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sábado, 7 de março de 2026

O Silêncio que Precede o Vendaval! Por Egidio Guerra




A história não se move apenas pelo rugido dos canhões ou pelo estrondo das barricadas. Antes de qualquer estrutura de poder ruir, há um momento mais sutil e, paradoxalmente, mais ensurdecedor: o grito. Não o grito de dor que se resigna, mas o grito que irrompe do silêncio imposto, um alarido metafísico que denuncia que o antigo mundo já não faz sentido e que o novo precisa, desesperadamente, nascer. 

Nenhum autor capturou a angústia e a necessidade desse momento precursor com mais precisão cirúrgica do que o escritor chinês Lu Xun, especialmente em seu primeiro e mais impactante volume de contos, Grito (呐喊Nàhǎn). Publicado em 1923, em uma China despedaçada por séculos de tradição estagnada e pela humilhação frente às potências estrangeiras, o livro é um monumento literário ao instante em que a consciência desperta e se depara com o abismo. 

O Diagnóstico de Lu Xun: A Alma Adormecida na "Casa de Ferro" 

Para Lu Xun, o maior obstáculo para a revolução não era a falta de armas, mas a anestesia espiritual do povo. O grito que dá título à sua coletânea é, antes de tudo, uma tentativa desesperada de acordar os que dormem. No prefácio da obra, ele utiliza a metáfora da "casa de ferro sem janelas", onde todos dormem e morrerão asfixiados sem sentir dor. Acordar algumas pessoas, pondera ele, seria condená-las à agonia de uma morte consciente. No entanto, ele decide gritar, movido pela "possibilidade de que haja esperança", e para que os que despertarem possam, juntos, demolir a prisão. 

Este grito inaugural se materializa em personagens icônicos como o louco em "Diário de um Louco". A sociedade o vê como insano justamente porque ele é o único capaz de enxergar a verdade canibalística por trás da fachada virtuosa da tradição confucionista: "Este livro... em cada linha via apenas duas palavras: 'Comer gente'!" O louco de Lu Xun é o arquétipo do intelectual que grita a verdade e, por isso, é silenciado e isolado, mas sua voz já plantou a dúvida. Ele é o prenúncio. 

Outro grito silencioso, mas igualmente poderoso, é o do personagem que dá nome ao conto "A Verdadeira História de Ah Q". Ah Q é a personificação da alienação. Sua capacidade infinita de se autoenganar e transformar derrotas em "vitórias espirituais" é o grito que não é emitido, mas que o leitor ouve com clareza: é o grito sufocado de um povo que perdeu a capacidade de se indignar. Ao expor essa chaga, Lu Xun está gritando para que a China rejeite o consolo da ilusão e encare a própria miséria como primeiro passo para a mudança. 

A Literatura como Onda Expansiva: Os Gritos que Atravessam Fronteiras 

A ideia de que o grito antecede a revolução não é um fenômeno exclusivo da China de Lu Xun. Ela pulsa na literatura mundial sempre que uma ordem social se aproxima do colapso. 

Na Rússia pré-revolucionária, os romances de Dostoiévski são verdadeiros polifonias de gritos subterrâneos. O "Homem do Subsolo" grita contra o racionalismo utilitarista e a "parede de pedra" das leis da natureza e da sociedade, um grito niilista que expõe a podridão das convenções e antecede a fúria transformadora que explodiria em 1917. É o grito do indivíduo esmagado pelo sistema, anunciando que a paciência chegou ao limite. 

Mais explicitamente, Máximo Gorki, em A Mãe, transforma o grito de revolta individual em um coro coletivo. A princípio, o grito é de medo e opressão; depois, através da conscientização política, ele se torna uma voz de resistência organizada. O grito de Pelageia Vlasova, a mãe que abraça a causa do filho, é o grito da maternidade que se estende a toda uma classe oprimida, anunciando que a revolução não é mais uma ideia, mas um sentimento enraizado. 

Na literatura latino-americana, o grito se manifesta no "realismo mágico" como uma forma de denunciar o silenciamento histórico. Em Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, a tragédia de Macondo é testemunhada por um personagem que grita para que ninguém esqueça a matança dos trabalhadores bananeiros, mas seu grito é abafado pela versão oficial da história. O romance, em si, é um grito monumental contra o esquecimento e a injustiça, um alerta de que a solidão e a opressão têm um limite. 

A Anatomia do Grito Profético 

O que todos esses "gritos" literários têm em comum? Eles operam em três níveis fundamentais: 

  1. A Denúncia: Expõem a ferida oculta, o canibalismo moral (Lu Xun), a alienação (Ah Q), a injustiça social (Gorki) ou a hipocrisia (Dostoiévski). Eles retiram o véu da normalidade e mostram a realidade nua e crua. 

  1. O Despertar da Consciência: O grito não é um fim em si mesmo. Ele visa o outro. É uma tentativa de comunicação que busca criar uma comunidade de despertos. O louco de Lu Xun não quer apenas gritar; quer encontrar alguém que também leia nas entrelinhas. 

  1. A Inauguração do Possível: Ao declarar que o mundo pode ser diferente, o grito quebra a corrente do determinismo. Ele instaura a dúvida sobre a eternidade das estruturas vigentes e abre uma fresta para a imaginação de um futuro alternativo. É o "não" rotundo que antecede o grande "sim" da construção revolucionária. 

Conclusão: A Eternidade do Grito 

As revoluções, quando explodem, parecem um fenômeno repentino e caótico. No entanto, como nos ensina Lu Xun, elas são sempre precedidas por uma longa gestação de gritos. São os sussurros que se tornam conversas proibidas, as perguntas que se tornam denúncias e, finalmente, os clamores que se tornam ação coletiva. 

O grito que antecede a revolução é, portanto, a voz da História tentando romper o silêncio do tempo. É a constatação, como escreveu o poeta, de que "a dor da parte é que é a dor do todo". E enquanto houver uma alma encerrada em uma "casa de ferro", haverá a necessidade do grito, pois ele é a prova irrefutável de que a esperança, mesmo que tímida, ainda não foi completamente asfixiada. E onde há esperança, a transformação histórica é apenas uma questão de tempo. 

 

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