SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

A Dor que se Afaga: A Saudade na Literatura e na Poesia por Egidio Guerra.





A saudade é um sentimento tão vasto e profundo que a língua portuguesa teve de inventar uma palavra só para ela, uma palavra que os outros idiomas olham com uma ponta de inveja, incapazes de traduzir a sua essência. É a memória do que se foi, transformada em presença fantasma. É o "amor que fica", como definiu o poeta, mesmo quando o ser amado partiu. Na literatura e na poesia, a saudade da pessoa amada não é apenas uma ferida; é uma ferida que se afaga, uma dor que se cultiva como um jardim secreto, onde as flores são feitas de lembranças.

Os trovadores medievais já a pressentiam na "coita" e no "suave sofrer" do amor distante. Mas foi com o Cancioneiro Geral e, mais tarde, com o movimento saudosista, que a saudade se tornou a alma lusa, uma névoa que tolda os olhos e aperta o peito. É o estado de quem vive em dois lugares ao mesmo tempo: no presente árido da ausência e no passado luminoso da presença.

Na poesia de Camões, a ausência da amada é um fardo que se carrega a cada passo, uma paisagem interna que substitui a real. "A falta que me fazes, não é a falta / de alguém que está distante, é a falta / de uma parte de mim que se perdeu." O poeta renascentista já sabia que a saudade não é apenas a dor pela distância, mas a consciência de que o eu se fragmenta sem o outro, que a própria identidade se despedaça na ausência do amado.

Os românticos, séculos depois, beberam dessa fonte e transformaram a saudade numa tempestade de emoções. É a "aurora do amor" que Almeida Garrett descreve, tingida pela melancolia de um amor que o destino teima em separar. É o olhar de Capitu, que se guarda para sempre na memória, mesmo quando o corpo já não está mais ali. A literatura romântica, e mesmo a realista de Machado de Assis, compreende que a saudade é a forma que o amor encontra para desafiar o tempo e o espaço, construindo dentro de nós uma réplica do ser amado, com quem dialogamos em silêncio.

E como não lembrar de Manuel Bandeira, que transformou a ausência em poesia pura? Em "Ausência", ele escreve: "Eu deixei meu coração em algum lugar / e agora, sem ele, ando por aí, / procurando nas pessoas a metade que me falta." A saudade é essa busca incessante pelo outro que, na verdade, é a busca por nós mesmos, pelo que éramos quando estávamos completos.

Mais contemporaneamente, Caio Fernando Abreu, em suas cartas e contos, capturou a saudade como uma ferida exposta, uma falta que lateja na pele e nos ossos. "Saudade é um pouco como fome, mas de uma comida que não existe mais, que não se pode repetir. Só existe na memória do paladar." É a sensação de estender a mão na cama e encontrar apenas o frio do lençol, de ouvir uma música e esperar, por um segundo, que a pessoa amada entre pela porta para comentá-la.

A poesia e a literatura, portanto, não curam a saudade. Elas a acolhem. Elas nos ensinam que a ausência do ser amado não é um vazio, mas uma presença de outra natureza. É a lembrança do seu cheiro, o eco da sua risada, o calor do seu abraço que, mesmo sendo memória, ainda aquece. É, como canta a voz do fado, uma "guitarra que chora" e, ao mesmo tempo, "uma flor que perfuma" a solidão. A saudade é a prova definitiva de que o amor existiu e, porque existiu, jamais poderá ser totalmente apagado. Ela é, em sua essência mais dolorosa e bela, a eternidade do que foi vivido.

Gorillaz - Orange County ft Bizarrap/Kara Jackson/Anoushka Shankar

 




A curiosa origem de um dos jogos mais famosos do mundo,

 

Menina jogando Jenga

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Leslie Scott não cedeu quando rejeitaram o nome do jogo
    • Author,Programa Witness
    • Role,Serviço Mundial da BBC
  • Tempo de leitura: 5 min

As regras são muito simples.

São 54 blocos de madeira, todos do mesmo tamanho, que devem ser empilhados horizontalmente sobre uma superfície plana, em grupos de três, para formar uma torre.

