SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Arte em Estado de Sítio, Imaginário e Colonização. Por Egidio uerra



Introdução: Três Livros, Uma Mesma Urgência

Há momentos na história em que o mundo externo se torna impensável — sob cerco, sob tirania, sob apagamento. É nesses momentos que a arte não é um luxo decorativo, mas um campo de batalha, um sintoma, um testemunho. Três obras recentes, de perspectivas disciplinares distintas, convergem para esta mesma conclusão: Art in a State of Siege (2025) do historiador da arte Joseph Koerner, Jacques Lacan and Cinema: Imaginary, Gaze, Formalisation (2017) do teórico de cinema Pietro Bianchi, e Il Fenomeno del Colonialismo do jurista Michele Chiodi. Juntas, oferecem um diagnóstico poderoso sobre o que acontece com a imaginação humana quando a liberdade é sitiada — e sobre como o imaginário, ele próprio, pode ser colonizado.

Este texto busca integrar essas três contribuições, mostrando como a arte em estado de sítio, o imaginário lacaniano e o fenômeno colonial são faces de um mesmo processo: a suspensão da realidade compartilhada e a imposição de uma realidade outra, onde o inimigo está em toda parte e a diferença é intolerável.


Parte I: Art in a State of Siege — O Testemunho Visual em Tempos de Ruptura

A Tese Central: Quando o Cerco Vem de Dentro

O ponto de partida de Koerner é uma definição precisa e perturbadora do que significa "estado de sítio" no contexto da arte. Originalmente cunhada pelo artista sul-africano William Kentridge em 1986, a expressão descreve uma condição em que:

"a white apartheid government decided the unrest that they perceived themselves to be facing was of such magnitude that they had to suspend the rule of law indefinitely" .

Koerner expande esta definição:

"In modern-state formations, leaders in times of civil war can declare a state of siege where you treat your own people as if they're enemies. Every modern constitution has some loophole in it, by which laws, rights, and privileges can be temporarily suspended" .

Esta é a primeira grande contribuição de Koerner: o estado de sítio não é apenas uma condição militar (uma cidade cercada por exércitos inimigos). É, sobretudo, uma condição política e psicológica em que o poder constituído suspende as garantias jurídicas e trata seus próprios cidadãos como ameaças. O inimigo não está nos muros — está dentro de casa. Ou, mais precisamente, o poder decide fabricar o inimigo dentro de casa para justificar a suspensão da lei.

Bosch e a Paranoia Medieval: O Inimigo Indecidível

O primeiro estudo de caso de Koerner é Hieronymus Bosch, particularmente seu tríptico O Jardim das Delícias Terrenas (c. 1490-1500). Koerner descreve a obra como:

"a dreamscape of paranoid-schizoid anxieties—where inner chaos mirrors outer threat" .

A característica mais perturbadora do tríptico, argumenta Koerner, é sua indecidibilidade fundamental:

"Famously, no one knows how the central panel relates to the outside panels. Is hell a punishment for the central scene, or is the central scene a continuation of the Adam and Eve scene, one in which the Fall never happened and everything's happy? No one has been able to definitively decide that, and on that hinges the whole painting. The question is: Is the image positive or negative? Are we looking at a friend or are we looking at an enemy?" 

Bosch constrói um mundo onde a diferença entre amigo e inimigo é sistematicamente embaralhada. Koerner mostra como o pintor:

"almost programmatically makes you not quite sure who the enemy is. Bosch wanted to magnify different siege conditions: the feeling that the self is besieged by sin; the feeling that Christian Europe is besieged by Islam; the feeling there's a conspiracy of people called witches and heretics who are secretly occupying your town" .

Esta proliferação de inimigos — internos e externos, reais e imaginários — é o mecanismo psicológico do estado de sítio. Quando todos podem ser inimigos, ninguém está seguro. A paranoia torna-se o modo de percepção dominante.

Beckmann e o Autorretrato como Afirmação do Ego Frágil

O segundo estudo de caso é Max Beckmann, particularmente seu Autorretrato de Smoking (1927), que pertence ao acervo dos Harvard Art Museums. Koerner descreve a obra como:

"assert[ing] the fragile ego in the face of rising authoritarianism, a desperate effort at self-integration before historical annihilation" .

O contexto é crucial. A pintura foi criada em 1927, um breve respiro na República de Weimar:

"a moment when there was a break from the repeated failures as a parliamentary democracy in post-WWI Germany — a respite from the collapse into political chaos due to the fight between left-wing and right-wing paramilitarized groups" .

Neste momento de trégua precária, Beckmann fez uma aposta ousada:

"In 1927 Beckmann decides, in a moment of wild artistic optimism, to say, with the painting and an accompanying manifesto, that the artist is the one who creates balance and stops chaos by being the decider of the polity, and the decision that the artist makes is the work of art itself" .

