SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sábado, 23 de maio de 2026

'Panamá não é um país inventado pelos EUA para construir um canal'

 

Uma torcedora do Panamá exibe uma bandeira pintada na bochecha antes de uma partida amistosa internacional entre Panamá e México, no Estádio Rommel Fernández, em 22 de janeiro de 2026, na Cidade do Panamá, Panamá

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,As novelas panamenhas de Juan David Morgan também apresentam uma reflexão sobre a identidade nacional.
    • Author,Leire Ventas
    • Role,BBC News Mundo @Centroamérica Cuenta
  • Published
  • Tempo de leitura: 10 min

Juan David Morgan (David, Panamá, 1942) gosta de dizer que escreve histórias romanceadas, mais do que romances históricos.

"Porque 90% dos personagens e dos fatos que relato nelas são reais", justifica o escritor e advogado panamenho.

Em 'La rebelión infinita', sua obra mais recente, ele também quase não precisou recorrer à ficção.

Por meio de protagonistas que parecem saídos de uma fábula, ele narra a trama de conspirações e interesses cruzados que deram origem à Rebelião Guna, também conhecida como Rebelião Tule.

A revolta levou, há um século, à proclamação da República de Tule, um Estado soberano que, embora efêmero, lançou as bases para a autonomia indígena na América Latina.

Mas, além de ser uma tentativa de reconhecer a dívida do Panamá com os povos originários, 'La rebelión infinita' também pode ser lido como uma exploração da identidade nacional. Uma identidade que, segundo o autor — cuja vasta obra inclui o reconhecido "Con ardientes fulgores de gloria" — sempre esteve em disputa.

O escritor panamenho Juan David Morgan, vestido com uma camisa azul, sentado diante de uma pilha de livros de sua autoria.

Crédito,Cortesia de Juan David Morgan

Legenda da foto,O escritor Juan David Morgan.

O senhor escreve majoritariamente romances históricos. Por que decidiu se especializar nesse gênero?

Entre um amigo dramaturgo e eu, que já havia publicado um romance relacionado à separação entre Panamá e Colômbia, estávamos pesquisando para uma peça de teatro sobre Varilla, um personagem muito importante na história do Panamá — um francês que assinou o tratado original do Canal.

[O engenheiro e militar Philippe Bunau-Varilla representou o Panamá nas negociações que resultaram no Tratado Hay-Bunau-Varilla, de 1903, que concedia o canal e sua zona adjacente aos EUA de forma perpétua. O acordo foi revogado 74 anos depois pelos Tratados Torrijos-Carter.]

Ao estudá-lo, percebi que eu, que havia sido um bom aluno, sabia muito pouco sobre a história da separação entre Panamá e Colômbia.

Isso me levou a me inclinar para o gênero do romance histórico, para ensinar aos panamenhos, de uma forma mais agradável, a história do próprio país.

Embora eu chame isso de história romanceada, porque mais de 90% dos personagens das minhas obras ambientadas no Panamá — e dos fatos que relato — são reais.

Seu mais recente romance histórico, 'La rebelión infinita', trata de uma revolta indígena que aconteceu no seu país há 100 anos e ficou conhecida como Revolução Tule ou Revolução Guna. Quão relevante foi essa revolta para a história recente do Panamá?

Ela é importante para uma parte da história atual do Panamá. Explico:

Os gunas, originários do arquipélago de San Blas — embora hoje metade dos cerca de 100 mil que restam viva em áreas urbanas — são um povo originário muito interessante, com características especiais.

Em 1925, eles se rebelaram contra o governo da época porque o Estado tentava mudar suas tradições e costumes de maneira forçada.

Como resultado, conquistaram uma comarca autônoma, onde eles próprios administram determinados assuntos, sobretudo ligados ao governo cotidiano. Isso também beneficiou outros povos originários, como os ngobe buglé e os emberá.

Portanto, foi um episódio importante para a história dos povos originários — justamente onde se concentra 90% da pobreza extrema existente no país.

No epílogo, o senhor afirma que os gunas são "reconhecidos mundialmente como um dos povos originários mais progressistas e democráticos das Américas". O que podemos aprender com a forma como eles se organizam e governam?

