Eles acharam que poderiam ganhar a eleição no primeiro turno. Acharam que o povo brasileiro ia engolir calado a volta do pesadelo. Acharam que a Meta ia fazer o serviço que as urnas não fizeram. ERRARAM.
Em 4 de outubro de 2026, o bolsonarismo comemorou como se tivesse ganhado a guerra. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Lula por uma margem de dois milhões de votos, contrariando todas as pesquisas. A direita internacional estampou manchetes de vitória. O Financial Times falou em "pole position". O Clarín chamou de "virada surpreendente". O Guardian descreveu apoiadores de Lula em lágrimas num bar do Rio.
Mas eles esqueceram uma coisa. Esqueceram o que José Murilo de Carvalho ensinou em Os Bestializados: o povo brasileiro nunca foi passivo. Nunca foi "carneiro". Aquele "preto acapoeirado" que aterrorizou a polícia na Revolta da Vacina de 1904 já tinha avisado, há mais de um século: "De vez em quando é bom a negrada mostrar que sabe morrer como homem!"
Agora, em 2026, o povo brasileiro vai mostrar que sabe lutar como cidadão.
O que aconteceu depois do primeiro turno não foi derrota. Foi combustível.
Na segunda-feira, 5 de outubro, menos de 24 horas após o resultado, estudantes da Universidade Federal Fluminense saíram às ruas em Niterói. Uma voz jovem gravou um vídeo que se espalhou como rastilho de pólvora: "Ser jovem é ser antifascista, é lutar pelo poder do povo". A pauta era clara: fim da jornada 6×1, orçamento digno para a educação, soberania contra a submissão a Trump.
Na terça e na quarta, a centelha virou incêndio. Salvador. Recife. Belém. Porto Alegre. Florianópolis. Curitiba. Goiânia. Vitória. Milhares de estudantes tomaram as ruas. Na quarta-feira, 7 de outubro, uma manifestação gigante no Rio de Janeiro reuniu cem mil pessoas na Avenida Rio Branco, desaguando na Cinelândia. Estudantes de ecologia, literatura, direito. Negros, pobres, LGBTQIA+. Gente que sabe o que está em jogo.
Uma estudante de 19 anos, Talita Amaral, vestiu a camisa amarela da seleção brasileira — símbolo que os bolsonaristas tentaram sequestrar — e disse: "Estamos lutando pelo Brasil, não pelo Lula". Outro estudante, João Victor Vieira, 20 anos, foi direto: "Se Bolsonaro ganhar, o Brasil vai virar uma colônia dos Estados Unidos".
Eles não estão pedindo favor. Estão exigindo direito.
A fábrica de excluídos
José Murilo de Carvalho escreveu Os Bestializados para explicar uma coisa simples e terrível: a República que se proclamou em 1889 não era para todos. O povo assistiu "bestializado" àquela mudança porque nunca foi convidado a participar dela. O livro, um clássico da historiografia brasileira, tem como recorte espacial o Rio de Janeiro, então capital federal, no período de transição do Império para a República até o governo de Rodrigues Alves. O autor parte de uma pergunta central: por que o povo era considerado bestializado? Qual a razão de sua apatia política? Mas seu objetivo não é confirmar a passividade, e sim "tentar entender que povo era este, qual seu imaginário político e qual era sua prática política".
A resposta que Carvalho encontra é devastadora. A grande maioria da população foi excluída do processo eleitoral formal, mas o povo encontrou outros meios de inserção e participação política, ainda que não fossem os canais institucionais. O governo tratou de calar a população porque precisava de estabilidade política — estabilidade que não seria possível se o negro, o pobre, o estrangeiro, o operário tivessem voz.
O conceito central que Carvalho desenvolve para explicar essa exclusão é o de "estadania". Diante da impossibilidade de participar através da organização de seus próprios interesses, a reação dos excluídos foi a participação "a partir da máquina governamental, ou em contato direto com ela". Ou seja, não era cidadania — era dependência. Não era direito — era favor. O povo não era sujeito político; era objeto da política de outros.
