SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Diana Pequeno - Engenho de Flores.


Ê, alumiô toda terra e mar
Ê, alumiô toda terra e marEu vi Fortaleza falarEu vi Fortaleza falarAgora que eu quero verSe couro de gente é pra queimarAgora que eu quero verSe couro de gente é pra queimar
Ê, alumiô toda terra e marÊ, alumiô toda terra e marEu vi Fortaleza falarEu vi Fortaleza falarAgora que eu quero verSe couro de gente é pra queimarAgora que eu quero verSe couro de gente é pra queimar
Vou pedir pra São João, Cosme e DamiãoPra nos ajudarVou pedir pra São João, Cosme e DamiãoPra nos ajudar
Quero o apito do engenho de floresChamando pra trabalharQuero o apito do engenho de floresChamando pra trabalhar
Ê, alumiô toda terra e marÊ, alumiô toda terra e marEu vi Fortaleza falarEu vi Fortaleza falarAgora que eu quero verSe couro de gente é pra queimarAgora que eu quero verSe couro de gente é pra queimar
Vou pedir pra São João, Cosme e DamiãoPra nos ajudarVou pedir pra São João, Cosme e DamiãoPra nos ajudar
Quero o apito do engenho de floresChamando pra trabalharQuero o apito do engenho de floresChamando pra trabalhar
Ê, alumiô toda terra e marÊ, alumiô toda terra e marEu vi Fortaleza falarEu vi Fortaleza falarAgora que eu quero verSe couro de gente é pra queimarAgora que eu quero verSe couro de gente é pra queimarAgora que eu quero verSe couro de gente é pra queimarAgora que eu quero verSe couro de gente é pra queimarAgora que eu quero verSe couro de gente é pra queimarAgora que eu quero verSe couro de gente é pra queimarAgora que eu quero verSe couro de gente é pra queimarAgora que eu quero verSe couro de gente é pra queimar

terça-feira, 31 de março de 2026

Vermelho!


Ecocide in Ukraine: The Environmental Cost of Russia‘s War por Darya Tsymbalyuk

 



Sinopse e Contexto

Publicado em 2025 pela Polity Press, Ecocide in Ukraine é uma obra que transcende os limites da análise jurídica ou do levantamento de dados para se tornar um testemunho profundamente pessoal e coletivo sobre a destruição ambiental causada pela invasão russa da Ucrânia . A autora, Darya Tsymbalyuk, é uma pesquisadora ucraniana, atualmente professora assistente no Departamento de Línguas e Literaturas Eslavas da Universidade de Chicago, com doutorado pela Universidade de St Andrews .

O livro recebeu o Prêmio Kovaliv de Não-Ficção em 2025, reconhecimento que atesta sua importância no cenário intelectual contemporâneo . Diferentemente de abordagens que se concentram exclusivamente em dados científicos ou aspectos jurídicos da definição de ecocídio, Tsymbalyuk propõe uma investigação sobre "como as experiências de testemunhar e viver o ecocídio mudam a compreensão que se tem dos ambientes e da própria terra natal" .

A obra foi pesquisada e escrita entre 2023 e 2024, período em que Tsymbalyuk retornou à região sul da Ucrânia — onde viveu metade de sua vida — e que se torna o foco espacial de sua narrativa .

Estrutura e Abordagem Metodológica

O livro está organizado em seis capítulos temáticos, cada um dedicado a um elemento fundamental do mundo natural e da experiência humana: ”Water“ (Água), ”Zemlia“ (Terra/Solo), ”Air“ (Ar), ”Plants“ (Plantas), ”Bodies“ (Corpos) e ”Energy“ (Energia) . Essa estrutura reflete a decisão de Tsymbalyuk de não impor uma narrativa cronológica linear, mas sim explorar as interconexões entre diferentes formas de vida e os ecossistemas que as sustentam.

Um dos aspectos mais distintivos da abordagem de Tsymbalyuk é sua recusa em romantizar o estado ambiental da Ucrânia anterior à invasão. Como observa o geógrafo Alexander Vorbrugg em sua resenha acadêmica, o livro:

"não romantiza o estado dos assuntos ambientais antes das invasões russas de 2014 e da invasão em grande escala de 2022. Ela relembra a longa história de guerras ecocidas e genocidas 'que devastaram as terras da Ucrânia e as vidas de seus diversos habitantes' antes, e a história de negligência e degradação ambiental através de indústrias poluentes, agricultura industrial, barragens e outros grandes projetos de infraestrutura que se aceleraram após a era soviética" .

Essa perspectiva histórica inscreve a destruição atual em um contexto mais amplo de colonialismo extrativista, conectando a guerra contemporânea a um padrão mais antigo de violência contra a terra e seus habitantes.