Eles são profundamente democráticos, sim. Têm seus sahilas, como chamam seus chefes, que são a autoridade de cada ilha que administram.

Mas, quando se trata de tomar decisões que afetam toda a comunidade, eles se reúnem em conselhos políticos. E ali as decisões são tomadas de maneira totalmente democrática.

Além disso, têm uma característica muito rara entre povos originários: quem manda e é dona dos bens é a mulher. Quando se casam, é o marido guna que precisa ir morar na casa do sogro e trabalhar para ele.

Na maioria dos povos originários — e também em muitas sociedades que não são indígenas — as mulheres costumam ser relegadas a um papel secundário. Por isso, para mim, era muito importante destacar essa característica no romance.


Cinco indígenas gunas, vestidos com seus trajes tradicionais, sentados na Praça da Independência, no centro histórico da Cidade do Panamá, em 28 de setembro de 2025. (Foto: MARTIN BERNETTI/AFP via Getty Images)

Crédito,AFP via Getty Images

Legenda da foto,Metade da população guna do Panamá vive atualmente em centros urbanos.

É uma narrativa cheia de intrigas e personagens quase fabulosos, como o explorador Richard Marsh, que entrou para a história como o instigador da rebelião. Esse foi realmente o papel dele?

Não, muito pelo contrário. Quando ele chegou ao Panamá, os gunas já haviam decidido que entrariam em guerra e já estavam se preparando para isso.

O que Marsh fez — e ele era um sujeito muito inteligente, embora eu ache que fosse completamente louco — foi organizá-los, redigir a ata de independência e prometer que os EUA transformariam o território em um protetorado.

Isso fez parte da motivação dos gunas em determinado momento, mas eles ressentem muito alguns historiadores panamenhos que retrataram Marsh como se ele tivesse sido o motor e o instigador da rebelião.

Eu contei com a ajuda de vários gunas, entre eles um historiador e professor da Universidade do Panamá, que foi me guiando pela história e me ensinando as palavras de que eu precisava para tornar o romance mais autêntico.

Com essa obra, o senhor volta a um tema que já havia abordado em 'Con ardientes fulgores de gloria' — ou em sua reedição, 'Arde Panamá', um romance histórico sobre como um país foi criado às custas de outro. O senhor já disse que quer que a história do Panamá seja conhecida não apenas no país, mas também no exterior, "porque muitas coisas foram inventadas" sobre sua independência da Colômbia. Como esse episódio histórico foi distorcido, na sua opinião?

Isso tem a ver com a intervenção dos Estados Unidos, porque os americanos protegeram a separação definitiva entre Panamá e Colômbia com navios de guerra.

Os EUA tinham interesse, claro, na construção do Canal do Panamá. Tanto que o tratado do Canal foi assinado apenas 15 dias depois da independência — em 3 e 18 de novembro de 1903, respectivamente.

A partir disso surgiram duas correntes no Panamá — não sei se ainda persistem, mas certamente existiam quando escrevi o livro. Eu as chamo de "lenda rosa" e "lenda negra".

A lenda rosa dizia que o Panamá não precisou de nenhum apoio dos EUA e que conquistou sua independência sozinho.

Já a lenda negra afirmava que os EUA fizeram tudo, movidos unicamente pelo interesse de garantir que o Panamá assinasse o tratado do Canal.

No romance ["Con ardientes fulgores de gloria"], conto simultaneamente o que acontecia no Panamá, em Washington, Bogotá e Paris — três cidades fundamentais para as negociações que culminaram no que ocorreu em 3 de novembro de 1903.

Hoje, meu romance histórico sobre a separação é lido no Panamá como uma obra que reflete o que realmente aconteceu. E isso porque era exatamente esse o meu objetivo.

