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domingo, 1 de março de 2026

Os futuros e destinos econômicos em disputa são radicalmente diferentes! Por Egidio Guerra




No centro da análise de Dan Wang 

BreakneckChina's Quest to Engineer the Future está uma dicotomia poderosa para entender o destino económico das nações. Wang argumenta que a China moderna é a personificação do "estado engenheiro", uma entidade cuja lógica fundamental é a resolução de problemas através de megaprojetos e planeamento centralizado. Esta mentalidade, que Wang explora em capítulos como "Building Big" e "Tech Power", prioriza resultados materiais e a melhoria rápida das condições de vida, ainda que a um custo humano e político significativo . 

Esta realidade - de crescimento notável acompanhado de repressão política - não é um paradoxo, mas sim uma característica central desta abordagem. Para Wang, a China produziu "pontes imponentes, caminhos-de-ferro reluzentes e fábricas extensas que melhoraram os resultados econômicos em tempo recorde", criando um sentimento de otimismo tangível em cidades como Xangai e Shenzhen . Em contraste, Wang descreve os Estados Unidos como uma "sociedade de advogados" que se tornou "reflexivamente bloqueadora de tudo, bom e mau", incapaz de executar projetos em grande escala que beneficiem a maioria. O destino de cada nação, sugere, está na capacidade de aprender com o outro: a China precisa valorizar as liberdades individuais, enquanto a América precisa de redescobrir o valor da engenharia e da construção coletiva . 




O Conflito de Civilizações: Capitalismo Industrial vs. Capitalismo Financeiro.

Se Wang oferece um retrato contemporâneo e geopolítico, Michael Hudson fornece a profundidade histórica e teórica para entender as forças em confronto. 

Em The Destiny of CivilizationFinance Capitalism, Industrial Capitalism or Socialism, Hudson argumenta que o conflito EUA-China não é uma simples rivalidade comercial, mas sim um choque de sistemas políticos e econômicos fundamentalmente distintos. Para Hudson, o Ocidente, liderado pelos EUA, sucumbiu ao que ele designa como "capitalismo financeiro" ou "capitalismo monopolista financeirizado". Neste sistema, uma classe restrita de rentistas - credores, monopolistas e extratores de renda - tornou-se o "novo planejador central", drenando rendimento da indústria e do trabalho, e inflacionando os custos de produção para extrair rendas econômicas . É este o mecanismo por trás da "doença americana" da desindustrialização. 

Hudson contrapõe a este modelo a lógica do capitalismo industrial, que ele associa ao dinamismo produtivo que a China ainda procura manter, e a alternativa do socialismo. A sua obra procura "reviver a economia política clássica" para expor como a financeirização extrai valor em vez de o criar, um processo que torna as economias ocidentais "cada vez mais dependentes de subsídios e exploração externa à medida que a sua própria economia doméstica definha" . 

As Raízes Ancestrais da Crise da Dívida 

A tese de Hudson sobre o poder paralisante do capital financeiro não é nova; é, na sua perspetiva, um ciclo que a humanidade enfrenta há milénios.

 Em ...and Forgive Them Their DebtsLendingForeclosure and Redemption from Bronze Age Finance to the Jubilee Year, Hudson escava as origens da dívida na Mesopotâmia da Idade do Bronze. A sua investigação, feita em colaboração com o Museu Peabody de Harvard, documenta como as primeiras civilizações compreenderam que, sem mecanismos de perdão regular de dívidas (os "Clean Slates" proclamados pelos reis), a acumulação de dívidas impagáveis levaria inevitavelmente os credores a apoderarem-se das terras e da liberdade dos devedores, destruindo a coesão social e a própria capacidade produtiva do Estado. 

Esta tradição, que encontra o seu eco bíblico no conceito do Ano Jubileu, era uma ferramenta prática de estabilidade econômica. A mensagem radical de Jesus, conforme Hudson recorda, foi a proclamação desse Jubileu, uma ameaça à ordem dos credores que contribuiu para a sua condenação. A lição que Hudson extrai para o destino econômico contemporâneo é clara: quando as sociedades abandonam o princípio da "tabula rasa" para a dívida, permitem que as elites credoras tomem o controle dos ativos e do governo, um processo que levou à queda de impérios como o Romano e que agora ameaça o mundo moderno. 

