SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

domingo, 8 de março de 2026

Quem foi Urraca, a primeira mulher a reinar na Europa.

 

Doña Urraca, pintada por Carlos Múgica y Pérez em 1857.

Crédito,Domínio Público

Legenda da foto,Doña Urraca, pintada por Carlos Múgica y Pérez em 1857
    • Author,Edison Veiga
    • Role,De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
  • Tempo de leitura: 9 min

Ela viveu 900 anos atrás e a história lhe reservou um ponto importante e pioneiro: tornou-se a primeira mulher a comandar um reino na Europa. Urraca 1ª de Leão e da Galiza (1080-1126), conhecida como Urraca, A Temerária, governou essa então importante região ibérica por quase 17 anos.

Filha mais velha de Afonso 6º (1047-1109), a nobre seria a herdeira natural do trono não fosse o seu gênero. Temendo uma dificuldade de aceitação política de uma mulher rainha no poder, o monarca tratou de reconhecer um filho fora do casamento, Sancho, como aquele que o sucederia.

O que ninguém contava era que Sancho morreria como guerreiro — na Batalha de Uclés, travada entre cristãos e muçulmanos em 1108. Diante disso, o rei Afonso anunciou aos nobres da corte e aos bispos da região que sua filha era a única que poderia assumir o trono quando ele morresse.

Houve aceitação de seu nome entre os aliados do rei. Contudo com uma ressalva: que ela, já viúva, se casasse novamente. Em outras palavras, a nobreza até admitia uma governante mulher, mas entendia que ela deveria atuar como títere do marido.

Nas tratativas políticas de então, ficou acertado que Urraca se casaria com Afonso 1º de Aragão (1073-1134).

A historiadora Adriana Zierer afirmou à BBC News Brasil que, embora o direito castelhano não excluísse "a sucessão feminina na falta de herdeiros varões", acreditava-se que "ela deveria governar com a tutela do marido".

Afonso 6º morreu antes do casamento ser realizado e Urraca acabou coroada rainha. Era a primeira monarca mulher a comandar um reino europeu — não como rainha consorte, ou seja, esposa do rei sem papel de autoridade. Ela detinha, de fato, o poder.

Imperatriz de toda a Hispânia

"Urraca foi a primeira mulher a comandar um reino na Europa, e isso, na prática, torna o seu título de rainha diferente daquele de uma rainha consorte, a esposa do rei", diz o historiador Glabuer Wisniewski, pesquisador-assistente no Center for Iberian Historical Studies da Saint Louis University, nos Estados Unidos.

"Nesse sentido, ela foi realmente uma grande exceção em sua época. O esforço que fez, durante todo o seu reinado, para legitimar sua autoridade moral e legal mostra que a resistência que enfrentou foi constante."

Pesquisadora em estudos medievais na Universidade de Santiago de Compostela, a historiadora Yolanda Alonso Rodríguez define Urraca como a primeira "com autoridade e poder total nos seus territórios".

Por outro lado, ela faz uma ressalva. "Há enormes dificuldades em identificar e recuperar este tipo de informação, porque a história omitiu em grande parte muitos pormenores sobre as mulheres na Idade Média, quer das classes mais baixas, quer das mais altas".

"Muitas vezes, elas não tinham um papel principal na perspectiva viril da Idade Média e, por isso, foram omitidas e ignoradas em muitos documentos te textos", diz Rodríguez.

A importância do Reino de Leão nesta época fica clara pelo próprio título que gozava o monarca: era chamado de "imperador de toda a Hispânia". "Título este que foi herdado por Urraca, 'a imperatriz de toda a Hispânia", pontua Adriana Zierer, que também é professora na Universidade Federal do Maranhão com pós-doutorado realizado junto ao Grupo de Antropologia Histórica do Ocidente Medievalna École des Hautes études em Scienses Sociales, na França.

Em óleo sobre tela feito no século 19, representação da monarca

Crédito,Domínio Público

Legenda da foto,Em óleo sobre tela feito no século 19, representação da monarca

Ainda que não demonstrasse vontade de se casar novamente, ela cumpriu o desejo do pai e, logo em seguida, oficializou o matrimônio com o nobre de Aragão.

A união acabou desencadeando uma série de descontentamentos populares, com registro inclusive de rebeliões. Havia um temor de que o centro de poder se deslocasse do então Reino de Leão e Galiza para o Reino de Aragão, pela proeminência masculina do acerto.

Era uma consequência que parecia um pouco contraditória ao que imaginava o pai de Urraca quando planejava esse casamento. Ele vislumbrava não um deslocamento do eixo de poder, mas uma maior influência de Leão, como se Aragão fosse praticamente incorporado por meio do matrimônio real.