Caricatura política que mostra uma figura, levando um bolso que se identifica como Varilla, calentando o rosto colombiano com uma vela para fazer nascer ao pollito da República do Panamá, que entrega uma carta no pico rotulada como 'Concessão aos Estados Unidos para escavar o canal', ao presidente estadounidense Theodore Roosevelt, representando os Estados Unidos, 1903. A caricatura faz referência a las maquinações políticas além da decisão estadualunidense de construir o canal na república recentemente independente do Panamá, em vez da Colômbia, de quem havia sido separado recentemente. (Foto de Arquivos Provisórios/Getty Images)

Crédito,Interim Archives/Getty Images

Legenda da foto,Uma caricatura que se refere às maquinações políticas após a decisão estadual unidense de construir o canal no Panamá, recebido separadamente da Colômbia.

Paralelamente, seus romances ambientados no Panamá exploram, em conjunto, a identidade nacional. Em várias ocasiões, o senhor falou que o Panamá é um país cuja identidade foi difícil de definir e consolidar. Por quê?

A questão da identidade do Panamá é um problema recorrente.

Há apenas um ano li em um jornal francês uma referência ao Panamá como "esse país criado pelos Estados Unidos para construir um canal".

Como Ferdinand de Lesseps fracassou aqui — depois de ter triunfado em Suez e de ser uma figura muito reconhecida — os franceses tratam o Panamá de maneira bastante pejorativa. E isso se refletiu ao longo da história.

[Diplomata e empresário, Lesseps impulsionou duas das obras de engenharia civil mais importantes da segunda metade do século 19: o Canal de Suez e o Canal do Panamá. Concluiu o primeiro em 1869 e recebeu muitos méritos e homenagens por isso, mas a paralisação do segundo, em 1889, provocou a rejeição de seu país e levou a um dos maiores escândalos financeiros da França no fim do século 19.]

Isso, por sua vez, fez com que a identidade do Panamá estivesse sempre sendo questionada, como "o país criado pelos Estados Unidos".

Mas vou lhe dar um dado interessante, que também aparece no meu romance sobre a separação entre Panamá e Colômbia.

Quando o presidente Theodore Roosevelt precisou defender no Congresso dos EUA a intervenção americana no Panamá, ele se preparou muito bem e apresentou uma lista de todas as vezes em que, ao longo do século 19, o Panamá havia se separado da Colômbia, mas precisou voltar atrás por não ter exército.

Ele explicou isso detalhadamente para que os senadores entendessem que o que ele fez foi apenas reafirmar aquilo que o Panamá já tentava alcançar havia 100 anos — o período em que estivemos submetidos à Colômbia.

Isso faz parte da história, mas todos esses elementos acabaram alimentando questionamentos.

O Panamá se independizou da Espanha sem derramamento de sangue. Separou-se da Colômbia também sem derramamento de sangue. Mas, aparentemente, o derramamento de sangue é considerado indispensável para que se reconheça que um país fez o necessário para conquistar sua independência. E isso não é verdade.

Não há nada pior do que uma guerra. Nós sabemos disso. E é isso que vai acontecer em novembro nos Estados Unidos: os americanos vão lembrar disso ao presidente.

[Em novembro, os EUA realizam eleições legislativas de meio de mandato, nas quais parte do Congresso será renovada. A guerra no Irã pode se tornar um fator negativo para o Partido Republicano do presidente Donald Trump.]

E agora que o senhor trouxe a conversa para o presente: como analisa, sob uma perspectiva histórica, o momento vivido pelo Panamá e pelo Canal sob o atual governo dos Estados Unidos?

Acho que é uma questão muito circunstancial. Não conheço nenhum outro personagem político americano que tenha agido da forma como Trump agiu — e não apenas em relação ao Panamá, mas também à Groenlândia, à Europa, agora ao Irã, etc.

Ele é um grande negociador, sempre foi, e vem usando o poder dos Estados Unidos para continuar negociando. E, às vezes, consegue alcançar o que pretende.

Entre outras questões, Trump mantém uma disputa muito marcada com a China. Mas, quando os elefantes brigam, quem sofre é a grama. E, nesse caso, quem paga o preço somos nós, os panamenhos, porque isso obviamente está nos afetando.

A China está retaliando o Panamá por coisas que os americanos obrigaram os panamenhos a fazer. E os americanos estão retaliando o Panamá por atitudes de alguns panamenhos em defesa da soberania do país.

