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terça-feira, 5 de maio de 2026

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A rede clandestina que contrabandeia tecnologia da Starlink para combater apagão de internet no Irã

 

Aparelho branco retangular da Starlink dentro de uma caixa de papelão, com as mãos de uma pessoa usando luvas plásticas azuis e roupa escura tocando nas extremidades, como se estivesse retirando o dispositivo da caixa
Legenda da foto,Sahand embala um terminal da Starlink sendo preparado para envio ao Irã
    • Author,Reha Kansara
    • Role,Unidade Global sobre Desinformação da BBC
  • Tempo de leitura: 9 min

"Se uma só pessoa conseguir ter acesso à internet, acho que tivemos sucesso e que valeu a pena", afirma Sahand.

iraniano está visivelmente nervoso ao conversar com a BBC, mesmo estando fora do Irã. Ele explica cuidadosamente que faz parte de uma rede de contrabando, que transporta clandestinamente tecnologia de internet via satélite (que é ilegal no Irã) para dentro do país.

Sahand é um nome fictício. Ele receia pelos seus familiares e outros contatos que estão em território iraniano.

"Se eu for identificado pelo regime iraniano, eles poderão fazer as pessoas com quem tenho contato no Irã pagarem o preço", explica ele.

O Irã vive um apagão digital há mais de dois meses. O governo do país mantém um dos mais longos bloqueios nacionais de internet já registrados em todo o mundo.

O apagão atual começou após os ataques aéreos dos Estados Unidos e Israel ao Irã em 28 de fevereiro.

O acesso à internet havia sido parcialmente restaurado apenas um mês antes dos ataques, após outro apagão digital imposto em janeiro, durante a repressão do regime aos protestos que se espalharam pelo país.

Naquela ocasião, mais de 6,5 mil manifestantes foram mortos e 53 mil foram detidos, segundo a Agência de Notícias Ativistas dos Direitos Humanos (HRANA, na sigla em inglês), com sede nos Estados Unidos.

As autoridades afirmam que o governo desligou a internet durante a guerra por razões de segurança, indicando que o objetivo é evitar vigilância, espionagem e ciberataques.

Mãos seguram um telefone celular que mostra uma imagem do novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, no dia 12 de março de 2026, durante a transmissão de uma de suas declarações

Crédito,AFP via Getty Images

Legenda da foto,Sem acesso a fontes de informação independentes, os iranianos dependem dos meios de comunicação estatais, administrados pelo regime ou próximos ao governo
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Os aparelhos da Starlink que Sahand envia para o Irã são uma das formas mais confiáveis de escapar do apagão.

Os terminais podem ser acoplados a roteadores e fornecem acesso à internet por conexão com a rede de satélites da empresa SpaceX, de Elon Musk. Eles permitem aos usuários evitar totalmente a internet doméstica iraniana, altamente controlada.

Sahand explica que várias pessoas podem se conectar a cada terminal ao mesmo tempo.

Ele conta que ele e outras pessoas da rede compram os aparelhos e "os contrabandeiam pelas fronteiras" em uma "operação muito complexa". Mas ele se recusa a fornecer mais detalhes.

Sahand afirma que já enviou uma dúzia de aparelhos para o Irã desde janeiro e "estamos buscando ativamente outras formas de levar mais".

A organização de defesa dos direitos humanos Witness estimou em janeiro que havia pelo menos 50 mil terminais Starlink no Irã. Mas os ativistas afirmam que o número provavelmente aumentou.

A BBC entrou em contato com a SpaceX para obter mais detalhes sobre o uso da Starlink no país, mas não houve resposta até a publicação desta reportagem.

No ano passado, o governo iraniano aprovou leis sujeitando o uso, compra ou venda de aparelhos da Starlink a até dois anos de prisão. E as penas por distribuir ou importar mais de 10 aparelhos podem atingir até 10 anos.

A imprensa afiliada ao Estado iraniano relatou diversos casos de pessoas sendo presas por vender e comprar terminais Starlink, incluindo quatro pessoas (duas delas, estrangeiros) que foram presas no mês passado por "importar equipamento de internet via satélite".

