SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

ISSO NÃO É UM POST! É A ÉTICA COMO INSÔNIA!




Amigos das redes, dos feeds, das janelas que mostram mundos mas às vezes esquecem o rosto: 

Escrevo isso não como post, mas como desabafo de um espanto que não cabe em stories. Estou aqui, diante da tela fria, sentindo o calor sufocante de um planeta que pede água e recebe discursos. Vendo notificações de desigualdades que escorrem como sangue por timelines curadas. Observando a corrupção não como falha de sistema, mas como sintoma de uma cegueira ética: a incapacidade de ver o Outro. 

Levinas, um filósofo que falava de ética não como teoria, mas como primeira filosofia, como o despertar radical, me persegue. Ele dizia: antes de eu ser “eu”, sou responsável. O rosto do Outro me interpela, me ordena: “Não me matarás”. Mas como não matar quando nossas escolhas cotidianas — o que compramos, em quem votamos, o que silenciamos — podem ser formas sutis de aniquilamento? 

A ética levinasiana não é debate acadêmico. É o susto. É acordar e perceber que a fome do outro me diz respeito. Que o medo do migrante, a angústia do pobre, o grito da Terra devastada — é um apelo dirigido a mim. “A responsabilidade por outrem”, ele escrevia, “é tão arcaica que nenhuma lógica a pode conter”. Mais antiga que qualquer ideologia. Anterior a qualquer “eu”. 

E aqui estamos nós, navegando nos paradoxos do agora: 

  1. O Paradoxo da Conectividade Desumanizante: Estamos hiperconectados e profundamente sós. Falamos tanto e escutamos tão pouco o rosto que pede para ser visto. A rede vira um borrão de opiniões, e perdemos o rosto singular que exige resposta única, minha, intransferível. 

  1. O Desafio do Fascismo Contemporâneo: Que não vem só com botas e uniformes. Vem com a negação sistemática do rosto do Outro. O diferente, o vulnerável, o que perturba minha zona de conforto é transformado em abstração, em “problema”, em “ameaça”. É a violência ética original: deixar de ver a humanidade irrepetível no outro. 

  1. A Corrupção como Rotina: Não é só o desvio de verba. É a corrupção do olhar. Quando normalizamos o injustificável, quando aceitamos que “é assim mesmo”, corrompemos nossa capacidade de nos indignar com o sofrimento alheio. É a banalidade do mal, como disse Hannah Arendt, na forma de um scroll indiferente. 

  1. A Crise Climática como Fracasso Ético Total: Que é isso senão a incapacidade colossal de responder ao apelo do futuro, ao rosto ainda invisível das próximas gerações, e ao rosto agonizante de espécies inteiras e ecossistemas? O filósofo australiano Arne Naess, com sua Ética Profunda, clamava por uma identificação ampliada: nós somos a rede da vida. Dançar a Terra é dançar a nós mesmos. 

  1. A Armadilha do “Eu versus Outros”: O sistema nos empurra para esta escolha falsa. Mas a ética do rosto desmonta isso: sou eu pelos outros. Minha subjetividade nasce na resposta a um chamado. A vida só tem sentido nessa doação, nesse estar-refém-da-vida-do-outro, de modo bom. Como ensinava o mestre brasileiro Rubem Alves, a esperança é um verbo. É “esperançar”: levantar, ir à luta, construir com os outros. 

Então, amigos, no meio deste turbilhão, a pergunta ardente: quando não podemos sacrificar a ética? 

A resposta é simples e devastadora: NUNCA. 

Sacrificar a ética é sacrificar nossa humanidade. É virar as costas ao rosto que nos constitui. Mas não se trata de um purismo impossível. Trata-se da direção do olhar. 

Trata-se de, no caos, fazer como ensinava Djamila Ribeiro: adotar um lugar de fala que seja, antes de tudo, um lugar de escuta. Escuta ativa, incômoda, do sofrimento alheio. 

Trata-se de, nas pequenas escolhas, perguntar: esta minha ação, este meu consumo, este meu voto, este meu silêncio — ele honra o rosto do Outro? Ele amplia ou diminui o círculo da responsabilidade? 

Não podemos salvar o mundo sozinhos. Mas podemos, devemos, deixar-nos afetar por ele. Podemos recusar a anestesia. Podemos, nas brechas, criar micro-esferas de responsabilidade radical: cuidar de um vizinho, defender um injustiçado, consumir com consciência, lutar por políticas que vejam rostos, não números. 

A Terra está quente. Os tempos são sombrios. Mas a ética, lembra Levinas, é uma insônia. Uma impossibilidade de dormir tranquilo enquanto o Outro sofre. 

Que não consigamos dormir. 

Que nosso despertar seja coletivo. Que nosso manifesto seja vivido, um ato de coragem cotidiana de cada vez. 

A vida não espera. O rosto do Outro, seja ele humano, animal, vegetal, o rosto do futuro, me olha. E você? Para onde vai seu olhar? 

#ÉticaComoInsônia #RostoNãoApagado #PeloOutro #Esperançar 

 

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