Mas isso é circunstancial. Não vai mudar a história — nem do Panamá, nem dos Estados Unidos, nem da China, nem da Groenlândia, nem da Dinamarca, nem de país algum. Isso vai passar quando Trump passar; não permanecerá assim.

Porque, se permanecer, os Estados Unidos acabam. Digo isso no sentido em que nós conhecemos os EUA: como o país que salvou a Europa dos nazistas e assim por diante.

Vista aérea do buque portacontenedores One Contribution navegando baixo a bandeira de Tóquio enquanto entra no Canal do Panamá na Cidade do Panamá em 21 de abril de 2026. Após a Autoridad do Canal do Panamá, o trânsito pelo canal aumentou devido à guerra no Médio Oriente. (Foto de MARTIN BERNETTI / AFP através da Getty Images)

Crédito,AFP via Getty Images

Legenda da foto,Antes da construção do Canal, o Panamá era um local de encontro e passo, e isso formou sua identidade nacional, sob o nome de Juan David Morgan

Para nós, panamenhos, isso volta a ser uma questão de identidade. Volta a ser um tema que reforça que temos traços identitários anteriores aos de todos os demais países americanos, porque foi aqui que começaram a conquista e a colonização.

O que Vasco Núñez de Balboa descobriu não foi apenas a existência de um mar do Sul, mas que esse mar estava a poucas 50 milhas — naquela época, léguas — do outro oceano. Ou seja: este era o ponto mais estreito de todo o território descoberto. E foi isso que deu ao Panamá, desde então, sua identidade.

[Em 25 de setembro de 1513, Núñez de Balboa, acompanhado por um grupo de homens, avistou o oceano Pacífico do alto de uma montanha na atual província panamenha de Darién.]

Já em 1538 existiam estudos dos espanhóis, ordenados pelo rei Carlos V, para avaliar como construir um canal no Panamá usando as águas do rio Atrato. Evidentemente, não havia tecnologia para isso, e, em vez de um canal, eles construíram estradas de pedra para conectar os oceanos.

Desde então, o Panamá tornou-se a rota pela qual os espanhóis chegaram para conquistar e colonizar a América. Depois veio a ferrovia, em 1855, e finalmente o Canal.

Logisticamente, o Panamá sempre foi um lugar de encontro e de passagem. E isso também cria identidade — além de todos os outros elementos que definem um país, entre eles os povos originários.

Nesse sentido — e voltando ao tema — seu romance também pode ser lido como uma tentativa de explicar a dívida histórica com esses povos. Por que o senhor o chamou de 'La rebelión infinita'?

Para ser muito franco, a primeira razão é que o nome soava muito bem.

Mas, sobretudo, o romance se chama 'La rebelión infinita' porque a mensagem para os panamenhos é justamente esta: ainda temos uma dívida com os povos originários.

Enquanto essa dívida continuar existindo, a rebelião desses povos — que acontece esporadicamente no Panamá, não como a dos gunas, mas ainda assim em forma de revoltas — será infinita.

'Dinheiro acabando': brasileiro relata angústia em La Paz com protestos que não o deixam sair da Bolívia

 

Gabriel, um homem pardo de boné para trás olha a cidade enquanto anda de teleférico

Crédito,Gabriel Medeiros/Acervo Pessoal

Legenda da foto,Gabriel não tem conseguido deixar La Paz diante dos protestos no país
    • Author,Iara Diniz
    • Role,Da BBC News Brasil em São Paulo
  • Published
  • Tempo de leitura: 9 min

Em viagem de mochilão pela América do Sul, o designer Gabriel Medeiros, de 26 anos, chegou a La Paz, capital da Bolívia, no dia 5 de maio, pretendendo ficar três dias. Neste sábado (23/5), ele completa 18 dias na cidade, sem previsão de sair.

Isso porque a Bolívia vive uma onda de protestos desde o início do mês contra o governo do presidente Rodrigo Paz, que assumiu o poder há seis meses.

Estradas têm sido bloqueadas em várias regiões do país, e a polícia tem reagido com bombas e gás a protestos de diversos setores com demandas que vão de mudanças da política agrária à melhoria na qualidade do combustível no país - e até a renúncia do presidente.

