SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

FORMAÇÃO INTERDISCIPLINAR EM ECONOMIA ECOLÓGICA: CURRÍCULOS FRACTAIS, COMPLEXIDADE E TERRITÓRIO.





1. INTRODUÇÃO

A emergência climática e a degradação acelerada dos ecossistemas colocam em xeque os modelos tradicionais de formação profissional, especialmente aqueles que operam sob a lógica da fragmentação disciplinar. A Economia Ecológica, enquanto campo do conhecimento que articula economia, sociedade e natureza, exige uma abordagem formativa capaz de transcender as fronteiras convencionais entre as ciências. O curso de graduação em Economia Ecológica da Universidade Federal do Ceará (UFC), pioneiro no Brasil e único no mundo, nasce precisamente desse pressuposto: a compreensão das relações entre ambiente, economia e sociedade demanda um diálogo permanente entre as Ciências Naturais, Humanas e Agrárias.

Esta pesquisa propõe uma reflexão sobre o plano pedagógico do curso de Economia Ecológica da UFC a partir de uma perspectiva interdisciplinar, tendo como fio condutor a trajetória formativa de um estudante que cursou disciplinas em diferentes unidades acadêmicas da universidade — Faculdade de Direito (Direito Ambiental), Faculdade de Filosofia (Ética), Geografia (Cartografias Sociais), Faculdade de Medicina (Desenvolvimento Humano: Ciência, Saúde Mental e Comunicação), Economia (Teoria dos Jogos), Geologia (Espaço Brasileiro) e Biologia (Ecologia de Ecossistemas). Essa experiência, marcada pela circulação entre saberes aparentemente distantes, revela potências e desafios da formação interdisciplinar em um contexto de pobreza territorial e vulnerabilidade climática.

O objetivo central é discutir como currículos não lineares, complexos e com estrutura fractal podem contribuir para a formação de economistas ecológicos mais bem preparados para os desafios do século XXI, tendo os territórios impactados pela pobreza e pelas mudanças climáticas como campos privilegiados de ensino, pesquisa e extensão.


2. A ECONOMIA ECOLÓGICA E A INTERDISCIPLINARIDADE NA UFC

O curso de Economia Ecológica da UFC, ofertado desde 2015 pelo Centro de Ciências Agrárias, tem como marca distintiva uma estrutura curricular interdisciplinar que incorpora interseções e fronteiras de diversos campos do conhecimento. Segundo o guia de profissões da UFC, o curso forma profissionais com "elevada consciência ecológica e profundo respeito aos biomas e à cultura local", capacitando-os a "compreender e examinar as relações entre ambiente, economia e sociedade e os impactos ecossistêmicos gerados pelas atividades humanas sobre a natureza".

A estrutura curricular reflete essa vocação interdisciplinar. Nos primeiros semestres, disciplinas como Antropologia Econômica, Formação Socioeconômica Geral, Economia Política e Natureza, Formação do Território Brasileiro e Poluição Ambiental estabelecem as bases de um diálogo entre ciências sociais, economia e ciências da natureza. Nos períodos finais, componentes como Geoprocessamento, Cartografia Social, Mundialização do Capital, Financeirização da Natureza e Direito Ambiental aprofundam essa interseção. As disciplinas optativas — Políticas Agrárias e Agroalimentares, Pensamento Econômico Ecológico Contemporâneo, Populações Tradicionais, Direitos Humanos e Políticas Públicas — ampliam ainda mais o espectro formativo.

Um elemento particularmente relevante para esta pesquisa são as disciplinas Trabalho de Campo Integrado I, II, III, IV e V, que "incentivam o contato com diferentes realidades territoriais e englobam métodos participativos para diagnóstico, planejamento, projetos de estudo e intervenção, monitoramento e avaliação da intervenção e sistematização de experiências". Essa ênfase no trabalho de campo e na imersão territorial antecipa uma das teses centrais deste trabalho: o território como lócus privilegiado da formação interdisciplinar.


3. DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS: MUDANÇAS CLIMÁTICAS E A NECESSIDADE DE NOVOS CURRÍCULOS

As mudanças climáticas constituem um desafio mundial de grandes proporções, que compromete vidas, economias e a integridade do ambiente de todas as nações. A complexidade desse fenômeno decorre das inter-relações entre múltiplos fatores naturais e antrópicos, o que torna insuficientes as abordagens fragmentadas e disciplinares. Como observam Jacobi e colaboradores, a ênfase em práticas que estimulam a interdisciplinaridade e a transversalidade revela o grande potencial para superar o "lugar comum" e promover um trabalho efetivo com a questão climática.

Nesse contexto, a formação de economistas ecológicos não pode se limitar ao domínio de ferramentas econômicas ou ecológicas isoladamente. É necessário desenvolver competências para a compreensão sistêmica, o diálogo entre saberes e a atuação em territórios concretos, onde pobreza, vulnerabilidade socioambiental e mudanças climáticas se interseccionam. A pergunta que orienta esta pesquisa é: como os currículos podem responder a essa complexidade sem reproduzir a lógica fragmentadora que produziu a própria crise?

A resposta passa, necessariamente, pela adoção de modelos curriculares que rompam com a linearidade e a rigidez dos currículos tradicionais. Como aponta a literatura, o currículo do século XIX — "estático, linear e estandardizado" — mostra-se inadequado para os desafios contemporâneos, sendo necessário um currículo "não linear e dinâmico e flexível e com foco na aprendizagem mais personalizada". Essa visão de currículo não linear, não individualizada, mas interdisciplinar, voltada para a inclusão de novos saberes, encontra ressonância direta na proposta formativa da Economia Ecológica.


4. CURRÍCULOS FRACTAIS, NÃO LINEARES E COMPLEXOS: REFERENCIAIS TEÓRICOS

4.1 A metáfora do currículo fractal

A ideia de currículo fractal emerge como uma das metáforas que expressam "uma forma relativamente nova de se conceber o conhecimento, em uma perspectiva pós-moderna". Ao lado do currículo em espiral e do currículo em rede, o currículo fractal propõe uma organização do conhecimento que se reproduz em diferentes escalas, mantendo uma estrutura similar que permite a recursividade e a adaptação.

Aplicado à formação em Economia Ecológica, o currículo fractal sugere que os princípios fundamentais — a relação economia-sociedade-natureza, a sustentabilidade ecológica como horizonte, a justiça socioambiental como eixo — devem estar presentes em diferentes níveis e momentos da formação, desde as disciplinas introdutórias até os trabalhos de campo e o TCC. Cada componente curricular, em sua especificidade, reflete e aprofunda a totalidade do curso, assim como cada fractal reproduz em sua estrutura a forma do todo.

4.2 Complexidade e religação dos saberes

O paradigma da complexidade, formulado por Edgar Morin, oferece um arcabouço teórico fundamental para a compreensão da formação interdisciplinar. Morin argumenta que a complexidade favorece o surgimento dos conhecimentos interdisciplinar e transdisciplinar, na medida em que reconhece a tecitura de relações, interações e retroações entre os fenômenos. Pensar a religação dos saberes é, nessa perspectiva, um desafio necessário ao nosso tempo.

A Economia Ecológica, por sua própria natureza, opera nesse terreno da complexidade. Ela não pode ser reduzida a uma disciplina econômica com adjetivo ecológico, nem a uma ecologia com ferramentas econômicas. Ela é, antes, um campo de interseção que exige o diálogo entre epistemologias, metodologias e práticas diversas. A formação do economista ecológico deve, portanto, cultivar a capacidade de transitar entre diferentes linguagens e modos de conhecimento, sem perder de vista a totalidade das relações que constituem os problemas socioambientais.

4.3 A abordagem da topografia curricular

Uma contribuição relevante para o debate sobre currículos e mudanças climáticas vem da proposta de "topografia curricular" desenvolvida por Tristan McCowan. O autor sugere que o papel da universidade não é "ensinar mudança climática", mas "curar um ambiente diverso de experiências de aprendizagem". Nesse modelo, a aprendizagem é distribuída em três espaços — sala de aula, campus e comunidade — e caracterizada por dimensões de acesso (disponibilidade, voluntariedade, continuidade), pertencimento (agência, maleabilidade, certificação) e conexão (inserção, aplicação, disciplinaridade, transmodalidade, colaboração e experiencialidade).