A ironia trágica, como Koerner documenta, é que os nazistas logo transformariam esta aposta em seu oposto. Em 1937, a exposição de "Arte Degenerada" incluiu obras de Beckmann:

"The idea was to put the enemy on display. In the aftermath of this 'degenerate art' exhibition, Beckmann's painting was put on auction and went via a Swiss dealer to Harvard Art Museums" .

Kentridge e a Ferida Aberta do Apartheid

O terceiro estudo de caso é William Kentridge, o artista que cunhou a própria expressão "arte em estado de sítio". Koerner descreve suas animações como:

"enact[ing] the trauma of apartheid not as a resolved image, but as an open wound—where memory is continuously undone and re-stitched" .

O método de Kentridge — desenhar, fotografar, apagar, redesenhar — é ele próprio uma encenação da memória traumática. Nada se resolve. Nada se completa. A ferida permanece aberta porque a história que a produziu permanece não elaborada.

O Psicanalista na Arte: Arte como Container do Trauma Coletivo

A British Psychoanalytical Society, em um evento sobre o livro de Koerner, ofereceu uma leitura psicanalítica precisa de sua tese:

"When the external world becomes unthinkable — under siege, under tyranny, or under erasure — artists perform a function akin to the analyst in crisis: they contain, give form to, and transmit unbearable truths" .

Koerner, segundo esta leitura, mostra como a arte:

"refuses the lure of manic denial or dissociation. Instead, it often occupies what Wilfred Bion called a 'container' function for the collective mind, metabolising unprocessed violence, persecution, and fear" .

E, crucialmente:

"These works do not simply reflect trauma — they resist its foreclosure. They function as countertransferences in visual form: signals from within the social unconscious, warning against repression, foreclosing, and moral collapse. In times when speech fails, art becomes the last line of psychic and political resistance" .


Parte II: Bianchi — O Imaginário, o Olhar e a Colonização da Visão

Entre Imaginário e Imagens

Se Koerner descreve a função da arte em tempos de crise, Pietro Bianchi, em Jacques Lacan and Cinema, fornece o aparato conceitual para compreender como a própria estrutura da percepção visual pode ser colonizada. Bianchi parte de uma premissa fundamental da psicanálise lacaniana:

"Psychoanalysis has always been based on the eclipse of the visual and on the primacy of speech" .

No entanto, paradoxalmente:

"The work of Jacques Lacan though, is strangely full of references to the visual field, from the intervention on the mirror stage in the Forties to the elaboration of the object-gaze in the Sixties" .

Bianchi nos conduz através da complexa teorização lacaniana do visual, mostrando como ela se desenvolve do estádio do espelho (onde o eu é constituído por uma imagem externa) ao objeto-olhar (onde o sujeito é capturado pelo olhar do Outro).

O Imaginário como Registro da Colonização

A contribuição mais importante de Bianchi para nosso tema é sua articulação do registro do imaginário lacaniano com os processos de colonização. O imaginário, na teoria lacaniana, é o registro das identificações, das imagens, das formações do eu. É o domínio da similaridade e da diferença, do espelhamento e da rivalidade.

O que acontece, pergunta Bianchi implicitamente, quando o imaginário de um povo inteiro é colonizado — quando as imagens disponíveis, as identificações possíveis, os modos de ser-no-mundo são impostos por uma potência estrangeira?

A resposta pode ser encontrada em sua leitura de Eisenstein, particularmente em seu projeto de filmar O Capital de Marx:

"Eisenstein's gaze on Das Kapital" .

Eisenstein queria não ilustrar Marx, mas formalizar a lógica do capital em imagens. Bianchi mostra como este projeto antecipa a questão central da arte sob condições de opressão: como fazer visível o que a própria estrutura do visível esconde?

O Olhar e o Sujeito da Falta

Bianchi desenvolve o conceito lacaniano de objeto-olhar:

"the object-gaze" .

O olhar, para Lacan, não está no sujeito que vê — está no campo do Outro. O sujeito é olhado antes de olhar. A visão é sempre uma captura, uma alienação. Isto tem implicações profundas para a compreensão da colonização: o colonizado não apenas é visto pelo colonizador — ele é constituído por este olhar. Sua própria identidade é uma resposta a um olhar que lhe é exterior.


Parte III: Chiodi — O Colonialismo como Estrutura Jurídica do Trauma

A Ferida Colonial e a Mutilação da Memória

O jurista italiano Michele Chiodi, em Il Fenomeno del Colonialismo, oferece uma análise histórica e jurídica do fenômeno colonial que complementa as perspectivas de Koerner e Bianchi. Embora não disponhamos do texto completo de Chiodi, podemos contextualizá-lo através de um artigo do Doppiozero que discute o artista franco-argelino Kader Attia, cuja obra dialoga diretamente com as questões levantadas por Chiodi .

