SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Os Políticos e os Desafios no Mundo da IA Por Egidio Guerra

 


A inteligência artificial deixou de ser um tema restrito a laboratórios de pesquisa e fóruns técnicos para se tornar uma das questões políticas mais prementes do século XXI. Se, por um lado, a IA promete transformar radicalmente a economia, a ecologia, a tecnologia e até a própria natureza dos conflitos bélicos, por outro, impõe aos políticos de todo o mundo desafios sem precedentes — desafios que exigem respostas rápidas, mas também profundamente reflexivas. Como alertam os livros Supremacy, de Parmy Olson, More Everything Forever, de Adam Becker, Machine Decision Is Not Final, organizado por Anna Greenspan e colaboradores, e Relationality, de Arturo Escobar, Michal Osterweil e Kriti Sharma, a questão central não é se a IA vai mudar o mundo, mas quem vai controlar essa mudança, para quem ela vai beneficiar e a que custo.


A Corrida pela Supremacia e o Dilema Regulatório

Em Supremacy, Parmy Olson narra a batalha entre as duas principais empresas de IA do mundo — OpenAI e DeepMind — e os CEOs que as lideram, Sam Altman e Demis Hassabis, figuras que, segundo a autora, "cultivaram uma religião em torno de sua missão de construir máquinas superinteligentes semelhantes a deuses". Olson alerta para a ameaça real que seus criadores estão ignorando: "a disseminação orientada pelo lucro de tecnologia falha e tendenciosa em indústrias, educação, mídia e muito mais". O livro expõe como essas empresas, ao servirem a dois "gigantes da tecnologia cujo poder é sem precedentes na história", podem seguir direções perigosas, transformando a maior invenção da história humana em um instrumento de exploração.

Esse diagnóstico encontra eco nos debates regulatórios ao redor do mundo. No Brasil, a Câmara dos Deputados examina o Projeto de Lei 2338/23, que regulamenta o uso da IA no país. Especialistas têm defendido um "modelo regulatório flexível e descentralizado", enquanto parlamentares buscam um equilíbrio entre "segurança regulatória e estímulo à inovação", temendo que "exigências excessivas possam desestimular o empreendedorismo". O desafio, como aponta um estudo acadêmico, está em "desenvolver frameworks regulatórios que sejam, ao mesmo tempo, eficazes e não impeçam o avanço da inovação". A dificuldade é global: enquanto a União Europeia avança com o AI Act, os Estados Unidos adotam uma abordagem mais laissez-faire, e a China desenvolve seu próprio modelo de governança. Os políticos, portanto, são confrontados com a tarefa quase impossível de regular uma tecnologia que evolui mais rápido do que a capacidade legislativa de acompanhá-la.


A Ideologia da Salvação Tecnológica e o Futuro da Humanidade

Adam Becker, em More Everything Forever, oferece uma crítica contundente ao que chama de "ideologia da salvação tecnológica" que domina o Vale do Silício. Segundo Becker, essa ideologia tem três características principais: é redutora, é lucrativa — alinhando-se perfeitamente com o imperativo de crescimento perpétuo da indústria tecnológica — e, acima de tudo, "oferece transcendência — a promessa de um fim imaginado que justifica ultrapassar quaisquer limites reais, incluindo a moralidade convencional". Projetos como a colonização de Marte, a imortalidade digital e a criação de uma inteligência artificial geral (AGI) são apresentados como salvacionistas, mas Becker os submete a um escrutínio cético, mostrando como são "implausíveis e frequentemente profundamente imorais".

Para os políticos, essa ideologia representa um desafio duplo. Por um lado, há a pressão para não ficar para trás na "corrida" tecnológica — uma corrida que, como observa a literatura geopolítica, é frequentemente enquadrada como uma competição existencial entre os Estados Unidos e a China. Em 2025, os Estados Unidos produziram cerca de quarenta grandes modelos de fundação, a China cerca de quinze, e a União Europeia apenas três. Por outro lado, há a necessidade de resistir ao canto de sereia do determinismo tecnológico e lembrar que "os algoritmos podem otimizar a eficiência, mas não podem decidir entre valores concorrentes — as próprias escolhas que estão no coração da política democrática".