Os meios de comunicação estatais iranianos também noticiaram que algumas das prisões se referem a acusações de posse ilegal de armas e envio de informações para o inimigo.

Mulher em um protesto de rua, enrolada em uma bandeira do Irã, segura um cartaz dizendo: '90 milhões de vozes, 216+ horas offline, silenciadas pelo blackout do CGRI', com outras pessoas com bandeiras iranianas ao fundo

Crédito,SOPA Images/LightRocket via Getty Images

Legenda da foto,Manifestantes em Londres participaram dos protestos reivindicando acesso à internet sem restrições no Irã

Mas o mercado para os terminais no Irã persiste, por exemplo, em um canal público do Telegram em idioma persa, chamado NasNet.

Um voluntário de fora do Irã envolvido no canal contou à BBC que foram vendidos cerca de 5 mil terminais Starlink por meio do canal nos últimos dois anos e meio.

O Irã tem um longo histórico de controle da informação, tanto promovendo suas próprias narrativas antiamericanas e anti-israelenses pelos meios de comunicação estatais, quanto restringindo a cobertura das medidas repressivas do regime contra seus críticos.

Durante os protestos de janeiro, mesmo com a internet desligada, houve vazamento de relatos e vídeos de execuções extrajudiciais, prisões e agressões.

As organizações de defesa dos direitos humanos sabem ou acreditam que grande parte dessas informações vieram de pessoas que tiveram acesso às plataformas de redes sociais via Starlink.

O sistema atual de internet do Irã é descrito como sendo "em camadas".

Todos os iranianos têm acesso a uma rede doméstica controlada pelo Estado. Nela, operam serviços como bancos, transporte e delivery de alimentos, além da imprensa estatal.

Antes dos apagões, os iranianos também tinham acesso à internet global. Mas muitos sites e serviços como o Instagram, Telegram, YouTube e WhatsApp foram bloqueados e o governo criou preços de acesso superiores aos da rede doméstica.

Muitos iranianos contornaram as restrições usando redes privadas virtuais (VPNs, na sigla em inglês), que conectam os usuários aos sites através de servidores remotos, ocultando suas localizações. Mas a assinatura destes serviços também aumentava os custos.

Agora, com o apagão, apenas algumas autoridades selecionadas e outros indivíduos, incluindo os jornalistas que trabalham para a imprensa estatal, têm acesso à internet sem restrições, usando os chamados "cartões SIM brancos".

Trilho branco brilhante de um foguete Falcon 9 transportando 25 satélites de internet da Starlink contra o céu escuro, acima de uma construção e palmeiras, em Pasadena, no Estado americano da Califórnia, no dia 6 de abril de 2026

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Os satélites de propriedade da SpaceX (na foto, sendo transportados por um foguete Falcon 9) são usados pela Starlink para fornecer serviços de internet

Em 2022, Elon Musk anunciou a ativação da Starlink no Irã após graves cortes na internet, durante os protestos gerados pela morte de uma mulher iraniana em custódia, Mahsa Amini.

Desde então, o uso do serviço aumentou, especialmente durante os apagões.

Agora, com as autoridades em busca cada vez mais dos terminais Starlink, Sahand e sua rede aconselham os usuários a empregar VPNs com a tecnologia via satélite, para permanecerem incógnitos. Mas muitas pessoas não podem pagar por este serviço, especialmente em uma época de crise econômica.

Sahand é uma das três pessoas que declararam à BBC que estão envolvidas no transporte clandestino de aparelhos da Starlink.

Ele conta que a operação da qual ele faz parte, incluindo a compra dos terminais, é financiada por iranianos no exterior e por outras pessoas que querem ajudar a fazer os aparelhos chegarem ao país. Sahand afirma que não recebe fundos de nenhum Estado estrangeiro.

Os terminais são enviados para indivíduos que, segundo eles acreditam, irão usar os aparelhos para compartilhar informações em nível internacional.

"As pessoas precisam da internet para poderem compartilhar o que está acontecendo no país", explica Sahand. "Acreditamos que estes terminais devem estar nas mãos de quem realmente precisa deles para fazer a mudança."

