SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

A mãe que viralizou ao correr descalça (e vencer) uma corrida para poder comprar o material escolar da filha

 

Vestida com um sári longo, esvoaçante, colorido e estampado, e segurando seus tênis na mão direita, Ramabai Ranveer, de 47 anos, corre por uma avenida indiana na corrida popular Amrit Daud, de 3 km.

Crédito,Kiran Sakle/BBC

Legenda da foto,Ramabai Ranveer venceu a corrida aos 47 anos
    • Author,Shrikant Bangale*
    • Role,BBC News Marathi
  • Published
  • Tempo de leitura: 6 min

Apesar de sua falta de experiência, e até mesmo de tênis para correr, Ramabai Ranveer venceu sua primeira corrida em agosto, correndo descalça até a linha de chegada.

A participação dessa mãe viúva de 47 anos em uma corrida de 3 quilômetros na Índia foi motivada pelos custos do ensino superior de sua filha.

Ela disse estar "muito feliz" por poder destinar seu prêmio de R$ 160 à compra de livros e material escolar.

Na Índia, os esforços extraordinários de Ramabai para conseguir uma quantia tão pequena, em comparação com o custo de uma graduação universitária, causaram grande repercussão.

Protestos relacionados à educação abalaram o país durante grande parte do ano, enquanto um movimento juvenil satírico dá vazão às frustrações de uma geração desiludida.

Segundo um relatório do governo do mês passado, apenas 8% dos graduados universitários conseguem empregos em que podem usar os conhecimentos adquiridos em seus cursos.

E, com 29,1%, a taxa de desemprego entre os graduados é nove vezes maior do que a daqueles que nunca frequentaram a universidade.

Ramabai Ranveer, de 47 anos, vestida com um sári longo, esvoaçante, colorido e estampado, corre por uma avenida indiana na corrida popular Amrit Daud, de 3 km.

Crédito,Kiran Sakle/BBC

Legenda da foto,A façanha de Ramabai descalça cativou as redes sociais.

Enquanto a indignação estudantil se insere em uma onda de reivindicações econômicas mais amplas, a notícia da façanha de Ramabai cativa as redes sociais e os principais jornais do país.

Para alguns, sua conquista personifica o sacrifício de uma mãe e até onde os pais estão dispostos a ir para tirar seus filhos da pobreza.

Para outros, ela resume a deterioração que permeia o sistema educacional da Índia e a inutilidade de acreditar que ele pode servir como um meio de mobilidade social.

"É um momento de glória ou de vergonha para nós como sociedade?", publicou a usuária de redes sociais Shoma Sarkar abaixo de um vídeo da corrida.

Prêmio em dinheiro

Ramabai soube da competição por meio de sua filha mais velha, Pooja, de 22 anos.

"Minha filha veio me ver cedo pela manhã e disse: 'Mãe, quero participar de uma corrida'", contou ela à BBC de sua casa em Maharashtra.

"Perguntei onde seria, e ela disse que era perto. Ela me disse que, se ganhasse o prêmio, isso ajudaria nos estudos dela."

"Minha filha mais nova vive em outra cidade. Eu não conseguia dar dinheiro a ela para comprar livros, e por isso ela não me telefonou durante oito dias. Então decidi que tinha de correr e vencer a corrida."

"Meu único desejo era ganhar esse prêmio."

Ramabai Ranveer, de 47 anos, vestida com um sári longo, esvoaçante, colorido e estampado, está no meio de uma fila de participantes vestidas de maneira semelhante na categoria de 30 a 60 anos da corrida popular Amrit Daud, de 3 km.

Crédito,Kiran Sakle/BBC

Legenda da foto,Ramabai correu mais rápido em sua categoria etária, de 30 a 60 anos.
Com o mesmo sári longo, esvoaçante, colorido e estampado com o qual Amrit Daud correu a corrida popular de 3 km, Ramabai Ranveer, de 47 anos, está sentada de pernas cruzadas no chão, preparando a comida.

Crédito,Kiran Sakle/BBC

Legenda da foto,Tendo abandonado a escola aos 13 anos, Ramabai estava determinada a que suas filhas fossem mais longe.