Geopolítica, Guerra e a Nova Corrida Armamentista

Machine Decision Is Not Final oferece uma perspectiva fundamental para entender a dimensão geopolítica da IA. O volume traça a história da inteligência artificial na China e reexamina o engajamento do país com a IA "para além dos clichês que dominam o debate contemporâneo". Os autores observam que "as visões do futuro contestado da IA oscilam entre objetivos planetários comuns e uma nova Guerra Fria", à medida que "modelos culturalmente específicos de inteligência, tradições especulativas e experimentos mentais" colidem com "o surgimento de novas formas de cognição que não podem ser reduzidas a qualquer tradição cultural histórica".

Essa tensão se manifesta de maneira concreta na competição tecnológica entre Estados Unidos e China. Em 2025, Washington expandiu controles de exportação em busca da supremacia em IA, enquanto Pequim avançou em direção à autossuficiência e defendeu a cooperação global em tecnologias. O governo Trump lançou o "Plano de Ação para IA da América", deixando claro que "contra-atacaria a China e competiria pela liderança global em IA". No campo militar, sistemas autônomos baseados em IA estão sendo rapidamente desenvolvidos e implantados, com sistemas capazes de "conduzir síntese autônoma de dados, análises e priorização de ameaças, e execução de tarefas relevantes à missão". A introdução de tais sistemas em comando, controle, vigilância e plataformas cinéticas representa "uma transformação decisiva no ritmo e na topologia do engajamento operacional".

Para os políticos, isso significa navegar em um ambiente de crescente insegurança estratégica, onde a IA se torna tanto uma ferramenta de poder quanto uma fonte de vulnerabilidade. A questão não é apenas quem vai vencer a corrida, mas como evitar que essa competição desencadeie uma escalada descontrolada.


Economia, Desigualdade e o Futuro do Trabalho

O impacto econômico da IA é outro campo minado para os formuladores de políticas públicas. Um relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) alerta que a IA não gerenciada "pode aumentar a desigualdade entre os países, ampliando as diferenças no desempenho econômico, nas capacidades das pessoas e nos sistemas de governança". O economista Joseph Stiglitz adverte que as tecnologias de IA estão "remodelando as paisagens econômicas globais, potencialmente exacerbando as desigualdades existentes tanto dentro quanto entre as nações".

Na América Latina, pesquisas indicam que entre 30% e 40% do emprego está exposto de alguma forma à IA generativa, com "níveis mais altos de risco relacionado à IA entre mulheres, trabalhadores mais jovens, mais educados e formais". Globalmente, a Organização Internacional do Trabalho (OIL) estima que um em cada quatro trabalhadores no mundo está em uma ocupação com algum grau de exposição à IA generativa. Embora a maioria dos empregos seja transformada em vez de tornada redundante, o desafio político é imenso: como garantir uma transição justa, como proteger os trabalhadores mais vulneráveis e como evitar que a IA exacerbe as desigualdades existentes?


Ecologia: O Custos Ambiental Oculto da IA

Menos discutido, mas igualmente urgente, é o impacto ecológico da IA. Um relatório da Agência Internacional de Energia (AIE) de abril de 2025 prevê que a demanda global de eletricidade por data centers — que abrigam a infraestrutura computacional para treinar e implantar modelos de IA — "mais que dobrará até 2030, para cerca de 945 terawatts-hora". Em 2025, os data centers globais consumiram cerca de 448 TWh de eletricidade; se fossem considerados um país, seriam o 11º maior consumidor de eletricidade do mundo.

O consumo de água é igualmente alarmante. Estimativas indicam que os sistemas de IA consumiram até 765 bilhões de litros de água em 2025, "superando a demanda anual de toda a indústria global de água engarrafada". Especialistas alertam que "o impacto ambiental da IA ainda está amplamente oculto", pois não há um padrão global para medir o uso de água e energia em data centers, e as empresas divulgam apenas informações parciais.