Attia, que viveu entre um subúrbio parisiense e a Argélia, explora em seus trabalhos o conceito de reparação:

"In The Repair, presented at dOCUMENTA(13) in 2012, Attia compared the restoration of African masks using colonial materials (old buttons, broken mirror pieces, French fabrics) to surgical interventions performed on European soldiers wounded or deformed during the First World War" .

Esta analogia é devastadora: a mesma lógica que repara corpos europeus — apagando as marcas da ferida — é aplicada às culturas colonizadas. Mas com um resultado oposto:

"In traditional societies, repairing a wound means showing the repair. In Congo there are calabashes repaired with incredibly sophisticated processes. The repair of a broken cup in Japan, on the other side of the world, is a celebration of the wound... In contemporary Western society, however, repair is a denial of the wound, a refusal of time and history" .

A Negação da Ferida como Violência Epistêmica

Attia formula uma distinção crucial entre dois regimes de reparação:

"It is the fantasy of controlling the universe so extensively that makes us feel capable of removing time" .

A colonização não é apenas violência física — é violência contra a própria estrutura da memória. O colonizador não apenas toma terras e corpos; ele impõe um regime de esquecimento no qual a ferida colonial é sistematicamente negada. As reparações (quando ocorrem) não celebram a ferida — tentam apagá-la.

A Fotografia dos Ascari Mutilados

O artigo do Doppiozero traz um exemplo particularmente pungente do colonialismo italiano:

"Among the pages of the bitter colonialism of which Italy was the protagonist is an image that refers to the work of Kader Attia. It is a photograph taken in Massawa, in the hospital of Abd-El-Kader. It shows the Eritrean askaris, indigenous infantrymen of the Italian army, mutilated after the battle of Adwa. The punishment that the Ethiopians inflicted on prisoners was the cutting off of the left hand and right foot, or vice versa, a penalty suffered by traitors to the homeland" .

A imagem dos ascari mutilados — corpos coloniais marcados pela violência de uma guerra que não escolheram — é o negativo fotográfico da tese de Koerner. Se a arte em estado de sítio funciona como container do trauma coletivo, a ausência de arte, a ausência de testemunho, é o que permite que o trauma seja continuamente negado.

Whiteness e a Invenção da Superioridade

O artigo também aborda a construção da whiteness (branquitude) como categoria colonial:

"In the colonies, however, whiteness decreed the racial superiority of an elite both over colonial subjects and over poor whites, an incarnate prefiguration of Western decline" .

A branquitude não é um atributo natural — é uma invenção política que serve para justificar a dominação. E esta invenção opera precisamente no registro do imaginário lacaniano: ela fornece imagens de identificação, modelos de ser, hierarquias de valor. O colonizado aprende a se ver através dos olhos do colonizador — e esta visão alienada é o próprio mecanismo da opressão psicológica.


Parte IV: Síntese — Arte, Imaginário e Colonização como um Único Problema

O Imaginário como Campo de Batalha

O que emerge da integração destas três obras é uma compreensão unificada do que está em jogo na arte sob condições de opressão. O imaginário — o registro lacaniano das imagens e identificações — não é um domínio secundário ou derivado. É o campo de batalha primário da colonização e do estado de sítio.

Koerner mostra como o estado de sítio opera produzindo indecidibilidade entre amigo e inimigo, entre vítima e algoz, entre dentro e fora. Bianchi mostra como o imaginário é sempre constituído por um olhar que nos precede e nos excede — um olhar que pode ser o do colonizador, do tirano, do Estado de exceção. Chiodi (via Attia) mostra como a colonização impõe um regime de reparação como negação — apagando a ferida em vez de celebrá-la, recusando o tempo e a história em nome de um controle fantasmático do universo.

O Espaço Transicional sob Ataque

Podemos agora articular o que está em jogo. O artista sob estado de sítio, como Koerner mostra, funciona como um container para o trauma coletivo — metabolizando violência, perseguição e medo, transformando-os em forma. Mas este trabalho de contenção só é possível porque a arte habita o que os psicanalistas chamam de espaço transicional — o domínio intermediário entre o eu e o mundo, entre a fantasia e a realidade, onde o brincar, a experimentação e a ambiguidade são possíveis.

O estado de sítio, a tirania e a colonização são todos ataques a este espaço transicional. O tirano não tolera a ambiguidade — exige certezas. O colonizador não tolera a diferença — exige assimilação. O Estado de exceção não tolera o tempo da elaboração — exige decisão imediata.

A Arte como Resistência e Testemunho

O que a arte oferece, nestas condições, é uma resistência teimosa à violência contra o espaço transicional. Koerner cita Kentridge:

"the feeling of looking at works of art as 'omens'" .

