SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Por que Xi Jinping visita a Coreia do Norte — e o que está em jogo na disputa com a Rússia

 

Da esquerda para a direita, o presidente russo, Vladimir Putin, caminha ao lado do presidente chinês, Xi Jinping, e do líder norte-coreano, Kim Jong-un

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Xi e Kim se encontraram pela última vez em setembro, durante um desfile militar em Pequim
    • Author,Laura Bicker
    • Role,Correspondente da China, BBC News
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Para o líder chinês, Xi Jinping, a Coreia do Norte é um vizinho que a China não consegue controlar totalmente, mas também não pode se dar ao luxo de perder.

Os dois países costumam definir sua relação como um vínculo "selado em sangue", em referência à participação conjunta na Guerra da Coreia (1950-1953).

Mas nos últimos anos a desconfiança desgastou essa parceria. Agora, a China busca recuperar influência sobre um aliado estrategicamente importante, mas conhecido por sua imprevisibilidade.

A China quer manter a estabilidade em sua fronteira e preservar sua influência na Coreia do Norte, sem ser arrastada para crises provocadas pelas ambições nucleares norte-coreanas.

Por isso, a visita de Xi ao país nesta semana tende a ter menos relação com amizade e mais com estratégia política.

Autoridades em Seul, na Coreia do Sul, avaliam que Xi pode tentar apresentar a China como mediadora entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos, mas o governo chinês pode ter outros interesses.

Fontes diplomáticas ocidentais disseram à reportagem da BBC que a China acompanha com preocupação a aproximação entre a Coreia do Norte e a Rússia.

Depois de se reunir na semana passada com o presidente russo, Vladimir Putin, Xi pode querer garantir que também mantenha influência sobre o líder norte-coreano, Kim Jong-un, sobretudo em um momento em que a China amplia sua presença no cenário internacional.

Reaproximação após anos de desgaste

O esfriamento das relações entre a China e a Coreia do Norte era perceptível, ainda que de forma discreta.

Os dois países praticamente não celebraram o 75º aniversário de suas relações diplomáticas, em outubro de 2024. As manifestações públicas foram contidas.

No mês anterior, o embaixador chinês não participou das comemorações pelo aniversário de fundação da Coreia do Norte. Ao longo de todo o ano, também não houve encontros de alto nível, um contraste evidente com a aproximação cada vez maior entre Coreia do Norte e Rússia.

Essa aproximação crescente com a Rússia passou a preocupar a China.

Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, a Coreia do Norte ampliou sua cooperação militar com o presidente russo, Vladimir Putin. O movimento culminou na assinatura de um pacto de defesa mútua durante a visita de Putin a Pyongyang, capital da Coreia do Norte, em 2024.

Segundo uma investigação da BBC, cerca de 2.300 soldados norte-coreanos morreram lutando ao lado das forças russas contra a Ucrânia.

A Coreia do Norte também é acusada de fornecer munições para o esforço de guerra russo em troca de petróleo e ajuda econômica, um movimento que alarmou os EUA e seus aliados e gerou preocupação na China, ainda que de forma menos pública.

"A China quer garantir que seus interesses em relação à Coreia do Norte sejam preservados em um momento de rápida aproximação entre Rússia e Coreia do Norte", afirma Ankit Panda, especialista em política nuclear do think tank (centro de pesquisa e debates) Carnegie Endowment for International Peace, dos EUA.

Pedestres passam diante de um mural, à esquerda, com a frase “Pela segurança e pelo futuro eterno de nossa nação”, enquanto, ao fundo, aparece um edifício com o slogan “Vida longa à grande política voltada para o povo”, em Pyongyang, Coreia do Norte, em 8 de maio de 2026

Crédito,AFP via Getty Images

Legenda da foto,Isolada do restante do mundo, a ditadura norte-coreana depende fortemente da China e da Rússia

A China mantém apenas um tratado formal de defesa, e é justamente com a Coreia do Norte.

Por isso, a China dificilmente veria com bons olhos um cenário em que a Rússia se tornasse a principal força de influência sobre a Coreia do Norte. Um Kim mais autônomo e menos dependente da China significaria uma redução da capacidade chinesa de pressionar o regime norte-coreano.

