SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

terça-feira, 16 de junho de 2026

Agentes no OnlyFans controlam e ameaçam modelos enquanto retêm metade dos ganhos, revela BBC

 

Rebecca posa diante de um muro de pedra clara. Ela tem cabelos loiros longos e ondulados, veste uma blusa preta e uma jaqueta rosa-clara e olha para a câmera com expressão pensativa

Crédito,Gus Palmer/BBC

Legenda da foto,Rebecca, criadora de conteúdo no OnlyFans, foi alvo de mensagens abusivas e violência
    • Author,Natasha Cox
      Author,Amelia Ellis
      Author,Kirstie Brewer
    • Author,Mike Radford
    • Role,BBC News
  • Published
  • Tempo de leitura: 11 min

Aviso: esta reportagem contém relatos de violência que podem ser perturbadores para alguns leitores

Rebecca, criadora de conteúdo na plataforma OnlyFans, afirma que entrou para uma agência depois que lhe prometeram ajudar a aumentar seus ganhos na rede social voltada para conteúdo adulto.

Em vez disso, segundo ela, foi vítima de abusos, recebeu ameaças contra a filha e teve homens mascarados enviados à sua casa para agredi-la.

"Eles eram adoráveis no começo."

A mulher de 29 anos, do sul do País de Gales, diz que seus novos empresários afirmavam que ela era bonita e que "nunca tinham visto uma garota" como ela.

Mas, em poucas semanas, eles se tornaram "bastante controladores", passando a insultar sua aparência e a proibi-la de sair com amigos, conta ela no documentário OnlyFans: Inside the Machine (OnlyFans: Por dentro da Máquina, em tradução livre), da BBC Three (em inglês).

Segundo Rebecca, o comportamento abusivo se intensificou depois que ela alterou os dados de acesso à conta, preocupada com a possibilidade de a agência, que tinha acesso ao perfil, bloqueá-la.

"Vou acabar com você e com sua filha", dizia uma das mensagens enviadas para ela e vistas pela BBC.

Um tijolo foi arremessado contra a janela de sua casa e, algumas semanas depois, dois homens mascarados apareceram no local.

Um deles entrou na residência e, segundo Rebecca, a estrangulou e a jogou "escada acima e abaixo". Ela mostrou à reportagem da BBC fotografias de hematomas nas pernas e no pescoço.

Seu relato faz parte de um padrão de acusações contra agentes que se apresentam nas redes sociais como gestores de contas de OnlyFans, conhecidos pela sigla OFM (OnlyFans Managers).

Eles prometem ajudar os criadores de conteúdo a expandir seus negócios na plataforma, mas informações obtidas pela BBC mostram que, em alguns casos, atuam de forma exploratória e fazem ameaças.

Ouvimos 60 criadores de conteúdo do OnlyFans no Reino Unido e nos infiltramos em um dos maiores grupos privados de agentes no Telegram, chamado OFM Empire, que reúne 24 mil membros.

Ali, encontramos orientações sobre como recrutar criadores, assumir o controle de suas contas e lucrar com isso, muitas vezes recorrendo à ameaça de violência. Um dos usuários chamou essa estratégia de "método cafetão".

A plataforma OnlyFans tem conhecimento de preocupações relacionadas a gestores de contas excessivamente exploradores há pelo menos quatro anos, quando denúncias envolvendo agências começaram a aparecer na imprensa internacional.

Mas, pela primeira vez, nossa investigação se concentra no Reino Unido, onde a plataforma OnlyFans está sediada.

Segundo especialistas em direitos humanos e advogados que tiveram acesso às conclusões da BBC, a plataforma não está fazendo o suficiente para proteger os criadores de conteúdo contra exploração.

"O que a Rebecca viveu reúne sinais amplamente reconhecidos de exploração: controle, coerção, pressão financeira e impossibilidade de sair livremente", afirma à BBC Eleanor Lyons, comissária independente contra a escravidão moderna do Reino Unido.

"É algo que o governo precisa examinar com mais atenção. Podemos estar diante de uma plataforma que facilita a exploração e os abusos."

Um porta-voz do OnlyFans afirmou que "a acusação de que a empresa 'fecha os olhos' [para esses problemas] é infundada".