O livro é notavelmente conciso — cerca de 188 páginas —, mas, como observa uma resenha da ECOS, "sua narrativa contém mais insights e impacto do que muitos volumes mais longos" .

Principais Temas e Citações

1. O Conceito de "Episteme da Morte"

Uma das contribuições conceituais mais originais de Tsymbalyuk é o que ela chama de "episteme da morte" (episteme of death) — um "quadro mórbido de aprender sobre a própria terra natal, quando só descobrimos a existência de alguém ou algo quando eles se foram" .

Este conceito captura uma dimensão fundamental da experiência ucraniana durante a guerra: a descoberta tardia, através da destruição, daquilo que antes se dava como certo. Tsymbalyuk reflete sobre como esse quadro mórbido tornou-se central para sua própria maneira de pesquisar, documentar e se relacionar com os mundos vivos ameaçados pela guerra.

No entanto, a autora aponta uma dimensão paradoxal e até mesmo esperançosa desse fenômeno:

"Enquanto a morte conecta 'tudo e todos' na guerra, a episteme da morte é ao mesmo tempo uma episteme da vida, porque cria novos tipos de atenção a aspectos da vida e à existência de espécies ou partes da natureza que a maioria das pessoas não notava antes" .

Essa formulação sugere que, em meio à catástrofe, emerge uma nova forma de ver, uma sensibilidade aguçada para aquilo que estava invisível.

2. A Destruição da Barragem de Kakhovka como Símbolo

A destruição da Barragem Hidrelétrica de Kakhovka pelas forças russas em junho de 2023 ocupa um lugar central no livro. Este evento, que provocou inundações catastróficas no sul da Ucrânia, é tratado por Tsymbalyuk como um exemplo paradigmático de ecocídio . Mais do que isso, a autora situa a barragem em sua história mais ampla: construída na década de 1950 como parte do "Grande Plano de Transformação da Natureza" de Stalin, sua destruição representa uma violência que se inscreve em uma longa história de modificações brutais do ambiente .

A ironia trágica que Tsymbalyuk sugere é que os ecossistemas ribeirinhos originalmente destruídos pela construção da barragem — conhecidos coletivamente como o Grande Prado (Velykyi Luh) — começaram agora a se recuperar através de processos naturais de rewilding .

3. "Zemlia": Terra, Solo e Existência

O segundo capítulo do livro, intitulado "Zemlia" — palavra ucraniana que significa simultaneamente terra, solo, chão e mundo — explora a dimensão existencial da conexão ucraniana com a terra. Tsymbalyuk escreve:

"Em tempos de guerra, o solo e a terra colocam questões profundamente existenciais. A terra está no centro das experiências de guerra e ocupação. A violência da ocupação, o deslocamento de pessoas e outras espécies, bem como a contaminação e destruição do solo, expõem as conexões vitais entre as pessoas e outras criaturas vivas com a terra como abrigo, lar e mundo vivo" .

A autora observa que a palavra "zemlia" é usada por muitas igrejas ucranianas para designar " 'este mundo terreno', o mundo cheio de tristezas terrenas, em oposição ao 'nebo', os céus que guardam a vida eterna" . Numa guerra que tem assumido dimensões religiosas explícitas para ambos os lados, as múltiplas conotações deste termo tornam-se fundamentais para compreender o que está em jogo.

4. Pão, Holodomor e Memória Cultural

Um dos temas mais poderosos do livro — e que também foi publicado como ensaio independente — é a análise do significado cultural do pão e das tradições agrícolas ucranianas . Tsymbalyuk conecta a destruição russa de instalações de grãos e campos agrícolas à memória traumática do Holodomor, a fome artificialmente criada pelo regime soviético entre 1932 e 1933, que matou milhões de ucranianos.

"Entre as imagens mais icônicas da guerra estão as fotos de instalações de grãos bombardeadas, de pilhas de grãos queimados em preto, ou de campos agrícolas em chamas. Ao queimar grãos, a Rússia não apenas ataca a segurança alimentar global e as empresas agrícolas da Ucrânia — ela também ataca o lugar reverenciado do pão na cultura ucraniana, condicionado não apenas pelas antigas crenças, mas também por experiências anteriores de ser morto pela fome" .

A autora compartilha uma memória profundamente pessoal:

"Minha bisavó Darka costumava contar como, uma vez, a caminho de uma feira, ela dormiu perto de um palheiro e acordou ouvindo estranhos dizerem que iriam comê-la. Eu não sabia o que fazer com essa história quando era pequena. Eu não sabia até aprender sobre o Holodomor" .