A resposta da China tem sido tentar reconstruir a relação. No fim do ano passado, o presidente chinês convidou o líder norte-coreano para um desfile militar em Pequim, colocando-o em posição de destaque ao lado do presidente russo, Vladimir Putin.

Foi a primeira cúpula formal entre Xi e Kim em seis anos. Na ocasião, Xi descreveu os dois países como "bons vizinhos, bons amigos e bons camaradas unidos por um destino comum" e defendeu maior coordenação estratégica entre eles. Chamou atenção a ausência de qualquer menção ao arsenal nuclear norte-coreano nas declarações públicas divulgadas após o encontro.

A China tem "sentimentos contraditórios" em relação à aproximação crescente entre a Coreia do Norte e a Rússia, afirma Lee Seong-hyon, pesquisador visitante do Harvard University Asia Center, dos EUA.

Por um lado, segundo Lee, essa aproximação desvia a atenção dos EUA e torna mais complexa a estratégia americana em diferentes frentes, o que beneficia indiretamente a China.

Por outro lado, o aprofundamento da cooperação militar entre Rússia e Coreia do Norte pode estimular uma resposta mais robusta dos EUA, do Japão e da Coreia do Sul, cenário que preocupa a China.

Essa também é uma das razões pelas quais a China evita apoiar abertamente o programa nuclear norte-coreano, já que isso ampliaria a presença americana na região e fortaleceria suas alianças locais.

Ao mesmo tempo, a China evita um confronto direto sobre o tema. Em 2022, China e Rússia vetaram uma resolução apresentada pelos EUA no Conselho de Segurança da ONU que previa novas sanções à Coreia do Norte em resposta aos testes de mísseis realizados pelo regime.

Se a China adotar uma posição mais dura contra o programa nuclear norte-coreano, "isso apenas empurrará a Coreia do Norte ainda mais para os braços de Putin", avalia Victor Cha, presidente do departamento de política externa do Center for Strategic and International Studies, dos EUA.

O parceiro pragmático

Mas Kim também não pode se dar ao luxo de se afastar de sua principal fonte de ajuda econômica.

As exportações chinesas para a Coreia do Norte saltaram para cerca de US$ 2,3 bilhões (cerca de R$ 12,4 bilhões) no ano passado, o maior nível em seis anos. No início deste ano, o serviço ferroviário de passageiros entre as capitais Pequim e Pyongyang foi retomado após uma interrupção de seis anos.

Segundo analistas, essas medidas também fazem parte de um esforço calculado da China para trazer a Coreia do Norte de volta para sua esfera de influência.

Para Kim Jong-un, essa é uma escolha pragmática. Se a guerra na Ucrânia chegar ao fim, a necessidade russa de apoio norte-coreano pode diminuir. E, ao contrário de um Putin isolado internacionalmente, o líder chinês, Xi Jinping, tem recebido líderes mundiais em Pequim.

Por isso, Kim precisa evitar ficar dependente de um parceiro em perda de força.

O líder norte-coreano, Kim Jong-un, e sua filha, Kim Ju-ae, acenam para cidadãos norte-coreanos

Crédito,Getty via KCNA

Legenda da foto,Kim Jong-un frequentemente aparece em público ao lado da filha, Kim Ju-ae. Alguns analistas acreditam que ela possa sucedê-lo no futuro

Mas essa relação já começou marcada por tensões.

Ao assumir o poder, Kim adotou prioridades diferentes das de seu pai. Enquanto Kim Jong-il visitava a China com frequência e dependia do apoio da China, seu filho acelerou rapidamente o programa nuclear norte-coreano.

Nos seis primeiros anos no poder, Kim supervisionou cerca de 90 testes de mísseis balísticos e quatro explosões nucleares, mais do que seu pai e seu avô haviam realizado juntos.

O avanço do programa nuclear alarmou a liderança chinesa. Depois, a execução de seu tio, Jang Song Thaek, visto pela China como uma figura moderadora dentro do regime, aprofundou ainda mais o desgaste entre os dois países.

Xi respondeu com sinais diplomáticos incomuns de insatisfação. Em 2014, visitou a Coreia do Sul antes mesmo de se encontrar com Kim, gesto interpretado amplamente como uma afronta ao líder norte-coreano.

A reação da Coreia do Norte foi dura. A imprensa estatal chegou a se referir à China como "traidora" e "inimiga".

