SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Criadora do ChatGPT diz que sua IA agiu por conta própria e lançou um ataque cibernético 'sem precedentes'

 

Interface do ChatGPT.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,A OpenAI é mais conhecida pelo seu chatbot ChatGPT, que é utilizado por centenas de milhões de pessoas
    • Author,Laura Cress
    • Role,Repórter de tecnologia da BBC
  • Published
  • Tempo de leitura: 4 min

OpenAI informou na terça-feira (21/7) que alguns de seus modelos de inteligência artificial mais avançados agiram por conta própria e lançaram um ataque cibernético contra uma startup depois que a empresa perdeu o controle sobre eles durante um teste de segurança.

A criadora do ChatGPT declarou que seu agente — um sistema de IA capaz de operar autonomamente após receber instruções iniciais de humanos — estava sendo testado em um ambiente controlado, mas encontrou vulnerabilidades e conseguiu escapar.

Fora do ambiente controlado, o sistema identificou a start up Hugging Face, uma espécie de biblioteca digital de tecnologia de IA muito usada por desenvolvedores, como a possível fonte para as respostas que estava procurando no teste, e chegou a acessar alguns sistemas internos da empresa.

A OpenAI classificou o incidente como algo "sem precedentes" e afirmou estar conduzindo uma investigação em conjunto com a Hugging Face.

Em seu comunicado inicial sobre a invasão, em 16 de julho, a Hugging Face informou que ainda estava avaliando se dados de clientes ou parceiros haviam sido afetados e que entraria em contato com as partes atingidas, se necessário.

A empresa afirmou que já corrigiu as vulnerabilidades apontadas pelo incidente e reconstruiu os sistemas afetados.

"Ferramentas ofensivas autônomas impulsionadas por IA já não são algo teórico", declarou a empresa. "Defender uma plataforma online agora significa tratar os dados e a superfície do modelo como uma superfície de ataque de primeira ordem, e utilizar IA na defesa para acompanhar o ritmo. Continuaremos investindo nessa área e compartilhando o que aprendermos."

O CEO da Hugging Face, Clement Delangue, declarou em uma publicação no X que é "impressionante que tudo isso tenha acontecido de forma autônoma". "A investigação está em andamento, e compartilharemos mais aprendizados sobre o que pode ser o primeiro incidente desse tipo", acrescentou.

Ambientes de teste (sandboxes) inseguros

Gina Neff, diretora do Centro Minderoo de Tecnologia e Democracia da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, disse ao programa Today, da BBC Radio 4, que os testes de segurança — conhecidos como sandboxes — "deveriam ser ambientes seguros onde é possível observar do que os modelos são capazes".

No entanto, em vez disso, os agentes criaram seu próprio ataque cibernético contra o ambiente de teste, encontrando uma vulnerabilidade que lhes permitiu escapar.

Neil Lawrence, professor de machine learning na Universidade de Cambridge, classificou o feito como "impressionante", mas ressaltou que ele "está totalmente dentro das capacidades conhecidas da geração atual" de modelos de IA de alto desempenho.

Ele observou que a OpenAI busca abrir seu capital na bolsa de valores e enfrenta forte pressão da rival Anthropic, que ganhou destaque com sua própria ferramenta de IA poderosa, a Mythos.

"A OpenAI está agora correndo atrás do prejuízo; eles estão tentando demonstrar as capacidades de seus próprios sistemas em segurança cibernética."

"Isso nos mostra que a OpenAI não é capaz de implementar sua própria tecnologia com segurança", acrescentou.

Sam Altman, um jovem branco de cabelo curto e preto.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Sam Altman, cofundador da OpenAI

'Momento de reflexão'

O incidente levantou novas questões sobre as capacidades de sistemas avançados de IA e se as salvaguardas existentes são suficientes à medida que a tecnologia se torna mais poderosa.

Spencer Starkey, executivo da empresa de cibersegurança SonicWall, disse à BBC que o episódio deixou claro que as organizações precisam "intensificar" suas defesas e "tratar a resiliência cibernética como uma prioridade operacional fundamental".

"A verdade desconfortável é que muitas organizações ainda se defendem na velocidade humana, enquanto os adversários estão avançando para a velocidade das máquinas", afirmou.