Mary Del Priore e Gian Melo, na História das Mestiçagens no Brasil, mostram que essa exclusão tem raízes mais profundas. O livro reúne artigos de diversos especialistas e investiga a mestiçagem como um tema complexo, "marcado por conflitos, trocas e resistências que vão muito além da genética". A obra questiona explicações simplistas e revela "um Brasil de muitas faces, onde as hierarquias sociais foram constantemente negociadas". Del Priore vai além: em entrevista, afirma que "a ideia de que a mestiçagem nasce do estupro é um mito", e que é preciso entender a formação de uma população parda que, embora majoritária desde o primeiro censo do Império em 1872, "ficou à margem do debate sobre a identidade brasileira".
A mestiçagem, portanto, não foi democratização. Foi, muitas vezes, a forma mais sofisticada de manter cada um "no seu lugar" — um lugar definido por hierarquias de cor que nunca desapareceram, apenas se reconfiguraram.
O que a Abolição fez foi soltar os corpos e amarrar as vidas. Sem-terra, sem escola, sem emprego, sem voto de verdade. Como Carvalho sintetiza em Cidadania no Brasil: O Longo Caminho, aos libertos "não foram dadas nem escolas, nem terras, nem empregos". A cidadania que se prometia era uma cidadania de papel. O liberto virou "vadio" pelo Código Penal de 1890. A capoeira virou crime. A pobreza virou caso de polícia.
Mas o povo nunca aceitou isso calado. Em Os Bestializados, Carvalho narra a Revolta da Vacina de 1904 e recupera a figura de Prata Preta, o capoeirista que se tornou o mais temido chefe das barricadas. Preto, alto, cerca de 30 anos, ele "aterrorizava a polícia lutando nos lugares mais perigosos das trincheiras". Ao ser preso, precisou ser colocado em camisa-de-força e, mesmo assim, "não cessou de insultar as praças e ameaçá-las de represálias". O capítulo de Carvalho termina com as palavras de um "preto acapoeirado" ouvidas por um repórter: a revolta serviu para "não andarem dizendo que o povo é carneiro. De vez em quando é bom a negrada mostrar que sabe morrer como homem!".
Carvalho conclui que a Revolta da Vacina "permanece como exemplo quase único na história do país de movimento popular de êxito baseado na defesa do direito dos cidadãos de não serem arbitrariamente tratados pelo governo". Foi um momento de orgulho e autoestima que colaborava para a formação da cidadania.
A espada e o voto
Mas se Os Bestializados mostra o povo excluído da política, Forças Armadas e Política no Brasil mostra quem ocupou esse vazio. O livro reúne ensaios escritos ao longo de mais de quarenta anos, desde que Carvalho, recém-formado, recebeu "um choque de realidade política nos sonhos da juventude" com o golpe de 1964. Ele queria entender como foi possível ignorar as mudanças por que passara aquele ator político — os militares — responsáveis por sua nova postura.
Carvalho demonstra que as Forças Armadas, assim como a Igreja Católica, são instituições totais: criam um código de sociabilidade particular que molda as estruturas mentais de seus integrantes. Quando um indivíduo ingressa em suas fileiras, ele é ressocializado, internaliza valores peculiares que constituem a cultura militar. Estudar o comportamento político dos militares de modo mecanicista — imaginando que agem em nome da burguesia ou de setores médios — reduz a complexidade do processo e limita a pesquisa histórica.
A obra analisa três ideologias de intervenção que se formaram ainda na República Velha. A primeira é a do "soldado-cidadão", defendida pelos positivistas: o militar, antes de soldado, era um cidadão brasileiro dotado de autonomia e poder decisório para intervir na política sempre que o desenvolvimento nacional estivesse comprometido. Essa ideologia respaldou a ação dos oficiais subalternos nos movimentos tenentistas. Em contrapartida, havia a ideologia do "soldado-profissional", que postulava que o militar deveria se restringir à sua função técnica.
O livro mostra como, durante a República Velha, o Exército passou por um processo de profissionalização, com melhor distribuição de meios, centralização do processo decisório e mudança nos critérios de recrutamento. A lei do sorteio militar de 1918 foi um passo decisivo, permitindo que integrantes de diversas classes sociais circulassem pelas Forças Armadas, melhorando gradualmente seu nível social.
