SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

domingo, 8 de março de 2026

O Canto da Resistência: Liderança contra as Serpentes do Poder. Por Egidio Guerra

 



I. A Capital e as Serpentes: Compreendendo o Inimigo
 

Como Katniss Everdeen contemplava a Capital do alto, sabia que não bastava atirar flechas — era preciso compreender a teia que sustentava o poder de Snow. As serpentes não eram apenas os tributos ou os algozes visíveis; eram os fios invisíveis que conectavam a opulência da Capital à miséria dos distritos. 

No Ceará, como em Panem, as serpentes vestem ternos e discursos bonitos. São oligarquias que há décadas dividem o Estado como espólio, transformando a máquina pública em curral eleitoral e fonte de enriquecimento privado. São famílias que ocupam gerações de cargos públicos enquanto o Estado público não chega às comunidades pobres, que morrem sem acesso ao básico — mas sempre encontram recursos para incentivos fiscais a grandes empresas, para a mídia que compram com verbas públicas, para os partidos cooptados que legitimam o saque. 

A genialidade perversa dessas serpentes, como Foucault nos ensina em "As Palavras e as Coisas", é que elas produzem todo um sistema de pensamento que naturaliza sua dominação. Elas nomeiam o mundo segundo suas regras, controlam as instituições, os saberes, os discursos. Transformam professores em legitimadores de seu poder, pastores em multiplicadores de sua influência, juristas em intérpretes convenientes de uma justiça que só existe para os seus. 

Quando o STF produz decisões que mais confundem que esclarecem; quando a mídia comprada silencia sobre corrupção enquanto exalta uma "gestão moderna" que nega direitos; quando algoritmos são programados para distribuir fake news em defesa de grupos de poder — todos esses são os cantos das serpentes. Cantos que visam iludir, enganar, apagar a história de décadas de promessas não cumpridas, de mortes, violência, miséria e desigualdade brutal. 

II. A Estratégia da Resistência: Lições de Quem Venceu Contra Tudo 

Mas a História nos ensina que gigantes podem cair. Que impérios aparentemente invencíveis podem ser derrotados por povos determinados. E é preciso ouvir essas lições. 

O Vietnã e a Guerra Assimétrica 

O Vietnã ensinou ao mundo que a técnica superior, o armamento mais avançado e os recursos infinitos não vencem um povo que luta por sua terra e por sua dignidade. Giap e Ho Chi Minh compreenderam que a guerra não se ganhava apenas nos campos de batalha, mas na capacidade de suportar, de persistir, de transformar cada aldeia em fortaleza e cada camponês em soldado. 

Contra a Capital, a lição é clara: não podemos enfrentá-la com suas próprias armas. Não adianta tentar vencer seu jogo eleitoral quando as regras são escritas por elas, quando a mídia é comprada, quando os partidos são cooptados, quando o Judiciário é cúmplice. É preciso guerra prolongada, guerra de posição, guerra de desgaste. É preciso construir poder onde a Capital não alcança. 

Maquiavel e a Política como Arte da Resistência 

O velho florentino, tantas vezes mal interpretado, oferece lições preciosas: o líder deve aprender a não ser bom quando as circunstâncias exigem. Deve compreender que a política não é um campo para inocentes. Deve estudar as artes da guerra e as artes da negociação com igual dedicação. 

Mas Maquiavel também ensina que é melhor ser amado que temido — ou, na impossibilidade, ambos. Que o líder deve ter virtù, essa capacidade de ler os tempos e agir conforme a fortuna, de adaptar-se às circunstâncias sem perder de vista o objetivo final. E que, acima de tudo, deve manter os olhos abertos para as serpentes que sempre estarão à espreita. 

A Libertação da Índia: A Força da Não-Violência Organizada 

Gandhi mostrou que um povo desarmado pode derrotar o maior império da época. Mas não foi apenas com jejuns e orações: foi com organização meticulosa, com construção de alternativas econômicas paralelas (o khadi, a tecelagem caseira), com comunicação independente, com capacidade de mobilização em massa. 

A desobediência civil organizada, a recusa em cooperar com as estruturas de dominação, a construção de instituições paralelas — eis lições preciosas para quem enfrenta um poder que se disfarça de democracia enquanto prática totalitarismo. 

