(Ou: A Carta Aos Que Lavam as Mãos Enquanto os Inocentes Sangram)
Profecia para os fiéis do deus errado
PRÓLOGO: VOCÊ NÃO É VÍTIMA. VOCÊ É CÚMPLICE.
Antes que você feche esta página, antes que diga que "não sabia", antes que se esconda atrás da bandeira, do muro, do fuzil ou do salmo decorado — ouça.
Você não é espectador.
Você não é "apoiador".
Você é co-autor.
Cada like, cada voto, cada "mito", cada compartilhamento, cada desculpa esfarrapada, cada vez que chamou jornalista de "fake news", cada vez que chamou cadáver de criança de "teatro", cada vez que chamou ladrão confesso de "perseguido" — você estava assinando embaixo.
Com a sua mão. Com a sua boca. Com o seu silêncio.
O sangue das crianças de Gaza está nas suas mãos. A fome das crianças yanomami está nas suas mãos. As gaiolas com crianças imigrantes na fronteira dos EUA estão nas suas mãos. A destruição da democracia brasileira em 8 de janeiro está nas suas mãos. As cacetadas em judeus que pediam paz em Tel Aviv estão nas suas mãos.
Você quer Deus? Você quer a Bíblia? Você quer a Cabala?
Então receba.
Porque o Deus que você diz servir está, neste exato momento, vomitando o seu nome.
I. A PARÁBOLA DOS LADRÕES DE TEMPLO (Lucas 19:45-46)
"Entrando no templo, Jesus começou a expulsar os que ali vendiam, dizendo-lhes: 'Está escrito: A minha casa será casa de oração. Mas vós a transformastes em covil de ladrões.'"
Você sabe o que Jesus fez? Ele não negociou. Ele não fez acordos. Ele virou mesas. Ele pegou um chicote — sim, um chicote — e expulsou os vendilhões do templo.
Por quê? Porque eles tinham transformado a casa de Deus em negócio. Em corrupção. Em exploração dos pobres que vinham oferecer sacrifícios.
Agora me diga: o que Trump fez com a Casa Branca? Transformou em filial da Trump Organization. Hóspedes pagando US$ 200 mil para dormir no Lincoln Bedroom. Secretário de Estado indicado porque doou milhões. Política externa vendida ao maior lance.
O que Netanyahu fez com o Knesset? Transformou em escritório de advocacia particular. Negociou favores com a Bezeq em troca de cobertura favorável. Aceitou charutos e champanhe de bilionários enquanto cortava verba de hospitais.
O que Bolsonaro fez com o Planalto? Transformou em açougueiro de joias. Vendeu presentes oficiais da Presidência para abastecer a conta pessoal. Rachadinha. Laranjas. Venda de sentenças no STF.
E você aplaude.
Você chama isso de "gente séria".
Você olha para vendilhões do templo modernos e diz "mito".
Jesus usou um chicote neles. Você usa um voto.
A quem você serve, realmente?
II. A MALDIÇÃO DOS QUE CHAMAM O MAL DE BEM (Isaías 5:20)
"Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas; que fazem do amargo doce, e do doce amargo!"
Leia de novo. Devagar.
Ai dos que ao mal chamam bem.
Trump pega uma criança de dois anos no colo, filha de imigrante separada dos pais, chora uma lágrima de crocodilo na câmera, e no dia seguinte assina ordem executiva que mantém 5.000 crianças em gaiolas. E você diz: "Ele é um homem de família."
Netanyahu bombardeia uma escola da ONU em Gaza — coordenada GPS entregue aos militares israelenses para evitar bombardeios — mata 27 crianças, e no dia seguinte posa para foto com soldados. E você diz: "Ele está protegendo Israel."
Bolsonaro olha para a câmera e diz que índio é "evolução do ser humano" — "tão bicho quanto a gente" — e que terras indígenas são "impedimento ao desenvolvimento". Enquanto garimpeiros invadem, envenenam rios com mercúrio, matam crianças yanomami de fome e malária evitável. E você diz: "Ele é direto. Fala o que pensa."
Você chama o mal de bem.
Você chama assassino de herói.