Bloco de apartamentos residenciais parcialmente destruído em Teerã, sem a parede externa e com um sofá azul em um cômodo repleto de escombros e um quadro ainda pendurado na parede

Crédito,EPA/Shutterstock

Legenda da foto,Os ataques aéreos dos Estados Unidos e Israel ao Irã continuaram durante os apagões da internet

Um grupo de defesa dos direitos digitais, que pede para permanecer incógnito, declarou à BBC estimar que pelo menos 100 pessoas tenham sido detidas pela posse dos terminais.

Sahand afirma que também conhece pessoas que foram presas por terem acesso ou possuírem aparelhos, mas nenhuma delas adquiriu dele o terminal.

Yasmin, cidadã americana-iraniana também com nome fictício, contou à BBC que um homem, seu parente, foi preso no Irã e acusado de espionagem por possuir um terminal Starlink.

A BBC perguntou à Embaixada iraniana em Londres por que apenas algumas pessoas têm autorização de acesso à internet no país e por que as penas pelo uso da Starlink são tão severas, mas não houve resposta até a publicação desta reportagem.

O governo iraniano reconheceu que o apagão prejudicou muito algumas empresas.

Em janeiro, um ministro declarou que cada dia de apagão da internet custa pelo menos 50 trilhões de rials (US$ 35 milhões, cerca de R$ 175 milhões) para a economia do Irã.

O país lançou recentemente um sistema chamado "Internet Pro", que oferece acesso parcial à internet global a algumas empresas. Um homem que trabalha para uma companhia iraniana contou à BBC que recebeu acesso por meio desta iniciativa.

A porta-voz do governo iraniano, Fatemeh Mohajerani, declarou que a intenção é "manter a conectividade das empresas durante a crise".

Ela também afirmou que o governo "se opõe totalmente à injustiça nas comunicações" e que, assim que as condições voltarem ao normal, "a situação da internet também irá se alterar".

"Os apagões das comunicações são uma clara violação dos direitos humanos e não têm justificativa", declarou ao Serviço Mundial da BBC, em função do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa (3 de maio), a diretora de defesa e política regional do grupo de defesa dos direitos digitais Access Now, Marwa Fatafta.

Ela alerta que os apagões da internet estão se tornando um "novo normal".

Segundo a Access Now, houve 313 apagões em 52 países em 2025, o maior número global desde o início do rastreamento, em 2016.

Cidadãos de Mianmar, Índia, Paquistão, Rússia e Irã vivenciaram o maior número de apagões da internet no ano passado, segundo o grupo de defesa dos direitos digitais.

A diretora-executiva do Centro de Direitos Humanos Abdorrahman Boroumand, Roya Boroumand, afirma que o vácuo informativo no Irã "permite que o Estado transmita sua narrativa, retratando os manifestantes como pessoas violentas ou agentes estrangeiros, enquanto suas vítimas, incluindo aquelas sentenciadas à morte, e as fontes de informação permanecem silenciadas".

Esta é uma motivação importante para Sahand.

"O regime iraniano comprovou que, durante um apagão, eles podem matar", afirma ele. "É super fundamental para os iranianos poder retratar o quadro real da situação."

Ele destaca que as pessoas que se apresentam voluntariamente para ajudar no transporte ilegal dos aparelhos "estão conscientes do risco".

Mas Sahand acrescenta que esta "é uma luta" e que "sentimos que precisamos intervir e ajudar, de alguma forma".

O que aprendi sobre adolescentes após conversar com 150 meninas de 13 a 17 anos

 

Ilustração de uma adolescente olhando para o telefone celular e, ao fundo um grupo de três meninos fazendo o mesmo
    • Author,Catherine Carr
    • Role,BBC Rádio 4
  • Tempo de leitura: 12 min

Um cartaz feito com canetas coloridas e colado na porta de um quarto particular anuncia: "SÓ PARA MENINAS", "Meninos não entram!" E acrescenta, travessamente: "Não se preocupem, meninos!"

