A narrativa do Êxodo, com a saída dos judeus do Egito, é muito mais do que a história antiga de uma libertação física. É um evento fundador que propõe uma revolução teológica, ética e política que ecoa através dos séculos. Ao examinarmos como essa experiência de opressão moldou uma sociedade "anti-Egito", fundamentada na rejeição à escravidão e na limitação do poder, podemos construir uma poderosa crítica ao sionismo político contemporâneo, que, ao buscar o poder do Estado nos moldes modernos, traiu o chamado profético de Deuteronômio e a visão de pensadores judeus como Hannah Arendt, Walter Benjamin, Karl Marx e Michael Löwy.
1. A Revolução Teológica: Deus Sai do Templo e Vai para o Povo
O Êxodo não é apenas uma mudança geográfica; é uma transformação na própria concepção do divino. No Egito, o Faraó era um deus vivo, e o poder religioso estava centralizado e a serviço do Estado escravocrata. A saída do Egito representa a despedida dessa noção. Como nos lembra o rabino Reuven Greenvald, o pedido de Moisés ao Faraó — "Deixa o meu povo ir, para que me celebre uma festa no deserto" (Êxodo 5:1) — sublinha que o objetivo primário era uma jornada espiritual, um encontro com o divino fora dos domínios do poder estatal .
Essa jornada culmina no Sinai, onde a aliança (Brit) é estabelecida não com um rei ou um templo, mas com todo o povo. É o momento em que, como interpreta a Cabala, a Presença Divina (Shechiná), que se acreditava restrita a um lugar sagrado, passa a acompanhar os filhos de Israel em cada passo, numa coluna de nuvem durante o dia e numa coluna de fogo à noite. Deus "sai do Templo" para habitar no acampamento, no meio da comunidade. O Rabino Lord Jonathan Sacks capta essa essência ao afirmar que o Êxodo introduz a ideia revolucionária de que o poder supremo intervém na história em defesa dos impotentes, estabelecendo uma parceria, uma "relação recíproca, entre Deus e a humanidade" . A liberdade, portanto, não é um fim em si mesma, mas um chamado para construir uma sociedade baseada na justiça e na dignidade humana, onde nenhum líder pode se arvorar como deus.
2. A Sociedade "Anti-Egito": A Rejeição à Escravidão e a Centralidade do Outro
A experiência da escravidão no Egito gravou na alma judaica uma rejeição visceral à opressão. Isso se cristaliza no livro de Deuteronômio, que pode ser lido como um manual de uma sociedade "anti-Egito". Enquanto o Egito era uma pirâmide hierárquica com um déspota no topo, a sociedade proposta na Torá é uma aliança comunitária onde o poder é limitado e descentralizado.
Um dos mandamentos mais sublimes reflete isso: "Não oprimirás o estrangeiro, pois vós conheceis o coração do estrangeiro, porque fostes estrangeiros na terra do Egito" (Êxodo 23:9). A memória da opressão torna-se o fundamento ético para a proteção das minorias. Michael Walzer, citado em análises sobre a tradição política judaica, observa que a narrativa do Êxodo, embora divina, é também "um relato secular, isto é, terreno e histórico", convidando à "resolução humana" dos problemas sociais . Os israelitas não foram magicamente transportados; eles tiveram que marchar, lutar e, sobretudo, criar leis que impedissem a recriação do Egito em sua nova terra.
Essa tradição jurídica, como aponta um artigo sobre as raízes judaicas da liberdade, introduziu restrições constitucionais ao poder milhares de anos antes de Montesquieu. O Deuteronômio (capítulo 17) ordena que o rei não acumule cavalos (poder militar), nem muitas mulheres (poder político por alianças) nem prata e ouro (poder econômico). Mais do que isso, o rei deve escrever uma cópia da Torá e lê-la todos os dias "para que seu coração não se eleve acima de seus irmãos" . O governante não é um deus, mas um servo da lei divina, igual ao camponês. A sociedade judaica ideal é, portanto, uma frágil barreira contra a tirania, onde o poder é sempre visto com suspeita e deve ser contido para proteger os vulneráveis.
3. Uma Crítica ao Sionismo Político: O Poder do Estado como Nova Idolatria
É precisamente nesse ponto que a tradição profética e libertadora do Êxodo encontra sua mais poderosa crítica ao sionismo político que busca o poder do Estado como um fim em si mesmo. Quando o povo que foi escravo se torna governante e exerce um poder de dominação sobre outro povo — no caso, o povo palestino —, ele trai a própria essência de sua narrativa fundadora.
