
- Nicholas Barber
- BBC Culture
- Tempo de leitura: 4 min
Será que algum ator tão bonito quanto Robert Pattinson já interpretou tantos personagens feios por dentro?
Ele levou alguns anos para encontrar papéis que combinassem com ele depois que a franquia Crepúsculo o transformou em um ídolo adolescente, mas filmes como Bom Comportamento, O Farol, Mickey 17 e Morra, Amor o consolidaram como um dos grandes nomes do cinema de arte contemporâneo.
Ele também brilhou em filmes mais convencionais e de grande visibilidade, especialmente em Batman, mas, em geral, prefere não ser o protagonista heroico, escolhendo em vez disso os papéis menos favoráveis que se possa imaginar: é uma verdadeira galeria de perdedores, mentirosos e sujeitos repulsivos à beira do colapso.
Ele parece se divertir interpretando personagens desagradáveis — e, porque se diverte tanto com isso, nós também nos divertimos.
Assim tem sido o ano de Pattinson, com atuações para saborear em The Drama e A Odisseia (e Duna: Parte Três, ainda por vir). Mas nenhum filme parece combinar tanto com seu estilo maliciosamente excêntrico quanto Primetime, uma sátira sombria e surreal da mídia que estreou neste sábado (5/9) no Festival de Veneza.

Primeiro longa de ficção de Lance Oppenheim, que antes dirigia documentários, Primetime certamente será candidato ao Oscar, embora possa ser um concorrente controverso.
O filme é inspirado na história real de Chris Hansen, jornalista americano vencedor do Emmy, e no seu programa de televisão mais famoso, To Catch a Predator (Capturando um Predador, em tradução livre), exibido na rede de televisão NBC de 2004 a 2007.
O programa realizava operações de flagrante contra homens possivelmente pedófilos, que faziam planos para abusar sexualmente de menores.
Os integrantes da equipe se passavam por adolescentes em conversas on-line com homens adultos e, depois, marcavam encontros com eles. Quando os homens chegavam às casas de suas supostas vítimas, porém, o elegante Hansen aparecia tranquilamente, acompanhado de uma equipe de câmeras, e perguntava, com uma polidez devastadora, no que eles estavam pensando.
O próprio Hansen não participou da produção de Primetime e criticou o filme sem sequer tê-lo visto. Isso não o impediu de tirar algum proveito da situação: ele pagou para exibir anúncios antes de todas as sessões do filme nos cinemas americanos, incentivando os espectadores a assistir depois ao seu próprio serviço de streaming.
Mas o mais provável é que ele não goste muito da maneira como é retratado.
O roteiro, escrito por Ajon Singh, apresenta To Catch a Predator como o marco do fim de uma era da televisão — Friends, fenômeno das séries de comédia, encerrou sua trajetória de dez temporadas em 2004 — e do início de uma nova e sombria era dos reality shows.
Afinal, o que poderia ser mais sombrio do que transformar a exposição de criminosos sexuais em entretenimento eletrizante?
O Hansen do filme fica eufórico quando seu programa é transferido para um horário nobre, no começo da noite, se vangloriando de que poderá ser visto por mais espectadores do que Lost.
Mas será que ele deveria mesmo estar pulando de alegria por prender e humilhar pessoas na televisão, por mais abomináveis que elas sejam?
E será que ele ou sua produtora, fria e implacável (interpretada por Merritt Wever), se importam com os "iscas" adultos usados pelo programa (Skyler Gisondo e Phoebe Bridgers), que têm a perturbadora tarefa de fingir que são pré-adolescentes?

Não há nada de radical na mensagem de Primetime: ao lado de Ink, novo longa do diretor Danny Boyle, é um dos dois filmes em Veneza que lamentam a chegada de uma nova forma de sensacionalismo midiático.
O que o torna tão envolvente é que não se trata de um drama convencional, mas de uma comédia de humor negro, exagerada e alucinante. Em vez de detalhar o passado de Hansen ou a criação de To Catch a Predator, o filme nos joga no meio de um pesadelo febril em que tudo é perfeitamente crível e, ao mesmo tempo, perturbadoramente estranho.
Pattinson encarna esse tom vertiginoso. Como em tantos de seus filmes, sua atuação em Primetime é exagerada e teatral sem jamais se tornar afetada. Ele mergulha completamente na estranheza do personagem. Interpreta Hansen como um sujeito escorregadio e repulsivo, às vezes bufão em sua autoconfiança, às vezes sinistro e às vezes à beira da loucura.
Em entrevista à BBC ontem, em Veneza, Oppenheim descreveu sua versão de Hansen como uma mistura de Jerry Maguire e Drácula.
A chave talvez esteja no fato de que Pattinson nunca nos pede para simpatizar com o personagem. Na verdade, parece perfeitamente à vontade com a ideia de que o detestemos. Ainda assim, é um prazer assisti-lo.
Esta é a melhor atuação até agora do ator mais intrigante de sua geração.
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