Animais aquáticos e o colapso dos ecossistemas
O impacto das enchentes sobre a fauna aquática gaúcha foi devastador e revelador. Pesquisadores do Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos (Ceclimar/UFRGS) registraram, pela primeira vez, a presença da tilápia-do-nilo (Oreochromis niloticus) em ambientes salobros e marinhos do litoral norte gaúcho, com 188 exemplares encontrados encalhados na orla. A origem do problema é inequívoca: o transbordamento de criadouros comerciais durante as cheias de maio de 2024 liberou essa espécie exótica na Bacia Hidrográfica do Rio Tramandaí, que então desaguou no mar.
Mais alarmante ainda é a situação do boto-de-Lahille (Tursiops gephyreus), um golfinho costeiro ameaçado, com pelo menos 600 indivíduos em toda sua área de ocorrência no sul do Brasil, Uruguai e Argentina. O Projeto Gephyreus, em parceria com o ICMBio, investiga como as enchentes podem ter agravado o quadro de saúde já debilitado desses animais, descarregando poluentes das cidades, remobilizando contaminantes depositados no solo e alterando a disponibilidade de presas.
Espécies invasoras: a segunda onda da destruição
As enchentes não apenas deslocam espécies nativas — como jacarés avistados no bairro Menino Deus, garças pescando na avenida Borges de Medeiros e capivaras migrando para a Orla do Guaíba — mas também abrem caminho para a invasão biológica, considerada a segunda maior causa de perda de biodiversidade no planeta.
Nas margens do rio Taquari, espécies exóticas invasoras como o capim-annoni (originário da África) e a uva-japonesa (da Ásia) tomaram conta das áreas antes ocupadas por mata ciliar nativa. Como alerta a botânica Elisete Freitas, da Universidade do Vale do Taquari, essa cobertura vegetal é uma "ilusão" — as invasoras possuem raízes superficiais e caules frágeis, não cumprem a função ecológica de proteção das margens e aumentam o risco de erosão e deslizamentos. Um levantamento anterior às enchentes já identificaram 18 espécies exóticas invasoras na região; após o desastre, o problema se generalizou.
A perda das matas ciliares e o ciclo de vulnerabilidade
As enchentes de 2024 expuseram de forma cruel a vulnerabilidade das Áreas de Preservação Permanente (APPs). A perda da cobertura vegetal deixou o solo exposto, favorecendo a erosão e os desmoronamentos. Como bem sintetizou a deputada Maria do Rosário, "ao longo do tempo, as margens e as matas ciliares foram sendo degradadas, e sem raízes, a erosão se espalhou, trazendo prejuízos humanos, econômicos e ambientais".
A recuperação, no entanto, não é simples. Estima-se que restaurar um único quilômetro de mata ciliar custe, em média, R$1,5 milhão. O Núcleo de Estudos e Pesquisas em Recuperação de Áreas Degradadas (NEPRADE-UFSM), em parceria com o ICMBio, já realiza levantamentos da regeneração natural em dez áreas de encostas e oito áreas de matas ciliares no Corredor Ecológico da Quarta Colônia.
Água contaminada e a saúde da população
A contaminação da água foi um dos aspectos mais dramáticos da tragédia. As enchentes afetaram mais de 2,3 milhões de pessoas, e o colapso dos sistemas de esgoto fez com que a água da chuva se misturasse ao esgoto urbano, expondo a população a riscos sanitários gravíssimos.
Pesquisadores detectaram a presença de Enterobactérias em 100% das amostras de água de enchente coletadas em Porto Alegre, além de genes de resistência a carbapenêmicos (blaKPC e blaNDM) em proporções alarmantes — o blaKPC esteve presente em 100% das primeiras coletas. A alta prevalência desses marcadores de resistência antimicrobiana revela um cenário preocupante de disseminação ambiental de bactérias multirresistentes.
Mosquitos e doenças infecciosas
As águas estagnadas criaram o ambiente ideal para a proliferação de mosquitos vetores como o Aedes aegypti, elevando significativamente os casos de dengue, zika e chikungunya. Mas o dado mais contundente refere-se à leptospirose. Em 2024, o Rio Grande do Sul registrou 550 casos da doença entre janeiro e junho — um aumento de 204% em relação ao mesmo período de 2023. A mortalidade mais que dobrou, passando de 0,23 para 0,49 por 100 mil habitantes. Dos 55 óbitos registrados no período pós-enchente, 75% ocorreram entre homens, predominantemente na faixa etária de 40 a 59 anos.
Agricultura gaúcha sob impacto
A agricultura, pilar da economia gaúcha, foi gravemente impactada, com perdas significativas nas culturas de soja, arroz, trigo e milho. Em municípios como Nova Santa Rita e Esteio, mais de 50% do território foi afetado. O estado alterna agora entre estiagens severas e enchentes históricas, evidenciando a profunda desestabilização dos ciclos hídricos.