Ramabai estava tão determinada que, mesmo quando seus tênis começaram a escorregar durante a corrida, ela simplesmente os tirou, ajeitou o sari e continuou correndo.

Sem nenhuma limitação, ela conseguiu ultrapassar as demais competidoras de sua faixa etária, de 30 a 60 anos, e conquistar a vitória.

Sua filha Pooja também levou para casa um prêmio de R$ 102 após ficar em segundo lugar em sua categoria de idade e descreveu a mãe como "corajosa".

Ramabai assumiu a responsabilidade pelo lar em 2012, após a morte de seu marido.

"Fiz qualquer trabalho que consegui encontrar", declarou ela à BBC.

"Colhia soja e grão-de-bico nos campos de outras pessoas. Também colhia cúrcuma, cozinhava e vendia."

E, tendo abandonado a escola aos 13 anos, Ramabai estava determinada a que suas filhas fossem mais longe.

"Acho que, enquanto eu estiver viva, devo fazer tudo o que puder para dar às minhas filhas uma boa educação."

Com um livro didático volumoso na mão, vestida com uma blusa rosa listrada e com o cabelo comprido preso, Pooja, de 22 anos, está em pé no campo indiano, sorrindo para sua mãe, Ramabai Ranveer, de 47 anos, que usa o mesmo sári longo, esvoaçante, colorido e estampado com o qual correu a corrida popular de 3 km de Amrit Daud, e que a abraça.

Crédito,KiranSakle/BBC

Legenda da foto,Pooja está se preparando para o recrutamento policial na academia onde Ramabai trabalha como cozinheira.

Tanto Pooja quanto sua irmã, Arati, estão tentando passar nos exames de ingresso para empregos no Estado.

Pooja está se preparando para o recrutamento policial na academia onde sua mãe trabalha como cozinheira. Arati, estudante de Ciência da Computação na universidade, está se preparando para os prestigiados exames do serviço público.

No país mais populoso do mundo, os empregos no Estado oferecem uma das poucas vias de acesso à classe média, além de segurança vitalícia, com pensão e subsídios para moradia.

Milhões de estudantes investem anos e muito dinheiro na preparação para esses exames de grande importância.

Mas irregularidades colocaram em dúvida a integridade dessas provas, que determinam o futuro dos candidatos.

Em maio, o principal exame de ingresso para a faculdade de medicina da Índia, o Exame Nacional de Elegibilidade e Admissão (para estudos de graduação), foi cancelado após um vazamento, obrigando quase dois milhões de estudantes a refazerem a exaustiva prova.

Reivindicação política

Uma explosão de indignação sem precedentes transformou o satírico Partido Popular da Barata (CJP) em um movimento juvenil, e os protestos multitudinários liderados pela Geração Z culminaram na renúncia do ministro da Educação em julho passado.

A campanha agora se ampliou com a exigência de modernizar as escolas públicas, começando por enfrentar a infraestrutura em ruínas e as persistentes desigualdades nas áreas rurais.

"As crianças das áreas rurais da Índia deveriam receber, no mínimo, uma educação digna", disse Abhijeet Dipke, fundador do CJP, à BBC durante uma visita recente a uma escola perto do distrito de Ramabai.

A escola não tinha banheiros para as alunas, e pacotes de comida vencidos eram usados para preparar o almoço.

Com o mesmo sári longo, esvoaçante, colorido e estampado com o qual Amrit Daud correu a corrida popular de 3 km, Ramabai Ranveer, de 47 anos, está sentada de pernas cruzadas no chão, preparando a comida.

Crédito,Kiran Sakle/BBC

Legenda da foto,Ramabai quer que suas filhas estejam livres das dificuldades de sua própria vida.

A façanha de Ramabai chamou a atenção das autoridades.

No início deste mês, o presidente da Suprema Corte da Índia, Surya Kant, ordenou que o distrito lhe concedesse uma ajuda financeira de R$ 2,5 mil.

Mas Sukhadeo Thorat, que presidiu a Comissão de Subsídios Universitários, afirma que Ramabai e suas filhas evidenciam problemas sistêmicos mais profundos:

"Se uma mulher é obrigada a fazer todo o possível pela educação de suas filhas, isso demonstra que os programas educacionais do governo não estão sendo implementados adequadamente."

