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quinta-feira, 4 de junho de 2026

A Sociedade Civil e o Poder Transformador da Não Violência. Por Egidio Guerra




A resistência da sociedade civil pela não violência tem se consolidado como um dos fenômenos políticos mais transformadores dos últimos dois séculos, desafiando regimes autoritários, ditaduras militares e ocupações estrangeiras por meio da desobediência civil, boicotes e greves. Longe de ser uma estratégia passiva ou moralista, a resistência civil não violenta — conforme demonstrado por uma vasta literatura acadêmica — baseia-se em uma lógica estratégica rigorosa: quanto maior e mais diversificada a participação popular, maior a capacidade de desestabilizar as fontes de poder de um oponente.

Este texto detalha a arquitetura teórica e empírica da resistência civil não violenta, com ênfase na obra seminal Why Civil Resistance Works: The Strategic Logic of Nonviolent Conflict de Erica Chenoweth e Maria J. Stephan, complementada por pesquisas acadêmicas atuais. Serão discutidas as razões da eficácia superior dos movimentos não violentos em comparação aos armados, o papel crucial da participação popular, a famosa "regra dos 3,5%", os debates metodológicos recentes que qualificam essa tese, os desenvolvimentos empíricos globais de 2024-2026 e a atuação da sociedade civil na defesa da democracia diante do avanço autoritário.


1. A Tese Central: Por que a Resistência Não Violenta Funciona?

O ponto de partida indispensável é o trabalho de Chenoweth e Stephan. Utilizando um banco de dados original que cobre todas as principais campanhas de resistência violentas e não violentas entre 1900 e 2006, as autoras chegaram a uma conclusão contra intuitiva: as campanhas não violentas foram mais de duas vezes mais eficazes do que as campanhas violentas para alcançar seus objetivos políticos. Este dado desafia a crença popular de que a força armada é necessária para derrubar regimes opressivos.

A explicação para essa eficácia superior reside em três fatores interligados:

a) Barreiras reduzidas à participação: A resistência não violenta apresenta menores obstáculos morais, físicos, informacionais e de comprometimento. Qualquer pessoa — independentemente de idade, gênero ou condição física — pode participar de um protesto, assinar uma petição ou aderir a um boicote. Em contraste, a resistência violenta exige disposição para matar e morrer, restringindo drasticamente seu apelo de massa. Como resultado, os movimentos não violentos atraem voluntários em uma escala muito maior.

b) Maior resiliência e inovação tática: Com mais participantes, as campanhas não violentas tornam-se mais resilientes à repressão (a substituição de ativistas presos é mais fácil) e geram maior inovação tática. Greves, boicotes econômicos, desobediência civil em massa e ocupações criam um nível de disrupção cívica que impõe custos crescentes ao regime, tornando insustentável a manutenção do status quo.

c) Deslocamento de lealdades: Diferentemente da violência, que tende a unificar as forças de segurança do regime contra um inimigo comum, a resistência não violenta tem maior probabilidade de provocar mudanças de lealdade entre os apoiadores do oponente — incluindo policiais, militares e elites econômicas. Ao verem uma mobilização popular massiva e pacífica, esses agentes passam a questionar a legitimidade do regime e muitas vezes se recusam a reprimir os manifestantes.

Além disso, as autoras concluem que os regimes que emergem de transições bem-sucedidas pela não violência tendem a ser democracias mais duráveis e internamente pacíficas, com menor probabilidade de regredir à guerra civil, ao contrário das ditaduras frequentemente resultantes de revoluções armadas.


2. A Regra dos 3,5%: O Limiar Mágico da Mudança

Uma das descobertas mais influentes e amplamente divulgadas de Chenoweth foi a identificação de um limiar quantitativo: quando aproximadamente 3,5% da população de um país se engaja ativa e sustentadamente em resistência civil não violenta, o sucesso do movimento torna-se extremamente provável. Em termos absolutos, nos Estados Unidos, isso equivale a cerca de 12 milhões de pessoas. Exemplos históricos frequentemente citados incluem a Revolução do Poder Popular nas Filipinas (1986), a Revolução Rosa na Geórgia (2003) e a Revolução dos Cedros no Líbano (2005).

