SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sábado, 10 de janeiro de 2026

O Eco de Nuremberg: Justiça, Banalidade do Mal e os Ditadores do Século XXI



O Julgamento de Nuremberg, concluído em 1946, não foi apenas um evento histórico; foi um mito fundador da justiça internacional, um trauma jurídico e um espelho constantemente repolido para avaliar nossa própria época. As reflexões contemporâneas, como as propostas em filmes e documentários de 2025, junto com os clássicos insights de Hannah Arendt e narrativas como O Nazista e o Psiquiatra, nos obrigam a ver Nuremberg não como um ponto final, mas como um prelúdio incompleto.

As produções de 2025 tendem a focar não nos grandes réus – já amplamente conhecidos –, mas nos arquitetos do horror: os burocratas, os industriais, os juristas que embrulharam a barbárie em papel timbrado. Elas ecoam a perturbadora intuição de Arendt sobre a “banalidade do mal”. Em Nuremberg, muitos acusados não pareciam monstros espumantes, mas homens medíocres, orgulhosos de sua eficiência, incapazes de pensar verdadeiramente sobre as consequências de seus atos. O psiquiatra Douglas Kelley, em seu trabalho com Hermann Göring (retratado em O Nazista e o Psiquiatra), encontrou não loucura patológica, mas uma perversão da normalidade: narcisismo, ambição e uma lealdade absoluta a uma nova “normalidade” criminosa.

Nuremberg estabeleceu princípios eternos: crimes contra a humanidade, responsabilidade individual mesmo sob ordens superiores, e a ideia de que há um limiar além do qual a soberania nacional não é escudo. No entanto, também revelou fissuras: a justiça dos vencedores, a dificuldade de processar um sistema inteiro e a tensão entre punição e compreensão.

Atualizando para Hoje: O que Acontece com os Atuais Ditadores e Assassinos em Guerra?

Se os espectros de Hitler, Stalin ou dos génocidas do Ruanda e da Bósnia fossem julgados hoje, o cenário seria radicalmente diferente, marcado por avanços e retrocessos paradoxais.

  1. A Justiça Internacional, uma Realidade Frágil: Ao contrário de 1945, existe hoje uma arquitetura formal: o Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia. No entanto, sua atuação é limitada pela política. Grandes potências (EUA, China, Rússia) não são partes ou não reconhecem sua jurisdição plena. Ditadores ativos sabem que podem evitar a prisão enquanto mantiverem o poder ou o apoio de um protetor global. O exemplo mais claro são os crimes de agressão na Ucrânia: o principal acusado, Vladimir Putin, foi indiciado pelo TPI, mas sua prisão é impossível enquanto ele estiver no poder na Rússia. A justiça, aqui, é primeiro simbólica – um “selo de infâmia” internacional permanente.

  2. A Justiça “Híbrida” e Universal: O modelo de Nuremberg (tribunal internacional) convive agora com outras formas:

    • Tribunais Nacionais: Baseando-se no princípio da jurisdição universal, países como a Alemanha processaram sírios por crimes contra a humanidade. A justiça é lenta, dispersa, mas cria uma rede de responsabilidade.

    • Sanções Direcionadas: No lugar da forca ou da prisão perpétua, a ferramenta imediata contra ditadores e seus cúmplices são as sanções. Congelamento de bens, proibição de viagens, exclusão do sistema financeiro global. É uma punição econômica e política que visa isolar e estrangular logisticamente as máquinas de guerra.

    • O Tribunal da Opinião Pública: As imagens de satélite, os vídeos de drones, os relatos em tempo real nas redes sociais criam um dossiê público e indelével. A condenação histórica é instantânea, mesmo que a jurídica demore. Esse “tribunal digital” pressiona governos e instituições a agirem.

  3. Os Novos Cúmplices e a Nova Banalidade: Os filmes atuais mostram que os “Görings” de hoje podem ser líderes de big tech que permitem a propagação do ódio e a vigilância em massa, banqueiros que lavam os saques de oligarcas, ou empresários de energia que financiam regimes belicistas. Sua motivação raramente é ideológica; é o lucro, a performance do acionista, a lógica distorcida do mercado – uma nova face da banalidade arendtiana.

  4. O Maior Desafio: A Impunidade pela Desinformação. O nazismo foi derrotado militarmente e sua ideologia, desacreditada globalmente. Hoje, ditadores criam narrativas paralelas através de máquinas de propaganda sofisticadas. Eles não apenas cometem crimes, mas fabricam realidades alternativas para seus povos, onde são vítimas ou libertadores. Julgá-los perante uma comunidade internacional fracturada é infinitamente mais complexo. A batalha pelo tribunal da história começa no momento do crime, nas redes sociais e nos canais de notícias estatais.

