SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Quem Ama, Cuida - Flávio Leandro e Zezito Doceiro ‪


 

Flávio Leandro - Mundança (Feat.: Marina Aquino)


 

🎵 Esa Einai / Alzaré mis ojos | Tehillim 121 – Shir Mikrá 📜 🕊️

 


Rebecca F. Kuang: Cartografias da Resistência nos Domínios da Linguagem, da História e do Imaginário

 



Os livros de R.F. Kuang — A Guerra da PapoulaKatábasis e Babel: Ou a Necessidade da Violência — constituem muito mais que trilogias de fantasia e ficção histórica. São manuais de guerrilha narrativacartografias do poder colonial e tratados sobre os mecanismos de resistência. Em conjunto, formam uma obra monumental que ilumina as guerras multifacetadas que travamos hoje: guerras de narrativa, de imaginação, e a luta material contra oligarcas, bilionários e estruturas de opressão.


1. Babel: Ou a Necessidade da Violência — A Linguagem Como Arsenal Imperial e Arma de Libertação

Ambientado em uma versão alternativa da década de 1830, Babel explora o coração do império britânico: a Universidade Real de Oxford e sua Torre de Babel, um centro de tradução e gramática mágica que sustenta o poder imperial através da exploração de recursos e conhecimentos roubados.

Lições para Nossas Guerras Contemporâneas:

  • A Tradução Como Violência Colonial: Kuang demonstra como o império não apenas extrai prata da China ou algodão da Índia, mas traduz, codifica e apropria-se das línguas e culturas subjugadas. O "barramento" mágico — onde palavras quase sinônimas, mas com nuances culturais intraduzíveis, geram poder — é uma metáfora perfeita para como o conhecimento nativo é desenraizado, esvaziado de significado e transformado em commodity a serviço do opressor. Hoje, isso se reflete na "guerra de narrativas": como a mídia corporativa e as elites traduzem protestos por justiça em "vandalismo", ou como movimentos de libertação são rotulados como "terrorismo".

  • A Necessidade da Violência: O subtítulo é uma tese política. O protagonista, Robin Swift, um tradutor chinês órfão criado para servir a Babel, aprende uma lição amarga: a diplomacia e a razão falham quando o jogo é intrinsecamente desigual. A violência sistêmica do império — fome, extração, genocídio — só pode ser desmantelada por uma violência revolucionária direcionada. Para movimentos que lutam contra oligarquias predatórias e estados policiais, Kuang faz a pergunta incômoda: em que ponto a "não-violência" se torna cumplicidade com a violência contínua do sistema?

  • O Intelectual Na Encruzilhada: Babel é um estudo profundo sobre traição de classe e consciência. Robin e seus colegas marginalizados (um lascar, uma negra britânica, uma aristocrata inglesa rebelde) são os tradutores, os intermediários culturais. Eles têm um pé em cada mundo. A obra questiona: você usa seu conhecimento para polir as engrenagens do império em troca de conforto, ou para sabotá-lo a partir de dentro? É um dilema direto para acadêmicos, técnicos e profissionais da comunicação no mundo atual: servem aos algoritmos dos bilionários ou às lutas populares.



2. A Guerra da Papoula (Trilogia) — O Mito Como Arma e a Descolonização do Heroísmo

Esta trilogia de fantasia épica, inspirada na história da China do século XX e na Segunda Guerra Sino-Japonesa, desmonta a fantasia ocidental do "herói escolhido" e coloca no centro a sobrevivência, o trauma coletivo e a ambivalência moral.

Lições para Nossas Guerras Contemporâneas:

  • Descolonizando a Fantasia: Kuang pega os tropos do gênero (o órfão com poderes especiais, a escola de magia, o "escolhido") e os subverte através de uma lente radicalmente anticolonial. A magia não é um dom neutro; ela é baseada nos deuses e na história de uma civilização Nikan (claramente análoga à China) e é cobiçada por potências imperialistas Mugin (análogas ao Japão) e Hesperia (análogas ao Ocidente). A lição é clara: não há neutralidade no imaginário. Quem controla as histórias e os mitos controla a legitimidade do poder.

  • A Violência Como Herança e Ferramenta: A protagonista, Rin, é uma camponesa faminta que conquista seu poder através de um pacto com um deus da fogo e da guerra. Sua raiva não é um defeito a ser curado, mas o combustível de sua resistência. A trilogia não glorifica a violência, mas a trata como uma resposta lógica à violência extrema sofrida. Para os povos oprimidos, colonizados e bombardeados por guerras de agressão, Rin personifica uma verdade dura: às vezes, a única linguagem que o impressor entende é a do fogo equivalente.

