Escrevo à luz de uma vela que se consome como os meus dias. Lá fora, a noite em Fortaleza é um manto cerrado, mas os passos na rua nunca me deixam esquecer que sou vigiado. Cada sombra na janela é um olhar, cada silêncio, uma sentença. Dizem que a literatura é teratologia, um monstro que a mão outra, zombeteira, inscreve na página. E, no entanto, é só nesse território instável da memória que ainda posso habitar. Porque a realidade, esta que me cerca, já não me pertence.
Lembro-me de quando a cidade era outra. Antes da Aldeota, antes do medo. As ruas de Fortaleza tinham cheiros que hoje parecem inventados: pão quente, lilases depois da chuva, o cigarro dos homens que falavam alto em cafés onde a poesia ainda era permitida. Agora, tudo é cinza e desconfiança. Até os sonhos foram censurados.
Li num livro, não sei mais qual, que a nostalgia é a compreensão pela memória inventada. E é verdade: para suportar o insuportável, precisei reconstruir o passado como quem monta um quebra-cabeça com peças faltando. Inventei tardes que não vivi, abraços que não dei, palavras que nunca foram ditas. Porque, no fim, o que resta a um perseguido senão a ficção de si mesmo?
As escritoras espanholas que li no exílio — Zambrano, Chacel, María Teresa León — sabiam disso melhor do que ninguém. Elas também foram forçadas a vagar por terras estranhas, carregando a pátria nos dedos que ainda escreviam. Rosa Chacel passou mais de trinta anos no Brasil, onde sua obra era quase invisível, e mesmo assim seguiu registrando, em diários, a dor de ser uma exilada que ninguém via. María Zambrano chamou a isso de "razão poética": a tentativa de pensar com o corpo inteiro, com a saudade, com o que não cabe na lógica dos carrascos.
Quantas noites passei a imaginar o que elas sentiram ao desembarcar em portos desconhecidos, sem saber se voltariam. A guerra civil espanhola produziu uma migração forçada de mais de 400 mil republicanos. Eu sou uma dessas almas, ainda que em outra geografia, em outro tempo. A ditadura não precisa de bombas para destruir uma vida: basta-lhe o silêncio, a solidão, a certeza de que ninguém virá te procurar.
Hoje, ao reler um caderno antigo, encontrei versos que escrevi antes de tudo começar. Falavam de amor, de primavera, de coisas que então me pareciam eternas. Ri — ou seria chorei? — ao perceber que aquele eu já não existe. Foi devorado pelo tempo, pela repressão, pela necessidade de sobreviver. Como diz o velho narrador de Aldeota, já não escrevo literatura; escrevo apenas para não enlouquecer de solidão. Cada palavra é um gesto de resistência, um fio que ainda me liga ao mundo dos vivos.
Mas, às vezes, duvido que alguém leia isto. Talvez estas páginas sejam encontradas apenas por ratos, ou pelo fogo, ou pelo esquecimento. E, no entanto, continuo. Porque a esperança, essa velha companheira dos exilados, insiste em bater à porta mesmo quando já não há porta. As escritoras espanholas, mesmo no exílio mais profundo, nunca deixaram de acreditar que um dia voltariam. Algumas voltaram, sim. Outras, não.
Não sei se verei o fim desta noite. Mas, enquanto houver uma vela, uma caneta, uma página em branco, escreverei. Escreverei sobre os que partiram, os que ficaram, os que foram calados. Escreverei sobre a cidade que perdi, sobre os rostos que já não reconheço, sobre o medo que se tornou meu único companheiro. Escreverei, acima de tudo, para lembrar que houve um tempo em que éramos livres — e que esse tempo, por mais enterrado que esteja, ainda pode ser sonhado.
Se esta carta chegar a ti, não chores por mim. Apenas lembra-te de que houve quem resistisse.