A Hegemonia do Défice: O Super-Imperialismo Americano 

A questão que se coloca é como é que o capitalismo financeiro conseguiu manter a sua hegemonia global apesar da sua natureza parasiitária. A resposta de Hudson, em Super Imperialism: The Economic Strategy of American Empire, é que os EUA construíram um sistema internacional que lhes permite exercer poder exatamente por serem o devedor final. Nesta "nova forma de imperialismo", a América conseguiu o que nenhuma potência antes dela conseguiu: "forçar outras nações a pagar pelas suas guerras de forma sistemática". A tese central é que, a partir de 1971, com o fim da conversibilidade do dólar em ouro, os EUA institucionalizaram o "padrão da dívida" ou "padrão das treasury bills". 

Isto significa que o país pode financiar os seus défices e as suas guerras simplesmente emitindo a moeda que os bancos centrais estrangeiros são forçados a acumular para manter a estabilidade do sistema. "Nunca antes uma nação falida ousara insistir que a sua falência se tornasse o fundamento da política econômica mundial", escreve Hudson . Este mecanismo de "dólar hegemônico" é a expressão máxima do capitalismo financeiro, permitindo que os EUA extraiam tributo do resto do mundo e mantenham a sua primazia mesmo enquanto a sua base industrial definha . 

O Motor da Contenda: O Caso Huawei 

É neste campo de batalha entre o estado engenheiro chinês e o super-imperialismo financeiro americano que surge a Huawei, dissecada por Eva Dou em House of Huawei: The Secret History of China's Most Powerful Company. A história da Huawei é a história da ascensão tecnológica da China e do seu confronto direto com a hegemonia americana. Dou descreve como a empresa, fundada em 1987 por Ren Zhengfei, um antigo engenheiro do exército, beneficiou de uma "relação simbiótica com o Estado-partido chinês" . O governo ajudou a garantir o seu sucesso inicial, fornecendo-lhe um mercado protegido e alinhando-a com os objetivos nacionais, enquanto a Huawei, por sua vez, desenvolveu tecnologias como o sistema de reconhecimento facial "Safe City" que expandiram a capacidade de vigilância do Estado. 

A trajetória da Huawei espelha a tese de Wang sobre a prioridade da engenharia sobre todas as outras considerações. O seu objetivo, consagrado na lei básica da empresa, não é o de "maximizar o valor para o acionista", mas sim o de "se tornar uma empresa de classe mundial líder" no seu campo, garantindo a sua própria sobrevivência a longo prazo, tal como o Partido Comunista Chinês. Esta lógica tornou a Huawei um alvo inevitável na guerra tecnológica desencadeada pelos EUA. As sanções de Washington, que visavam travar o seu crescimento, tiveram o efeito oposto de a impulsionar a desenvolver as suas próprias tecnologias, nomeadamente em semicondutores e na liderança do 5G. A empresa polarizou o mundo, sendo banida pelos EUA, Austrália e grande parte da Europa, mas adotada pela Rússia, pelo Sudeste Asiático e por grande parte do Sul Global . A Huawei, na análise de Dou, é simultaneamente o produto e o motor do futuro econômico que a China ambiciona: um futuro de autossuficiência tecnológica e de influência global, conquistado contra as regras do jogo estabelecidas pelo super-imperialismo financeiro. 

Conclusão 

Em síntese, os futuros e destinos econômicos em disputa são radicalmente diferentes. De um lado, a visão de Hudson é a de um Ocidente preso num ciclo de financeirização predatória, onde a dívida é uma ferramenta de controle e onde o crescimento real é sacrificado à extração de renda, um sistema que só se sustenta à custa do império monetário americano. Do outro, a visão de Wang e Dou é a de uma China que, a um custo humano profundo, persegue incansavelmente a construção de capacidades produtivas e tecnológicas através de um modelo de estado engenheiro. A Huawei surge assim como a ponta de lança deste modelo, desafiando a ordem tecnológica e financeira estabelecida. O destino econômico do século XXI será provavelmente decidido por este confronto: entre a lógica do rentista financeiro, que vive do passado, e a lógica do construtor industrial, que aposta no futuro. 




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