SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Diagnóstico Sistêmico, Governança, Territórios, e Inovação no Governo de São Paulo.




São Paulo vive um paradoxo. É o motor econômico do país, mas convive com profundas desigualdades territoriais, violência, déficit habitacional e vulnerabilidades climáticas cada vez mais frequentes, como as trágicas chuvas que paralisam a cidade e o "salve geral" que expõe a fragilidade do sistema prisional e de segurança pública. Esses eventos não são isolados; são sintomas de um modelo de gestão fragmentado que precisa ser superado. 

Os principais desafios para o próximo quadriênio estão profundamente interligados: 

  • Desafio Demográfico e Fiscal: O envelhecimento populacional pressionará o sistema de saúde (com necessidade de R$ 93 bilhões adicionais em uma década no país) enquanto reduz a demanda na educação infantil . Em São Paulo, isso exige realocar recursos para hospitais, geriatria e cuidados paliativos, sem desamparar a educação, mas focando em qualidade e não apenas em vagas. 

  • Crise Climática e Infraestrutura: As enchentes e deslizamentos não são apenas "tragédias", mas o resultado de décadas de ocupação desordenada, impermeabilização do solo e insuficiência de drenagem. A falta d'água em algumas regiões e os eventos extremos mostram a urgência de integrar a política de saneamento, habitação e mudanças climáticas. 

  • Dívida Pública e Subfinanciamento: O estado precisa de espaço fiscal para investir. Não se trata apenas de cortar gastos, mas de gastar melhor. A inovação na arrecadação, como demonstrado pelo programa (011).lab da Prefeitura de São Paulo que aumentou a receita do IPTU em R$ 60 milhões/ano com ciência comportamental , mostra que é possível otimizar recursos sem aumentar a carga tributária, melhorando a comunicação com o cidadão. 

  • Desconexão Institucional: As políticas públicas são formuladas em "silos" (secretarias de saúde, educação, segurança, habitação), mas os problemas nos territórios são integrados. Um jovem em situação de vulnerabilidade não precisa apenas de escola; precisa de saúde, cultura, segurança e oportunidades de trabalho. A pesquisa da Unicamp sobre gestão de resíduos orgânicos aponta exatamente essa "dispersão de agentes públicos" que gera "agendas não sincronizadas, sobreposição de competências e lacunas" . 

É nesse cenário de complexidade e caos aparente que surge a oportunidade de inovar. A resposta está em um novo paradigma de governança colaborativa e territorializada. 

O Novo Paradigma: Governança Integrada e Territorializada 

Propomos um modelo de gestão que rompe com a lógica setorial e verticalizada para adotar uma abordagem horizontal, participativa e baseada em evidênciasgeo-localizando as ações nos territórios mais pobres e violentos. Este paradigma se fundamenta em três pilares: 

  1. Integração Federativa e Intersetorial: Alinhar ações federais, estaduais e municipais em cada território, evitando duplicidade e desperdício. 

  1. Participação Social e Escuta Ativa: As decisões devem ser informadas pelas vozes e demandas locais, não por decisões de gabinete. 

  1. Monitoramento e Transparência Radical: Uso de dados e indicadores para avaliar impactos em tempo real, garantindo eficiência e prevenindo a corrupção. 

A experiência que inspirou e materializa este paradigma é o Programa de Agentes de Responsabilidade Social ESG, desenvolvido em parceria com a CNI. Este programa é a prova de conceito de que é possível unir Estado, mercado e sociedade para transformar realidades. 

Case: Programa de Agentes de Responsabilidade Social ESG (CNI) 

O programa nasceu da constatação de que empresas investem em responsabilidade social, universidades (como a USP, com seus mais de 9 mil projetos de extensão) produzem conhecimento, ONGs atuam na ponta, e o governo executa políticas, mas quase sempre de forma isolada. O resultado: recursos escassos sendo pulverizados, com impacto reduzido. 

O programa propõe uma plataforma integradora que atua nos territórios de maior vulnerabilidade, com os seguintes objetivos: 

  • Otimizar Recursos: Mapear todas as ações (públicas, privadas e do terceiro setor) em um território para identificar sobreposições e lacunas. Uma empresa pode financiar a reforma de uma escola, enquanto a universidade oferece formação continuada para os professores e o governo estadual garante a merenda e a segurança no entorno. 

  • Ampliar Impactos: Ações coordenadas geram sinergia. Não se trata apenas de levar um curso profissionalizante, mas de conectar esse curso às vagas de trabalho nas empresas parceiras, gerando renda e cidadania. 

  • Gerar Mercado Consumidor: Ao promover ascensão social em áreas de extrema pobreza, cria-se um novo ciclo econômico. O cidadão que antes era excluído do mercado de trabalho passa a consumir, aquecendo a economia local e gerando um círculo virtuoso. 