Foi apenas em 2018, quando as sanções impostas ao programa nuclear norte-coreano começaram a produzir efeitos mais severos, que Kim realizou sua primeira viagem internacional conhecida desde que assumiu o poder. Naquele ano, Kim fez sua primeira viagem internacional conhecida desde que assumira o poder. Em seu trem blindado, seguiu para Pequim.

O encontro marcou o início de uma reaproximação cautelosa.

Nos anos seguintes, Kim se reuniu com líderes dos EUA e da Coreia do Sul, mas sempre depois de consultar a China. A mensagem era clara: a Coreia do Norte não negociaria sem o respaldo da China.

Hoje, a Coreia do Norte representa para a China ao mesmo tempo uma proteção estratégica e uma fonte permanente de preocupação.

O regime norte-coreano ajuda a manter as forças americanas mais distantes da fronteira chinesa, mas seus testes de armas contribuem para a instabilidade regional.

Kim, por sua vez, busca a proteção da China sem aceitar tutela política.

Nenhum dos dois lados confia plenamente no outro. Ainda assim, ambos consideram a parceria necessária e, por enquanto, isso basta para manter aberto o diálogo.

Reportagem adicional de Kelly Ng

Como Trump tenta influenciar eleições em outros países — e por que seu apoio nem sempre tem o resultado esperado

 

Donald Trump após descer de seu avião, andando na pista de um aeroporto

Crédito,Getty Images

    • Author,Alessandra Corrêa
    • Role,De Washington para a BBC News Brasil
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Quando o presidente dos Estados UnidosDonald Trump, declarou apoio "completo e total" ao candidato da direita na eleição presidencial colombiana, no fim de maio, ele estava repetindo um gesto raro entre seus antecessores, mas cada vez mais comum neste segundo mandato.

O candidato, Abelardo De La Espriella, disputará o segundo turno com Iván Cepeda, do partido Pacto Histórico, o mesmo do presidente Gustavo Petro. Em sua rede social, Truth Social, Trump parabenizou De la Espriella, a quem chamou pelo apelido de "El Tigre", pela vitória no primeiro turno.

"Abelardo enfrentará um marxista de esquerda radical no segundo turno em 21 de junho", acrescentou, referindo-se a Cepeda. "Os resultados desta eleição são de extrema importância para o futuro da Colômbia e para suas relações com os Estados Unidos."

De La Espriella agradeceu Trump pelo "apoio decisivo". Cepeda, por sua vez, denunciou o que descreveu como "tom intervencionista" e exigiu respeito à soberania da Colômbia.

A Colômbia é apenas o exemplo mais recente em que Trump tenta influenciar o resultado de um pleito ao manifestar preferência por determinado candidato ou partido. Também fazem parte dessa lista crescente países como Argentina, Honduras, Hungria e Japão, entre vários outros.

Embora, historicamente, os Estados Unidos tenham interferido em eleições de diversos países no passado, a maneira como isso tem sido feito pelo governo Trump tem chamado a atenção.

"Geralmente era feito de maneira velada, não costumava ser explícito por parte dos presidentes", diz à BBC News Brasil o professor de História Mikael Wolfe, da Universidade Stanford, na Califórnia.

"Era raro um presidente, antes de Trump, intervir diretamente em uma eleição em andamento e de forma tão pública", afirma Wolfe. "Trump rompeu com o modus operandi."

Em vez de operações secretas da CIA, a agência de inteligência americana, como documentado durante a Guerra Fria, ou de manifestações sutis da diplomacia em defesa de eleições justas e transparentes, Trump recorre às redes sociais para pedir votos abertamente, às vezes com ameaças, para candidatos alinhados ideologicamente.

O presidente americano, que iniciou o segundo mandato com uma retórica de não-intervencionismo, também se destaca pela escala de seu envolvimento em assuntos domésticos de outros países.

"Neste momento, o governo Trump adota uma postura de buscar de alguma forma influenciar todas as eleições que ele acompanha", diz à BBC News Brasil o cientista político Oliver Stuenkel, pesquisador da Universidade Harvard e do Carnegie Endowment for International Peace.

"Na América Latina, o que se vê é que algum tipo de opinião ou de tentativa de influenciar virou regra", observa. "A exceção agora é o governo americano não fazer isso."

