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quinta-feira, 4 de junho de 2026

Educação não bancária pela ação e interação apreendendo com o corpo e ambiente. Por Egidio Guerra




A educação, muitas vezes concebida como a transmissão de conteúdos, transcende esse modelo ao ser compreendida como um processo vivo de ação e interação. Fundamentada na obra seminal de Shaun Gallagher, Action and Interaction, e em pesquisas contemporâneas sobre as ciências cognitivas, esta perspectiva propõe uma transformação radical nas práticas pedagógicas. Ao invés de focar em processos mentais internos e isolados, a educação pela ação e interação reconhece o aprendiz como um ser corporificado (embodied), situado em um ambiente e em constante relação com o outro. Este texto explora os fundamentos filosóficos e científicos dessa abordagem, demonstrando como ela se materializa em práticas inovadoras de ensino e aprendizagem.

Fundamentos Teóricos: Para Além da Mente como "Computador"

A abordagem aqui defendida tem suas raízes nas ciências cognitivas 4E (Cognição Incorporada, Enativa, Situada e Estendida), um movimento que rompe com o dualismo cartesiano entre mente e corpo. O conceito de Cognição 4E postula que a cognição humana não ocorre apenas no cérebro, mas se dá na interação entre mente, corpo e ambiente, distribuída em quatro dimensões: estendida (extended), encenada (enacted), embutida (embedded) e incorporada (embodied). Shaun Gallagher, um dos principais proponentes dessa visão, oferece uma síntese inovadora ao reunir abordagens corporificadas e enativas da ação em seu livro Action and Interaction.

Para Gallagher, a ação humana não pode ser compreendida fora de sua dimensão social e do contexto situacional. Ele argumenta que precisamos compreender o papel crucial do contexto ou da circunstância na ação, juntamente com as restrições normativas das práticas sociais e culturais. O filósofo ressalta que "nós, como agentes que devem agir e seres pensantes que tentam capturar o que fazem, sempre nos encontramos já situados no mundo". Este ponto de partida fenomenológico coloca a experiência vivida, e não a mera representação mental, no centro do processo de conhecer.

A Fenomenologia da Interação: Como Construímos Significado Coletivamente

Dentro desse arcabouço teórico, a interação social é elevada a um status de elemento constitutivo da própria cognição. A Teoria da Interação de Gallagher defende que a compreensão do outro não se dá primariamente por meio de processos inferenciais complexos (como defenderiam as "teorias da teoria" ou da "simulação mental"), mas diretamente por meio da percepção de suas ações corporificadas, emoções e do contexto ambiental.

  • Percepção Social Direta: Na sala de aula, isso significa que um professor ou aluno não precisa "adivinhar" o estado mental do outro. A expressão facial de confusão, a postura corporal de dúvida ou um gesto de entusiasmo são, em si mesmos, informações sociais ricas e imediatamente inteligíveis. A interação se torna um "engajamento co-regulado de acoplamento entre pelo menos dois agentes autônomos".

  • Criação de Significado Participativa (Participatory Sense-Making): Este conceito, central para a abordagem enactivista, descreve como o significado emerge da coordenação dinâmica entre os agentes em interação. O aprendizado não é a transferência de um pacote de informações, mas sim um processo colaborativo de construção de sentido. Quando dois alunos resolvem um problema juntos, eles não estão apenas trocando dados; estão ativamente cocriando um novo entendimento por meio de um diálogo corporal, gestual e verbal. Este processo é o coração pulsante de uma comunidade de aprendizagem.

Implicações Pedagógicas: A Sala de Aula como um Campo de Ação e Interação

Se a cognição é enativa e corporificada, o que isso significa para a prática educacional? A resposta aponta para uma inversão completa das pedagogias tradicionais, que priorizam o simbolismo abstrato e a recepção passiva de conhecimento. Uma sala de aula alinhada com a "educação pela ação e interação" é um ambiente profundamente ativo, experiencial e dialógico.

  1. Aprendizagem Corporificada (Embodied Learning): Numerosos estudos demonstram a eficácia de estratégias pedagógicas que utilizam o movimento físico direto, a observação de movimentos de outros ou a simulação mental para melhorar a aprendizagem e a compreensão de novos conceitos. A ideia fundamental é que interagir com ideias de forma tangível ancora conceitos abstratos em ações físicas, tornando o conhecimento mais robusto, significativo e transferível. Exemplos incluem o "GeoGebra Dance", que combina transformações geométricas com movimento físico em realidade aumentada, ou atividades que usam ferramentas táteis para dar significado a conceitos matemáticos abstratos, como translações no plano cartesiano.

  2. Aprendizagem Enativa como Ciclo de Ação-Percepção: A abordagem enativa concebe a aprendizagem como um processo de conhecer, onde a experiência pode gerar mudança. Nesse modelo, o professor deixa de ser o detentor exclusivo do saber e atua como um facilitador que ajuda a "destabilizar" o sistema cognitivo do aluno, provocando desequilíbrios que levam a uma reorganização e a novos processos de aprendizagem. É uma abordagem que se afasta de contextos de ação pré-determinados para permitir que os próprios alunos forneçam seus contextos de ação, promovendo autonomia e descoberta.

  3. Aprendizagem Situada e Participação Guiada: Inspirada nas teorias socioculturais de Vygotsky e no conceito de "participação guiada" de Barbara Rogoff, esta prática integra o aprendiz em atividades colaborativas significativas. O conhecimento não é um objeto a ser adquirido, mas algo que se faz e se refaz na prática, dentro de uma comunidade. Esta perspectiva vê a aprendizagem como um processo relacional que se realiza na participação em práticas culturais.

Desafios e Caminhos Futuros

Apesar das evidências promissoras, a implementação em larga escala de uma educação baseada na ação e interação enfrenta desafios significativos. O modelo tradicional de ensino, focado em testes padronizados e na transmissão de conteúdo, ainda é hegemônico. Além disso, ambientes de aprendizagem online, que se tornaram comuns, podem dificultar a "criação de significado participativa", ao eliminar muitos dos sinais corporais e da sincronia interativa presentes na comunicação face a face.

No entanto, pesquisas recentes apontam caminhos para superar esses obstáculos. A aplicação do quadro da cognição 4E para repensar a formação de professores, por exemplo, mostra como é possível capacitar educadores a perceber e interpretar eventos de sala de aula sob uma nova ótica. O futuro da educação, portanto, reside em criar ecologias de aprendizagem que reconheçam o aluno em sua totalidade: um ser biológico, social, histórico e, acima de tudo, ativo na construção de seu próprio conhecimento.

Conclusão

A obra de Shaun Gallagher, complementada por uma vasta e crescente literatura acadêmica, oferece uma base sólida para repensar a educação como um fenômeno de ação e interação. Ao romper com o dualismo mente-corpo e ao trazer o corpo, a ação e o ambiente para o centro do processo cognitivo, esta perspectiva pedagógica não é apenas uma alternativa, mas uma necessidade para formar indivíduos capazes de pensar criticamente, colaborar de forma criativa e agir com propósito no mundo contemporâneo. Educar pela ação e interação é, em última análise, educar para a vida em sua plenitude, reconhecendo que é na dança dinâmica com o outro e com o mundo que o conhecimento verdadeiramente floresce.

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