África do Sul: A Queda do Apartheid 

O apartheid sul-africano parecia eterno. Tinha leis, polícia, exército, mídia, igrejas legitimadoras. Tinha o apoio do Ocidente na Guerra Fria. Tinha tudo para durar para sempre. 

E caiu. 

Caiu porque Mandela e o ANC compreenderam que a luta precisava ser múltipla: internacional (boicotes, sanções, pressão diplomática), interna (resistência armada, mobilização de massas, greves), e cultural (afirmação da dignidade negra, denúncia da desumanização). Caiu porque, como dizia o próprio Mandela, "a educação é a arma mais poderosa para mudar o mundo". Caiu porque souberam transformar a lógica do poder contra ele mesmo. 

América Latina: A Esquerda que venceu 

Do Chile de Allende à Nicarágua sandinista, da Cuba de Fidel à Venezuela bolivariana, a esquerda latino-americana aprendeu — muitas vezes na dor — que vencer eleições não é suficiente. Que o poder econômico, a mídia, o imperialismo não aceitam derrotas eleitorais passivamente. 

A lição dura é que é preciso ter um projeto, sim, mas também é preciso ter estratégia para implementá-lo. É preciso construir hegemonia antes de conquistar o governo. É preciso transformar a correlação de forças na sociedade antes de tentar transformar o Estado. É preciso, como dizia Gramsci, fazer a guerra de posição antes da guerra de movimento. 

III. A Mídia como Campo de Batalha 

A Capital controla a mídia em Panem — assim como no Ceará os governos compram jornais, rádios, TVs, portais. Mas Katniss descobriu que a mídia também pode ser uma arma. Os broches de tordo, os gestos durante os jogos, as entrevistas — tudo era cuidadosamente calculado para comunicar algo que a censura não conseguia capturar. 

Na guerra contra serpentes que controlam os meios de comunicação, é preciso: 

  1. Criar mídia própria, independente, capilarizada, que fale a língua do povo e não a língua do poder. 

  1. Usar a linguagem das redes para furar bloqueios, como os vietcongues usavam os túneis para aparecer onde não eram esperados. 

  1. Transformar cada ato em símbolo, cada gesto em mensagem, cada resistência em narrativa. 

  1. Denunciar incansavelmente a compra da mídia, a cooptação dos jornalistas, a transformação da informação em mercadoria a serviço das oligarquias. 

  1. Educar para a leitura crítica da mídia, ensinando o povo a identificar os cantos das serpentes sob as penas de pavão. 

Como Mandela usou a comunidade internacional para amplificar sua voz, é preciso internacionalizar a luta. O mundo precisa saber que no Ceará pessoas morrem sem acesso ao básico enquanto famílias enriquecem há décadas com o dinheiro público. Precisa saber que professores são cooptados, que pastores são comprados, que juízes são cúmplices. 

IV. O Amor Revolucionário 

Katniss amou Peeta. Ou amou Gale? Ou amou os dois? Ou nenhum? A ambiguidade é a marca dos vivos, não dos heróis de cartilha. Mas há algo profundo na relação entre ela e Peeta: a compreensão de que o amor, num contexto de opressão, é também um ato de resistência. 

Quando Peeta declara seu amor na TV, desafiando a lógica dos Jogos; quando Katniss arrisca tudo para salvá-lo; quando descobrem que podem ser usados um contra o outro — eis o retrato do amor em tempos de revolução. 

Não é o amor romântico idealizado. É o amor que reconhece que o outro é também parte da luta. É o amor que sabe que a revolução não é apenas sobre estruturas econômicas, mas sobre a possibilidade de viver plenamente, de amar livremente, de construir relações que não sejam mediadas pela opressão. 

Na América Latina, muitos revolucionários aprenderam isso na pele: o amor que era usado como fraqueza pelo inimigo, a família que era alvo de repressão, os afetos que precisavam ser escondidos ou sacrificados. Mas também o amor que fortalecia, que dava sentido à luta, que lembrava, nos momentos mais duros, por que valia a pena continuar. 