Conclusão: O Legado Inacabado

Nuremberg nos deu a linguagem e a aspiração. Hoje, temos mais ferramentas, mas menos consenso. Os atuais ditadores e assassinos em massa enfrentam um destino variável: alguns podem acabar num tribunal em Haia (se caírem do poder), outros serão julgados in absentia ou por tribunais nacionais distantes. Muitos viverão e morrerão impunes, protegidos pela soberania, por aliados poderosos ou por um mar de desinformação.

O verdadeiro julgamento, no entanto, continua. É o julgamento que fazemos sobre a eficácia das nossas instituições, sobre a nossa coragem em aplicar o princípio da jurisdição universal, e sobre a nossa capacidade coletiva de nomear o mal, mesmo quando ele vem vestido de uniforme, de terno ou de post nas redes sociais. O eco de Nuremberg não é um veredito passado; é uma pergunta permanente, dirigida a cada geração: temos a vontade política e moral para fazer a justiça que a nossa consciência exige? A resposta, hoje como em 1945, ainda está sendo escrita.



O Agente Secreto chega mais forte que Ainda Estou Aqui ao Globo de Ouro?

 

Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho nos bastidores de O Agente Secreto

Crédito,Victor Jucá

Legenda da foto,O Agente Secreto chega ao Globo de Ouro com mais de 50 prêmios no currículo
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    • Role,Da BBC News Brasil em São Paulo
  • Tempo de leitura: 6 min

O filme brasileiro O Agente Secreto concorre ao Globo de Ouro neste domingo (11/1) já tendo mais de 50 prêmios nacionais e internacionais no currículo.

Até agora, o longa-metragem já conquistou 54 troféus em 35 premiações, incluindo Melhor Diretor e Melhor Ator no Festival de Cannes, e chega à premiação americana com uma campanha numericamente mais robusta do que a de Ainda Estou Aqui no ano passado.

Em 4 de janeiro de 2025, véspera do Globo de Ouro, o filme de Walter Salles havia vencido 17 prêmios em 12 festivais e premiações, no Brasil e no exterior.

O desempenho quantitativo ajuda a entender uma parte da força da campanha atual. Ainda Estou Aqui ganhou fôlego após a vitória de Fernanda Torres no Globo de Ouro na categoria de Melhor Atriz - Drama. O filme encerrou a temporada com 70 prêmios em 42 festivais.

Mas, àquela altura, o filme tinha apenas quatro meses de carreira: havia estreado no Festival de Veneza, em setembro de 2024, onde venceu o prêmio de Melhor Roteiro. A partir dali, construiu forte reconhecimento principalmente em festivais ibero-americanos.

Já O Agente Secreto estreou mundialmente em maio de 2025, no Festival de Cannes, e chega ao Globo de Ouro com oito meses de circulação internacional, o que amplia sua presença em festivais, premiações e campanhas de divulgação.

Desde que estreou em Cannes, o filme de Kleber Mendonça Filho vem acumulando reconhecimento de importantes associações de críticos norte-americanos, como o New York Film Critics Circle, a Los Angeles Film Critics Association e o National Board of Review.

As indicações deste ano no Globo de Ouro já são históricas. É a primeira vez que um filme brasileiro concorre em três categorias no Globo de Ouro: Melhor Filme – Drama, Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Filme – Drama.

Também é a primeira indicação do país na principal categoria da premiação. Em edições anteriores, produções brasileiras haviam sido lembradas apenas na disputa de Melhor Filme em Língua Não Inglesa.

Wagner Moura também se tornou o primeiro brasileiro indicado a Melhor Ator em Filme – Drama.

No ano passado, Ainda Estou Aqui concorreu ao Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Não Inglesa, mas perdeu para Emilia Pérez. A vitória de Fernanda Torres, no entanto, impulsionou a campanha internacional do longa, que meses depois conquistaria o inédito Oscar de Melhor Filme Internacional para o Brasil.

Wagner Moura em cena de O Agente Secreto

Crédito,Victor Jucá

Legenda da foto,Wagner Moura também se tornou o primeiro brasileiro indicado a Melhor Ator em Filme de Drama no Globo de Ouro
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Além dos prêmios tradicionais, O Agente Secreto também tem acumulado honrarias e menções divertidas e inusitadas.

