SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sábado, 17 de outubro de 2026

Carta ao meu filho João Victor Guerra




João,

Escrevo-te não como quem ensina, mas como quem, como Rimbaud, reconhece que "eu é um outro" — e que a mente em movimento é a única pátria sagrada que vale a pena defender. Dizes que a batalha pela espiritualidade de um homem vale mil guerras. Concordo. E acrescento: essa batalha não se trava com armas, mas com a recusa obstinada de deixar o mundo ditar o tamanho da tua sensibilidade.

Rimbaud escreveu O Barco Bêbado antes de ver o mar, servindo-se de leituras para compor um hino à adolescência e à descoberta de uma nova poesia. Ele tinha dezenove anos quando abandonou a escrita e partiu para a África, tornando-se traficante de armas — o poeta que Victor Hugo chamava de "Shakespeare menino" morreu amputado em Marselha, tendo trocado a poesia pelo comércio. Mas antes disso, antes do deserto, ele escreveu em Sensação: "Nas tardes de verão, irei pelos vergéis, / Picado pelo trigo, a pisar a erva miúda: / Sonhador, sentirei um frescor sob os pés / E o vento há de banhar-me a cabeça desnuda". Repara: o primeiro movimento de Rimbaud não foi a fuga, foi a entrega — a entrega ao vento, à estrada, ao infinito que sobe na alma. "Calado seguirei, não pensarei em nada: / Mas infinito amor dentro do peito abrigo, / E como um boêmio irei, bem longe pela estrada, / Feliz — qual se levasse uma mulher comigo". Não te dou esse exemplo para que o imites na fuga, mas para que entendas: até o gênio se perde quando a mente deixa de se mover em direção ao que é sagrado. A embriaguez do barco é necessária; o naufrágio não é.

No Barco Bêbado, ele escreveu: "Eu sei os céus rompendo em relâmpagos, e as trombas, / E as ressacas e as correntes: sei o anoitecer, / A Aurora exaltada como um povo de pombas, / E às vezes vi o que o homem acreditou ver". Essa é a promessa da poesia: ver o que outros só acreditam ver. Mas em Uma Temporada no Inferno, o mesmo Rimbaud confessou: "Outrora, se bem me lembro, minha vida era um festim onde todos os corações se abriam, onde todos os vinhos corriam. / Uma noite, sentei a Beleza nos meus joelhos. — E a achei amarga. — E a injuriei". A Beleza pode ser amarga, João. A poesia que enxerga o mundo serve para compreender culturas, economias e ciências — mas também para não esquecer que nenhuma ciência justifica a indiferença. Rimbaud encontrou a chave do festim antigo: "A caridade é essa chave. — Essa inspiração prova que eu sonhei!". Caridade, não caridade pequena, mas a que Hugo praticava.

Victor Hugo passou dezoito anos no exílio por opor-se à ditadura de Napoleão III, e escreveu Os Miseráveis não como romance, mas como tratado teológico sobre a miséria e a dignidade. Ele dizia: "A criança chama-se o futuro. Exerçamos sobre o futuro a santa paternidade do presente. O que fizermos pela infância, o futuro o devolverá ao cêntuplo. [...] Se a criança tiver saúde, o futuro irá bem; se a criança for honesta, o futuro será bom. Iluminemos e ensinemos essa infância que está sob nossos olhos, o século vinte resplandecerá. A tocha na criança é o sol no futuro". João, quando falo de defender os miseráveis, não falo de ideologia: falo do que Hugo sabia — que a grandeza de um homem se mede pela sua capacidade de não endurecer diante da dor alheia. Hugo também escreveu que "há mais de mil anos que a triste Ofélia / Passa, fantasma branco, sobre o longo rio negro" — a mesma Ofélia de Rimbaud, afogada pela "liberdade áspera" que os ventos lhe sussurraram. Ambos os poetas sabiam que a liberdade tem um preço, e que a água que te lava pode também te afogar.

Sobre Jung e a empatia: a psicologia dos tipos junguiana associa a função sentimento à capacidade de acolher a experiência emocional do outro, mas a maturidade empática exige também o que se chama de "experiência de compartilhamento incompleto" — reconhecer que nunca habitamos plenamente a dor do outro, e que é justamente essa incompletude que nos impede de colonizar a sua dor com a nossa. Ser empata não é sentir pelo outro; é sustentar o mistério do outro sem tentar resolvê-lo. Rimbaud escreveu nos Iluminismos: "Eu só tenho a chave desta parada selvagem". A chave da parada selvagem que é o outro nunca é tua. Tu podes apenas caminhar ao lado.