Segundo esse porta-voz, a companhia leva a segurança dos usuários "extremamente a sério" e investe "pesadamente" em medidas para proteger a sua comunidade. Ele acrescentou ainda que a plataforma cumpre todas as obrigações previstas na Lei de Segurança Online do Reino Unido.

"A relação do OnlyFans é com seus criadores de conteúdo e fãs. Não temos vínculo nem endossamos terceiros, incluindo agências de gestão."

"Infelizmente, não podemos revisar nem influenciar relações contratuais que os criadores escolham estabelecer fora da plataforma, porque não fazemos parte desses acordos."

Retrato de Gia Clarke e Lily Phillips, criadoras de conteúdo do OnlyFans. Gia, à esquerda, veste uma regata branca e tem tatuagens no pescoço e nos ombros, emolduradas por longos cabelos loiros. Lily, à direita, usa uma camiseta escura e tem cabelos castanho-claros ondulados. Ambas olham para a câmera e sorriem discretamente
Legenda da foto,Gia Clarke e Lily Phillips são criadoras de conteúdo bem-sucedidas no OnlyFans, mas afirmam que as mulheres na plataforma podem estar vulneráveis à exploração

Mais de 4,6 milhões de criadores de conteúdo em todo o mundo publicam vídeos e fotos para assinantes pagantes no OnlyFans. A plataforma fica com 20% da receita.

Um dos casos de maior sucesso das redes sociais no Reino Unido, a empresa que opera o OnlyFans, a Fenix International, registrou lucro antes de impostos de US$ 684 milhões (cerca de R$ 3,8 bilhões) em seu balanço mais recente.

Ao mesmo tempo, cresceu em torno da plataforma um ecossistema global de gestores de contas conhecidos como OFMs. Eles prometem atrair mais assinantes e aumentar os ganhos dos criadores. Em troca, ficam com uma parte da receita, geralmente 50%.

'Relação de servidão'

Gia Clarke, criadora de conteúdo britânica que publica no OnlyFans desde o lançamento da plataforma, há dez anos, diz receber mais mensagens de pessoas que se apresentam como agentes do que de fãs.

"A ideia [dos OFMs] é muito boa. O problema é que há gente demais sem qualificação atuando nessa área. Como não existe regulamentação, as modelos não sabem em quem confiar", afirma. Ela descreve alguns desses gestores como "predatórios".

Contratos entre criadores de conteúdo e esses agentes ou gestores obtidos pela BBC mostram gestores ficando com até 70% dos ganhos. Muitos exigem acesso total às contas e impõem multas a quem tenta encerrar os contratos antes do prazo.

"Eles [OFMs] estão se aproveitando da situação, o que quase coloca esses criadores em uma relação de servidão com agentes e agências, presos a contratos injustos", afirma Matt Jury, do escritório especializado em direitos humanos McCue Jury & Partners.

Sophie Kemp, chefe da área de direito público do Kingsley Napley, concorda. "Isso não parece, de forma alguma, uma relação contratual justa. Esses contratos parecem ser o primeiro passo em direção à exploração dos criadores de conteúdo."

Exemplo recriado a partir de uma conversa real no Telegram entre integrantes do OFM Empire, grupo voltado a gestores de contas do OnlyFans. O Usuário 1 escreve: “Tenho uma modelo que está se recusando a pagar”. O Usuário 2 responde: “Mande alguém ir visitá-la”. Em seguida, o Usuário 3 comenta: “Eu apareceria na porta dela por causa disso, risos”.
Legenda da foto,A BBC encontrou conversas como esta no Telegram

Vários dos 60 criadores de conteúdo ouvidos pela BBC afirmaram que seus gestores acessaram as suas contas e mentiram sobre os ganhos obtidos para ficar com uma parcela maior do dinheiro.

Um deles disse que o gestor alterou a sua senha para impedi-lo de acessar a conta.

Outro afirmou que seu gestor trocou os dados bancários cadastrados, fazendo com que os pagamentos fossem depositados diretamente na conta dele.

Táticas semelhantes são discutidas abertamente no canal OFM Empire, no Telegram.

"Crie um e-mail e uma senha para o [OnlyFans] dela. Assim, ela não consegue entrar", escreveu um usuário. "Tenho acesso à plataforma de pagamentos em nome dela usando o e-mail que criei. Tenho a senha. Tenho controle total de tudo."

Segundo um porta-voz do OnlyFans, a plataforma adota "processos rigorosos de verificação de novos usuários, controles de pagamento e monitoramento contínuo das contas".

