SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

A sangrenta imagem de 1770 que alimentou a Independência dos EUA

 

Detalhe da ilustração mostrando soldados britânicos disparando contra civis americanos

Crédito,Museu Metropolitano de Arte de Nova York/Doação da Sra. Russell Sage

    • Author,Deborah Nicholls-Lee
    • Role,BBC Culture
  • Published
  • Tempo de leitura: 7 min

Importante: esta reportagem contém uma imagem ilustrativa de combate que pode ser perturbadora para alguns leitores.

A neve cobria os campos na noite de 5 de março de 1770, em Boston, no Estado americano de Massachusetts.

Um único sentinela britânico montava guarda em frente à alfândega local. Sua respiração formava nuvens de névoa branca no ar congelante.

Saindo da escuridão, um adolescente começou a insultá-lo e atirar neve contra ele. E logo chegou uma multidão cada vez maior para acompanhá-lo.

Os soldados foram chamados para vir em auxílio do sentinela, causando a escalada do confronto.

A multidão atirava conchas de ostras, carvão e pedaços de gelo contra os soldados, até que o distúrbio se tornou devastador. Os britânicos abriram fogo, matando três homens e deixando outros dois mortalmente feridos.

No Reino Unido, o evento ficou eufemisticamente conhecido como "o incidente de King Street". Mas, nas colônias, ele recebeu o nome de "Massacre de Boston".

O caso se tornou um importante catalisador da independência dos Estados Unidos, que comemora 250 anos neste dia 4 de julho e é comemorado por instituições culturais em todo o país.

Três semanas depois do massacre, uma gravura em chapa de cobre, produzida pelo renomado ourives Paul Revere (1735-1818), apareceu para venda nos jornais de Boston. Seu título era "O Massacre Sangrento perpetrado em King Street, Boston, em 5 de março de 1770, por um grupo do 29° Regimento".

Sua sangrenta ilustração dos nacionalistas caídos, banhados em sangue, sendo alvejados por uma linha de soldados sorridentes, despertou o sentimento antibritânico e alimentou a chama da rebelião.

Uma das 29 impressões existentes da gravação está guardada no Museu de Arte de Wichita Falls, no Estado americano do Texas.

O museu comemora o aniversário da assinatura da Declaração de Independência dos Estados Unidos com a exposição intitulada Printing the American Revolution ("Imprimindo a Revolução Americana, em tradução livre). Ela examina a participação da imprensa escrita na Independência dos Estados Unidos.

Ilustração de Paul Revere mostrando o episódio que ficou conhecido como o Massacre de Boston

Crédito,Museu Metropolitano de Arte de Nova York/Doação da Sra. Russell Sage

Legenda da foto,A gravura aterradora do ourives Paul Revere alimentou o sentimento antibritânico nas colônias da América

"A ilustração do Massacre de Boston por Revere foi um poderoso instrumento de propaganda, especialmente em um mundo onde os índices de analfabetismo variavam entre as regiões e as populações", explica a professora de história Mary Draper, da Universidade Estadual Midwestern, nos Estados Unidos, e uma das curadoras da exposição.

"Ao dispor os soldados britânicos em uma linha ordenada e retratar o caos dos colonos desarmados, ele transmitiu uma mensagem clara sobre quem estava errado e quem eram as vítimas. A gravura convocou os colonos a resistir ao domínio britânico."

Mensagens ocultas

O trabalho também contém mensagens ocultas indicando quem está no lado errado da história.

Uma placa com os dizeres "Açougue" ergue-se sobre os soldados britânicos, enquanto um cachorro (símbolo de lealdade) aparece em posição proeminente entre os colonos.

"Esta imagem foi obviamente destinada a incitar o ódio no observador em relação à cena, pois exibe cidadãos indefesos sendo alvejados por soldados", explica à BBC Constance McPhee, uma das curadoras da exposição Revolution! ("Revolução!"), em cartaz no Museu Metropolitano de Arte de Nova York, nos Estados Unidos.

A gravura é um dos destaques da exposição, que reúne obras de arte que indicam as origens da Revolução Americana e dos eventos que se seguiram.

A imagem insinuava que os britânicos não eram mais "uma força amiga e paternal", mas sim uma "força opressora", segundo ela. "Ela começou a mudar a opinião das pessoas."