Microrganismos e a resiliência do solo
Pesquisas sobre a dinâmica das comunidades bacterianas em solos de arroz submetidos a ciclos repetidos de alagamento e drenagem no Rio Grande do Sul revelaram mudanças significativas, incluindo um declínio em Acidobacterias e um aumento em Proteobactérias e Chloroflexi. Essas alterações na microbiota do solo têm implicações diretas para a fertilidade agrícola e a resiliência dos ecossistemas.
Biotecnologia e monitoramento: inovação a serviço da prevenção
A ciência gaúcha tem respondido com inovação. A startup TideSat, spin-off da UFRGS, desenvolveu um serviço de monitoramento remoto do nível da água que já presta serviços ao município de Estrela e à empresa Portos do Rio Grande do Sul. Na FURG, uma parceria com uma escola de Caraá criou um protótipo de sistema de prevenção de enchentes utilizando placa Arduino, sensor ultrassônico e energia solar. Drones com sensoriamento remoto e inteligência artificial também já são realidade no monitoramento de solos e plantações.
Casos de sucesso e caminhos para a recuperação
Há exemplos inspiradores. Na região do Vale do Taquari, a propriedade da família Mallmann tornou-se a primeira a implantar uma agrofloresta no âmbito do Plano Recupera Rural RS. O estado ampliou em quatro vezes seu efetivo de Defesa Civil após o desastre — investimento que se mostrou decisivo diante de novos eventos climáticos. O plano de reconstrução inclui desde estudos técnicos e modelagens hidrodinâmicas até investimentos em radares meteorológicos e sistemas contra enchentes.
Plantas e animais gaúchos: entre a resiliência e o risco de extinção
Espécies endêmicas do Rio Grande do Sul enfrentam ameaças sem precedentes. A Grindelia atlântica (Margarida-da-praia), uma das 50 espécies exclusivas do bioma Pampa, teve sua situação agravada pelas enchentes: a água avançou sobre a orla, submergiu as plantas, dificultou a fotossíntese e enfraqueceu as raízes. O sapinho-admirável-de-barriga-vermelha (Melanophryniscus admirabilis), espécie ameaçada que ocorre apenas às margens do rio Forqueta, teve seu habitat drasticamente alterado.
O compromisso de toda uma vida
Como geógrafo, meu olhar para o Rio Grande do Sul é o de quem estuda a distribuição da vida, as conexões entre os ecossistemas e as marcas que a ação humana imprime no território. Como economista ecológico, compreendo que a economia não pode ser dissociada dos limites biofísicos do planeta. E como militante ecossocialista, tenho a convicção de que a superação desses desafios exige uma transformação radical do modelo civilizatório.
As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul não foram um acaso. Foram a materialização de décadas de degradação ambiental, de ocupação desordenada do território, de destruição de matas ciliares e de um modelo agrícola e urbano que trata a natureza como mero recurso a ser explorado. A ciência nos fornece as ferramentas para monitorar, prevenir e recuperar — como mostram os trabalhos do Ceclimar, do NEPRADE-UFSM, da TideSat e de tantas outras instituições. Mas a ciência, sozinha, não basta.
É necessária uma mudança de paradigma. É preciso reconstruir não apenas pontes e casas, mas a própria relação entre a sociedade e seu ambiente. É preciso reconhecer que a natureza não é uma adversária a ser domada, mas uma aliada a ser protegida. E é preciso, acima de tudo, construir uma sociedade que coloque a vida — toda a vida, humana e não humana — no centro de suas decisões. Esse é o compromisso que carrego comigo, como geógrafo, como ecossocialista e como cidadão gaúcho e cearense que vivia na UFRGS e PUCRS fazendo ciência
Referências Acadêmicas e Institucionais Citadas
Tavares, M., Ribeiro, J.N.S., & Rocha, C.M. (2025). Nile tilapia (Oreochromis niloticus) in brackish and marine environments of the State of Rio Grande do Sul: impact of the 2024 flooding tragedy in Southern Brazil. Aquatic Ecology, Springer Nature.
Taborda, A.M., Schuck, A.H., Goergen, C., Jales, C.S., & Agostinetto, L. (2026). Leptospirosis in the context of the 2024 floods in Rio Grande do Sul: An ecological study. The Brazilian Journal of Infectious Diseases.
Global Health in Times of Climate Crisis: Leptospirosis Mortality in Rio Grande do Sul after the 2024 Floods. The Brazilian Journal of Infectious Diseases.
Michelon, W., et al. (2025). Increased leptospirosis incidence following flooding in Rio Grande do Sul, Brazil. International Journal of Environmental Health Research. doi: 10.1080/09603123.2025.2498623.
Bacteria That Made History: Detection of Enterobacteriaceae and Carbapenemases in the Waters of Southern Brazil's Largest Flood. Microorganisms, 13(10), 2365.
Projeto Gephyreus / ICMBio: Avaliação dos Efeitos do Desastre Natural decorrente das Mudanças Climáticas na Biodiversidade do RS (2025-2027).
NEPRADE-UFSM / ICMBio: Pesquisa sobre recuperação de matas ciliares e encostas no Corredor Ecológico da Quarta Colônia.
IBGE (2024). Impactos das enchentes na produção de grãos do Rio Grande do Sul.
TideSat/UFRGS: Monitoramento remoto de corpos d'água.