Relationality, de Arturo Escobar, Michal Osterweil e Kriti Sharma, oferece uma lente crítica para entender essa crise. Os autores argumentam que "na raiz da crise contemporânea do clima, energia, alimentação, desigualdade e significado está uma certa pressuposição central que estrutura as formas como vivemos, pensamos, agimos e projetamos: a suposição do dualismo, ou a separabilidade fundamental das coisas". Para eles, a chave para construir mundos habitáveis está no cultivo de "formas de conhecer e agir baseadas em uma profunda consciência da interdependência fundamental de tudo o que existe". Esse paradigma relacional — que Escobar e seus coautores contrapõem ao paradigma dualista e extrativista que domina a tecnologia contemporânea — exige que os políticos pensem para além do crescimento econômico a qualquer custo e considerem as teias de vida em que a IA está inserida.


Democracia, Informação e a Integridade dos Processos Políticos

Por fim, a IA coloca em risco a própria integridade dos processos democráticos. A proliferação de deepfakes, desinformação gerada por IA e manipulação algorítmica ameaça minar a confiança pública nas instituições. Pesquisas mostram que "a IA tem sido usada indevidamente para corroer a confiança nos processos eleitorais" em várias partes do mundo, com exemplos que vão desde clipes de áudio falsos na Índia até deepfakes sexualizados visando mulheres políticas em Bangladesh e vídeos de campanha fabricados na Coreia do Sul.

Agentes autônomos de IA estão surgindo "em um momento de aguda vulnerabilidade para as ordens democráticas liberais", com o potencial de "escalar ataques cibernéticos que paralisam a infraestrutura democrática". Ao mesmo tempo, há quem argumente que os sistemas de IA "oferecem novas oportunidades para educar e aprender com os cidadãos, fortalecer o discurso público e ajudar as pessoas a encontrar um terreno comum". O desafio para os políticos é duplo: conter os usos nocivos da IA sem sufocar seus benefícios potenciais para a democracia.


Conclusão: A Política como Arte do Equilíbrio

Os livros aqui discutidos — SupremacyMore Everything ForeverMachine Decision Is Not Final e Relationality — oferecem, cada um a seu modo, um diagnóstico contundente dos desafios que a IA impõe à política contemporânea. Olson nos alerta para os perigos do poder concentrado nas mãos de poucas empresas tecnológicas. Becker nos convida a questionar a ideologia salvacionista que justifica projetos grandiosos e moralmente duvidosos. Os organizadores de Machine Decision Is Not Final nos lembram que a IA não é neutra — ela carrega as marcas das culturas e dos sistemas de poder que a produzem. E Escobar, Osterweil e Sharma nos desafiam a pensar para além do dualismo que separa o humano do não humano, o natural do artificial, o político do ecológico.

Para os políticos, o caminho não é simples. Eles precisam regular sem sufocar, competir sem escalar, inovar sem esquecer, e avançar sem perder de vista os valores que dão sentido à própria política: a justiça, a equidade, a democracia e a sustentabilidade da vida no planeta. Como bem resume a literatura acadêmica, "a regulação da IA passou a ser um desafio global, exigindo modelos normativos que conciliem inovação tecnológica, segurança e proteção de direitos". Esse equilíbrio, por mais difícil que seja, é a tarefa mais urgente da política na era da inteligência artificial.

A Democracia Verdadeira e sua Irmã Gêmea! Por Egidio Guerra

 


democracia de verdade não se resume a rituais periódicos de voto, nem é propriedade privada de elites, oligarquias ou gangues partidárias. Ela emerge de baixo para cima, enraizada nos sonhos, nas vocações e nas articulações coletivas das próprias pessoas, que, respeitando suas individualidades, constroem juntas políticas públicas, projetos econômicos, arte e educação. Quanto mais uma sociedade se auto-organiza para traçar suas metas e desafios, mais democrática ela se torna, consolidando uma cultura de participação e autonomia. A essa democracia viva, está indissociavelmente ligada sua irmã gêmea: a justiça social.