O cartaz está repleto de corações e estrelas coloridas.

Um grupo de cerca de 12 meninas do clube juvenil DRMZ, no País de Gales, está mergulhado em um jogo de cartas quando me junto a elas em uma grande mesa redonda.

A conversa flui com facilidade enquanto nos falamos e, claro, pedimos pizza.

A visita faz parte da minha série About the Girls, da BBC Rádio 4. Conversei com cerca de 150 meninas, a grande maioria entre 13 e 17 anos.

Nossa conversa em torno daquela mesa foi um exemplo de muitas daquelas reuniões. Espertas, faladeiras, divertidas e brilhantes, as garotas foram uma companhia magnífica e estimulante.

Elas são cheias de ambição e planos para o futuro ("gostaria de ter uma geladeira onde colocar uma jarra... e de ser médica!"), de amor pelas amigas ("posso contar qualquer coisa para ela") e de uma grande consciência sobre a importância de cuidar dos familiares ("vou para o centro recarregar o carro elétrico da minha avó — adoro cuidar dela").

Cartaz colado com fita adesiva na porta de um quarto particular
Legenda da foto,Catherine Carr conversou com um grupo de cerca de 12 meninas do clube juvenil DRMZ, no País de Gales

A conversa variava entre o jogo de cartas que estava em andamento, dramas escolares, professores de que elas gostam (ou não), coisas que haviam visto nas redes sociais e se havia fatias de pizza de mussarela suficientes para todas. A conclusão foi que sim, havia.

Este projeto é uma espécie de continuação da minha outra série, About the Boys, quando também conversei com meninos adolescentes de todo o Reino Unido.

A pandemia de covid-19, o movimento #MeToo e todo o barulho em torno do influenciador misógino Andrew Tate me deixaram curiosa para saber o que eles estavam pensando.

Os meninos também foram uma companhia excelente: reflexivos, eloquentes e corajosos. Parecia lógico e justo repetir o experimento com as meninas.

Por acaso, os arquivos de Epstein foram publicados justamente quando parti para Carmarthen, a cidade no sudoeste do País de Gales onde elas estavam. E o trabalho rapidamente ganhou senso de urgência ainda maior.

O que eu não esperava era que, ao longo de todas as conversas, um tema aparecesse tantas vezes: as adolescentes ainda tendem a olhar para si próprias pelo olhar dos garotos.

O mais importante é que parece haver uma séria compreensão a este respeito.

Minha pergunta inicial foi "como é realmente ser uma menina em 2025/26? Digam a verdade, esqueçam a delicadeza!" E a resposta, quase invariavelmente, começava assim: "Bem, os meninos pensam/dizem/querem/sentem..."

Estas conversas pareciam uma versão estranha e real do teste de Bechdel, que oferece uma medida para avaliar a representação feminina no cinema.

Para ser aprovado, o filme (1) precisa ter pelo menos duas mulheres identificadas, que (2) falem entre si, sobre (3) algo que não seja um homem.

Nenhuma das minhas entrevistas seria aprovada.

Andrew Tate

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,O barulho em torno do influenciador misógino Andrew Tate foi um dos motivos que levaram ao trabalho da jornalista da BBC Catherine Carr

"Crescer como uma menina", declarou uma delas, "em grande parte, tem muito a ver com a forma como os meninos se comportam ao seu redor e o que eles estão fazendo para você".

"Por isso, não existe, na verdade, uma forma de falar disso sem mencionar os meninos... e é frustrante."

Mas por que esta dinâmica persiste?

As meninas que conheci falaram abertamente sobre o peso das expectativas sociais baseadas no gênero, na influência dos meninos no ambiente escolar e das versões de "perfeição" feminina exibidas continuamente nas redes sociais.

Elas também descreveram algo mais profundo sobre como as meninas aprendem a se comportar enquanto tentam viver pelo mundo com segurança.

'Não fazer barulho'

Depois que todas as meninas de Carmarthen foram para casa, conversei com a gerente do centro juvenil, Alison Harbor. Ela ficou encantada ao ver todas falando com tanta liberdade.

