O sangue dos pobres nunca seca no cimento da história. Escorre dos paredões de concreto stalinistas, onde a "justiça revolucionária" era medida em fuzilamentos sumários e deportações em massa. Mistura-se com o terror da França de 1793, tão vividamente retratado por Victor Hugo - onde a guilhotina se tornou altar de uma revolução que começou devorando seus próprios filhos. Esse mesmo sangue coagula nos uniformes da SS nazista, nos porões das camisas negras fascistas, nas políticas de separação familiar do ICE sob Trump - sempre sob o pretexto de ordem, pureza ou segurança nacional. No Brasil o crime oficial da corrupção de políticos e seus operadores fortaleceu o crime organizado.
Hoje, nas periferias do Brasil, esse sangue corre diferente. Não em paredões dramáticos, mas em goteiras lentas de milhares de jovens apodrecendo em celas superlotadas, sem julgamento, sem esperança, sem futuro. Suas sentenças não são assinadas por déspotas históricos, mas pela cumplicidade silenciosa de um sistema que prefere esquecê-los a enfrentar suas próprias contradições.
A Fábrica de Monstros
Nos presídios brasileiros, o crime organizado não simplesmente se infiltra - ele se institucionaliza, recruta e fortalece com a matéria-prima humana que o Estado negligentemente entrega. Cada jovem não julgado é um soldado em potencial para facções que entendem o que o poder público ignora: que a ausência do Estado é um território a ser conquistado.
Esta máquina de moer vidas não nasceu espontaneamente. Ela foi cuidadosamente tecida nos gabinetes refrigerados do Congresso, nos palácios governamentais, nas prefeituras, nos conselhos de administração, nas oligarquias regionais, nas gangues partidárias que compram votos por impunidade. É um crime oficial, um consórcio do atraso onde políticos, empresários e instituições falidas pactuam o sacrifício de gerações inteiras.
As Torturas Invisíveis, as Gulags Contemporâneas
Nesta ditadura da corrupção, as torturas não vêm com instrumentos de ferro, mas com a desesperança programada. As gulags não têm arame farpado visível, mas são construídas com a arquitetura perversa da negligência. Diferente dos discursos moralistas de Bolsonaro sobre presídios, nossa realidade é mais sórdida: um sistema que prende não para punir ou reabilitar, mas para ocultar seu próprio fracasso.
Lutamos contra essa estrutura porque somos teimosos e insubmissos. Nosso inimigo não tem uma única face ideológica - são fascistas de direita e autoritários de esquerda que, no balcão de negócios do poder, tornam-se iguais. São magnatas da corrupção, charlatões de discursos gloriosos que escondem bastidores podres, oportunistas cujos acordos nos traem diariamente.
O Silêncio dos Honestos
Milhares de homens honestos estão sendo eliminados por essa estrutura - não com balas sempre, mas com descaso, com processos infindáveis, com ameaças veladas, com o ostracismo profissional. Chega de esmolas legislativas, de reformas superficiais que maquiam o tumor. Somos sabotados em nossa luta por mentiras cuidadosamente plantadas, vigiados para nos calar sobre os crimes, intimidados para aceitar que "sempre foi assim".
Diante de tamanha escuridão, como construir outra sociedade com raízes tão podres?
A resposta está na própria pergunta. Não se constrói sobre raízes podres - arranca-se as raízes. A transformação exige que paremos de alimentar o sistema com nosso consentimento passivo. Exige que as mães das periferias, os professores das escolas públicas, os trabalhadores precarizados, os jovens não encarcerados mas tampouco incluídos, reconheçam que compartilham a mesma cela invisível.
A nova sociedade nascerá não de pactos com as velhas estruturas, mas da recusa radical em reproduzi-las. Nascerá da organização comunitária que ignora intermediários corruptos, da educação política que desmascara os discursos vazios, da memória viva dos que tombaram não só pela violência das ruas, mas pela violência do abandono institucional.
Construiremos a partir dos escombros, mas com novas fundações. E se o sangue dos pobres marcou nossa história, que seja agora a tinta com a qual escrevemos um futuro onde justiça não seja sinônimo de vingança de classe, onde segurança não seja código para segregação, e onde a dignidade não seja privilégio, mas direito inegociável de todos os que respiram.
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