Cada jogador, ao chegar a sua vez, deve retirar um bloco da torre e colocá-lo no topo, até que a estrutura, em algum momento, perca o equilíbrio e desmorone.

Aí o jogo termina. Quem provoca a queda é o perdedor. E o vencedor? No fim das contas, a gravidade.

Você provavelmente já sabe de que jogo se trata: com cerca de 100 milhões de unidades vendidas em todo o mundo, o jogo Jenga dispensa apresentações.

Embora a simplicidade do objetivo e dos materiais possa sugerir uma origem antiga, de centenas ou milhares de anos, Jenga surgiu há cerca de 40 anos, fruto da imaginação de Leslie Scott, designer britânica que passou a infância no leste da África.

"Somos uma família muito competitiva, no sentido de que, em qualquer reunião, acabávamos jogando algum jogo", disse ela ao programa Witness, da BBC.

"Se estávamos comendo azeitonas, por exemplo, disputávamos quem cuspia o caroço mais longe, ou coisas desse tipo", relembrou.

Aos 18 anos, sua família se mudou para Gana. Lá, ela e os irmãos mais novos estavam sempre em busca de novas formas de se divertir.

"Meu irmão, que era bem mais novo, tinha um conjunto de blocos de madeira com os quais brincava. Eram sobras retangulares de uma serraria em Gana", disse Scott. "Enquanto brincávamos, fomos transformando aquilo em um jogo de empilhar os blocos, tirando um e colocando-o por cima. Essa foi, digamos, a primeira versão", explicou.

Momento 'eureka'

Após concluir os estudos, Scott decidiu se mudar para o Reino Unido. Ela partiu com algumas caixas e, em uma delas, estava seu amado jogo de infância, do qual nunca deixou de brincar.

"Estamos falando dos anos 1980. Meu namorado daquela época havia acabado de se formar em Oxford e se tornado tenista profissional", lembrou Scott. "Ele era responsável por uma quadra de tênis no Merton College (uma das faculdades da Universidade de Oxford), junto com outros tenistas profissionais que adoravam o meu jogo".

"Tanto que me pediram para ficar encarregada da parte de entretenimento em um evento de arrecadação de fundos."

Leslie Scott
Legenda da foto,Leslie Scott começou a brincar empilhando blocos de madeira durante a infância

Scott ficou responsável por contratar malabaristas e, além disso, levou sua criação.

"Não era para aquilo ser o centro das atenções, mas foi o que mais ficou na memória das pessoas: meu jogo de blocos", afirmou.

Esse foi, para ela, o momento "eureka": quando percebeu o verdadeiro potencial de seu passatempo de infância.

Fiasco

Scott decidiu então transformar seu jogo de mesa em um produto comercial. Ela fundou a própria empresa, mas, para isso, precisava de dinheiro.

"Fui ao banco, convenci os gerentes de que [com o meu projeto] faria uma fortuna, pedi dinheiro emprestado ao meu namorado e, o pior de tudo, minha mãe foi fiadora de um segundo empréstimo que solicitei ao banco. Eu precisava de uma garantia, e era a casa da minha mãe", contou.

Sob enorme pressão, Scott conseguiu encontrar uma oficina local no norte do Reino Unido e, em 1983, já estava pronta para lançar o seu jogo em sua primeira participação na Feira do Brinquedo de Londres.

"Achei que estava indo muito bem, mas não recebi nenhum pedido", disse Scott à BBC. "Nenhuma encomenda de toda aquela gente que deixou seus cartões depois da feira."

Do ponto de vista comercial, pelo menos, a experiência foi um fiasco.

Um casal joga Jenga

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Scott percebeu muito cedo o potencial de seu jogo

O que ela recebeu, em contrapartida, foram muitas perguntas. E isso a fez perceber que, sendo uma empresa desconhecida e com apenas um produto, ninguém se arriscaria a investir nela.

Sem hesitar, anotou os conselhos que ouviu e passou a criar outros jogos, com o objetivo de desenvolver um portfólio.

