Coro dos que se calam (em off):
— Para ocupar a sala com ar-condicionado, a gente aprende a não ver o sangue escorrer da periferia.
O preço do cargo é a morte da memória.
Primeiro movimento: Por que a esquerda se cala diante do genocídio, da pobreza e da corrupção?
A resposta é tão antiga quanto a própria política: ocupar o “condomínio do poder” exige um pacto de silêncio. No Ceará e no Rio de Janeiro, esse condomínio funciona exatamente como uma máfia: tem portaria blindada, cotas de influência, rodízio de favores e, acima de tudo, a omissão como moeda de troca.
A esquerda que hoje governa esses estados — ou que integra suas coalizões — aprendeu que denunciar o genocídio de jovens negros ou o desvio de bilhões seria denunciar a si mesma. Porque os números são escandalosos:
No Ceará, cinquenta e um por cento dos homicídios em dois mil e vinte e quatro atingiram crianças e jovens de zero a vinte e nove anos, com taxa de setenta e dois vírgula oito por cem mil. Enquanto isso, a Operação Kingdom revelou desvio de duzentos e noventa milhões de reais de verbas de transporte escolar e água.
No Rio de Janeiro, mil setecentos e catorze jovens foram assassinados em dois mil e vinte e quatro. No ano seguinte, setecentas e noventa e sete mortes por intervenção policial — um crescimento de treze por cento. E três bilhões e setecentos milhões de reais do RioPrevidência foram transferidos para o Banco Master, uma pirâmide que movimentou doze bilhões de reais de dinheiro público.
O silêncio da esquerda não é acidental: é a taxa de ocupação do poder. Como denuncia Bruno Carazza em O País dos Privilégios, o Estado brasileiro nunca serviu ao povo, mas a uma casta que se alterna no poder. A esquerda, ao se calar para esses números, torna-se sócia da máfia. Os jovens mortos viram estatística; a pobreza vira problema de “gestão”; a corrupção vira “caixa dois” ou “irregularidades pontuais”. E o condomínio segue de portas abertas para quem aceitar o pacto: não falar, não investigar, não prender.
Segundo movimento: Em nome de enfrentar Bolsonaro, a esquerda pode matar, mentir e roubar — e os números já superam a ditadura militar?
Sim. E a justificativa é tão cruel quanto cínica: qualquer coisa vale contra o fascismo. Sob essa bandeira, a esquerda tem justificado o injustificável:
Matar — No Ceará, cento e sessenta e sete mortes por intervenção policial só nos primeiros dez meses de dois mil e vinte e cinco, o maior número em sete anos. No Rio, as operações policiais no Alemão e na Penha mataram cento e vinte e uma pessoas em poucos dias. A ditadura militar deixou oficialmente quatrocentos e setenta e três mortos em vinte e um anos (dados da Comissão da Verdade). A esquerda, em dois anos de conivência com essa política de extermínio, já se aproxima perigosamente desse número — mas com uma diferença brutal: hoje os mortos são, esmagadoramente, jovens negros e pobres, e não militantes políticos. O genocídio virou política de estado progressista.
Mentir — Durante décadas, a esquerda denunciou a censura da ditadura. Agora, se cala diante das “folhas secretas” do Rio de Janeiro, que escondem salários e penduricalhos de servidores fantasmas. Mente ao dizer que o Banco Master era um “banco sólido” — quando investigações mostram que políticos de esquerda receberam financiamento de campanha e viagens de jato do esquema.
Roubar — Os três bilhões e setecentos milhões de reais do RioPrevidência não são um “erro contábil”: são o maior rombo previdenciário da história do estado, destinado a alimentar uma pirâmide financeira. No Ceará, os duzentos e noventa milhões de reais desviados na Operação Kingdom significam, na prática, milhares de mortes pela pobreza: cada real desviado da merenda escolar, do transporte de estudantes, da distribuição de água é uma sentença para quem já vive no limite.
