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domingo, 12 de abril de 2026

Orbitar como Modo de Vida & Amor à Terra na Estação Espacial Internacional. Por Egidio Guerra

 


Introdução: O Olhar que Volta para Casa

Há algo profundamente paradoxal na experiência de amar a Terra a partir do espaço. É preciso deixar o planeta para, enfim, vê-lo como um todo — uma "joia suspensa" no vazio, frágil e deslumbrante. Samantha Harvey, em seu romance vencedor do Booker Prize 2024, Orbital, captura essa contradição com maestria: seis astronautas orbitam a Terra dezesseis vezes por dia, testemunhando nascimentos e mortes do sol a cada noventa minutos, enquanto flutuam num "submarino silencioso" de metal e velcro.

Este ensaio propõe uma análise detalhada de Orbital como fenômeno literário e filosófico, examinando como Harvey transforma a Estação Espacial Internacional em um observatório privilegiado do amor à Terra. A partir desse eixo central, serão exploradas obras correlatas — O Astronauta (livro e filme), Interestelar e Solaris — que, cada qual a seu modo, tensionam a relação entre a humanidade e seu planeta de origem.


1. Orbital: Uma Carta de Amor sem Destinatário

1.1. A Estrutura da Contemplação

Publicado em 2023 e laureado com o Booker Prize em 2024, Orbital é um romance deliberadamente avesso ao convencional. Não há enredo no sentido tradicional, nem antagonistas, nem clímax fabricado. O livro acompanha um dia na vida de seis astronautas — dois russos, um italiano, um americano, um japonês e um britânico — dividido em dezesseis capítulos, cada um correspondendo a uma órbita completa ao redor da Terra.

A crítica especializada dividiu-se diante dessa opção estética. Joshua Ferris, escrevendo para o The New York Times, elogiou a maneira como a posição elevada dos astronautas confere às suas reflexões "uma nova clareza, não corrompida pelos preconceitos, tribalismo e conflitos presentes na Terra". James Wood, na The New Yorker, foi além, afirmando que Harvey conseguiu o que parecia impossível: "usar a língua inglesa para descrever a vida no espaço" com uma prosa vívida que captura tanto a exaltação das caminhadas espaciais quanto a banalidade das tarefas cotidianas.

Por outro lado, resenhas de leitores comuns apontam um incômodo recorrente: "um ensaio muito longo que poderia ter continuado indefinidamente", como escreveu um leitor no blog literário Nataliya's Book Blog. A ausência de uma estrutura narrativa conclusiva — afinal, a órbita é por definição circular e sem fim — gera uma sensação de suspensão que, para alguns, é poética, e para outros, tediosa.

1.2. O "Overview Effect" como Princípio Literário

O conceito central que Harvey mobiliza é o chamado overview effect, termo cunhado pelo escritor Frank White para descrever a mudança cognitiva que astronautas experimentam ao ver a Terra do espaço: a percepção súbita de que o planeta é pequeno, frágil, unificado e desprovido de fronteiras visíveis. Ed Dwight, que aos 90 anos se tornou a pessoa mais velha a ir ao espaço, sintetizou essa ideia com contundência: "Todo político com influência internacional deveria ser forçado a dar três órbitas ao redor da Terra antes de assumir o cargo. Isso mudaria toda essa briga no solo".

Harvey transforma esse efeito em princípio estruturante da narrativa. A prosa flutua entre o lírico e o documental, entre a descrição precisa dos fenômenos atmosféricos — "o mar como magenta, marmorizado, rosa" — e o registro quase clínico das rotinas: sacos de urina reciclada, atrofia muscular, velcro para fixar hashi na mesa. Essa alternância não é acidental; ela replica a própria experiência do astronauta, que oscila entre o sublime cósmico e o prosaico corporal.

1.3. Política e Espiritualidade: A Discussão do "Heed"

Um dos momentos mais notáveis do romance ocorre quando dois tripulantes — um astronauta ateu e um cosmonauta criacionista — descobrem que sua única diferença real reside no sufixo da palavra "heed": um universo "heedful" (cuidadoso, intencional) versus "heedless" (indiferente, aleatório). Harvey escreve:

"A diferença parece ao mesmo tempo trivial e intransponível. O universo de Shaun é apenas o mesmo que o dela, mas feito com cuidado, segundo um projeto? O dela uma ocorrência da natureza e o dele uma obra de arte?"