Para os alfabetizados, a inscrição inflamada incluída sob a imagem deixa muito clara a brutalidade dos britânicos, descritos como "bárbaros ferozes", que agiam com "rancor assassino".

Ela também convoca os nacionalistas a "apaziguar os queixosos Fantasmas das Vítimas", relacionas abaixo no texto.

Em um ensaio de 2022 sobre a gravura, o historiador Steven L. Danver indica que a obra "desempenhou papel fundamental para definir a postura das colônias em relação ao domínio britânico" e "conseguiu unir os colonos por uma causa comum e promover um senso de urgência pela independência".

Momento crucial

O momento da publicação da gravura foi fundamental.

As tensões estavam aumentando entre os colonos americanos, desgostosos com a crescente presença militar britânica, redução das liberdades civis e por uma série de políticas fiscais indesejadas, que levavam os americanos a financiar a dívida nacional britânica.

O incidente no lado de fora da alfândega de Boston, o grande símbolo dos impostos abusivos, era uma oportunidade boa demais para ser perdida.

Ilustração em preto e branco mostrando Paul Revere durante sua 'cavalgada da meia-noite', em 1775

Crédito,Alamy

Legenda da foto,Revere foi considerado posteriormente um herói nacional pela sua 'cavalgada da meia-noite' em 1775, para alertar os nacionalistas sobre os avanços do exército britânico

Revere era membro do grupo de resistência Filhos da Liberdade. Ele foi posteriormente considerado herói nacional americano, devido à sua "cavalgada da meia-noite", em 1775.

Na ocasião, ele ajudou a vencer o exército britânico, correndo para alertar os nacionalistas sobre os seus avanços. Diversos outros cavaleiros também participaram desta missão.

Revere aproveitou o massacre de Boston para fortalecer o apoio ao objetivo do grupo, capitalizando as emoções exacerbadas.

Ele plagiou outro desenho do evento, de autoria de Henry Pelham (c.1748-1806), e correu para comercializar sua gravura. Ele não deu crédito nem remunerou Pelham, que enviaria a Revere uma carta amargurada, lamentando suas "ações desonrosas".

'Alimentou a fúria'

Parte do impacto da obra de arte é consequência da sua raridade. "É uma das poucas feitas por um impressor americano", conta McPhee.

Ela destaca que sua distribuição ampla e rápida "indicava a importância atribuída" à gravura pelas pessoas.

Segundo McPhee, "não há outra obra com tantas cópias criadas" naquela época. E, ao divulgar a notícia do massacre, a gravura alimentava a fúria popular.

Folhetos com a gravura eram exibidos em lojas e tavernas, ou vendidos para levantar dinheiro para os Filhos da Liberdade. Antes clandestino, o grupo cresceu exponencialmente e passou a ser o principal porta-voz da causa nacionalista.

Paralelamente, circulavam plágios da gravura, como a versão de Jonathan Mulliken (1746-1782). De um lado, elas forneciam a Revere uma dose do seu próprio remédio, mas também repercutiam sua convocação popular.

Ilustração em preto e branco do Massacre de Boston

Crédito,Alamy

Legenda da foto,A gravura foi baseada em um desenho original de Henry Pelham

A gravura de Revere também se tornou o frontispício do panfleto A Short Narrative of the Horrid Massacre in Boston ("História resumida do horrível massacre em Boston", em tradução livre), de 1770.

A peça de propaganda viajou por milhares de quilômetros, até que o panfleto e versões da gravura foram impressos em Londres. Com isso, o horror e a injustiça do massacre de Boston passaram a confrontar o povo britânico na sua própria terra.

'O fervor do nosso entusiasmo'

Para transmitir uma mensagem forte para as pessoas, a imagem incluiu diversos exageros e falsidades.

Ela ambienta o evento à luz do dia e omite todas as evidências de agressão dos nacionalistas. Até a neve atirada contra os soldados como provocação derreteu sem deixar traços.

O mais importante, como as testemunhas declarariam posteriormente à Justiça, é que ela ilustra incorretamente os britânicos como tendo iniciado o conflito, com o capitão Thomas Preston (c.1722-c.1798), à direita, dando o comando para que os soldados disparassem contra a multidão indefesa.