Na quinta-feira (8/1), a gata Carminha recebeu o troféu Golden Beast ("Bicho de Ouro", em tradução livre), em reconhecimento às atuações das personagens Liza e Elis. O prêmio foi concedido pelo New York Film Festival, criado em 1963 e dedicado à celebração de filmes de destaque mundial.

Já o jornal americano The New York Times destacou a atuação da atriz Tânia Maria como uma das melhores de 2025, descrevendo-a como provavelmente a "melhor atuação com cigarro" do ano.

Embora as comparações entre os dois filmes brasileiros sejam inevitáveis, Dora Amorim, produtora executiva de O Agente Secreto, ressalta que cada obra percorre um caminho próprio.

"Cada filme tem a sua trajetória, o seu DNA. Mas é impossível não pensar nos dois juntos, porque no ano passado Ainda Estou Aqui fez uma trajetória histórica, e agora estamos vivendo algo semelhante com outro filme", afirmou.

Elenco de Ainda Estou Aqui em cena do filme

Crédito,Divulgação/Sony Pictures

Legenda da foto,Ainda Estou Aqui conquistou o inédito Oscar de Melhor Filme Internacional para o Brasil

Segundo ela, o fato de O Agente Secreto ser uma produção nordestina, realizada no Recife por uma produtora de pequeno porte, amplia o simbolismo do momento.

"Esse lugar é muito significativo para os técnicos do audiovisual brasileiro e também para os brasileiros, por causa da representatividade cultural", disse.

Amorim destaca ainda o impacto simbólico de ver um filme falado em português disputar espaço em premiações tradicionalmente dominadas por Hollywood.

"A gente cresceu assistindo a esses prêmios pela televisão. Ver um filme brasileiro ocupar esse espaço e as pessoas comentarem a atuação do Wagner é algo incrível para o reconhecimento da nossa cultura e do cinema como indústria."

Forte campanha nos Estados Unidos

Kleber Mendonça Filho recebe prêmio no Festival de Cannes

Crédito,MIGUEL MEDINA/AFP via Getty Images

Legenda da foto,Filme de Kleber Mendonça Filho recebeu três prêmios no Festival de Cannes

A produtora explica que o desempenho internacional do filme também está ligado à estratégia de distribuição nos Estados Unidos. No país, o filme foi lançado pela Neon, distribuidora independente responsável por títulos como Parasita e Anora, vencedores do Oscar.

"O filme estreou em novembro, ao mesmo tempo no Brasil e nos Estados Unidos, e está indo muito bem lá fora. Hoje temos três pessoas da equipe em Los Angeles participando de encontros e sabatinas com membros da Academia", diz.

Para Amorim, as próximas semanas são decisivas para o futuro do filme, principalmente em relação ao Oscar, considerada a principal premiação do cinema.

"Esse é um momento de convencimento. Para votar, as pessoas precisam assistir ao filme. A indicação ao Globo de Ouro de Melhor Filme – Drama foi algo incrível, que a gente não esperava, porque é a primeira vez que o Brasil chega a essa categoria."

O Agente Secreto também chega com a vantagem de Wagner Moura já ser conhecido internacionalmente. Ele já concorreu ao Globo de Ouro, em 2016, como Melhor Ator em Série – Drama por Narcos. Ele perdeu o prêmio para Jon Hamm, de Mad Men.

Além disso, o ator também tem uma carreira com participação em grandes produções internacionais, como Elysium Guerra Civil.

Redes sociais, memes e engajamento

No ano passado, Ainda Estou Aqui contou com um "exército de likes", com brasileiros determinados a fazer bombar toda e qualquer postagem nas redes sociais sobre o filme.

Na madrugada de 6 de janeiro, por exemplo, logo após Fernanda Torres vencer o Globo de Ouro de Melhor Atriz – Drama, brasileiros comentaram e curtiram em massa as publicações do perfil da premiação.

Já uma foto de Torres publicada no perfil oficial do Oscar alcançou 1 milhão de curtidas e dezenas de milhares de comentários em menos de 24 horas.

Amorim avalia que, embora a campanha de O Agente Secreto não seja centrada nas redes sociais, o engajamento digital tem desempenhado um papel importante. "É a primeira vez que participo de uma campanha tão estruturada de divulgação também nas redes", afirmou.

Ela citou a repercussão de memes e postagens virais, como uma montagem de Wagner Moura caracterizado como personagem de Wicked, além da fala do ator durante a cerimônia em que apresentou o prêmio de Melhor Filme.