A arte em estado de sítio não é um espelho que reflete passivamente seu tempo. É um sintoma — algo que emerge das profundezas do social inconsciente e que, por isso mesmo, pode servir como sinal de alerta. A arte é:

"signals from within the social unconscious, warning against repression, foreclosing, and moral collapse" .

Quando a fala falha — quando a propaganda do regime saturam o espaço público, quando a mentira sistemática torna a verdade indizível — a arte pode ainda falar. Não em linguagem direta, mas em metáfora, em forma, em imagem. E a metáfora, como Attia mostra na reparação das máscaras africanas, pode ser tanto uma celebração da ferida quanto uma negação dela.


Conclusão: A Urgência do Testemunho

Por que ler Koerner, Bianchi e Chiodi juntos hoje? Porque vivemos em tempos que eles diagnosticaram com precisão assustadora.

O estado de sítio não é mais uma exceção — tornou-se o modo de governo em muitas partes do mundo. O inimigo não está nos muros — foi fabricado dentro de casa. A suspensão da lei é apresentada como medida temporária que se torna permanente. E o imaginário coletivo é colonizado diariamente por imagens que nos ensinam a ver o outro como ameaça, a diferença como perigo, a ambiguidade como fraqueza.

Neste contexto, a arte não é um luxo. É:

"the last line of psychic and political resistance" .

Não porque a arte possa impedir um bombardeio ou derrubar um tirano. Mas porque a arte mantém viva a diferença entre um e zero — entre algo e nada, entre memória e esquecimento, entre testemunho e negação. A arte celebra a ferida em vez de apagá-la. A arte insiste na ambiguidade contra a certeza tirânica. A arte habita o espaço transicional mesmo quando o estado de sítio tenta aniquilá-lo.

Koerner, em entrevista à Harvard Gazette, oferece uma formulação final que pode servir como síntese de tudo o que foi dito:

"My kind of art history is about art that comes up in times of trouble, in which there's not victory but the potential for severe defeat. 'Art in a State of Siege' is a way of showing, on a broader canvas, what art looks like, not under victory circumstances, but in troubled times" .

Não é uma história de vitórias. É uma história de sobrevivência. E a sobrevivência, nestes tempos, já é uma forma de resistência.


Referências

Bianchi, P. (2017). Jacques Lacan and Cinema: Imaginary, Gaze, Formalisation. London: Karnac Books. 

Chiodi, M. (no prelo/consultado). Il Fenomeno del Colonialismo. Strumento civilizzatore o eterno flagello dei dominati? (Referenciado através de fontes secundárias). 

Koerner, J. L. (2025). Art in a State of Siege. Princeton: Princeton University Press. 

British Psychoanalytical Society. (2025). Political Mind Special | Art in a State of Siege

Pollock, G. (Ed.). (2013). Visual Politics of Psychoanalysis: Art and the Image in Post-Traumatic Cultures. London: Tauris Academic Studies. 

O Poder da Cultura e a Arte da Avaliação: Por Egidio Guerra

 


Introdução: Dois Livros, Um Mesmo Projeto

Jonathan Sklar, psicanalista independente e membro formador da Sociedade Psicanalítica Britânica, construiu ao longo de décadas uma obra que transita com rara fluência entre o consultório e o mundo, entre o indivíduo e a política, entre a clínica e a cultura . Seus dois livros mais recentes — Balint Matters: Psychosomatics and the Art of Assessment (2017) e The Soft Power of Culture: Art, Transitional Space, Death and Play (2024) — compõem, na verdade, um mesmo projeto intelectual: demonstrar que a psicanálise, longe de ser uma prática introspectiva fechada em si mesma, oferece ferramentas indispensáveis para compreender e transformar a experiência humana em sua totalidade .

O título do segundo livro contém uma provocação deliberada. "Soft power" é um termo das relações internacionais, cunhado por Joseph Nye para descrever a capacidade de influenciar pelo encanto e pela persuasão, em oposição à força bruta. Sklar apropria-se do conceito para fazer uma afirmação ousada: a cultura — a arte, a música, a literatura, o teatro, o espaço de jogo e criatividade — exerce um poder tão real quanto o poder militar ou econômico, embora de natureza inteiramente diversa . É um poder que age nas profundezas da psique, que abre olhos e muda mentes, que pode tanto sustentar o status quo quanto subvertê-lo .

Já Balint Matters recupera e atualiza o legado de Michael e Enid Balint, pioneiros da relação médico-paciente e da compreensão psicossomática da doença. O "Balint" do título é um jogo de palavras intraduzível: "Balint matters" significa tanto "Balint é importante" quanto "assuntos de Balint". Sklar mostra por que o trabalho dos Balint — particularmente os grupos que levam seu nome, onde médicos discutem os aspectos emocionais e relacionais de seus casos — permanece crucial em uma era de medicina tecnológica e especializada .

