Parte I: O Canto da Terra Unida
No crepúsculo que antecedeu a tempestade, quando os ventos do norte começaram a soprar com fúria renovada, havia um murmúrio que percorria a espinha dorsal do continente. Era a voz antiga e sempre nova de uma América que se recusava a ser apartada.
No intervalo do espetáculo mais assistido do mundo, quando as luzes do Super Bowl se apagaram por um instante, um porto-riquenho de vestes brancas ergueu seu canto. Bad Bunny não era apenas um artista; era a encarnação de um sonho bolivariano, aquele que Simón Bolívar visionara em sua Carta da Jamaica, quando escreveu sobre fazer da América a rainha das nações, mãe de repúblicas e de povos. O reggaeton se fez hino e a ideia de uma única América, do Norte, Central e do Sul, pulsou no peito de milhões .
Mas do norte descia a serpente de escamas listradas. Donald Trump, em sua segunda vinda de ferro e fogo, ordenava que o ICE estendesse seus tentáculos. A Estátua da Liberdade, aquela que deveria acolher os cansados e pobres de outras terras, via sua tocha se apagar diante dos fornos da xenofobia. Não contente em erguer muros físicos, Trump declarava guerra à própria ideia de América. Impunha tarifas a quem ousasse vender petróleo a Cuba, chamando a ilha de "ameaça incomum e extraordinária". Para ele, a resistência não era um ato político, era uma afronta existencial .
Parte II: As Veias que Ainda Sangram
Para entender a teimosia dos povos americanos em sobreviver, era preciso escavar fundo, como fazia o velho Solimán, personagem saído das páginas de Texaco de Patrick Chamoiseau. Ele dizia que a memória era um cais onde atracavam todos os navios negreiros. Na Martinica, ele via o mesmo mar que banhava Havana e Cartagena, o mesmo oceano que engoliu milhões e que agora via passar novos navios: os de carga dos tratados de livre comércio, que levavam a riqueza e deixavam a miséria.
Era a lógica descrita por Eduardo Galeano em As Veias Abertas da América Latina: a prata de Potosí que virou colar europeu, o açúcar do Nordeste que adocicava a Inglaterra, o petróleo venezuelano que movia os carros estadunidenses. Uma hemorragia que durava séculos.
No México, a menina Alfonsina, personagem de Rosario Castellanos em Balún Canán, parecia sussurrar ao vento as histórias de seus antepassados maias. Ela sabia que a terra não se vende, a terra se defende. E enquanto Trump ameaçava tarifas e militarizava a fronteira, os povos originários do México se levantavam novamente, lembrando que a primeira resistência foi deles, contra Hernán Cortés, e que não seria um magnate de Nova York que os dobraria .
Parte III: O Recurso da Resistência
Num palácio em ruínas da Havana Velha, o Primeiro Magistrado imaginário de Alejo Carpentier, em O Recurso do Método, caminhava entre colunas quebradas e sonhos desfeitos. Ele representava todos os ditadores que a América conheceu, empurrados e sustentados pelas potências de fora. Mas Cuba era diferente. Cuba era a retaguarda estratégica, o símbolo que o império precisava destruir .
"Não é pelo que Cuba faz", explicava um professor da Universidade de Havana, "mas pelo que Cuba é" . E o que Cuba era, desde 1959, era a prova viva de que era possível dizer não. O bloqueio de mais de sessenta anos não era apenas uma sanção; era uma confissão de fracasso. Enquanto Cuba resistisse, a chama da dignidade continental não se apagava.
Na Venezuela, a história parecia repetir-se. O governo Trump, que já tentara derrubar Maduro em 2019, agora sequestrava o presidente e sua companheira num ato de pirataria estatal . O objetivo era liquidar as pendências, quebrar a linha de base da resistência anti-imperialista. Mas em Caracas, nas ruas de Petare e Catia, o povo sabia que a era das intervenções da CIA, que haviam patrocinado o golpe na Guatemala em 1954, no Brasil em 1964, no Chile em 1973, não poderia ser repetida impunemente .
Parte IV: As Vitórias do Sul
Contra todas as previsões, a América Latina aprendeu a dançar conforme a música sem perder o passo. Na Colômbia, Gustavo Petro, outrora guerrilheiro, agora presidente, lembrava-se das palavras de Bolívar: "A união dos povos não é uma quimera, é uma necessidade". Quando Trump ameaçou, Petro respondeu com a dignidade de quem sabe que sua nação é feita de sangue de índios, negros e espanhóis, e que nenhum império pode reivindicar posse sobre essa mistura sagrada .
No México, Claudia Sheinbaum, cientista e mulher, ocupava o palácio nacional com a força dos que aprenderam que a história a que temos direito é a história que fazemos. Diante das provocações de Trump, ela não recuou. O México não era mais o quintal dos Estados Unidos; era a porta de entrada de uma nova América, orgulhosa de seu passado asteca e maia .
E no Brasil, Lula emergia das entranhas da ditadura que a CIA ajudara a instalar, para mostrar que o Brasil não era apenas um país do futuro, mas um país do presente . Quando Trump investiu contra a soberania alheia, o Itamaraty falou a língua da firmeza cortês, lembrando que a América do Sul não aceita protetorados.
Na Bolívia, Evo Morales e Luis Arce, filhos de Aymara, reconstruíam o Estado a partir da imagem e semelhança dos povos originários, provando que a democracia podia ter rosto indígena. A tentativa de golpe de 2019, que expulsou Evo, foi derrotada nas urnas pela vontade popular .
Parte V: A Confluência das Águas e das Memórias
E foi então que todos os personagens se encontraram numa praça imaginária da América.
Chegou Marie-Sophie Laborieux, a narradora de Texaco, trazendo na bagagem os cacos da cidade que construiu com as próprias mãos, lutando contra o prefeito que queria urbanizar sua alma. Ela olhou para os arranha-céus de Miami e disse: "Eles têm o aço, mas nós temos a seiva".
Chegou Alfonsina, de Balún Canán, já crescida, trazendo a memória dos índios despossuídos de Chiapas, e entregou a bandeira do México a Claudia Sheinbaum, sussurrando: "A terra não se negocia".
Chegou o Primeiro Magistrado de Carpentier, despido de seu fardão, transformado agora num velho sábio que caminhava por Havana e via, nos olhos das crianças, a certeza de que o bloqueio era apenas um muro de vento.
Junto a eles, desfilaram os mortos e os vivos: Francisco de Miranda com sua espada rota; Tupac Amaru com seus membros estirados mas o coração intacto; Zumbi dos Palmares espreitando da serra; Fidel Castro com seu fuzil transformado em pena; José Martí, que havia avisado: "Vivi no monstro e conheço suas entranhas".
Epílogo: A América que Venceu
E quando os tanques de Trump pararam na fronteira do Rio Grande, encontraram um exército que não era de soldados, mas de poetas, camponeses, operários, índios e negros. Encontraram uma América que lia As Veias Abertas e aprendera a estancar o sangue com as próprias mãos. Encontraram uma ideia que não se pode bombardear: a ideia de que somos um povo só, mestiço e rebelde, que canta no Super Bowl, que resiste no bloqueio, que vence nas urnas e que, nas palavras de Chamoiseau, constrói a cidade de Texaco todos os dias, com o suor do rosto e a esperança no coração.
Viva América, a que resiste. Viva América, a que luta. Viva América, a que é una e diversa, livre e soberana, desde as geleiras do Alasca até os pampas da Patagônia.
"Pátria é a América", disseram Bolívar e Martí. E a pátria, finalmente, estava salva.