SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Alfabetização como Liberdade. Por Egidio Guerra.

 



Sobre o Livro e o Autor

James é um romance do escritor norte-americano Percival Everett, publicado em 2024 pela editora Doubleday . A obra venceu o National Book Award for Fiction de 2024, o Kirkus Prize e, em maio de 2025, conquistou o Prêmio Pulitzer de Ficção. O comitê do Pulitzer descreveu o livro como "uma reconsideração bem-sucedida de Huckleberry Finn que dá agência a Jim para ilustrar o absurdo da supremacia racial e oferecer uma nova visão sobre a busca por família e liberdade".

Everett é professor de literatura inglesa na Universidade do Sul da Califórnia e autor de mais de trinta livros. Sua obra Erasure (2001) foi adaptada no filme American Fiction, vencedor do Oscar. Sobre sua escrita, Everett já declarou ter um estilo "patologicamente irônico".


Resumo da Trama

Primeiro Ato: A Fuga

Ambientado em Hannibal, Missouri, o romance se abre com Jim, um homem escravizado de aproximadamente 27 anos, sentado em frente à casa da Srta. Watson, aguardando um prato de pão de milho para levar à sua esposa, Lizzie, e à filha, Sadie . Ele ouve Huckleberry Finn e Tom Sawyer sussurrando nas proximidades, prestes a pregar uma peça nele, mas finge estar dormindo.

Esta cena inicial estabelece imediatamente um elemento central da narrativa: tudo o que Jim demonstra aos brancos é uma performance. Entre si, os escravizados falam inglês padrão, erudito e articulado. Na presença de brancos, recorrem a um dialeto que Jim chama de "filtro de escravo" (slave filter). Como ele mesmo explica às crianças escravizadas: "Pessoas brancas esperam que soemos de certa maneira, e só pode nos ajudar se não os decepcionarmos".

Ao saber que a Srta. Watson planeja vendê-lo — o que significaria a separação definitiva de sua família —, Jim foge para uma ilha no rio. Lá encontra Huck, que também fugiu após mais uma explosão violenta de seu pai alcoólatra, "Pap".

Os dois partem juntos pelo rio Mississippi, viajando à noite e seguindo para o sul — uma decisão estratégica, pois ninguém esperaria que um escravo fugitivo se dirigisse na direção oposta à liberdade.

Segundo Ato: O Poder da Escrita

Enquanto estão escondidos, Jim encontra um lápis e começa a escrever sua história. Suas primeiras palavras são reveladoras: "Meu nome é Jim. Ainda não escolhi um nome" (My name is Jim. I have yet to choose a name).

Jim é secretamente alfabetizado — aprendeu sozinho a ler e escrever usando os livros da biblioteca do Juiz Thatcher. Ele mantém esse conhecimento oculto, pois sabe que sua inteligência, se descoberta, representaria uma ameaça à ordem escravocrata. Como reflete em dado momento: "Se eu pudesse ver as palavras, então ninguém poderia controlá-las ou controlar o que eu extraía delas. Era um assunto completamente privado e completamente livre e, portanto, completamente subversivo".

Jim trava conversas imaginárias com filósofos do Iluminismo — Voltaire, Rousseau e Locke — debatendo temas como escravidão, raça e igualdade. Em uma dessas passagens, ele confronta Voltaire, que se diz abolicionista:

"Você está dizendo que somos iguais, mas também inferiores" 

A insatisfação com esses debates teóricos leva Jim a uma conclusão amarga: "As chamadas histórias contadas por si mesmas tornavam-se mais endurecedoras quanto mais eu as examinava, imaginando como uma criança de cinco anos poderia ter se lembrado de tantos detalhes que faziam um sentido tão arrumado. Eu já tinha compreendido a arrumação das mentiras".

Terceiro Ato: Os Vigaristas e o Minstrel Show

Jim e Huck encontram dois vigaristas brancos que se autoproclamam "Rei" e "Duque". Após aplicarem golpes em cidades ribeirinhas, os dois traem Jim, acorrentando-o em uma oficina de ferreiro com planos de vendê-lo.

Jim é então comprado por Daniel Decatur Emmett — uma figura histórica real, fundador de uma das primeiras trupes de minstrel show (teatro racista em que brancos se pintavam de preto para caricaturar negros). Emmett afirma ser contra a escravidão, mas explora Jim como um "contratado" indentado. Jim descobre o caderno de Emmett, onde ele compõe canções para os shows — canções baseadas em música negra, usadas para ridicularizar os próprios negros. Quando foge, Jim rouba o caderno e passa a usá-lo para organizar seus pensamentos e continuar escrevendo sua própria história.

Norman, um membro da trupe com ascendência negra que passa por branco, ajuda Jim a escapar. Norman descreve essa experiência como "exaustiva". Juntos, tentam replicar o esquema de venda e fuga para levantar dinheiro, mas o plano dá errado. Jim é espancado e uma jovem escravizada chamada Sammy — por quem Jim desenvolve afeição paternal — é assassinada pelos perseguidores brancos.

Norman morre em um acidente de barco a vapor, e Jim se reencontra com Huck.

Quarto Ato: A Revelação

É neste momento que o romance revela sua maior reviravolta: Jim é o pai biológico de Huck.