Carvalho defende, repetidamente, que "a discussão, justificação e definição do papel das Forças Armadas em regime democrático cabem à sociedade e a seus órgãos de representação, tanto quanto a elas próprias". E acrescenta: "Só a ampla informação servirá de cicatrizante" para as feridas abertas pelos desaparecidos políticos durante o regime militar.
A ditadura militar de 1964 provou que as Forças Armadas podiam fechar o Congresso quando a "democracia" ameaçasse incomodar. E em 2018, o país elegeu um homem que nunca escondeu o desprezo pela política, pelos pobres, pelas mulheres, pelos negros, pelos indígenas, pela própria ideia de República. Forças Armadas e Política no Brasil, relançado em 2019 com um texto inédito sobre as transformações militares nos últimos trinta anos, tornou-se ainda mais urgente após o resultado daquelas eleições.
Os radicais que clamavam e agitavam
Mas a história do Brasil não é só de exclusão e autoritarismo. Clamar e Agitar Sempre resgata um momento esquecido: a década de 1860, que Carvalho demonstra ter sido "a mais fértil de todo o Segundo Reinado em termos de pensamento e de debate político". O objeto do livro são as conferências radicais pronunciadas em teatros da Corte, de São Paulo e do Recife — uma "experiência inédita entre nós de levar o debate político para um espaço público novo, além da tribuna parlamentar e da imprensa".
O professor Christian Lynch, no texto de apresentação, ressalta que Carvalho, "ao reunir esse precioso material até agora esquecido em velhos jornais, ou disperso em publicações de difícil acesso, presta mais uma grande contribuição para o melhor conhecimento político de um período decisivo da vida nacional".
Esses radicais dos anos 1860 clamavam e agitavam. Não se resignavam. Levavam a discussão política para além dos espaços controlados pela elite. Eram, de certa forma, os antepassados dos que, décadas depois, se levantariam na Revolta da Vacina, nas greves operárias, nas manifestações de rua.
A longa construção da cidadania
Carvalho dedicou boa parte de sua obra a mapear o que chamou de "o longo caminho" da cidadania no Brasil. Em Cidadania no Brasil, ele mostra que, desde a Independência, houve um retrocesso nos direitos políticos: aos analfabetos não mais foi concedido o direito ao voto. A Constituição republicana de 1891 teve caráter exclusionista, excluindo do voto os analfabetos, as mulheres, os mendigos, os soldados, os membros das ordens religiosas.
A tese central de Carvalho é que, no Brasil, os direitos sociais foram introduzidos antes da expansão dos direitos civis e políticos. Os avanços trabalhistas, longe de serem conquistados, foram "doados" por um governo cooptador e posteriormente ditatorial. Isso criou uma massa de reféns da União, e os direitos passaram a ser percebidos como favor, não como conquista.
Até 1930, a participação política era restrita e a cidadania mitigada. O povo não era protagonista dos grandes acontecimentos políticos nacionais, mas mero expectador. A "cidadania em negativo" era a regra: ações políticas do povo eram realizadas como reação ao que considerava arbítrio das autoridades.
Mas em A Formação das Almas, Carvalho mostra como a República tentou criar seus próprios símbolos, heróis e mitos para legitimar-se. O livro analisa como o novo regime precisou "formar almas" — construir um imaginário que justificasse a ordem republicana. Tiradentes foi transformado em herói, a bandeira e o hino foram ressignificados, e os positivistas manipularam o imaginário para consolidar seu projeto. A pergunta que atravessa o livro é: como um regime que excluía a maioria da população poderia construir uma nação? A resposta é: através da invenção de uma tradição que não correspondia à realidade da maioria.
Mas 2026: O povo escreve o final
Mas 2026 vai ser diferente.
Neste ano, o Brasil tem um cheiro no ar que nunca tinha tido antes. Não é o aroma do café, nem a carne assando, mas uma raiva tensa, quase palpável. Essa raiva não vem de um partido, não vem de um líder — vinha de um lugar mais antigo.
Vem daqueles que nunca foram escritos na história oficial.