O líder revolucionário não pode ser um asceta sem afetos. Precisa ser alguém profundamente humano, capaz de amar e de expressar esse amor, porque só assim será capaz de compreender o que está em jogo: não apenas poder, mas vida digna para todos. 

V. Os Cantos das Serpentes: Como Não Cair na Armadilha 

As serpentes cantam. Seu canto é belo, sedutor, promissor. "Agora vai ser diferente", dizem. "Estamos com o povo", cantam. "Somos a renovação", assobiam. 

Mas é preciso escutar com atenção o que está por trás da melodia: 

  1. O canto que coopta: "Venha para nosso lado, lhe daremos cargo, verba, poder." Quantos intelectuais, quantos líderes comunitários, quantos professores caíram nesse canto? Transformaram-se em defensores dos mesmos poderes que antes combatiam, usando seus saberes para legitimar a dominação. 

  1. O canto da polarização: "Ou está conosco ou contra o povo." Dividem a luta entre "esquerda" e "direita" enquanto ambos os lados são alimentados pelo mesmo Estado predador, pelas mesmas oligarquias que alternam no poder para manter o essencial: o controle. 

  1. O canto do pragmatismo: "É preciso fazer concessões", "a política é a arte do possível", "não podemos ser radicais". Tradução: entreguem tudo, aceitem migalhas, legitimem nossa permanência no poder. 

  1. O canto da culpa: "Vocês não entenderam", "a população não está preparada", "é preciso mais tempo". Décadas depois, o canto continua o mesmo, enquanto as mortes se acumulam. 

  1. O canto do esquecimento: Apagam a história de corrupção, de violência, de promessas não cumpridas. "Isso é passado", dizem. "Agora é diferente." Mas as mesmas famílias estão no poder, os mesmos grupos controlam o Estado, as mesmas práticas continuam. 

Contra esses cantos, só há um antídoto: memória. Memória viva, ativa, organizada. Memória que registra cada promessa não cumprida, cada roubo, cada morte. Memória que não deixa esquecer que as serpentes são sempre as mesmas, por mais que troquem de pele. 

VI. A Construção do Poder de Baixo para Cima 

"Devemos buscar e construir caminhos de auto-organização", diz o texto que inspira esta reflexão. E tem razão. 

O Estado, seja capitalista, socialista ou totalitário, sempre terá como preocupação central controlar as pessoas, negar suas vidas, limitar suas liberdades. Não importa o rótulo: as elites sempre encontrarão jeito de usar a máquina pública para seus interesses. 

Por isso, a construção do poder popular não pode depender do Estado. Precisa acontecer apesar dele, contra ele, e — quando possível — transformando-o. 

Segurança Alimentar 

Enquanto o Estado gasta bilhões com incentivos fiscais para grandes empresas, comunidades organizadas podem construir hortas comunitárias, cooperativas de produção, feiras locais. A Revolução Cubana sobreviveu ao bloqueio porque desenvolveu a agricultura urbana. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) mostra há décadas que é possível produzir alimentos saudáveis organizando o povo. 

Segurança Energética 

Enquanto as oligarquias negociam com empresas de energia, comunidades podem investir em energia solar comunitária, em cooperativas de geração distribuída, em tecnologias apropriadas que reduzam a dependência do sistema controlado pelas elites. 

Segurança Hídrica 

Enquanto o Estado promete grandes obras que nunca chegam ou chegam para beneficiar empresários, comunidades do semiárido brasileiro mostram que é possível conviver com a seca: cisternas, barragens subterrâneas, reuso de água, manejo sustentável. 

Segurança Econômica 

Enquanto os partidos disputam quem controla o orçamento público, comunidades podem construir bancos comunitários, moedas sociais, cooperativas de crédito, sistemas de troca, economias solidárias que circulam a riqueza localmente. 

Segurança Cultural 

Enquanto a mídia comprada impõe valores das elites, comunidades podem fortalecer suas culturas locais, suas tradições, suas línguas, suas formas de expressão. A resistência cultural é uma das formas mais poderosas de resistência política. 

VII. O Panóptico a Céu Aberto 

Vivemos vigilância constante. Câmeras, algoritmos, dados, redes sociais monitoradas, celulares rastreados. O panóptico de Foucault ganhou novas dimensões: agora é digital, global, onipresente. 