Ele afirmou que, quando surgem preocupações sobre uma conta, o OnlyFans restringe imediatamente o acesso, abre uma investigação e toma medidas para garantir que o criador de conteúdo esteja no controle do perfil.

Mas, quando uma repórter da BBC criou uma conta usando uma fotografia verificada, ela conseguiu cadastrar os dados bancários de um colega para receber pagamentos de teste.

O OnlyFans informou à BBC que, "no Reino Unido, quando um criador solicita um saque, os prestadores terceirizados responsáveis pelos pagamentos realizam verificações para confirmar o titular da conta bancária. Quando essa checagem não é concluída com sucesso, o pagamento é rejeitado".

Rebecca olha para alguém fora do enquadramento. Ela aparece séria, com cabelos loiros ondulados emoldurando o rosto
Legenda da foto,Rebecca alerta outras mulheres a pesquisar bem antes de trabalhar com um gestor de contas do OnlyFans

Rebecca afirma que decidiu mudar a senha de sua conta no OnlyFans depois que uma amiga, representada pelo mesmo gestor, teve seus dados de acesso alterados sem consentimento e foi impedida de entrar na própria conta.

Ela diz que, em seguida, passou a receber ligações e mensagens abusivas.

"Ele estava me enviando o meu próprio endereço e dizendo que iria arrastar eu e minha filha pelos cabelos", relata Rebecca.

"Até logo, sua vadia", dizia outra mensagem mostrada por ela à BBC.

Poucos dias depois, segundo ela, um tijolo foi arremessado contra a janela de sua casa. Rebecca afirma que chamou a polícia, mas estava com medo demais para mencionar a agência ligada ao OnlyFans.

Ela também relata ter sido agredida três semanas depois, quando dois homens mascarados apareceram em sua residência.

"Um [deles] estava em cima de mim, me estrangulando, enquanto eu tentava alcançar o telefone para ligar para alguém porque achei que aquele era o fim. Depois que mostraram o que queriam mostrar, pararam e foram embora."

Rebecca está convencida de que o gestor está por trás dos dois episódios. "Não tenho problemas com mais ninguém", afirma.

Selfie de Rebecca sentada, com o rosto encoberto pelo celular. Ela veste shorts cinza e apresenta hematomas escuros nos dois joelhos, além de marcas de hematomas nos braços
Legenda da foto,Rebecca mostrou à BBC fotografias dos hematomas em seu corpo

Rebecca não é a única criadora de conteúdo que afirma ter sofrido ameaças.

Outra mulher, que pediu para não ser identificada, conta que inicialmente concordou em repassar entre 35% e 40% de seus ganhos ao gestor da conta, mas depois concluiu que a porcentagem era alta demais.

"Ele me disse que, se eu quisesse reduzir [o] percentual, teria que pagar 10 mil libras (cerca de R$ 74 mil), por todo o tempo e esforço que investiu em mim."

Quando ela se recusou, disse que o gestor respondeu que ela "receberia o que merecia".

"Será que ele vai aparecer na minha casa? Vai apagar minha conta? Ele costumava contar histórias sobre o que tinha feito com outras garotas, como conseguiu derrubar as contas delas ou enviou advogados às suas casas", afirma.

"Toda semana recebia uma mensagem estranha: 'Você vai receber o que merece. Espere para ver, está chegando'", conta. Desde então, ela rompeu com esse gestor.

Leanne, de 33 anos, assinou um contrato que dava ao gestor acesso à sua conta, autorização para alterar o endereço de e-mail vinculado ao perfil e direito a 50% de seus ganhos, já descontada a parte cobrada pela plataforma.

O contrato, obtido pela BBC, também estabelecia que ela deveria atender aos pedidos de conteúdo dos assinantes em até 24 horas.

Leanne afirma que deixou claro, ao assinar o acordo, que não produziria vídeos sexualmente explícitos. Ainda assim, segundo ela, o gestor a pressionava constantemente para fazê-los.

Por fim, aceitou gravar um vídeo desse tipo "para fazê-los calar a boca", desde que ele não fosse vendido aos seguidores por menos de US$ 250 (cerca de R$ 1.400).

Ela diz ter se sentido "fisicamente nauseada" depois da gravação e afirma que nem sequer assistiu ao vídeo.