Essa abordagem ressoa profundamente com a experiência do curso de Economia Ecológica da UFC, especialmente com as disciplinas de Trabalho de Campo Integrado, que ampliam o espaço formativo para além da sala de aula, inserindo os estudantes em territórios concretos. A topografia curricular reconhece que diferentes contextos institucionais e territoriais produzem diferentes "topografias" de aprendizagem, mas mantém princípios normativos fundamentais: "construir sobre o conhecimento existente dos estudantes, criticidade, não-coerção e pluralismo epistêmico".


5. O TERRITÓRIO COMO CAMPO DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO

A indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão é um princípio constitutivo da universidade brasileira. Contudo, sua efetivação demanda mais do que a justaposição de atividades; exige que o território seja pensado como lócus da formação. Como argumenta a literatura, "pensar uma ciência conectada com a sociedade implica necessariamente a articulação entre ensino, pesquisa e extensão pensando o território como locus de" produção de conhecimento.

A extensão universitária, nesse contexto, "se integra de forma orgânica ao ensino e à pesquisa, e estabelece uma relação recíproca", superando a visão assistencialista e assumindo um papel formativo central. O território deixa de ser mero cenário ou objeto de estudo para se tornar campo de experimentação, diálogo e cocriação de saberes. Essa perspectiva é particularmente relevante para a Economia Ecológica, que lida com territórios impactados pela pobreza e pelas mudanças climáticas — espaços onde os conhecimentos acadêmicos encontram os saberes tradicionais, as lutas populares e as experiências concretas de resistência e adaptação.

As disciplinas de Trabalho de Campo Integrado do curso de Economia Ecológica da UFC materializam essa visão. Ao promoverem o contato com diferentes realidades territoriais e métodos participativos, elas operam uma pedagogia da imersão, na qual o território é simultaneamente objeto de pesquisa, espaço de ensino e campo de extensão. Essa tripice dimensão — investigar o território, aprender com ele e intervir nele — constitui o núcleo de uma formação que se quer transformadora.


6. A TRAJETÓRIA FORMATIVA DO PESQUISADOR: UMA EXPERIÊNCIA INTERDISCIPLINAR

A experiência de cursar disciplinas em diferentes unidades acadêmicas da UFC — Direito Ambiental na Faculdade de Direito, Ética na Faculdade de Filosofia, Cartografias Sociais na Geografia, Desenvolvimento Humano na Faculdade de Medicina, Teoria dos Jogos na Economia, Espaço Brasileiro na Geologia, Ecologia de Ecossistemas na Biologia, entre outras — constitui um laboratório vivo da formação interdisciplinar que esta pesquisa busca analisar.

Cada uma dessas disciplinas aportou ferramentas e perspectivas específicas para a compreensão das questões socioambientais. O Direito Ambiental ofereceu o arcabouço normativo e os instrumentos de regulação. A Ética trouxe a dimensão valorativa e os fundamentos da justiça intergeracional. As Cartografias Sociais proporcionaram metodologias participativas de mapeamento e visibilização de saberes territoriais. O Desenvolvimento Humano, na perspectiva da saúde mental e comunicação, iluminou as dimensões subjetivas e relacionais dos processos de transformação. A Teoria dos Jogos contribuiu com modelos de interação estratégica em contextos de conflito e cooperação. O Espaço Brasileiro, na Geologia, forneceu a compreensão dos processos geo-históricos que moldam os territórios. A Ecologia de Ecossistemas aprofundou o entendimento dos ciclos, fluxos e dinâmicas dos sistemas naturais.

Essa trajetória, no entanto, não se resume à soma de conhecimentos. O que a torna significativa é a capacidade de estabelecer conexões entre esses diferentes saberes, de operar uma síntese que ultrapassa a mera justaposição disciplinar. É nesse sentido que a noção de currículo fractal se revela operativa: cada disciplina, em sua especificidade, reflete e aprofunda a totalidade da formação, contribuindo para a construção de um repertório complexo e integrado.