Stuenkel lembra que, às vésperas do segundo turno nas eleições presidenciais peruanas, no domingo (7/6), muitos se perguntavam por que Trump ainda não havia declarado apoio à candidata da direita, Keiko Fujimori.

A percepção de tentativa de interferência foi reforçada nas últimas semanas, com a decisão do governo americano de classificar as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas e com ameaças de novas tarifas contra produtos brasileiros.

Essas medidas foram anunciadas poucos dias após uma visita a Washington do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, aliado de Trump.

Vinte dias antes, o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que deverá buscar a reeleição em outubro, havia sido recebido por Trump na Casa Branca, em mais um sinal de aproximação após meses de tensão entre os dois países no ano passado.

Diante desse cenário, há no Brasil a expextativa de que, com ou sem tentativa de interferência americana, temas ligados à política externa e às relações entre Brasília e Washington devem ganhar relevância na campanha.

O impacto do apoio de Trump

Mesmo que Trump busque influenciar a eleição brasileira, é difícil medir o possível impacto. Em alguns países, os candidatos apoiados por ele saíram vitoriosos.

Nas eleições legislativas da Argentina, em outubro do ano passado, Trump foi além da mera manifestação pública de apoio, e sugeriu que o auxílio financeiro ao país dependia da vitória da coalizão do presidente Javier Milei, seu aliado. "Se ele perder, não seremos generosos com a Argentina", disse o americano.

A coalizão de Milei conquistou uma vitória clara no pleito, que foi comemorada por Trump em sua rede social: "GRANDE VITÓRIA na Argentina para Javier Milei, um candidato maravilhoso apoiado por Trump!"

Um mês depois foi a vez de Trump se manifestar sobre a eleição presidencial de Honduras, declarando apoio ao conservador Nasry Asfura em várias postagens e insinuando que, caso o candidato fosse derrotado, os Estados Unidos não continuariam a destinar recursos ao país.

Após a votação, em meio a um longo processo de contagem de votos, Trump postou, sem oferecer provas, que autoridades eleitorais estavam tentando "mudar os resultados" do pleito. Asfura acabou sendo eleito por pequena margem.

Pouco antes das eleições legislativas do Japão, em fevereiro, Trump postou mensagem de apoio à coalizão da primeira-ministra Sanae Takaichi, que acabou conquistando uma vitória considerada histórica.

"Como presidente dos Estados Unidos da América, é minha Honra conceder o meu Apoio Completo e Total a ela e ao que a sua altamente respeitada coalizão está representando", postou Trump antes do pleito.

No ano passado, em visita à Polônia, a então secretária de Segurança Interna americana, Kristi Noem, pediu abertamente aos poloneses que votassem no candidato conservador, Karol Nawrocki, que acabou eleito presidente.

No entanto, se nesses casos os candidatos apoiados pelo governo Trump saíram vitoriosos, em outros países a interferência americana parece não ter ajudado, ou até mesmo atrapalhado, aparentemente favorecendo partidos opostos à agenda de direita.

Durante as eleições parlamentares da Hungria, em abril deste ano, Trump manifestou diversas vezes apoio ao então primeiro-ministro, Viktor Orbán, seu aliado próximo.

O presidente americano Donald Trump, à esquerda, e líder húngaro Viktor Orbán, à direita

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,O presidente americano Donald Trump e o ex-líder húngaro Viktor Orbán, à direita

"Hungria: SAIAM ÀS RUAS E VOTEM EM VIKTOR ORBÁN", escreveu Trump em uma das várias postagens na Truth Social. "Ele é um verdadeiro amigo, um lutador e um VENCEDOR, e tem o meu Apoio Completo e Total para a sua Reeleição como Primeiro-Ministro da Hungria."

O vice americano, JD Vance, chegou a visitar Budapeste poucos dias antes da votação, para demonstrar o apoio do governo americano à campanha de Orbán. Apesar desses esforços, Orbán acabou derrotado por Péter Magyar.

No Canadá, a interferência americana acabou prejudicando o candidato conservador nas eleições do ano passado. Em vez de apoio explícito, a influência de Trump se deu principalmente por meio de tarifas e provocações, ao insistir que o Canadá deveria ser anexado como o 51º Estado americano.