Batalhas, rebeliões e violência doméstica

O clima político passou a ser muito ruim. Apoiadores de ambas as partes entraram em conflito e até mesmo a legitimidade de Urraca como herdeira passou a ser novamente questionada.

Conforme explica Zierer, as disputas territoriais entre o casal acabaram causando uma guerra civil.

No meio disso tudo, a relação entre Urraca e Afonso não era nada boa. E o que antes era restrito ao ambiente íntimo, logo passou para a esfera pública. A rainha acusou o marido de violência doméstica e de abusos, até separar-se dele em 1110. "É relatado nas crônicas que ela sofria de violência física e verbal do rei aragonês", afirma a historiador Zierer.

A essa altura já era pública a sua relação com o amante, conde Gómez González, que se embrenhou em luta armada pela defesa da integridade do reino de Leão frente aos opositores, os que lutavam por Aragão. Na Batalha de Canespina, em 1111, González morreu.

Logo, Urraca encontrou outro conde para substituí-lo — tanto como amante quanto como guerreiro: Pedro González de Lara, que inclusive assumiu a paternidade dos dois filhos que a rainha já tinha.

Apenas no fim de 1112 a rainha conseguiu formalmente a anulação de seu casamento com Afonso de Aragão — com anuência do papa. Na seara das batalhas, ela havia conseguido recuperar para seus domínios praticamente todas as terras herdadas do pai — Astúrias, Leão e Galiza. Parte de Castela, embora ali ela contasse com grande apoio, acabaram ficando para Afonso.

"Durante todo o seu governo, Urraca enfrentou diversos conflitos com várias campanhas para recuperar e manter seus territórios", diz Zierer. Geralmente, eram confrontos inflamados por Afonso 1º. "Por muito tempo, ele resistiu à anulação do casamento", ressalta a historiadora. Por muito tempo, o ex-marido ainda se declarava "imperador de toda a Hispânia".

Também havia batalhas de motivação religiosa — cristãos contra muçulmanos — e revoltas populares.

Urraca morreu aos 46 anos, em 8 de março de 1126. Quase 800 anos antes da greve história feita por operárias mulheres que faria desta data um marco da valorização feminina em todo planeta.

Ilustração de Urraca

Crédito,PHAS/Universal Images Group via Getty Images

Legenda da foto,Ilustração de Urraca

Um 'rei' mulher

Zierer aponta as visões medievais sobre Urraca a partir de crônicas da época. Em textos do século 12, ela é descrita de forma positiva enquanto "filha e esposa" e se converte, contextualiza a professora, em "mulher incestuosa e nefasta" quando soberana.

"'[Ou seja, na visão da época] 'boa' apenas quando cumpriu seu papel de esposa, sem assumir protagonista político", comenta a Zierer.

Por vezes, a monarca foi taxada de sedutora e promíscua. São muitos os indícios, portanto, que o fato de ser uma mulher em posição de poder incomodava a elite masculina.

"O problema não está apenas na raridade, mas na memória. Sua imagem foi filtrada por séculos de crônicas hostis e leituras marcadas por desconforto diante do poder feminino", assinala à BBC News Brasil a historiadora Mary Del Priore, autora de, entre outros livros, Sobreviventes e Guerreiras. "Não foi o fato de ter governado que escandalizou. Foi o fato de ter governado como mulher."

Del Priore nota que há crônicas a descrevendo como "corajosa, forte". "Chegam a chamá-la de 'princesa varonil'", afirma. "Para reinar, era preciso masculinizar-se simbolicamente."

De acordo com a antropóloga Lídice Meyer, professora na Universidade Lusófona de Portugal e estudiosa do feminino na história, Urraca não poupou esforços para "manter sua posição como monarca plena", mesmo em meio às dificuldades inerentes para "exercer um cargo sem precedentes", conforme explica ela à BBC News Brasil.

"Ela foi a primeira rainha da Espanha a cunhar uma moeda com seu busto e nome", conta Meyer. "Curiosamente, uma moeda cunhada em Toledo traz o seu nome acompanhado da palavra RE."

Aí reside uma ambiguidade. Poderia ser tanto a abreviação de "Rex", rei, como de "Regina", rainha. "Esta ambiguidade sempre esteve presente no reinado de Urraca. Ela frequentemente se apresentava nos documentos como 'rei'. Seu valor foi a de ser a primeira monarca plena na Europa", pontua Meyer.