Este texto busca integrar essas duas obras, mostrando como Sklar desenvolve uma teoria unificada do poder da cultura e da arte da avaliação, ambas fundamentadas em conceitos psicanalíticos como espaço transicional, regressão, novo começo e a capacidade de jogar.


Parte I: The Soft Power of Culture — O Espaço Transicional como Local de Resistência

A Tese Central: Tirania e Estruturas Sadomasoquistas

O ponto de partida de Sklar é surpreendente e corajoso. Ele afirma:

"Totalitarian governments emerge from the same unconscious sadomasochistic structures that are found in the analysis of traumatised patients." 

Esta frase é a chave de abóbada de todo seu pensamento. O tirano, o regime totalitário, a opressão política — não são aberrações externas à experiência humana, manifestações de uma maldade inexplicável. São, ao contrário, a expressão coletiva de estruturas psíquicas que existem em cada um de nós em potencial. O sadomasoquismo como organização inconsciente envolve a divisão do mundo entre aqueles que têm poder absoluto (e podem infligir dor) e aqueles que não têm poder algum (e devem suportá-la) .

Sob condições de crise social, humilhação nacional, insegurança econômica e trauma histórico, estas estruturas podem tornar-se coletivas. O grupo — a nação, o partido, o movimento — regride a modos primitivos de funcionamento mental, onde a ambiguidade é intolerável, onde a diferença é ameaçadora, onde a obediência cega ao líder promete alívio da ansiedade.

O Espaço Transicional de Winnicott: O Berço da Cultura

É aqui que entra o conceito central de Sklar, emprestado e expandido a partir de Donald Winnicott: o espaço transicional. Para Winnicott, o espaço transicional é a área intermediária de experiência entre o bebê e a mãe, entre o eu e o não-eu, entre a realidade interna e a externa. É o local do brincar, da criatividade, da ilusão que permite o desenvolvimento saudável .

Sklar argumenta que a cultura inteira — a arte, a música, a literatura, o teatro, o esporte — habita este mesmo espaço transicional. Quando vamos a um museu, a um concerto, a uma peça de teatro, entramos em um domínio onde as regras habituais da realidade são suspensas, onde podemos experimentar emoções intensas sem risco imediato, onde podemos encontrar o novo e o estranho sem sermos destruídos por eles .

E é precisamente esta capacidade que o regime totalitário busca destruir. O tirano não tolera o espaço transicional porque o espaço transicional é o local da ambivalência, da ambiguidade, da multiplicidade de significados. O tirano quer certezas, obediência, respostas únicas. A arte, por sua natureza, oferece o oposto:

"The ability to play, or not, is connected to the freedom to think one's own thoughts or, by preference, to follow the leader." 

Brincar e pensar por si mesmo são a mesma coisa. Seguir o líder é a renúncia ao brincar.

Estudos de Caso: Como a Arte Metaboliza o Horror

Sklar não se contenta com a teoria abstrata. Ao longo de The Soft Power of Culture, ele oferece análises detalhadas de artistas específicos, mostrando como suas obras funcionam como containers do trauma coletivo.

Francis Bacon e o Sadomasoquismo: Sklar dedica um capítulo inteiro às "meditações de Francis Bacon sobre o sadomasoquismo, ligadas aos seus medos da ascensão de Hitler" . Bacon, que viveu o suficiente para testemunhar o horror nazista, traduziu em pintura a deformidade da psique sob tirania. Suas figuras distorcidas, gritando em gaiolas de vidro, seus corpos desfeitos em carne crua — tudo isso é um testemunho do que a tirania faz ao corpo e à mente humanos. Mas é também uma forma de resistência: ao pintar o horror, Bacon o torna visível, nomeável, suportável.

Picasso e Guernica: Talvez o exemplo mais poderoso do livro. Sklar escreve:

"Picasso found a way of focusing his pain(ting) Guernica to evermore pin the fascist crime to the town destroyed by the Luftwaffe." 

O trocadilho é significativo: "painting" (pintura) e "pain" (dor) fundem-se. Picasso não apenas pintou a destruição de Guernica — ele transformou sua dor em tinta, em forma, em testemunho permanente. O quadro não impediu o fascismo, não ressuscitou os mortos. Mas fixou o crime na memória da humanidade de tal maneira que, oitenta anos depois, ninguém pode dizer "não sabíamos".

Cézanne e as Maçãs Caídas: Em um registro mais contemplativo, Sklar discute as maçãs de Cézanne, "sempre em processo de cair" . A aparente simplicidade das naturezas-mortas esconde uma meditação profunda sobre a temporalidade, a fragilidade, o instante prestes a se desfazer. Cézanne pinta o momento entre a permanência e a queda, entre o ser e o não-ser — um momento que é, ele próprio, uma metáfora da condição humana.

