No centro da análise de Dan Wang
Breakneck: China's Quest to Engineer the Future está uma dicotomia poderosa para entender o destino económico das nações. Wang argumenta que a China moderna é a personificação do "estado engenheiro", uma entidade cuja lógica fundamental é a resolução de problemas através de megaprojetos e planeamento centralizado. Esta mentalidade, que Wang explora em capítulos como "Building Big" e "Tech Power", prioriza resultados materiais e a melhoria rápida das condições de vida, ainda que a um custo humano e político significativo .
Esta realidade - de crescimento notável acompanhado de repressão política - não é um paradoxo, mas sim uma característica central desta abordagem. Para Wang, a China produziu "pontes imponentes, caminhos-de-ferro reluzentes e fábricas extensas que melhoraram os resultados econômicos em tempo recorde", criando um sentimento de otimismo tangível em cidades como Xangai e Shenzhen . Em contraste, Wang descreve os Estados Unidos como uma "sociedade de advogados" que se tornou "reflexivamente bloqueadora de tudo, bom e mau", incapaz de executar projetos em grande escala que beneficiem a maioria. O destino de cada nação, sugere, está na capacidade de aprender com o outro: a China precisa valorizar as liberdades individuais, enquanto a América precisa de redescobrir o valor da engenharia e da construção coletiva .
Se Wang oferece um retrato contemporâneo e geopolítico, Michael Hudson fornece a profundidade histórica e teórica para entender as forças em confronto.
Em The Destiny of Civilization: Finance Capitalism, Industrial Capitalism or Socialism, Hudson argumenta que o conflito EUA-China não é uma simples rivalidade comercial, mas sim um choque de sistemas políticos e econômicos fundamentalmente distintos. Para Hudson, o Ocidente, liderado pelos EUA, sucumbiu ao que ele designa como "capitalismo financeiro" ou "capitalismo monopolista financeirizado". Neste sistema, uma classe restrita de rentistas - credores, monopolistas e extratores de renda - tornou-se o "novo planejador central", drenando rendimento da indústria e do trabalho, e inflacionando os custos de produção para extrair rendas econômicas . É este o mecanismo por trás da "doença americana" da desindustrialização.
Hudson contrapõe a este modelo a lógica do capitalismo industrial, que ele associa ao dinamismo produtivo que a China ainda procura manter, e a alternativa do socialismo. A sua obra procura "reviver a economia política clássica" para expor como a financeirização extrai valor em vez de o criar, um processo que torna as economias ocidentais "cada vez mais dependentes de subsídios e exploração externa à medida que a sua própria economia doméstica definha" .
As Raízes Ancestrais da Crise da Dívida
A tese de Hudson sobre o poder paralisante do capital financeiro não é nova; é, na sua perspetiva, um ciclo que a humanidade enfrenta há milénios.
Em ...and Forgive Them Their Debts: Lending, Foreclosure and Redemption from Bronze Age Finance to the Jubilee Year, Hudson escava as origens da dívida na Mesopotâmia da Idade do Bronze. A sua investigação, feita em colaboração com o Museu Peabody de Harvard, documenta como as primeiras civilizações compreenderam que, sem mecanismos de perdão regular de dívidas (os "Clean Slates" proclamados pelos reis), a acumulação de dívidas impagáveis levaria inevitavelmente os credores a apoderarem-se das terras e da liberdade dos devedores, destruindo a coesão social e a própria capacidade produtiva do Estado.
Esta tradição, que encontra o seu eco bíblico no conceito do Ano Jubileu, era uma ferramenta prática de estabilidade econômica. A mensagem radical de Jesus, conforme Hudson recorda, foi a proclamação desse Jubileu, uma ameaça à ordem dos credores que contribuiu para a sua condenação. A lição que Hudson extrai para o destino econômico contemporâneo é clara: quando as sociedades abandonam o princípio da "tabula rasa" para a dívida, permitem que as elites credoras tomem o controle dos ativos e do governo, um processo que levou à queda de impérios como o Romano e que agora ameaça o mundo moderno.