Enquanto isso, Travis Lelle, engenheiro-chefe de segurança da consultoria Guidepoint Security, disse que a atualização marcou um "momento de reflexão na cibersegurança". "Isso evidencia uma assimetria conhecida", disse ele.

"Os agentes ofensivos não têm restrições, enquanto as melhores ferramentas de defesa estão limitadas por mecanismos de controle que não conseguem compreender o contexto."

No entanto, Jake Moore, consultor global de cibersegurança da ESET, observou que o anúncio também poderia ter uma dimensão competitiva.

Ele argumentou que a OpenAI pode estar tentando destacar suas próprias capacidades de IA, uma vez que a rival Anthropic atrai cada vez mais atenção com seu modelo Claude Mythos.

"Isso levanta a questão de se a OpenAI estaria tentando alcançar o sucesso de marketing da Anthropic", disse.

O fato ocorre uma semana após a startup chinesa de IA Moonshot apresentar o Kimi K3 — um novo e gigantesco modelo de inteligência artificial que, segundo a empresa, pode rivalizar com as principais companhias dos EUA.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Quando seus Destinos é em seus úteros nutrir outras sociedades . Por Egidio Guerra




O Ártico de Tamara Klink não é um útero. É uma matriz gelada, um não-lugar para a vida orgânica que conhecemos. E, no entanto, é ali, no silêncio absoluto da invernagem, que ela gesta algo muito mais potente do que um novo ser humano: ela gesta uma nova forma de existir no mundo.

A sociedade patriarcal sempre definiu o destino feminino a partir da biologia. O útero, nessa lógica, seria o cativeiro sagrado — o lugar onde se gestam os corpos que manterão a engrenagem da sociedade atual em funcionamento. Mas Tamara, como outras mulheres que desbravaram seus caminhos — de Cheryl Strayed às navegadoras solitárias, de Virginia Woolf às cientistas que desafiaram o gelo —, subverte esse lugar-comum. O útero deixa de ser o símbolo do confinamento doméstico para se tornar o epicentro da criação de outras sociedades possíveis.

Uma das passagens mais cortantes de Bom dia, inverno é quando Tamara confessa que, na imensidão branca, preferia deparar com um urso polar a encontrar um homem. Quando uma mulher coloca a ferocidade da natureza selvagem abaixo da ameaça de um desconhecido, somos obrigados a encarar o óbvio: o maior perigo para as mulheres não ronda nas montanhas ou nos oceanos, mas nas estruturas que construímos para abrigá-las. A sociedade que insiste em colocar o destino feminino dentro de casa é a mesma que a devora quando ela ousa sair. Preferir o urso é preferir o risco honesto da natureza ao risco perverso da cultura. É dizer: "Antes o gelo que me queima do que o olhar que me aprisiona."

E aqui entra a genialidade silenciosa de Amir Klink. Muitos imaginariam que o pai navegador lhe abriria os mares com mapas e atalhos. Ele fez o contrário. Recusou-se a pavimentar o caminho da filha, não por negligência, mas por uma confiança radical. Ensinou-lhe a construir a própria bússola errando. Ao não entregar o destino a ela de mão beijada, ele a obrigou a cavar o próprio chão. E ao cavar, Tamara não encontrou o legado do pai; encontrou a argila fértil de sua própria voz. Esse é o verdadeiro ato de nutrir uma nova sociedade: não proteger a mulher do mundo, mas devolvê-la a si mesma para que ela decida que mundo quer habitar.

Lendo Tamara, percebo que sua jornada não é sobre provar nada a ninguém. Essa é a armadilha que muitas mulheres caem — a de performar a força para ser aceitas. Tamara vai ao Ártico porque sua curiosidade e sua ambição a chamam. Ponto. Ela não escala montanhas para calar misóginos; escala porque a montanha (ou o gelo) faz parte de seu direito inalienável de sonhar. E é exatamente essa liberdade de agir por desejo, e não por reação, que nutre as futuras sociedades. Quando uma mulher ocupa um espaço simplesmente porque ele lhe pertence por direito de existência, ela rasga o contrato social antigo e costura um novo, onde a autonomia feminina não precisa de justificativa.

