnífica Humanidade", na tradução do latim para o português —, a primeira encíclica de seu pontificado. O texto é sobre como salvaguardar "a pessoa humana na era da inteligência artificial".

Na tradição católica, encíclicas são os textos mais importantes a constituir o magistério de um papa. É uma carta dirigida aos bispos e aos fiéis, em que o líder da Igreja expõe o corpo doutrinário do catolicismo. Leão 14, portanto, não só consolida sua visão sobre o tema — que tem aparecido de forma recorrente desde que ele foi eleito sumo pontífice — como demonstra que as preocupações com o impacto da tecnologia na dignidade humana devem ser a tônica de seu papado. É praticamente um cartão de visitas.

"É um documento sobre a defesa da dignidade humana no contexto da sociedade da inteligência artificial", resume o vaticanista Filipe Domingues, professor na Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma, e diretor do Lay Centre, também em Roma. "A Igreja, quando fala sobre esses temas, traz para o centro o princípio mais básico que é o personalista, ou seja, da pessoa humana. O ser humano no centro e finalidade de todos os processos."

O texto que inaugura o magistério de Leão 14 tem 105 páginas e apresenta-se como um apelo do religioso pela proteção da humanidade, pela promoção da verdade, pela dignidade do trabalho, pela justiça social e pela paz – em tempos de uma revolução tecnológica precipitada pela inteligência artificial.

O vaticanista Filipe Domingues explica que, na visão católica, o ser humano, por ser "criado à imagem e semelhança de Deus" tem como valor intrínseco e absoluto a dignidade.

É nesse sentido que Leão reflete sobre a inteligência artificial: o papa entende a tecnologia como um instrumento, mas não um ente criativo; e, principalmente, vê a ferramenta como algo que precisa estar a serviço da humanidade, e não o contrário.

"A humanidade — em toda a sua grandeza e em todas as suas feridas — jamais deve ser substituída ou superada", afirma Leão. O papa frisa que o amor e as relações humanas são essenciais às pessoas.

Logo na abertura, o papa diz que a humanidade "enfrenta hoje uma escolha decisiva". A dicotomia seria, na visão de Leão, construir uma nova Torre de Babel ou "edificar a cidade na qual Deus e a humanidade habitam juntos".

A seu modo e em um contexto próprio, Leão recupera uma imagem que era muito cara ao seu antecessor, Francisco (1936-2025): o alerta sobre a necessidade de construirmos pontes em vez de muros.

Mas o principal diálogo trazido pela Magnifica Humanitas é com a Rerum Novarum do Leão antecessor — Leão 13 (1810-1903) publicou há exatos 135 anos aquela que é considerad a primeira encíclica social da Igreja.

Magnifica Humanitas parte do princípio de que a tecnologia não é "uma força antagonista à humanidade", tampouco "intrinsecamente má". A questão trazida — e aí está o problema, na visão do papa — é que ela "nunca é neutra", já que "assume as características daqueles que a concebem, financiam, regulam e utilizam".

O papa clama, diante disso, que a tecnologia seja construída sempre "para o bem comum" e com a preocupação de que as pessoas permaneçam "humanas".

Mas o papa não se limita à seara digital. Ao traçar um histórico diacrônico da doutrina social da Igreja, ele defende a dignidade humana como um princípio fundamental e os direitos humanos como fundamentos invioláveis — neste ponto, Leão enquadra o aborto provocado, o assassinato de inocentes e a eutanásia como escolhas que o catolicismo considera "gravemente erradas".

Leão cobra mais reconhecimento aos direitos das minorias e pede "decisões concretas" sobretudo para que haja igualdade de gênero com maior participação de mulheres nas leis, no trabalho, na educação e na política.

Em um mundo fragmentado por guerras simultâneas, Leão afirma que "qualquer tentativa ou plano para eliminar ou subjugar uma nação é gravemente imoral e, portanto, inaceitável".

