Diante de tudo isso — do STF que se comporta como balcão de negócios, do Congresso que abriga corruptos reeleitos, do Executivo que alterna oligarquias no poder — uma pergunta incendeia a mente de qualquer brasileiro minimamente lúcido: Por que não rasgamos logo esta Constituição?
A Carta Magna de 1988, aquela que nos venderam como "Constituição Cidadã", virou um trapo imundo. Ela prometeu tudo e entregou pouco. Prometeu saúde universal — e temos filas de morte. Prometeu educação de qualidade — e temos analfabetismo funcional e escolas sem condições de funcionamento em Fortaleza e no Ceará. Prometeu justiça para todos — e temos justiça para quem pode pagar. O artigo 5º, que garante a igualdade perante a lei, é a maior piada do direito constitucional comparado. No Brasil, a lei é igual para todos? Claro que não! Para o rico, a lei é um tapete vermelho; para o pobre, um muro de concreto.
Por que não rasgamos? Porque quem estão rasgando são exatamente os beneficiários da farra! Mas o STF não vai rasgar a própria fonte de poder. O Congresso não vai rasgar o mecanismo que lhe permite roubar com "legalidade". A elite financeira não vai rasgar a garantia de seus privilégios inscrita em cada artigo, em cada súmula, em cada decisão monocrática.
A Constituição de 1988 não é um contrato social — é um contrato de blindagem da elite. Ela foi escrita por políticos, para políticos, com a ajuda de juristas que hoje embelezam decisões a serviço dos poderosos. E enquanto o povo acreditar que "está tudo na Constituição", continuará esperando por direitos que nunca virão.
A Farra das Candidaturas: Como Corruptos se Elegem e se Reelegem
Outra pergunta que não quer calar: por que políticos comprovadamente corruptos continuam candidatos, e pior, continuam se elegendo? Tipo as Oligarquias!
A resposta é sórdida, mas simples: porque o sistema foi feito para isso. A Lei da Ficha Limpa, que tanto comemoramos como uma vitória da sociedade civil, virou peneira. Basta uma liminar no STF, um recurso protelatório no TSE, uma aliança com o partido da vez, e o corrupto está de volta ao jogo. E quando o jogo é viciado, o ladrão sempre ganha.
Lembram do Mensalão? Os condenados voltaram. Alguns já são até ministros de tribunais superiores. Lembram da Lava Jato? Os presidiários de Curitiba hoje posam de vítimas e planejam retornar ao poder. Lembram do Caso Master? O banqueiro investigado anda de tornozeleira, mas seu cunhado — o pastor — continua doando para campanhas e recebendo políticos de braços abertos.
O que a Justiça Eleitoral faz? Nada. O que o Ministério Público faz? Muito pouco. O que o povo faz? Reclama nas redes sociais, mas na hora de votar, escolhe o mesmo "menos pior", o "rouba mas faz", o "me deu uma cesta básica". Victor Hugo já sabia: "Nada é mais perigoso do que uma injustiça que parece justa." A nossa eleição é essa injustiça travestida de democracia.
E o cidadão comum, que nunca roubou um prego, que trabalhou a vida inteira para pagar seus impostos, que cria os filhos com honestidade — esse cidadão é tratado como otário. Ele vê o corrupto na televisão, com sua tornozeleira discreta sob a calça do terno Armani, discursando sobre ética e família. Ele vê e sente no bolso a conta da roubalheira. E no fim do dia, o corrupto é reeleito com 60% dos votos na sua base eleitoral.
O Silêncio das Elites Financeiras: Por que Bancos e Mercado se Calam?
A pergunta mais reveladora: por que os bancos, o mercado financeiro, os grandes empresários — aqueles que tanto reclamam da "insegurança jurídica" — não abrem a boca contra essa bandidagem institucionalizada?
A resposta é escandalosamente simples: porque eles são os maiores beneficiários do sistema.
Os bancos lucram com os juros estratosféricos que o Brasil paga sobre a dívida pública — dinheiro que sai do bolso do trabalhador e vai para o rentista. Quando um escândalo como o do Master estoura, os grandes bancos ficam quietos, porque sabem que o jogo é deles. Eles não querem investigação a fundo, porque a investigação poderia alcançar suas próprias práticas predatórias.
