Linha de pesquisa: Teoria Crítica da Sociedade, Indústria Cultural e Processos Psicossociais (em diálogo com o Instituto de Pesquisa Social – IfS Frankfurt).
1. INTRODUÇÃO E PROBLEMATIZAÇÃO
O avanço da extrema-direita no Brasil na última década recolocou em pauta uma questão que se acreditava enterrada pela redemocratização: a resiliência de uma cultura política autoritária e violenta, enraizada em nosso processo histórico. Este projeto parte da hipótese central de que o fascismo contemporâneo no Brasil não é uma "importação" ideológica estrangeira, mas uma atualização algorítmica e digital de estruturas coloniais e escravocratas que nunca foram efetivamente superadas.
Entre 1949 e 1951, durante os estudos sobre a personalidade autoritária (The Authoritarian Personality), Theodor W. Adorno, Else Frenkel-Brunswik, Daniel Levinson e Nevitt Sanford aplicaram escalas psicométricas e entrevistas clínicas para compreender como o antissemitismo e a violência nazista estavam enraizados na cultura alemã, mesmo em uma nação com forte tradição humanista e filosófica. Eles descobriram que o potencial fascista não residia apenas em líderes carismáticos, mas em estruturas profundas de caráter, medo da diferença, obediência cega à autoridade e rigidez cognitiva – um "caldo cultural" que a indústria cultural (cinema, rádio, imprensa) sabia explorar e retroalimentar.
No Brasil, esse mesmo diagnóstico precisa ser adaptado e radicalizado. Diferentemente da Alemanha, a nossa formação social foi constituída a partir de uma violência fundacional: o extermínio de populações indígenas, a escravização de milhões de negros e a ocupação violenta de territórios para a exportação de bens primários. O sociólogo Jessé Souza e o historiador Sérgio Buarque de Holanda já apontaram que o "Estado" e a "cidadania" no Brasil sempre foram construídos de forma incompleta e excludente. Para mascarar esse abismo, a mídia de massa (do rádio de Getúlio Vargas à TV Globo) historicamente produziu uma "falsa identidade nacional" – uma democracia racial mitológica que subalternizava nordestinos, negros e indígenas, colocando-os como "obstáculos ao progresso" ou como "folclore pitoresco".
Hoje, a mídia de massa cedeu lugar às novas indústrias culturais: as plataformas de redes sociais (Facebook, WhatsApp, TikTok, YouTube) e os sistemas de Inteligência Artificial generativa (modelos de linguagem como ChatGPT, geradores de imagens como Midjourney). Essas tecnologias não são meras ferramentas neutras; elas operam com lógicas algorítmicas que priorizam o engajamento emocional, a polarização e a reprodução de vieses. A IA, em particular, treinada com enormes bases de dados textuais e históricas, tende a reproduzir o racismo epistêmico e os estereótipos coloniais enraizados nesses corpos, naturalizando discursos de ódio e revisionismo histórico.
2. JUSTIFICATIVA E RELEVÂNCIA
A relevância desta pesquisa é tríplice:
Teórica: Preenche uma lacuna nos estudos frankfurtianos contemporâneos, que ainda se concentram majoritariamente na realidade norte-americana e europeia, subexplorando como a teoria crítica pode dialogar com o pensamento decolonial e com a formação social periférica.
Empírica: Oferece um diagnóstico atualizado sobre como algoritmos e IAs estão reelaborando o racismo estrutural brasileiro em tempo real, gerando não apenas desinformação, mas uma nova "cultura fascista" cotidiana e capilarizada.
Política e Social: Subsidia a construção de políticas públicas de regulação de plataformas e de educação midiática, combatendo a erosão da democracia brasileira.
3. PERGUNTA DE PESQUISA
Como as novas indústrias culturais (redes sociais e Inteligência Artificial) reelaboram e potencializam, no Brasil contemporâneo, a estrutura autoritária e violenta enraizada na herança colonial e escravocrata, produzindo uma cultura fascista de massa semelhante em sua função psicossocial àquela diagnosticada pelos frankfurtianos na Alemanha do pós-guerra?
4. OBJETIVOS
Objetivo Geral
Analisar criticamente o papel das plataformas digitais e dos sistemas de IA enquanto novas indústrias culturais na produção e disseminação de uma cultura política de viés fascista e autoritário no Brasil do século XXI, tomando como fio condutor a permanência da violência colonial contra negros, indígenas e nordestinos.
Objetivos Específicos
Revisitar os conceitos centrais da Teoria Crítica frankfurtiana (indústria cultural, personalidade autoritária, racionalidade instrumental) e articulá-los com o debate decolonial latino-americano (Quijano, Mignolo, Segato).
Mapear e analisar discursos de ódio, narrativas revisionistas (negação da escravidão, minimização do genocídio indígena) e estereótipos regionais que viralizam nas principais redes sociais brasileiras.
Investigar, por meio de testes controlados (prompt engineering), como modelos de IA generativa (ex: ChatGPT, Gemini, modelos de imagem) reproduzem vieses racistas e colonialistas quando instados a descrever a história do Brasil ou figuras públicas negras/indígenas.