Você chama ladrão de "empreendedor".
Você chama torturador de "pessoa de bem".
Isaías já te amaldiçoou. Você só não leu.
III. O BEZERRO DE OURO DO MAMOM (Êxodo 32:1-6)
Enquanto Moisés subia ao monte para receber os mandamentos, o povo ficou impaciente. Foi até Arão e disse: "Faça para nós deuses que vão à nossa frente."
Arão juntou o ouro. Derreteu. Fez um bezerro.
E o povo se prostrou. E disse: "Estes são os seus deuses, ó Israel, que tiraram vocês do Egito."
Mentira. O bezerro não tirou ninguém do Egito. O bezerro era ouro parado. Objeto. Ídolo.
Você tem seus bezerros.
Trump tem sua estátua em CPAC. Sua Bíblia virada para a câmera. Seu nome em arranha-céus. E você se prostra. Você diz: "Ele é o ungido." Ele é um vendedor de Bíblias com a China estampada na sola do sapato.
Netanyahu tem sua foto ao lado de Trump no Muro das Lamentações. Seu "aliado histórico". Seu "amigo de Israel". Enquanto destrói a democracia israelense por dentro. Enquanto coloca em risco a segurança de longo prazo de Israel por vantagens pessoais de curto prazo. E você se prostra.
Bolsonaro tem sua cavalgada. Sua motociata. Seu "coração de aço". Enquanto faz corpo mole com a CPI da Covid. Enquanto chama vacina de "experimento". Enquanto Brasil vira cova aberta. E você se prostra.
O bezerro é ouro. O bezerro é mentira. O bezerro é ídolo.
Você trocou o Deus vivo por estátuas de carne corrupta.
E ainda canta "hino nacional" no meio da rua como se fosse salmo.
IV. O FALSO PROFETA QUE VESTE PELE DE CORDEIRO (Mateus 7:15-16)
"Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas interiormente são lobos devoradores. Por seus frutos os conhecereis."
Qual é o fruto de Trump? Falência de cassinos. Universidade falsa que roubou alunos. Casamentos destruídos. Seis processos por abuso sexual — um confirmado por um juiz. Mais de 4.000 mentiras públicas em quatro anos de mandato — documentadas pelo Washington Post. O fruto é podre. Mas você diz: "Deus usa vasos imperfeitos."
Qual é o fruto de Netanyahu? Três indiciamentos por corrupção. Uma guerra que matou 42 mil pessoas para não ir para a cadeia. Assentamentos ilegais que isolam Israel diplomaticamente. Um ataque a 7 de outubro que aconteceu embaixo do seu nariz — porque ele estava ocupado demais com suas manobras políticas para proteger o país. O fruto é podre. Mas você diz: "Ele é o protetor de Israel."
Qual é o fruto de Bolsonaro? 700 mil mortos na pandemia com ele fazendo piada. Uma tentativa de golpe em 8 de janeiro. Joias desviadas. Vacinas atrasadas. Amazônia queimando. O fruto é podre. Mas você diz: "Ele é o guerreiro do bem contra o comunismo."
Por seus frutos os conhecereis.
O fruto é sangue. O fruto é fome. O fruto é mentira. O fruto é morte de criança.
Você está comendo esse fruto e dizendo que é doce.
Vomite, hipócrita. Vomite agora.
V. A CABALA E O ESPELHO QUEBRADO (Tzimtzum e Shevirat HaKelim)
Na Cabala judaica, há uma história que você, que tanto grita "Israel", nunca ouviu.
No início, Deus preencheu tudo com sua luz. Não havia espaço para o mundo. Então Deus fez o Tzimtzum — a contração. Deus se recolheu para abrir um vazio. Um espaço onde algo diferente de Deus pudesse existir.
Depois, Deus derramou sua luz em vasos especiais para criar o mundo. Mas os vasos eram frágeis demais para conter tanta luz. Eles quebraram — Shevirat HaKelim. Os cacos caíram. E com eles, faíscas da luz divina se espalharam por toda a realidade — inclusive dentro da escuridão, dentro do mal, dentro dos cacos.
A tarefa do ser humano, ensina a Cabala, é reunir as faíscas. É consertar o mundo quebrado. Tikkun Olam.