O mercado financeiro se beneficia da farra das emendas parlamentares, das renúncias fiscais para os mais ricos, da falta de transparência nos fundos de pensão (que são saqueados por seus gestores indicados politicamente). O mercado não denuncia porque ele é sócio. Ele financia campanhas dos dois lados — para garantir que, independentemente de quem ganhe, os privilégios do capital financeiro permaneçam intactos.
Os grandes empresários que não são do setor financeiro? Também se calam. Porque muitos deles têm contratos com o governo, têm dívidas com bancos públicos, têm processos no STF que aguardam decisões favoráveis. Denunciar a corrupção sistêmica seria denunciar a si mesmos.
A elite financeira não tem interesse em um Estado de Direito genuíno. Ela tem interesse em um Estado que lhe garanta privilégios: juros altos, isenções fiscais, contratos bilionários, e a certeza de que, se algo der errado, o socorro público (o famoso "bailout") virá com dinheiro do contribuinte.
E o silêncio deles é ensurdecedor. Quando a Lava Jato ameaçou alcançar grandes empreiteiras, houve um movimento discreto para "acabar com a operação". Quando o Caso Master ameaçou respingar em ministros do STF, houve um movimento para "centralizar" as investigações. Quando o INSS foi roubado, os bancos não disseram uma palavra — afinal, o dinheiro dos aposentados que foi desviado não estava nos cofres deles? Estava. E eles não devolveram.
Shakespeare, em "Medida por Medida", escreveu: "Alguns sobem pelas virtudes, outros pelas iniqüidades." No Brasil, todos sobem pela iniqüidade. E os que tentam subir pela virtude são pisoteados.
A Constituição que Nunca Existiu
Por isso tudo, eu pergunto novamente: para que manter essa farsa de Constituição?
Rasga, Brasil! Rasga de uma vez essa folha de papel que só serve para embrulhar peixe podre. A Constituição de 1988 já morreu — foi assassinada pelo STF, pelo Congresso, pelo Executivo, pelos bancos, pelas oligarquias. O que resta é um cadáver jurídico que a elite usa para justificar seus privilégios e manter o povo na esperança vazia de "direitos" que nunca virão.
Rasgar a Constituição não seria um ato de barbárie — seria um ato de higiene. Limpar o terreno para construir algo novo. Ou, como diria Maquiavel, "é preciso destruir para reconstruir".
Mas quem faria isso? O povo? O povo está anestesiado pelo futebol, pelo reality show, pela novela, pelo medo. A elite? A elite não vai destruir a própria fonte de poder. Os políticos? Eles juram sobre a Constituição enquanto a rasgam em segredo.
Então, meus caros, estamos no impasse: uma Constituição que ninguém respeita, mas que ninguém rasga. Um país que não é Estado, mas também não é anarquia — é um entroncamento de máfias que se toleram mutuamente para continuar roubando.
O Que Resta? O Povo, Sempre o Povo
E o povo? O povo que não rouba, que não mente, que não tem privilégios — esse povo continua sobrevivendo de migalhas. Migalhas que caem da mesa da elite. Migalhas que são jogadas no chão para que a plateia se distraia enquanto o banquete continua lá em cima.
Victor Hugo, em "Os Miseráveis", descreveu Jean Valjean, o homem justo esmagado pelo sistema. Dostoievski nos mostrou Raskólnikov, o homem comum empurrado ao crime pela pobreza. Shakespeare nos deu Hamlet, o príncipe que vê a corrupção do reino e não sabe o que fazer.
O Brasil de 2026 é a soma de todas essas tragédias. E ainda assim, o povo resiste. Ainda assim, o povo acorda cedo, pega ônibus, trabalha, paga imposto, cria os filhos, e no fim do dia ainda tem forças para sonhar.
Não rasgamos a Constituição. Mas a Constituição já foi rasgada por eles. Só falta a gente perceber.
E quando a gente perceber, aí sim, meus caros, o carnaval vai acabar de verdade. E o réveillon da revolta vai começar.
Por um brasileiro que está de saco cheio — e que já não espera nada dessa "República" falida.
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