É crucial, no entanto, entender a natureza deste achado. Chenoweth e seus colaboradores enfatizam que a "regra dos 3,5%" é uma regra prática (rule of thumb), não uma fórmula mágica. Atingir esse número não garante automaticamente a vitória; em vez disso, movimentos que alcançam esse nível de participação ativa e sustentada raramente falham. Este limiar representa o ponto em que o movimento se torna representativo demais, disruptivo demais e difícil de ignorar, e a partir do qual as deserções das forças de segurança se tornam prováveis. A coautora Maria Stephan, em entrevista recente, reforçou que o sucesso depende menos do tamanho bruto e mais da ação organizada de não cooperação — greves, boicotes, recusa de forças de segurança em reprimir — que são os verdadeiros motores da mudança.


3. Debates Acadêmicos Recentes: Qualificando a Tese da Eficácia

A robustez da tese de Chenoweth e Stephan tem sido objeto de escrutínio acadêmico. Pesquisas recentes introduzem nuances importantes, sem, contudo, invalidar a conclusão central de que a resistência não violenta é uma ferramenta poderosa.

a) Críticas metodológicas: Em 2026, Holbein e Crabtree publicaram uma replicação e extensão do trabalho original, argumentando que alguns resultados foram relatados de forma a tornar os dados mais favoráveis à resistência civil do que realmente são. Eles sustentam que os achados originais não são robustos a mudanças modestas na especificação do modelo, são sensíveis a variáveis omitidas e dependem de modelos instrumentais com suposições questionáveis. Sua conclusão é contundente: as evidências disponíveis não fornecem base clara para a afirmação de que as campanhas não violentas são substancialmente mais eficazes que as violentas, embora isso não signifique que a não violência falhe.

b) O paradoxo da violência aparentemente sem sentido: Outro debate intrigante é levantado por Jason Byas (2025). Embora os dados de Chenoweth e Stephan mostrem a superioridade da não violência, eles também revelam que campanhas violentas foram historicamente mais comuns e que as campanhas não violentas recentemente passaram a tolerar mais violência interna. Byas oferece uma explicação de escolha racional para este "paradoxo": a custosidade da preparação para a violência serve como um sinal dispendioso (costly signal) da seriedade de um movimento em seus estágios iniciais, ajudando a recrutar os membros mais comprometidos. Ele sugere que campanhas não violentas podem intencionalmente criar custos de participação iniciais para sinalizar seriedade de forma mais eficaz.

c) Contexto, exclusão e minorias: Um artigo de 2025 na Comparative Politics (Amat e Trilling) argumenta que, embora movimentos não violentos frequentemente tenham sucesso, a crescente repressão global e as taxas de sucesso declinantes destacam a necessidade de teorizar as condições sob as quais a ação não violenta funciona. Especificamente, o artigo analisa como minorias excluídas podem ser tanto beneficiadas quanto prejudicadas em movimentos não violentos, concluindo que o sucesso é altamente dependente do contexto e que poucas características conferem vantagem universal.