  • A Solidariedade Complexa e os Fracassos da Revolução: A aliança entre Rin (do Sul agrário) e a herdeira aristocrática Kitay é um dos retratos mais complexos de solidariedade política na ficção moderna. Juntas, elas enfrentam um inimigo comum, mas suas visões de mundo e projetos de futuro colidem. Kuang mostra como revoluções podem degenerar em novos autoritarismos, como o nacionalismo pode trair os mais pobres e como a luta contra um império externo não garante justiça interna. É um aviso crucial para movimentos de libertação: derrotar o tirano de fora é apenas o primeiro passo; o desafio maior é construir um mundo novo sem replicar as velhas hierarquias.


3. Katábasis — A Descida aos Infernos do Trauma Coletivo

Katábasis (palavra grega para uma "jornada de descida" ao submundo) é, no contexto da obra de Kuang, um tema que permeia todos os seus livros. Não é um título específico, mas o movimento narrativo essencial que seus protagonistas realizam. É a descida ao inferno do trauma colonial, da memória suprimida e da dor histórica para dela extrair a força para o confronto.

Lições para Nossas Guerras Contemporâneas:

  • Não Há Luta Sem Luto: Robin, em Babel, precisa mergulhar nas memórias de sua família e na verdade sobre o ópio. Rin, em A Guerra da Papoula, é literalmente possuída por um deus que representa séculos de guerra e vingança. Kuang ensina que a resistência política começa com um enfrentamento profundo e doloroso da própria história. Para sociedades pós-coloniais como a brasileira, isso significa mergulhar na Katábasis da escravidão, do genocídio indígena e da ditadura. Não para se afogar em culpa, mas para encontrar nas feridas abertas as sementes da identidade e da revolta.

  • O Submundo É um Lugar de Encontro: Na descida, os protagonistas de Kuang encontram outros fantasmas, outras vítimas, outras histórias. É um processo de construção de comunidade a partir do trauma compartilhado. Isso reflete a necessidade contemporânea de construir alianças transversais — entre movimentos negros, indígenas, LGBTQIA+, ambientalistas e trabalhadores — baseadas no reconhecimento de que, embora diferentes, suas opressões têm uma raiz comum: a lógica extrativista e hierárquica do capitalismo colonial.

  • O Retorno (Anábasis) com um Novo Conhecimento: A Katábase é inútil sem o retorno. Os personagens de Kuang emergem transformados, armados com uma verdade que os desalienou. Eles retornam não para se reconciliar com o mundo que os oprimiu, mas para demoli-lo. Essa é a lição final: o estudo da história da opressão, o mergulho em nossas próprias dores, só tem valor se for combustível para a ação transformadora no mundo real.


Conclusão: Kuang Como Arma-gramático na Luta Contra as Oligarquias

R.F. Kuang forja, em sua obra, um arsenal imaginativo para os despossuídos. Seus livros nos ensinam que:

  1. A primeira fronteira da colonização é a linguagem e a narrativa. Recuperar nossas próprias palavras, contar nossas próprias histórias e desmantelar os mitos do opressor é ato político fundamental.

  2. A violência revolucionária é uma resposta moral à violência sistêmica. O debate não é entre violência e não-violência, mas entre quem sofre a violência e quem a impõe.

  3. Nenhuma luta é pura, e nenhuma vitória é permanente. As revoluções podem falhar, as alianças podem rachar, e os heróis podem se tornar novos tiranos. A vigilância ética deve ser constante.

  4. O poder reside naqueles que o sistema considera descartáveis: a estudante imigrante, a camponesa faminta, o soldado colonial. Sua raiva é justa e seu poder, quando direcionado, é incontrolável.

Para enfrentar as oligarquias, os bilionários e os ditadores do século XXI — que continuam a pilhar os pobres, os imigrantes e a Terra — Kuang nos dá não um mapa, mas uma bússola.
Ela aponta inexoravelmente para baixo, para a Katábasis necessária de nosso tempo: descer às raízes da opressão, organizar-nos na escuridão e retornar à superfície prontos para uma luta que seja, finalmente, de libertação total. Sua obra é um chamado à ação, um lembrete de que, nas guerras da imaginação e da narrativa, vencer é uma questão de sobrevivência.

Luizianne Lins Governadora e Elmano Senador! Lutando contra a Oligarquia no Ceara, Brasil e nos EUA com Lula e Bernie.