A única saída de La Paz tem sido pelo aeroporto de El Alto. O terminal tem recebido voos, mas em alguns momentos também é interditado. Nesta sexta-feira (22/5), manifestantes chegaram a fechar o acesso por algumas horas.

Com dinheiro contado para a viagem, Gabriel pretendia seguir de ônibus para o Peru, onde faria trabalho voluntário. Segundo o brasileiro, o preço dos voos tem aumentado diariamente, chegando a valores que ele não consegue pagar.

"Então estou ficando aqui, trabalhando a distância, esperando. Mas o dinheiro está acabando", diz.

O designer de Bauru (SP) está hospedado num albergue junto a outros turistas.

O dia a dia na cidade, conta ele, segue normal, especialmente quando não há protestos. Mas o cenário de férias começou a virar angústia pela impossibilidade de seguir viagem.

Eu comecei a ter uma sensação de que realmente estou sem conseguir sair daqui", relata. "E ainda tenho visto brasileiros chegando aqui de avião sem saber o que está acontecendo."

Nesta sexta, protestos terminaram em confronto em La Paz

Crédito,Reuters/Claudia Morales

Legenda da foto,Nesta sexta, protestos terminaram em confronto em La Paz

Segundo Gabriel, ele chegou a procurar a embaixada brasileira em La Paz e foi informado que a única saída seria comprar uma passagem de avião.

À reportagem, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil informou que tem recebido relatos de brasileiros "que reportaram dificuldades de deslocamentos em razão dos bloqueios nas estradas bolivianas". O órgão diz que vem prestando a assistência consular aos que procuram as representações no país.

Em comunicado emitido em 11 de maio e reforçado agora, o Itamaraty recomendou evitar viagens não essenciais aos departamentos de La Paz e Oruro, já que os bloqueios tem afetado os principais pontos turísticos do país, como o Salar de Uyuni, Potosí e Copacabana.

Escassez

Bloqueio com pneus e galho em estrada

Crédito,Gabriel Medeiros/Acervo Pessoal

Legenda da foto,Gabriel passou 9 horas em bloqueio na estrada entre Cochabamba e La Paz

Gabriel Medeiros chegou à Bolívia por Santa Cruz da La Sierra, a bordo de um trem que parte da fronteira com o Mato Grosso do Sul. De lá, pegou um ônibus a La Paz, quando começou a presenciar os protestos.

Próximo a Cochabamba, em 4 de maio, o ônibus em que estava enfrentou um bloqueio na estrada das 8h às 17h. "Depois, começou pelo país inteiro", diz.

Os atos generalizados na Bolívia começaram no início de maio, mas, nos últimos dias, a mídia boliviana reportou uma intensificação de marchas, protestos e bloqueios.

As manifestações antigovernamentais têm sido marcadas por confrontos entre manifestantes e forças de segurança — especialmente em La Paz.

Nesta sexta-feira, uma marcha de camponeses, mineiros e afiliados à Central Operária Boliviana (COB), a principal central sindical da Bolívia ligada ao ex-presidente Evo Morales, teve que recuar em La Paz após ser dispersada com gás pela polícia. As principais ruas do centro da cidade foram ocupadas.

Os protestos também afetam o cotidiano de grande parte da população boliviana, que sofre com a escassez de alimentos, combustível e medicamentos.

Segundo Gabriel, os restaurantes de La Paz têm aumentado gradualmente o preço e passaram a oferecer apenas uma opção de prato. "As pessoas têm reclamado que não têm chegado frango, que é algo que eles comem muito aqui", diz.

Apesar das reclamações, o brasileiro diz que sente nas ruas um apoio aos atos.

Uma mulher faz compras em um supermercado em meio à escassez de alimentos causada por bloqueios de estradas durante protestos contra o governo do presidente Rodrigo Paz, em La Paz, Bolívia, em 18 de maio de 2026.

Crédito,Reuters

Legenda da foto,Os bloqueios de estradas por manifestantes levaram à escassez de alimentos em La Paz. Foto de 18 de maio

Sede do governo, La Paz é uma cidade com forte presença de povos indígenas e importante epicentro político, ligada especialmente à base de apoio do ex-presidente Evo Morales. Mas não é só esse grupo político que tem demonstrado insatisfação.