A rua, novamente o lugar onde a história acontece
Em 7 de setembro de 2026, o 32º Grito dos Excluídos aconteceu simultaneamente em mais de 50 cidades brasileiras. No centro de São Paulo, as pessoas começaram a se reunir de manhã cedo, caminharam até a Catedral da Sé e terminaram com uma missa pelos moradores de rua. No Rio, a marcha atravessou a Avenida Presidente Vargas, e alguém encenou teatro político em plena rua, levando o palco para a via pública. Um homem chamado Julian Boal — filho de Augusto Boal, fundador do Teatro do Oprimido — disse uma frase reveladora: "A participação democrática não termina com as eleições. Muita coisa pode ser feita dentro das instituições, mas nosso todo é muito maior do que as eleições podem conter."
E em 2026, o povo brasileiro está mostrando outra coisa: que sabe viver como cidadão.
Os estudantes não "lamentaram", eles foram às ruas
Em 4 de outubro de 2026, o resultado do primeiro turno saiu. Flávio Bolsonaro liderava com 47,03% contra 45,16% de Lula, uma diferença de mais de dois milhões de votos. Muitos da esquerda caíram naquele estado familiar de "bestialização" descrito por Carvalho — atônitos, paralisados.
Mas os estudantes não.
Menos de 24 horas após o fim do primeiro turno, estudantes da Universidade Federal Fluminense, em Niterói, saíram do campus e foram para as ruas. Um dos organizadores escreveu no chamado: "O choque e o medo do resultado de domingo precisam se transformar em movimento." O slogan que gritavam era direto: "Somos estudantes de Niterói, e mandamos um recado ao bolsonarismo: não vamos recuar. É Lula. Bolsonaro, não. Ele não. Nunca. É Lula."
E então o fogo se espalhou.
De Niterói a Recife, do Rio a Porto Alegre, de Belém a Florianópolis, de Goiânia a Parnaíba, de São Paulo a Brasília — pelo menos 14 estados e o Distrito Federal tiveram assembleias, marchas, plenárias e atividades de rua organizadas por estudantes. No Rio, a marcha foi da Candelária até a Cinelândia, com estimativa de cem mil pessoas. Em Recife, estudantes da universidade federal marcharam junto com sindicatos e partidos, sob a bandeira de "democracia, educação pública e verbas para as universidades federais". Em São Paulo, o movimento se espalhou até para estudantes do ensino técnico.
Uma estudante chamada Ana Alves, 21 anos, negra, lésbica, da periferia de Goiás, passava quatro horas por dia no ônibus para estudar Direito na Universidade de Brasília. Saía de casa antes do amanhecer, trabalhava durante o dia, assistia aula à noite e chegava em casa quase à uma da manhã. "Eu durmo no ônibus, é o que posso fazer", disse ela a um repórter.
Ela é uma das coordenadoras da "revolta estudantil" de 2026.
A internet não é um lugar de fuga da realidade
Mas a resistência de 2026 não estava apenas nas ruas.
Se os "bestializados" de Carvalho só podiam se expressar em barricadas e motins, os brasileiros de 2026 tinham outra frente: a internet. O deputado federal André Janones lançou em 5 de outubro uma corrente de WhatsApp chamada "Exército do Lula", começando do zero, e em poucos dias ela teria alcançado 3 milhões de pessoas. Estudantes compartilhavam PDFs em grupos de WhatsApp, ensinando como conversar com pessoas diferentes, como "virar votos", como explicar em linguagem que o outro entende o que Flávio significa.
Isso não é mais o "apelo ao Estado" descrito por Carvalho. É ação política ativa, organizada e estratégica. Mary del Priore, em História das Mestiçagens no Brasil, lembra que a mestiçagem brasileira nunca foi apenas mistura genética, mas um processo complexo de "conflitos, trocas e resistências", em que as hierarquias sociais são "constantemente negociadas". A mobilização digital de 2026 é a versão mais recente dessa "negociação" — só que desta vez, os lados da negociação não são mais senhores e escravos, patrão e empregado, mas cidadão e cidadão.