Ainda há quem estranhe uma mulher sozinha atravessando oceanos ou passando um inverno inteiro no Ártico. Mas eu estranho é o nosso espanto diante da liberdade feminina. Estranho é acharmos que o útero só serve para gerar filhos para a nação, quando ele pode — metaforicamente — gerar coragem, literatura, ciência e novos paradigmas. Tamara, em sua cabana congelada, gestou a si mesma. E ao narrar essa gestação, ela nos oferece um colo simbólico para todas as mulheres que ainda tremem diante do "não pertenço".

O destino de uma mulher, quando confiado a ela mesma, transborda os limites do lar e vai alimentar, com histórias de coragem, a alma coletiva da humanidade. Nutrir outras sociedades não é, portanto, um ato passivo de cuidado com o que já existe; é um ato revolucionário de imaginar o que ainda não é. E para isso, às vezes, é preciso atravessar o gelo, preferir o urso ao homem e escrever, com a própria mão, o mapa de um mundo onde o espanto diante da mulher livre finalmente se extingue. 


A Odisseia dos Dois Capitães: Escolha Luiz Henrique Saraiva Pontes.

 


Na grande travessia da vida, a Nação é um navio à mercê de tempestades. O capitão não é apenas o que segura o leme; é o farol que guia a tripulação — formada por nossas famílias, nossos amigos, nossos sonhos e a própria essência divina que nos une. Nessa odisseia real, dois comandantes se erguem em polos opostos: de um lado, o Capitão Luiz Henrique (Mandetta), homem de ciência, trabalho e justiça; de outro, o Capitão Jair Bolsonaro, arauto da desordem, da maldade e do caos.

O Bom Capitão: Luiz Henrique, o "Sócrates" da Gestão

Luiz Henrique é o capitão que joga e vive como o lendário Sócrates, o Doutor da Seleção. Assim como o meio-campista que chutava com a cabeça e a alma, Mandetta governa com a inteligência de quem respeita a ciência e a ética. Ele é o técnico Telê Santana dos tempos modernos: justo, trabalhador e verdadeiro, que não abre mão do jogo limpo para vencer a qualquer preço. Enquanto líder, lembra Nelson Mandela — não pela política partidária, mas pela capacidade de unir adversários em torno da vida. Como empresário, tem a visão de um Abílio Diniz, que constrói impérios com suor e planejamento; como cientista, encarna Oswaldo Cruz, que enfrentou epidemias de peito aberto, sem jamais negar a realidade.

Este capitão é leal à sua tripulação. Sabe que Deus se revela no cuidado com o próximo, e que a verdadeira pátria não se constrói com uivos de ódio, mas com o abraço apertado entre amigos e a mesa farta com a família. Sua bússola aponta para o bem comum, e suas ordens são claras: "Remem juntos, protejam os mais frágeis, acreditem na vacina".

O Mau Capitão: Bolsonaro, o "Nero" do Negacionismo

No extremo oposto, temos o Capitão Bolsonaro. Se Luiz Henrique é Sócrates, Bolsonaro é o atacante que simula pênaltis e vive de mergulhos na piscina da mentira. Injusto como um juiz corrupto que apita faltas inexistentes, ele comanda o barco como Nero: toca uma harpa desafinada enquanto o navio arde em chamas. Sua maldade não é apenas a brutalidade explícita, mas a indiferença genocida com que tratou a pandemia — chamando a covid de "gripezinha" enquanto mais de 700 mil brasileiros morriam no silêncio dos hospitais lotados.

Vagabundo da verdade, ele é o Lance Armstrong da política: construiu uma carreira inteira sobre o doping da desinformação, destruindo adversários com a violência de um fascista de Araxá. Desleal e inimigo das pessoas de bem, ele não poupou cientistas (a quem chamou de "charlatões"), nem empresários sérios (a quem perseguiu com a caneta do orçamento secreto). Sua liderança é a do técnico que escala o time sem goleiro, que recusa o mapa do tesouro (as vacinas) e ordena que a tripulação navegue direto para o abismo, alimentando a ignorância como combustível para o autoritarismo.