A Autopoiese Social como Fundamento da Democracia Viva

A ideia de uma sociedade que se cria a si mesma encontra forte respaldo na teoria da autopoiese, desenvolvida pelos biólogos Humberto Maturana e Francisco Varela. Originalmente concebida para explicar a organização dos seres vivos como sistemas que produzem seus próprios componentes, a autopoiese foi transposta para as ciências sociais, revelando-se uma lente poderosa para entender a democracia participativa. Nessa perspectiva, a sociedade é vista como uma rede de interações que se autoproduz continuamente. Nesse processo, o fenômeno do conhecer e do fazer se entrelaçam ("todo fazer é um conhecer e todo conhecer é um fazer"), e a participação social é compreendida como um sistema autopoiético capaz de regenerar práticas coletivas e fomentar uma cidadania autônoma.

Aplicar esse conceito à política significa entender que a verdadeira democracia não pode ser um mecanismo imposto de cima para baixo ou capturado por interesses particulares. Ela é, antes de tudo, um fenômeno emergente: um movimento que parte do nível mais simples e local para construir estruturas mais complexas e sofisticadas, sem a necessidade de um "dono" do processo ou de uma "célula líder" que defina os papéis de todos. Esse movimento de baixo para cima (emergência) é a própria essência de uma sociedade que se auto-organiza, tecendo suas políticas e projetos a partir das interações cotidianas entre os cidadãos.

A democracia, para Maturana, não é uma construção puramente racional, mas um fenômeno enraizado na biologia do amor, na emoção e na colaboração. Ele a considerava a forma de organização política mais saudável, pois garante a autopoiese, ou seja, a capacidade do sistema social de se regenerar. Numa sociedade democrática verdadeira, a coordenação de comportamentos, essencial para a vida em sociedade, se dá pelo consenso e pelo reconhecimento do outro como um legítimo outro, um processo que Maturana associa ao emocionar do amor. A democracia, nesse sentido, é um "desejo, um querer" que nasce das vísceras, e não de manuais técnicos ou imposições externas; viver em relações de igualdade é experiencial e biologicamente mais saudável do que a submissão a regimes autoritários.

A Justiça Social como Irmã Gêmea da Democracia

Esta democracia autopoiética, enraizada na colaboração e no bem-estar coletivo, encontra sua realização plena na justiça social. Elas são irmãs gêmeas porque a participação efetiva exige condições materiais e simbólicas que permitam a todos os cidadãos serem agentes de sua própria história. Como observou Maturana, a ausência do Estado no cuidado com o bem-estar da comunidade é uma falha fundamental que nega a dignidade das pessoas e mina a base da convivência democrática. A justiça social é o ambiente que torna possível a autopoiese democrática, garantindo que todos os indivíduos e grupos tenham acesso aos recursos e oportunidades necessários para participar plenamente da vida social e política.

Pesquisas contemporâneas sobre participação social e planejamento urbano apontam que, para fortalecer essa democracia de verdade, é essencial ir além de mecanismos formais e simbólicos que muitas vezes esvaziam a soberania popular. A burocratização, a captura política e a tecnocratização são obstáculos que limitam a participação a práticas rituais, sem poder de decisão real. Construir uma "ecologia autopoiética da participação" significa, portanto, criar as condições para que práticas insurgentes e autônomas, nascidas na sociedade civil, possam ressoar nos sistemas formais de governo. Isso exige redesenhos institucionais que valorizem a diversidade, a interdependência e a resiliência, permitindo que a participação não seja apenas um momento, mas um processo contínuo de vida coletiva.

Em suma, a democracia de verdade e a justiça social são faces da mesma moeda: uma não sobrevive sem a outra. A primeira assegura o processo contínuo de autodeterminação e participação; a segunda garante que esse processo seja inclusivo e equitativo, permitindo que a autopoiese social se realize plenamente para o bem de todos. A democracia não é um produto acabado, mas um devir constante, cuja força vital brota da capacidade das pessoas de se organizarem, sonharem e agirem coletivamente, num movimento que, para ser saudável, deve estar sempre a serviço da construção de uma sociedade mais justa e acolhedora. 



sábado, 1 de agosto de 2026

O verme-do-diabo é o animal que vive no lugar mais profundo da Terra - e ele está redefinindo os limites da vida.