"Os meninos do clube se expressam bastante", segundo ela. "E contam todas as suas opiniões e pensamentos com muita segurança."

"Mas, hoje, as meninas se saíram igual! Minha preocupação é que, normalmente, elas internalizam muitos dos seus problemas."

As meninas não se retraíram, mas a ironia é que quase todas disseram que se comportam de forma diferente quando há meninos por perto.

Elas me contaram que não querem que os meninos as vejam como "intensas demais", "barulhentas demais", "esquisitas", "chatas" ou como alguém que quer chamar a atenção.

Elas disseram que os meninos podem ser barulhentos e engraçados, mas as meninas, não. E afirmaram que não querem "ocupar espaço" e que tentam ser "menores e mais silenciosas" em grupos mistos.

Menino gritando atrás de uma colega de classe em sala de aula

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,A pesquisa da professora Ola Demkowicz indica que as expectativas em sala de aula permitem que os meninos façam barulho, mas o mesmo comportamento não é esperado das meninas

Professoras de meninas declararam que elas "mantêm a cabeça baixa" e "não fazem barulho" ou "passam sem serem detectadas".

Durante sua pesquisa, a professora de psicologia da educação Ola Demkowicz, do Instituto de Educação de Manchester, na Inglaterra, conversou com mulheres jovens sobre os problemas que afetam sua saúde mental.

"Sem dúvida, ouvimos de jovens mulheres que existem pressões a este respeito, o que realmente faz com que elas precisem ser educadas e respeitosas", explica a professora. "E elas sentem que as expectativas de comportamento em relação a elas são maiores", em comparação com os garotos.

"Por isso, os meninos podem fazer barulho na aula, o que não é considerado problema. São meninos sendo meninos. E elas sentem que o mesmo não é permitido para elas."

Demkowicz defende que a sociedade espera uma "adultificação", ou seja, que as meninas se apresentem de forma mais madura.

"O que se espera é que você deve se comportar como uma pessoa adulta, sem necessariamente ser brincalhona ou expressar coisas em voz alta, nem mostrar que você luta por alguma coisa."

Em outros lugares, as meninas falaram dos seus medos e das suas experiências de assédio e violência sexual.

A pesquisa mais recente da organização britânica Girlguiding indicou que 68% das meninas alteram seu comportamento cotidiano para evitar assédio sexual.

E praticamente todas as meninas com quem conversei contaram terem recebido comentários de cunho sexual na rua.

Hannah Yelin, da Universidade Oxford Brookes, na Inglaterra, conta ter concluído, nas suas pesquisas com meninas, que elas são "devastadora e brilhantemente conscientes" de que o escrutínio que elas enfrentam, muitas vezes, é sexualizado.

A pesquisadora explica que as meninas reconhecem a rapidez com que seu posicionamento é vinculado à atração que os homens podem sentir em relação a elas. E também têm consciência de que isso pode colocar sua segurança em risco.

O ambiente escolar

A maioria das minhas 150 entrevistas foi realizada em escolas e os dados sobre o aumento do comportamento misógino não surpreenderam as meninas.

Um sindicato dos professores alertou recentemente que vem "crescendo uma crise de masculinidade" nas escolas do Reino Unido. Quase 25% das professoras pesquisadas afirmaram terem sido objeto de abusos misóginos por algum aluno no último ano.

As meninas contaram que, às vezes, os meninos as menosprezam, dizendo "faz um sanduíche para mim" ou "volte para a cozinha".

Elas observavam claramente a raiz do problema e, ao mesmo tempo, sentiam medo.

"Sinto que o medo vem de observar a internet", explicou uma aluna do ensino médio, "e ver que a razão que leva os meninos a atacarem muito as meninas é porque eles querem culpar alguém pelos seus problemas".

"Acho que a saúde mental dos homens é um problema, mas, com a internet, sinto que a principal solução para eles é simplesmente culpar uma mulher."

Por isso, ao mesmo tempo em que se preocupam com seus colegas de classe que "reprimem as coisas", as meninas também sentem medo da forma com que alguns meninos e homens podem agir, imitando os comportamentos da machosfera.