"Tanto o governo central quanto os governos estaduais administram diversos programas educacionais, mas sua implementação não é adequada", acrescentou.

Enquanto isso, Ramabai deseja apenas que suas filhas "vivam uma vida feliz".

"Não quero que elas passem pelas dificuldades que enfrentei", declarou ela à BBC.

"Não quero que tenham de lutar contra a lama nem viajar sob o sol escaldante e a chuva."

"Seja o que for que eu tenha sofrido, não quero que minhas filhas sofram o mesmo."

*Com reportagem adicional de Laignee Barron.


domingo, 20 de setembro de 2026

99% contra a Nova Nobreza.

 



A chamada luta "dos 99% contra a Nova Nobreza" é, em essência, um confronto entre duas tradições americanas — o ideal igualitário jeffersoniano e a tese da "aristocracia natural", que se estende de John Adams aos gigantes tecnológicos do Vale do Silício. Esta última sustenta que a desigualdade não é apenas inevitável, mas digna de celebração; a primeira encontrou armas intelectuais de resistência na filosofia econômica keynesiana e na crítica ao sistema de castas revelada por Wilkerson.

I. A linhagem intelectual da "Nova Nobreza": um movimento anti igualitário com 250 anos

Kimberly Phillips-Fein, em A Country of Lords, traça uma linha que a narrativa dominante ocultou: desde a fundação dos Estados Unidos até hoje, sempre existiu uma tradição anti igualitária organizada e teoricamente fundamentada. Essa tradição nunca foi marginal — reapareceu repetidamente no centro da vida política e intelectual americana.

Essa linhagem contém seis "arquétipos" claros:

A aristocracia natural, representada por John Adams. Ele temia que a "democracia excessiva" trouxesse instabilidade e defendia que "os melhores" deveriam possuir mais riqueza e poder, chegando a exigir qualificações de propriedade para o direito de voto.

Os darwinistas sociais, tendo como líder o professor de Yale William Graham Sumner. Ele atribuía a pobreza aos próprios pobres e via os ricos como vencedores da "sobrevivência do mais apto". Andrew Carnegie encontrou nessa lógica a justificativa para sua enorme fortuna.

Os evangelistas da produção, incluindo Henry Ford. Ele queria uma hierarquia industrial governada pelos "melhores", com subordinados obedientes.

Os racistas utilitaristas defendiam a eugenia e a hierarquia racial, considerando certas raças naturalmente inferiores.

Os elitistas de mercado, representados pelo psicólogo de Harvard Richard Herrnstein. Em The Bell Curve, ele descreveu uma casta econômica baseada na "inteligência" — essencialmente, usando a psicologia para fornecer respaldo "científico" à rigidez de classe.

Os tecnocratas são a variante mais recente. Acreditam ser superiores às pessoas comuns porque estão mais próximos das máquinas, que acabarão por substituir o corpo humano defeituoso. Peter Thiel é o representante contemporâneo desse tipo.

O julgamento central de Phillips-Fein é que estes "não são pensadores marginais"; na maior parte das décadas de 1910 e 1920, estavam "completamente no centro da vida política e intelectual americana".

II. O sistema de castas: o esqueleto social da desigualdade

Isabel Wilkerson, em Casta: As origens de nosso mal-estar, oferece uma estrutura analítica mais fundamental. Ela não se contenta em explicar a desigualdade americana por "raça" ou "classe", mas propõe que existe nos Estados Unidos um sistema de castas oculto, uma "ordenação fixa e embutida do valor humano".

Wilkerson compara o sistema de castas americano com o sistema indiano e o regime racial nazista, apontando que os três compartilham oito pilares, incluindo "vontade divina e lei natural", "linhagem" e "estigmatização".

Sua percepção crucial é que casta não diz respeito a emoções ou moral, mas a poder — "quais grupos têm poder e quais não têm". A casta é o "esqueleto"; a raça é a "pele". A raça torna a casta visível, mas a casta é a estrutura de sustentação fundamental.