 

Imagem em preto e branco da cabeça de um verme, mostrando sulcos em forma de anéis em volta do seu corpo e uma pequena boca circular no centro, contra fundo escuro

Crédito,Gaetan Borgonie et al., Nature, 2011

Legenda da foto,Esta imagem microscópica mostra a ponta afilada de um verme-do-diabo
    • Author,Katarina Zimmer
    • Role,BBC Future
  • Published
  • Tempo de leitura: 8 min

Se pudéssemos perfurar o solo abaixo de nós e descer pela crosta da Terra, ficaríamos rapidamente desconfortáveis.

À medida que a luz do Sol desaparece e nos aproximamos um pouco mais do núcleo fundido do planeta, a temperatura e a pressão aumentam e as águas subterrâneas mais profundas preenchem buracos e rachaduras nas rochas.

Ao atingir profundidades tórridas como 1,3 km abaixo da superfície, é fácil acreditar que nada pode viver ali embaixo. Mas, com um pouco de sorte, é possível ver bilhões e bilhões de bactérias, às vezes formando camadas brilhantes, brancas ou alaranjadas.

E, se pudermos levar um microscópio, talvez encontremos até mesmo um minúsculo verme que usa pequenos apêndices na sua boca para se erguer ao longo das rochas.

Estamos falando do Halicephalobus mephisto, conhecido como verme-do-diabo, rondando em busca de micróbios.

O animal é minúsculo. Seu comprimento tem apenas a largura de alguns fios de cabelo humanos. Mas ele parece uma baleia neste ecossistema liliputiano.

Os cientistas imaginam que, quando o verme-do-diabo morre naquele filme microbiano gosmento que cresce sobre a rocha, seu corpo provavelmente seja consumido por bactérias e outras formas de vida, ajudando a alimentar este estranho ciclo de vida ancestral.

Até a década de 1980, a maioria dos biólogos não acreditava que existisse vida a mais de 30 cm abaixo da superfície. Mas a descoberta do verme-do-diabo, em 2011, mudou radicalmente nosso conhecimento das profundezas da Terra.

A história deste verme demonstra como a vida, mesmo a vida animal, encontra um caminho, sem a energia solar ou uma atmosfera rica em oxigênio, para expandir radicalmente os ambientes que possibilitam o desenvolvimento dos seres vivos, despertando novas ideias sobre as origens e o futuro da vida.

"Se você consegue encontrar um verme lá embaixo, o que ainda falta descobrir?", questiona a geomicrobióloga Karen Lloyd, da Universidade do Sul da Califórnia, nos Estados Unidos. "As possibilidades são imensas."

Graças a uma série extraordinária de felizes acontecimentos, os cientistas conseguiram gerar filhotes daquele único verme-do-diabo e vêm estudando avidamente seus descendentes para compreender como aquela espécie sobrevive nas quentes e escuras profundezas da Terra.

Entrando na biosfera profunda

Imagem ampliada de dezenas de vermes azuis brilhantes sobre uma superfície rochosa marrom, vermelha e dourada

Crédito,Gaetan Borgonie/Extreme Life Isyensya

Legenda da foto,Muitos cientistas duvidavam que pudesse haver vermes nas profundezas da crosta terrestre

Os primeiros relatos convincentes de vida nas profundezas da crosta terrestre surgiram nos anos 1990.

Em 1997, por exemplo, foram encontradas bactérias a 2,8 km de profundidade, dentro de um poço de extração de gás.

No início dos anos 2000, o biólogo especializado em vermes Gaetan Borgonie, fundador do instituto de pesquisa sem fins lucrativos Extreme Life Isyensya, na Bélgica, relembra que cientistas mais velhos ridicularizavam a ideia de que algo mais complexo pudesse existir nas profundezas da Terra.

Borgonie acreditava que um grupo de pequenos vermes chamados nematoides poderia viver nas profundezas da crosta terrestre.