Leão afirma que "a revolução digital está mudando a natureza dos conflitos" e que a decisão sobre a vida e a morte é cada vez mais impessoal. "A inteligência artificial não remove a desumanidade intrínseca do conflito; ao contrário, pode apenas acelerar os conflitos e torná-los mais impessoais, reduzindo o limiar para o recurso à violência, transformando a defesa em previsão de ameaças e reduzindo as vítimas a dados", escreve.

Preocupa-se com o mundo que vê os conflitos bélicos como "instrumento da política internacional" e com o cenário de rearmamento dos países. Para o papa, a paz já não vem sendo entendida como um objetivo a ser construído — tornou-se apenas um intervalo entre guerras.

Ele também lembra dos imigrantes e dos refugiados. Para Leão, a maneira como uma sociedade trata os estrangeiros "revela se seu senso de justiça é movido pelo medo ou pelo espírito de fraternidade". O papa pede não só uma postura de acolhimento dos que imigram como também a promoção do "direito de permanecer" em sua terra natal com segurança

No âmbito da tecnologia ele alerta contra a concentração de controle nas mãos de poucas empresas, alegando que é preciso seguir o princípio do "destino universal dos bens". Para o papa, a revolução digital não pode excluir e precisa ser inclusiva.

O papa afirma que na era digital, a doutrina social exige o acesso mais justo às oportunidades e proteção aos vulneráveis. Discursos de ódio e desinformação precisam ser combatidos. E as tecnologias precisam ter supervisão pública, regulamentação, "para que o princípio orientador não seja apenas o lucro, mas a dignidade de cada pessoa e o bem comum de todos".

Na encíclica, fica claro que o papa comunga da mesma preocupação que já aparecia em Francisco: o fato de que a humanidade atravessa um paradigma tecnocrático em que as escolhas são regidas pela eficiência e pelo lucro. Para ele, a inteligência artificial precisa estar sob vigilância — ela pode até imitar e simular o modus operandi de uma pessoa, mas não tem consciência moral, empatia nem capacidades afetivas, relacionais ou espirituais.

Um bispo tira uma foto com um celular ao final da audiência geral semanal do papa Leão

Crédito,NurPhoto via Getty Images

Para o pontífice, o desenvolvimento tecnológico precisa obedecer a um arcabouço jurídico, políticas adequadas e supervisão — e os usuários têm de ser educados para este cenário. Leão defende um código de ética coerente com a justiça social. "Não basta ter uma inteligência artificial mais moral se a moralidade for determinada por poucos", enfatiza.

Ele também se preocupa com o impacto ambiental dessas novas tecnologias.

"A pergunta que orienta todo o o texto é o que a gente realmente quer construir: a Torre de Babel de um lado, a confusão e o caos geral porque o objetivo não é honesto. De outro lado uma coisa feita com calma, com paciência, com atenção aos princípios", analisa Filipe Domingues.

"É um texto puramente de doutrina social da Igreja", acrescenta o vaticanista. "Não é uma encíclica sobre inteligência artificial, mas uma encíclica sobre a dignidade humana na era da inteligência artificial."

Digital e social

Ao escolher a temática, Leão 14 se insere na tradição católica iniciada por aquele papa de quem ele emprestou o nome. Leão 13, com a encíclica Rerum Novarum, publicada 135 anos atrás, inaugurou oficialmente a chamada doutrina social da Igreja.

Professor na Universidade de Illinois Urbana-Champaign, nos Estados Unidos, o jornalista Alexandre Gonçalves acredita que a primeira encíclica tem o peso de funcionar como "um programa para o pontificado".

Nesse sentido, ele — que tem estudado as implicações da inteligência artificial na sociedade contemporânea — vê em Leão o desejo de "integrar à Igreja" o tema mais atual do mundo da tecnologia.

"Ele traz a centralidade da doutrina social da Igreja neste momento de transformação muito drástico que o mundo atravessa, no qual a inteligência artificial tem um papel nas transformações", comenta Gonçalves. Na visão do jornalista, o papa cobra que a tecnologia contribua "para o florescimento humano", e não "para a destruição".