Essas declarações acabaram despertando uma onda de orgulho nacional no Canadá. O Partido Conservador, de Pierre Poilievre, à frente nas pesquisas até a reta final, foi derrotado pelo Partido Liberal, do primeiro-ministro Mark Carney.

"Quando um país é muito dependente e não possui nenhuma capacidade de resistir a esse tipo de interferência, como é o caso de Honduras, acho que o eleitor sabe que uma boa relação com os Estados Unidos é fundamental para o bem-estar do país", diz Stuenkel.

"Em países menos expostos, onde a tentativa de influenciar é vista como uma interferência indevida, há um risco de isso virar algo contraproducente", afirma .

"[No Canadá], as ameaças criaram um problema para o candidato pró-Trump, que virou alvo de críticas. Nesse caso, as ameaças de Trump decidiram a eleição, deram a vitória a Mark Carney", salienta Stuenkel.

O que esperar nas eleições no Brasil

No caso do Brasil, um país que não tem tanta dependência dos Estados Unidos, tentativas anteriores de interferência de Trump parecem não ter surtido o efeito desejado.

No ano passado, o governo Trump adotou uma série de medidas em resposta ao que descreveu como "perseguição" sofrida pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. As medidas incluíram tarifas sobre produtos brasileiros e sanções a autoridades, como restrições financeiras ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.

Mas a pressão americana não ajudou Bolsonaro, que em setembro foi condenado pelo STF a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado após perder a eleição de 2022.

"Toda vez que Trump meio que intervém, posta algo em suas redes, seja para favorecer Bolsonaro ou para tentar punir Lula de alguma forma, por meio de tarifas ou outros meios, isso parece reverter em benefício do próprio Lula", observa Wolfe.

Em reação às medidas americanas, o presidente Lula adotou uma postura de defesa da soberania nacional que, segundo pesquisas, parece ter aumentado seu apoio.

"As tarifas no ano passado produziram uma reação entre as elites empresariais em São Paulo, e no país como um todo", diz à BBC News Brasil o cientista político Will Freeman, pesquisador do Council on Foreign Relations. "Eles acreditaram em Lula quando Lula disse que isso era um comportamento traidor."

Stuenkel lembra que a questão da soberania é algo muito enraizado no Brasil, o que torna mais difíceis tentativas de influenciar as eleições vindas de fora.

Em 2018, quando Jair Bolsonaro venceu a eleição, ele foi apelidado por muitos como "o Trump dos trópicos", devido à sua afinidade com o presidente americano, que estava na época em seu primeiro mandato.

No entanto, naquela eleição o governo americano manteve a neutralidade diplomática padrão, e foi somente após a vitória de Bolsonaro que Trump se manifestou oficialmente, parabenizando o brasileiro.

No pleito de 2022, quando estava fora da Casa Branca, Trump apoiou abertamente Bolsonaro e pediu que os brasileiros votassem nele, mas a disputa foi vencida por Lula.

Naquela eleição, também houve relatos de que o governo do então presidente americano Joe Biden teria feito uma "campanha de pressão silenciosa" para instar líderes políticos e militares do Brasil a respeitar a democracia brasileira.

Flávio Bolsonaro se encontrou com Trump na Casa Branca em maio

Crédito,Reprodução/Instagram/@FlavioBolsonaro

Legenda da foto,Flávio Bolsonaro se encontrou com Trump na Casa Branca no final de maio

O governo americano estaria preocupado com a possibilidade de uma crise institucional no Brasil, em meio a alegações de fraude nas urnas feitas por Bolsonaro. As ações dos Estados Unidos foram criticadas por alguns como intromissão nas eleições brasileiras.

"Acho que a forma como os democratas (do partido de Biden) viam é que o processo estava em risco, e que eles estavam defendendo o processo, não um candidato ou outro", diz Freeman.

"Os conservadores olharam para isso e disseram 'vocês podem dizer que estavam defendendo o processo, mas o que fizeram beneficiou a centro-esquerda, ou esquerda, ou como queiram chamar'", observa.

"Então, acho que há um debate aí. Mas, para mim, a diferença clara é que os democratas e Biden foram muito cuidadosos em justificar publicamente suas políticas como orientadas pelo processo, para garantir que o processo fosse respeitado, independentemente de quem ganhasse", afirma Freeman.

"Enquanto Trump nem se dá ao trabalho de fazer isso. Acho que ele não se importa se alguém o acusar de intervir a favor de um candidato, ele está obviamente fazendo exatamente isso", destaca.