Não era uma ideia atraente. Mas, conhecendo a resistência daqueles pequenos animais, Borgonie achou que valia a pena examinar a questão.

Em 2008, ele se reuniu com outros especialistas na vida em ambientes extremos para visitar a mina de ouro Beatrix, na África do Sul.

A 1,3 km de profundidade, eles tiveram acesso a buracos perfurados nas paredes da mina para canalizar a água de dentro da rocha, a cerca de 37 °C, em direção a filtros projetados para capturar pequenas formas de vida, relembra Borgonie.

E, após filtrar mais de 6 mil litros de água, eles capturaram um verme minúsculo.

Imagem ampliada de um verme escuro se movendo por um tapete entrelaçado de fibras azuis contra fundo preto

Crédito,Gaetan Borgonie/Extreme Life Isyensya

Legenda da foto,Poikilolaimus oxycercus, outro nematoide, também foi encontrado a mais de 1 km abaixo da superfície na África do Sul

Em duas outras minas sul-africanas, eles filtraram quantidades ainda maiores de água. Em uma delas, foram mais de 12 milhões de litros.

Os cientistas encontraram diversas espécies de nematoides, além de outros invertebrados, fungos e várias formas de vida microscópicas.

"Nunca esperei encontrar um zoológico inteiro", relembra Borgonie.

A maior parte das espécies também é encontrada na superfície. Mas o verme da mina Beatrix era novo para a ciência e recebeu, em 2011, o nome de Halicephalobus mephisto.

O animal teve a cauda quebrada no processo de filtragem, o que é uma sentença de morte para o nematoide.

Mas, felizmente, o indivíduo era uma fêmea partenogênica, ou seja, ela podia se reproduzir sozinha, sem necessidade de acasalar. E depositou oito ovos viáveis antes de morrer.

Foto de uma grande câmara de uma mina subterrânea, com paredes rochosas, piso úmido e um fluxo de água espirrando da rocha, com várias pessoas com lanternas

Crédito,Gaetan Borgonie/Extreme Life Isyensya

Legenda da foto,As explorações nas profundezas da Terra revelaram muito mais vida que os cientistas acreditavam que pudesse existir naquelas condições

"Tivemos muita, muita sorte", afirma Borgonie. Ele nunca mais encontrou outro verme-do-diabo.

Alguns dos descendentes dos vermes acabaram no laboratório do pesquisador genômico John Bracht, da Universidade Americana, em Washington DC (Estados Unidos).

Ele os criou em placas de Petri sob condições similares a um dos primos do verme-do-diabo, Caenorhabditis elegans, uma espécie de nematoide que vive em frutas em decomposição e já foi intensamente estudado.

Existem algumas diferenças entre as duas espécies. O verme-do-diabo não nada na água; ele se agarra aos lados de um tubo de plástico, uma capacidade que provavelmente o ajuda a se fixar às rochas subterrâneas.

Evidentemente, o verme-do-diabo também não aprecia o alimento do Caenorhabditis elegans, que é a bactéria E. coli. Ele prefere outras espécies que formam colônias nas placas.

E é importante observar que o verme-do-diabo não se dá bem à temperatura ambiente. A 20 °C, seu crescimento diminui e ele leva oito dias para completar seu ciclo de vida.

O animal prefere temperaturas de 37 °C, que normalmente são fatais para o C. elegans, mas permitem que o verme-do-diabo se reproduza alegremente a cada dois dias.

Imagem de verme fino em preto e branco

Crédito,Gaetan Borgonie/Extreme Life Isyensya

Legenda da foto,Os cientistas encontraram várias espécies de nematoides na mina de ouro Beatrix, na África do Sul

Adaptações para maior resiliência

Estudar uma espécie examinando apenas os descendentes de um único indivíduo é um desafio, especialmente quando eles ficam longe do seu habitat natural por tanto tempo.

Mas Bracht encontrou indicações de como o verme sobrevive nas profundezas da crosta terrestre.

Ele e seus colegas sequenciaram o DNA do verme-do-diabo em 2019.

Os cientistas encontraram números incomumente altos de genes produtores de proteínas de choque térmico — moléculas que protegem outras proteínas contra lesões causadas por temperaturas extremas.