Preston negou ter dado a ordem e foi absolvido desta acusação. Alguns relataram terem ouvido a palavra "fogo", mas da boca dos nacionalistas, desafiando os soldados a atirar.

No seu pronunciamento de abertura do julgamento, o advogado de defesa, Josiah Quincy (1744-1775), pareceu alertar o júri sobre o poder de influência da gravura, que poderia induzir as pessoas a erro.

"As impressões exibidas nas nossas casas deram asas à fantasia", declarou ele. "E, no fervor do nosso entusiasmo, a razão corre o risco de ser perdida."

O efeito da propaganda oferecida pela gravura permaneceu na consciência pública por muito tempo depois da sua criação.

No primeiro aniversário do massacre, Revere a incorporou em uma enorme tela iluminada na janela da sua casa. Milhares de espectadores se aglomeraram para observar a ilustração.

Um século depois, retratos do evento por artistas como W. L. Champney e Alonzo Chappel (1828-1887) realizaram ajustes factuais, mas mantiveram viva a narrativa principal.

Retrato em preto e branco de Paul Revere, com uma das mãos segurando o queixo

Crédito,Alamy

Legenda da foto,Retrato de Revere por John Singleton Copley, de 1768. Ele é relembrado nos Estados Unidos como um herói nacional popular

O Instituto Gilder Lehrman de História Americana afirma que "a histórica gravura de Paul Revere... provavelmente foi a obra de propaganda de guerra mais eficaz da história dos Estados Unidos".

Certamente, esta é uma das imagens mais conhecidas da Revolução Americana e seus efeitos são sentidos até hoje.

"Apesar das suas pequenas dimensões, a obra ainda evoca emoções entre os observadores", segundo Mary Draper.

"Parte do seu poder reside na sua contínua relevância. Cada geração pode interpretar esta obra de formas que refletem suas próprias ideias sobre autoridade, violência e protestos."

A gravura também é "um marcante lembrete de que o passado é simplesmente tão contestado quanto o presente", conclui a professora.

A exposição Revolução! está em cartaz no Museu Metropolitano de Arte de Nova York, nos Estados Unidos, até o dia 7 de setembro de 2026.

A exposição Imprimindo a Revolução Americana está em cartaz no Museu de Arte de Wichita Falls, nos Estados Unidos, até o dia 22 de agosto de 2026.

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Culture.

Quem são os indígenas que buscam regulamentar a mineração de ouro e diamante em suas terras

 

Gilmar Cinta Larga, presidente da associação Patjamaaj

Crédito,Ubiratan Suruí

Legenda da foto,Gilmar Cinta Larga é presidente da Coordenação das Organizações Indígenas do Povo Cinta Larga
    • Author,Ramana Rech
    • Role,De São Paulo para a BBC News Brasil
  • Published
  • Tempo de leitura: 9 min

Entre a tentativa de controlar a exploração ilegal e o temor de novos impactos sociais e ambientais, indígenas cinta larga estão divididos sobre a regulamentação da mineração em suas terras — tema que chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF).

"A gente em uma terra tão rica, batendo na porta de instituições de uma forma miserável", resume Gilmar Cinta Larga, presidente da Coordenação das Organizações Indígenas do Povo Cinta Larga (Patjamaaj).

O território dos Cinta Larga, que totaliza 2,7 milhões de hectares na divisa do Mato Grosso com Roraima, fica em uma das maiores jazidas do mundo de kimberlito — rocha que forma diamantes —, segundo relatório do Instituto Kanindé.

A área se divide em quatro terras indígenas (TIs) principais: Roosevelt, Parque do Aripuanã, Aripuanã e Serra Morena.

Segundo informações da Agência Brasileira de Informação (Abin) citadas em um parecer antropológico sobre os cinta larga realizado em 2016, US$ 20 milhões em diamantes advindos da região saem de forma ilegal do Brasil todos os meses.

A descoberta oficial dos diamantes na terra indígena ocorreu em 1999 e, no ano seguinte, já havia garimpo por não indígenas, o que intensificou os conflitos e a violência na região. Antes desta descoberta, também já havia garimpo de ouro na região desde meados da década de 1970.