Essa estrutura responde diretamente ao fenômeno da "Nova Nobreza". Se a casta é o esqueleto oculto da sociedade americana, então o que a "Nova Nobreza" faz é reconstruir, sobre uma estrutura de castas em decadência, uma hierarquia consciente e ideologizada — não mais fingindo que a igualdade é o objetivo, mas proclamando abertamente que a desigualdade é uma virtude. 

Wilkerson também oferece uma observação perturbadora: muitos brancos da classe trabalhadora que votam contra seus próprios interesses econômicos "estão, na verdade, votando a favor de seus interesses. Manter o sistema de castas como sempre foi serve aos seus interesses. Alguns estão dispostos a aceitar desconforto de curto prazo, renunciar a planos de saúde, correr o risco de contaminação da água e do ar, até morrer, para proteger seus interesses de longo prazo na hierarquia conhecida." 

III. A traição do keynesianismo: o destino da economia igualitária 

Zachary Carter, em O preço da paz, conta uma história paralela: como um pensamento igualitário foi organizadamente sufocado. 

A crença central de Keynes não era a política fiscal técnica, mas um "espírito de otimismo radical". Ele queria um mundo "não apenas mais justo e próspero, mas mais pacífico e mais belo". Ele perguntou: "As sete maravilhas do mundo foram construídas com parcimônia? Duvido." 

Após a morte de Keynes em 1946, suas ideias sofreram um cerco organizado. Durante o macarthismo, o primeiro livro didático keynesiano — Principles of Economics, de Lorie Tarshis, de 1947 — foi "declarado proibido" em várias universidades e abandonado, substituído pelo de Paul Samuelson, que trocou a ênfase de Keynes no "espírito animal" do mercado por "modelos ultra racionais de maximização de lucro". 

Por trás desse cerco estava Harold Luhnow — herdeiro de uma fortuna mobiliária do Meio-oeste. Ele financiou a criação da Sociedade Mont Pelerin, apoiando as carreiras de Hayek, Friedman e Mises. 

O argumento central de Carter é que a economia keynesiana foi despojada do pensamento de Keynes. O que restou foi apenas um conjunto de ferramentas políticas técnicas, enquanto o núcleo filosófico sobre justiça social, paz e prosperidade humana foi sistematicamente eliminado. Mais tarde, até Nixon pôde dizer "somos todos keynesianos agora" — cortando impostos e aumentando gastos militares ao mesmo tempo, o oposto exato do que Keynes imaginava: "para resgatar as pessoas do desemprego, o governo precisa construir sistemas de apoio para os pobres e a classe média, não para os ricos." 

IV. Rumo a uma política "dos 99% contra a Nova Nobreza" 

Reunindo os fios dessas três obras, emerge um quadro claro: 

A "Nova Nobreza" não é um fenômeno novo, mas uma revivescência contemporânea da tradição anti igualitária americana. A semente plantada por John Adams, passando pelo darwinismo social, pela eugenia e pelo determinismo do QI, finalmente floresce na declaração dos tecnocratas do Vale do Silício de que "a empatia é a fraqueza da civilização ocidental".

Wilkerson revela a base social que torna possível essa revivescência: um sistema de castas que nunca foi realmente desmantelado. Quando o "esqueleto" da casta nunca foi quebrado, a Nova Nobreza só precisa vestir roupas novas sobre a velha estrutura. 

O legado de Keynes oferece, por sua vez, os recursos intelectuais para a resistência: o governo não existe para servir "os melhores", mas para criar as condições de uma "vida boa". Como Carter registra, Keynes acreditava que "os elementos que constituem a vida boa é que deveriam ser a consideração mais importante da política pública". 

"Os 99% contra a Nova Nobreza" não é, portanto, um slogan retórico. Descreve uma luta real: de um lado, aqueles que acreditam que a hierarquia não é apenas natural, mas boa; do outro, aqueles que ainda creem que "todos os homens são criados iguais" não é um mito, mas uma promessa. Essa luta dura duzentos e cinquenta anos, e seu desfecho, segundo Phillips-Fein, depende de sabermos encarar o fosso cada vez maior entre "o país que afirmamos ser" e "o país que estamos nos tornando".