"Fight Oligarchy": A Luta de Bernie Sanders pela Democracia Americana

No livro "Fight Oligarchy", o senador Bernie Sanders apresenta uma análise contundente e detalhada sobre a transformação dos Estados Unidos em uma oligarquia — um sistema onde o poder político, econômico e midiático está concentrado nas mãos de uma minúscula elite de indivíduos extremamente ricos. Sanders argumenta que esta não é uma mera metáfora política, mas a realidade estrutural que define a vida americana contemporânea, corroendo os fundamentos democráticos da nação.

A Diagnóstico da Oligarquia Americana

Sanders estrutura sua análise em capítulos curtos e incisivos que detalham os mecanismos dessa oligarquia. Ele demonstra como, nas últimas décadas, a concentração de riqueza atingiu níveis históricos: o 1% mais rico dos americanos detém mais riqueza do que os 90% inferiores da população. Essa disparidade não é apenas econômica, mas traduz-se diretamente em poder político desproporcional.

O livro explora como esse pequeno grupo de multi-bilionários exerce controle através de:

  • Financiamento de campanhas eleitorais: Um sistema que permite que bilionários de ambos os partidos (Democrata e Republicano) ditem a agenda política, favorecendo políticas que beneficiam os ultra-ricos em detrimento da maioria.

  • Captura regulatória: A influência desmedida sobre agências governamentais que deveriam regular setores como o financeiro, farmacêutico e de combustíveis fósseis.

  • Controle midiático: A concentração da propriedade de veículos de comunicação nas mãos de conglomerados corporativos que priorizam interesses comerciais sobre o jornalismo de interesse público.

As Consequências para os Americanos Comuns

Sanders não se limita a descrever estruturas de poder abstratas. Ele conecta diretamente a oligarquia com o sofrimento cotidiano dos cidadãos comuns. Em um dos pontos mais fortes do livro, ele contrasta o enriquecimento obsceno do topo da pirâmide com as lutas da maioria dos americanos para:

  • Pagar aluguéis crescentes em um mercado imobiliário especulativo

  • Enfrentar dívidas estudantis paralisantes

  • Lidar com a precarização do trabalho e estagnação salarial

  • Acessar um sistema de saúde notoriamente caro e excludente

Essa economia, argumenta Sanders, não é um acidente, mas o resultado direto de decisões políticas tomadas para beneficiar os oligarcas — como cortes de impostos para os ricos, desregulamentação financeira e políticas comerciais que favorecem corporações multinacionais.

A Ameaça Autoritária sob Trump

Um aspecto crucial do livro é a análise de como a oligarquia se combina com tendências autoritárias durante a presidência de Donald Trump. Sanders argumenta que Trump representa uma fusão perigosa entre oligarquia econômica e autoritarismo político, onde:

  • A democracia é minada através de ataques sistemáticos a instituições independentes (Congresso, Judiciário, imprensa)

  • O populismo de fachada esconde políticas que beneficiam exclusivamente os mais ricos

  • A corrupção é institucionalizada através de conflitos de interesse flagrantes e troca de favores

Sanders alerta que este não é um fenômeno exclusivamente americano, mas parte de uma tendência global onde oligarcas frequentemente apoiam líderes autoritários que protegem seus interesses em troca de poder político.

O Caminho da Resistência e da Reconstrução

Apesar do diagnóstico sombrio, "Fight Oligarchy" é fundamentalmente um livro de esperança e ação. Sanders documenta como sua turnê de palestras "Combatendo a Oligarquia", iniciada nos primeiros dias do governo Trump, atraiu multidões recordes em todo o país — demonstrando que um número significativo de americanos, atravessando divisões partidárias, está pronto para contestar este sistema.

O senador apresenta um plano concreto para revitalizar a democracia americana, incluindo:

  1. Reforma radical do financiamento de campanhas: Movimento em direção ao financiamento público de eleições

  2. Expansão dos direitos de voto: Tornar o registro e a votação mais acessíveis, combater a supressão eleitoral

  3. Reforma econômica progressista: Salário mínimo digno, sistema de saúde universal, ensino superior público gratuito

  4. Fortalecimento do poder de negociação coletiva: Revitalização do movimento sindical

  5. Transparência e ética governamental: Medias rigorosas contra conflitos de interesse e "portas giratórias" entre governo e setor privado

O Poder do Movimento Popular

O cerne da mensagem de Sanders é que o verdadeiro poder reside no povo organizado. Ele cita exemplos históricos — desde o movimento pelos direitos civis até a luta pelos direitos dos trabalhadores — onde mudanças profundas foram conquistadas através de mobilização popular sustentada, não de benevolência das elites.