"Foi, sem dúvidas, uma monarca sagaz, que soube lidar com situações adversas com muita habilidade", acrescenta Wisniewski. A historiadora Rodríguez, por sua vez, vê na rainha uma mulher "decidida" e "forte".

"Urraca, mais do que a mulher do rei, tornara-se 'o rei' em si, responsabilizando-se pela administração do reino, apesar dos esforços do marido em se tornar soberano e responsável pelas terras leonesas e castelhanas", diz Zierer.

A professora ressalta que "a todo momento" a monarca "fazia questão de reafirmar sua legitimidade e capacidade jurídica de governar".

Em imagem medieval, possivelmente do século 12

Crédito,Domínio Público

Legenda da foto,Em imagem medieval, possivelmente do século 12

Resgate histórico

"Ela é exemplo dessa possível desconstrução da fragilidade do sexo feminino", afirma. "Reinou mulher em um espaço destinado a homens e em nada se pareceu com as mulheres submissas que necessitavam de proteção, tão difundidas nos livros didáticos, nos jogos ou nas séries televisivas."

Zierer frisa que "a guerra ocupou" o tempo de seu reino e "se o que se espera é que a rainha se protegesse em um de seus castelos, o que ocorreu foi justamente o contrário: por meio de armas, pactos e legitimações, Urraca permaneceu no poder, indo contra os desejos de alguns que a cercavam".

Wisniewski ainda lembra que o fato de ela ter deixado para seu herdeiro "um reino em relativa paz interna" mesmo depois de uma "ascensão problemática" e de ter sofrido constante "questionamentos, muitas vezes violentos, acerca de sua autoridade", indica que Urraca tinha "capacidade política muito acima da média".

"Podemos dizer que a rainha Urraca tem muito a nos ensinar sobre o papel da mulher no passado e no presente. Foi uma mulher que conseguiu governar sem a tutela masculina, que manteve o reino unido e garantiu a descendência para o seu filho após a morte", pontua Zierer. "Além disso, também foi dona do seu próprio corpo, porque a partir do momento em que conseguiu a anulação do seu casamento, nunca mais se casou. Mas ainda teve relacionamentos amorosos e filhos."

Claro que ao olhar para personalidades do passado é preciso sempre ter cuidado com o anacronismo. Assim, embora tenha sido uma exceção em um meio dominado pelo poder masculino, Urraca não foi uma pioneira do feminismo, como pode parecer tentador imaginar.

"Resgatar Urraca não significa transformá-la em heroína feminista", diz Del Priore. "O risco do anacronismo é real e deve ser evitado", aconselha . De acordo com ela, Urraca não governava em nome de um programa de emancipação feminina, mas em nome da legitimidade dinástica e da preservação do reino.

Pesquisadora na Universidade Federal de São Paulo, a historiadora Maíra Rosin reconhece, em conversa com a BBC News Brasil, o risco de olhar para figuras como Urraca com o peso do anacronismo, mas lembra que resgatar sua história serve para lembrar "que o poder na era medieval não era exclusivamente masculino".

"Não é colocar nela essa ideia de 'heroína' no sentido contemporâneo. Mas complexificar um pouco a política europeia, mostrando que as mulheres não estavam fora do contexto político", ressalta Rosin.

Já Wisniewski afirma que a presença de Urraca no rol dos monarcas europeus do século 12 tem uma grande importância histórica e simbólica.

"Histórica, porque amplia o nosso entendimento sobre quem podia exercer poder na Idade Média e de que formas isso acontecia", diz. Além disso, a biografia da rainha, até onde sabemos, "nos mostra que ela foi, de fato, uma mulher extremamente vigorosa e uma estrategista notável, que assumia ativamente condução de um reino em meio a disputas dinásticas complexas."

A Incerteza de onde colocar a virgula na vida . Por Egidio Guerra

 



Spiegelhalter estabelece desde o início uma distinção fundamental: a incerteza não é uma propriedade intrínseca do mundo, mas sim uma característica do nosso relacionamento com ele. Como ele próprio define, incerteza é a "consciência consciente da ignorância". Isso significa que duas pessoas, com conhecimentos e perspectivas diferentes, podem ter graus de incerteza completamente distintos sobre o mesmo evento. Um meteorologista olhando para um céu nublado e um agricultor observando o mesmo céu possuem níveis de informação desiguais e, portanto, níveis de certeza sobre a possibilidade de chuva também desiguais. 

Para organizar essa ideia, o autor recorre a uma classificação clássica, dividindo a incerteza em dois tipos principais: 

A maré virou na Educação.