Leanne está sentada em um sofá branco, olhando para alguém com expressão séria. Ela tem cabelos longos e escuros e usa óculos apoiados sobre a cabeça
Legenda da foto,Leanne não produz mais conteúdo para o OnlyFans

Mais tarde, Leanne descobriu que o vídeo havia sido vendido por menos de US$ 40 (cerca de R$ 220).

"Isso me fez sentir tão nojenta e tão humilhada", afirma. Ela não publica mais conteúdo no OnlyFans.

O OnlyFans já tinha conhecimento de preocupações relacionadas a OFMs excessivamente exploradores por meio da cobertura da imprensa. Mas a BBC também identificou pelo menos uma criadora de conteúdo que tentou alertar diretamente a empresa.

Riley informou a plataforma sobre discussões no grupo OFM Empire que sugeriam que agentes estavam comprando e vendendo contratos de criadores de conteúdo sem que eles soubessem.

"As táticas desses grupos se tornam cada vez mais exploratórias", escreveu ela em um e-mail enviado à equipe de suporte do OnlyFans em 2024, visto pela BBC.

A plataforma pediu que ela apresentasse provas. Riley então enviou links para o OFM Empire e capturas de tela de mensagens publicadas no fórum.

Posteriormente, ela foi informada de que não havia evidências suficientes para que o OnlyFans tomasse alguma providência.

O OnlyFans afirmou à BBC que "quaisquer pessoas mal-intencionadas que estejam explorando criadores de conteúdo" devem ser denunciadas à plataforma e, quando necessário, à polícia, para que "possam ser responsabilizadas e para que medidas apropriadas sejam tomadas para proteger nossa comunidade de criadores".

Lyons, comissária independente contra a escravidão moderna do Reino Unido, afirma que o OnlyFans tem a obrigação legal de proteger os usuários contra conteúdo ilegal e de agir rapidamente para removê-lo quando toma conhecimento dele.

"É alarmante que casos de exploração estejam sendo denunciados e aparentemente não recebam uma resposta adequada", diz Lyons após analisar os e-mails enviados por Riley.

"Isso levanta sérias dúvidas sobre se o OnlyFans está cumprindo suas obrigações legais de proteger os usuários."

Lyons afirma que já está dialogando com o Ofcom, órgão regulador da segurança online no Reino Unido, e com formuladores de políticas públicas, que, segundo ela, "precisam prestar muito mais atenção" ao problema.

Ela acrescenta que esses agentes ou gestores deveriam estar sujeitos a uma fiscalização mais rigorosa e possivelmente a um sistema de licenciamento.

O Ofcom informou à BBC que os relatos das vítimas apresentados nesta investigação são "profundamente preocupantes".

"Plataformas e aplicativos regulados, como o OnlyFans, devem avaliar o risco de seus serviços serem utilizados para facilitar a prática de crimes", afirmou o órgão em nota.

"No entanto, delitos cometidos inteiramente fora do ambiente digital não estão abrangidos pela Lei de Segurança Online."

Lily Phillips, uma das criadoras de conteúdo britânicas mais bem remuneradas do OnlyFans, afirma que a falta de regulamentação dos OFMs cria "um ambiente perigoso, no qual pessoas vulneráveis podem ser exploradas".

"As pessoas percebem quanto dinheiro é possível ganhar no OnlyFans. Então todo mundo quer uma fatia desse mercado, especialmente os homens... eles querem uma parte", afirma.

Kemp, do escritório de advocacia Kingsley Napley, afirma que o OnlyFans tem um dever de cuidado em relação aos criadores de conteúdo e que, com base nas evidências reunidas pela BBC, acredita que "é apenas uma questão de tempo até que o OnlyFans enfrente ações por negligência movidas por criadores que sofreram danos".

Rebecca diz que queria provar que sua antiga agência estava errada ao fazer sucesso por conta própria no OnlyFans.

Hoje, ela é representada por uma agência em que o conteúdo é gerenciado por mulheres, o que, segundo ela, a faz "se sentir muito melhor".

Rebecca afirma que trabalhar como criadora de conteúdo no OnlyFans "não é algo para sempre" e espera que, um dia, tenha ganhado dinheiro suficiente para talvez abrir sua própria escola de equitação.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

O capitão do mato somos nós quando desistimos da nossa humanidade para aceitar um salário. Por Egidio Guerra.