"Fight Oligarchy" serve tanto como manual de resistência quanto como manifesto para uma sociedade mais igualitária. Sanders insiste que, apesar da concentração atual de poder, a história mostra que sistemas oligárquicos são vulneráveis quando confrontados com movimentos populares determinados, multigeracionais e multiétnicos.

Um Chamado à Ação

Mais do que uma simples crítica, "Fight Oligarchy" é um apelo urgente à conscientização e à ação. Sanders conclui com um argumento otimista: a América já enfrentou oligarquias no passado (como durante a Era Dourada do final do século XIX) e as superou através de movimentos progressistas. A atual crise, por mais grave que seja, contém em si as sementes de sua própria superação — desde que os americanos comuns recuperem a fé em seu próprio poder coletivo e se organizem para reivindicar uma democracia que funcione para todos, não apenas para os bilionários.

O livro permanece relevante não apenas como análise do momento Trump, mas como guia para compreender e combater as forças oligárquicas que continuam a moldar a política americana, independentemente de qual partido ocupa formalmente o poder. É um testemunho da resistência democrática e um roteiro para sua renovação.


Oligarquia no Ceará: O Paradoxo da Concentração em Terra de Contrastes

A análise de Bernie Sanders sobre a oligarquia norte-americana encontra um espelho perturbador na realidade cearense. O Ceará, estado que paradoxalmente ostenta o maior número de bilionários per capita do Brasil, exemplifica com trágica clareza como sistemas oligárquicos se reproduzem e perpetuam desigualdades históricas, mesmo dentro de estruturas democráticas formais.

A Engrenagem da Oligarquia Cearense

Há quatro décadas, o poder político e econômico no Ceará concentra-se em torno de um grupo restrito de famílias — Ferreira Gomes, Camilo Santana, Mauro Benevides, Domingos, Zezinho Albuquerque e outras — que transitam entre cargos públicos, negócios privados e influência midiática, criando um ecossistema de privilégios autoperpetuante. Esta estrutura opera através de:

  1. Incentivos fiscais generosos que beneficiam grandes conglomerados enquanto a carga tributária recai sobre pequenos negócios e trabalhadores

  2. Acesso privilegiado a bancos públicos que financiam empreendimentos das elites enquanto microempreendedores enfrentam burocracia e juros proibitivos

  3. Controle da máquina estatal que direciona recursos públicos para territórios e setores aliados

  4. Monopólio sobre grandes projetos de infraestrutura, imobiliários e turísticos

As Consequências da Concentração Cearense

Enquanto o Ceará se promove internacionalmente como destino turístico de excelência e atrai megaprojetos imobiliários voltados para estrangeiros, a realidade para a maioria da população é marcada por:

  • Pobreza estrutural que persiste há gerações

  • Criminalidade explosiva alimentada pela exclusão social

  • Genocídio da juventude pobre, majoritariamente negra e periférica

  • Concentração de renda extrema (o 1% mais rico detém parcela desproporcional da riqueza estadual)

  • Precarização do trabalho e desmonte de serviços públicos essenciais

O modelo de desenvolvimento adotado privilegia setores que pouco geram empregos de qualidade para a população local, aprofundando a distância entre os enclaves de luxo e as periferias abandonadas.

O Brasil no Contexto Oligárquico Global

Assim como Sanders identifica nos EUA, e como vemos na Colômbia e outras nações, o Brasil e particularmente o Ceará demonstram que a oligarquia não é um resquício do passado, mas um sistema moderno e adaptável que:

  • Coopta linguagem progressista para manter privilégios

  • Utiliza instituições democráticas para fins antidemocráticos

  • Transforma o Estado em instrumento de acumulação privada

  • Fragmenta movimentos populares através de clientelismo e cooptação

O Caminho da Transformação: Com o Povo nas Ruas

A resposta a este sistema não pode vir dos mesmos métodos da direita oligárquica — que joga dentro das regras por ela mesma criadas. Como Sanders argumenta, a transformação real exige:

  1. Organização popular autônoma que independa das estruturas oligárquicas

  2. Verdade nos discursos que nomeiem os mecanismos de dominação sem eufemismos

  3. Ações diretas não-violentas que despertem a consciência coletiva

  4. Articulação de amplas frentes que unam movimentos sociais, trabalhadores formais e informais, juventude, comunidades tradicionais e intelectuais comprometidos

  5. Projetos de poder alternativos que construam desde já formas de organização econômica e política democráticas

Conclusão: A História Não Acabou

A experiência cearense confirma o que Sanders afirma: oligarquias podem parecer onipotentes, mas carregam em si as sementes de sua própria contestação. A pobreza que geram, a violência que cultivam, a exclusão que perpetuam — tudo isso alimenta a resistência.