Você sabe o que significa Tikkun Olam? "Reparar o mundo". É o mandamento central do judaísmo progressista. É a razão de existir do povo judeu — ser "luz para as nações".
Agora me diga:
Onde está o Tikkun Olam quando você apoia Netanyahu demolindo casas palestinas?
Onde está a reunião das faíscas quando você aplaude Trump separando famílias imigrantes?
Onde está o conserto do mundo quando você defende Bolsonaro destruindo a Amazônia — o pulmão do mundo?
Vocês não estão reunindo faíscas. Vocês estão esmagando os cacos nos dentes dos pobres.
Vocês transformaram a Cabala em arma. O Evangelho em escudo. A Torá em justificativa para assassinato.
Vocês não são luz para as nações. Vocês são trevas com estampa de Davi.
VI. OS SALMOS QUE VOCÊ DECORA E NÃO ENTENDE
Você decora o Salmo 23: "O Senhor é meu pastor, nada me faltará."
Mas esquece que o mesmo salmo diz: "Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos."
Inimigos. Não crianças. Não imigrantes. Não índios. Não palestinos. Não pobres. Inimigos — no contexto bíblico, aqueles que te perseguem injustamente.
Uma criança palestina de 5 anos é sua inimiga? Um imigrante haitiano na fronteira do Texas é seu inimigo? Um yanomami com malária é seu inimigo?
Você sabe a resposta. Não precisa dizer em voz alta. A resposta está no silêncio que você faz quando falam dos mortos.
Você decora o Salmo 91: "Mil cairão ao teu lado, dez mil à tua direita, mas tu não serás atingido."
E usa para dizer que Deus protege Trump da bala. Protege Netanyahu do tribunal. Protege Bolsonaro da cadeia.
Mas esquece que o mesmo salmo começa assim: "Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará."
Habitar no esconderijo do Altíssimo significa obedecer aos mandamentos. Significa amar o próximo. Significa justiça. Significa misericórdia.
Você não habita no esconderijo do Altíssimo. Você habita no esconderijo da sua própria hipocrisia. E por isso, quando os mil caírem — os inocentes, as crianças, as mulheres, os idosos de Gaza e da Ucrânia e do Iêmen e da Palestina e da Síria e do Haiti e da Venezuela — você será atingido.
Não pela bala. Pela verdade.
E a verdade dói mais.
VII. O EVANGELHO DO JULGAMENTO: O QUE JESUS REALMENTE DISSE
Vamos direto ao ponto, porque você gosta de citar Jesus quando convém.
Jesus foi perguntado: "Mestre, qual é o maior mandamento?"
Ele respondeu: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração." Até aí, nada novo.
Aí ele continuou: "E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo."
E então ele disse algo que você nunca cita: "Toda a Lei e os Profetas dependem destes dois mandamentos."
Toda a Lei. Toda a Torá. Tudo que Deus pediu. Depende de amar Deus e amar o próximo.
Não depende de patriotismo. Não depende de muros. Não depende de exércitos. Não depende de "Make America Great Again". Não depende de "Brasil acima de tudo". Não depende de "Israel tem o direito de se defender".
Depende de amar o próximo.
Quem é o seu próximo? Jesus respondeu na Parábola do Bom Samaritano (Lucas 10:25-37).
Um homem foi assaltado, espancado, deixado quase morto na estrada. Um sacerdote passou. Viu. Desviou. Um levita passou. Viu. Desviou. Um samaritano — herege, impuro, desprezado — passou. Viu. Teve compaixão. Cuidou dele. Pagou a conta.
Quem era o próximo? O samaritano fez a pergunta certa: não "quem é o meu próximo?" mas "de quem eu posso ser próximo?"
O próximo não é quem merece. O próximo não é quem tem a mesma bandeira. O próximo não é quem fala a mesma língua. O próximo é quem precisa.
A criança imigrante na fronteira precisa. O palestino em Gaza precisa. O yanomami na Amazônia precisa. O pobre na fila do osso em São Paulo precisa. O refugiado sírio em Beirute precisa.
