SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.
Tem gente que treme de indignação com auxílio de R$ 600.

Mas não pisca com bilhões escorrendo pelo ralo fiscal.
É curioso. O pobre que recebe transferência de renda vira suspeito moral. O rico que recebe isenção vira “estratégia econômica”.
Em 2024, o governo federal abriu mão de mais de R$ 500 bilhões em renúncias fiscais. Meio trilhão. Isso inclui benefícios para grandes empresas, setores específicos, multinacionais. Agora compare: o Bolsa Família custa cerca de R$ 170 bilhões por ano. Ou seja, o “escândalo” é ajudar gente a comer. O “normal” é subsidiar quem já lucra.
E não para aí.
Segundo estudos do Ipea, grande parte dessas isenções tem baixo impacto comprovado em geração de emprego. Traduzindo: o argumento de que “precisa incentivar” muitas vezes é só… conversa fiada.
Mas vai explicar isso no almoço de domingo da família.
Porque existe uma pedagogia invisível operando: ensinar o povo a odiar quem está um degrau abaixo, nunca quem está cem andares acima.
O sujeito se revolta com o vizinho que recebe auxílio e compra um botijão de gás, mas não se incomoda com empresas que pagam menos imposto proporcionalmente do que ele paga no consumo básico.
Isso é nossa estrutura tributária. No Brasil, quem ganha menos paga mais, proporcionalmente. Imposto no arroz, no feijão, na luz. Já o topo negocia, isenta e ainda posa de herói da produtividade.
Aí vem o discurso: “o problema é o gasto público”.
Curioso como esse problema sempre é com os pobres. Nunca chega nas salas com ar-condicionado e lobby.
Auxílio social vira símbolo de preguiça. Isenção fiscal vira símbolo de inteligência econômica.
O mesmo dinheiro. Dois pesos. Dois julgamentos.
No fundo, parece que o que conta mesmo é a historinha, não a economia real.
Quem controla a história decide quem é vilão.
E, por aqui, o vilão continua sendo quem precisa comer.
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