Nas eleições brasileiras de 2026, os candidatos da direita estão vendendo a "mudança" como patente própria. Mas ao abrir seus programas, a tal "novidade" não passa de refilmagem de roteiro antigo: Flávio Bolsonaro promete cortar dez ministérios, retomar privatizações em larga escala e transformar o financiamento da educação em vouchers para escolas privadas; o "Plano Implacável" de Romeu Zema é ainda mais explícito — vender tudo o que for possível, sair do BRICS e até propor que cada recém-nascido receba mil reais para comprar ações, com o belo nome de "educação financeira".
O denominador comum dessas propostas é claro: reduzir a capacidade do Estado e usar o dinheiro economizado para pagar juros da dívida, não para servir ao povo. Os dados mostram que, só em janeiro de 2026, o governo brasileiro pagou 63,6 bilhões de reais em juros da dívida — o equivalente a um quarto do orçamento anual da saúde. O projeto de "Estado mínimo" da direita é, na essência, entregar mais espaço fiscal aos credores e menos recursos a escolas e hospitais.
Se a esquerda se limita a dizer "não queremos isso", está longe de ser suficiente. O Brasil precisa de um programa alternativo igualmente concreto, com a mesma imaginação institucional. E é exatamente aí que está o vazio atual.
Olhando para o mundo, as referências da esquerda não são escassas.
A experiência chilena ensina o limite do "governo defensivo". Em 2026, parlamentares do Partido Comunista do Chile declararam, na posse, que diante de um governo de direita sua tarefa é "defender o que já foi conquistado, não ceder". Resistir é necessário, mas resistir não é governar. A ex-candidata presidencial da esquerda chilena, Jeannette Jara, admitiu em sua autocrítica que a esquerda precisa de uma "autocrítica incômoda" e precisa voltar a ser maioria "no plano cultural, não apenas no eleitoral". A postura puramente defensiva não responde a uma pergunta fundamental: para onde a esquerda quer levar o país?
O Partido del Trabajo (PT) do México mostra outro caminho: fazer uma governança "pequena e concreta" no nível local. No município de Compostela, em Nayarit, após catorze anos de organização comunitária, o projeto habitacional "Vista Hermosa" promovido pelo PT finalmente foi aprovado, garantindo a mais de quinhentas famílias titularidade da terra e o direito de construir. Em Chilón, Chiapas, o PT fortalece conselhos de base, fazendo de comunidades indígenas, jovens e mulheres sujeitos da participação política, e não receptores passivos de políticas públicas. Não são vitórias de grande narrativa, mas são a base da credibilidade da governança de esquerda — a prova de que a ação pública pode mudar vidas concretas.
A "política de tijolo por tijolo" do prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, oferece uma referência mais direta. Ao completar cem dias de governo, esse prefeito que se define socialista democrático disse o seguinte: "Se o governo não consegue fazer bem as pequenas coisas, por que o povo acreditaria que ele fará as grandes?" Seu plano habitacional é ambicioso — construir ou preservar 400 mil moradias acessíveis, ampliar a proteção aos inquilinos, acelerar licenças. Mas ele reconhece que promessas grandiosas como transporte público gratuito exigem, diante da realidade fiscal, "pilotos" e "negociação". A estratégia de Mamdani é acumular confiança com entregas concretas, não a esgotar com slogans. Esse "socialismo pragmático" não é traição ao ideal, mas honestidade diante da complexidade de governar.
Bernie Sanders oferece a imaginação de desenho institucional. Seu projeto de "Fundo Soberano de IA dos Estados Unidos" propõe uma taxação única de 50% sobre as maiores empresas de IA, com as ações depositadas num fundo soberano gerido por um conselho independente, para que o público tenha participação direta na indústria de IA e use os dividendos para financiar saúde, educação e moradia. Ele também defende a jornada de 32 horas semanais, com o argumento de que os ganhos de produtividade trazidos pela IA e pela automação devem ser compartilhados com os trabalhadores, não ficar inteiramente com os acionistas. A via de Sanders não é "oposição ao progresso técnico", mas "colocar o progresso técnico a serviço do público". Essa é a postura que a esquerda deve ter diante da economia do século XXI — não nostalgia, mas ocupar os altos institucionais do futuro.
Juntando essas pistas, o projeto de futuro da esquerda brasileira pode ter alguns pilares:
Primeiro, transformar a "reindustrialização" e a "soberania digital" em narrativa econômica da esquerda, e não patente da direita. Se Sanders pode propor um fundo soberano para capturar o valor público da IA, por que o Brasil não poderia considerar mecanismos semelhantes? O Brasil tem dados, energia e mercado; o que falta são instrumentos institucionais para trancar o valor gerado por recursos públicos num fundo de interesse coletivo. O plano da direita é "vender"; o da esquerda pode ser "ter, e fazer cada pessoa receber sua parte".
Segundo transformar o "espaço fiscal" de questão técnica em questão política. Toda a narrativa econômica da direita se apoia numa premissa: os juros da dívida pública são uma "lei natural" inegociável. Mas o fato é que o gasto com juros é uma escolha política — que opta por proteger credores em vez de contribuintes. A esquerda precisa dizer com clareza: cada corte de imposto para os ricos, cada manutenção de uma Selic exorbitante, é dinheiro tirado do orçamento de escolas, postos de saúde e transporte público. A questão não é "se há dinheiro", mas "para quem o dinheiro é gasto".
Terceiro, fazer da "governança comunitária" a base da legitimidade da esquerda no poder. O projeto habitacional do PT mexicano levou catorze anos, mas seu valor não está na velocidade, e sim em provar que o modelo de governança de esquerda pode produzir ativos reais, visíveis e pertencentes ao povo. A esquerda brasileira precisa de mais "obras demonstrativas" assim — não simbólicas, mas replicáveis: farmácias públicas municipais, fundos comunitários de terra, projetos cooperativos de energia. Sucessos em pequena escala convencem mais politicamente do que discursos em grande escala.
Quarto, recusar a "política identitária defensiva" e construir uma "política material da maioria". A dificuldade da esquerda chilena decorre em parte disso: após a derrota eleitoral, a narrativa se concentrou excessivamente em "barrar a direita", e não em "por que votar em nós". A esquerda brasileira precisa de um programa que faça o eleitor não ideológico — aquele que só se preocupa com preços, emprego e a escola dos filhos — enxergar seu próprio interesse. Isso significa que a esquerda precisa ser protagonista da "política do custo de vida", e não apenas tomar posição em pautas culturais.
A "novidade" da direita é falsa. Sua "mudança" é andar para trás — voltar ao velho consenso do Estado mínimo e do mercado onipotente. Mas a esquerda não pode ganhar apenas dizendo "eles mentem". Precisa de um programa alternativo igualmente claro, igualmente concreto, igualmente verificável: um projeto de futuro que use recursos públicos para fins públicos, que coloque o progresso técnico a serviço da prosperidade compartilhada e que centre a governança na vida cotidiana das pessoas.
Não é a defesa à moda chilena, não é o localismo à moda mexicana, e não é exatamente o modelo de Nova York ou de Vermont. Precisa ser brasileiro — mas seu núcleo espiritual é comum: a política de esquerda é, no fundo, a política de "quem se beneficia da riqueza do país". A resposta tem de ser: todos, e não apenas credores, acionistas e quem pode pagar escola privada.

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