"Quando ele anunciou o vencedor e disse 'melhor filme estrangeiro' para os brasileiros, isso viralizou. Eles distinguem muito bem o que é estrangeiro, e acho que nós estamos começando a fazer essa distinção agora", disse. "Essas coisas surgem espontaneamente e acabam virando munição para a equipe trabalhar."

Já a atriz Tânia Maria, que cativou o público com a personagem Sebastiana, também tem sido objeto de memes e vídeos virais. "Esse burburinho só acontece quando as pessoas assistem. Para a gente, o boca a boca é essencial", afirmou.

Apesar das comparações com Ainda Estou Aqui, Amorim reforçou que se trata de trajetórias paralelas. "São diretores, histórias e pontos de partida muito diferentes. Acho que, no futuro, a lembrança vai ser positiva."

Embora distintos, os dois filmes são de época e dialogam com períodos históricos próximos, ainda que com abordagens diferentes.

O Agente Secreto já ultrapassou dez semanas em cartaz no Brasil e foi visto por mais de 1 milhão de pessoas. Já o filme de Walter Salles levou 6 milhões de pessoas ao cinema. "Que bom que, em dois anos, tivemos uma safra tão forte do cinema brasileiro", diz a produtora.

'Neorrurais': os jovens espanhóis que estão migrando para o campo por causa do alto preço de casas nas cidades

 

Ainara levando um carrinho de mão com plantas em sua horta

Crédito,Cortesía

Legenda da foto,A busca por uma melhor qualidade de vida e por mais contato com a natureza também é um fator importante para muitos dos que decidiram se mudar para uma área rural, como Ainara
    • Author,Paula Rosas
    • Role,BBC News Mundo
  • Tempo de leitura: 8 min

Quando Ainara e Roger decidiram deixar a cidade grande para morar em Corterrangel, na província espanhola de Huelva, eles aumentaram a população da cidade em cerca de 15%.

O contraste entre essa pequena aldeia de 15 habitantes e Sevilha, cidade com cerca de 700 mil habitantes onde viveram por 15 anos, não poderia ser maior.

A aldeia, situada no parque natural da Serra de Aracena e Picos de Aroche, é cercada por bosques de castanheiros — árvores de grande porte comuns em áreas montanhosas da Europa —, azinheiras, típicas do Mediterrâneo e uma das espécies florestais mais resistentes à aridez, e sobreiros, de onde se extrai a cortiça.

A região abriga aves de rapina, além de genetas (pequenos mamíferos semelhantes a gatos) e texugos (animais de corpo robusto e pernas curtas, da mesma família das lontras e doninhas).

"Valorizamos muito o silêncio e o contato com a natureza", afirma Ainara.

Em Corterrangel, o casal cria a filha, Irati, em uma casa com uma cachorra, Eska, além de galinhas e uma horta. Não há trânsito nem ruídos e, além disso, há uma vantagem muito atraente: "Aqui conseguimos comprar nossa casa à vista com o que tínhamos economizado".

Em Sevilha, relata o casal, o aluguel se tornara cada vez mais caro, e a compra de um imóvel era quase inviável, já que, sem contrato de trabalho fixo, os bancos não concediam financiamento imobiliário.

Ambos são cientistas. Ainara pesquisa o abutre-do-egito, a menor espécie de abutre da Europa, enquanto Roger estuda os ácaros que vivem nas asas das aves. Os dois atuam no Conselho Superior de Pesquisas Científicas (CSIC, na sigla em espanhol), principal instituição pública de pesquisa da Espanha, um setor marcado por contratos frequentemente atrelados a financiamento variável e renovados a cada poucos anos.

Há oito anos, desde a mudança para Corterrangel, o casal percorre pouco mais de uma hora de carro até o escritório, em Sevilha. O deslocamento, dizem, vale a pena. "Viver aqui nos dá muita paz", afirma a pesquisadora.

O caso de Ainara e Roger não é isolado. Nos últimos anos, cresce na Espanha o número de jovens que pretendem deixar os grandes centros urbanos em busca de melhor qualidade de vida e como forma de escapar dos altos preços da moradia, que atingiram níveis históricos no país.

Diversos estudos acadêmicos apontam essa tendência, batizada de "neorrurais", iniciada durante a pandemia.

Embora parte dos que migraram então para vilarejos tenha retornado às cidades com o recuo do trabalho remoto, outros já construíram ali suas vidas ou planejam se estabelecer em áreas rurais.