Autora do recém-lançado livro De Gutenberg a Zuckerberg: A Jornada das Imagens e a Transformação da Comunicação, e pesquisadora no Centro de Estudos Logo-imagéticos Condes-Fotós, a jornalista Mariana Mascarenhas ressalta que "quando o líder da Igreja Católica se posiciona sobre os impactos da inteligência artificial" o alerta ganha "enorme relevância".

"Não se trata de condenar a tecnologia ou de defender sua rejeição, mas de convidar a sociedade a refletir sobre os limites, as consequências e os riscos envolvidos no processo", salienta ela.

"O papa chama a atenção para a necessidade de consciência crítica diante dessas transformações. É um apelo para que a humanidade não apenas acompanhe a evolução tecnológica, mas também preserve valores humanos fundamentais", analisa Mascarenhas.

Membros de uma confraria católica maltesa, incluindo crianças que estão olhando para seus smartphones, participam do evento de boas-vindas na Basílica de São João de Latrão durante o Jubileu das Confrarias em 16 de maio de 2025 em Roma, Itália.

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Novidade

"É um tema novo no magistério da Igreja", sinaliza Domingues. Ele compara a importância que foi, por exemplo, quando Francisco publicou a encíclica Laudato Si e, pela primeira vez, trouxe a preocupação ambiental como tema central de um documento dessa magnitude.

"De forma parecida, há um pioneirismo", analisa ele. E vê ainda a raridade de isso ter sido incorporado pela Igreja de "forma rápida". O vaticanista reconhece que, em geral, o Vaticano demora para embarcar em discussões contemporâneas — o que não ocorre neste caso, já que o assunto tem sido amplamente discutido na sociedade atual.

O papa, segundo explica Domingues, desloca o debate para o prisma ético: a tecnologia é um bem, já que vem da inteligência humana, mas ao mesmo tempo "precisa ser governada pelo ser humano, não pode governar".

"No contexto intraeclesial, chama a atenção que a Igreja está respondendo ao problema da inteligência artificial no momento em que as coisas estão acontecendo, quase se adiantando à pesquisa científica e tecnológica", diz o sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto, ex-coordenador do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). "Normalmente, ela só emitia juízos sobre teorias e avanços das ciências depois que esses avanços estivessem consolidados, para evitar ter que se corrigir no futuro."

Segundo ele, não se trata de pressa, mas de necessidade. Demorar demais, afinal, se tornou inviável, "dado a velocidade dos acontecimentos em nosso tempo". "Então a Igreja está se esforçando para encontrar um discernimento adequado não só em relação aos fatos consumados, mas também ao processo no qual esses fatos são gerados", afirma o sociólogo.

Professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie, o teólogo e historiador Gerson Leite de Moraes explica que a teologia cristã ostenta "dois polos importantes". De um lado, a propalada "verdade considerada eterna do cristianismo", ou seja, os pilares da própria fé. De outro, o grupo que "recebe essa mensagem", a sociedade em si.

Ao mergulhar na seara da inteligência artificial, portanto, Leão demonstra estar antenado com o que ocorre de mais atual nessa sociedade. "Ele está dizendo que a Igreja de fato está no século 21", analisa Moraes.

"A importância está nisso: para dizer 'a verdade eterna do cristianismo' neste século 21, é preciso dialogar com assuntos relevantes e importantes como a inteligência artificial é hoje", sintetiza o teólogo.

"Leão se preocupa muito com o aspecto humano", salienta Moraes.

No discurso do papa, ressalta ele, vem a cobrança do olhar social — afinal, a tecnologia afeta empregos, relações humanas e influencia nos dilemas éticos. "O papa se mostra extremamente contemporâneo e coerente", afirma.

