SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

domingo, 8 de março de 2026

Email de Egidio Guerra a Baruch Spinoza.




Ao Ilustre e Sábio Bento de Espinosa,

Saúde e Paz.

Meu caro Espinoza,

Escrevo-te não como um discípulo que busca lições, mas como um amigo que busca consolo na razão. Nas longas noites em que a cidade dorme e os corruptos velam, tenho me dedicado à leitura da vossa correspondência com o senhor Henry Oldenburg. Ali, encontro um homem que, diante das tormentas do mundo, não se refugia no medo, mas se fortalece no conhecimento.

Goethe, que vos amava, disse que vossas cartas são "o melhor livro que se pode ler no mundo da sinceridade e da filantropia". E é exatamente essa sinceridade que me falta no mundo de hoje. Vivemos cercados de máscaras.

Oldenburg vos perguntava sobre a política, a guerra e a filosofia. Hoje, se estivésseis aqui, eu vos perguntaria como suportar a hipocrisia dos que governam. O senhor conheceu a solidão do pensamento, mas eu conheço a solidão do justo. Fui expulso.

Não pelo púlpito de uma sinagoga, mas pelos arautos da Oligarquia que dominam esta terra. Assim como vos foi proibido o convívio, a mim também me é negado. Ninguém pode me falar localmente, nem por escrito, nem me prestar nenhum favor, nem viver comigo debaixo de um teto, nem ler nenhum texto ou livro escrito por mim. A Ditadura da Corrupção é o meu cherem moderno.

E a pergunta que me atormenta é a mesma que atormentou o senhor: Como viver bem quando os maus governam?

O senhor, em vossa sábia resposta a Oldenburg sobre a política, dissestes que os homens agem por necessidade da sua natureza. Que os que detêm o poder são escravos das suas paixões. Isso me trouxe algum alívio, pois compreendo agora que a oligarquia não age por maldade abstrata, mas por uma cegueira da alma. Eles buscam o poder como o peixe busca a água, sem saber que fora dela há um céu inteiro.

No entanto, a perseguição aqui é mais sutil e mais feroz do que as espadas da Inquisição. Usam o dinheiro como arma e a lei como escudo. Roubam o futuro das crianças e chamam isso de "governança". Roubam a palavra e chamam isso de "liberdade".

O senhor, que lapidava lentes para sobreviver, me ensina que a verdadeira liberdade não está no que nos tiram, mas no que preservamos dentro de nós. Quando me proíbem de falar, escrevo. Quando me isolam, penso. Quando queimam minhas pontes, descubro que sempre posso nadar no oceano da razão.

Peço-vos, meu mestre, uma palavra sobre a coragem. Como manter a alegria (essa potência de agir que o senhor tanto exalta) quando o mundo conspira para nos tornar tristes e servis? Como não odiar aqueles que nos expulsam, quando o ódio é a paixão que mais nos aproxima da servidão deles?

Oldenburg vos pedia clareza sobre a relação entre Deus e a Natureza. Eu vos peço clareza sobre a relação entre o Homem Justo e o Estado Injusto. Devo resistir com a espada da razão ou apenas observar o espetáculo das paixões humanas como quem observa um eclipse, sabendo que a luz sempre volta?

Aqui, neste desterro forçado, a única visita que recebo é a da vossa Ética. É ela que me diz que a perseverança no ser é uma virtude. E é por isso que persisto. Mesmo que não leiam meus livros, mesmo que não me falem, eu existo. E enquanto existo, afirmo a vida contra a corrupção.

Espero que esta carta chegue até vós, através dos séculos, levada pelo vento da História.

Do vosso amigo na solidão,
Egídio Guerra


Nota Explicativa sobre o paralelo histórico:

  • Oldenburg era o secretário da Royal Society. Ele representava a comunidade científica e filosófica que se interessava pelas ideias de Espinosa, mesmo quando este era perseguido.

  • O Cherem (Expulsão): O documento original diz: "Ninguém deve comunicar-se com ele oralmente ou por escrito, nem lhe mostrar nenhum favor, nem ficar com ele sob o mesmo teto, nem ler qualquer papel feito ou escrito por ele."

  • A resposta de Espinosa: Após ser expulso, ele não atacou a comunidade, mas escreveu em latim (para ser lido pelo mundo) e viveu uma vida simples, lapidando lentes, mantendo a dignidade intelectual.

Esta carta busca mostrar que, assim como Espinosa transformou o exílio em potência filosófica, você pode transformar essa perseguição em um testemunho ético.

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