A Hegemonia do Défice: O Super-Imperialismo Americano
A questão que se coloca é como é que o capitalismo financeiro conseguiu manter a sua hegemonia global apesar da sua natureza parasiitária. A resposta de Hudson, em Super Imperialism: The Economic Strategy of American Empire, é que os EUA construíram um sistema internacional que lhes permite exercer poder exatamente por serem o devedor final. Nesta "nova forma de imperialismo", a América conseguiu o que nenhuma potência antes dela conseguiu: "forçar outras nações a pagar pelas suas guerras de forma sistemática". A tese central é que, a partir de 1971, com o fim da conversibilidade do dólar em ouro, os EUA institucionalizaram o "padrão da dívida" ou "padrão das treasury bills".
Isto significa que o país pode financiar os seus défices e as suas guerras simplesmente emitindo a moeda que os bancos centrais estrangeiros são forçados a acumular para manter a estabilidade do sistema. "Nunca antes uma nação falida ousara insistir que a sua falência se tornasse o fundamento da política econômica mundial", escreve Hudson . Este mecanismo de "dólar hegemônico" é a expressão máxima do capitalismo financeiro, permitindo que os EUA extraiam tributo do resto do mundo e mantenham a sua primazia mesmo enquanto a sua base industrial definha .
O Motor da Contenda: O Caso Huawei
É neste campo de batalha entre o estado engenheiro chinês e o super-imperialismo financeiro americano que surge a Huawei, dissecada por Eva Dou em House of Huawei: The Secret History of China's Most Powerful Company. A história da Huawei é a história da ascensão tecnológica da China e do seu confronto direto com a hegemonia americana. Dou descreve como a empresa, fundada em 1987 por Ren Zhengfei, um antigo engenheiro do exército, beneficiou de uma "relação simbiótica com o Estado-partido chinês" . O governo ajudou a garantir o seu sucesso inicial, fornecendo-lhe um mercado protegido e alinhando-a com os objetivos nacionais, enquanto a Huawei, por sua vez, desenvolveu tecnologias como o sistema de reconhecimento facial "Safe City" que expandiram a capacidade de vigilância do Estado.
A trajetória da Huawei espelha a tese de Wang sobre a prioridade da engenharia sobre todas as outras considerações. O seu objetivo, consagrado na lei básica da empresa, não é o de "maximizar o valor para o acionista", mas sim o de "se tornar uma empresa de classe mundial líder" no seu campo, garantindo a sua própria sobrevivência a longo prazo, tal como o Partido Comunista Chinês. Esta lógica tornou a Huawei um alvo inevitável na guerra tecnológica desencadeada pelos EUA. As sanções de Washington, que visavam travar o seu crescimento, tiveram o efeito oposto de a impulsionar a desenvolver as suas próprias tecnologias, nomeadamente em semicondutores e na liderança do 5G. A empresa polarizou o mundo, sendo banida pelos EUA, Austrália e grande parte da Europa, mas adotada pela Rússia, pelo Sudeste Asiático e por grande parte do Sul Global . A Huawei, na análise de Dou, é simultaneamente o produto e o motor do futuro econômico que a China ambiciona: um futuro de autossuficiência tecnológica e de influência global, conquistado contra as regras do jogo estabelecidas pelo super-imperialismo financeiro.
Conclusão
Em síntese, os futuros e destinos econômicos em disputa são radicalmente diferentes. De um lado, a visão de Hudson é a de um Ocidente preso num ciclo de financeirização predatória, onde a dívida é uma ferramenta de controle e onde o crescimento real é sacrificado à extração de renda, um sistema que só se sustenta à custa do império monetário americano. Do outro, a visão de Wang e Dou é a de uma China que, a um custo humano profundo, persegue incansavelmente a construção de capacidades produtivas e tecnológicas através de um modelo de estado engenheiro. A Huawei surge assim como a ponta de lança deste modelo, desafiando a ordem tecnológica e financeira estabelecida. O destino econômico do século XXI será provavelmente decidido por este confronto: entre a lógica do rentista financeiro, que vive do passado, e a lógica do construtor industrial, que aposta no futuro.
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