A maré virou. O fluxo de captação para os cursos de graduação caiu 20% em janeiro de 2026, na comparação com janeiro de 2025. Os dados foram apurados pelo sistema IndCap, da Hoper Educação, que faz o monitormento do mercado em tempo real, mês a mês.


Veja na imagem que o Ensino Presencial recuou 3%. A EAD Online, que perdeu os cursos que migraram para o Formato Semipresencial, caiu 46%. O único fator positivo ficou com os cursos do Formato Semipresencial, que aceleraram 18%.

Mas, como este crescimento se dá sobre uma base menor, não é suficiente para compensar a queda radical que aconteceu no bloco de cursos da antiga EAD.

No balanço do peso proporcional de ingressantes no mês, a divisão ficou com 29% de matrículas novas para o Ensino Presencial, 35% no Semipresencial, e 36% no Formato EAD Online.

Entre as hipóteses para a baixa migração para o Semipresencial estão as novas regras do MEC e do CNE. O Decreto 12.456 colocou presencialidade obrigatória em todos os cursos da antiga EAD.

Quebrou a Flexibilidade característica da modalidade em todo o mundo. Aumentou custos e espantou o aluno. O MEC foi avisado que iria derrubar as matrículas, como tudo indica que está acontecendo.

A outra hipótese da queda está nas mudanças que o CNE fez nas DCNs do curso de Pedagogia e das Licenciaturas. E foi avisado que ia dar ruim. O próprio CNE já sabe que errou na mão, e está revisando a resolução 4/2024.

As exigências da presencialidade de 50% definidas pela Resolução 04/2024 não fazem conexão com o perfil dos alunos da Licenciaturas, e que estão adiando o ingresso na expectativa de mudança.

Só quem deve estar comemorando a queda de matrículas em Pedagogia e nas Licenciaturas são a Priscila Cruz, do Todos Pela Educação, e o ministro Camilo Santana. Ambos, patrocinadores do movimento "Menos Educação", que agora se confirma em números declinantes.


Email de Egidio Guerra a Baruch Spinoza.




Ao Ilustre e Sábio Bento de Espinosa,

Saúde e Paz.

Meu caro Espinoza,

Escrevo-te não como um discípulo que busca lições, mas como um amigo que busca consolo na razão. Nas longas noites em que a cidade dorme e os corruptos velam, tenho me dedicado à leitura da vossa correspondência com o senhor Henry Oldenburg. Ali, encontro um homem que, diante das tormentas do mundo, não se refugia no medo, mas se fortalece no conhecimento.

Goethe, que vos amava, disse que vossas cartas são "o melhor livro que se pode ler no mundo da sinceridade e da filantropia". E é exatamente essa sinceridade que me falta no mundo de hoje. Vivemos cercados de máscaras.

Oldenburg vos perguntava sobre a política, a guerra e a filosofia. Hoje, se estivésseis aqui, eu vos perguntaria como suportar a hipocrisia dos que governam. O senhor conheceu a solidão do pensamento, mas eu conheço a solidão do justo. Fui expulso.

Não pelo púlpito de uma sinagoga, mas pelos arautos da Oligarquia que dominam esta terra. Assim como vos foi proibido o convívio, a mim também me é negado. Ninguém pode me falar localmente, nem por escrito, nem me prestar nenhum favor, nem viver comigo debaixo de um teto, nem ler nenhum texto ou livro escrito por mim. A Ditadura da Corrupção é o meu cherem moderno.

E a pergunta que me atormenta é a mesma que atormentou o senhor: Como viver bem quando os maus governam?

O senhor, em vossa sábia resposta a Oldenburg sobre a política, dissestes que os homens agem por necessidade da sua natureza. Que os que detêm o poder são escravos das suas paixões. Isso me trouxe algum alívio, pois compreendo agora que a oligarquia não age por maldade abstrata, mas por uma cegueira da alma. Eles buscam o poder como o peixe busca a água, sem saber que fora dela há um céu inteiro.

No entanto, a perseguição aqui é mais sutil e mais feroz do que as espadas da Inquisição. Usam o dinheiro como arma e a lei como escudo. Roubam o futuro das crianças e chamam isso de "governança". Roubam a palavra e chamam isso de "liberdade".

O senhor, que lapidava lentes para sobreviver, me ensina que a verdadeira liberdade não está no que nos tiram, mas no que preservamos dentro de nós. Quando me proíbem de falar, escrevo. Quando me isolam, penso. Quando queimam minhas pontes, descubro que sempre posso nadar no oceano da razão.

