O Corpo que Dança Contra o Corpo que Aprisiona
No turbilhão do Carnaval, as mulheres sempre encontraram um paradoxo: a festa que liberta é a mesma que as vigia. Enquanto multidões celebram nas ruas, carregamos séculos de silêncio nas costas, como serpentinas que nunca desenrolamos completamente.
Vivemos uma adolescência tecnológica que nega o sagrado e a história. Nossos algoritmos celebram o novo enquanto apagam as marcas do passado, como se os tribunais da Inquisição e a caça às bruxas tivessem sido apenas pesadelos distantes. Mas os corpos queimados das mulheres que sabiam curar com ervas ainda ecoam na desconfiança que depositam sobre nosso conhecimento.
Onde Estavam Nossas Vozes?
Enheduana, a princesa e sacerdotisa acadiana que há 4.300 anos ousou assinar seus hinos à deusa Inanna, foi a primeira escritora conhecida da história. Mas quantas Enheduanas foram silenciadas? Quantas tiveram seus nomes arrancados como folhas de papiro ao vento?
Safo de Lesbos, a quem Platão chamava de "a Décima Musa", teve sua poesia reduzida a fragmentos. Sete séculos antes de Cristo, ela dirigia uma escola para mulheres e escrevia sobre amor com uma liberdade que ainda hoje nos assombra. O que perderemos para sempre desses pergaminhos que o tempo e o patriarcado queimaram?
Virginia Woolf compreendeu essa ferida: "Anônimo era uma mulher". E quantas anônimas ainda somos? Até J.K. Rowling, em nosso supostamente iluminado século XXI, precisou ocultar seu nome para que meninos lessem sobre Harry Potter sem preconceito.
Atenas: O Berço da Democracia que Excluía
Voltemos a Atenas, essa "caixa de ouro da civilização ocidental". Enquanto os homens filosofavam nas ágoras sobre liberdade e cidadania, as mulheres atenienses viviam confinadas em seus lares, em espaços chamados gineceu. Eram consideradas eternas menores, tuteladas primeiro pelo pai, depois pelo marido.
Aristóteles, esse gigante do pensamento, escreveu que a mulher era "um homem incompleto". Sócrates agradecia aos deuses todos os dias por não ter nascido mulher. As atenienses não podiam herdar propriedades, não participavam da vida política, raramente aprendiam a ler. Eram escravizadas domesticamente, corpos produtores de herdeiros legítimos, confinadas em casas de pedra enquanto a "democracia" florescia nas praças.
O Estatuto do Silenciamento
A exclusão foi deliberada. Não foi acaso, foi projeto.
Durante séculos, negaram-nos a educação. Escritoras publicaram sob pseudônimos masculinos: George Sand, George Eliot, os irmãos Brontë tornaram-se Currer, Ellis e Acton Bell. Cientistas como Marie Curie enfrentaram laboratórios que lhes fechavam as portas. Artistas como Artemisia Gentileschi pintaram mulheres fortes enquanto eram julgadas por serem estupradas.
Onde estariam as cientistas, filósofas, arquitetas, compositoras que tiveram seus talentos podados na raiz? Hipátia de Alexandria foi esquartejada por uma multidão de cristãos por ousar ensinar matemática e astronomia. Queimaram sua biblioteca, seu corpo, sua memória.
Dados do Silêncio Contemporâneo
Ainda hoje, segundo a UN Women, as mulheres ocupam apenas 24% dos cargos de liderança na indústria cultural. Recebemos menos prêmios literários, menos exposições em museus, menos publicações em revistas científicas. Na música, nos palcos do Carnaval, somos frequentemente mais corpos ornamentais que criadoras.
A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (IBGE) mostra que mulheres dedicam quase o dobro de horas ao trabalho doméstico, esse tempo roubado da criação, do estudo, da arte. O teto de vidro permanece intacto.
Livros que Reescrevem a História
Felizmente, escrevemos nossas próprias narrativas de resgate:
"Um Teto Todo Seu" (Virginia Woolf) nos lembra que "uma mulher precisa de dinheiro e um teto todo seu para poder escrever ficção" – e para existir plenamente.
"O Segundo Sexo" (Simone de Beauvoir) desnudou o mecanismo da construção do "outro": "Ninguém nasce mulher: torna-se mulher".
"Calibã e a Bruxa" (Silvia Federici) resgata a caça às bruxas como parte da transição para o capitalismo, um genocídio de corpos femininos que sabiam demais.
"Mulheres que Correm com os Lobos" (Clarissa Pinkola Estés) reconecta com o instinto selvagem que tentaram domesticar.
"Quem Tem Medo de Virginia Woolf?" (Edward Albee) expõe as violências cotidianas.
E no Brasil, Conceição Evaristo nos presenteia com sua "escrevivência": "A nossa escrevivência não é para adormecer os da casa grande, mas sim para acordá-los de seus sonos injustos".
O Carnaval e a Reinvenção do Feminino
No Carnaval, as mulheres sempre encontraram brechas. Nas folias medievais, nas máscaras venezianas, nos ranchos e escolas de samba, inventamos espaços de liberdade provisória. Mas mesmo ali, fomos vigiadas – a fantasia que liberta é a mesma que condena.
Hoje, nossas rainhas de bateria, compositoras, passistas, baianas, escritoras de enredos reivindicam autoria. O samba-enredo que fala de nós não pode mais ser escrito apenas por eles.
Poesia Final: Lições de Superação
Que nos ensinem as que vieram antes:
Safo canta em fragmentos:
"Alguém, eu juro, lembrará de nós no futuro"
Emily Dickinson resiste em seus versos apertados:
"Eu sou ninguém! Quem é você? / Ninguém também?"
Adélia Prado celebra o cotidiano:
"Não quero faculdade, quero lambuzar-me"
Cora Coralina transforma doce em poesia:
"Eu sou aquela mulher que fez a escalada da montanha da vida, removendo pedras e plantando flores"
Hilda Hilst grita das margens:
"Loucos, amemos! Loucos, criemos! Porque se formos lúcidos, morreremos."
Elisa Lucinda ensina:
"Não vou mais lavar a louça. Não vou."
Que neste Carnaval, quando as mulheres dançarem, não dancem apenas para o olhar masculino. Dancem para Enheduana, para Safo, para Hipátia, para todas as anônimas queimadas, confinadas, silenciadas. Dancem por Virginia, por Conceição, por cada menina que ainda ousa escrever seu nome.
Porque, como escreveu a poeta Audre Lorde:
"As ferramentas do senhor nunca desmontarão a casa do senhor."
Nossa ferramenta é a palavra. Nossa casa é o corpo. Nossa resistência é a festa.
E quando a última máscara cair, que encontrem não o rosto que esperavam, mas um país inteiro de mulheres escrevendo sua própria história – na avenida, no livro, na vida.
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