Segundo disse a analista política Luciana Jáuregui à BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC, a mobilização é de vários setores e tem mostrado "uma postura abertamente desestabilizadora".

"Não se limita mais a pedir demandas específicas, mas sim a exigir a renúncia do presidente", disse.

'Meu maior medo era não conseguir voltar'

Fabiane fazendo uma selfie com um lago ao fundo. Atrás dela está o carro em que ela viajava

Crédito,Arquivo Pessoal

Legenda da foto,Fabiana foi para Bolívia de carro para fazer uma viagem de duas semanas. No trajeto, se deparou com bloqueios

Já em segurança em Santa Cruz de la Sierra, após passar dois dias presa em bloqueios nas rodovias bolivianas, a enfermeira Fabiane Gerotti Mendes, de 36 anos, contou à BBC News Brasil que ficou sem ter onde abastecer o carro por causa da escassez provocada pelas manifestações.

Ela também decidiu encurtar a viagem pela Bolívia em cinco dias por medo de não conseguir voltar ao Brasil.

Viajando de carro pelo país, a moradora de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, saiu da cidade natal no dia 15 de maio para um roteiro de duas semanas que tinha como destino o Salar de Uyuni — maior deserto de sal do mundo e principal atração turística da Bolívia —, além de outras paisagens do interior do país.

Fabiane acreditava que as manifestações estavam concentrados em La Paz e decidiu manter a viagem mesmo depois de ver relatos de turistas que haviam conseguido circular normalmente pelo país.

"Quando cheguei em Sucre, percebi uma movimentação estranha, mas pessoas que tinham ido antes de mim conseguiram voltar sem problemas", contou.

Ao seguir para Potosí, cidade que serve de rota para turistas que visitam o Salar de Uyuni, ela encontrou o primeiro bloqueio. Lá, os manifestantes tinham fechado a rodovia com pedras e pedaços de árvore.

"Nessa hora eu senti muito medo. Porque eles vieram em cima do meu carro, eu estava sozinha e ficaram perguntando se tinha alguém comigo", lembra.

Rodovia cheia de pedras

Crédito,Arquivo pessoal

Legenda da foto,Fabiane se deparou com bloqueio de pedras na rodovia

Ao perceber que não iria conseguir passar, Fabiane decidiu retornar para Sucre, onde ficou por dois dias, até seguir viagem para Santa Cruz.

No trajeto de volta, contudo, ela encontrou outro bloqueio. Em Aiquile, uma pequena cidade do interior boliviano com cerca de 23 mil habitantes, um grupo de manifestantes bloqueava a rodovia.

"Não tinha o que fazer, não deixavam ninguém passar. Meu maior medo era não conseguir voltar. Eu acompanhava as notícias e os bloqueios só aumentavam."

Ali, Fabiane ficou presa por duas noites e enfrentou problemas como a falta de combustível.

"Passei dois dias indo em todos os postos da cidade e não tinha gasolina. Até que no terceiro dia, eu consegui. Cheguei a ficar sem gasolina", relatou.

Fabiane conta que para conseguir atravessar o bloqueio, muitas pessoas chegavam de transporte até o local, cruzavam o trecho caminhando e retomavam o transporte do outro lado. Mas, como ela estava de carro, ela não conseguia fazer o mesmo.

Até que um morador da cidade sugeriu que ela tentasse passar pela rodovia durante a madrugada, quando os manifestantes poderiam não estar lá.

Na quinta-feira (21/5), a brasileira acordou cedo e pegou o carro, mas o bloqueio continuava lá. Voltou para o hotel e decidiu tentar novamente durante a madrugada de sexta, quando finalmente conseguiu passar.

"Fui às 4h da manhã e os manifestantes não estavam lá. Mas tinha uma fila de cinco quilômetros de caminhões. Foi uma angústia sem saber se eu ia conseguir", disse.

"Quando vi os carros atravessando, eu comecei a chorar. Não acreditei que ia finalmente sair dali."

Apesar do clima de tensão para voltar a Santa Cruz de la Sierra, Fabiane disse não ter presenciado confrontos violentos.