Peço-vos, meu mestre, uma palavra sobre a coragem. Como manter a alegria (essa potência de agir que o senhor tanto exalta) quando o mundo conspira para nos tornar tristes e servis? Como não odiar aqueles que nos expulsam, quando o ódio é a paixão que mais nos aproxima da servidão deles?

Oldenburg vos pedia clareza sobre a relação entre Deus e a Natureza. Eu vos peço clareza sobre a relação entre o Homem Justo e o Estado Injusto. Devo resistir com a espada da razão ou apenas observar o espetáculo das paixões humanas como quem observa um eclipse, sabendo que a luz sempre volta?

Aqui, neste desterro forçado, a única visita que recebo é a da vossa Ética. É ela que me diz que a perseverança no ser é uma virtude. E é por isso que persisto. Mesmo que não leiam meus livros, mesmo que não me falem, eu existo. E enquanto existo, afirmo a vida contra a corrupção.

Espero que esta carta chegue até vós, através dos séculos, levada pelo vento da História.

Do vosso amigo na solidão,
Egídio Guerra


Nota Explicativa sobre o paralelo histórico:

  • Oldenburg era o secretário da Royal Society. Ele representava a comunidade científica e filosófica que se interessava pelas ideias de Espinosa, mesmo quando este era perseguido.

  • O Cherem (Expulsão): O documento original diz: "Ninguém deve comunicar-se com ele oralmente ou por escrito, nem lhe mostrar nenhum favor, nem ficar com ele sob o mesmo teto, nem ler qualquer papel feito ou escrito por ele."

  • A resposta de Espinosa: Após ser expulso, ele não atacou a comunidade, mas escreveu em latim (para ser lido pelo mundo) e viveu uma vida simples, lapidando lentes, mantendo a dignidade intelectual.

Esta carta busca mostrar que, assim como Espinosa transformou o exílio em potência filosófica, você pode transformar essa perseguição em um testemunho ético.

O Canto da Resistência: Liderança contra as Serpentes do Poder. Por Egidio Guerra

 



I. A Capital e as Serpentes: Compreendendo o Inimigo
 

Como Katniss Everdeen contemplava a Capital do alto, sabia que não bastava atirar flechas — era preciso compreender a teia que sustentava o poder de Snow. As serpentes não eram apenas os tributos ou os algozes visíveis; eram os fios invisíveis que conectavam a opulência da Capital à miséria dos distritos. 

No Ceará, como em Panem, as serpentes vestem ternos e discursos bonitos. São oligarquias que há décadas dividem o Estado como espólio, transformando a máquina pública em curral eleitoral e fonte de enriquecimento privado. São famílias que ocupam gerações de cargos públicos enquanto o Estado público não chega às comunidades pobres, que morrem sem acesso ao básico — mas sempre encontram recursos para incentivos fiscais a grandes empresas, para a mídia que compram com verbas públicas, para os partidos cooptados que legitimam o saque. 

A genialidade perversa dessas serpentes, como Foucault nos ensina em "As Palavras e as Coisas", é que elas produzem todo um sistema de pensamento que naturaliza sua dominação. Elas nomeiam o mundo segundo suas regras, controlam as instituições, os saberes, os discursos. Transformam professores em legitimadores de seu poder, pastores em multiplicadores de sua influência, juristas em intérpretes convenientes de uma justiça que só existe para os seus. 

Quando o STF produz decisões que mais confundem que esclarecem; quando a mídia comprada silencia sobre corrupção enquanto exalta uma "gestão moderna" que nega direitos; quando algoritmos são programados para distribuir fake news em defesa de grupos de poder — todos esses são os cantos das serpentes. Cantos que visam iludir, enganar, apagar a história de décadas de promessas não cumpridas, de mortes, violência, miséria e desigualdade brutal. 

II. A Estratégia da Resistência: Lições de Quem Venceu Contra Tudo 

Mas a História nos ensina que gigantes podem cair. Que impérios aparentemente invencíveis podem ser derrotados por povos determinados. E é preciso ouvir essas lições. 

O Vietnã e a Guerra Assimétrica 

O Vietnã ensinou ao mundo que a técnica superior, o armamento mais avançado e os recursos infinitos não vencem um povo que luta por sua terra e por sua dignidade. Giap e Ho Chi Minh compreenderam que a guerra não se ganhava apenas nos campos de batalha, mas na capacidade de suportar, de persistir, de transformar cada aldeia em fortaleza e cada camponês em soldado. 

Contra a Capital, a lição é clara: não podemos enfrentá-la com suas próprias armas. Não adianta tentar vencer seu jogo eleitoral quando as regras são escritas por elas, quando a mídia é comprada, quando os partidos são cooptados, quando o Judiciário é cúmplice. É preciso guerra prolongada, guerra de posição, guerra de desgaste. É preciso construir poder onde a Capital não alcança. 