Os desafios matemáticos ocupam um lugar central no desenvolvimento do pensamento humano, não apenas como exercícios de raciocínio lógico, mas como verdadeiros laboratórios da mente. Duas obras fundamentais — How to Solve It, de George Pólya (1945), e The Annotated Turing, de Charles Petzold (2008) — oferecem perspectivas complementares sobre o que significa enfrentar um problema matemático. Enquanto Pólya nos ensina uma arte prática de resolução, Petzold nos conduz pelas fronteiras do que é intrinsecamente irresolvível. A tensão entre esses dois polos — o solucionável e o insolúvel — define o campo dos desafios matemáticos e continua a inspirar pesquisas contemporâneas.
A Heurística de Pólya: Um Método para Enfrentar o Desconhecido
Publicado em 1945 e continuamente em impressão desde então, How to Solve It é um pequeno volume que revolucionou o ensino da matemática. Pólya não oferece fórmulas mágicas, mas sim uma heurística — um conjunto de estratégias gerais que qualquer pessoa pode empregar ao se deparar com um problema. O cerne de sua abordagem reside em quatro princípios fundamentais:
Compreender o problema — antes de qualquer tentativa de solução, é preciso saber exatamente o que se busca. Pólya ensina professores a fazer perguntas como "Qual é a incógnita? Quais são os dados? Qual é a condição?". Muitas vezes, a dificuldade não está na solução em si, mas na má compreensão do enunciado.
Traçar um plano — encontrar a conexão entre os dados e a incógnita. Pólya sugere uma ampla gama de estratégias: procurar padrões, desenhar figuras, resolver um problema mais simples, trabalhar de trás para frente, usar simetria ou considerar casos especiais.
Executar o plano — colocar a mão na massa, verificando cada passo.
Examinar a solução — o "olhar para trás" é talvez o passo mais subestimado. Pólya incentiva o resolvedor a revisar o processo, perguntando-se: "É possível verificar o resultado? É possível obter o resultado de forma diferente? É possível usar o resultado em outro problema?".
A genialidade de Pólya está em reconhecer que a resolução de problemas não é um dom inato, mas uma habilidade que pode ser ensinada e aprimorada. Seus métodos se aplicam não apenas à matemática, mas a qualquer desafio que possa ser "pensado" — desde a construção de uma ponte até a vitória em um jogo de anagramas.
O Desafio da Indecidibilidade: Turing e os Limites da Computação
Se Pólya nos mostra como resolver problemas, Alan Turing — guiado por Charles Petzold em The Annotated Turing — nos mostra que nem todo problema tem solução. Publicado em 2008, o livro de Petzold é uma viagem guiada, linha por linha, pelo artigo seminal de Turing de 1936, "On Computable Numbers, with an Application to the Entscheidungsproblem".
Turing introduziu o conceito de máquina de Turing, um dispositivo teórico que formaliza a noção de "computabilidade". Mas sua contribuição mais profunda foi o Problema da Parada (Halting Problem): não existe um algoritmo que possa determinar, para qualquer programa e qualquer entrada, se esse programa eventualmente para ou continua executando indefinidamente.
Este é um desafio matemático de um tipo inteiramente novo — um problema que não pode ser resolvido. Turing demonstrou que há limites fundamentais para o que pode ser conhecido ou calculado, estabelecendo as bases da teoria da computabilidade. Petzold torna essa ideia monumental acessível, oferecendo capítulos de contexto histórico e matemático antes de mergulhar na prova de Turing, que ocupa a parte central do livro.
A tensão entre Pólya e Turing é reveladora: o primeiro nos equipa com ferramentas para enfrentar problemas, o segundo nos mostra que alguns problemas são, por princípio, invencíveis. Ambos, porém, celebram a jornada intelectual — Pólya ao sistematizar a arte de resolver, Turing ao mapear os limites do resolvível.
Pesquisas Atuais: Pólya na Era da Inteligência Artificial
A relevância dos desafios matemáticos não se limita ao passado. Pesquisas acadêmicas contemporâneas revisitam e atualizam as ideias de Pólya e Turing em novos contextos, especialmente no campo da inteligência artificial.
Um exemplo notável é o Llama-Polya, um modelo de linguagem de grande escala (LLM) desenvolvido em 2026 que integra o framework de quatro passos de Pólya em sua estrutura de diálogo. O objetivo é superar uma limitação crítica dos modelos atuais: embora promissores como tutores inteligentes, eles frequentemente carecem de alinhamento pedagógico com teorias de aprendizagem estabelecidas.