Fazer história no Ceará, no Brasil e nas Américas significa reconhecer que a verdadeira política não se faz nos palácios, mas nas ruas; não com os meios da direita, mas com a criatividade dos oprimidos; não com mentiras convenientes, mas com verdades inconvenientes.

Contra a mentira institucionalizada, precisamos de discursos que nomeiem as coisas pelo que são: não "incentivos fiscais", mas subsídios aos ricos; não "segurança pública", mas criminalização da pobreza; não "desenvolvimento", mas acumulação por despossessão.

A luta contra a oligarquia cearense é parte da mesma batalha que Sanders descreve: pela ideia radical e transformadora de que uma sociedade não existe para beneficiar alguns poucos, mas para garantir vida digna para todos. Como ele demonstra, quando o povo se organiza, compreende seu poder e age com determinação, até as oligarquias mais arraigadas podem ser desafiadas — e transformadas.

O Ceará, com sua riqueza concentrada e pobreza disseminada, não é uma anomalia, mas um microcosmo do Brasil e das Américas. Sua libertação será parte da libertação de todos nós.



LULA E BERNIE SANDERS PRESIDENTES!



Wagner Moura escolhido Melhor Ator homenageia a todos que lutam em momentos difíceis por valores pelo que é certo !




Wagner Moura escolhido Melhor Ator homenageia a todos que lutam em momentos difíceis por valores pelo que é certo apesar de vocês Bolsonaristas! Hoje é um novo dia construindo outra História possível.

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet melhor filme do Globo de ouro! Não é um filme é uma catarse da vida poética.


 

Viva o Nordeste! Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho. Fora Fascismo! Sem anestia e Impeachment Trump!


 

domingo, 11 de janeiro de 2026

Luz, câmera, algoritmo: o país onde o cinema já está tomado por imagens produzidas por IA

 

A heroína do filme 'Naisha', de Vivek Anchalia, totalmente gerada por IA, vestindo blusa preta

Crédito,Vivek Anchalia

Legenda da foto,A heroína do filme Naisha, de Vivek Anchalia, totalmente gerada por IA
    • Author,Viren Naidu
    • Role,BBC Future
  • Tempo de leitura: 10 min

Quando o diretor e roteirista Vivek Anchalia apresentou seu próximo filme, os produtores não se entusiasmaram. Seu projeto só começou a ganhar força quando ele trouxe um novo tipo de colaborador.

Com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial (IA), como o ChatGPT e Midjourney, Anchalia encontrou uma forma de produzir o filme sozinho. O Midjourney forneceu os visuais e o ChatGPT serviu de placa de som.

Em pouco mais de um ano, ele conseguiu adaptar a linha de produção amplificada por IA, um quadro de cada vez.

"Acho que o Midjourney já me conhece intimamente", brinca ele.

Anchalia também é letrista. Ele tinha diversas canções românticas aguardando um pano de fundo no estilo de Bollywood para serem lançadas.

"Logo começou a surgir uma história", ele conta. E o resultado foi o filme romântico Naisha.

"Por que esperar pela aprovação de um estúdio, se a IA me permite produzir o filme como eu desejo?"

Na diversificada indústria cinematográfica indiana, a IA não é apenas uma curiosidade adotada por cineastas emergentes. Ela também se infiltrou no dia a dia da produção de filmes com grandes orçamentos.

Do rejuvenescimento de atores veteranos até a clonagem de vozes e visualização de cenas antes da filmagem, a IA já está presente em todos os campos da cinematografia indiana.

Alguns estúdios se apaixonaram rapidamente pela tecnologia, mas ela traz consigo novos riscos e dilemas éticos.

O cinema indiano adotou a IA no processo de criação e produção de filmes de forma totalmente oposta aos seus primos americanos de Hollywood.

Nos Estados Unidos, atores e roteiristas resistem firmemente ao uso da IA. Houve greves generalizadas dois anos atrás, que paralisaram programas de TV e grandes produções.