Para Ribeiro Neto, a encíclica resulta do "discernimento que resgata o fator humano em meio a uma sociedade cada vez mais tecnológica e pragmática". "Vivemos tempos nos quais a lógica de mercado, os poderes econômicos e políticos parecem gerir a vida sem nenhum compromisso ético", comenta. "Depois de séculos de desenvolvimento humanista, a sociedade parece dominada por um realismo cínico que nega qualquer ideal humanista."

Nesse contexto, a Igreja oferece uma voz "que julga a realidade a partir de um 'amor social'", argumenta o sociólogo. "E reafirma o valor da pessoa, mesmo quando o poder parece dizer o contrário", explica.

Especialista em inteligência artificial e professor de programação, o empresário de tecnologia Rafael Medeiros tem acompanhado os debates promovidos pela Igreja quanto às balizas éticas do setor. "O papa propõe uma discussão mais ampla", afirma. "A Igreja busca discutir o tema a partir da moral, da ética, da felicidade e do bem comum. Isso tem um peso relevante."

"A encíclica é um texto relevante a todos, não apenas aos católicos. É uma reflexão interessante sobre o assunto", argumenta Medeiros.

Para Medeiros, a inteligência artificial impacta em todas as camadas sociais, acarretando consequências na vida prática de todos. E isto torna o assunto mais urgente para o Vaticano. "São muitas coisas boas, mas também o aumento dos riscos de desinformação, demissões em massa e outros problemas", avalia.

"O papa alerta sobre os riscos, mas se posiciona de forma otimista. Não se trata de parar os avanços tecnológicos, mas sim direcioná-los para o uso do bem", afirma Medeiros.

Entre os problemas levantados por Leão está o oligopólio, ou seja, o controle dessa tecnologia nas mãos de poucas empresas dominantes — de certa forma, isso significa uma influência muito grande na humanidade concentrada em um grupo pequeno de empresários.

Outra preocupação é sobre como a inteligência artificial está impactando na relação entre as pessoas — e das pessoas com a realidade. "Ele quer evitar bolhas e também a autorreferencialidade", analisa Medeiros.

Leão também tem insistido sobre os riscos do uso de inteligência artificial em contexto de guerra;. "Há uma preocupação com a criação de exércitos de humanoides, capazes de promover a aniquilação dos inimigos", pontua Medeiros. Ao mesmo tempo, se esses robôs forem dotados de uma "inteligência", eles poderiam, em tese, assumir o controle de verdadeiros empreendimentos colonizadores, comenta o especialista.

Outro aspecto abordado constantemente pelo papa é como a tecnologia influencia na própria cognição. Cada vez mais as pessoas não usam mais o intelecto, delegando para os computadores e celulares atividades corriqueiras que antes demandavam raciocínio e consciência inteligente. "Ninguém se lembra mais do número do telefone de ninguém, ninguém mais sabe se deslocar pela cidade sem um aplicativo", enumera Medeiros. "A atividade cognitiva foi terceirizada."

O papa Leão 13

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Legenda da foto,Leão 13, com a encíclica Rerum Novarum, publicada 135 anos atrás, inaugurou oficialmente a chamada doutrina social da Igreja

Leão demonstra também preocupação com o aumento do desemprego, à medida que mais e mais a tecnologia acaba suprindo a necessidade de mão de obra humana.

Por fim, o papa tem cobrado uma maior regulamentação para as empresas de tecnologia, com o intuito de proteger a vida das pessoas das implicações negativas do uso de redes sociais e serviços de inteligência artificial.

A jornalista Mascarenhas observa três pilares defendidos pelo papa na discussão: responsabilidade, cooperação e educação. "Responsabilidade por parte das empresas, dos desenvolvedores e dos usuários", destaca ela. "Cooperação entre sociedade, instituições e governos para estabelecer limites éticos. E educação midiática e digital para que as pessoas possam utilizar a tecnologia de maneira consciente."