Shostakovich e a Música sob Stalin: Sklar também se refere a Shostakovich, o compositor que navegou pelas águas perigosas da tirania stalinista. Sua música opera em múltiplos níveis: a propaganda oficial podia ouvir a celebração do regime, enquanto os ouvintes atentos detectavam a ironia, a paródia e o luto não-dito. Esta "linguagem cifrada" é uma das estratégias de sobrevivência e resistência sob regimes que controlam a expressão direta .

A Arte como Container do Trauma Coletivo

Sklar introduz um conceito técnico da psicanálise para descrever esta função da arte: o container, desenvolvido por Wilfred Bion. Na relação analítica, o analista funciona como container — ele recebe as projeções do paciente, as emoções intoleráveis, os conteúdos traumáticos, e os devolve transformados, metabolizados, tornados pensáveis.

A arte, argumenta Sklar, funciona como container do trauma coletivo. Em tempos de tirania, guerra, catástrofe, a arte recebe o que a sociedade não pode suportar — o horror, a vergonha, o luto, a raiva — e o transforma em forma. Uma pintura, uma sinfonia, um poema não apagam o trauma, mas o tornam habitável:

"The emptiness of the missing from early traumatic states of mind often cannot be replaced because it was never present. Yet the gap can be filled with metaphor as in storytelling, in art, music, literature, and myths, as processes to sustain recovery and new beginnings." 

A metáfora — a capacidade de dizer uma coisa significando outra — é o mecanismo central deste processo. O trauma puro é inominável. A arte dá nome ao inominável, não para exorcizá-lo, mas para que ele possa, enfim, ser habitado.

O Artista e o Preço do Testemunho

Sklar não romantiza o artista como herói estoico. Ao contrário, ele insiste no preço pago por aqueles que se dispõem a ser containers do trauma coletivo:

"The artist under tyranny functions as a 'container'... The artist does not choose to be a container. The trauma chooses him." (parafraseado da peça anterior)

A depressão, a desrealização, o estranhamento — estas não são meramente "inspiração" romântica. São feridas reais infligidas pela necessidade de habitar um mundo que não faz sentido. Munch disse: "Quero manter esses sofrimentos. Eles são parte de mim e da minha arte. Curá-los destruiria minha arte."  Sklar respeita esta escolha trágica, mas alerta: não é um ideal a ser romantizado. A saúde é o pré-requisito para a criatividade, não a doença.


Parte II: Balint Matters — A Arte da Avaliação como Encontro Humano

Michael Balint e a Revolução na Relação Médico-Paciente

Se The Soft Power of Culture olha para fora, para a arte e a política, Balint Matters olha para dentro — para o espaço mais íntimo e mais fundamental da prática clínica: a relação entre aquele que sofre e aquele que busca ajudar. Sklar recupera a figura de Michael Balint, um psicanalista húngaro que, fugindo do nazismo, estabeleceu-se em Londres e desenvolveu um trabalho inovador na Clínica Tavistock .

A contribuição central de Balint foi perceber que o médico não é apenas um técnico que aplica conhecimentos científicos. O médico é, ele mesmo, um instrumento terapêutico:

"The most frequently used drug in general practice was the doctor himself, i.e. it was not only the bottle of medicine or the box of pills that mattered, but the way the doctor gave them to his patient—in fact, the whole atmosphere in which the drug was given and taken." 

Esta frase, escrita nos anos 1950, continua radical em sua simplicidade. A relação é terapêutica. A maneira como o médico escuta, como ele olha, como ele responde — tudo isso afeta o curso da doença tanto quanto o medicamento prescrito.

Os Grupos Balint: Um Laboratório da Relação

Sklar foi convocador de grupos Balint por 25 anos . O que são esses grupos? São reuniões regulares de profissionais de saúde (médicos, psiquiatras, psicólogos) onde eles apresentam casos difíceis para discussão em grupo, com a orientação de um psicanalista. O foco não é o diagnóstico ou o tratamento médico — é a dinâmica emocional da relação entre profissional e paciente .

O caso de uma mulher de 70 anos viciada em dihidrocodeína, um opioide potente, ilustra o método . A paciente queixava-se de dor no quadril, mas exames mostravam apenas artrose leve. Sua condição nunca melhorava. Ela fazia visitas ocasionais a uma prima distante e pedia à médica um grande suprimento de analgésicos para a viagem. Contra a vontade da paciente, sua filha visitou a médica e revelou: a mãe nunca ia visitar prima nenhuma. A história era um pretexto para conseguir mais opioides. A médica percebeu, horrorizada, que havia prescrito mais de 3.000 comprimidos de dihidrocodeína no ano anterior.