E você desvia. Igual ao sacerdote. Igual ao levita.
Você vê a criança na jaula e diz: "Mas os pais trouxeram."
Você vê a mãe enterrando o filho em Gaza e diz: "Mas o Hamas começou."
Você vê o índio morrendo de fome e diz: "Mas eles estão no caminho do desenvolvimento."
Você não é seguidor de Jesus. Você é o fariseu que Jesus chamou de "sepulcro caiado" — bonito por fora, podre por dentro (Mateus 23:27).
VIII. O PROFETA QUE VOCÊS MATARAM (DE NOVO)
A história se repete porque vocês não aprendem.
Os profetas de Israel — Isaías, Jeremias, Amós, Oséias, Miquéias — foram todos perseguidos. Por quê? Porque denunciavam exatamente o que vocês fazem hoje.
Amós (5:21-24): "Detesto, desprezo as vossas festas... Mas corra o juízo como as águas, e a justiça como um ribeiro impetuoso."
O que Amós estava dizendo? Que Deus não quer culto, não quer cântico, não quer oferta. Deus quer justiça. Quer que o pobre seja tratado como gente. Quer que o órfão e a viúva não sejam esmagados.
Vocês lotam igrejas. Gritam "aleluia". Levantam a mão no culto. Mas na segunda-feira, votam em quem corta bolsa-família. Aplaudem quem chama imigrante de "invasor". Defendem quem chama índio de "bicho".
Isaías (1:15-17): "Quando estenderem as mãos, esconderei de vocês os olhos; mesmo que multipliquem as orações, não as ouvirei. Porque as mãos de vocês estão cheias de sangue! Lavem-se, purifiquem-se, tirem a maldade de seus atos... Busquem a justiça, acabem com a opressão, defendam o órfão, tomem a causa da viúva."
Suas mãos estão cheias de sangue. Você pode lavar com água benta. Pode esfregar com sabão de aleluia. Pode mergulhar na pia batismal. O sangue não sai.
Só sai com arrependimento. Não arrependimento de chorar no culto — arrependimento de mudar o voto. De mudar o apoio. De mudar o discurso.
Mas você não quer. Prefere a mentira confortável. Prefere o "coitado do mito perseguido". Prefere o "Estados Unidos cristão". Prefere o "Israel eterno e inquestionável".
Então guarde o sangue. Ele é seu agora.
IX. O DITADOR QUE VOCÊ BEIJA (Judas 1:16)
A carta de Judas — um livro pequeno, quase esquecido, que você nunca leu — descreve exatamente vocês:
"Estes são murmuradores, queixosos, andando segundo as suas concupiscências; e a sua boca diz coisas muito arrogantes, admirando as pessoas por interesse."
Admirando as pessoas por interesse. É isso.
Você não ama Trump. Ama o que ele te dá — a sensação de poder, de pertencimento, de "estar do lado vencedor". A ilusão de que você também é rico, também é forte, também é "dono do mundo" só porque ele está lá.
Você não ama Netanyahu. Ama o que ele representa — a fantasia de que Israel é invencível, de que os judeus são os escolhidos para dominar, não para servir. A distorção sionista que trocou "Tikkun Olam" por tanques.
Você não ama Bolsonaro. Ama o que ele destrói — o "sistema", a "esquerda", a "velha política". Acha que queimar tudo é solução, porque você tem raiva. E tem raiva porque foi enganado. E foi enganado porque quis.
Você beija a face do ditador esperando que ele te dê um cargo, um like, uma migalha de reconhecimento.
Enquanto isso, as crianças morrem. Os pobres passam fome. A terra queima.
E você está lá. Com a camisa da bandeira. O adesivo no carro. O story no Instagram com a frase "Deus, Pátria, Família".
Família? Cuja família? A sua? Pois a família palestina, a família venezuelana, a família haitiana, a família yanomami, a família síria — essas, você ajuda a destruir.
X. A PARÁBOLA DOS DOIS FILHOS (Lucas 15:11-32)
O filho pródigo. Você conhece.
Um filho pede a herança. Sai. Gasta tudo com farra. Perde tudo. Cai na miséria. Volta para o pai arrependido. O pai corre, abraça, mata o bezerro gordo, faz festa.