Como funciona na prática? 

  1. Geo-localização da Demanda: Identificamos os territórios com piores indicadores de IDH, violência e saneamento. 

  1. Escuta Territorial: Realizamos audiências públicas e oficinas com a comunidade para entender suas prioridades. 

  1. Integração de Ações: Convocamos empresas, universidades (ex: projetos de extensão da USP em direito, engenharia, saúde), ONGs e secretarias estaduais (Saúde, Educação, Desenvolvimento Social) para apresentarem suas ações no território e as alinharmos em um plano único. 

  1. Transparência e Controle: Uma plataforma digital acompanha cada ação em tempo real, permitindo que qualquer cidadão fiscalize os gastos e o andamento das obras, reduzindo drasticamente o espaço para a corrupção. 

O impacto esperado é a redução bilionária dos gastos com presídios, investindo em prevenção através da educação, cultura, esporte e geração de renda. Ao invés de construir mais celas, construímos escolas e parques, formamos agentes de saúde comunitários e jovens aprendizes. É mais barato e mais humano. 

Eixos Estratégicos do Plano de Governo 2027-2030 

Sob a luz deste novo paradigma, estruturamos nossa proposta em eixos integrados: 

1. Segurança e Cidadania: Prevenção com Integração Territorial 

A segurança pública não se fará apenas com polícia, mas com presença do Estado. O programa Agentes de Responsabilidade Social ESG será a principal ferramenta para ocupar os territórios mais violentos. Ao levar saúde, educação, cultura e trabalho de forma coordenada, atacamos as causas da violência, reduzindo a reincidência e, consequentemente, os custos com o sistema prisional . 

2. Resiliência Climática e Infraestrutura Urbana 

As tragédias das chuvas exigem uma abordagem integrada. A política de habitação não pode estar dissociada do saneamento e da drenagem urbana. Iremos: 

  • Mapear áreas de risco com tecnologia de ponta e criar um sistema de alerta integrado com as defesas civis municipais. 

  • Integrar a gestão de resíduos (seguindo as diretrizes do Axis 8 da Unicamp ) com a geração de energia e trabalho para cooperativas de catadores, promovendo economia circular e renda. 

  • Vincular a política habitacional à regularização fundiária e à infraestrutura completa (água, esgoto, drenagem), acabando com a lógica de construir casas em locais sem condições. 

3. Saúde e Educação: Recurso Onde a Vida Acontece 

Diante da transição demográfica, precisamos de eficiência. Criaremos "Contratos de Impacto Social" , onde hospitais e escolas públicas firmam parcerias com universidades (aproveitando os projetos de extensão) para levar serviços à comunidade. Um posto de saúde pode ter agentes comunitários formados por uma universidade, apoiados por tecnologia de telemedicina fornecida por uma startup acelerada pelo governo . A economia com a racionalização dos gastos (prevista no estudo do Tesouro ) será reinvestida em tecnologia e inovação no SUS e nas escolas estaduais. 

4. Desenvolvimento Econômico e Inovação: O Estado como Plataforma 

O Estado deve ser um facilitador do ecossistema de inovação. Aprendendo com os acertos e descontinuidades de programas como o IdeiaGov , vamos: 

  • Criar uma governança permanente para a inovação, que una universidades (FGV, Unicamp, USP), setor produtivo (CNI, FIESP) e governo, garantindo que as políticas de inovação transcendam os ciclos eleitorais . 

  • Utilizar o poder de compra do Estado para fomentar govtechs e startups, resolvendo desafios públicos com soluções inovadoras e ágeis . 

  • Transformar os parques tecnológicos em verdadeiros distritos de inovação, integrando-os às demandas de desenvolvimento regional . 

5. Participação Política e Transparência: O Controle Social como Pilar 

A inovação na gestão também é política. Fortaleceremos os conselhos participativos e criaremos laboratórios de inovação legislativa nas principais cidades, inspirados na experiência da Câmara Municipal de São Paulo , para aproximar o cidadão da formulação das leis. A plataforma de monitoramento do programa ESG será aberta ao público, garantindo que cada real gasto seja rastreado. 

Conclusão: Governar é Integrar 

São Paulo não pode mais ser governada por secretarias estanques. O governante do futuro (e do presente) precisa enxergar a cidade e o estado como um organismo vivo, onde cada ação reverbera no outro. O Programa de Agentes de Responsabilidade Social ESG não é apenas mais um programa; é a metodologia de governo. É a materialização de um novo jeito de ser, viver e governar, que coloca o cidadão no centro e utiliza a inteligência coletiva de empresas, universidades e governo para resolver os problemas reais de quem mais precisa. 

Este é o nosso compromisso para 2027-2030: governar com a complexidade, inovar com a participação e transformar com a integração. Porque só assim construiremos um estado verdadeiramente justo, próspero e resiliente para todos.