Scott — que então passou a se definir como designer de jogos, uma profissão pouco comum à época — continuou oferecendo seu produto principal e chegou a viajar aos Estados Unidos em busca de um comprador. Nada parecia funcionar por volta de 1985, período em que os videogames começavam a ganhar popularidade.

"Eu estava perdendo muito dinheiro e me endividando cada vez mais", afirmou.

Golpe de sorte

Mulher jogando Jenga

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,É um jogo simples, em que a torre de madeira inevitavelmente acaba caindo
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Até que um golpe de sorte — além de sua persistência — a tirou do mau momento que atravessava.

"Recebi uma mensagem do irmão de um amigo que estava morando no Canadá, perguntando se eu poderia apresentar o jogo em um shopping no país", conta.

Ali, um executivo-chave da área de vendas da maior empresa de brinquedos do país, a Irwin Toy, viu o jogo e o levou aos diretores, que manifestaram interesse em adquirir a licença para produzir Jenga.

O nome Jenga, porém, era um problema. A empresa não gostava dele, mas Scott não cedeu.

Apesar da passagem dos anos, ela se lembra vividamente da conversa telefônica com a direção da Irwin Toy.

"Eles disseram que gostavam muito do jogo, que adoravam (…) mas odiavam o nome. Foi um ponto de virada. Eu simplesmente disse que não podia permitir que mudassem o nome. Tinha de ser Jenga."

Mas por que tanta insistência nesse nome estranho, que ao menos em inglês não tem significado nem referência?

"Nasci e cresci no leste da África e cresci falando suaíli. Minha mãe tinha um cachorro chamado Kucheza, que em suaíli significa 'jogar'", disse Scott.

"Pensei que seria um ótimo nome para o meu jogo, mas já era o nome do cachorro. Kujenga significa 'construir' em suaíli. Então me pareceu um nome perfeito para o jogo."

E assim ficou Jenga.

Aos poucos, a popularidade do jogo foi se espalhando. Scott conseguiu pagar as suas dívidas, e sua mãe não precisou vender a casa.

Hoje, o jogo integra o National Toy Hall of Fame, um espaço nos EUA que reconhece brinquedos e jogos que mantiveram sua popularidade ao longo dos anos.

E desde então, Scott projetou e lançou mais de 40 jogos.

Na Alemanha Juventude grita com DISARSTAR - Siamo tutti em homenagem aos Bolsonaros!

 


Wir kommen in schwarz, DiggaMit paar Litern EthanolKeine Liebe für den StaatSiamo tutti AntifaSiamo tutti AntifaSiamo tutti AntifaSiamo tutti AntifaSiamo tutti AntifaEy, 20359, nicht VenedigBrüder ticken im goldenen KäfigWir fangen an zu träumen, wenn es regnetHier wo der Wald vor lauter Bäumen nicht zu sehen istO ist auf der Flucht, D geht in EinzelhaftIn eure Welt haben wir niemals reingepasstWo ich meine Heimat habIn meinen zwei Zimmern hinterm Hans—Alber—PlatzUnd im Herzen von TextSie machen Kunst als wäre es nicht mehr als GeschäftWäre ich Spotify wären die wegUnd wärst du nicht so ein BastardDann wäre ich nettCheckKein Flex und kein DripKeine heftigen HitsAber Zeilen wie SteineVerwechsle uns nichtMach frei am ersten Mai, Herr PolizeiGlaub mir, es ist besser für dichWir kommen in schwarz, DiggaMit paar Litern EthanolKeine Liebe für den StaatSiamo tutti AntifaSiamo tutti AntifaSiamo tutti AntifaSiamo tutti AntifaSiamo tutti AntifaWir holen uns den ThronWir stürmen Babylon so oder soVon Konstantinopel bis RomIhr ModeikonenMeine Leute haben noch nicht mal Kohle für StromWir schreiben Geschichte und ihr nur GeschichtenMach Sitz und Platz und bell, du HundIst mir egal was eure bürgerliche Mitte hält von unsFahnen sind rot, Poloshirt schwarzLegacy großWer ging nie so radikal in die ChartsAus Hamburg, hey DisarstarHab einen Hund, doch immer KaterUnd einen Impact auf dein MindsetWie dein Onkel oder VaterMach ein KreisMach ein KreisMach ein KreisMach einWir kommen in schwarz, DiggaMit paar Litern EthanolKeine Liebe für den StaatSiamo tutti AntifaWir kommen in schwarz, DiggaMit paar Litern EthanolKeine Liebe für den StaatSiamo tutti AntifaSiamo tutti AntifaSiamo tutti AntifaSiamo tutti AntifaSiamo tutti AntifaSiamo tutti Antifa

