SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sábado, 26 de setembro de 2026

A Escravidão Contemporânea

 


— Sobre a Continuidade do "Negócio Canibal" na Ordem Burguesa

A classe ociosa faz da lei uma corda, do capital uma marca a ferro. A liberdade é um grito vazio, e a servidão continua sendo o batimento cardíaco da época.

No Brasil colonial, existia uma figura nauseante: os capitães-do-mato. Eram, em geral, brancos pobres, mestiços ou escravizados alforriados que, por uma recompensa miserável e pela ilusão de ascensão social, caçavam seus próprios semelhantes fugidos da senzala. Era o embrião de uma dialética cruel: o oprimido comprado para se tornar cão do opressor, amarrando com correntes os seus iguais em troca de um osso. Não eram senhores, mas eram mais odiados que os senhores, porque encarnavam a traição do pobre contra o pobre, o apagamento completo da consciência de classe transformado em tragédia.

Hoje, as correntes da escravidão viraram contratos, e o chicote virou avaliação de desempenho. O antigo capitão-do-mato ressurge em novas formas — não mais como caçador de recompensas atrás de quilombolas, mas como o funcionário de pasta na mão, empunhando o slogan da "otimização da produtividade"; como o membro da classe média vestido em alfaiataria de grife, que fala em "inclusão social" enquanto serve aos interesses do capital financeiro. Eles vigiam o navio negreiro invisível a serviço das elites, mantendo a ordem por meio da servidão por dívida, da exploração por aplicativo e da mentira do "emprego".

A Farsa da Revolução Burguesa e a Libertação Sempre Adiada

O Brasil nunca completou nenhuma revolução burguesa de verdade. A "Revolução" de 1930 não foi um movimento progressista de destruição dos resquícios feudais, mas uma transferência de poder entre elites, um rearranjo de alianças de classe cujo objetivo nunca foi eliminar privilégios, mas preservá-los. Na outra ponta do espectro político, a chamada "esquerda" mergulhou repetidas vezes na mesma armadilha: por nunca ter acreditado de fato na força autônoma do povo, acabou escolhendo "administrar o capital" em vez de destruí-lo. Esse reformismo foi se transformando na visão de mundo de uma camada burocrática — uma aristocracia operária assalariada, com padrão de vida pequeno-burguês, que trai a classe trabalhadora.

Desse solo podre brotou essa criatura estranha chamada "centro-esquerda" ou "progressismo". Não é socialismo, nem sequer social-democracia — é um modo de governar castrado, aburguesado e completamente conivente com o capital financeiro. A "terceira via" de Clinton e Blair nos anos 90 não foi apenas uma traição à social-democracia, mas à própria democracia: entregou a política monetária a bancos centrais "independentes", submeteu as escolhas fiscais ao jugo da "confiança do mercado" e esvaziou o conteúdo real da escolha democrática em nome da "necessidade técnica". É exatamente isso a tecnocracia autoritária. Tecnocratas e democracia são inimigos naturais, porque a democracia pressupõe que o povo comum tem o direito de decidir tudo, enquanto o tecnocrata finge que só os "especialistas" merecem decidir.

Esse autoritarismo tecnocrático opera com igual desenvoltura nos governos ditos "de esquerda". Eles compram votos e paz social com transferência condicional de renda, ao mesmo tempo que mantêm os privilégios estruturais do capital financeiro e a "ordem" que os colocou no poder — uma ordem feita de Centrão, rentistas e mídia oligárquica. Vendem-se como "baluarte contra a barbárie da direita", quando na verdade são os donos do baluarte: vestem a escravidão com roupagem de gestão moderna, para que ela pareça "desenvolvimento", "inclusão", "progresso".

Trump e seus Aliados: A Face Hedionda do Autoritarismo Tecnocrático

A atual onda global de direita — o Trump americano, o Milei argentino, o bolsonarismo brasileiro — não se opõe a esse sistema, mas é sua expressão derradeira. Não é uma ameaça à "democracia", mas o relatório de autópsia de uma democracia do capital que já morreu. O capital financeiro não precisa mais da fachada da democracia liberal; ele precisa de homens fortes, de "violência terceirizada", de repressão às claras.

Entre a direita dita "antiglobalização" e o "centro" tecnocrático existe uma cumplicidade imunda. A direita se encarrega de inflamar o racismo, o machismo e o ódio às minorias, desviando assim o ódio de classe; a "esquerda" tecnocrática se encarrega, quando necessário, de erguer a bandeira da "democracia" para oferecer aos mesmos capitalistas a máscara civilizada do lucro. Ambos são faces do mesmo corpo em decomposição.

Por isso Trump não é anomalia. É sintoma. Ele simboliza o limite de democracia que o capital tolera e utiliza. Quando o descontentamento popular é forte demais para que a mentira tecnocrática o encubra, o capital muda para a face abertamente autoritária, mantendo o ritual absurdo da "eleição livre". O Centrão brasileiro domina essa arte: assina acordo com Bolsonaro e negocia com o governo Lula, e os R$ 5,1 bilhões em emendas de relator viram resgate de chantagem parlamentar — esse é o preço real da "democracia".

As Falsas Alternativas e o Verdadeiro Desafio

O desafio da verdadeira esquerda não é "gerir melhor o capitalismo", mas destruir radicalmente esse conjunto de relações sociais escravistas. Da colônia ao Centrão de hoje, a classe dominante deste país sempre operou do mesmo modo: aniquilar qualquer autonomia de classe que possa ameaçar seus privilégios, comprar qualquer líder que possa ser comprado, reprimir qualquer força que se recuse a ser comprada.

No Brasil, os tecnocratas da ordem inventaram uma fórmula perfeita: acalmar os explorados com política social, comprar os insatisfeitos com crédito e consumismo, sufocar a organização de classe com sindicatos e partidos burocratizados, e usar o Centrão — esse esgoto político — para garantir que toda legislação progressista seja diluída, chantageada e leiloada no Parlamento. Nesse sistema, a esquerda se parece cada vez mais com um peixe domesticado que pensa nadar no oceano, quando na verdade dá voltas dentro de um aquário.

Para derrotar essa ordem, não basta ganhar eleição, não basta ter "bons gestores". É preciso reconstruir uma política de independência de classe, recusar a lógica de "administrar o capital", arrancar a democracia das mãos dos tecnocratas e devolvê-la ao povo. Isso significa admitir com franqueza: este sistema apodreceu a ponto de não poder ser remendado — precisa ser destruído, não reformado.

Sem Palavras Finais

O chicote do capitão-do-mato ainda estala — só que agora ele se chama "disciplina de mercado". A senzala virou "sistema de recursos humanos". E o "progressismo" da esquerda burguesa não passa de água de rosas sobre o cheiro de cadáver.

Qual é a saída? Não está no balcão do Centrão, nem no "pragmatismo" tecnocrático, nem em qualquer promessa que nos peça "paciência". A saída é uma só: recusar radicalmente essa ordem, recusar administrá-la, recusar servi-la, recusar aceitá-la como "realidade inevitável".

A escravidão nunca desapareceu de fato. Ela apenas aprendeu a vestir terno, falar português, escrever artigos acadêmicos e se autodenominar "democracia". 



Nenhum comentário:

Postar um comentário