As serpentes aprenderam novas tecnologias de controle. Usam algoritmos para distribuir fake News que nos dividem. Usam dados para nos classificar e nos vigiar. Usam as redes que construímos para se comunicar contra nós. 

Mas a resposta não é abandonar a tecnologia — é dominá-la. É construir nossas próprias ferramentas, nossos próprios algoritmos, nossas próprias redes. É aprender a usar a criptografia, a navegação anônima, as comunicações seguras. É educar para a compreensão crítica do mundo digital. 

Como os vietcongues construíam túneis que os americanos não conseguiam detectar, precisamos construir nossos túneis digitais. Como Gandhi tecia seu próprio pano para não depender do império, precisamos construir nossas próprias ferramentas para não depender das corporações que servem à Capital. 

VIII. O Líder como Aquele que Diz a Verdade 

Em toda época, diz Foucault, é preciso ter coragem de dizer a verdade. Paresia, chamavam os gregos: o falar franco, o dizer arriscado, a palavra que confronta o poder. 

O líder revolucionário é antes de tudo um paresiaste: alguém que tem coragem de dizer a verdade ao poder, mesmo sabendo que isso pode custar sua vida. Alguém que denuncia o que todos sabem, mas ninguém fala: que as elites roubam, que as oligarquias matam, que os partidos traem, que a justiça é cega para os pobres. 

Mas não basta dizer a verdade — é preciso dizê-la de forma que mobilize, que organize, que transforme. É preciso que a verdade não seja apenas denúncia, mas também anúncio: anúncio de que outro mundo é possível, de que outra forma de viver é viável, de que podemos construir o que sonhamos. 

IX. Nascemos Livres para Escutar os Pássaros 

O texto que escrevi sobre o Canto dos pássaros e das serpentes, inspira esta reflexão termina com uma declaração poderosa: "Nascemos livres para escutar os cantos dos pássaros de nossas almas, liberdades e sonhos pra transformar nossas vidas e o mundo que vivemos de baixo pra cima como personagens de uma nova História." 

As serpentes cantam para enganar. Os pássaros cantam para celebrar a vida. A diferença entre ouvir um ou outro é a diferença entre ser presa ou ser livre. 

Construir autonomia, capacidade crítica e criativa, organizar-se de baixo para cima, desenvolver formas de vida que não dependam do Estado predador, educar para a liberdade — eis o caminho. 

Não será fácil. As serpentes são velhas, experientes, ricas, poderosas. Têm exército, polícia, justiça, mídia, igrejas, universidades. Têm séculos de prática em enganar e matar. 

Mas têm uma fraqueza: precisam de nós para existir. Sem nossa obediência, nosso medo, nossa passividade, nossa aceitação, elas nada são. Seu poder é feito da nossa submissão. 

Quando paramos de escutar seus cantos e começamos a ouvir os pássaros; quando deixamos de temer suas mordidas e começamos a organizar nossa resistência; quando construímos, tijolo por tijolo, comunidade por comunidade, alternativa por alternativa — nesse momento, seu poder começa a ruir. 

Como Katniss, não precisamos ser heróis perfeitos. Precisamos ter coragem de disparar a flecha que inicia a revolução. Precisamos amar, mesmo sabendo que o amor pode ser usado contra nós. Precisamos lutar, mesmo sem garantia de vitória. Precisamos, acima de tudo, não esquecer: as serpentes mentem. Os pássaros cantam a verdade. 

E a verdade, no final, sempre vence. 

 

"Não me pergunte por que lado eu estou. Pergunte a si mesmo: de que lado você está? Você está do lado das serpentes que cantam enquanto nos devoram, ou está do lado dos pássaros que cantam a liberdade? Porque não existe neutralidade quando uns morrem de fome enquanto outros enriquecem roubando. Não existe meio-termo quando crianças são sacrificadas no altar da ambição dos poderosos. Você está conosco ou está contra nós — e conosco significa com os pobres, com os oprimidos, com os que lutam, com os que constroem, com os que amam. Conosco significa contra as serpentes. Sempre." 

 

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