Essa passagem ilumina o projeto mais amplo do romance: não se trata de defender teses, mas de mostrar como a perspectiva orbital torna as diferenças humanas simultaneamente insignificantes (do alto, não se veem fronteiras, religiões ou ideologias) e profundamente significativas (pois é a partir dessas diferenças que os humanos constroem sentido).

1.4. Críticas ao Romance

É necessário reconhecer as limitações da obra. A crítica mais contundente, e talvez mais justa, é que os seis astronautas permanecem excessivamente indistintos. Sabemos suas nacionalidades e alguns fragmentos de suas histórias — a mãe de um morre enquanto ele está em órbita, outro deseja ter se divorciado décadas atrás — mas raramente se diferenciam como vozes verdadeiramente particulares. Como observou um resenhista, "as passagens meditativas, embora belas, poderiam ser atribuídas a qualquer um dos seis sem perda significativa".

Há também uma crítica política latente: Orbital foi acusado por alguns de oferecer uma visão "aérea" e idealizada demais do mundo — "nunca se importe com a sujeira na calçada; a vista do céu é divina!". O editorial do The Guardian rebate essa crítica, lembrando que, apesar das descrições líricas, há "lembretes ominosos da mão da política e das escolhas humanas" em tudo que está abaixo. Mas a força do contraponto depende do quanto o leitor está disposto a aceitar a premissa de que o deslumbramento estético é, por si só, uma forma de ação política.


2. Diálogos Literários e Cinematográficos

2.1. O Astronauta (Jaroslav Kalfař / Netflix, 2024): A Solidão e a Aranha

Se Orbital é uma contemplação coral — seis vozes que se alternam sem nunca se destacarem plenamente —, O Astronauta (Spaceman of Bohemia, 2017) é seu oposto simétrico: um mergulho claustrofóbico em uma única consciência. O romance de Jaroslav Kalfař, adaptado para o cinema em 2024 com Adam Sandler no papel principal, acompanha Jakub Procházka, um astronauta tcheco enviado a uma missão solitária para coletar poeira cósmica entre Vênus e a Terra.

A premissa é deliberadamente absurda: no auge da solidão, Jakub descobre que não está sozinho em sua nave. Uma aranha alienígena, Hanuš, com voz de Paul Dano, materializa-se para conversar com ele. As conversas entre os dois — que vão "da maravilha do bacon à natureza do amor, da vida e da morte" — constituem a espinha dorsal da narrativa.

A diferença fundamental em relação a Orbital é que aqui o amor à Terra não é uma epifania cosmopolita compartilhada, mas uma ferida aberta. Jakub abandonou sua esposa grávida, Lenka, e o colapso de seu casamento é o verdadeiro enredo por trás da missão espacial. A aranha Hanuš funciona, nesse sentido, como um espelho terapêutico: "mais do que representar um personagem vivo que respira, opera quase como um recipiente para as ideias temáticas mais importantes da narrativa".

Críticas ao filme apontam que a ambição filosófica frequentemente suplanta o desenvolvimento psicológico: "as conversas entre Hanuš e Jakub são basicamente a espinha dorsal do roteiro [...] mas podem desperdiçar a identificação do espectador ao priorizar suas grandiosas mensagens sobre a importância da conexão". Em ambos os casos — livro e filme —, O Astronauta compartilha com Orbital a tese central de que o espaço não é uma fuga da humanidade, mas seu espelho mais cruel.

2.2. Interestelar (Christopher Nolan, 2014): A Fuga como Condenação

A obra de Nolan ocupa uma posição ambivalente neste corpus. À primeira vista, Interestelar é o oposto de Orbital: aqui, a Terra está morrendo (culturas de milho sufocadas por tempestades de poeira, escassez generalizada), e a jornada espacial não é contemplativa, mas uma missão de salvação por abandono. Cooper, o protagonista, parte não para admirar a Terra, mas para encontrar um novo lar para a humanidade.

No entanto, é precisamente essa diferença que ilumina algo essencial sobre o amor à Terra na literatura espacial. Enquanto os astronautas de Orbital estão presos em um movimento circular — orbitam sem jamais escapar —, a jornada de Cooper é linear e voltada para fora. E, no entanto, o filme inteiro é uma elegia à Terra que se deixa para trás. A cena mais devastadora não é a do buraco negro, mas a transmissão de vídeo em que Cooper assiste, em time-lapse, seus filhos crescerem e envelhecerem enquanto ele envelhece horas. O amor à Terra, em Interestelar, é indissociável do amor às pessoas específicas que ficaram nela.