A Odisseia da Pandemia: Onde a Bola e a Vida Não Entram em Campo

Foi nos corredores da COVID-19 que essa odisseia se tornou trágica. Enquanto Luiz Henrique, como um bom médico de plantão, pedia isolamento, máscaras e ciência (como o herói Édison Arantes do Nascimento, o Pelé, que unia o país com alegria), Bolsonaro fazia o contrário: incentivava aglomerações, pregava o "tratamento precoce" ineficaz e dançava o "passinho do afrouxamento" sobre os túmulos das vítimas. A violência não vinha apenas de um tiro, mas da omissão criminosa; o fascismo não vestia farda, mas a camisa da negligência; a ignorância não era um simples erro, mas uma arma de destruição em massa.

O Veredito da Vida Real

Hoje, a Nação de verdade — aquela que acorda cedo, que leva os filhos à escola, que reza antes do jantar e que acredita no amanhã — precisa escolher seu capitão. Luiz Henrique representa a odisseia que vale a pena ser vivida: a jornada do herói que sofre, mas que mantém a lealdade à família, a amizade como escudo, Deus como proa e a ciência como remo.

Bolsonaro é o capitão que nos levaria à Terra do Fim, onde a lei da selva impera, onde o amigo vira inimigo e onde a verdade é apenas uma peça de teatro para enganar tolos.

Que fique claro: o futebol da vida não se ganha com dribles desonestos, mas com passes precisos para o bem. Que vença o capitão que honra a nossa torcida — a torcida dos que amam a vida, a democracia e a esperança. Contra o capitão mau, a única jogada possível é a união. A pátria de verdade não se curva ao autoritarismo, ela se levanta pela vacina, pela justiça e pela memória eterna de todos aqueles que se foram por causa de um comando que se recusou a ver o iceberg. Escolha o time da vida.

Viver entre a Mística, a Moral, a Liberdade, a Escuridão, o Tempo, as Coisas Materiais e a Imaginação. Por Egidio Guerra.




Vivemos tempos de fragmentação. O sujeito moderno, proclamado soberano pela doutrina liberal, encontra-se, na prática, aprisionado num labirinto de abstrações: ora reduzido a um feixe de preferências subjetivas, ora sufocado pela acumulação de objetos inertes, ora cego pela claridade excessiva de uma razão que já não distingue a árvore da floresta. Para habitar verdadeiramente o mundo — e não apenas geri-lo — somos convocados a uma tarefa hercúlea: tecer uma existência que reconcilie o apelo da mística com o rigor da moral, a ânsia de liberdade com a espessura do tempo, a opacidade da matéria com a potência visionária da imaginação. Os pensadores que nos guiam neste percurso não nos oferecem consolos fáceis, mas sim ferramentas para escavar a complexidade do real. 

A primeira armadilha que se ergue diante de nós é o primado das coisas materiais. Iain McGilchrist, em The Matter With Things, diagnostica o mal-estar contemporâneo como uma hegemonia do hemisfério esquerdo do cérebro: uma visão que despedaça o mundo em partículas manipuláveis, reduzindo a realidade a meros correlatos utilitários. A matéria, assim, deixa de ser o solo fértil da experiência para se tornar um estoque de recursos. Esta lógica da fragmentação estende-se à própria liberdade. Patrick Deneen, em Why Liberalism Failed, demonstra como o ideal liberal de autonomia negativa, ao desenraizar o indivíduo de tradições e comunidades, não o libertou, mas o entregou à tirania do mercado e do Estado. A liberdade tornou-se um direito vazio, desprovido de qualquer telos substantivo, gerando solidão e servidão voluntária sob o manto do consumo. 

Esta perda de orientação é o cerne da crise moral dissecada por Alasdair MacIntyre em After Virtue. Sem uma narrativa coerente que conecte o passado, o presente e o futuro, a linguagem ética degenera em emotivismo — meras exclamações de gosto e aversão. Perdemos o conceito de virtude como hábito que nos conduz à eudaimonia, o florescimento humano, porque abandonamos a noção de que a vida é uma unidade narrativa. MacIntyre nos recorda que a moral não é um código intemporal, mas uma prática enraizada em comunidades que partilham uma história. A resposta a esta crise, no entanto, não pode ser um retorno nostálgico a um passado idealizado, mas exige uma reinvenção radical do nosso enraizamento no tempo. 