Essa conexão entre a destruição atual e o trauma histórico transforma o ataque à infraestrutura agrícola em algo mais profundo: um ataque à memória coletiva e à identidade cultural.

5. Corpos, Animais e Sofrimento Compartilhado

Tsymbalyuk expande sua análise para incluir não apenas os corpos humanos, mas também os corpos animais que compartilham o mesmo território minado, as mesmas inundações e os mesmos bombardeios. O capítulo "Bodies" (Corpos) explora como a guerra revela vulnerabilidades e dependências que são, em certa medida, compartilhadas por humanos e animais expostos às mesmas minas terrestres, foguetes e inundações .

A autora também documenta novas formas de solidariedade e cooperação entre humanos e outros seres vivos que emergem diante dessas ameaças. Há uma sensibilidade ecológica profunda em sua abordagem, que vê a guerra não apenas como uma tragédia humana, mas como uma catástrofe multiespécie.

Um exemplo particularmente comovente é a discussão sobre a perda de tradições como a colheita de cogumelos. Tsymbalyuk explica que essa prática, outrora um ritual querido pelas famílias ucranianas, tornou-se perigosa em partes do norte, leste e sul do país, onde as minas terrestres agora infestam as florestas . Como ela argumenta:

"A coleta de cogumelos era uma maneira de familiarizar-se com a terra e de transmitir tal sabedoria através das gerações. Sem ela, os ucranianos não estão apenas perdendo uma tradição — eles estão perdendo uma conexão com a própria terra, um desenraizamento sutil, mas profundo" .

6. Deslocamento Ambiental e Permanência

Tsymbalyuk oferece uma reflexão sofisticada sobre o conceito de deslocamento. Em uma palestra na Universidade de Wisconsin, ela observou:

"Qualquer experiência de deslocamento também está enraizada no ambiente. Você perde o contato com o lugar de onde está vindo. [...] Mesmo que você permaneça no mesmo lugar, perder o acesso às florestas para colher cogumelos, perder o acesso aos rios onde era seguro nadar — esses são tipos de deslocamento" .

Esta formulação amplia a compreensão do deslocamento para além do movimento físico, incluindo o desenraizamento experienciado por aqueles que permanecem fisicamente no lugar, mas veem seu ambiente transformado pela guerra. É um deslocamento sem migração.

7. Ecocídio, Colonialismo e Responsabilidade Global

Tsymbalyuk também situa a destruição ambiental na Ucrânia dentro de um quadro mais amplo de colonialismo e imperialismo. Ela traça paralelos entre a extração de recursos e grãos sob o Império Russo e a União Soviética e a destruição atual . A noção de "breadbasket" (celeiro) da Ucrânia, que a autora problematiza, tem servido historicamente para justificar hierarquias de extração agrícola e dependência.

O livro também aborda as dimensões globais do ecocídio:

"Não apenas a guerra da Rússia contra a Ucrânia resultou em emissões significativas de gases de efeito estufa... ela também levou a um aumento da militarização global, bem como a um aumento da pegada de carbono dos movimentos de refugiados, mudanças nas rotas de voos internacionais e operações logísticas muito além da Ucrânia" .

Tsymbalyuk argumenta que não se pode abordar a crise climática como uma condição global sem incluir as emissões dos aviões de guerra, foguetes e drones que voam sobre a Ucrânia hoje, e sem uma compreensão mais profunda da relação entre a invasão russa e as mudanças climáticas .

Críticas à Obra

Pontos Fortes

  1. Inovação Metodológica e Conceitual: O maior mérito do livro é sua abordagem original. Ao focar na experiência vivida do ecocídio em vez de se ater estritamente aos aspectos jurídicos ou à catalogação de dados, Tsymbalyuk oferece uma contribuição única para os estudos ambientais e os estudos de guerra. O conceito de "episteme da morte" é uma ferramenta analítica poderosa para compreender como a destruição ambiental altera fundamentalmente a relação de um povo com sua terra.

  2. Escrita Poética e Acessibilidade: Múltiplas resenhas destacam a qualidade literária da prosa de Tsymbalyuk. O geógrafo Alexander Vorbrugg observa: "Nem sempre aprecio estilos artísticos na escrita acadêmica. No entanto, estou impressionado com a poética na escrita de Tsymbalyuk, que adiciona profundidade e, em certo sentido, até clareza à interpretação e análise" . Apesar da complexidade dos temas, o livro permanece acessível a um público geral.

  3. Perspectiva Multiespécie: Ao incluir animais, plantas e ecossistemas como protagonistas de sua narrativa, Tsymbalyuk oferece uma visão verdadeiramente ecológica da guerra. A atenção às vulnerabilidades compartilhadas entre humanos e não-humanos é uma contribuição importante para os estudos críticos de guerra e ambiente.