Maquiavel e a Política como Arte da Resistência 

O velho florentino, tantas vezes mal interpretado, oferece lições preciosas: o líder deve aprender a não ser bom quando as circunstâncias exigem. Deve compreender que a política não é um campo para inocentes. Deve estudar as artes da guerra e as artes da negociação com igual dedicação. 

Mas Maquiavel também ensina que é melhor ser amado que temido — ou, na impossibilidade, ambos. Que o líder deve ter virtù, essa capacidade de ler os tempos e agir conforme a fortuna, de adaptar-se às circunstâncias sem perder de vista o objetivo final. E que, acima de tudo, deve manter os olhos abertos para as serpentes que sempre estarão à espreita. 

A Libertação da Índia: A Força da Não-Violência Organizada 

Gandhi mostrou que um povo desarmado pode derrotar o maior império da época. Mas não foi apenas com jejuns e orações: foi com organização meticulosa, com construção de alternativas econômicas paralelas (o khadi, a tecelagem caseira), com comunicação independente, com capacidade de mobilização em massa. 

A desobediência civil organizada, a recusa em cooperar com as estruturas de dominação, a construção de instituições paralelas — eis lições preciosas para quem enfrenta um poder que se disfarça de democracia enquanto prática totalitarismo. 

África do Sul: A Queda do Apartheid 

O apartheid sul-africano parecia eterno. Tinha leis, polícia, exército, mídia, igrejas legitimadoras. Tinha o apoio do Ocidente na Guerra Fria. Tinha tudo para durar para sempre. 

E caiu. 

Caiu porque Mandela e o ANC compreenderam que a luta precisava ser múltipla: internacional (boicotes, sanções, pressão diplomática), interna (resistência armada, mobilização de massas, greves), e cultural (afirmação da dignidade negra, denúncia da desumanização). Caiu porque, como dizia o próprio Mandela, "a educação é a arma mais poderosa para mudar o mundo". Caiu porque souberam transformar a lógica do poder contra ele mesmo. 

América Latina: A Esquerda que venceu 

Do Chile de Allende à Nicarágua sandinista, da Cuba de Fidel à Venezuela bolivariana, a esquerda latino-americana aprendeu — muitas vezes na dor — que vencer eleições não é suficiente. Que o poder econômico, a mídia, o imperialismo não aceitam derrotas eleitorais passivamente. 

A lição dura é que é preciso ter um projeto, sim, mas também é preciso ter estratégia para implementá-lo. É preciso construir hegemonia antes de conquistar o governo. É preciso transformar a correlação de forças na sociedade antes de tentar transformar o Estado. É preciso, como dizia Gramsci, fazer a guerra de posição antes da guerra de movimento. 

III. A Mídia como Campo de Batalha 

A Capital controla a mídia em Panem — assim como no Ceará os governos compram jornais, rádios, TVs, portais. Mas Katniss descobriu que a mídia também pode ser uma arma. Os broches de tordo, os gestos durante os jogos, as entrevistas — tudo era cuidadosamente calculado para comunicar algo que a censura não conseguia capturar. 

Na guerra contra serpentes que controlam os meios de comunicação, é preciso: 

  1. Criar mídia própria, independente, capilarizada, que fale a língua do povo e não a língua do poder. 

  1. Usar a linguagem das redes para furar bloqueios, como os vietcongues usavam os túneis para aparecer onde não eram esperados. 

  1. Transformar cada ato em símbolo, cada gesto em mensagem, cada resistência em narrativa. 

  1. Denunciar incansavelmente a compra da mídia, a cooptação dos jornalistas, a transformação da informação em mercadoria a serviço das oligarquias. 

  1. Educar para a leitura crítica da mídia, ensinando o povo a identificar os cantos das serpentes sob as penas de pavão. 

Como Mandela usou a comunidade internacional para amplificar sua voz, é preciso internacionalizar a luta. O mundo precisa saber que no Ceará pessoas morrem sem acesso ao básico enquanto famílias enriquecem há décadas com o dinheiro público. Precisa saber que professores são cooptados, que pastores são comprados, que juízes são cúmplices. 

IV. O Amor Revolucionário 

Katniss amou Peeta. Ou amou Gale? Ou amou os dois? Ou nenhum? A ambiguidade é a marca dos vivos, não dos heróis de cartilha. Mas há algo profundo na relação entre ela e Peeta: a compreensão de que o amor, num contexto de opressão, é também um ato de resistência. 