Ao mesmo tempo, essa experiência evidencia os desafios da formação interdisciplinar em uma estrutura universitária ainda organizada por departamentos e faculdades. A circulação entre cursos exige do estudante uma capacidade de autogestão, de construção de pontes e de tradução entre linguagens que nem sempre é prevista ou apoiada institucionalmente. A pergunta que se coloca é: como o projeto pedagógico do curso pode acolher e potencializar essas trajetórias não lineares, transformando a fragmentação institucional em recurso formativo?


7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A formação do economista ecológico para os desafios do século XXI exige uma profunda revisão dos modelos curriculares tradicionais. A interdisciplinaridade não pode ser um rótulo ou uma soma de disciplinas; ela precisa ser vivida como prática formativa, como experiência de trânsito entre saberes e como engajamento com territórios concretos.

Os currículos fractais, não lineares e complexos oferecem pistas importantes para essa revisão. Ao invés de uma sequência linear de disciplinas, eles propõem uma organização em rede, na qual os princípios fundamentais da Economia Ecológica — a relação indissociável entre economia, sociedade e natureza; a subordinação da eficiência econômica à sustentabilidade ecológica; o compromisso com a justiça socioambiental — perpassam toda a formação, em diferentes níveis e escalas.

O território, por sua vez, emerge como o campo privilegiado para essa formação. É nos territórios impactados pela pobreza e pelas mudanças climáticas que a interdisciplinaridade se torna uma necessidade prática, não apenas teórica. É ali que o diálogo entre saberes acadêmicos e populares, entre ciência e experiência, entre ensino e extensão, se torna indispensável para a construção de respostas efetivas.

A trajetória formativa aqui narrada — a circulação por diferentes unidades acadêmicas da UFC — é um testemunho das potências e dos desafios dessa formação interdisciplinar. Ela aponta para a necessidade de projetos pedagógicos que não apenas permitam, mas incentivem e estruturem essas trajetórias não lineares, reconhecendo-as como parte constitutiva da formação do economista ecológico.

Por fim, esta pesquisa sugere que o plano pedagógico do curso de Economia Ecológica da UFC, em seus dez anos de existência, já contém em germe muitas dessas inovações — especialmente nas disciplinas de Trabalho de Campo Integrado e na estrutura curricular que dialoga com múltiplas áreas do conhecimento. O desafio é aprofundar essa vocação, fortalecendo os mecanismos de integração curricular, ampliando as possibilidades de circulação interdisciplinar e consolidando o território como campo de ensino, pesquisa e extensão. É nessa direção que se aponta a formação de economistas ecológicos capazes de enfrentar a complexidade da crise climática com a complexidade que ela exige. 

 

REFERÊNCIAS 

CASTRO, G. de. O curso de graduação em Economia Ecológica, ofertado pela Universidade Federal do Ceará (UFC) desde 2015, é pioneiro e único no mundo. Revista Iberoamericana de Economía Ecológica, 2022. 

JACOBI, P. R. et al. Brasil - Mudanças climáticas e ensino superior: a ênfase em práticas que estimulam a interdisciplinaridade e a transversalidade. SciELO, 2014. 

McCOWAN, T. Climate change in higher education: a curriculum topography approach. Climate-U, Institute of Education, UCL, 2021. 

SILVA, C. G. da. Interdisciplinaridade em currículo e projetos: complexidade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade na educação superior. OJS Nova Paideia, 2022. 

SILVA, M. A. Organização curricular da matemática no Ensino Médio: a recursão e as metáforas do currículo em espiral, em rede e fractal. Ciência & Educação, 2013. 

Universidade Federal do Ceará. Economia Ecológica - Guia de Profissões. UFC, 2025. 

Universidade Federal do Ceará. Curso de Economia Ecológica - Centro de Ciências Agrárias. UFC, 2025. 

VIANA, E. de S. Currículo integrado e interdisciplinaridade: a interdisciplinaridade como estratégia para a formação integral no ensino superior. Revista DELOS, 2025. 

  

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