Para Yelin, "sua compreensão da misoginia e da cultura do estupro é muito sofisticada e devastadora, pois elas vivenciam isso todo o tempo, todos os dias".

Estudantes levantam a mão enquanto uma professora escreve no quadro

Crédito,PA Media

Legenda da foto,Um sindicato de professores alertou recentemente que vem 'crescendo uma crise de masculinidade' nas escolas britânicas

As mesmas meninas declararam que desejam proteger aquelas mais jovens que publicam na internet que "querem uma relação tóxica com um menino", dizendo a elas "que vigiem seu comportamento ou mudem de atitude".

Elas conseguiam observar como as meninas interpretam uma estranha espécie de papel feminino para agradar os meninos que, por sua vez, interpretam uma versão desvirtuada da masculinidade.

A solução que elas encontraram foi se organizarem.

Em uma escola que visitei em Rochdale, na Inglaterra, elas estavam criando um clube de meninas para discutir de tudo: da desigualdade de gênero, violência doméstica e vergonha do próprio corpo até a menstruação, sexualidade e os grupos de amizade.

Mas os líderes da fundação responsável por uma escola com sede em Birmingham levantaram mais uma preocupação: as meninas da escola podem ficar inquietantemente caladas na classe — isso, quando chegam a ir à escola.

O absenteísmo crônico (faltar a 50% das aulas ou mais) é um fenômeno crescente.

Em 2017/18, apenas 6% das meninas atingidas pelo absenteísmo ficavam gravemente ausentes. E, em 2024/25, o percentual mais que dobrou, atingindo 13%.

Os índices de ausência são mais altos para grupos específicos de alunos, como os que têm direito à merenda escolar gratuita.

Problemas de saúde mental, como ansiedade, foram a preocupação mais comum apresentada pelos pais de meninas para uma linha telefônica de apoio gerenciada pela organização beneficente Young Minds.

E existem também as responsabilidades de cuidados. Soube de meninas muito jovens, do sexto ano, que precisam cuidar de irmãos menores. E, por isso, elas faltam às aulas.

Em uma cidade, conversei com uma adolescente que havia passado um ano fora da escola, "ajudando a mamãe" com o bebê menor.

Tom Campbell dirige o ACT Academy Trust, que administra 38 escolas na Inglaterra e no País de Gales. Ele conta que "a queda [para as meninas] é real. E os dados claramente são alarmantes".

Além disso, o nível de aprovações nas provas de inglês e matemática caiu em 7%.

Progresso 'interrompido'

Mas todas as meninas que conheci tinham sonhos para o futuro, desde ser microbióloga até seguir carreira de atriz ou jogar pela seleção feminina de futebol da Inglaterra.

Fiquei muito impressionada com a consciência de todas elas sobre suas opções e como elas se comparam com as possibilidades disponíveis para as gerações anteriores.

"Sou muito agradecida pelas oportunidades que nós, meninas, temos hoje em dia!", disse uma alegre adolescente de 15 anos.

De fato, em quase todos os lugares que visitei, as meninas que conheci falaram (sem que eu perguntasse) sobre o seu lugar na história: como as mulheres conseguiram tão recentemente o direito de votar, de trabalhar e de serem independentes.

Elas também descreveram seu entendimento sobre os desafios enfrentados pelas suas mães, irmãs, tias, madrinhas e avós e como elas ainda encontram algumas dessas dificuldades. Afinal, mesmo quando as leis mudam, os comportamentos não se alinham necessariamente com elas.

As meninas descreveram por que elas acreditam que o progresso das mulheres, "que chegou até certo ponto", está sendo "freado" ou revertido, em alguns aspectos, pelas redes sociais e pelas opiniões impulsionadas por elas.

Elas mencionaram a reversão do caso Roe vs. Wade em meio às discussões sobre o aborto nos Estados Unidos, o movimento de ideias antiwoke, a divulgação de conteúdo sobre a "esposa tradicional" na internet e a postura de Elon Musk, a favor do aumento da natalidade.