Quando Peeta declara seu amor na TV, desafiando a lógica dos Jogos; quando Katniss arrisca tudo para salvá-lo; quando descobrem que podem ser usados um contra o outro — eis o retrato do amor em tempos de revolução. 

Não é o amor romântico idealizado. É o amor que reconhece que o outro é também parte da luta. É o amor que sabe que a revolução não é apenas sobre estruturas econômicas, mas sobre a possibilidade de viver plenamente, de amar livremente, de construir relações que não sejam mediadas pela opressão. 

Na América Latina, muitos revolucionários aprenderam isso na pele: o amor que era usado como fraqueza pelo inimigo, a família que era alvo de repressão, os afetos que precisavam ser escondidos ou sacrificados. Mas também o amor que fortalecia, que dava sentido à luta, que lembrava, nos momentos mais duros, por que valia a pena continuar. 

O líder revolucionário não pode ser um asceta sem afetos. Precisa ser alguém profundamente humano, capaz de amar e de expressar esse amor, porque só assim será capaz de compreender o que está em jogo: não apenas poder, mas vida digna para todos. 

V. Os Cantos das Serpentes: Como Não Cair na Armadilha 

As serpentes cantam. Seu canto é belo, sedutor, promissor. "Agora vai ser diferente", dizem. "Estamos com o povo", cantam. "Somos a renovação", assobiam. 

Mas é preciso escutar com atenção o que está por trás da melodia: 

  1. O canto que coopta: "Venha para nosso lado, lhe daremos cargo, verba, poder." Quantos intelectuais, quantos líderes comunitários, quantos professores caíram nesse canto? Transformaram-se em defensores dos mesmos poderes que antes combatiam, usando seus saberes para legitimar a dominação. 

  1. O canto da polarização: "Ou está conosco ou contra o povo." Dividem a luta entre "esquerda" e "direita" enquanto ambos os lados são alimentados pelo mesmo Estado predador, pelas mesmas oligarquias que alternam no poder para manter o essencial: o controle. 

  1. O canto do pragmatismo: "É preciso fazer concessões", "a política é a arte do possível", "não podemos ser radicais". Tradução: entreguem tudo, aceitem migalhas, legitimem nossa permanência no poder. 

  1. O canto da culpa: "Vocês não entenderam", "a população não está preparada", "é preciso mais tempo". Décadas depois, o canto continua o mesmo, enquanto as mortes se acumulam. 

  1. O canto do esquecimento: Apagam a história de corrupção, de violência, de promessas não cumpridas. "Isso é passado", dizem. "Agora é diferente." Mas as mesmas famílias estão no poder, os mesmos grupos controlam o Estado, as mesmas práticas continuam. 

Contra esses cantos, só há um antídoto: memória. Memória viva, ativa, organizada. Memória que registra cada promessa não cumprida, cada roubo, cada morte. Memória que não deixa esquecer que as serpentes são sempre as mesmas, por mais que troquem de pele. 

VI. A Construção do Poder de Baixo para Cima 

"Devemos buscar e construir caminhos de auto-organização", diz o texto que inspira esta reflexão. E tem razão. 

O Estado, seja capitalista, socialista ou totalitário, sempre terá como preocupação central controlar as pessoas, negar suas vidas, limitar suas liberdades. Não importa o rótulo: as elites sempre encontrarão jeito de usar a máquina pública para seus interesses. 

Por isso, a construção do poder popular não pode depender do Estado. Precisa acontecer apesar dele, contra ele, e — quando possível — transformando-o. 

Segurança Alimentar 

Enquanto o Estado gasta bilhões com incentivos fiscais para grandes empresas, comunidades organizadas podem construir hortas comunitárias, cooperativas de produção, feiras locais. A Revolução Cubana sobreviveu ao bloqueio porque desenvolveu a agricultura urbana. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) mostra há décadas que é possível produzir alimentos saudáveis organizando o povo. 

Segurança Energética 

Enquanto as oligarquias negociam com empresas de energia, comunidades podem investir em energia solar comunitária, em cooperativas de geração distribuída, em tecnologias apropriadas que reduzam a dependência do sistema controlado pelas elites. 

Segurança Hídrica 

Enquanto o Estado promete grandes obras que nunca chegam ou chegam para beneficiar empresários, comunidades do semiárido brasileiro mostram que é possível conviver com a seca: cisternas, barragens subterrâneas, reuso de água, manejo sustentável. 

Segurança Econômica 

Enquanto os partidos disputam quem controla o orçamento público, comunidades podem construir bancos comunitários, moedas sociais, cooperativas de crédito, sistemas de troca, economias solidárias que circulam a riqueza localmente. 