A profissão "capitão do mato" representa, sob a ótica da burocracia de nível de rua, o ápice do desserviço público: a captura da discricionariedade estatal para oprimir, em vez de servir. 

A Engrenagem do Desserviço

Se a Burocracia de Nível de Rua (BNR), definida por Michael Lipsky, é onde a política pública se encontra com o cidadão – através de professores, policiais, assistentes sociais –, ela pressupõe um "encontro" que deveria mediar direitos. O "capitão do mato" subverte essa mediação, transformando-a em caça. Lipsky nota que a discricionariedade dos agentes de ponta, aliada a cargas de trabalho excessivas e diretrizes ambíguas, frequentemente leva ao "processamento em massa" de pessoas. No entanto, quando essa "flexibilidade" é capturada por uma lógica de opressão, o Estado, em sua face mais vil, reproduz desigualdades e autoriza o extermínio. É o que se vê quando agentes estatais agem com o mesmo comportamento dos capitães de outrora.

A Farda do Capitão Contemporâneo

Na versão atualizada da função, a perseguição não é mais física, mas ideológica e institucional. Como aponta Abdul-Rahim Mohammed, o contexto de instituições estatais fracas potencializa essa distorção, pois a fronteira entre a aplicação da lei e a reprodução de privilégios se torna tênue. O policial que realiza revistas "aleatórias" em que 100% dos abordados são negros, por exemplo, encarna o novo capitão do mato, agindo com a mesma lógica de seus antepassados coloniais. Peter Hupe, em sua análise da burocracia de nível de rua, questiona a excessiva similaridade atribuída a todos os trabalhadores da ponta, ignorando como o status profissional pode influenciar o uso da discricionariedade. No Brasil, essa discussão é crucial, pois profissionais de segurança pública, muitas vezes oriundos das próprias comunidades que reprimem, exercem um poder que, em vez de proteger, caça e desumaniza.

A Realidade Brasileira e o Legado da Desigualdade

O Brasil, com sua herança escravocrata e desigualdade estrutural, é o terreno fértil para essa distorção. Gabriela Lotta, principal referência nacional no tema, enfatiza que os burocratas de nível de rua (professores, policiais, agentes de saúde) são a linha de frente onde os direitos se concretizam ou são negados. No entanto, quando esse exército de profissionais é mal treinado, mal remunerado e inserido em uma lógica de guerra às drogas que privilegia a repressão seletiva, ele se torna uma ferramenta de manutenção do racismo e da pobreza. A discricionariedade do policial que decide quem abordar, quem revistar e quem matar não é um desvio individual, mas um sintoma de uma política pública que terceirizou a gestão da pobreza e da negritude para os capitães do mato de plantão. Como ironiza o poeta, é oprimido que se vangloriam de seus momentos de opressão, repetindo o ciclo vicioso que Simone de Beauvoir já denunciava.

Desmascarando o Servo da Opressão

O capitão do mato na burocracia de nível de rua é o escudo que protege o opressor e a espada que fere o oprimido. É o funcionário público que, em vez de servir, caça; que, em vez de acolher, exclui; que, em vez de distribuir justiça, a torna seletiva. Ele é o produto de um Estado que, ao invés de investir em educação, saúde e oportunidades, prefere armar seus agentes para perseguir quem já nasceu em desvantagem. Desmascará-lo é o primeiro passo para devolver ao serviço público seu verdadeiro sentido: o de construir pontes, não muros; o de libertar, não aprisionar.

O capitão do mato não foi uma exceção. Ele é o molde. Sua existência é o contrato social escancarado do colonizador com a América Latina: aquele que, em troca de uma migalha de poder e da permissão para sobreviver, jura fidelidade à chibata.

A Captura da Alma Latina

Ao contrário do conquistador de armadura, que vinha de fora, o capitão do mato era uma criatura fabricada internamente. Ele não era um estrangeiro; era o vizinho, o antigo escravo alforriado, o homem pobre coagido pela fome, o marginalizado que aceitou o pacto da opressão para deixar de ser a vítima e se tornar o carrasco. Essa dinâmica perversa é a gênese da nossa violência estrutural.

Lendo Patrick Chamoiseau em Texaco, a saga da Martinica nos mostra que a sobrevivência do oprimido sempre foi uma negociação com o algoz. O capitão do mato é o "ventríloquo" do sistema: ao falar com a voz do senhor, ele silencia sua própria ancestralidade, tornando-se o primeiro soldado do capitalismo racial na América Latina.

