A Justiça de Duas Velocidades
Lula foi condenado em 2017 e preso em abril de 2018, permanecendo 580 dias encarcerado em Curitiba. A condenação, imposta pelo então juiz Sergio Moro, foi posteriormente anulada pelo Supremo Tribunal Federal, que reconheceu que a 13ª Vara Federal de Curitiba não era o "juiz natural" dos casos. Mais grave ainda: o STF também decidiu que Moro agiu com parcialidade ao condenar Lula, configurando negação ao julgamento justo. As conversas vazadas pelo The Intercept Brasil em 2019 revelaram que o próprio Moro e procuradores da Lava Jato combinavam estratégias processuais por aplicativo de mensagens — ou seja, a condenação foi construída, não conquistada.
Enquanto isso, Flávio Bolsonaro, senador e filho do ex-presidente, enfrentou investigações sobre um esquema de "rachadinha" — desvio de parte dos salários de assessores — quando era deputado estadual no Rio de Janeiro. As investigações se arrastaram, e o caso segue em tramitação com recursos e manobras protelatórias. Não houve prisão, não houve execração pública midiática, não houve campanha para destruir sua imagem. A diferença de tratamento é escancarada.
A Fome Como Escolha Política
Lula fez da luta contra a fome o centro de seus governos. Em 2003, lançou o programa Fome Zero, que combinava transferência de renda (Bolsa Família) com incentivo à agricultura familiar, educação e saneamento. O resultado foi histórico: em 2014, o Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU, com a insegurança alimentar grave caindo para menos de 5% da população. O programa não era apenas assistencialista — era estruturante, porque exigia frequência escolar e acompanhamento de saúde das crianças beneficiadas.
O que aconteceu depois? A partir de 2016, com o impeachment de Dilma Rousseff e depois com o governo de Jair Bolsonaro, os gastos sociais foram cortados, programas desmontados e a economia priorizada em detrimento das pessoas. Em 2021, o Brasil voltou ao Mapa da Fome. Mais de 33 milhões de brasileiros passaram a conviver com a fome diária.
Jair Bolsonaro ainda tentou capitalizar politicamente o Auxílio Emergencial durante a pandemia, mas o programa foi marcado por hesitações: o governo propôs inicialmente apenas 200 reais mensais, o Congresso forçou o aumento para 600, e Bolsonaro demorou um mês para sancionar, além de vetar o benefício para grupos de trabalhadores que deveriam recebê-lo. Não foi política pública — foi cálculo eleitoral.
Números Que Doem
Os dados acadêmicos mostram que, durante os governos do PT (2003-2016), a renda de todas as classes cresceu, mas a dos pobres cresceu proporcionalmente mais. A participação de negros e pobres nas universidades saltou: entre 2003 e 2018, a proporção de estudantes brancos caiu de 59% para 43%, enquanto a de negros subiu de 34% para 51%. Isso significa que políticas de cotas e expansão do ensino superior funcionaram — e incomodaram profundamente a classe média tradicional, que via seu espaço social "invadido" por emergentes.
Após 2016, com o giro à direita, a renda de todas as classes caiu — exceto a do 1% mais rico. Os mais pobres foram os que mais perderam.
O Que Está em Jogo
Não se trata de defender Lula ou atacar Bolsonaro por questões partidárias. Trata-se de reconhecer que existe um projeto político que aposta na inclusão, na distribuição de renda e na dignidade dos mais pobres — e outro que aposta na concentração, na exclusão e no desprezo pelos vulneráveis. Trata-se de reconhecer que a mesma elite que aplaudiu a prisão de Lula sem provas sólidas agora silencia diante das evidências que cercam a família Bolsonaro.
Trata-se, acima de tudo, de reconhecer que a fome voltou ao Brasil, que milhões de crianças dormem sem jantar, e que isso não é acidente — é resultado de escolhas políticas deliberadas. E quem escolheu cortar programas sociais, quem escolheu priorizar o agronegócio exportador em detrimento da agricultura familiar, quem escolheu ignorar a pandemia enquanto ela matava, não pode fingir surpresa com os números da miséria que ajudou a criar.
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