Segurança Cultural 

Enquanto a mídia comprada impõe valores das elites, comunidades podem fortalecer suas culturas locais, suas tradições, suas línguas, suas formas de expressão. A resistência cultural é uma das formas mais poderosas de resistência política. 

VII. O Panóptico a Céu Aberto 

Vivemos vigilância constante. Câmeras, algoritmos, dados, redes sociais monitoradas, celulares rastreados. O panóptico de Foucault ganhou novas dimensões: agora é digital, global, onipresente. 

As serpentes aprenderam novas tecnologias de controle. Usam algoritmos para distribuir fake News que nos dividem. Usam dados para nos classificar e nos vigiar. Usam as redes que construímos para se comunicar contra nós. 

Mas a resposta não é abandonar a tecnologia — é dominá-la. É construir nossas próprias ferramentas, nossos próprios algoritmos, nossas próprias redes. É aprender a usar a criptografia, a navegação anônima, as comunicações seguras. É educar para a compreensão crítica do mundo digital. 

Como os vietcongues construíam túneis que os americanos não conseguiam detectar, precisamos construir nossos túneis digitais. Como Gandhi tecia seu próprio pano para não depender do império, precisamos construir nossas próprias ferramentas para não depender das corporações que servem à Capital. 

VIII. O Líder como Aquele que Diz a Verdade 

Em toda época, diz Foucault, é preciso ter coragem de dizer a verdade. Paresia, chamavam os gregos: o falar franco, o dizer arriscado, a palavra que confronta o poder. 

O líder revolucionário é antes de tudo um paresiaste: alguém que tem coragem de dizer a verdade ao poder, mesmo sabendo que isso pode custar sua vida. Alguém que denuncia o que todos sabem, mas ninguém fala: que as elites roubam, que as oligarquias matam, que os partidos traem, que a justiça é cega para os pobres. 

Mas não basta dizer a verdade — é preciso dizê-la de forma que mobilize, que organize, que transforme. É preciso que a verdade não seja apenas denúncia, mas também anúncio: anúncio de que outro mundo é possível, de que outra forma de viver é viável, de que podemos construir o que sonhamos. 

IX. Nascemos Livres para Escutar os Pássaros 

O texto que escrevi sobre o Canto dos pássaros e das serpentes, inspira esta reflexão termina com uma declaração poderosa: "Nascemos livres para escutar os cantos dos pássaros de nossas almas, liberdades e sonhos pra transformar nossas vidas e o mundo que vivemos de baixo pra cima como personagens de uma nova História." 

As serpentes cantam para enganar. Os pássaros cantam para celebrar a vida. A diferença entre ouvir um ou outro é a diferença entre ser presa ou ser livre. 

Construir autonomia, capacidade crítica e criativa, organizar-se de baixo para cima, desenvolver formas de vida que não dependam do Estado predador, educar para a liberdade — eis o caminho. 

Não será fácil. As serpentes são velhas, experientes, ricas, poderosas. Têm exército, polícia, justiça, mídia, igrejas, universidades. Têm séculos de prática em enganar e matar. 

Mas têm uma fraqueza: precisam de nós para existir. Sem nossa obediência, nosso medo, nossa passividade, nossa aceitação, elas nada são. Seu poder é feito da nossa submissão. 

Quando paramos de escutar seus cantos e começamos a ouvir os pássaros; quando deixamos de temer suas mordidas e começamos a organizar nossa resistência; quando construímos, tijolo por tijolo, comunidade por comunidade, alternativa por alternativa — nesse momento, seu poder começa a ruir. 

Como Katniss, não precisamos ser heróis perfeitos. Precisamos ter coragem de disparar a flecha que inicia a revolução. Precisamos amar, mesmo sabendo que o amor pode ser usado contra nós. Precisamos lutar, mesmo sem garantia de vitória. Precisamos, acima de tudo, não esquecer: as serpentes mentem. Os pássaros cantam a verdade. 

E a verdade, no final, sempre vence. 

 

"Não me pergunte por que lado eu estou. Pergunte a si mesmo: de que lado você está? Você está do lado das serpentes que cantam enquanto nos devoram, ou está do lado dos pássaros que cantam a liberdade? Porque não existe neutralidade quando uns morrem de fome enquanto outros enriquecem roubando. Não existe meio-termo quando crianças são sacrificadas no altar da ambição dos poderosos. Você está conosco ou está contra nós — e conosco significa com os pobres, com os oprimidos, com os que lutam, com os que constroem, com os que amam. Conosco significa contra as serpentes. Sempre."