Interesses americanos e 'queda de braço'

Trump não é o primeiro presidente americano a tomar partido em eleições. Alguns anos atrás, um levantamento do cientista político americano Dov Levin encontrou mais de 80 episódios nos quais os Estados Unidos interferiram em eleições estrangeiras no período entre 1946 e 2000.

Mas quando se buscam exemplos de apoio feito de maneira tão aberta, são raros os casos citados. Wolfe, da Universidade Stanford, menciona a eleição presidencial na Nicarágua em 1990, disputada pelos sandinistas e pela oposição, que era apoiada pelos Estados Unidos.

"(O presidente americano na época) George H. W. Bush (1989-1993) deixou claro que, se os sandinistas vencessem, a guerra dos Contras (contra o governo) na Nicarágua e as sanções comerciais continuariam", diz Wolfe. "Foi uma interferência explícita, e a oposição acabou vitoriosa."

Outro exemplo comumente citado é de Bill Clinton (1993-2001), cujo governo, temendo a volta do comunismo na Rússia, forneceu ajuda política, financeira e diplomática ao presidente russo Boris Yeltsin, na década de 1990.

"Mas não foi algo tão explícito, não foi Bill Clinton escrevendo uma carta ao povo russo", observa Stuenkel. "Agora é completamente aberto e inclusive chega a atrapalhar outras estratégias chave dos Estados Unidos."

Uma das diferenças frequentemente apontadas entre a postura do governo Trump e a de seus antecessores é em relação às motivações ao buscar interferir em outros países. Antes, os objetivos costumavam ser estratégicos, para avançar interesses americanos.

"Trump parece mais preocupado com a lealdade declarada desses líderes do que com suas posições em questões como Estados Unidos versus China", diz Freeman. "Está apoiando pessoas apenas por serem de direita, mesmo que não estejam trazendo grandes resultados nas prioridades geopolíticas dos Estados Unidos."

Freeman ressalva que, no caso da América Latina, há a questão dos cartéis de drogas, importante para o governo Trump. "Acho que veem a eleição desses líderes de direita como parte de um plano para alinhar os países do hemisfério em uma abordagem militarizada contra os cartéis."

No entanto, além de quebrar normas diplomáticas, apoiar publicamente determinado candidato no exterior pode prejudicar as relações bilaterais, que passam a ser baseadas em afinidades entre líderes individuais em vez interesses compartilhados entre os países. Além disso, há o risco de o candidato favorecido perder.

"Esse intervencionismo partidário introduz uma instabilidade na relação bilateral", observa Stuenkel. "Ou você estabelece relações sólidas pra tentar conter a China (na América Latina, como defende um grupo dentro do governo), ou você quer apoiar governos de direita, e isso inevitavelmente produz uma fricção com governos de esquerda."

No caso das relações com o Brasil, há dois grupos no governo americano que disputam a atenção de Trump: um mais pragmático e outro mais ideológico e alinhado à direita. Essa ala ideológica é liderada pelo secretário de Estado, Marco Rubio, que recentemente descreveu o Brasil como um país que não é amigável aos interesses americanos.

"Há uma verdadeira queda de braço em relação ao Brasil", salienta Freeman. "São apenas algumas poucas pessoas profundamente interessadas nesse assunto, e elas estão puxando Trump para uma direção ou outra, um dia após o outro."

"Esses lobbies específicos, é interessante como isso virou uma espécie de alavanca para direcionar a política da Casa Branca para a América Latina, e como pode ser usado em eleições futuras", diz Freeman. "Não é apenas Trump fazendo isso por preferência pessoal, porque acorda pensando e se importando com a Colômbia ou algo do tipo."

Para Stuenkel, a postura explícita de Trump ao apoiar candidatos ao redor do mundo faz parte também de uma erosão mais abrangente das normas segundo as quais um presidente não se intrometia em eleições de outros países.

"Tem a ver, em parte, com uma maior articulação, sobretudo da direita, no âmbito internacional. Há uma rede muito coesa, uma maior interlocução em todas as áreas, seja de comunicação, construção de narrativa", afirma Stuenkel.

"Trump é um símbolo disso. Mas acho que esse é um fenômeno que veio pra ficar e que vai além dele."