  4. Contextualização Histórica: A decisão de não romantizar o passado ambiental da Ucrânia, reconhecendo as continuidades entre a degradação soviética e a destruição atual, confere ao livro uma honestidade intelectual rara. Tsymbalyuk inscreve a guerra contemporânea em uma história mais longa de colonialismo extrativista.

  5. Testemunho Distribuído: A autora não se coloca como uma testemunha solitária, mas tece uma narrativa que incorpora as vozes de cientistas, artistas, ambientalistas, residentes, soldados e trabalhadores de resgate. O resultado é um relato multifacetado que reconhece a impossibilidade de capturar a totalidade da experiência da guerra .

Críticas Possíveis

  1. Escopo Geográfico Focado no Sul: Embora o livro ofereça um retrato abrangente de muitos aspectos da destruição ambiental, seu foco espacial é predominantemente o sul da Ucrânia, particularmente a região de Mykolaiv e o oblast de Dnipropetrovsk . Regiões como o leste do país, igualmente afetadas pela guerra, recebem menos atenção.

  2. Ausência de Análise Jurídica Aprofundada: Como Tsymbalyuk declara explicitamente, sua intenção não era produzir um estudo jurídico sobre o ecocídio. No entanto, para leitores interessados nas dimensões legais — como o processo de definição do ecocídio como crime internacional ou as implicações para reparações de guerra — o livro pode deixar lacunas .

  3. Tensão entre Testemunho e Análise: A natureza profundamente pessoal e emocional da narrativa pode, para alguns leitores, levantar questões sobre a distância crítica necessária para uma análise acadêmica. Tsymbalyuk escreve como alguém cuja terra natal está sendo destruída, e essa posicionalidade é ao mesmo tempo a força do livro e um possível limite para aqueles que buscam uma análise mais "objetiva".

  4. Questões Não Respondidas: O livro levanta questões fascinantes — como a pergunta sobre o que um pássaro voando sobre terras devastadas pela guerra percebe, ou o que um piloto militar que lança as bombas vê — sem oferecer respostas definitivas. Para alguns leitores, essa abertura pode ser frustrante; para outros, é precisamente o que torna o livro tão poderoso .

  5. Atualização Constante Necessária: Como a guerra continua, qualquer livro sobre o tema corre o risco de se tornar datado rapidamente. Tsymbalyuk reconhece que seu relato permanece "necessariamente inacabado", o que é honesto, mas pode deixar os leitores buscando uma atualização sobre os desenvolvimentos mais recentes .

Conclusão

Ecocide in Ukraine representa uma contribuição monumental para a literatura sobre a guerra na Ucrânia e para os estudos ambientais de forma mais ampla. Como observa uma resenha do Kyiv Independent:

"A guerra da Rússia contra a Ucrânia não é apenas uma guerra contra seu povo — é uma guerra contra a memória, a terra e o direito de lamentar com dignidade. O livro de Tsymbalyuk é uma obra monumental que insiste que o mundo deve levar em conta o custo dessa destruição — não apenas em hectares perdidos ou toneladas de grãos queimados, mas nas raízes cortadas que outrora uniam gerações à terra que chamavam de lar" .

A originalidade do livro reside em sua capacidade de combinar rigor acadêmico com profundidade emocional, análise conceitual com testemunho pessoal, e consciência histórica com urgência contemporânea. Tsymbalyuk nos lembra que o ecocídio não é um dano colateral da guerra, mas uma estratégia de apagamento — uma tentativa de destruir não apenas corpos e infraestruturas, mas também as conexões que tornam possível uma vida significativa em um lugar.

A frase final de uma resenha captura a urgência do projeto:

"Ler este livro é entender que o ecocídio não é apenas um dano colateral, mas uma estratégia de apagamento. E se falharmos em nomeá-lo, testemunhá-lo e resistir a ele, o horror que sobrevive ao corpo virá para todos nós" .

Em um momento em que os impactos ambientais da guerra continuam a se desdobrar e as consequências globais se fazem sentir — desde a segurança alimentar até as emissões de carbono —, a obra de Tsymbalyuk se estabelece como um marco indispensável para compreender o que significa viver, testemunhar e resistir em meio à catástrofe ambiental provocada pela guerra.

Night Flyer: Harriet Tubman and the Faith Dreams of a Free People

 


Publicado em junho de 2024 pela Penguin Press, Night Flyer é o primeiro volume da série "Significations", um megaprojeto intelectual liderado por Henry Louis Gates Jr. que reúne autores contemporâneos para analisar a vida e o significado de figuras da cultura negra sob uma ótica moderna . A obra chega precedida pela reputação de sua autora, Tiya Miles, historiadora da Universidade de Harvard, MacArthur Fellow e vencedora do National Book Award por seu livro anterior, All That She Carried .