No grupo Balint, a médica pôde refletir sobre o caso com a ajuda de Sklar e dos colegas. Emergiram várias compreensões: a paciente tinha uma relação adictiva com a médica; a médica sentia-se deprimida em nome da paciente; a médica estava agindo inconscientemente como um container para aspectos da mente da paciente — talvez representando uma mãe distante e deprimida que dava à filha "o remédio errado". Sentir, perceber e compreender estas projeções não curou a paciente, mas deu à médica mais liberdade na maneira de se relacionar com ela. A adicção pôde ser vista como uma maneira de representar a privação emocional da infância.

O Balint na Psiquiatria: O Caso do Suicídio

Sklar também descreve o trabalho com psiquiatras em formação. O caso de uma jovem psiquiatra, Dra. L, é particularmente comovente . Ela estava arrasada pelo suicídio de um paciente homem, que havia sido internado a pedido da mãe, pouco após o novo casamento desta. A Dra. L lamentava amargamente não ter administrado ECT (eletroconvulsoterapia). Talvez tivesse salvado ele?

No grupo, Sklar pediu informações sobre a história do paciente. Descobriu-se que seu pai biológico havia se matado por eletrocussão. A Dra. L também descreveu uma reunião na enfermaria para comunicar a morte aos outros pacientes. Uma mulher psicótica teve que ser removida porque afirmou ser o anjo da morte e que haveria mais mortes.

Sklar fez uma observação surpreendente: a mulher psicótica havia dito em voz alta o que era o pior medio da própria Dra. L sobre si mesma. O paciente havia se matado no aniversário da mãe, e o novo casamento da mãe era com um eletricista. Estes fragmentos, combinados com o conhecimento do suicídio do pai, lançaram nova luz sobre as esperanças que ela depositava na ECT. Elas constituíam uma encenação (enactment) da profunda perturbação do paciente em relação ao suicídio do pai e, ao mesmo tempo, ofereciam um meio de excluir e ignorar o significado do casamento da mãe com um eletricista. Como resultado desta reunião, a Dra. L suavizou suas opiniões até então vigorosamente afirmadas sobre a base exclusivamente orgânica da psiquiatria.

A Experiência na África do Sul: Trauma Coletivo e Negação

O capítulo mais comovente do livro descreve o trabalho de Sklar em um hospital de uma cidade não nomeada na África do Sul, no início dos anos 2000 . Em 2007, estimava-se que quase 6 milhões de sul-africanos tinham HIV ou AIDS — 12% da população. Isto era avassalador para os profissionais de saúde que tentavam oferecer tratamento, numa época em que os antirretrovirais estavam fora do alcance da maioria.

A recusa do presidente Thabo Mbeki em acreditar que o HIV tinha qualquer relação com a AIDS sancionou uma negação generalizada da história natural da doença e suas causas comportamentais. Os médicos sabiam como a AIDS era comumente transmitida, mas a magnitude avassaladora da incidência e a necessidade de proteger as famílias do estigma significavam que os pacientes eram tratados como pessoas moribundas medicamente irrelevantes.

Sklar atuou como facilitador Balint para estes médicos. Eles lhe contaram de sua raiva pela maneira como os pacientes com AIDS eram tratados como indignos e subumanos. Mas também descreveram os medos primitivos que a doença evocava no local de trabalho. Toda a prática da medicina corria o risco de ser distorcida pelas fantasias culturais que a cercavam. O grupo Balint ofereceu um espaço onde estes sentimentos podiam ser nomeados, compartilhados e começados a ser elaborados — não para resolver a epidemia, mas para que os médicos pudessem continuar trabalhando sem serem destruídos por ela.

A Arte da Avaliação: O Método Sklar

A segunda parte de Balint Matters é dedicada à avaliação psicodinâmica — um tópico surpreendentemente pouco discutido na literatura psicanalítica . Sklar oferece um modelo detalhado, ilustrado com vinhetas clínicas.

Para Sklar, a avaliação não é um momento preliminar a ser cumprido rapidamente antes do "tratamento de verdade". A avaliação é, ela mesma, um encontro terapêutico. Ela envolve:

  • O início da avaliação: estabelecendo o contrato, o setting, a atitude

  • Uma memória precoce: pedir ao paciente sua memória mais antiga

  • O sonho na avaliação: como o sonho pode condensar questões centrais

  • A vida sexual do paciente: abordando o que muitas vezes é evitado

  • Reflexões sobre o término: como terminar uma avaliação que não leva ao tratamento

Cada um destes momentos é uma oportunidade para o paciente se tornar mais consciente de si mesmo, e para o avaliador compreender as forças em jogo na dinâmica familiar e psíquica .


Parte III: Síntese — O Poder da Cultura e a Arte da Avaliação como um Único Projeto

O Espaço Transicional na Clínica e na Cultura

A contribuição mais original de Sklar é mostrar como os mesmos conceitos operam em dois domínios aparentemente distintos: a clínica e a cultura.