Ainara e Roger se consideram pessoas "neorrurais"?

"Com certeza", afirma Roger. Se mudar para o campo não foi apenas uma necessidade, mas também uma decisão consciente e desejada.

Roger segura uma abóbora na horta de sua casa

Crédito,Cortesía

Legenda da foto,Entre muitas outras coisas, Roger cultiva na horta abóboras Yakteen, uma variedade palestina

Preços em níveis históricos

Um dos principais fatores desse movimento é o preço dos imóveis.

Na Espanha, os valores já superaram os da bolha imobiliária que estourou em 2008, enquanto os aluguéis subiram em muitas comunidades autônomas a taxas de dois dígitos, explica María Matos, diretora de estudos e porta-voz do portal imobiliário Fotocasa, à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC).

Ainara com sua cachorra

Crédito,Cortesía

Legenda da foto,Ainara e Roger estão criando a filha, Irati, no pequeno povoado de Corterrangel, cercados pela natureza e com a cachorra Eska

Uma pesquisa realizada pelo portal no verão revelou que 63% das pessoas que buscavam moradia, para alugar ou comprar, gostariam de se mudar para uma área rural.

O desejo era mais acentuado entre pessoas de baixa renda e grupos mais vulneráveis, "entre eles os jovens, que veem nas áreas rurais uma esperança para conseguir se emancipar", afirma Matos.

Entre jovens de 18 a 24 anos, a pesquisa indica que 70% desejam viver no campo, embora a maioria reconheça que dificilmente conseguirá concretizar essa aspiração, sobretudo porque seus empregos não permitiriam.

O descompasso entre salários e o aumento desproporcional dos preços de aluguel e de venda de imóveis ajuda a explicar esse desejo. Em 2024, o salário médio bruto na Espanha foi de 2.385 euros (cerca de R$ 15 mil), segundo o Instituto Nacional de Estatística; entre menores de 25 anos, o valor foi de 1.372,8 euros mensais (cerca de R$ 8.800).

Em Madri, capital da Espanha e também a cidade mais populosa, o aluguel médio por metro quadrado é de 22,37 euros (cerca de R$ 121), o que faz com que um imóvel residencial padrão de 80 m² custe, em média, 1.789,60 euros por mês (aproximadamente R$ 9.665).

A título de comparação, o índice FipeZAP apontou em dezembro de 2024 que o aluguel médio por metro quadrado era R$ 57,59 em São Paulo (ou R$ 4.607,20 para 80 m²), cidade mais populosa do Brasil. Segundo o IBGE, o salário médio de admissão no Brasil no mesmo mês, por exemplo, era de R$ 2.162.

Mudança de vida

Para Anaí Meléndez, natural de Valladolid, o preço do aluguel foi o fator decisivo para perder a paciência com Madri.

Ela passou anos trabalhando na capital espanhola em algumas das grandes agências de publicidade. Os salários, porém, eram "irrisórios" e contrastavam com aluguéis cada vez mais altos.

Anaí deixou um dos apartamentos onde morou após o proprietário alegar que precisava do imóvel para um filho, uma das justificativas previstas na legislação espanhola para encerrar um contrato de locação. No entanto, pouco tempo depois, constatou que o mesmo apartamento estava sendo anunciado no Airbnb, plataforma de aluguel por temporada.

Anaí Meléndez posa em seu restaurante com uma peça de carne apoiada no ombro

Crédito,Cristina Chamorro

Legenda da foto,Anaí Meléndez diz que não é a única a ir para a grande cidade e depois voltar às origens

Entre os baixos salários, o alto custo dos aluguéis e uma ruptura pessoal, Anaí resolveu mudar radicalmente de vida, deixou o emprego e recomeçou.

"Eu tinha um hobby há algum tempo: organizava degustações de chuletas [ou bistecas] no meu apartamento em Lavapiés [bairro de Madrid]. Convidava amigos e, aos poucos, foi saindo do controle. Primeiro, eram amigos, depois amigos de amigos… Até que decidi que dava para lucrar com esses encontros", conta à BBC News Mundo.

Com o dinheiro do seguro-desemprego, Anaí passou dois anos percorrendo a região onde fica sua cidade, Nava del Rey, em busca de fornecedores, criando redes, conhecendo o território e "procurando pessoas que compartilhassem da minha filosofia", explica.

Por fim, encontrou um ponto para reformar na cidade e abriu ali o restaurante "Caín", especializado em carnes na brasa e com uso de produtos locais e sazonais.