Há aqui uma crítica implícita a certo entusiasmo contemporâneo pela colonização interplanetária — o projeto explícito de Elon Musk e de outros "tech bros" que veem Marte como um plano B para a humanidade. Danielle Terceiro, em ensaio para a ABC Religion & Ethics, relembra uma cena de sala de aula: ao serem instruídos a projetar uma colônia espacial, dois alunos perguntaram como estimar o número de prisioneiros no mundo para "descobrir quantas pessoas enviar para Marte". A resposta, observa Terceiro, foi ironicamente australiana: "envie seus condenados para longe para fazer a colonização por você". Interestelar é, nesse sentido, um alerta: a fuga da Terra não é uma solução técnica, mas uma repetição dos mesmos padrões de exploração e abandono.

2.3. Solaris (Andrei Tarkóvski, 1972): O Planeta que Responde com Amor

Nenhuma obra do cânone da ficção científica espacial se aproxima tanto da sensibilidade de Orbital quanto Solaris, de Andrei Tarkóvski. Baseado no romance homônimo de Stanisław Lem, o filme acompanha o psicólogo Kris Kelvin enviado a uma estação espacial em órbita do planeta Solaris, onde a tripulação original enlouqueceu sob a influência de misteriosos fenômenos.

A virada filosófica do filme é genial: Solaris não é um planeta inerte, mas uma entidade senciente que materializa os fantasmas emocionais dos astronautas. Kelvin é confrontado por Hari, uma materialização de sua falecida esposa — ou melhor, da culpa e do amor não resolvido que ele carrega. Tarkóvski disse sobre o filme: "É mais uma aventura que acontece dentro da consciência de um homem [...] e o objetivo da missão de Kelvin em Solaris é um só: mostrar que o amor é indispensável a qualquer vida".

A conexão com Orbital é profunda. Ambos os textos rejeitam o aparato tradicional da ficção científica — naves guerreiras, alienígenas hostis, tecnologias mirabolantes — em favor de uma introspecção quase monástica. Onde Harvey usa a Estação Espacial Internacional como um mosteiro secular, Tarkóvski usa Solaris como um purgatório: "a vida inteira orbita ao redor desta definição: transformar a si mesmo, e esse deve ser o único objetivo da vida de qualquer homem".

A grande diferença é teológica. Em Orbital, a questão permanece em aberto: o universo é "heedful" ou "heedless"? Em Solaris, a resposta é inequívoca: o universo (ou pelo menos este planeta específico) responde ao sofrimento humano com uma forma de amor — estranho, incompreensível, aterrorizante, mas amor. Tarkóvski, cristão ortodoxo, não poderia aceitar a aleatoriedade cósmica que Harvey deixa em suspenso.


3. Síntese Crítica: O Amor à Terra como Gênero Emergente

3.1. A Estação Espacial como Mosteiro Secular

O que une OrbitalO AstronautaInterestelar e Solaris é algo que transcende a ambientação espacial: todos eles usam o isolamento extremo como um dispositivo para forçar o confronto com a pergunta fundamental — o que significa estar vivo em um planeta que é, simultaneamente, nossa única casa e um objeto entre tantos no vácuo cósmico?

A Estação Espacial Internacional, em particular, funciona em Orbital como uma "catedral secular" (para usar uma expressão que Harvey não escreve, mas implicitamente endossa). Não há altar, mas há rituais: as órbitas, as refeições presas por velcro, os exercícios contra a atrofia, o registro meticuloso de dados. Não há sacerdotes, mas há uma liturgia de admiração: "Eles são humanos com uma visão divina, e isso é ao mesmo tempo a bênção e a maldição".

3.2. Política e Perspectiva: O Debate do Enquadramento

A crítica mais séria a essa estética do deslumbramento é política. Ver a Terra do espaço como "um globo indivisível que não conhece possibilidade de separação" é verdadeiro em um nível literal e perigosamente falso em outro. As fronteiras existem, mesmo que invisíveis do alto; os conflitos existem; a desigualdade existe. O overview effect pode produzir compaixão, mas também pode produzir uma forma de escapismo estético — a sensação de que, se apenas todos pudessem ver o que os astronautas veem, os problemas do mundo se dissolveriam.