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Foucault e O Engajamento Político: A Revolta de Março de 1968 ! Por Egidio Guerra




O período em que Michel Foucault lecionou na Universidade de Túnis, entre setembro de 1966 e o verão de 1968, representa um capítulo fundamental e, por muito tempo, pouco explorado de sua trajetória intelectual e política . Longe de ser um mero interlúdio exótico, sua estadia na Tunísia funcionou como um cadinho onde suas experiências pessoais, seu engajamento militante nascente e sua produção filosófica se fundiram, preparando o terreno para as grandes viradas de seu pensamento na década de 1970 . 

O Contexto: Uma Tunísia Pós-Colonial em Efervescência 

Foucault chegou à Tunísia numa época de intensa ebulição. O país, independente da França desde 1956, vivia as "dores do parto das sociedades pós-coloniais" . Sob a presidência de Habib Bourguiba, a nação experimentava um misto de projetos de engenharia social, lutas faccionais e um caldeirão de ideologias concorrentes, como o socialismo, o pan-arabismo e o pan-africanismo . Esse cenário de "fervor intelectual" e efervescência revolucionária contrastava fortemente com a relativa estabilidade política da França, de onde Foucault provinha. 

O filósofo instalou-se na pitoresca vila de Sidi Bou Saïd, um refúgio de artistas, onde se dedicava à escrita de A Arqueologia do Saber, publicado em 1969 . No entanto, a calma do seu local de trabalho contrastava com a agitação que tomava conta da universidade e das ruas. 

O Professor e Seus Alunos: Paixão pelo Saber 

Na Faculdade de Letras e Ciências Humanas de Túnis, Foucault ocupou pela primeira vez uma cátedra de filosofia, algo que não fizera na França . Seu ensino era diversificado e inovador. Ministrava cursos de psicologia sobre "a projeção", história da arte focada na pintura renascentista e barroca, e um curso público intitulado "O Lugar do Homem no Pensamento Ocidental Moderno" . 

Mas foi seu curso sobre a história da filosofia, dedicado a Descartes — mais precisamente ao Discurso do Método e às Meditações — que deixou marcas profundas em seus alunos. Um plano detalhado deste curso, conservado nas notas de seus estudantes, revela a profundidade de sua análise. Foucault não via o Discurso do Método como um texto inaugural isolado, mas sim como um sintoma de uma ruptura epocal. Ele o analisava à luz do início da Idade Clássica, caracterizada pelo poder monárquico centralizado e pelo capitalismo mercantil, e pela fundação de novas formas de racionalidade científica (economia política, ciência da natureza, geometria algébrica) . 

Para Foucault, o Discurso representava uma ruptura com a filosofia medieval ao substituir o problema do "ser" pelo problema da "verdade". A filosofia, a partir dali, definia-se como o método para se atingir essa verdade, com o sujeito ("o bom senso", a "luz natural") como fundamento de todo conhecimento. Ao ensinar Descartes na Tunísia, Foucault não apenas transmitia um conteúdo; ele demonstrava, na prática, como o discurso filosófico se constitui e se transforma em contextos históricos e políticos específicos. Seus alunos, com sua "avidez absoluta de saber", encontravam nas palavras do professor ferramentas para pensar sua própria realidade. 