Os resultados são animadores: modelos ajustados com o framework de Pólya produziram distribuições de raciocínio mais equilibradas e menos respostas prematuras. Especialistas observaram melhorias na coerência pedagógica e no estímulo metacognitivo, embora persistam limitações em personalização e rigor matemático.
Outra frente de pesquisa é o STAR-PólyaMath, um sistema multiagente desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Tsinghua e da Microsoft Research Asia. O sistema coordena três agentes de IA — um Raciocinador, um Verificador e um Meta-Estrategista — para resolver problemas de matemática competitiva, aplicando supervisão meta-estratégica persistente. A abordagem torna o raciocínio verificável e rastreável, permitindo que o sistema acumule experiência entre tentativas.
No campo educacional, pesquisadores brasileiros têm investigado a aplicação da heurística de Pólya no ensino do pensamento computacional para estudantes do ensino médio. Estudos como o de Soares, Poloni e Miotto (2025) exploram como os quatro passos de Pólya podem ser integrados a indicadores de pensamento computacional — decomposição, reconhecimento de padrões, pensamento algorítmico e depuração.
Conclusão
Os desafios matemáticos, vistos através das lentes de Pólya e Turing, revelam-se muito mais do que simples quebra-cabeças. São microcosmos do pensamento humano — espaços onde a criatividade encontra a lógica, onde a intuição dialoga com a demonstração, e onde a persistência é recompensada, mas também onde a humildade diante do insolúvel se faz necessária.
Pólya nos ensina que todo problema, por mais intimidador que pareça, pode ser abordado com método e estratégia. Turing nos lembra que há fronteiras intransponíveis para o conhecimento computacional. E a pesquisa atual, ao integrar essas lições à inteligência artificial, sugere que o verdadeiro desafio matemático não é apenas resolver — é também ensinar máquinas a resolver, e ensinar humanos a pensar melhor sobre como resolvem.
Como escreveu Pólya, "se você não pode resolver o problema proposto, tente primeiro resolver algum problema relacionado". Talvez o maior desafio de todos seja justamente esse: aprender a formular as perguntas certas, reconhecendo que a jornada — e não apenas a solução — é o que verdadeiramente nos transforma.
O sol nem bem nasceu, e o "expediente" delas já se encerrou. Depois que a caminhonete partiu carregada de ovos, as galinhas de penas castanhas avermelhadas foram liberadas para saírem do galinheiro e ciscarem pelos arredores.
Os ovos seguiram para o centro de produção do Grupo Korin (lê-se kôrin, que significa "círculos de luz"), em Ipeúna, a 200 km de São Paulo. A marca é mais conhecida nas gôndolas dos maiores supermercados por suas linhas de frango natural e orgânico, mas também produz ovos, hortaliças, carne vermelha, peixes, mel, cereais, fertilizantes e desinfetantes naturais obtidos pela fermentação de materiais orgânicos.
Nesta granja, assim como em todas as parceiras da Korin, os animais são tratados de forma incomum. Não recebem antibióticos, são alimentados com ração livre de transgênicos e vivem com mais espaço. No plano espiritual, as galinhas castanhas e os frangos de penas brancas são recordados anualmente em uma cerimônia.
Em um gramado cercado de flores, funcionários, do chão da fábrica à presidência, realizam, todo mês de agosto, um sufrágio pelo espírito dos animais abatidos, agradecendo-lhes pela função de alimentar e nutrir os seres humanos e fazendo orações de despedida desses espíritos.
Por décadas, a Korin cultivou quase tanto discrição quanto galinhas. Sua fundação está calcada na disseminação dos ideais de Mokiti Okada (1882–1955), filósofo japonês e fundador da Igreja Messiânica Mundial, em 1935 no Japão.
Diz a história que Okada, também conhecido pelo nome religioso de Meishu-Shama ("senhor da luz"), contraiu tuberculose na juventude e estava desenganado. Mas, miraculosamente, ele melhorou, depois que passou a se alimentar somente de vegetais, cultivados de maneira natural. Isto é, sem agrotóxicos ou qualquer outro componente químico.