O grande diferencial de Night Flyer está em sua proposta metodológica. Miles não pretendeu escrever mais uma biografia tradicional de Harriet Tubman — figura que já foi exaustivamente documentada por autoras como Kate Larson e Catherine Clinton . Em vez disso, ela construiu o que denomina uma "biografia espiritual" ou "narrativa eco-espiritual", focada em dois pilares fundamentais da experiência de Tubman que haviam sido negligenciados pela historiografia convencional: sua fé cristã profunda e sua relação íntima com o mundo natural .

Como a própria autora revela, sua intenção inicial era escrever uma biografia de viés ambiental, explorando a consciência ecológica dos escravizados. No entanto, ao revisitar as fontes primárias — os relatos de vida registrados por abolicionistas brancas no final do século XIX —, Miles foi "derrubada" pela centralidade da espiritualidade na vida de Tubman. "Se há uma coisa que podemos realmente saber sobre Tubman, é que ela era uma mulher de fé profunda", afirma a autora .

Estrutura e Abordagem Metodológica

O livro está organizado em torno de elementos simbólicos que orientaram a trajetória de Tubman: a água, as estrelas, o deserto, os sonhos, o voo, a libertação e o cuidado . Essa estrutura poética reflete a decisão de Miles de não impor uma narrativa cronológica rígida, mas sim seguir os contornos temáticos da própria experiência de sua protagonista.

Uma das estratégias mais inovadoras de Miles é situar Tubman dentro de uma "cultura de fé feminina negra" mais ampla . Ao longo do livro, ela estabelece paralelos entre a experiência de Tubman e os relatos espirituais de outras mulheres negras evangelistas da época — Old Elizabeth, Jarena Lee, Zilpha Elaw e Julia Foote — todas nascidas na escravidão, todas portadoras de algum tipo de sofrimento físico que catalisou suas experiências espirituais, e todas chamadas por Deus para pregar e agir contra a opressão . Essa abordagem permite a Miles combater a representação isolada e "mágica" de Tubman que prevalece no imaginário popular, mostrando que ela pertencia a uma tradição coletiva de resistência feminina negra.

Miles também enfrenta honestamente o desafio metodológico imposto pelo analfabetismo de Tubman. Como ela observa, todas as fontes disponíveis são "fontes alagadas" — registros produzidos por mulheres brancas abolicionistas que, apesar de bem-intencionadas, "não podiam contar a história de Tubman com a plenitude, clareza e profundidade filosófica que Tubman teria se a tivesse escrito ela mesma" . A autora opta por não ignorar essa mediação, mas sim por trabalhar com ela criticamente, reconhecendo as limitações do arquivo enquanto extrai dele o que é possível saber sobre a interioridade de sua protagonista.

Principais Temas e Citações

1. A Infância e as Origens da Fé

Miles dedica atenção significativa aos primeiros anos de Tubman, nascida como Araminta "Minty" Ross em 1822, em Dorchester County, Maryland, filha de Harriet "Rit" Green e Ben Ross, ambos escravizados em plantações vizinhas . A autora pinta um quadro comovente das experiências formativas de Minty: desde os quatro ou cinco anos, ela foi "alugada" para trabalhar em outras propriedades, separada de sua mãe, submetida a condições brutais .

"Quando ela era enviada para longe, Minty orava. Na segunda casa para onde foi enviada como trabalhadora infantil forçada, ela estava aterrorizada de estar naquela casa grande com pessoas brancas, até mesmo de aceitar um copo de leite que lhe ofereciam. Em vez de aceitar o leite — mesmo estando com sede — ela se escondia na arquitetura da casa e orava" .

Essas experiências precoces de separação e vulnerabilidade, argumenta Miles, não apenas forjaram o caráter de Tubman, mas também estabeleceram o padrão de sua relação com Deus como um refúgio constante . Seus pais, ambos cristãos devotos, foram modelos nesse processo, ministrando a ela ensinamentos sobre uma relação com Deus que ajudava a discernir o certo do errado .

2. O Trauma e a Transformação Espiritual

O evento central da juventude de Tubman — e um dos pontos mais discutidos por Miles — foi o traumatismo craniano sofrido na adolescência. Enquanto acompanhava uma cozinheira a uma loja, Tubman testemunhou um feitor perseguir um menino escravizado. Quando o feitor atirou um peso de duas libras em direção ao menino, Tubman instintivamente interpôs-se e foi atingida na cabeça, fraturando o crânio .