O Teatro das Opressões: Como a Literatura Decifrou o Carrasco

As entranhas do continente estão escritas a sangue e tinta. A figura do capitão do mato, em suas variações locais, é um espectro que assombra a literatura latino-americana:

  • A Perseguição à Vida (Rosario Castellanos, Balún Canán): Na Chiapas de Rosario Castellanos, a opressão não vinha apenas da espada, mas da despossessão da terra e da memória. Os capitães do mato modernos eram os jagunços e os "mozos" a serviço dos latifundiários que, assim como no Brasil, reprimiam os indígenas. Eles não apenas caçavam corpos, mas dominavam mentes ao impor o terror como linguagem universal.

  • A Miséria como Moeda (Manuel Rojas, Filho de Ladrão): No Chile, a violência não é apenas açoite físico, mas a violência da exclusão. O capitão do mato emerge nas bordas das cidades, onde a polícia trata o pobre como uma praga. Rojas mostra que a miséria fabrica monstros: aqueles que, para não morrerem de fome, aceitam a função de perseguir outros miseráveis.

  • A Guerra contra o Sagrado (Miguel Ángel Asturias, Homens de Milho): Na Guatemala, a guerra do capitão do mato (o soldado, o patrão de milícia) é uma guerra contra o cosmos indígena. O milho é vida; o capitão do mato é o fogo que queima a seara. Aqui, a opressão atinge o divino, tentando transformar o índio em uma ferramenta sem alma, um homem de barro quebrado, como retratado por Asturias.

Como o Capitão do Mato Penetrou o Estado, o Comércio e a Vida

A genialidade perversa do sistema colonial foi transformar o capitão do mato em parte da engrenagem estatal.

  1. No Estado: As Câmaras Municipais nomeavam oficialmente esses homens, pagando-lhes por cabeça capturada. Assim, o Estado não reprimia apenas; ele terceirizava a tortura. Era um serviço público tão legítimo quanto o do coletor de impostos. O soldado de hoje, que atira no jovem negro na periferia, é o herdeiro direto desse agente estatal.

  1. No Comércio: Cynthia McLeod, em Quão caro foi o açúcar? destrincha a engrenagem açucareira. O capitão do mato era o fiador da mercadoria. O escravo era o "açúcar", e o capitão garantia que a produção não parasse. Sem ele, o PIB colonial entrava em colapso. Portanto, ele era a polícia montada a serviço do capital, uma metáfora viva de como o mercado sempre precisou de carcereiros.

  1. Na Vida: A obra Segu: Muralhas de Terra, de Maryse Condé, nos mostra como essa lógica penetrou na África. Reinos inteiros vendiam seus inimigos para os capitães do mato europeus. A violência se tornou endêmica, naturalizada. O pai batia no filho, o senhor no escravo, o capitão no fugitivo. A América Latina foi construída sob a régua de que a violência é o único meio de resolver conflitos.

A Personalidade do Capitão do Mato (A Conclusão Necessária) 

Quem é o capitão do mato? Ele é a falha no nosso software humano. 

Analisando a obra de Bartolomeu de Las Casas, vemos o espanto diante do horror. O capitão do mato não tinha desculpa ideológica sofisticada; ele agia por fome, por medo ou por sadismo. O índio ou o negro, para ele, havia deixado de ser humano. Como bem descreveu Tzvetan Todorov, a conquista da América foi a falência do diálogo, a imposição de uma verdade absoluta pela aniquilação do Outro. O capitão do mato é o intérprete dessa falência: ele não quer entender o fugitivo, ele quer apreendê-lo.

Ele é o burocrata do extermínio. 

Em um continente que sonha ser livre, o capitão do mato é a voz da casa-grande ecoando dentro da senzala. Ele é o policial que mata o pobre, o político que corrompe o auxílio, o patrão que explora o trabalhador. Ele não é um demônio isolado; ele é um cargo vago que está sempre à espera de um candidato desesperado. 

Enquanto a América Latina não entender que a figura do capitão do mato não está na história, mas na esquina — de farda, de terno ou de capuz —, continuaremos a ser um continente onde o oprimido de ontem é o carrasco de hoje, e onde a única certeza é a dor de quem foge e a fúria de quem persegue.