Produzir alimentos desta forma tornou-se um dos três pilares da religião criada por ele anos mais tarde, além de cultivar o belo, representado pelos ikebanas, arranjos florais minimalistas, que valorizam a simetria e a harmonia entre as flores e as linhas. Forma a tríade o Johrei, que consiste na canalização e transmissão de energia espiritual por meio da imposição das mãos.
Para os messiânicos, ser saudável e livre de doenças é um dos critérios para atingir o nirvana, que eles chamam de Paraíso Terrestre.
A terra é, portanto, elemento fundamental. Por isso, os messiânicos criaram na década de 1970 um polo de agricultura natural. Em um pequeno sítio em Atibaia, no interior de São Paulo, eles plantavam hortaliças e criavam alguns animais para consumo próprio.
À medida que o número de fiéis aumentou, o sítio ficou pequeno. Para expandir a produção e também partir para um modelo comercial, o polo de agricultura natural mudou-se para Ipeúna, transformou-se em empresa e ganhou o nome de Korin.
Era o início da década de 1990, a alimentação orgânica não estava na moda e bebida fermentada era sinônimo de Yakult, que — coincidência ou não — também surgiu no Japão.
Crédito,Vitor Serrano/BBC
Legenda da foto,Tanto o frango quanto os ovos da Korin são produzidos por parceiros selecionados que passam por rigorosas auditorias
Por isso, muita gente, especialmente a indústria, torceu o nariz quando os alimentos da Korin começaram a chegar aos mercados com o rótulo de livres de antibióticos.
"Éramos vistos como malucos ou irresponsáveis", diz Edson Matsui, presidente do grupo. "Diziam que íamos disseminar doenças."
Passadas mais de três décadas, a Korin distribui nacionalmente os cerca de 300 produtos do seu portfólio e virou sinônimo de carne de frango natural. Responsável por 70% do faturamento da empresa, o frango da Korin aparece como chamariz em cardápios de restaurantes, rótulos de papinhas infantis e até na fórmula de ração para cães e gatos.
A ligação com a Igreja Messiânica ainda permanece estruturante: além de inspirar a filosofia da empresa, a instituição é sua mantenedora e compõe toda a sua direção. Seus fiéis — 103 mil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2010, 1,8 milhão, de acordo com a igreja hoje — têm descontos na compra de alimentos vendidos em feiras nos dias de culto.
'Um ano sem frango'
O sucesso da empresa está no controle rigoroso da sua produção. Como não trabalham com granjas próprias, os parceiros fornecedores passam por treinamentos e diversas auditorias.
Willian Fernandes Leite e Ana Cláudia Laurenti Marchini Leite fazem parte desses parceiros, chamados na empresa de "horizontais". Eles trocaram São Paulo pela região de Ipeúna há alguns anos para produzir frango.
Em dado momento, o casal rompeu com a Korin, em um "divórcio" que durou cerca de um ano. Neste período, criaram frango seguindo o processo convencional, com mais aves por metro quadrado, ração mais barata e produzida com grãos geneticamente modificados e o uso livre de antibióticos.
Assim, a rentabilidade, diz Willian, aumentou um pouco, cerca de 10%. "As aves morriam menos, e eu podia criar mais frangos por metro quadrado", explica.
Mas o lucro não foi suficiente para que o negócio perdurasse.
Crédito,Vitor Serrano/BBC
Legenda da foto,Ao deixar de produzir frango para a Korin, um fornecedor também deixou de comer a sua própria produção, devido à quantidade de antibióticos que os animais recebiam
No dito popular, o olho do dono é o que engorda o gado. Neste caso, o frango. Mas, para Willian e Ana Cláudia, estar por perto não bastou para que eles consumissem a própria produção.
"Era tanto remédio e antibiótico que o bicho tomava que eu não tinha coragem de comer a carne depois", diz Willian.
Ele se refere ao uso de antimicrobianos, que são medicamentos naturais ou sintéticos — como os antibióticos — usados para matar ou inibir o crescimento de microrganismos causadores de infecções.
Na criação intensiva, ou tradicional, esses medicamentos são utilizados para acelerar o crescimento dos animais e como profilaxia de doenças, antes mesmo que elas sejam contraídas.