Somada a isso está a sensação de ausência do Estado em impedir a entrada do garimpo e garantir fontes de renda para a população.

A Patjamaaj abriu um processo no STF que resultou na determinação do ministro Flávio Dino em fevereiro para que o Congresso regulamente a mineração em terras indígenas em até dois anos

A determinação estabeleceu, ainda, condições provisórias para a atividade, desde que autorizada pelas comunidades e com sua participação direta nos resultados financeiros.

O pedido da associação a Dino vai na direção contrária ao posicionamento de outras organizações indígenas, como a Articulação dos Povos Indígenas Brasileiros (Apib).

A Constituição não impede que haja mineração em TIs, mas condiciona isso à autorização do Congresso Nacional. Até o momento, no entanto, o Legislativo não definiu as regras para a atividade. Diversos projetos de lei (PLs) surgiram com o intuito de tratar do assunto, sem sucesso.

Antes da decisão de Dino, o Senado já havia instituído um grupo de trabalho presidido pela senadora Tereza Cristina (PP-MS) para regulamentar mineração, em abril de 2025.

No pedido ao STF, a Patjamaaj argumenta que tem havido uma omissão legislativa que resulta em conflitos violentos e na exploração ilegal dos recursos. Segundo o advogado da associação, responsável pelo pedido ao STF, Marcio Welder Ferreira, a presença das empresas mineradoras pode ajudar a coibir as atividades ilícitas.

"Os invasores entram onde a polícia não está", diz Ferreira.

"Quando o particular entra e vai minerar, ele tem obrigações também. Então, ele vai ajudar a vigiar, a monitorar, ele vai ajudar na segurança."

A associação também aponta que as fazendas ao redor da TI contam com benefícios, como crédito agrícola, enquanto os cinta larga não têm fonte de renda regular, o que resulta em uma desigualdade que "perpetua um ciclo de pobreza e dependência", segundo consta no pedido.

Com supervisão estatal da regulamentação da mineração, seria possível promover projetos de saúde, educação e sustentabilidade e diminuir a dependência de políticas assistencialistas, argumenta a associação.

De acordo com Gilmar Cinta Larga, a ideia é que o povo cinta larga monte sua própria mineradora e não dependa de outras empresas. Para isso, uma possibilidade é buscar financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Sem consenso

Ao mesmo tempo, em reuniões realizadas pelo Ministério dos Povos Indígenas (MPI) no território dos Cinta Larga entre 28 de setembro e 4 de outubro de 2025, alguns dos participantes citaram experiências traumáticas trazidas pela extração de recursos, o que também inclui retirada de madeira.

Eles destacaram a necessidade de mais tempo para discutir as consequências da mineração nas próximas gerações.

Algumas lideranças cinta larga também se manifestaram contra qualquer tipo de mineração, conforme relatório do MPI.

A Apib emitiu uma nota em que apontava os riscos da decisão de Flávio Dino. A organização argumenta que a determinação levou em consideração o pedido "de apenas uma associação de um único povo indígena, isto é, sem consulta adequada aos 391 povos indígenas do país para entender se, de fato, essa é uma vontade unificada de nossos povos".

O coordenador jurídico da Apib, Ricardo Terena, afirma que o posicionamento dos cinta larga sobre o assunto é uma exceção entre os indígenas e que não tem unanimidade dentro do próprio povo.

A Apib avalia que a Constituição não obriga a regulamentar a mineração e traz apenas uma possibilidade.

"A gente respeita plenamente a autonomia do povo indígena cinta larga. No entanto, essa é uma circunstância que, como trata-se de uma situação que vai atingir não só o povo indígena cinta larga, mas todas as comunidades indígenas do Brasil, era necessário que fosse feita uma oitiva ampliada sobre esse tema", pontua Terena.

Menos de um mês depois do início do GT presidido por Teresa Cristina, o Conselho Nacional de Política Indigenista (CNPI) publicou uma resolução pedindo ao STF que se abstivesse da regulamentação e ao Congresso que suspendesse os trabalhos do GT. Isso, principalmente se não houver consulta prévia, livre e informada aos povos originários.

Para Gilmar Cinta Larga, o Congresso já iria regulamentar a mineração eventualmente e, com o pedido no STF, haverá mais chances de fazer isso "de uma forma bem feita".