O outro filho — o "bonzinho" que ficou em casa — fica indignado. "Nunca me deste um cabrito para festejar com meus amigos, mas quando volta esse seu filho que gastou tudo, você mata o melhor bezerro!"
O pai responde: "Você está sempre comigo. Tudo que é meu é seu. Mas era preciso festejar, porque este seu irmão estava morto e reviveu."
Você é o filho que ficou em casa. O "bom moço". O "cristão fiel". O "eleitor de bem".
Mas você não quer o perdão para ninguém. Você quer o castigo. Quer o inferno para os outros. Quer a cadeia para os adversários. Quer a morte para os inimigos.
Você esqueceu que a parábola é sobre arrependimento e perdão. Não sobre moralismo. Não sobre "nós contra eles".
O pai não perguntou para o filho pródigo: "Você votou em quem?" O pai só viu que o filho estava de volta.
Mas você pergunta. Você separa. Você condena.
E na porta do céu, se ela existir, você será o filho mais velho — olhando de longe a festa dos arrependidos, dos imigrantes, dos palestinos, dos yanomami, dos pobres, dos "comunistas", dos "petralhas", dos "esquerdistas", dos "terroristas".
Todos dentro.
Você do lado de fora.
Porque você nunca aprendeu que o amor não faz distinção. Você só aprendeu a odiar com elegância.
XI. O CHICOTE QUE VOLTA (Gálatas 6:7)
"Não se enganem: de Deus não se zomba. Pois o que o homem semear, isso também colherá."
Você semeou vento. Colherá tempestade.
Semeou divisão. Colherá solidão.
Semeou ódio. Colherá desprezo.
Semeou morte de criança. Colherá o peso que nenhum ombro suporta.
Não é ameaça. É lei. A Bíblia chama de "semeadura e colheita". Os físicos chamam de "causa e efeito". A história chama de "Karma". A Cabala chama de "justiça divina".
Trump está sendo processado. Será condenado? Não sei. Mas a história já o condenou. Seus netos terão vergonha do sobrenome.
Netanyahu está sendo julgado. Será preso? Não sei. Mas os judeus do futuro pedirão desculpas por ele — como pedem desculpas por Bar Kochba, o falso messias que destruiu Israel lutando contra Roma.
Bolsonaro está inelegível. Será preso? Não sei. Mas o Brasil já o jogou na lata de lixo da história — ao lado de Collor, ao lado de Médici, ao lado de todos que acharam que o poder era eterno.
E você? O que você está semeando?
Cada postagem de apoio a assassino. Cada compartilhamento de fake news. Cada vez que você defendeu o indefensável. Cada vez que chamou vítima de "ator". Cada vez que riu da desgraça alheia.
Isso é semente. E vai brotar.
Pode demorar. Mas vai brotar.
E quando brotar, não diga que não avisaram.
XII. O CHAMADO AO VOMITO (APOCALIPSE 3:15-16)
A carta à igreja de Laodiceia é para você:
"Conheço as tuas obras: não és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno — nem frio nem quente — estou a ponto de vomitar você da minha boca."
Você é morno.
Não é ateu — ateu pelo menos questiona. Não é pagão — pagão pelo menos tem coragem de adorar outros deuses. Não é revolucionário — revolucionário pelo menos arrisca a pele.
Você é morno. Vai à igreja no domingo. Vota no monstro na segunda. Diz "Deus é amor" e aplaude o muro. Canta "Aleluia" e justifica a bomba.
Deus está com ânsia de vômito por sua causa.
Não porque você pecou — todos pecam. Mas porque você misturou. Misturou o Santo com o profano. Misturou o Evangelho com o nacionalismo. Misturou a Torá com o apartheid. Misturou a justiça com a vingança.
Você fez um coquetel moral que cheira a enxofre.
E Deus, se existe, está tapando o nariz.
EPÍLOGO: O EVANGELHO DA VERGONHA — SEGUNDO VOCÊ
Você quer saber qual é o verdadeiro "Evangelho da Vergonha"?
Não é o que eu escrevi.
É a sua vida.