"Não vi confusão, as pessoas estavam manifestando de forma pacífica", afirmou.

"Mas se eu pudesse dar um conselho às pessoas é que não venham pra cá. Tem muitos bloqueios e os protestos estão aumentando", alertou.

Ela volta para o Brasil no próximo domingo (24/5).

Os motivos dos protestos

Considerado de centro-direita, Rodrigo Paz chegou ao poder na Bolívia há seis meses, encerrando os 20 anos do domínio do Movimento ao Socialismo (MAS), agremiação de esquerda fundada por Evo Morales e apoiada pela maioria indígena do país.

Paz assumiu o governo meio a uma das piores crises econômicas da Bolívia desde a década de 1980, marcada por escassez de combustível e moeda estrangeira, além de uma inflação descontrolada.

O governo afirma que Morales, que governou entre 2006 e 2019, está por trás dos protestos, algo que o ex-presidente nega.

Rodrigo Paz

Crédito,Reuters/Claudia Morales

Legenda da foto,Presidente Rodrigo Paz tem recuado em algumas medidas, mas protestos não cessaram

Morales foi declarado em situação de desacato a autoridade judicial em 11 de maio, após não comparecer ao início de seu julgamento por suposto tráfico de pessoas.

Segundo a acusação, Evo Morales teria estuprado em 2015 uma adolescente de 15 anos, que teria engravidado.

O ex-presidente permanece recluso e protegido por apoiadores em seu reduto político na região cocaleira de Cochabamba desde outubro de 2024, para evitar detenção.

Morales descreveu os atuais protestos como "uma insurreição popular de base", segundo a agência de notícias EFE.

Mas além da disputa política há problemas crônicos que os bolivianos enfrentam e que motivaram o início dos protestos.

No final de abril, o presidente Paz anunciou uma reforma agrária com o objetivo de transformar pequenas propriedades rurais em propriedades de médio porte, desde que o proprietário o solicite voluntariamente.

Segundo o governo, o objetivo da medida era permitir que os proprietários de pequenas propriedades rurais as utilizem como garantia para obter crédito e, assim, reativar investimentos.

No entanto, diversos grupos camponeses interpretaram a medida como uma tentativa de promover a venda de terras agrícolas para grandes proprietários.

Em resposta aos protestos, o presidente revogou a iniciativa na semana passada.

Os professores também lideraram uma série de protestos exigindo aumentos salariais em um país que enfrenta uma inflação alta, de 15% ao ano, tornando o custo de vida uma grande preocupação para os bolivianos.

Após semanas de negociações, o Ministério da Educação anunciou um acordo com os professores, que aceitaram um bônus e declararam que suspenderiam os protestos.

No entanto, as manifestações não só continuaram como se espalharam para novos setores.

O governo Paz também eliminou os subsídios ao combustível herdados do governo anterior, elevando o preço. Com isso, bolivianos questionam a qualidade do produto vendido na tentativa de reduzir custos.

O Instituto de Pesquisa Química da Universidade Superior de San Andrés (UMSA) realizou uma análise técnica que concluiu que as gasolinas testadas não atendiam aos padrões de qualidade.

Questões sobre a qualidade do produto, seus altos preços e a escassez causada pelos bloqueios de estradas nas últimas semanas paralisaram grande parte do país.

Por fim, em 9 de maio, o presidente anunciou a criação de uma comissão para realizar uma "reforma parcial" da Constituição que rege o país desde 2009, com o objetivo de facilitar o investimento na economia boliviana.

A reforma visa modificar setores como o de hidrocarbonetos e o de mineração, levando movimentos sociais alinhados a Morales a criticarem as reformas econômicas por excluírem o Estado como ator fundamental.

Segundo críticos, as mudanças constitucionais visam viabilizar a privatização da gestão de recursos naturais, argumento negado pelo governo.

"Aqui, ninguém quer privatizar, ninguém quer aumentar tarifas, ninguém quer fazer muitas das coisas que algumas pessoas, alguns líderes e alguns interesses políticos estão tentando usar para confundir a população", disse Paz na semana passada.

Com reportagem de Ayelén Oliva, da BBC News Mundo