Cercados pela extração

O líder cinta larga conta que o posicionamento favorável à regulamentação da mineração se fortaleceu após a chacina de 29 garimpeiros em abril de 2004 no contexto da reação dos cinta larga à invasão de suas terras no auge do garimpo ilegal.

O episódio teve grande repercussão nacional e suscitou promessas por parte do governo federal de que haveria mais agilidade na regulamentação. De lá para cá, no entanto, isso não ocorreu.

"Se não há regulamentação, há exploração ilegal, há invasões, há cobiça", diz.

Na época da chacina, há registros de que havia cerca de 5 mil garimpeiros na terra indígena, mais do que a própria população de indígenas da época, estimada em 1,3 mil pelo Instituto Socioambiental (ISA).

Atualmente, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) contabiliza 2.676 cinta larga.

Em sua decisão de fevereiro, o ministro Flávio Dino determinou que o governo federal acabe com qualquer garimpo ilegal.

No início de junho, Dino constatou que não houve manifestação da União sobre o cumprimento desta decisão e determinou que fosse apresentado, em até 30 dias, um plano para isso.

O magistrado também estabeleceu que a mineração na TI não pode ultrapassar 1% do uso da área e que a preferência da exploração é das cooperativas indígenas, que também estão sujeitas a autorizações para exploração do território junto aos órgãos do governo.

 Foto aérea de uma aldeia

Crédito,Ubiratan Suruí

Legenda da foto,Aldeia Roosevelt é uma das quatro terras indígenas do território dos Cinta Larga

Hoje, a quantidade de garimpeiros reduziu de forma significativa, mas sua retirada ainda representa um desafio. Quando há operações para desmantelar o garimpo, a atividade retorna no médio ou curto prazo.

Na ação mais recente, de fevereiro deste ano, o Ibama, a Funai e forças policiais apreenderam equipamentos utilizados no garimpo ilegal.

Os órgãos retiraram 23 dragas, 12 balsas de mergulho, cinco escavadeiras hidráulicas, bem como ouro e mercúrio.

Por muito tempo, as TIs dos cinta larga foram alvo de pedidos para lavra e pesquisa para mineração, ainda que não houvesse possibilidade de exploração mineral pela falta de regulamentação.

Em 2005, o Ministério Público Federal (MPF) abriu uma ação civil pública contra o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), atual Agência Nacional de Mineração (ANM), por não indeferir requerimentos de lavra minerária dentro das TIs.

No documento, o MPF cita que haveria 479 requerimentos de pesquisa, lavra e exploração mineral na área dos cinta larga.

Na ocasião, o MPF argumentou que a posição "titubeante" da agência fomentava o crime organizado e alimentava "especulações, pressões, lobbys".

O órgão também disse que "uma nova contenda entre indígenas e garimpeiros pode determinar a dizimação do Povo Indígena Cinta Larga".

Embora o ministério tenha conseguido vitórias importantes na Justiça, com determinação judicial para cancelar os requerimentos dentro e no entorno da TI, a ação vem se arrastando e chegou até o STF.

Desde 2025, o caso está também sob relatoria de Flávio Dino. O ministro, por sua vez, determinou que o povo cinta larga fosse ouvido.

Representantes de aldeias dos cinta larga tem se reunido desde então com membros de órgãos públicos federais e estaduais e do STF para determinar a melhor forma de fazer isso.

Em agosto de 2020, a ANM informou que havia três autorizações de lavra garimpeiras no entorno das TIs Roosevelt e Parque do Aripuanã, bem como 16 requerimentos de pesquisa de lavra. A Permissão de Lavra Garimpeira consiste em um regime simplificado para obter autorização de extração mineral.

Os dados foram solicitados pelo MPF, que investigava se houve descumprimento da decisão judicial que bloqueava a pesquisa e exploração de minérios dentro e no entorno do território cinta larga.

O caso foi arquivado em dezembro de 2020, "pois os fatos em análise já vêm sendo tratados judicialmente, não tendo ocorrido ainda o trânsito em julgado".

O antropólogo João Dal Poz, que trabalhou com os cinta larga dos anos 1980 até 2017, chama o que ocorreu com a exploração minerária de "tragédia social", em que as condições de vida de determinada sociedade humana foram solapadas de forma rápida.