Mas, para Anchalia, a IA impulsionou sua produção. O orçamento do seu filme foi de menos de 15% de uma produção tradicional de Bollywood e 95% do longa metragem de 75 minutos foram gerados por IA.

Depois da divulgação do trailer, sua heroína Naisha, gerada por computador, chegou a conseguir um contrato publicitário com uma joalheria de Hyderabad, no sul da Índia.

Cena do filme 'Ghost', com o rosto rejuvenescido por IA do ator indiano Shiva Rajkumar

Crédito,MG Srinivas

Legenda da foto,A indústria cinematográfica da Índia (a maior do mundo) vem adotando o uso da IA com mais rapidez do que Hollywood, mas a tecnologia não agrada a todos

Anchalia conta que pode ter precisado repetir mil vezes o mesmo processo até encontrar o visual desejado. Mas, ainda assim, foi muito menos estressante do que montar uma grande produção.

"A IA democratizou a cinematografia", afirma ele. "Hoje em dia, qualquer jovem aspirante a cineasta, sem recursos, pode produzir um filme usando a IA."

Diretores já estabelecidos também adotaram a inteligência artificial.

Jithin Laal usou a IA nas primeiras etapas de criação do sucesso de bilheteria Ajayante Randam Moshanam (ARM), produzido em língua malaiala, falada no sul da Índia. O diretor gerou a visualização de um complexo sistema de travas que ele tentava, com dificuldade, explicar para sua equipe de efeitos visuais.

A pré-visualização dirigida por IA, agora, está incorporada ao processo de Laal para contar histórias.

"Para o meu próximo filme, estamos testando cenas antes de comprometer recursos financeiros com a produção em larga escala", ele conta.

Já o cineasta Arun Chandu produziu uma sátira de ficção científica com um orçamento muito limitado, de 20 milhões de rúpias indianas (cerca de US$ 240 mil, ou R$ 1,3 milhão). "É menos que o custo de um casamento indiano", exclama Chandu, rindo.

Ele usou Photoshop, programas gráficos e uma ferramenta de aprendizado profundo chamada Stable Diffusion para criar uma sequência militar no seu filme pós-apocalíptico, Gaganachari, também falado em idioma malaiala.

Paralelamente, os designers de som Sankaran AS e KC Sidharthan adotaram ferramentas alimentadas por IA, como Soundly (uma biblioteca de sons em nuvem) e Reformer, do Krotos Studio, uma ferramenta de design de som que permite aos artistas editar de forma lúdica os efeitos sonoros, usando indicações como sua própria voz.

"Antigamente, se um cineasta tivesse uma ideia radical de última hora, era preciso alugar um estúdio", explica Sankaran. "Hoje, nosso enfoque é 'podemos fazer isso imediatamente'."

Mas, enquanto o cinema indiano adota a IA sem restrições, surge uma grande preocupação: estarão os cineastas indianos prejudicando a criatividade humana e gerando riscos desnecessários para os seus projetos?

Cineastas como Laal defendem que, ao contrário dos artistas humanos, a inteligência artificial não tem a profundidade emocional, nuances culturais e a intuição humana, que são fundamentais para a criação de grandes roteiros.

Uma versão do filme Raanjhanaa (2013) em idioma tâmil (falado no sul da Índia, entre outros países) foi relançada em agosto de 2025. Seu trágico final foi substituído por um final feliz, criado por IA.

A nova versão foi idealizada pela mesma companhia que produziu o filme, sem o consentimento do diretor original.

Modelo de trava complexa criado por IA, como ilustração para o novo filme do diretor indiano Jithin Laal

Crédito,Jithin Laal

Legenda da foto,O diretor Jithin Laal usou a IA para visualizar uma trava complexa que ele tinha dificuldade para descrever para sua equipe de efeitos visuais

Paralelamente, cineastas indianos expressaram ceticismo sobre a real possibilidade de que a IA ajude os filmes de baixo orçamento. Outros criticaram a falta de profundidade emocional da tecnologia.

"Ela não consegue criar mistério, sentir medo ou amor", declarou o diretor Shekhar Kapur à BBC, em 2023.

No cinema ocidental, o rejuvenescimento digital de atores chegou a causar controvérsia. Um caso foi o da versão rejuvenescida de Tom Hanks no drama Aqui (2024).

Mas, quando os cineastas da Índia usaram IA para inserir uma versão rejuvenescida do veterano ator indiano Mammootty, no filme em malaiala Rekhachithram (2025), as redes sociais ficaram repletas de elogios.

