O cenário que hoje muitos descrevem é uma imaginação geopolítica baseada na metáfora da "véspera da Primeira e segunda Guerra Mundial", cuja intuição central — disputa entre grandes potências, competição por recursos, polarização ideológica e risco crescente de conflitos por procuração — tem base real. Mas equiparar diretamente a situação atual a 1914 envolve riscos analógicos significativos: a existência de dissuasão nuclear, a profundidade da interdependência econômica e a consciência de autonomia estratégica dos países do Sul Global tornam difícil a reprodução simples da lógica da "velha guerra imperialista". Apesar do poderio americano.
No entanto, várias tendências concretas são reais: ascensão de forças populistas de esquerda e direita em vários países, aceleração da transferência de tecnologia chinesa para a África, fortalecimento do controle americano sobre a América Latina em nome da segurança, e o Brasil se tornando foco de disputa entre grandes potências por minerais críticos. A resposta racional a essas tendências não está em "preparar-se para a guerra", mas em converter a dotação de recursos em trunfo estratégico, em vez de ser um objeto passivo de disputa.
I. Decomposição dos fenômenos: o que é fato e o que é narrativa
O avanço eleitoral da esquerda e de socialistas de fato existe, mas é preciso distinguir "avanço simbólico" de "mudança estrutural". A vitória do candidato socialista Mamdani para Prefeito de Nova York sobre o congressista incumbente tem significado simbólico na política americana. Jones Manoel, como influenciador de esquerda com milhões de seguidores, tem capacidade real de mobilização na eleição para deputado federal no Brasil, com financiamento de campanha quase todo proveniente de pequenas doações coletivas. Na Europa, forças de direita também estão em ascensão na França e na Holanda, não havendo uma guinada unilateral à esquerda. Esses fenômenos apontam conjuntamente para o enfraquecimento generalizado dos partidos tradicionais de centro-esquerda e centro-direita em escala global, e não para um renascimento do comunismo.
A cooperação tecnológica e industrial entre China e África está se acelerando, mas o número. Em 2025, o comércio China-África atingiu 348 bilhões de dólares, com crescimento de 17,7% em relação ao ano anterior. A China implementou tratamento tarifário zero para 53 países africanos com relações diplomáticas, e a cooperação em IA já chegou a sistemas inteligentes de alerta meteorológico na Etiópia e no Djibuti. Representantes da União Africana afirmaram claramente que o objetivo da África é passar de "exportar matérias-primas" para "produzir manufaturados", e de "gerar dados brutos" para "produzir inteligência processada". Esta é uma tendência real de transferência industrial, impulsionada mais pela externalização de capacidade produtiva da China e pela necessidade de diversificação de cadeias de suprimento do que por uma narrativa pura de "libertação".
O controle americano sobre a América Latina está sendo fortalecido em nome da "securitização". A aliança "Escudo das Américas" é liderada pelos EUA, com participação de 14 países latino-americanos, usando o combate a cartéis de drogas como justificativa pública, mas análises especializadas indicam que seu objetivo real é impedir a expansão da influência econômica chinesa na América Latina. A aliança já classificou o PCC e o CV do Brasil como "organizações terroristas" e planeja levar a proposta à Organização dos Estados Americanos, tentando obter uma cobertura legal para intervenção militar por meio do Tratado do Rio.
O atributo de "mina de ouro" do Brasil está sendo confirmado institucionalmente. O Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo. O Senado aprovou um projeto de lei de regulamentação de minerais críticos, criando um fundo de garantia de 2 bilhões de reais (cerca de 391 milhões de dólares) e incentivos fiscais de 5 bilhões de reais (cerca de 978 milhões de dólares), com o objetivo explícito de impedir a repetição da história em que "a América Latina exportava apenas ouro e prata como matéria-prima". A postura de Lula é clara: "O Brasil vai cooperar com todos os países dispostos a participar — Estados Unidos, China, Alemanha, França."
A vulnerabilidade financeira é de fato o ponto fraco do Brasil. Relatório da Moody's aponta que o Brasil precisa de um ajuste fiscal adicional equivalente a 2,6% do PIB para estabilizar a dívida, enquanto enfrenta a pressão das importações chinesas sobre a indústria local e o risco de "desindustrialização". A taxa de endividamento das famílias chega a 80,4%, e o poder de compra da moeda perdeu cerca de 90% desde 1994.
II. O risco da analogia: por que "1914" é um quadro perigoso
Equiparar a situação atual à véspera da Primeira Guerra Mundial tem como problema principal confundir a lógica da "competição" com a da "guerra".
O mundo de 1914 não tinha armas nucleares, e os decisores das grandes potências acreditavam que a guerra seria "breve e decisiva". Hoje, a dissuasão nuclear tornou o custo de um conflito militar direto entre grandes potências insuportável. Mais importante ainda, a natureza da interdependência econômica mudou: o comércio de 1914 era principalmente de produtos acabados, enquanto as cadeias de suprimento de hoje são fragmentadas e profundamente entrelaçadas, e cortá-las significa sofrimento simultâneo para todos os envolvidos.