James K. A. Smith, em How to Inhabit Time, confronta a nossa ansiedade existencial perante o fluxo cronológico. A modernidade tenta domesticar o tempo, transformando-o numa linha reta e mensurável — um recurso a ser otimizado. Porém, habitar o tempo autenticamente é abraçar a sua espessura litúrgica: é carregar o peso das memórias que nos constituem (a tradição) e estender-se em direção a um futuro que não controlamos, mas que esperamos. É neste intervalo, nesta espera ativa, que a escuridão se revela não como ausência, mas como condição de possibilidade para o encontro com o transcendente. 

É precisamente aí que a mística e a escuridão irrompem como antídotos contra a soberba da razão analítica. Simon Critchley, em Mysticism, e James K. A. Smith, em Make Your Home in This Luminous Dark, convergem ao apontar a via negativa como o caminho para o real. A mística não é uma fuga irracional, mas a coragem de encarar o "não saber" — o agnosia — como a única postura adequada diante do mistério que sustenta o ser. A escuridão luminosa de que fala Smith não é o caos, mas o útero gerador de sentido, onde as certezas do hemisfério esquerdo se dissolvem para que a totalidade viva do mundo (o hemisfério direito, segundo McGilchrist) possa ser novamente intuída. É nas bordas do indizível, onde a linguagem titubeia, que a mística resgata a dimensão poética e sacrificial da existência, oferecendo um escape à lógica estéril da utilidade. 

Contudo, como transpor este abismo entre a fragmentação material e a unidade mística? A ponte é a imaginação teológica, tal como formulada por Judith Wolfe em The Theological Imagination. Longe de ser mero devaneio estéril, a imaginação é a faculdade primária da percepção — o órgão que nos permite interpretar a realidade como um dom, e não como um dado bruto. Wolfe mostra que a fé e a arte partilham esta estrutura hermenêutica: ambas moldam o que vemos ao nos ensinarem como ver. A imaginação não foge da matéria; pelo contrário, ela a satura de significado, revelando que as coisas não são apenas objetos físicos, mas portadoras de glória e de sofrimento. É ela que resgata a narrativa moral que MacIntyre considera perdida, ao reconfigurar o passado e o futuro num presente denso de vocação. 

Assim, viver entre estes polos é aceitar a tensão constitutiva da condição humana. Não podemos abandonar a matéria, pois somos corpóreos; mas devemos recusar o materialismo que a coisifica, utilizando antes a imaginação para ver nela o eco de algo maior. Não podemos descartar a moral, mas precisamos recuperá-la das garras do emotivismo, ancorando-a na tradição e na virtude, sem cair no tradicionalismo rígido. A liberdade exige a crítica de Deneen para despir-se do individualismo tóxico e reencontrar-se na dependência mútua da comunidade. O tempo deve ser habitado com a paciência de quem espera na escuridão, confiando que a noite é o véu da proximidade divina, enquanto a mística nos ensina a linguagem do silêncio e do espanto. 

O resultado não é uma síntese pacífica, mas um equilíbrio instável e criativo. Como bem sintetiza a obra de McGilchrist, a sabedoria está em atender à totalidade sem desprezar as partes, em usar a precisão analítica a serviço da visão compreensiva. Ao integrarmos a crítica de MacIntyre, a denúncia de Deneen, a fenomenologia temporal e mística de Smith, a neuro-filosofia de McGilchrist e a hermenêutica visionária de Wolfe, descobrimos que a existência autêntica é um ato de alquimia espiritual: transformamos a opacidade do mundo material em ícone, a solidão da liberdade em comunhão, a ansiedade do tempo em esperança, e a rigidez da moral em compaixão. 

Viver, afinal, é navegar entre a claridade cegante do conceito e a escuridão fecunda do mistério, sabendo que a imaginação é a bússola, a virtude é o leme, o tempo é o mar, e a mística é o horizonte que nunca alcançamos, mas que confere direção à viagem. Nas palavras de Smith, a casa que construímos na escuridão luminosa é a única morada possível para uma alma que recusa ser aprisionada pelas coisas, mas que insiste em ver nelas o reflexo de uma beleza que a razão, sozinha, jamais poderá domesticar.