Comparar o funcionamento psicossocial da propaganda da indústria cultural tradicional (ex: programas de rádio e TV nos regimes militares) com a lógica de engajamento dos algoritmos atuais, evidenciando continuidades e rupturas.
Propor um modelo crítico de interpretação do fascismo digital brasileiro à luz da Teoria Crítica.
5. REFERENCIAL TEÓRICO
A pesquisa estabelecerá um diálogo intenso entre quatro eixos principais:
Eixo 1 – Teoria Crítica da Escola de Frankfurt:
Adorno, T. W., Frenkel-Brunswik, E., Levinson, D. J., & Sanford, R. N. (1950). The Authoritarian Personality. Nova York: Harper & Brothers. (Análise das escalas F, do antissemitismo e do etnocentrismo).
Horkheimer, M., & Adorno, T. W. (1947/2002). Dialética do Esclarecimento. (Capítulo sobre a Indústria Cultural: o esquematismo da produção cultural que padroniza e doméstica as consciências).
Adorno, T. W. (1967). A Indústria Cultural. (A ideia de que a cultura de massa integra os indivíduos ao sistema existente, neutralizando a capacidade crítica).
Eixo 2 – Pensamento Social Brasileiro e Decolonial:
Souza, J. (2017). A Elite do Atraso: Da Escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya. (Argumenta que a escravidão é o núcleo duro da formação social brasileira, produzindo uma "ralé" estrutural).
Schwarcz, L. M. (2019). Sobre o Autoritarismo Brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras. (Mostra como o autoritarismo é uma constante cultural, atualizado por diferentes regimes).
Quijano, A. (2005). Colonialidade do poder, Eurocentrismo e América Latina. In: A Colonialidade do Saber. (Fundamento para pensar a IA como produtora de colonialidade epistêmica).
Segato, R. (2012). Guerras e Guetos. (Sobre a pedagogia da crueldade e a violência estrutural contra corpos negros e indígenas).
Eixo 3 – Novas Indústrias Culturais, Algoritmos e IA:
Noble, S. U. (2018). Algorithms of Oppression: How Search Engines Reinforce Racism. Nova York: NYU Press. (Mostra como o viés racial está embutido nos mecanismos de busca e IA).
Zuboff, S. (2019). A Era do Capitalismo de Vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca. (Análise do modelo de negócios das plataformas, que mineram comportamentos e manipulam preferências).
Borges, R., & Cappelle, M. (2024). Estudos atuais sobre desinformação e extremismo digital no Brasil (levantamento de artigos da ANPOCS, Compós e FGV/IBER).
Eixo 4 – Teoria da Cultura de Massa e Mito da Democracia Racial:
Freyre, G. (1933). Casa-Grande & Senzala. (Embora criticado, é crucial como documento do mito da democracia racial que a mídia de massa adotou).
Ridenti, M. (2013). Brasilidade Revolucionária. (Análise da construção da identidade nacional pela indústria cultural brasileira).
6. METODOLOGIA
A pesquisa adotará uma abordagem qualitativa de caráter crítico-diagnóstico, combinando métodos da Teoria Crítica (Análise Imanente) com ferramentas de pesquisa digital e historiográfica. Dividir-se-á em três fases:
Fase 1 – Pesquisa Arquivística e Historiográfica (Anos 1):
Levantamento e análise de conteúdo de acervos de mídia de massa brasileira (Jornais: O Estado de S. Paulo, Correio da Manhã; Programas de rádio e TV da ditadura militar) que construíram estereótipos contra nordestinos, negros e indígenas.
Análise comparativa entre os discursos da "integração nacional" da década de 1970 e os discursos de ódio atuais.
Fase 2 – Etnografia Digital e Coleta de Dados em Redes Sociais (Anos 1 e 2):
Mapeamento de hashtags, comunidades (grupos de Facebook, canais do Telegram, perfis do TikTok) que propagam conteúdo revisionista ou de ódio racial/regional.
Análise de conteúdo categorial (baseada nas escalas de personalidade autoritária adaptadas) para identificar marcadores de etnocentrismo, agressividade verbal e obediência à autoridade.
Utilização de ferramentas como CrowdTangle (Meta) e APIs públicas para captura de posts virais.
Fase 3 – Testes de Viés em Inteligência Artificial (Ano 2):
Aplicação de uma bateria de prompts (comandos) em modelos de linguagem (ChatGPT 4, Gemini, Claude) e de geração de imagens (Midjourney, DALL-E).
Os prompts solicitarão descrições da história do Brasil, imagens de "brasileiros típicos", "lideranças políticas", "pessoas em situação de pobreza" etc.
Análise dos outputs para identificar padrões de estereótipo racial, regional e de classe, utilizando a técnica de critical algorithmic auditing (auditoria algorítmica crítica).