Mais recentemente, em 2024, a equipe de Bracht examinou outra molécula chamada citocromo c oxidase, que é importante para o consumo de oxigênio para a manutenção da vida.

Com uma série de experimentos, Bracht descobriu que a citocromo c oxidase do verme-do-diabo só funciona sob altas temperaturas.

À temperatura ambiente, a molécula se desliga, reduzindo a geração de energia. Isso explica por que os vermes são tão letárgicos nessas condições.

Imagens de microscópio em preto e branco de diversos tipos de formas de vida multicelulares, com diferentes formas e tamanhos

Crédito,Gaetan Borgonie, Extreme Life Isyensya, Bélgica

Legenda da foto,A diversidade da vida multicelular nas minas profundas é surpreendente e inclui diversos tipos de vermes

Bracht acredita que o desligamento possa ser uma tática de sobrevivência.

"Eles estão garantindo que irão se reproduzir mais no ambiente melhor, mais quente", explica ele.

O pesquisador estuda atualmente se a reprodução partenogênica do verme-do-diabo também é um instrumento de sobrevivência.

Bracht especula que talvez existam vermes-do-diabo machos que ainda não foram encontrados. Eles permitiriam a reprodução sexuada quando os indivíduos se encontram.

Mas, como os animais podem não encontrar com frequência outros da sua espécie na vastidão do mundo subterrâneo, este tipo de reprodução assexuada, às vezes, pode ser sua única forma de gerar descendentes.

De qualquer forma, os vermes demonstram sua capacidade de adaptação.

Acredita-se que a reprodução assexuada tenha um custo, pois ela não cria a diversidade genética saudável que resulta da mistura de material genético quando machos e fêmeas se acasalam. É por isso que muitos cientistas consideram que as espécies que se reproduzem assexuadamente estão condenadas à extinção.

"Em qualquer lugar onde você encontrar uma fonte de alimento e houver a possibilidade de animais chegarem até lá, os nematoides irão evoluir para ocupar aquele nicho."

Como o verme-do-diabo chegou tão fundo

Como estas formas de vida chegaram até ali é um mistério.

As pesquisas de Borgonie e da geobióloga Cara Magnabosco, do Instituto Federal de Tecnologia (ETH, na sigla em alemão) de Zurique, na Suíça, indicam que pelo menos alguns nematoides se movem da superfície para regiões mais profundas pela água, talvez com o auxílio dos tremores da atividade sismológica.

Ao todo, Magnabosco e outros estimam que os micróbios da biosfera profunda representam uma parcela considerável da vida no planeta, respondendo por 12% a 20% da biomassa total dos micróbios da Terra.

Já em relação às bactérias, muitas delas podem estar nas profundezas há muito mais tempo.

Um estudo de 2021 da geomicrobióloga Maggie Lau e seus colegas do Instituto de Engenharia e Ciências do Mar Profundo, na China, descobriram que a bactéria Desulforudis audaxviator encontrada nas profundezas da Terra em três continentes é geneticamente quase idêntica, mesmo sem nunca ter sido identificada na superfície.

Ela e seus colegas calculam que a bactéria pode estar na crosta da Terra desde a fragmentação do supercontinente Pangeia, que começou cerca de 165 milhões de anos atrás, quando os dinossauros dominavam o mundo.

O estudo da biosfera das profundezas poderá nos ajudar a compreender melhor em que condições surgiram os primeiros seres vivos, segundo os especialistas.

E, se um asteroide mortal atingir a Terra e esterilizar sua superfície, a vida poderá surgir novamente das criaturas que habitam as profundezas do planeta.

"Como seres humanos, achamos que governamos o mundo, mas não é verdade", destaca a cientista ambiental Esta van Heerden, da empresa sul-africana de biorremediação iWater. Ela fez parte da equipe que descobriu o verme-do-diabo.

"Para mim, foi uma extrema lição de humildade compreender que eles estão aqui há milhões, talvez bilhões de anos e permanecerão por muito mais tempo que nós."