4. Desenvolvimentos Empíricos Recentes (2024-2026): A Resistência em Ação

Apesar dos debates acadêmicos, a evidência empírica recente continua a demonstrar o poder da resistência civil não violenta.

a) Vitórias da sociedade civil em 2024: O relatório anual da CIVICUS (2024) documentou vitórias notáveis: na Coreia do Sul, protestos em massa contra a imposição da lei marcial forçaram sua reversão em menos de 24 horas; em Bangladesh, a ação cidadã levou à queda de um governo opressivo de longa data; no Quênia, manifestações persistentes apesar da brutalidade policial forçaram o governo a recuar na imposição de impostos impopulares.

b) O movimento "No Kings" nos EUA (2025): Em outubro de 2025, as manifestações "No Kings" atraíram mais de sete milhões de pessoas em todo o país, sendo saudadas como as maiores manifestações da história americana. Maria Stephan, coautora do livro, atuou ativamente como organizadora, aplicando as lições de seu próprio trabalho para combater o autoritarismo nos EUA.

c) Indonesia (2024): O país registrou 15.408 ações não violentas, predominantemente concentradas em métodos de protesto e persuasão (88,8%), mas também incluindo ações de não cooperação e intervenção não violenta. Os temas centrais foram governança, direitos humanos, grilagem de terras e direitos trabalhistas, com destaque para a resistência estudantil contra o aumento das mensalidades universitárias.

d) Camarões e o papel das mulheres (2025): Um estudo de 2025 documentou a emergência de mulheres como atores estratégicos não violentos durante a crise anglófona nos Camarões. Utilizando simbolismo cultural e abordagens comunitárias, elas advogaram pelo fim da agitação e pelo retorno à paz.

e) Ativismo digital e extrema-direita (2024): Um estudo de 2024 confirmou o papel crucial dos protestos pacíficos anti-racismo no combate à crescente ameaça da extrema-direita, destacando as vantagens sociais, morais e políticas da resistência pacífica.


5. A Resistência da Sociedade Civil e os Desafios Autoritários Contemporâneos

Em um contexto global de crescente autoritarismo, a resistência da sociedade civil é mais vital do que nunca. Nic Cheeseman, Professor de Democracia na Universidade de Birmingham, argumenta que, quando as instituições são fracas, a mobilização de massa torna-se absolutamente crítica — frequentemente o único mecanismo disponível para impedir líderes populistas ou autoritários de consolidar o poder. Ele cita exemplos inspiradores no Quênia, Gana e Zâmbia, onde cidadãos se mobilizaram com sucesso para salvaguardar as normas democráticas.

No entanto, a sociedade civil enfrenta narrativas cada vez mais hostis projetadas para corroer a confiança nos atores democráticos. O relatório "Civil Society at a Narrative Crossroads" (2025) adverte que, embora os ativistas possuam resiliência e criatividade, esses ativos não são mais suficientes quando atores autoritários mobilizam narrativas para minar sua credibilidade.


Conclusão: Um Campo de Tensões Produtivas

A literatura acadêmica sobre resistência civil não violenta revela um campo de estudos maduro, marcado por descobertas robustas e debates metodológicos igualmente rigorosos. A tese central de Chenoweth e Stephan — de que campanhas não violentas historicamente superam as armadas na conquista de objetivos políticos — permanece influente e empiricamente bem fundamentada, como demonstram os exemplos da Coreia do Sul, Bangladesh e o movimento "No Kings" nos EUA em 2025.

Contudo, pesquisas recentes qualificam essa visão: a eficácia é sensível a especificações metodológicas, depende crucialmente do contexto e, como argumentam Amat e Trilling, não confere vantagem universal a todos os grupos, especialmente minorias excluídas. O trabalho de Byas adiciona uma camada adicional de complexidade ao mostrar que a "custosidade" da violência pode paradoxalmente servir como um sinal estratégico de comprometimento.

O que permanece inquestionável é o poder transformador da sociedade civil quando organizada, disciplinada e massiva. A resistência pela não violência não é uma panaceia nem uma garantia, mas uma tecnologia política cujo sucesso depende de dezenas de variáveis: participação sustentada, inovação tática, deserção de forças de segurança, apoio externo e, crucialmente, a capacidade de sinalizar credibilidade sem recorrer à violência. À medida que o autoritarismo global se reinventa, a sociedade civil continuará a ser a primeira — e muitas vezes a última — linha de defesa da democracia.

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