Elon Musk de braços cruzados na Casa Branca, olhando para cima

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Algumas meninas falaram sobre a postura de Elon Musk, promovendo o aumento da natalidade

Por outro lado, elas disseram terem observado "homens mais velhos, de mais de 20 anos", compartilhando livremente na internet suas opiniões sobre "como deveriam ser as mulheres".

Fiquei impressionada com a consciência delas sobre o conteúdo disponível na internet.

As meninas observam claramente as formas pouco saudáveis em que são vendidos estilos de vida e padrões de beleza, mesmo sentindo que ainda precisam interpretar alguma versão daquele conteúdo.

Sua frustração por estarem presas em meio a tudo aquilo, às vezes, era perceptível.

Elas ficaram indignadas, por exemplo, porque suas "primas de oito anos receberam produtos de tratamento da pele no Natal", enquanto elas próprias tinham o rosto totalmente maquiado aos 12 anos.

Elas sabem que alguém está vendendo produtos para elas. Mas, ao mesmo tempo, os vídeos são de entretenimento e, muitas vezes, servem de base para suas conversas com as amigas.

Espaços para substituir as redes sociais

Por fim, suas amizades se desenvolvem, em grande parte, pelas redes sociais. As meninas disseram recear que ficar de fora das rápidas conversas na internet possa significar sua exclusão social na escola.

Elas falaram das dificuldades para gerenciar essas amizades híbridas "todos os dias, todo o tempo" e de lidar com incidentes de assédio na internet por parte de colegas, além dos comportamentos mais graves dos desconhecidos.

Uma menina disse acreditar que, à medida que crianças cada vez mais jovens passam a usar as redes sociais, a sua geração será a última a ter uma infância de verdade.

Segundo as meninas, seus pais dizem que elas estão "crescendo com o dobro da velocidade", mas comentaram que as mais jovens estão crescendo "três vezes mais rápido", "agindo como se estivessem no ensino médio, tendo apenas 10 anos".

Menina olhando seu telefone celular

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Uma menina disse acreditar que sua geração será a última a ter uma infância real, devido à participação das crianças mais jovens nas redes sociais

Mas a ideia de poder agitar uma varinha de condão e fazer tudo desaparecer gerou reações contraditórias.

As adolescentes mais velhas estão cansadas de "romance via Snapchat" e abaladas pelas imagens de genitais não solicitadas e interações sexuais "pornificadas".

Elas expressaram uma espécie de falsa nostalgia, um anseio por um encontro romântico sem celulares, no estilo dos anos 1990.

Mas elas também reconhecem como suas realidades na internet e fora da rede, agora, estão intimamente relacionadas.

Meninas de todas as idades rapidamente destacaram os benefícios de encontrar pessoas afins que talvez vivam longe e o consolo que isso pode oferecer. Mas algumas se aventuraram a dizer que, se as redes sociais desaparecessem em um passe de mágica (para todos), elas seriam mais felizes.

Depois de tantas horas de entrevistas, fico pensando nos clubes de jovens que visitei. Seu número diminuiu consideravelmente nos anos anteriores à pandemia.

O clube de netball (um jogo similar ao basquete) e a companhia de dança ficaram particularmente gravados na minha memória. Eles são "terceiros espaços", com comunidade na vida real e muita atividade.

Nestes clubes, as meninas com quem conversei tinham algo mais, que diferenciava suas entrevistas. Eram lugares onde elas podiam ser barulhentas e naturais, sem medo de fazer ruído, de ocupar o espaço ou de ser objeto de julgamento dos meninos ou de críticos na internet.

Um relatório publicado em 2025 pela organização beneficente britânica para jovens OnSide concluiu que 76% dos jovens passam a maior parte do seu tempo livre em frente às telas e quase a metade (48%), dentro dos seus quartos.

Então, me pergunto: de tanto falarmos em tentar retirar nossos adolescentes das telas, proibindo as redes sociais (onde, agora, eles sentem que se encontram e "comungam" entre si), será que deixamos de examinar com cuidado quais lugares seriam melhores para substituir a internet na vida real das meninas adolescentes?