O Engajamento Político: A Revolta de Março de 1968 

O ponto de virada na experiência tunisiana de Foucault foi o movimento de contestação estudantil de março de 1968 . A juventude tunisiana levantou-se contra o imperialismo ocidental e o autoritarismo do governo de Bourguiba . A resposta do Estado foi feroz: repressão violenta, invasão da universidade e prisões em massa . 

Diante desse cenário, Foucault e seu companheiro, Daniel Defert, abandonaram qualquer pretensão de neutralidade acadêmica. Transformaram sua casa em Sidi Bou Saïd em um espaço de acolhimento e resistência, abrigando estudantes perseguidos, alimentando-os e permitindo que redigissem e imprimissem panfletos de oposição. Quando mais de uma centena de jovens foram julgados por "atentado à segurança do Estado", Foucault testemunhou em sua defesa e usou sua influência como intelectual francês para tentar amenizar as duras sentenças. Apesar de seus esforços, muitos foram condenados a longas penas de prisão, uma experiência que o marcou profundamente com "amargura e raiva" . 

Este foi o batismo de fogo de Foucault na militância política direta. Mais tarde, ele próprio declararia: "Provavelmente só no Brasil e na Tunísia encontrei nos estudantes tanto seriedade e tanta paixão" . Foi o confronto com o "poder intolerável" do estado tunisiano  que o impeliu, ao retornar à França, a fundar o Groupe d'Information sur les Prisons (GIP) e a escrever obras seminais como Vigiar e Punir. O engajamento ao lado dos estudantes tunisianos foi o laboratório onde sua análise do poder começou a se forjar na prática, e não apenas na teoria . 

O Legado Intelectual e a Sombra do Colonialismo 

O período tunisiano também foi prolífico em termos de produção intelectual. Além de concluir A Arqueologia do Saber, Foucault proferiu conferências no Clube Tahar Haddad, incluindo as famosas "O que é um Autor?" e "O Nascimento da Moeda", e uma sobre "A Pintura de Manet" . Essas palestras, gravadas na época, só foram redescobertas e ouvidas publicamente em 1987, durante um colóquio em sua homenagem no mesmo clube . 

Recentemente, em 2023, foi publicado um manuscrito de Foucault intitulado O Discurso Filosófico, escrito em 1966, logo após As Palavras e as Coisas. Por muito tempo, acreditou-se que este texto fosse o curso ministrado por ele em Túnis. Na verdade, trata-se de um longo ensaio que ocupa uma posição intermediária entre suas duas grandes obras arqueológicas, e que aprofunda a análise do discurso filosófico de Descartes a Nietzsche . Este mal-entendido editorial evidencia como a associação de Foucault com a Tunísia se tornou um elemento importante para a compreensão de sua obra. 

No entanto, a passagem de Foucault pela Tunísia não está isenta de críticas e contradições, especialmente do ponto de vista pós-colonial. Alguns estudiosos apontam que, apesar de seu engajamento pontual, Foucault manteve-se em grande parte alheio à sociedade tunisiana, convivendo majoritariamente com franceses e levando um estilo de vida que, para alguns críticos, evocava a figura de um "colonizador". Sua obra praticamente ignora o colonialismo e a questão da "raça" como problemas filosóficos centrais, o que levanta questões sobre os limites de seu eurocentrismo. Intelectuais como Edward Said, que se inspiraram em Foucault para desenvolver a crítica do orientalismo, também apontaram a ausência de uma reflexão mais profunda do filósofo francês sobre o tema . 

Conclusão 

O curso de Foucault em Túnis foi muito mais do que um simples posto de ensino no estrangeiro. Foi um choque de realidade que transformou o filósofo em militante, um observador da história em seu tempo real. A "avidez de saber" de seus alunos tunisianos e a brutalidade da repressão que sofreram deixaram cicatrizes que moldaram seu pensamento futuro. Se, por um lado, sua experiência carrega as ambiguidades de um intelectual europeu num contexto pós-colonial, por outro, foi precisamente ali, entre as salas de aula e as celas da prisão de Túnis, que Foucault começou a articular, na prática, as questões sobre poder, resistência e verdade que o consagrariam como um dos pensadores mais influentes do século XX .