SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sábado, 11 de abril de 2026

Prazer em te conhecer (no dia em que começamos a namorar)

 


Não foi num close romântico de trilha sonora orquestrada. Foi num plano-sequência trêmulo, quase documental, como se o diretor tivesse esquecido de gritar “ação!”. Nossas mãos suadas se encontraram no meio de uma praça qualquer, e eu pensei: é aqui que o roteiro costuma mentir.

Porque os filmes nos ensinaram que o amor nasce de um olhar perfeito, de uma luz dourada no cabelo, de uma fala ensaiada. Mas o nosso primeiro dia de namoro pareceu mais uma cena cortada de Drama — aquele em que os personagens não sabem se estão representando ou sendo eles mesmos. Você confessou, com a voz trêmula, que tinha medo de ficar sozinha. Eu, que horas antes ensaiava frases de efeito, só consegui dizer: “eu também”.

E ali, naquele confessionário de calçada, entendi o que o cinema muitas vezes esconde: todo dia conhecemos as pessoas. Não de uma vez, como num flashback explicativo, mas em camadas, como quem descasca uma cebola sob os olhos atentos de Bergman. Você me mostrou seus fantasmas — um ex que não soube ouvir, uma infância de silêncios, o pavor de que o amor fosse apenas um intervalo entre despedidas. Eu te mostrei minhas trincheiras: a dificuldade de confiar, o medo de ser muita intensidade num mundo que prega moderação.

Antes do Amanhecer nos fez acreditar que uma noite basta para saber tudo. Clube da Luta nos alertou que somos nossos próprios traumas fantasiados de normalidade. As Virgens Suicidas sussurrou que ninguém realmente conhece ninguém. E Ensaio sobre a Cegueira nos lembrou que o amor, às vezes, é enxergar no outro o que ele mesmo não vê.

Mas naquele dia, ao começarmos a namorar, não houve revelação completa. Houve um acordo tácito: vamos aprender juntos. Você riu de nervoso ao contar da sua fobia de elevadores; eu gaguejei ao revelar que durmo com a luz acesa desde os sete anos. Não era poesia. Era um rascunho de vulnerabilidade.

E o amor — esse personagem tão mal escrito em tantos roteiros — se mostrou maior. Não porque resolvesse os medos, mas porque cabia todos eles. Como numa cena de Drama, onde os atores repetem falas até que a ficção vire verdade, a gente foi ensaiando o afeto. Até que o “prazer em te conhecer” deixou de ser cortesia e virou compromisso: prazer em te conhecer de novo amanhã, e no outro dia, e sempre que você deixar eu espiar mais um pedaço seu.

No fim, o filme do nosso namoro não terá uma crítica unânime. Terá planos imperfeitos, diálogos truncados, e um amor que insiste em continuar mesmo quando o roteiro diz que seria mais dramático parar. E tudo bem. Porque conhecer alguém, de verdade, não é assistir à sua vida num reel de dois minutos. É aceitar que o trailer engana, e que o filme completo — com todos os cortes secos e cenas de choro — ainda assim merece sessão extra.

Prazer em te conhecer. Prazer em te conhecer todo dia. Mesmo no dia em que começamos a namorar e eu mal sabia seu sobrenome, mas já guardava suas sombras como quem guarda um mapa.


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