SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Capitalismo: Origens, Transformações e Fim ?




Os cinco livros analisados a seguir abordam o capitalismo de perspectivas complementares: Sven Beckert reconstrói sua trajetória global milenar; Edward Chancellor focaliza o mecanismo financeiro dos juros como seu preço fundamental; John Kay desconstrói o mito da empresa do século XXI e propõe um novo vocabulário econômico; John Seabrook expõe as contradições internas de uma dinastia familiar do agronegócio americano; e Michael M. Grynbaum documenta o apogeu e a decadência de um império midiático. Juntos, eles iluminam as origens, as transformações e os possíveis limites do capitalismo contemporâneo.


Capitalism: A Global History | Sven Beckert

O historiador Sven Beckert oferece uma obra monumental de mais de 1.300 páginas que reconstrói a trajetória do capitalismo como um fenômeno inerentemente global, remontando à virada do primeiro milênio. A partir do acúmulo primitivo realizado por comerciantes árabes e sul-asiáticos, passando pela Revolução Industrial, até a disseminação da lógica capitalista a quase todos os aspectos da vida humana no século XXI, o autor demonstra que o capitalismo nunca foi uma invenção puramente europeia, mas sim um sistema construído sobre conexões comerciais, redes de produção e fluxos de trabalho e capital entre o Norte e o Sul globais. Beckert adota uma definição ampla de capitalismo — "a reprodução das condições que permitem a contínua acumulação de capital privado" — que abrange tanto o trabalho assalariado quanto a escravidão, ambos centrais, e não meros acidentes, para o seu desenvolvimento. A obra também enfatiza a simbiose entre capital e Estado: os capitalistas sempre dependeram do poder estatal para impor direitos de propriedade, conceder monopólios e prover apoio militar a empreendimentos privados, ao mesmo tempo que os governantes se tornaram dependentes dos recursos gerados pelos capitalistas. Ao evitar envolver-se em batalhas ideológicas, Beckert produz uma obra que, segundo Henry Louis Gates Jr., "certamente se tornará um trabalho canônico da história".

"Workers may have sung ‘The Internationale,’ but capital owners practiced it."

"The world economy and the plantation created each other."

"Fascism never broke with a fundamentally capitalist organization of economic life."


O Preço do Tempo: A Verdadeira História dos Juros | Edward Chancellor

O jornalista financeiro Edward Chancellor escreve o que se pode considerar uma biografia dos juros, remontando a cerca de cinco mil anos de história. Em sua visão, os juros são o "preço do tempo", residindo na interseção entre preço e valor e constituindo o mecanismo fundamental do capitalismo. Chancellor percorre desde as etimologias antigas — nas quais a palavra para juros derivava das crias do gado, indicando sua origem em empréstimos produtivos de sementes e animais — até as controvérsias atuais sobre a política monetária dos bancos centrais. Sua tese central é provocativa: a convicção de que as taxas de juros excessivamente baixas, mantidas artificialmente pelos bancos centrais após a Grande Recessão, contribuíram decisivamente para muitos dos males econômicos contemporâneos — o colapso do crescimento da produtividade, moradias inacessíveis, desigualdade crescente, perda de concorrência de mercado e fragilidade financeira. Chancellor argumenta que uma economia capitalista não pode funcionar adequadamente sem juros determinados pelo mercado, e que as políticas de "flexibilização quantitativa" e taxas próximas de zero ou negativas transformaram todo investidor em especulador. Ao mesmo tempo, está ciente de que uma taxa de juros muito baixa pode beneficiar os ricos — que têm acesso ao crédito — mais do que os pobres, e que os monopólios criados por políticas de juros baixos desencorajam a inovação e reduzem o poder de barganha dos trabalhadores.

"The most encompassing view of interest is contained in the notion of interest as the ‘time value of money’ or, simply, as the price of time."

"Without interest to regulate financial behavior, an inherently unstable financial system would require endless new regulations."

"As Bastiat understood, a very low rate of interest may benefit the rich, who have access to credit, more than the poor."

"Wealth bubbles occur when the interest rate is held below its natural level."


The Corporation in the Twenty-First Century: Why (Almost) Everything We Are Told About Business Is Wrong | John Kay

O economista John Kay oferece uma "reavaliação radical" do que é uma empresa e como ela funciona, argumentando que o vocabulário com que compreendemos os negócios modernos permanece fundamentalmente preso à estrutura conceitual do capitalismo industrial do século XIX, criando um profundo descompasso entre a realidade econômica contemporânea e nossa capacidade de compreendê-la. Para Kay, a empresa de sucesso do século XXI não é definida pelo capital físico, mas pelas capacidades humanas: a Apple, por exemplo, é melhor descrita como "uma coleção de capacidades" — poucas ou nenhuma das quais a empresa realmente "possui". A "desmaterialização" dos negócios significa que os ativos físicos necessários são em grande parte fungíveis, e o próprio capital tornou-se apenas mais um serviço que os gestores adquirem no mercado. Kay critica duramente a obsessão pela "maximização do valor para o acionista", que, segundo ele, destruiu algumas das principais empresas do século XX, como a General Motors e a General Electric, ao substituir a visão profissional da gestão — que até meados do século XX era vista como uma atividade profissional, análoga à medicina ou ao direito — por uma cultura de autoengrandecimento financeiro. Ele propõe que abandonemos a palavra "capitalismo" e falemos em uma "economia pluralista", e que reconheçamos a corporação como uma comunidade de pessoas, não como um feixe de contratos. Em suas próprias palavras: "Ninguém possui uma corporação. A corporação é uma comunidade de pessoas".