Você é o evangelho da vergonha. Cada ato seu é um versículo. Cada voto é um capítulo. Cada silêncio é um salmo.
E o mundo lê você. Seus filhos leem você. Seus vizinhos leem você. A história lerá você.
E vai sentir vergonha.
Não de Trump. Não de Netanyahu. Não de Bolsonaro.
De você.
Porque eles são monstros — isso todo mundo sabe. Mas você é o cúmplice anônimo. O apoiador silencioso. O "eleitor preocupado". O "cristão que ora".
Você lava as mãos como Pilatos. Mas Pilatos pelo menos teve um momento de dúvida. Você nem isso.
Você está certo. Você sempre está certo. Você nunca erra. Você nunca se engana. Você nunca se arrepende.
Essa é a sua vergonha. E ela é eterna.
APÊNDICE: O QUE VOCÊ PODE FAZER AINDA HOJE (SE SOUBER OUVIR)
A Cabala ensina que mesmo a maior escuridão contém faíscas de luz. Mesmo o vaso mais quebrado pode ser reparado. Mesmo o pecado mais grave pode ser redimido — pelo arrependimento verdadeiro.
Arrependimento verdadeiro não é choro. É mudança.
Pare de mentir para si mesmo. Trump não é cristão. Netanyahu não é justo. Bolsonaro não é honesto. Você sabe. Apenas admita.
Pare de chamar o mal de bem. Chame de assassino quem mata criança. Chame de ladrão quem rouba. Chame de corrupto quem vende o país. Sem eufemismo. Sem "mas".
Pare de idolatrar. Você não precisa de um "messias" político. Você precisa de política decente — que é chata, lenta, negociada, imperfeita. O oposto do espetáculo que eles te vendem.
Olhe para as vítimas. Não desvie o olhar. Olhe para a foto da criança morta em Gaza. Olhe para a foto da criança yanomami com os olhos fundos. Olhe para a foto da criança na jaula em Texas. Olhe. Sinta. Chore. Depois, aja.
Mude o voto. Não na próxima eleição. Agora. Mude o apoio. Mude o discurso. Mude o like. Mude o compartilhamento. Mude a camisa. Mude o adesivo do carro.
Peça desculpas. Para um imigrante. Para um palestino. Para um índio. Para um pobre. Para um judeu que luta por justiça em Israel. Para um evangélico que chora ao ver o nome de Cristo manchado. Peça desculpas. Não espere que aceitem. Peça mesmo assim.
Reze. Se você ainda reza. Mas reze de verdade. Não reze "para o mito vencer". Reze "Senhor, tende piedade de mim, pecador". Reze o salmo 51: "Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito reto."
Porque o seu espírito, neste momento, está torto. E só um coração puro — não um voto puro, não uma bandeira pura, não um discurso puro — pode consertar.
AMÉM? AMÉM.
— Uma profecia não de Deus, mas da sua própria consciência, que você abafou por tempo demais
NOTA FINAL:
Este texto não é antissemita. É antinetanyahista. A Cabala citada é de fontes respeitadas do judaísmo progressista — sábios que ensinam que apoiar a ocupação, a corrupção e a desigualdade é violar o Tikkun Olam.
Este texto não é antiamericano. É antitrumpista. O Evangelho citado é aquele que Jesus realmente pregou — o Evangelho dos pobres, dos oprimidos, dos imigrantes, dos refugiados, das crianças. Não o Evangelho da prosperidade, do nacionalismo ou do muro.
Este texto não é antibrasileiro. É antibolsonarista. A Bíblia citada é a que denuncia reis corruptos, profetas falsos e líderes que pisam nos pobres. O Brasil que amamos é o Brasil da democracia, da floresta em pé, dos povos originários vivos. Não o Brasil da motociata, da joia desviada e do "cidadão de bem" armado.
Se você se ofendeu, ótimo. A ofensa é o primeiro passo para a consciência.
Se você concordou, agora é hora de agir.
Se você é um dos apoiadores que leu até aqui — e ainda não sentiu vergonha — então não há mais o que fazer.
Apenas lembre: a história vai contar. E o que ela vai contar não será bonito para você.