O mundo está em chamas, e o Brasil também acendeu
Em 2026, estudantes franceses incendiaram ruas protestando contra salas superlotadas e falta de professores, com mais de 5.000 presos e mais de 600 policiais feridos. Nos Estados Unidos, eclodiu o maior protesto de um único dia da história — "No Kings" — com mais de 3.100 manifestações em todo o país e estimativas de 8 milhões de pessoas nas ruas, contra as políticas de imigração, guerra e economia do governo Trump. Um manifestante em Los Angeles disse a Billy Brown: "Antes, este era um país do qual todos nos orgulhávamos. E agora nos tornamos motivo de piada para o mundo inteiro."
Os estudantes brasileiros sabem o que é isso.
Eles sabem o que o bolsonarismo significa. Viram o que aconteceu de 2018 a 2022: cortes na educação, centenas de milhares de mortos na pandemia, ataques constantes à democracia. Sabem que Flávio disse em campanha que queria "modificar a Constituição". Sabem o que significa a "escala 6×1" — trabalhar seis dias por semana e descansar apenas um, para um estudante que passa quatro horas por dia no ônibus, isso não é organização de trabalho, é morte lenta.
Por isso vamos às ruas. Por isso mandem WhatsApp. Por isso não se calem
Isso não é "bestialização", é o despertar do cidadão
Carvalho, em Os Bestializados, distinguiu o "súdito" do "cidadão". O súdito implora ao Estado, o cidadão exige do Estado. O súdito vê a política como algo externo, o cidadão se vê como parte da política.
Os estudantes brasileiros de 2026 são exatamente a geração que passou de súdito a cidadão.
Eles não são "mobilizados" por um partido. Eles próprios fizeram o julgamento depois do resultado do primeiro turno: Flávio Bolsonaro significa o fim da democracia, significa a morte da educação, significa que sua geração herdará um Brasil mais sombrio. E então agiram. De forma autônoma, rápida e criativa.
Um estudante em uma marcha no Rio disse a um repórter: "Nós vimos como foi o governo Bolsonaro. Foram cortes, foi gente sendo morta, foi fome, foram direitos sendo cassados. Por isso estamos na rua." Outro estudante disse: "Ele mesmo disse ontem que quer mudar a Constituição, isso para nós é uma ameaça, é uma ameaça aos nossos direitos. Estamos aqui para lutar pela soberania, pelos nossos direitos, isso é importante."
Não são slogans políticos abstratos. É experiência de vida concreta, transformada em ação política concreta.
25 de outubro de 2026
O segundo turno está marcado para 25 de outubro.
Ninguém sabe qual será o resultado. Mas uma coisa já ficou clara depois do primeiro turno: a juventude brasileira não voltará ao silêncio de 2018. Eles provaram o gosto da rua, provaram a força da mobilização digital, provaram o que significa passar de "bestializado" a "cidadão ativo".
Mary del Priore disse que a história mestiça do Brasil é "um Brasil de muitas faces, onde as hierarquias sociais são constantemente negociadas". Em 2026, essas faces finalmente apareceram juntas na mesma foto: estudantes negros, jovens lésbicas da periferia, filhos pobres de universidades públicas, alunos de escolas técnicas, membros de sindicatos, trabalhadores sem diploma universitário. Estavam juntos, não por um líder, mas por um fato simples:
Eles não são pobres. São cidadãos brasileiros.
Quando Carvalho escreveu sobre Prata Preta, citou a frase: "De vez em quando é bom a negrada mostrar que sabe morrer como homem!" Em 2026, o povo brasileiro prova uma coisa: nunca foram carneiros. Apenas esperavam por um momento que fosse seu.
Esse momento, em 2026, finalmente chegou.
Quanto ao que acontecerá depois de 25 de outubro — isso é outra história. Mas independentemente do resultado, uma coisa já é irreversível: uma geração de jovens brasileiros aprendeu como passar de "súdito" a "cidadão", como passar de "bestializado" a "agente ativo".
Carvalho passou quarenta anos estudando por que a democracia brasileira sempre "parou no meio do caminho". Os estudantes de 2026, em quarenta dias de mobilização de rua, deram uma resposta que ele talvez tenha esperado por muito tempo:
Porque o povo nunca foi o problema. O problema sempre foi aquele que têm medo do povo.

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