As sequelas foram permanentes: desmaios súbitos, dores de cabeça intensas e episódios de narcolepsia que os médicos da época não conseguiam explicar. Sintomas consistentes com o diagnóstico moderno de epilepsia do lobo temporal . No entanto, em vez de interpretar essa condição apenas como uma deficiência debilitante, Miles mostra como ela "supercarregou sua vida espiritual" .

A "capacidade física diminuída coincidiu com 'antenas espirituais' extremamente afinadas" .

Tubman passou a ter visões, sonhos proféticos e conversas com Deus que, para ela, eram tão reais quanto o mundo físico. Em um dos episódios mais notáveis, ela sonhou que voava "sobre campos, cidades, rios e montanhas, olhando para eles como um pássaro" — um sonho que prefigurava com precisão as paisagens geográficas de Maryland que ela ainda não havia visto fisicamente . Essa experiência de "voar" à noite — que inspirou o título do livro — tornou-se uma metáfora central para sua existência como condutora da Underground Railroad.

Miles estabelece um paralelo crucial com outras mulheres negras da época: Zilpha Elaw sobreviveu milagrosamente a uma queda que resultou em sua capacidade de ter conversas diretas com Deus; Julia Foote perdeu um olho, o que a levou a um "lugar secreto de oração" e à conversão espiritual profunda . Em todas essas trajetórias, o sofrimento físico não é negado ou romantizado, mas compreendido como um terreno no qual a experiência espiritual floresce.

3. A Oração como Ação Política

Um dos episódios mais contundentes narrados por Miles envolve a oração de Tubman pelo proprietário que planejava vendê-la. Edward Brodess, doente e impaciente com a recuperação de Tubman após sua lesão, decidiu vendê-la para o sul, o que significava separação definitiva de sua família .

Tubman, segundo seu próprio relato registrado por Sarah Bradford, inicialmente orou pela conversão de Brodess:

"Eu não fazia nada além de orar pelo velho patrão. 'Oh, Senhor, converta o velho patrão. Mude o coração daquele homem e faça dele um cristão.' Logo ouvi que, assim que eu pudesse me mover, eu seria enviada com meus irmãos na corrente de grilhões para o extremo sul. Então mudei minha oração, e disse: 'Senhor, se você nunca vai mudar o coração daquele homem, mate-o, Senhor, e tire-o do caminho...' A próxima coisa que soube foi que ouvi que ele estava morto" .

Edward Brodess morreu em 7 de março de 1849, aos 47 anos . Para Tubman, esse evento não foi uma coincidência, mas uma resposta divina que consolidou sua crença na eficácia da oração e em seu papel como instrumento da vontade de Deus. Miles trata esse episódio com a delicadeza que ele exige, recusando-se a reduzi-lo a "magia" ou a explicá-lo inteiramente — deixando em aberto a questão que ela mesma formula: "se a morte de Brodess foi a vontade de Deus ou o cumprimento de uma maldição" .

4. A "Pragmática Luminosa": Fé e Conhecimento do Mundo Natural

Uma das contribuições conceituais mais originais de Miles é o termo "pragmática luminosa" (luminous pragmatism), que captura a dupla natureza da ação de Tubman .

A "luminosidade" refere-se à dimensão espiritual: a sensação de luz, de elevação acima das circunstâncias, a comunicação direta com Deus que guiava suas decisões. A "pragmática" refere-se à competência terrena: a capacidade de ler paisagens, encontrar água e alimento, entender para onde as trilhas e estradas levavam, navegar pelos pântanos e florestas .

Miles atribui essa competência ecológica à formação de Tubman com seu pai, Ben Ross. Após obter sua liberdade em 1840, Ben contratou sua filha adolescente para trabalhar em sua equipe de extração de madeira . Foi nesse contexto que Araminta absorveu:

"novas informações sobre árvores, plantas, clima e comportamento animal, enquanto aprimorava suas habilidades de leitura de paisagens e pessoas" .

Para Tubman, a floresta não era apenas um espaço de fuga, mas um "refúgio espiritual" — um lugar onde "ela podia se sentir mais livre" . Essa conexão com a natureza era também uma rejeição ao trabalho doméstico, que a fazia sentir-se "sufocada, tolhida e tratada com condescendência" .

5. A Minoria na Underground Railroad

Miles enfrenta a dimensão mais lendária da vida de Tubman — seus 13 retornos ao Sul para libertar aproximadamente 70 pessoas — com um olhar que combina admiração e honestidade intelectual. Ela reconhece que as fontes disponíveis não permitem explicar completamente como Tubman conseguiu nunca perder uma única pessoa sob sua condução .