O resultado da experiência com a criação intensiva foi a restrição alimentar do casal. "Ficamos um ano sem comer frango", diz Willian.
Voltando a fornecer para a Korin, Willian explica que a rentabilidade não é o mais importante. "Por esse frango a gente tem mais carinho", diz.
"É um bichinho saudável que vai alimentar as pessoas. Tem coisas que o dinheiro não paga."
Os frangos do casal abastecem parte das cerca de 17,5 mil aves abatidas diariamente pela empresa, número pequeno frente ao volume da avicultura nacional de 18 bilhões de abatimentos diários, mas suficiente para consolidar a marca em nichos específicos.
Crédito,Vitor Serrano/BBC
Legenda da foto,A Korin abate 17,5 mil aves diariamente, frente ao volume da avicultura nacional de 18 bilhões de abatimentos diários
Os produtores que abastecem a Korin de frango e ovos têm suas granjas, na maioria, espalhadas pelas redondezas da fábrica. Passam por rigorosas inspeções para garantir tanto a produção com base nos preceitos da empresa, quanto selos, como o de orgânico — quando é o caso — e o de bem-estar animal — em todos os casos.
Para comprovar o cumprimento desses requisitos na prática, as propriedades e as produções são periodicamente avaliadas por uma dezena de empresas certificadoras independentes. Cada uma delas emite um certificado diferente, com critérios ambientais e sociais.
A ausência de antibióticos na criação de frangos e galinhas também impõe cuidados redobrados com biosegurança. A reportagem não pôde entrar no aviário, apenas em uma área próxima e, ainda assim, precisou utilizar vestimentas especiais.
Em época de transmissão de vírus, como o da gripe aviária, os animais são proibidos de sair do galinheiro, já que podem se contaminar por meio de aves silvestres, norma estabelecida por parte das certificadoras.
A produção da Korin afirma considerar o bem-estar dos animais "como princípio". Além da saúde, conforto, nutrição, manejo e abate humanitários, os animais, segundo a empresa, têm o direito de "expressar comportamentos naturais inerentes à espécie e não devem ser submetidos a sofrimentos como dores, medo ou angústia".
Nessa linha, as galinhas dividem o espaço no viveiro com alguns poucos — mas fundamentais — galos. "Melhora o bem-estar, e elas ficam mais calmas", explica a veterinária do grupo, Leikka Iwamura.
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Legenda da foto,'A Korin não tem condições de produzir alimentos dentro desse modelo para o mundo inteiro', afirma Edson Matsui, presidente do grupo
Frango mais caro
Para garantir que o processo de agricultura natural da Korin seja seguido à risca desde o começo, a empresa adquire pintinhos com um dia de vida e realiza o acompanhamento técnico, a assistência veterinária e fornece a ração, cuja fórmula é guardada a sete chaves e não é comercializada.
Isso porque a alimentação dos animais, afirma Matsui, é um dos diferenciais da empresa. A fórmula leva somente grãos não geneticamente modificados de milho, soja e sorgo, uma opção que encarece o produto final.
Na criação tradicional, o excedente do frango, como penas, vísceras e bicos, é utilizado na produção de ração para alimentar outros frangos, reduzindo o preço da produção.
"A gente não faz isso", diz Matsui. Ali, o excedente é vendido para a indústria de ração para pet.
Ele afirma que o valor da alimentação das aves responde por 60% a 70% dos custos de produção, tornando o produto final mais caro. "Se utilizássemos grãos transgênicos, o valor cairia de 20 a 25%."
Por essas razões, os frangos "vegetarianos" da Korin acabam tendo um preço consideravelmente mais alto. A linha orgânica pode chegar a até cinco vezes mais cara, enquanto a linha natural (cuja diferença é que a ração não é feita com grãos orgânicos), pode custar até três vezes mais que o frango tradicional. O mesmo ocorre com os ovos.
Matsui afirma que o preço mais elevado é um fator importante a ser considerado na estratégia do processo de expansão da empresa. Mas reconhece que seu modelo de produção é limitado.