Ela afirma não ser a única a fazer o caminho de ida à grande cidade e de retorno às origens.

Ela cita jovens que voltaram a Nava del Rey, município com menos de 2 mil habitantes, para abrir, por exemplo, uma clínica de fisioterapia, além de outros que assumiram as vinhas antigas dos avós e passaram a produzir vinho com novas técnicas, aprimorando a produção herdada das gerações anteriores.

"Nos vilarejos, há muito trabalho, mas é preciso criá-lo, ir atrás", avalia Anaí Meléndez.

'Espanha vazia'

Esse é um dos problemas enfrentados pela chamada "Espanha vazia", as áreas rurais marcadas por forte despovoamento, sobretudo em decorrência do êxodo para as cidades nas décadas de 1950 e 1960. Hoje, essas regiões enfrentam a perda de serviços públicos e desequilíbrios no desenvolvimento social, econômico e cultural.

Diego Curto, gerente da Associação para o Desenvolvimento Integral do Vale de Ambroz (DIVA), organização sem fins lucrativos dedicada a revitalizar a comunidade autônoma de Extremadura, confirma o diagnóstico.

Anaí Meléndez acende uma vela em uma igreja

Crédito,Miguel Sánchez

Legenda da foto,Anaí Meléndez afirma que mudou o estilo de vida quando voltou para o seu povoado, Nava del Rey

Segundo Curto, a perda populacional leva ao fechamento de serviços, comércios, bares e restaurantes, criando um círculo vicioso que torna a região menos atraente e incentiva novas partidas.

Para enfrentar o problema, a DIVA e outras organizações semelhantes buscam revitalizar o território, gerar empregos e atrair novos moradores. Entre as iniciativas estão a criação de um banco de imóveis e terras disponíveis para aluguel e a oferta de informações sobre serviços existentes na região, como hospitais, postos de saúde, escolas e creches.

Diversas famílias já se estabeleceram no vale.

"As pessoas buscam qualidade de vida e tranquilidade, e muitas famílias querem criar os filhos no meio rural, onde se evitam problemas comuns das cidades", afirma Curto à BBC News Mundo.

A associação também passou a ser procurada por famílias latino-americanas interessadas, sobretudo, em oportunidades de trabalho na região.

"Muitos nos dizem que estão há anos em Madri ou Valência e que gostariam de mudar. São perfis de que também precisamos muito aqui", afirma.

As barreiras

Muitos interessados, no entanto, voltam a esbarrar no problema da moradia: embora mais barata do que nas grandes cidades, ela é escassa em muitos vilarejos.

"A falta de habitação é uma das razões pelas quais mais pessoas não se mudam para os povoados", afirma Curto, que lamenta o fato de que projetos de moradia pública "quase sempre se concentram em cidades ou grandes centros urbanos".

Segundo María Matos, do portal imobiliário Fotocasa, esse déficit é o que tem impulsionado o aumento dos preços em toda a Espanha.

"A Espanha recebeu mais de 500 mil pessoas no último ano e temos um déficit de quase 150 mil moradias por ano, que vem se acumulando e ampliando cada vez mais essa demanda", afirma Matos.

Algumas senhoras aproveitam o frescor da noite em uma rua de Arriate, sentadas em cadeiras dobráveis enquanto conversam

Crédito,JORGE GUERRERO/AFP via Getty Images

Legenda da foto,Algumas senhoras aproveitam o frescor da tarde em Arriate, em Málaga. A vida mais tranquila e com vínculos sociais mais fortes nos povoados é um dos motivos que levam cada vez mais pessoas a fazer a migração inversa

Outra barreira é a dos estereótipos sobre a vida no campo, que também afasta pessoas que talvez encontrassem no meio rural um ambiente adequado para viver.

"Muitos achavam que era um retrocesso ir morar assim. Nós acreditávamos que encontraríamos pessoas com vidas muito diferentes e interessantes, e foi o que aconteceu", relata Ainara, a pesquisadora.

Eles tiveram que fazer alguns sacrifícios.

"Você não pode ir às 2h a um Carrefour Express [minimercado], não tem Glovo [aplicativo de entregas]. Estamos acostumados a um estilo de vida do qual é difícil abrir mão", admite Anaí Meléndez.

Por isso, conta Meléndez, muitos amigos que gostariam de seguir o mesmo caminho acabam tendo dificuldade de romper com a rotina.

"Eu sou impulsiva, mas sei que não é simples dizer: 'Olha, largue tudo e faça o mesmo que eu, vá morar em um vilarejo'."