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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O capital fascista e nossas vidas. Por Egidio Guerra


Há um tipo de poder que não se anuncia mais com tanques nas ruas. Ele se veste de inovação, fala em eficiência e promete um futuro sem atrito. Enquanto isso, vai comprando silenciosamente as estruturas que sustentam a vida em comum. Três livros recentes ajudam a mapear esse fenômeno: End Times Fascism, de Naomi Klein e Astra Taylor; The Rise and Fall of the Artificial State, de Jill Lepore; e The Capitalist Era, de Jeremy Adelman. Juntos, eles desenham o contorno de algo que poderíamos chamar de capital fascista — uma aliança entre o poder econômico, a tecnologia e uma visão de mundo que aposta no colapso.

A nova face do fascismo

O fascismo que Klein e Taylor descrevem não é uma repetição do século XX. É uma mutação. Ele não apenas tolera a catástrofe climática ou a destruição ambiental: ele a deseja. A tese central do livro é que existe hoje uma aliança apocalíptica entre fundamentalistas religiosos, bilionários do Vale do Silício e etnonacionalistas, todos unidos pela crença de que um “cataclismo purificador” está por vir — e que eles estarão entre os salvos.

Essa visão de mundo se manifesta de formas concretas. Enquanto tornam o planeta inabitável por meio da crise climática e da IA que consome empregos, esses atores se preparam para o pior: ilhas privadas para super ricos, bunkers de sobrevivência, colônias em Marte, nações-bunker blindadas contra o “outro” desumanizado. Não há projeto de futuro compartilhado. O que oferecem é uma remixagem nostálgica de um passado de dominação.

O que torna esse fenômeno particularmente insidioso é sua capacidade de se apresentar como racionalidade. A IA não é apenas uma ferramenta; é uma promessa de substituir o julgamento humano por sistemas que “sabem o que não podemos saber”. Como Jill Lepore argumenta, isso não é inevitável — é uma escolha política disfarçada de progresso técnico.

O Estado Artificial

Lepore dá um nome ao que está sendo construído: o Estado Artificial. Não se trata de uma ditadura clássica, mas de algo mais insidioso — a substituição do governo pelo consentimento por sistemas governados por máquinas pertencentes a corporações, cujos donos não elegemos.

A historiadora traça uma arqueologia dessa fantasia. Ela remonta ao século XIX, passa pelas máquinas de tabulação do censo, pelos mainframes dos anos 1950, e chega ao libertarianismo do Vale do Silício nos anos 1990. A “Declaração de Independência do Ciberespaço”, de 1996, dizia que não haveria leis no ciberespaço. Era uma fantasia libertária que moldou a internet que temos. Essa fantasia, argumenta Lepore, agora se estende à IA e ameaça engolir o próprio Estado democrático.

O que Lepore chama de “governo sem consentimento, até mesmo governo sem humanos” não é ficção científica distante. É a direção para onde apontam os data centers que consomem recursos hídricos e energéticos de comunidades inteiras, as campanhas políticas reduzidas a algoritmos de mineração de atenção, e a crescente influência de “tecnocratas bilionários” que se veem acima da nação.

A conexão com o capital fascista é direta. Não se trata apenas de tecnologia, mas de uma nova forma de soberania: o poder de decidir sobre a vida das pessoas sem precisar prestar contas a elas. Lepore insiste que isso não é inevitável — feudalismo, escravidão e fascismo foram desmantelados antes. Mas desmantelar requer nomear as peças e contar uma nova história.

A era do capital e a mente global

Jeremy Adelman oferece o pano de fundo histórico mais amplo. The Capitalist Era narra como, desde o final do século XVIII, forças econômicas, políticas e intelectuais transformaram o mundo numa “unidade de sobrevivência fraturada” — integrada por trocas e fluxos, mas dividida por suspeita e medo.

A pergunta que atravessa o livro é: os estranhos são parceiros ou rivais, libertadores ou opressores? Adelman mostra que essa questão tem moldado a história moderna. À medida que o comércio, a migração e as novas tecnologias aproximaram pessoas que não se conhecem, as reações oscilaram entre acolhimento e exclusão, respeito e dominação.

O capital fascista é uma resposta a essa tensão. Ele explora a fratura — o medo do outro, a sensação de que o mundo está desmoronando — e a transforma em programa político. Em vez de construir formas de viver juntos que reconheçam nossa interdependência, ele aposta na separação: bunkers, muros, fronteiras étnicas, soberania privada.

O que está em jogo em nossas vidas

Esses três livros, lidos em conjunto, revelam que o capital fascista não é apenas uma ameaça distante. Ele já opera em nossas vidas de maneiras concretas:

No trabalho. A IA que promete eficiência é a mesma que desemprega, precariza e concentra ainda mais riqueza nas mãos de poucos. A “destruição criativa” do capitalismo, em sua fase atual, tem um componente explicitamente anti-humano.

Na política. A democracia representativa, já corroída, é substituída por algoritmos que “sabem melhor” e por tecnocratas que não precisam de votos. O consentimento dos governados se torna uma formalidade incômoda.

No território. Os data centers que sustentam essa infraestrutura consomem água e energia de comunidades reais. As populações que perdem seus meios de vida para a crise climática são as mesmas que se espera que aceitem a narrativa de que “não há alternativa”.

No futuro. Talvez o mais grave: o capital fascista não oferece futuro algum. Klein e Taylor são explícitas: os supremacistas sobrevivencialistas não têm visão de um amanhã compartilhado. O que oferecem são “prazeres niilistas e sádicos de dominação”. 

A resistência possível 

Nenhum desses livros é uma sentença de morte. Lepore insiste que o Estado Artificial pode ser desmantelado, assim como outros sistemas hegemônicos foram. Klein e Taylor argumentam que a saída está em abraçar o “aqui e agora” — o hereness, em oposição à fuga para bunkers ou para o metaverso. 

Isso significa lutar por um futuro que não seja uma catástrofe acelerada, mas um projeto de vida compartilhada. Significa resistir à ideia de que o colapso é inevitável, porque essa ideia serve precisamente àqueles que lucram com ele. 

O capital fascista quer que acreditemos que não há alternativa. Os livros de Klein, Taylor, Lepore e Adelman mostram que há — e que a luta começa por nomear o que está acontecendo. 

 

 


 



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