Em um episódio particularmente tenso, Tubman e seu grupo perceberam que caçadores estavam diretamente em seu rastro. Sua resposta imediata foi ordenar uma pausa para oração. Depois de ouvir, ela se lembrou subitamente de um local próximo onde poderiam se esconder . Para Miles, esses momentos revelam:

"não apenas quão potente era sua vida interior com Deus, mas também que ela estava trazendo outras pessoas para essa vida interior, mostrando-lhes nesses momentos de perigo máximo: 'Devemos nos voltar para Deus, e haverá proteção, e haverá ajuda'" .

A historiadora admite francamente sua dificuldade com esse aspecto da narrativa:

"Como historiadora, eu luto com isso. Como tudo isso pôde acontecer? Não fazia sentido. […] Eu nunca consegui encontrar uma maneira de perfurar o mistério do que ela fez. Só posso dizer que ela disse que era de Deus, e ela nunca perdeu uma única pessoa que estava trabalhando para ajudar a libertar" .

Ao optar por "deixar que o mistério permaneça como mistério" , Miles faz uma escolha metodológica significativa: ela recusa a tentação de desencantar a narrativa ou de reduzir a experiência religiosa de Tubman a um fenômeno sociológico explicável. Essa decisão tem sido interpretada por alguns críticos como uma recusa em classificar a experiência de Tubman como meramente "mágica", mantendo-a em sua especificidade histórica e religiosa .

6. A "Mulher Obeah" e a Tradição Afro-Diaspórica

A análise de Miles também incorpora as dimensões sincréticas da espiritualidade de Tubman, que combinava convicção cristã com elementos de tradições religiosas da África Ocidental e nativas americanas . A autora sugere que Tubman pode ser compreendida, em certa medida, como uma "mulher obeah" — praticante de sistemas espirituais crioulos que incluíam o uso de raízes encantadas, saquinhos de terra e outros materiais sagrados como formas de proteção .

Essa tradição, praticada por povos escravizados como forma de resistência à opressão, incluía também o conhecimento de medicina herbal — que Tubman utilizaria mais tarde como enfermeira durante a Guerra Civil, cuidando de soldados negros feridos . Ao trazer essa dimensão à tona, Miles inscreve Tubman em uma linhagem espiritual que transcende o cristianismo institucional sem negar sua identidade cristã fundamental.

7. A Vida Após a Guerra: Cuidado e Comunidade

A narrativa de Miles não termina com a Guerra Civil ou com os feitos heroicos da Underground Railroad. Ela dedica atenção significativa à vida posterior de Tubman, um período frequentemente ofuscado pela fama de suas missões de libertação.

Após a guerra, Tubman estabeleceu-se em Auburn, Nova York, em terras que conseguiu adquirir. Lá, construiu uma casa para acolher idosos negros necessitados — um ato que muitos contemporâneos consideravam "irracional", dada sua própria pobreza . Miles enfatiza que, mesmo nessa fase:

"Tubman nunca estava sozinha. Eles faziam parte de seu círculo de cuidado. Traziam-lhe comida e dinheiro e ajudavam a realizar sua visão" .

A autora também reflete sobre a famosa fotografia de Tubman em idade avançada — uma mulher idosa coberta por um xale, sentada em uma cadeira. Longe de ser uma imagem de fragilidade passiva, Miles interpreta essa fotografia como um documento de "autoposse":

"Uma leitura positiva é que Tubman viveu até uma idade muito avançada, uma mulher muito sábia. Ela está estabelecida e clara sobre si mesma. […] O que não vemos é que ela está sendo fotografada em terras que possui, em frente a uma casa que construiu para cuidar de idosos negros" .

Críticas à Obra

Pontos Fortes

  1. Inovação Metodológica: O grande mérito de Night Flyer é escapar da armadilha de simplesmente repetir os fatos já conhecidos sobre Tubman. Ao construir uma "biografia espiritual" e situar Tubman dentro de uma tradição coletiva de mulheres negras de fé, Miles oferece uma contribuição original que dialoga com os estudos de gênero, religião afro-americana e história ambiental .

  2. Humanização da Figura Lendária: Miles consegue o que poucos biógrafos lograram: trazer Tubman de volta à terra sem diminuir sua grandeza. Ao enfatizar suas vulnerabilidades — a solidão da infância, as sequelas do traumatismo, as dificuldades econômicas, a exaustão —, ela nos apresenta uma figura acessível, cujas conquistas se tornam ainda mais impressionantes porque sabemos o preço que custaram .

  3. Abordagem Interdisciplinar: A combinação de história, estudos ecológicos, análise literária dos relatos de mulheres evangelistas e reflexão teológica faz de Night Flyer um modelo do que os estudos negros podem oferecer quando transitam entre disciplinas .