Aparelhamento das instituições contra o povo
Para que esse sistema funcione, é necessário que escolas, universidades, ONGs, bancos públicos e outros equipamentos sejam transformados em moedas de troca. E é exatamente o que acontece:
Escolas e universidades viram currais eleitorais. No Ceará, denúncias apontam que diretores de escola pública são pressionados a liberar espaços para eventos políticos do governo. As universidades estaduais têm seus orçamentos atrelados a indicações políticas — quem não se cala, perde verba.
ONGs são transformadas em “organizações da sociedade civil de interesse público” (Oscips) para receber verbas públicas sem licitação. Muitas são dirigidas por ex-secretários, parentes de políticos ou militantes que trocam o silêncio pelo repasse.
Bancos públicos como o Banco do Nordeste, tem licitações em Bilhões durante décadas sem licitação para uma ONG de funcionários do BNB, bancos estaduais (como o Banrisul, mas também fundos como o RioPrevidência) viram cabides de empregos e fontes de recursos para esquemas. No caso do Banco Master, a transferência de recursos públicos foi aprovada com a conivência de conselheiros indicados pela esquerda.
Sindicatos e movimentos sociais — muitos financiados por editais públicos — também entram no pacto. Em troca de manter seus projetos, não criticam o genocídio ou a corrupção. A luta de classes vira luta por cotas no condomínio.
A continuidade dos filmes, agora explícita
Ainda Estou Aqui 2 — O Rio de Janeiro: Eunice Paiva, em vez de procurar um desaparecido político, vai atrás de um jovem negro assassinado em uma operação policial. Ela descobre que o delegado responsável foi promovido pelo governador, que recebeu financiamento de campanha do Banco Master. O silêncio dos intelectuais de esquerda, que antes a aplaudiam, agora a enterra viva.
O Agente Secreto — O Ceará: O agente infiltrado descobre que a maior ameaça não são os terroristas, onde o governo desvia recursos. Ele tenta denunciar, mas seu próprio contato na universidade federal — financiado por uma ONG aparelhada — o silencia.
Tropa de Elite 3 — O Condomínio: O Capitão Nascimento, agora professor de sociologia em uma universidade pública ocupada pela esquerda, vê seus alunos aplaudirem operações policiais que matam centenas. Ao protestar, é chamado de “fascista” pelos próprios colegas, que justificam o extermínio como “medida necessária contra o tráfico”. O filme termina com ele queimando sua farda e dizendo: “Trocaram a ditadura militar pela ditadura da corrupção. E o pior: acham que estão certos.”
Epílogo — A poesia do silêncio, segundo Brecht e Shakespeare
Bertolt Brecht já alertava:
“O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não vê, não ouve, não fala —
mas vota em quem o mata.”
A esquerda que se cala no Ceará e no Rio não é analfabeta: é analfabeta de consciência. Sabe o que acontece, mas escolhe o cargo.
William Shakespeare, em Medida por Medida, escreveu:
“A clemência é o atributo do poder — mas quando o poder é clemente com o crime, o crime vira lei.”
Hoje, a lei é o silêncio. E o condomínio do poder, que deveria abrigar a luta pelo povo, abriga a máfia.
Cena final: Um coro de jovens — os que sobraram — canta no vão do Museu de Arte do Rio, enquanto a polícia desocupa a manifestação. O governador, de dentro do Palácio Guanabara, assiste pela janela blindada. Ele dá uma entrevista: “Estamos combatendo a corrupção e a violência com firmeza”. A câmera mostra, atrás dele, um quadro com os nomes de todos os governadores do Rio presos desde a redemocratização. O quadro está empoeirado — ninguém limpa há décadas, e no Ceara da Máfia oligárquica da corrupção também com o silêncio da Assembleia Legislativa e dos Deputados Federais.
Sem Fim.
📌 Fontes (mantidas e adaptadas):
Números do ISP, Anuário Brasileiro de Segurança Pública, CGU, PF.
Investigações: Operação Kingdom (Ceará), Operação Compliance Zero (Rio), Banco Master.
Bruno Carazza: O País dos Privilégios (dois mil e vinte e quatro), Dinheiro, Eleições e Poder (dois mil e dezoito).
Dados sobre ditadura militar: Comissão Nacional da Verdade (quatrocentos e setenta e três mortos confirmados em vinte e um anos).