Doutrina social revisitada

Há ainda um simbolismo. Leão 14 já declarou que escolheu para si este nome em alusão a Leão 13. Exatamente 135 anos atrás, este publicou a encíclica Rerum Novarum, considerada o marco inicial da chamada doutrina social da Igreja — ou seja, quando o Vaticano se volta para questões inerentes à vida em sociedade, não se limitando aos aspectos teológicos.

Na época, o cenário era de pós-revolução industrial, e o papa apontava para uma terceira via possível entre o capitalismo selvagem e o socialismo materialista — ele cobrava uma sociedade mais justa.

Leão 14 busca ser a voz cristã no atual contexto que também traz implicações sobre o mundo do trabalho e das relações humanas: no caso, a revolução tecnológica impulsionada pelas plataformas de inteligência artificial.

"Leão 14 quer participar dessa tradição da doutrina social e acredita que a Igreja de novo pode centrar a reflexão na dignidade da pessoa humana com o objetivo de influenciar os modelos que vão ser adotados para regular as novas tecnologias e as relações de trabalho, as relações políticas e as relações sociais", diz Gonçalves.

"Se a gente pensar que a inteligência artificial interfere em setores produtivos de todo o mundo e pode desencadear uma série de demissões, mas também pode abrir novas fronteiras e novos campos de trabalho, há, sim, um paralelo entre esta encíclica e a Rerum Novarum", comenta Moraes.

Magnifica Humanitas, contextualiza Ribeiro Neto, "se inscreve numa tradição na qual as encíclicas papais são resposta imediata a uma sociedade cada vez mais em crise".

Matemático por formação e nascido nos Estados Unidos, não é de se espantar que Robert Francis Prevost, o papa Leão 14, fale a mesma língua dos cientistas da computação que comandam os rumos das chamadas big tech. E ele parece querer usar essa carta para não só influenciar no debate contemporâneo como para se posicionar de uma forma humana, humanizada e humanitária nesse cenário de revolução digital.

De acordo com levantamento feito pela reportagem, o papa aborda o tema da inteligência artificial em manifestações públicas pelo menos duas vezes por mês.

Dois dias depois de ter sido eleito, em seu primeiro discurso aos cardeais, ele mencionou que o cenário de inovações tecnológicas cobra dos religiosos "respostas cristãs".

Em junho do ano passado, Leão mandou uma carta aos participantes da segunda conferência anual sobre inteligência artificial, ocorrida em Roma. O texto era otimista quanto aos "horizontes" abertos pela tecnologia mas exigia consciência acerca das "questões preocupantes" decorrentes dos avanços.

No segundo semestre, o Vaticano sediou um seminário chamado Rerum Novarum Digital, com cerca de 50 especialistas no tema. A ideia, de acordo com o texto oficial divulgado pela Santa Sé, era "fomentar o diálogo" e também "compartilhar experiências".

No cerne das preocupações, estava a busca de contribuições "para o uso responsável, ético e centrado no ser humano da inteligência artificial". Participaram professores de instituições renomadas como a Universidade de Columbia e o Instituto de Tecnologia de Massachusetts — o Brasil foi representado pelo professor Nestor Caticha, da Universidade de São Paulo.

A aproximação do Vaticano ao mundo da tecnologia não parece ser uma via de mão única. Da apresentação da encíclica, na manhã desta segunda, participou o bilionário canadense Christopher Olah — um dos fundadores da empresa norte-americana Anthropic, umas das gigantes do mundo da inteligência artificial. Para Domingues, a presença do executivo demonstra como o Vale do Silício "está levando a sério aquilo que a Igreja está fazendo" pelo debate.

Para Ribeiro Neto, a presença do empresário demonstra "capacidade real de diálogo com a cultura de nosso tempo". "A Anthropic tem procurado se diferenciar, no mercado de inteligência artificial, como uma desenvolvedora que busca ter responsabilidade ética. E o Vaticano valoriza, convidando alguém ligado a ela, os empreendedores que tem responsabilidade social", ressalta o sociólogo.