Alguns fãs aclamaram o rejuvenescimento como "a melhor recriação por IA do cinema indiano". A obra se tornou um dos filmes malaialas de maior bilheteria do ano.

Em Rekhachithram, Mammootty, que tem 73 anos de idade, aparece como se tivesse pouco mais de 30. Andrew Jacob D'Crus, um dos fundadores e supervisor de efeitos visuais da Mindstein Studios, conduziu o processo.

Ele e sua equipe alimentaram inicialmente modelos de IA com dados visuais de Mammootty, retirados do filme Kathodu Kathoram (1985). Mas a filmagem resultante ficou granulada.

"O material usado para alimentar a IA não era bom", explica D'Crus. A equipe tentou, então, usar cenas de Mammootty no filme Manu Uncle (1988), que foi remasterizado em 4k.

O veterano ator Sathyaraj, mundialmente conhecido pela franquia Baahubali, tem sua própria opinião a respeito.

"Se a IA puder estender minha vida útil, permitindo que eu interprete protagonistas em filmes de ação, em uma indústria marcada pelo etarismo como a nossa, por que não usá-la?"

Ele se refere à sua cena de rejuvenescimento no filme de super-herói Weapon (2024), em idioma tâmil. A tecnologia fez com que sua aparência se transformasse dos atuais 70 anos de idade para a casa dos 30 anos.

O diretor Guhan Senniappan idealizou uma sequência estilizada, similar às de Kill Bill (2003-2004).

"Mas não tínhamos orçamento, nem tempo suficiente", relembra ele. "Não fosse pela IA, teríamos postergado o lançamento."

Falta diversidade cultural

Apesar da eficiência que a IA trouxe para o projeto, Senniappan também observou peculiaridades da tecnologia.

"Tente colocar prompts como 'semideus' e ela irá fornecer resultados irreconhecíveis", ele conta. "A IA desconhece completamente referências hiperlocais enraizadas na mitologia indiana."

No caso de cenas culturalmente ricas, ele continua contratando artistas tradicionais para preparar storyboards.

Frustrado e, segundo ele, quase ofendido, Senniappan destaca que as ferramentas de IA são derivadas de conjuntos de dados ocidentais. Por isso, ela é insensível em relação à estética indiana.

"Você pode criar uma sequência de um filme regional indiano usando o ChatGPT, mas precisaria alimentar a memória cultural do roteiro original", explica ele. "Aquele roteiro precisaria ser escrito por um roteirista humano."

O cineasta MG Srinivas ficou surpreso com a ignorância cultural da IA quando usou a tecnologia para clonar a voz do ator principal, Shiva Rajkumar, no seu filme Ghost (2023), em idioma canarês, falado no sul da Índia.

Srinivas precisou de engenheiros humanos para reescrever os modelos fonéticos regionais e retificar inconsistências de fala, como sigmatismo.

"Quando o trailer foi publicado em diversos idiomas, funcionou", ele conta. "O público não percebeu que a voz de Shiva Rajkumar nas versões em hindi, telugu e malaiala não era dele."

Senniappan e Srininvas acreditam que, para uma indústria cinematográfica como a indiana, com sua diversidade linguística, a inteligência artificial atualmente não compreende nuances culturais e emocionais. Por isso, a intervenção humana é fundamental.

Dois retratos lado a lado do ator indiano Shiva Rajkumar, com sua imagem real à esquerda e a versão rejuvenescida por IA, à direita

Crédito,MG Srinivas

Legenda da foto,A IA rejuvenesceu o rosto do ator Shiva Rajkumar no filme de ação Ghost. O ator real aparece na imagem à esquerda e a versão rejuvenescida, à direita.

Para ajudar a enfrentar estas questões, o cineasta Arun Chandu está treinando modelos de IA para espelhar sua própria criatividade.

"Estou criando um clone de mim mesmo", ele conta.

Ex-fotógrafo, Chandu está alimentando todo seu trabalho, incluindo suas características de composição, cores e estilo visual, em um modelo de IA. Ele espera que esse modelo copie sua personalidade artística.

Um dos riscos é que as pessoas comecem a recolher indevidamente propriedade intelectual e imagens dos atores, pois não existe legislação específica no país para proteger as pessoas contra o mau uso da inteligência artificial.

"Não existe um único estatuto abrangente neste sentido", segundo a advogada especializada em entretenimento Anamika Jha, fundadora da organização Attorney for Creators.

Para pessoas vivas, existem na Índia proteções legais em relação ao uso das suas imagens e vozes, segundo ela. Mas essas proteções, atualmente, são restritas a apresentações ao vivo ou gravadas e não se estendem especificamente às imitações geradas por IA.