Outra diferença crucial é a consciência de autonomia estratégica do Sul Global. O Brasil não foi convidado a integrar o "Escudo das Américas" e mantém cautela em relação a ele. A postura de Lula de contatar simultaneamente EUA e China indica que potências médias estão usando a competição entre grandes potências para obter benefícios próprios, em vez de escolher lados passivamente. Isso difere essencialmente da situação de 1914, quando países dos Bálcãs eram manipulados por grandes potências.
A narrativa de que "a guerra serve para ocupar territórios" precisa ser especialmente cautelosa na área de recursos. O verdadeiro risco dos minerais críticos brasileiros não é a ocupação militar, mas o "aprisionamento" financeiro — por meio de dívidas, aquisição de participações, acordos de compra de longo prazo, transferindo gradualmente a soberania sobre recursos. A aquisição da Serra Verde, única produtora comercial de terras raras do Brasil, pela empresa americana USA Rare Earth por 2,8 bilhões de dólares é um caso típico desse "controle não militar".
III. O que pode ser feito: de "objeto de disputa" a "sujeito do jogo"
Primeiro, tratar a "cadeia industrial completa" dos minerais críticos como estratégia nacional, em vez de parar na etapa de extração. O projeto aprovado pelo Senado brasileiro já contém o quadro correto: usar incentivos fiscais para estimular processamento e transformação locais, e usar um comitê nacional para revisar o controle estrangeiro sobre direitos minerários estratégicos. O ponto crítico está na execução: quando Lula diz "não repetir a história do ouro e da prata", isso significa rejeitar o modelo de exportação pura de matéria-prima. Se as terras raras forem enviadas apenas na forma de óxidos para a China ou os EUA, o Brasil permanecerá na base da cadeia de valor. O verdadeiro trunfo está na capacidade de processamento, trabalhadores técnicos e poder de precificação.
Segundo institucionalizar a "aposta múltipla", em vez de oscilar de forma oportunista. A estratégia de Lula de contatar simultaneamente EUA, China, Alemanha e França é correta, mas precisa de mecanismos de hedge institucionalizados: assinar acordos de cooperação diferenciados com diferentes parceiros, evitando que qualquer país obtenha acesso exclusivo. O memorando de minerais críticos assinado entre Brasil e Índia é um ponto de partida. A cooperação tecnológica no âmbito do BRICS e a parceria de transição verde com a UE podem servir como ferramentas de equilíbrio.
Terceiro, encarar a restrição fiscal com realismo, mas rejeitar a autolimitação do tipo "austeridade". A necessidade de ajuste fiscal de 2,6% do PIB apontada pela Moody's é real. Mas a forma de cortar gastos é crucial: se o corte for em educação e ciência e tecnologia, é repetir o "fracasso de desenvolvimento autofágico". O caminho racional é reconfigurar a estrutura de gastos — reduzir subsídios a setores ineficientes, aumentar investimentos em educação técnica, P&D e infraestrutura de cadeias produtivas. A China levou trinta anos para passar de atrasada em relação ao Brasil a maior economia do mundo, e o núcleo não foi o "996", mas a política industrial contínua e o investimento em educação.
Quarto, manter cautela em relação ao "Escudo das Américas", mas evitar cair na armadilha do "antiamericanismo como justiça". A intenção real da aliança é limitar a presença econômica chinesa na América Latina. A resposta racional do Brasil não é confronto aberto, mas buscar contrapesos processuais no âmbito da OEA, ao mesmo tempo em que acelera a integração econômica com o Mercosul e os países do BRICS, reduzindo a dependência de qualquer mercado único. Classificar o PCC e o CV como "organizações terroristas" é, em si, uma questão jurídica que exige tratamento prudente — uma vez aceito esse quadro, abre-se uma brecha legal para intervenção militar externa.
Quinto, as forças de esquerda precisam passar da "política de influenciador" para a "capacidade de governança". O fenômeno Jones Manoel mostra que as redes sociais podem disseminar eficientemente ideias de esquerda e mobilizar jovens. Mas a vitória eleitoral é apenas o começo. A vitória socialista em Nova York também enfrenta uma questão: como cumprir promessas no governo sem ser assimilado pelo establishment ou reprimido. Se a esquerda brasileira quiser formar uma alternativa eficaz nas eleições de 2026, precisará não apenas de influenciadores, mas de políticas industriais concretas, planos fiscais e equipes de governança.
No fim, a parte mais perigosa do cenário de "véspera da Primeira Guerra Mundial" não é a ameaça externa, mas a mentalidade passiva interna — ver a si mesmo como tabuleiro do jogo entre grandes potências, esperando ser disputado ou salvo. As terras raras, alimentos, recursos hídricos e minerais críticos necessários para a transição energética que o Brasil possui são de fato trunfos escassos na futura ordem global. Mas o valor desses trunfos depende de quem está na mesa de negociação, em que condições, e para os interesses de quem eles serão usados. Lula diz que "o Brasil quer ser o grande vencedor dessas riquezas". A palavra-chave nessa frase não é "riquezas", mas "Brasil".

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