"A Korin não tem condições de produzir alimentos dentro desse modelo para o mundo inteiro", diz.
"Nós somos esse modelo e podemos vender esse know-how para que mais empresas queiram também produzir desta forma."
Crédito,Vitor Serrano/BBC
Legenda da foto,Os ikebanas, esses arranjos florais minimalistas da Igreja Messiânica, estão espalhados por todo o centro de produção da Korin
Depois das galinhas, tomates
Embora a Korin tenha surgido e crescido ancorada nos mesmos princípios, o grupo aposta também em inovação e pesquisa. Um dos braços da empresa é o Centro de Pesquisa Mokiti Okada, fundado em 1989, cinco anos antes da fundação da Korin.
É ali que vive a galinha dos ovos de ouro da empresa.
As tecnologias desenvolvidas por eles dão origem a diferentes produtos, todos feitos a partir de matéria orgânica não transgênica, com processos de fermentação, para diversas finalidades.
Grosso modo, os chamados bioinsumos são parecidos com a kombucha, para os mais modernos, ou o Yakult, para os saudosos.
São linhas de neutralizadores, desengordurantes e higienizadores para pets, decompostos para efluentes da indústria, reguladores e fortificantes tanto para o solo quanto para o intestino dos animais, além de fórmulas para limpar o local onde eles vivem.
Este último também elimina a amônia produzida pelos excrementos em contato com a "cama" dos animais, evitando que as aves aspirem a substância e danifiquem suas vias aéreas.
Segundo os ensinamentos de Mokiti Okada, os microrganismos do solo são fundamentais para que a terra tenha força vital capaz de gerar alimentos saudáveis.
Por isso, para chegar a essas fórmulas desenvolvidas com muita pesquisa, uma área no centro de produção de Ipeúna teve papel importante: a plantação de tomates, presente no mesmo local desde 1994.
Crédito,Vitor Serrano/BBC
Legenda da foto,A Korin segue os preceitos da Igreja Messiânica do Brasil
"Esse campo foi muito utilizado para aperfeiçoar os bioinsumos", explica Sergio Kenji Homma, diretor-superintendente da Korin.
Hoje, os tomates enormes e vermelhos da Korin são exibidos com orgulho pela diretoria que recebeu a BBC News Brasil no centro de produção.
Mas nem sempre foi assim. "Foram anos e anos perdendo tomate", diz Matsui. Ele calcula que, nos 30 anos da plantação, ao menos durante 15 anos eles tiveram mais perdas do que ganhos.
Agricultura 'disruptiva'
Quando a Korin começou a operar, o modelo proposto pela empresa era visto como improvável. Produzir sem antibióticos, com menor densidade de criação e apostando na vitalidade do solo — em vez de fertilizantes químicos — era encarado como inviável do ponto de vista econômico.
"O que fazíamos era muito disruptivo", diz Matsui.
Hoje, o uso excessivo de antimicrobianos na pecuária brasileira levou a União Europeia (UE) a vetar a compra de carne bovina e de frango do Brasil. O Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) tem até 3 de setembro para apresentar aos europeus evidências de que não usará mais esse tipo de medicamento com a finalidade de promover o crescimento ou aumentar o rendimento.
O mercado europeu tem participação relativamente pequena nas exportações de frango brasileiro — 4,5% — frente ao que importam os Emirados Árabes Unidos, Japão e Arábia Saudita, os maiores compradores de frango do Brasil, segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).
Ainda assim, a decisão da UE pode apontar para os caminhos que a indústria de carne brasileira deve seguir, se não quiser perder o posto de maior exportadora de frango do mundo.
Se há 30 anos cultivar animais sem o uso de antibióticos, plantar alimentos sem agrotóxicos e priorizar a alimentação natural era "disruptivo", hoje esses preceitos entraram na lógica de mercado.
Para Edson Matsui, não há nenhuma novidade nisso.
"Esperamos o tempo certo para quebrar esses paradigmas. E isso é um dos ensinamentos de Mokiti Okada: não é querer convencer ninguém de que o método está errado", afirma ele, com a mesma paciência de quem esperou por quase 30 anos para colher tomates vermelhos e polpudos no pé.