"A ausência de reformas legislativas explícitas para cobrir esses usos comprova que as leis não estão acompanhando a velocidade da IA", explica Jha.

Existe também uma aparente falta de proteção para os profissionais da indústria cinematográfica, cujos empregos são ameaçados pela inteligência artificial.

"Na Índia, as leis trabalhistas atuais não incluem o uso da IA para eliminar ou reproduzir o trabalho humano", segundo a advogada.

Alguns cineastas consideram as implicações éticas da adoção de IA.

O diretor e roteirista Srijit Mukherji fez uso de inteligência artificial para recriar as vozes de dois artistas bengalis já falecidos: o vencedor do Oscar Satyajit Ray (1921-1992), no filme Padatik, e Uttam Kumar (1926-1980) em Oti Uttam.

"Acho que não se trata realmente de um dilema ético, se você fizer da forma certa", explica Mukherji. "Nós trouxemos as famílias para participar."

Mas Jha destaca que "os direitos póstumos à personalidade não são formalmente reconhecidos" na Índia. Isso significa que "a voz ou a aparência de um ator poderia ser utilizada após a morte, sem consentimento".

"As famílias podem oferecer permissões informais, mas não existe uma estrutura jurídica", explica ela.

Duas imagens lado a lado do ator indiano Sathyaraj, com sua aparência real à esquerda e a versão rejuvenescida por IA, à direita

Crédito,Guhan Senniappan

Legenda da foto,O ator Sathyaraj, agora com 71 anos, foi rejuvenescido com ajuda da IA e aparece na casa de 30 anos no filme Weapon

Existem outras questões a serem consideradas, como o fato de que a IA pode produzir imagens que parecem "estranhas" para os olhos humanos. A tecnologia também pode criar alucinações ou confundir detalhes das imagens geradas.

"Sempre existe a preocupação de que algo possa surgir com aparência 'deslocada'", explica D'Crus. "Um sorriso que não parece natural ou uma mecha de cabelo rígida. O público percebe essas falhas."

O diretor do Laboratório de Ideias da Universidade Purdue, nos Estados Unidos, Aniket Bera, trabalhou em dois projetos muito diferentes na área de IA: a restauração de um fragmento de filme de 1899, que se acredita ser a filmagem mais antiga remanescente na Índia, e um experimento anterior baseado em inteligência artificial, com o filme Pather Panchali (1955), de Satyajit Ray.

"A IA suaviza as sombras e contraste que eram tão fundamentais para a ambientação do filme", explica ele. "A IA não entende simbolismo, só adivinha padrões."

Bera afirma que todas as etapas exigiram revisão humana, para garantir que o resultado fosse fiel ao original.

"A IA alucinava detalhes com frequência, alterando a linguagem visual para 'melhorar' coisas. Com isso, nos arriscamos a reescrever a história."

Para Mukherji, a inteligência artificial permitiu que ele transformasse sua visão de cineasta em realidade. Afinal, de que outra forma ele poderia escalar dois atores mortos?

A IA recriou a voz de Uttam Kumar em todo o filme Oti Uttam. Mas ele destaca que o projeto dependeu muito, como sempre, da intervenção humana, para a criação do roteiro, seleção de material de arquivo, obtenção de autorizações legais e verificação do material produzido por inteligência artificial.

As ferramentas de IA estão evoluindo rapidamente, criando uma série de questões éticas e regulatórias. Mas Mukhreji pede otimismo.

"Em vez de entrarem em pânico, os seres humanos devem ficar confortáveis com a IA", aconselha ele. "Aprenda, domine e aproveite."

"Ela não é um monstro com aparência de androide, tentando devorar sua criatividade. Ela ajuda a criatividade, não a substitui."

Ainda assim, para outros, as limitações da inteligência artificial permanecem evidentes.

Chandu compartilha na sala de aula seu aprendizado no set de filmagem, como professor em um curso universitário sobre IA no cinema.

Em um dos módulos, ele pede aos alunos que produzam dois filmes, um usando o ChatGPT e ferramentas de vídeo baseadas em IA e o outro inteiramente com técnicas tradicionais.

"Depois, comparamos qual versão parece mais autêntica", explica ele. "O objetivo é compreender se ambas podem coexistir."

Geralmente é mais rápido e fácil criar filmes com IA, segundo ele. "Mas a versão mais refinada é sempre a humana."

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Innovation.