"Uma transformação abrupta com todo tipo de degradação", pondera.

"Eles ficaram cercados de uma série de criminosos ambientais operando, e eles nesse meio, tendo relação com essas pessoas, tendo associações comerciais", explica.

O pedido de regulamentação de mineração nas TIs trata-se de uma tentativa de ter maior controle sobre seu território, o que, no atual contexto, significa controle dos recursos minerários, analisa Poz.

No caso dos cinta larga, a busca não é apenas pelos royalties da mineração, e sim pelo protagonismo desse processo, ao mesmo tempo em que tenta "se colocar em um mundo que está mudando", o que consiste em uma tarefa árdua.

Para o presidente da Patjamaaj, a regulamentação pode mostrar que "o indígena tem o potencial, sim, de empreendedor, de ajudar o país a se desenvolver".

Gilmar Cinta Larga conta que, no Acampamento Terra Livre de 2024, os cinta larga apresentaram algumas demandas para a Funai e para o MPI, sendo uma delas apoio para formas alternativas de geração de renda, como coleta da castanha e agricultura familiar. Mas não houve retorno das autoridades.

O líder cinta larga acrescenta que a coleta de castanhas hoje ocorre sem grande apoio do governo.

A tragédia social

Um relatório produzido pela Coordenação Regional da Funai em Cacoal em abril de 2016 destacou que o garimpo tem causado traumas profundos à população e prejuízos na cultura, na saúde, na educação e na organização social.

Os próprios indígenas, "seduzidos" pelas promessas dos garimpeiros, se juntam à atividade, diz o relatório. "Existem relatos de visitas a aldeias por parte de servidores da Funai em que estão vazias. Centenas de pessoas estão na atividade garimpeira."

O relatório parece entrar em contradição com um parecer antropológico, feito em maio do mesmo ano e anexado ao processo que levou a questão ao STF, o qual destaca serem poucos os indígenas que se envolvem com o garimpo.

O documento acrescenta que um número ainda mais restrito deles têm acesso aos lucros do garimpo. A distribuição da riqueza dentro do próprio território é desigual e beneficia, principalmente, não-indígenas.

A atividade ameaça a existência dos cinta larga enquanto grupo étnico, analisa o parecer. Provoca destruição da mata ciliar, desmatamento, assoreamento e poluição das águas de rios com mercúrio.

Além disso, propicia proliferação de doenças, como malária e viroses. Durante o auge garimpeiro, as casas de prostituição contribuíram para a propagação de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs).

O relatório da Funai descreve que, com o garimpo, se dissemina, principalmente entre os homens, o uso do álcool e de drogas ilícitas. O consumo pelos indígenas dessas substâncias tem início dentro do garimpo, mas continua nas aldeias.

Algumas práticas culturais também foram interrompidas, como a Festa do Porcão, que chegou a ser retomada em 2014. Havia 20 anos que a festa não ocorria. De acordo com Gilmar Cinta Larga, a festa celebra e "dá as boas-vindas ao que vai acontecer".

Mas o relatório informa que muitas aldeias não compareceram e que os principais presentes eram anciãos.

"No ano de 2015, a intenção era dar continuidade à festa tradicional, mas, devido à intensa atividade ilícita no decorrer do ano, a própria comunidade não se mostrou interessada em realizar", afirma o documento.

Gilmar Cinta Larga diz que a Festa do Porcão irá acontecer neste ano e destaca que existem outras festas tradicionais mantidas pela comunidade, como a da colheita. Ele acrescenta que a cultura ancestral vive com crianças falando a língua materna e oficinas de arco e flecha.

Segundo descrição da Funai, entre os órgãos governamentais, há a ideia de que os cinta larga são "ricos" e, por isso, não precisam de apoio, além de um temor em trabalhar com eles por episódios como a chacina de 2004.

O relatório conta ainda que existem casos de jovens não indígenas que se casam com anciãs para ter acesso à riqueza mineral da região.

Há também casos de abuso sexual. Em 2015, houve registro de dois estupros de meninas indígenas por não indígenas envolvidos em atividades ilícitas e que eram de confiança dos cinta larga.