A teóloga política Hannah Arendt, ela mesma uma pensadora judia que fugiu do nazismo, foi uma crítica feroz do Estado-nação soberano e dos perigos do nacionalismo tribal. Para Arendt, o desafio não era ter um Estado, mas sim construir um espaço público onde a pluralidade fosse garantida. O sionismo que buscava um poder estatal nos moldes europeus do século XIX repetia, em sua visão, os mesmos erros que levaram à catástrofe da política de massas e da exclusão. Ela alertou para o perigo de se confundir a luta pela libertação judaica com a criação de um aparelho de poder que inevitavelmente criaria novos "sem-Estado", novos párias.
Walter Benjamin, em suas teses "Sobre o conceito da história", via a tradição dos oprimidos como um alerta contra o progresso dos vitoriosos. Para ele, a história é escrita pelos vencedores, e a tarefa do materialista histórico é escovar a história a contrapelo. Aplicando essa perspectiva à narrativa do Êxodo, é forçoso perguntar: e os cananeus? E os palestinos de hoje? O teólogo nativo-americano Robert Allen Warrior, citado em reflexões judaicas contemporâneas, denuncia justamente isso: "É o lado cananeu da história que tem sido ignorado por aqueles que buscam articular teologias da libertação... as partes da história que descrevem o comando de Yahweh para aniquilar misericordiosamente as populações indígenas" . Um povo que se liberta mas se torna conquistador não está vivendo o Êxodo; está repetindo o Egito.
4. Marx, Löwy e a Utopia: A Libertação como Processo Inacabado
Karl Marx, de origem judaica, viu no Êxodo uma poderosa alegoria para a luta de classes. Moisés era o líder que tirava os oprimidos do cativeiro. No entanto, o sociólogo Michael Löwy, pensador do marxismo libertário e da teologia da libertação, nos ajuda a aprofundar essa crítica. Löwy vê na aliança bíblica e no princípio do ano sabático e o jubileu, onde as dívidas são perdoadas e as terras retornam aos seus donos originais) uma poderosa inspiração para um socialismo utópico, não estatal e comunitário.
Löwy, assim como os teólogos da libertação na América Latina, vê no Êxodo um paradigma de todas as lutas por justiça social . No entanto, ele alerta que essa lida é um processo inacabado. Sair do Egito (Mitzrayim, que em hebraico também significa "estreitos", "apertos") é apenas o primeiro passo. A verdadeira libertação é a construção constante de uma sociedade onde não haja opressores nem oprimidos. O sionismo que se contenta com um poderio militar e um Estado forte, mas que oprime outra nação, permaneceu no deserto, preso à lógica do poder que deveria ter deixado para trás.
O sociólogo Michael Walzer, ao analisar o uso político do Êxodo, nota que ele sempre foi "uma fonte de argumentos e simbolismos" para revoluções, desde os camponeses alemães até os puritanos ingleses . Mas a grande questão que o Êxodo coloca a cada geração é: como evitar que a libertação de um povo se transforme na opressão de outro? A resposta está na própria Torá: limitando o poder, protegendo o estrangeiro e descentralizando a autoridade em favor da comunidade.
Conclusão
A saída do Egito não foi uma licença poética para construir um novo império, mas um chamado profético para construir uma sociedade radicalmente diferente — uma sociedade "anti-Egito". Quando Deus sai do Templo e vai para o povo, o poder sagrado se dissemina e se democratiza, tornando impossível a existência de um Faraó.
O sionismo que busca poder, exércitos e soberania incondicional, sem levar em conta o direito de outros povos como os palestinos, representa uma regressão ao paganismo político do Egito antigo. A tradição judaica, desde o Deuteronômio até Hannah Arendt, nos convida a desconfiar do poder concentrado e a construir comunidades baseadas na justiça e na memória da opressão.
O verdadeiro legado do Êxodo não é a conquista de Jericó, mas a visão de um Monte Sião de onde emana a Torá para todas as nações — uma visão de paz, onde "nenhum povo levantará a espada contra outro, nem aprenderão mais a guerra". Só assim, limitando o poder dos líderes em benefício da comunidade e das minorias, honraremos a memória da saída do Egito e manteremos vivo o sonho de uma libertação verdadeira e universal.
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