Na clínica, o espaço transicional é o setting analítico — o quarto, a poltrona, o divã, as sessões regulares. É ali que o paciente pode brincar com suas identidades, experimentar emoções, regredir e recomeçar. O analista funciona como um container, recebendo as projeções e devolvendo-as transformadas.

Na cultura, o espaço transicional é o museu, a sala de concerto, o teatro, o cinema — mas também o espaço interno do espectador que contempla uma pintura, ouve uma sinfonia, lê um poema. O artista funciona como um container do trauma coletivo, recebendo o que a sociedade não pode suportar e transformando-o em forma.

Em ambos os casos, o que está em jogo é a liberdade de pensar os próprios pensamentos, de brincar com a realidade, de habitar a ambiguidade sem ser destruído por ela. E em ambos os casos, o inimigo é o mesmo: a estrutura sadomasoquista que busca dividir o mundo entre os que têm poder absoluto e os que não têm poder algum, que exige obediência em vez de pensamento, que transforma a incerteza em intolerável.

A Avaliação como Ato de Cultura

Podemos agora compreender por que Sklar insiste na "arte da avaliação". Avaliar um paciente não é aplicar um checklist de sintomas ou encaixá-lo em uma categoria diagnóstica. É encontrar um ser humano em sofrimento, abrir um espaço transicional onde ele possa começar a brincar com sua própria história, e usar a própria relação — incluindo as emoções que emergem no avaliador — como instrumento de compreensão.

Isto é uma arte, não uma técnica. Requer sensibilidade, julgamento clínico, capacidade de conter a incerteza. E requer também aquilo que Sklar chama de "holding one's nerve, being alive in the moment" — manter a calma, estar vivo no instante, confiar que o enactment (a encenação inconsciente na relação) pode ser "another royal road to the unconscious" (uma outra estrada real para o inconsciente) .

As Duas Faces do Poder: Duro e Suave

O projeto de Sklar pode ser lido como uma meditação sobre duas formas de poder, e sobre a relação entre elas.

poder duro é o poder do tirano, do regime totalitário, do Estado opressor. É o poder que se impõe pela força, pela violência, pelo medo. Busca eliminar o espaço transicional porque o espaço transicional é o local da liberdade. Quer certezas, não ambiguidades. Quer obediência, não criatividade.

poder suave da cultura é o poder da arte, da música, da literatura, do teatro. É o poder que age não pela força, mas pelo encanto, pela persuasão, pela abertura de olhos e mentes. Não pode impedir um bombardeio, mas pode fixar o crime na memória da humanidade para sempre. Não pode curar um paciente, mas pode transformar a relação entre aquele que sofre e aquele que busca ajudar em um espaço de cura.

Sklar não é ingênuo. Ele sabe que o poder suave da cultura é, de fato, suave — frágil, dependente de condições sociais e políticas que podem ser destruídas. Mas ele também sabe que é real. E que, em última análise, é o único poder que pode resistir ao poder duro, porque opera no domínio onde o poder duro não pode entrar: o domínio do significado, da interpretação, da metáfora, do sonho, do brincar.


Conclusão: A Urgência de Sklar

Por que ler Jonathan Sklar hoje? Porque vivemos em tempos que ele diagnosticou com precisão assustadora.

A pandemia de Covid-19 fechou museus, teatros, salas de concerto. Sentimos a falta — sentimos o que significa viver sem cultura . Os regimes totalitários estão em ascensão em todos os continentes, e com eles, as estruturas sadomasoquistas que Sklar descreve. O debate público está empobrecido, substituído pelo entrincheiramento político do ódio . A medicina está cada vez mais fragmentada, tecnológica, impessoal — perdendo de vista a pessoa inteira que sofre.

Neste contexto, a obra de Sklar é um lembrete oportuno e necessário. A psicanálise tem algo a dizer sobre o mundo, não apenas sobre o indivíduo. A arte tem um poder real, não apenas decorativo. A relação entre aquele que sofre e aquele que busca ajudar é terapêutica em si mesma — e merece ser cultivada com arte, não apenas com técnica.

Sklar não pretende convencer. Pretende "inspirar movimento no espírito do leitor" . E o movimento que ele inspira é na direção de mais cultura, mais espaço transicional, mais capacidade de brincar, mais liberdade para pensar os próprios pensamentos — em suma, na direção daquilo que nos torna humanos.

"Read The Soft Power of Culture: Art, Transitional Space, Death and Play to open your eyes and change your mind on all that culture brings." 

E, poderíamos acrescentar, leia Balint Matters para redescobrir a arte da avaliação como encontro humano, e para lembrar que, no final das contas, o remédio mais poderoso continua sendo a relação.


Referências

Sklar, J. (2017). Balint Matters: Psychosomatics and the Art of Assessment. London: Karnac. 

Sklar, J. (2024). The Soft Power of Culture: Art, Transitional Space, Death and Play. London: Karnac.