Jacques Rancière, escreveu O Espectador Emancipado para afirmar que quem vê não precisa de um mestre que lhe explique o que vê: a emancipação é a capacidade de ver o que se vê e saber o que pensar a respeito. O método da igualdade das inteligências não é uma utopia pedagógica; é a base de qualquer política que não trate o outro como menor de idade perpétuo. A transgressão que a Cabala propõe — a quebra das regras como abertura para o infinito — não é niilismo: é a recusa de que a ordem dada seja a última palavra. Mas atenção: a Cabala também ensina que as faíscas de santidade caíram e cabe a nós elevarmo-las, não as esmagar. Transgredir sem elevar é apenas destruir. Hugo escreveu que "sim, uma sociedade que tolera a miséria, uma religião que admite o inferno, uma humanidade que admite a guerra, parecem-me uma sociedade, uma religião e uma humanidade de ordem inferior; e é para a sociedade, a humanidade e a religião de um mundo superior que aspiro: sociedade sem reis, humanidade sem fronteiras, religião sem livros sagrados". Essa é a transgressão que vale: a que constrói o mundo superior, não a que foge dele.

Tu me dizes que a vida é um barco e um oráculo em movimento. Que seja. Mas lembra-te do que Rimbaud esqueceu: o barco bêbado, no fim, não ancora em porto nenhum. Ele escreveu: "Órfão, perdido sob os cabelos das enseadas, / Lançado pelo furacão no éter sem pássaros, / Eu, que os monitores e os veleiros hanseáticos / Não teriam salvado, oh! meu casco de pinho". O barco que não ancora é o barco que se perde. Hugo escreveu que "destruiu-se o moinho, mas ainda ficou o vento". O vento que resta é o que nos obriga a continuar escrevendo, mesmo quando a mão treme.

Lembra-te sempre do modo como a poesia de Rimbaud o elevou à África e, na viagem, o fez decifrar culturas, economias e ciências pela leitura obstinada de livros. Não te dou isso como exemplo de erudição, mas como prova de que a mente em movimento sagrado não se contenta com o êxtase — ela quer entender o mundo que a arrebata.

Rimbaud abandonou a poesia aos dezenove anos e partiu para o Áden, depois para o Harar, na Abissínia. O poeta que escrevera O Barco Bêbado sem nunca ter visto o mar tornou-se, na África, um homem que pedia livros com a urgência de quem precisa deles para sobreviver. Em 1882, escrevendo de Áden à mãe, ele não súplica versos: suplica um teodolito, um sextante, uma bússola, um telescópio militar, e "livros, em todo caso, esses sim". Diz à mãe que, sem esses livros, "seria como um cego". Repara, João: o mesmo homem que escreveu "Eu é um outro" agora escreve que sem os livros não vê. A poesia não o cegou para o mundo — ela o fez exigir olhos mais precisos.

Ele pedia tratados sobre ferrovias, mecânica, topografia, geologia, mineralogia prática. Pedia a Petite Encyclopédie Populaire de Amédée Guillemin, volumes sobre O Céu, A Lua, O Sol, As Nebulosas — a vanguarda da divulgação científica do fim do século XIX. Não eram leituras de salão: eram ferramentas de quem atravessava desertos, negociava com chefes abissínios, avaliava rotas de sal e armas. Rimbaud decifrou a economia da região do Harar com a mesma atenção com que outrora decifrara as vogais. Ele escreveu relatos para Le Bosphore égyptien descrevendo a composição das caravanas, as possibilidades de exploração do sal, os projetos de canalização, as disputas entre Menelik e o Emir, as quantidades de armas e munições disponíveis. O poeta que sonhara "inventar um novo idioma" aprendeu línguas locais com facilidade assombrosa e usou esse dom para ler culturas que não eram a sua.

Mas há uma ferida nisso tudo, João, e não quero escondê-la de ti. Os livros que Rimbaud pedia não o salvaram do deserto interior. Ele lia sobre o céu e as nebulosas enquanto negociava café e peles, marfim e armas. A mente em movimento sagrado que tu invocas precisa de uma âncora que Rimbaud não teve: ele quis decifrar o mundo, mas não quis mais ser decifrado por ele. Em Uma Temporada no Inferno, ele já sabia: "A caridade é essa chave". A erudição sem caridade vira comércio; a ciência sem compaixão vira tráfico. Rimbaud leu Guillemin e Couche para atravessar a Abissínia, mas morreu amputado em Marselha, com uma caixa de moedas na cintura, sem ter escrito uma linha sobre o que viu que valesse Iluminuras. 

Que tu, João Victor, leias todos os livros que precisares para entender o mundo — topografia, economia, ciência, cultura. Mas que nunca leias tanto a ponto de esqueceres que a chave do festim antigo se chama caridade. A poesia te eleva à África, se for preciso. Os livros te ensinam a atravessá-la. Mas só a empatia te impede de te perderes nela.

João Victor, teu nome carrega a vitória e a guerra. Que a tua guerra seja sempre contra o terror dos poderes, nunca contra a tua própria capacidade de sentir. Que a tua vitória seja a de permanecer em movimento — sagrado, lúdico, empata — sem te perderes no deserto como Rimbaud se perdeu. Que saibas sentar a Beleza nos teus joelhos sem precisar injuriá-la depois. Que encontres a chave do festim antigo, e que essa chave se chame caridade.

Com amor, 
Teu pai.


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