O editorial do The Guardian defende Harvey contra essa acusação, observando que o romance contém "lembretes ominosos" da política que opera abaixo. E é verdade: o tufão que ameaça as Filipinas é um evento climático, mas também um lembrete da vulnerabilidade desigual das nações diante da crise ambiental. A pergunta que um dos astronautas formula — "Os humanos não conseguem encontrar paz uns com os outros? Com a Terra?" — não é ingênua; é desesperada.

3.3. O Futuro do Gênero

Orbital foi publicado em um momento específico: o final da era do ônibus espacial, a ascensão do turismo espacial comercial, a crise climática em aceleração. Harvey, em seu discurso de aceitação do Booker Prize, disse: "Olhar para a Terra do espaço é um pouco como uma criança olhando para um espelho e percebendo pela primeira vez que a pessoa no espelho é ela mesma. O que fazemos com a Terra, fazemos conosco".

Essa percepção — a identidade entre planeta e self — talvez seja a contribuição mais duradoura do romance. Não se trata de salvar a Terra como um objeto externo, mas de reconhecer que não há "fora" para onde escapar. Interestelar mostra os custos da tentativa de fuga; Solaris mostra um planeta que não permite a fuga psicológica; O Astronauta mostra que mesmo no vazio interestelar, tudo o que temos são nossas relações humanas, fraturadas ou não.


Conclusão: Orbitar como Modo de Vida

O verbo "orbitar" é, por definição, um movimento que nunca chega. Diferente da viagem — que tem origem e destino —, a órbita é circular, repetitiva, fiel. Harvey descreve os astronautas como tendo uma "fidelidade monogâmica" à Terra: eles a observam acordar e dormir dezesseis vezes por dia, apaixonam-se por ela como se fosse a primeira vez a cada nascer do sol.

Essa fidelidade é o que torna Orbital mais do que um exercício estético. É uma ética: aprender a amar a Terra não apesar de sua fragilidade, mas por causa dela. Não apesar de sua impermanência, mas sabendo que, como escreve Harvey, "somos insignificantes e momentosos ao mesmo tempo. Repetitivos e sem precedentes. Importamos muito e não importamos nada".

A literatura e o cinema espaciais, quando se dedicam ao amor à Terra e não à fuga dela, nos oferecem um presente paradoxal: a possibilidade de ver nossa casa como ela realmente é — não o centro do universo, mas o único centro que temos. E isso, como Pietro, o astronauta italiano de Orbital, descobre ao responder à pergunta de sua filha, talvez seja o suficiente:

"O progresso não é uma coisa, mas um sentimento — um sentimento de aventura e expansão que começa no ventre e sobe até o peito (e tão frequentemente acaba na cabeça, onde tende a dar errado). É um sentimento que ele tem perpetuamente aqui, nos maiores e nos menores momentos — esse saber ventre-peito da beleza profunda das coisas, e de alguma graça improvável que o lançou aqui no meio das estrelas."


Referências

  • HARVEY, Samantha. Orbital: A Novel. Grove Press, 2023. 

  • KALFAŘ, Jaroslav. O Astronauta (Spaceman of Bohemia). Editora Aleph, 2017 (Brasil: 2022). 

  • KEYES, Greg. Interestelar (romantização). Gryphus, 2016. 

  • LEM, Stanisław. Solaris. 1961. 

  • TARKÓVSKI, Andrei (diretor). Solaris. Mosfilm, 1972. 

  • NOLAN, Christopher (diretor). Interestelar. Paramount/Warner Bros., 2014. 

  • RENCK, Johan (diretor). O Astronauta (Spaceman). Netflix, 2024. 

  • FERRIS, Joshua. "It's Harder to See the World's Problems From 250 Miles Up". The New York Times, 5 dez. 2023. 

  • HARRIS, Alexandra. "Orbital by Samantha Harvey review – the astronaut's view". The Guardian, 16 nov. 2023. 

  • WOOD, James. "Circling the Planet, Looking for God". The New Yorker, 18 dez. 2023. 

  • TERCEIRO, Danielle. "On earth as it is in heaven: The celestial vision of Samantha Harvey's 'Orbital'". ABC Religion & Ethics, 17 nov. 2024. 

  • "The Guardian view on the Booker prize winner: a whole new perspective". The Guardian, 17 nov. 2024. 

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