Fase 4 – Entrevistas em Profundidade (Ano 3):
Seguindo o modelo do círculo de entrevistas frankfurtiano (porém, com 30 a 40 sujeitos), serão realizadas entrevistas semiestruturadas com jovens usuários de redes sociais no Brasil, buscando compreender a internalização dos discursos autoritários veiculados digitalmente.
As entrevistas investigarão a estrutura de caráter (rigidez, ansiedade frente à diferença, projeção de culpa).
7. CRONOGRAMA DE EXECUÇÃO (48 MESES)
Período | Atividades |
1º ao 6º mês | Revisão bibliográfica aprofundada (Arquivo Frankfurt + Pensamento Social Brasileiro). Definição do corpus histórico de mídia de massa. |
7º ao 12º mês | Coleta de dados em acervos históricos (Biblioteca Nacional, Arquivo Público). Início da Fase 2 (mapeamento das redes sociais). Qualificação do projeto na universidade alemã. |
13º ao 18º mês | Finalização da coleta de dados históricos e digitais. Início dos testes de auditoria algorítmica com IA. Primeira análise preliminar dos dados. |
19º ao 24º mês | Conclusão dos testes de IA. Realização das entrevistas em profundidade (Fase 4) – com possibilidade de trabalho de campo no Brasil (financiamento via DAAD/CAPES). |
25º ao 30º mês | Análise intensiva dos dados (triangulação entre entrevistas, posts e outputs de IA). Escrita de dois capítulos teóricos. |
31º ao 36º mês | Redação dos capítulos analíticos (comparação entre o fascismo da mídia de massa e o fascismo digital). |
37º ao 42º mês | Finalização da redação da tese. Revisão e formatação. Submissão de artigos para periódicos (ex: Constellations, Cadernos CEBRAP, Novos Estudos). |
43º ao 48º mês | Preparação para a defesa. Defesa pública da tese. |
8. DIÁLOGO COM A PRODUÇÃO ACADÊMICA ATUAL
Este projeto não nasce no vazio; ele dialoga diretamente com pesquisas de ponta, tanto nacionais quanto internacionais:
No Brasil: A pesquisa dialoga com os trabalhos do Instituto de Estudos Avançados da USP (IEA) sobre desinformação climática e eleitoral; com o Grupo de Pesquisa em Teoria Crítica e Sociedade da UNICAMP (liderado por Rúrion Soares), que já revisita Adorno no contexto da crise política brasileira; e com o FGV DAPP, que mapeia redes de desinformação.
Internacionalmente: Alinha-se ao Institute for Social Research (IfS) em Frankfurt, que atualmente possui projetos sobre "Algorithmic Governance" e "Digital Authoritarianism". Dialoga também com a International Consortium of Critical Theory Programs (UC Berkeley) e com os estudos da Rita Segato (UnB) sobre a pedagogia da crueldade.
Confluência inovadora: Enquanto a maioria dos estudos sobre IA e viés foca em língua inglesa e dados norte-americanos (Noble, Benjamin), ou em desinformação eleitoral (Zuckerberg, Arora), esta pesquisa inova ao conectar três elementos raramente articulados: (1) a profundidade histórica da violência colonial brasileira, (2) a teoria crítica do fascismo como fenômeno psicossocial de massa, e (3) a materialidade algorítmica dos modelos de IA. Essa tríade oferece um novo paradigma interpretativo para a América Latina.
9. PRODUÇÃO INTELECTUAL ESPERADA
Tese principal (em alemão ou inglês) a ser defendida na Universidade Goethe.
1 a 2 artigos em periódicos internacionais Qualis A1 (ex: Theory, Culture & Society; Sociological Review).
1 artigo em periódico brasileiro de excelência (ex: Dados, Revista Brasileira de Ciências Sociais).
Capítulo de livro sobre colonialidade algorítmica e fascismo digital.
Relatório técnico com diretrizes para regulação de IA no Brasil (a ser ofertado a órgãos como o Ministério da Igualdade Racial e a ANPD).
10. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS PRELIMINARES
ADORNO, T. W.; FRENKEL-BRUNSWIK, E.; LEVINSON, D. J.; SANFORD, R. N. The Authoritarian Personality. New York: Harper & Brothers, 1950.
ADORNO, T. W. Indústria Cultural e Sociedade. São Paulo: Paz e Terra, 2002.
HORKHEIMER, M.; ADORNO, T. W. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.
NOBLE, S. U. Algorithms of Oppression: How Search Engines Reinforce Racism. New York: NYU Press, 2018.
SCHWARCZ, L. M. Sobre o Autoritarismo Brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
SOUZA, J. A Elite do Atraso: Da Escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017.
ZUBOFF, S. A Era do Capitalismo de Vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2019.
SEGATO, R. La crítica de la colonialidad en ocho ensayos. Buenos Aires: Prometeo, 2013.
QUIJANO, A. Colonialidade do poder, Eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, E. (Org.). A Colonialidade do Saber. Buenos Aires: CLACSO, 2005.
BENJAMIN, R. (Ed.). Captivating Technology: Race, Carceral Technoscience, and Liberatory Imagination in Everyday Life. Duke University Press, 2019.
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