"No one owns a corporation. The corporation is a community of people. I wish we would discard this idea that shareholders own a company."

"The main thing [that has changed] about business is dematerialization. Modern businesses are all about people. The relationships between them."

"In the world of Adam Smith and Karl Marx, capitalists built and controlled mills and factories. That is no longer the reality."

"We should stop thinking about 'capitalism' and talk instead about a pluralistic economy."


The Spinach King: The Rise and Fall of an American Dynasty | John Seabrook

John Seabrook escreve um relato profundamente pessoal sobre a ascensão e queda do império agrícola de sua própria família — a Seabrook Farms, em Nova Jersey, que em seu auge produziu um terço dos vegetais congelados da nação. Mais do que uma crônica familiar, o livro é uma exploração das contradições internas do capitalismo americano: o patriarca C. F. Seabrook, aclamado como o "Henry Ford da Agricultura", construiu uma fortuna que, como sugere o ditado, escondia "um grande crime". O livro revela as incômodas histórias americanas de raça, imigração e exploração que brotam como ervas daninhas do solo: trabalhadores negros da Grande Migração entraram em greve na década de 1930 por melhores salários; nipo-americanos ajudaram a fundar uma "aldeia global" na fazenda após a Segunda Guerra Mundial; e, nos bastidores, o negócio avançou com corrupção política e violência contra o trabalho organizado. No centro da narrativa está uma batalha de sucessão de múltiplas gerações: o patriarca envelhecido destruiu seu negócio e sua família em vez de ceder o controle aos filhos. Seabrook descreve a experiência como um "Sucession com espinafre" — uma saga de traição, segredos de família, contas bancárias suíças e muito álcool, que mina a "teoria do grande homem" do progresso industrial e mostra o que fazem às famílias as enormes firmas cujo destino está ligado à terra.

"Having left this material for his writer son, my father must have wanted the story told, even if he couldn't bear to tell it himself."

"It’s ‘Succession,’ with spinach."

"They say behind every great fortune there is a great crime. At Seabrook Farms, the troubling American histories of race, immigration, and exploitation arise like weeds from the soil."

"The Spinach King undermines the 'great man' theory of industrial progress."


Empire of the Elite: Inside Condé Nast, the Media Dynasty That Reshaped America | Michael M. Grynbaum

O correspondente do New York Times Michael M. Grynbaum documenta a ascensão e o declínio do império Condé Nast — editora da Vogue, Vanity Fair, The New Yorker e GQ — como uma janela para as transformações do capitalismo midiático e cultural. O fundador, Condé Nast, estabeleceu o modelo de negócios "classe, não massa" ainda na Era Dourada, capturando as aspirações dos leitores ao criar uma publicação sobre o "bom viver". Mais tarde, sob o comando de Si Newhouse, que Grynbaum descreve como "o soberano dessa elite", a empresa gastou fortunas em salários e regalias, contratou jovens talentos como Graydon Carter, Tina Brown e Anna Wintour, e transformou a curadoria cultural em um negócio colossal. Grynbaum mostra como a Condé Nast estabeleceu-se como um "guardião do bom viver" — um "portão" que mediava o acesso à alta cultura — ao mesmo tempo que abraçava a cultura "baixa", trazendo estrelas pop e personalidades da televisão para o círculo da alta cultura, reconfigurando o capital cultural para atender às sensibilidades da emergente classe yuppie, pouco interessada em balé ou ópera. O auge do império se deu entre 1980 e 2000, mas a glória começou a desvanecer-se no século XXI: a metier da Condé Nast era o privilégio, e o privilégio se tornara uma palavra suja após a crise de 2008; as redes sociais democratizaram a curadoria cultural, minando a autoridade dos guardiões estabelecidos. Ao final, a empresa se vê forçada a declarar: "Esta não é mais uma empresa de revistas". O livro é, assim, um "conto cautelar" sobre como a arrogância e a mudança tecnológica abalaram o domínio dos antigos guardiões da mídia.

"Condé Nast positioned itself as a gatekeeper of high-end living."

"The elites whose lives were romanticized, packaged, and sold to the masses by Condé as exemplars of American success were suddenly..."

"It was elite, certainly, but not so much an empire as an expensive Potemkin village: America’s upper-middle-class taste and tastemakers, subsidized by a single man."

"This is no longer a magazine company."


Em conjunto, estes cinco livros traçam um arco que vai das origens globais do capitalismo medieval à crise de legitimidade da corporação contemporânea, passando pelo mecanismo dos juros que lhe serve de pulsação financeira, pelas contradições internas das dinastias familiares que o materializam e pelo papel das elites culturais na sua reprodução simbólica. Eles sugerem que o capitalismo não apenas se transformou radicalmente desde suas origens — da escravidão securitizada aos escritórios vazios da era da desmaterialização — mas também carrega em si tensões internas que nos levam a perguntar se seu fim está no horizonte, ou se estamos apenas no início de uma nova e ainda desconhecida fase de sua evolução.

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