A mãe de Huck teve um caso com Jim, algo que Huck jamais imaginou. Atordoado, Huck descobre que sua herança biológica é negra — uma revelação que o força a confrontar o vazio e a arbitrariedade do preconceito racial. Ainda assim, Huck se recusa a abandonar Jim.

Os dois retornam a Hannibal. Jim invade o escritório do Juiz Thatcher, apontando-lhe uma pistola. Não é a arma que aterroriza o juiz, mas sim a linguagem de Jim. O juiz, acostumado a ver nos negros apenas subserviência, fica paralisado de medo ao descobrir que Jim é alfabetizado, articulado e intelectualmente seu igual — ou superior. A certa altura, Jim ironiza:

"Desculpe, deixe-me traduzir isso para você: 'Num  decidi, Massa'" 

Jim força o juiz a revelar o paradeiro de sua esposa e filha, que foram vendidas. Ele então planeja um resgate ousado: incendeia um campo para criar distração e fuga, libertando não apenas sua família, mas também outros escravizados.

Epílogo: Liberdade

Jim lidera sua família e outros até Iowa, onde enfim estão livres. A liberdade, porém, não é idealizada — eles ainda enfrentam racismo e suspeita. Mas Jim, agora sim James — o nome que escolheu para si —, reivindicou algo que a escravidão o tentou negar: sua própria narrativa, sua voz e sua identidade.


Personagens Principais

Personagem 

Descrição 

Jim / James 

O protagonista e narrador. Escravizado, letrado, calculista e erudito. Tudo o que demonstra aos brancos é uma performance de ignorância para sobreviver. É o pai biológico de Huck. 

Huckleberry Finn (Huck) 

Garoto branco fugitivo do pai abusivo. Tem a mente mais aberta que a maioria dos brancos, mas ainda carrega preconceitos de sua sociedade. Ao descobrir que Jim é seu pai, precisa reavaliar tudo o que sabe sobre raça e identidade. 

O Rei e o Duque 

Vigaristas brancos que traem Jim. Em Everett, são retratados de forma mais sinistra do que no original de Twain. 

Daniel Decatur Emmett 

Figura histórica real, dono da trupe de minstrel show. Explora Jim enquanto finge ser "esclarecido" e contra a escravidão. 

Norman 

Homem de ascendência negra que passa por branco. Ajuda Jim a escapar e torna-se seu aliado, descrevendo a vida de "passar por branco" como exaustiva. 

Juiz Thatcher 

Autoridade local. Em Twain, era uma figura benevolente; em Everett, sua cumplicidade com o sistema escravocrata é exposta. Fica aterrorizado ao descobrir a inteligência de Jim. 

Lizzie e Sadie 

Esposa e filha de Jim. São a força motriz por trás de todas as suas ações. 

Sammy 

Jovem escravizada que foge com Jim e Norman, mas é assassinada pelos perseguidores. 

 

Citações Importantes

"My name is Jim. I have yet to choose a name." 
— Parte 1, Capítulo 7 

"If I could see the words, then no one could control them or what I got from them. [...] It was a completely private affair and completely free andthereforecompletely subversive." 
— Parte 1, Capítulo 11 

"I had already come to understand the tidiness of lies, the lesson learned from the stories told by white people seeking to justify my circumstance." 
— Parte 1, Capítulo 15 

"Are you going to kill me?" / "The thought crossed my mind. I haven't decided. Oh, sorrylet me translate that for you. I ain't 'cided, Massa." 
— Parte 3, Capítulo 9 

"Dey is the stupidstitiousest people in the world." / "You mean superstitious." / "Dat what I say." 
— Parte 1, Capítulo 4  (Jim usando o filtro de escravo enquanto, na verdade, sabe exatamente o que está fazendo)


Temas Principais

1. Alfabetização como Liberdade

Jim não apenas sabe ler — ele usa a leitura e a escrita como arma de resistência. O ato de escrever "Meu nome é James" é um ato de autodefinição que o sistema escravocrata tenta negar. 

2. Performance e Code-Switching

Os escravizados de Everett falam inglês padrão entre si e dialeto diante dos brancos. Essa duplicidade linguística é uma estratégia de sobrevivência e uma crítica à expectativa branca sobre como negros devem soar.

3. O "Inimigo" Branco

Jim insiste em chamar os brancos de "inimigo" (enemy, em itálico no original), recusando o termo "opressor" porque "opressor pressupõe necessariamente uma vítima".

4. Reescrita da História Literária

Everett não escreveu James como uma "correção" de Twain, mas como um diálogo com o clássico. Ele leu Huckleberry Finn quinze vezes antes de escrever seu romance. A obra questiona: quem tem o direito de contar uma história? E o que acontece quando o silenciado finalmente ganha voz?


Recepção e Prêmios

  • National Book Award for Fiction (2024) 

  • Kirkus Prize (2024) 

  • Prêmio Pulitzer de Ficção (2025) 

  • Finalista do Booker Prize (2024) 

O acadêmico Robert Stepto, professor emérito de Yale, descreveu James como uma obra em que o protagonista "literalmente se escreve na existência" — ecoando a tradição de narrativas de escravos como Frederick Douglass e W.E.B. Du Bois