  4. Tratamento da Espiritualidade sem Reducionismo: Em um meio acadêmico frequentemente cético em relação à experiência religiosa, Miles oferece um modelo de como levar a sério a fé de uma figura histórica sem reduzi-la a epifenômeno social ou psicológico. Ao declarar que "deixou o mistério permanecer", ela honra a integridade da experiência religiosa de Tubman .

  5. Relevância Contemporânea: Como Miles mesma observa, o livro parece "falar ao nosso momento" . Ao retratar uma figura que enfrentou a opressão sistêmica, o colapso de estruturas de proteção e a necessidade de construir comunidades de cuidado, Night Flyer oferece um modelo de resistência e perseverança para um presente marcado por crises múltiplas.

Críticas Possíveis

  1. A Questão das Fontes: Alguns críticos apontam que a dependência de Miles das biografias escritas por mulheres brancas abolicionistas (como Sarah Bradford) coloca um limite inescapável em sua análise. Embora ela reconheça esse problema abertamente, não é possível transcendê-lo completamente — e o leitor fica, em última instância, refém da mediação dessas fontes .

  2. Tensão entre Fé e Análise Histórica: Para leitores secularizados ou céticos em relação à experiência religiosa, a decisão de Miles de não "perfurar o mistério" pode parecer uma evasão analítica. Um crítico mais empirista poderia argumentar que cabe ao historiador buscar explicações naturais para fenômenos como os sucessos de Tubman na Underground Railroad, em vez de deixá-los como "mistérios" inexplicáveis.

  3. Generalização da Categoria "Mulher de Fé": Embora a contextualização de Tubman entre outras mulheres negras evangelistas seja uma contribuição importante, alguns podem questionar se a fé de Tubman — com seus elementos sincréticos, suas visões e sua relação com a natureza — é inteiramente capturada pela tradição do evangelismo feminino negro do século XIX.

  4. Ausência de Análise Crítica da Teologia de Tubman: Miles descreve a fé de Tubman com simpatia, mas não se engaja criticamente com suas dimensões teológicas — por exemplo, a oração pela morte de Brodess levanta questões sobre violência e justiça que poderiam ter sido exploradas mais profundamente.

  5. Estrutura Temática vs. Cronológica: A organização do livro em torno de temas poéticos (a água, as estrelas, o deserto) pode, para alguns leitores, dificultar o acompanhamento da sequência cronológica dos eventos. Embora isso sirva ao propósito de uma "biografia espiritual", pode frustrar quem busca uma narrativa linear.

Conclusão

Night Flyer representa uma contribuição significativa para a vasta bibliografia sobre Harriet Tubman, não porque revela novos fatos sobre sua vida, mas porque oferece uma nova lente através da qual compreendê-la. Ao colocar a fé — em suas dimensões cristãs, sincréticas, ecológicas e comunitárias — no centro da análise, Tiya Miles nos apresenta uma Tubman mais humana e, paradoxalmente, mais extraordinária.

A autora resume sua intenção de forma pungente:

"Tentei segurar Harriet Tubman — com ternura e honestidade — em seu gênio, coragem, vulnerabilidade, fé e falhas. E aqui, no final, liberto sua história de volta para o poço mundial de mulheres sábias, sabendo que ela não tolerará nosso escrutínio por muito tempo" .

Essa passagem captura algo essencial sobre o projeto de Miles: ela não pretende fixar Tubman em um retrato definitivo, mas sim oferecer uma interpretação que reconhece a resistência de sua protagonista a ser completamente capturada pelo olhar histórico.

A pergunta que Miles coloca no início — por que Tubman fazia o que fazia? — recebe uma resposta que desafia tanto a historiografia secular quanto a hagiografia religiosa: Tubman agia porque acreditava que Deus a guiava, porque conhecia a paisagem como poucos, porque pertencia a uma tradição de mulheres negras que transformaram sofrimento em resistência, e porque, acima de tudo, escolhia não agir sozinha. Em um momento de crises múltiplas — ambientais, políticas, sociais —, essa lição sobre a combinação de fé radical, conhecimento do mundo e comunidade de cuidado ressoa como um convite urgente.

Como observou a crítica do BookPage: "Com Night Flyer, Tiya Miles parece transmitir o peso da mão e do coração de sua protagonista" . É essa transmissão — que ultrapassa a informação factual para alcançar uma forma de presença — que faz deste livro uma leitura indispensável não apenas para interessados em Harriet Tubman, mas para todos que buscam compreender como a fé, a resistência e o cuidado podem coexistir em um mesmo modo de estar no mundo.