I. A República Tecnológica e seus Descontentes
Como observam Alexander C. Karp e Nicholas W. Zamiska em " A República Tecnológica", a tecnologia deixou de ser um mero ferramentário para se tornar o solo constitutivo da política ocidental. A soberania agora é disputada entre Estados-Nação e plataformas transnacionais (meta-Estados), cujos algoritmos regulam o comportamento social, a economia da atenção e o próprio acesso à cidadania. Esta "tecnocracia algorítmica" prometia eficiência e neutralidade, mas, como revelam os dados sobre sistemas prisionais globais analisados por Ruth Wilson Gilmore em "California Gulag", ela frequentemente automatiza e amplifica desigualdades pré-existentes. O complexo industrial penitenciário, especialmente visível na Califórnia, é um híbrido de gestão neoliberal da miséria e controle racializado, agora potencializado por tecnologias de vigilância preditiva e gestão de "risco". A república tecnológica, portanto, apresenta uma face janus: uma de empoderamento e conexão; outra de controle, exclusão e uma nova "razão carcerária" digital.
II. As Catástrofes em Movimento: Clima e Migrações
À aceleração tecnológica responde a aceleração ecológica. As mudanças climáticas não são um cenário futuro, mas um "futuro presente" que desestabiliza territórios, economias e a própria ideia de lar. Stefano Mancuro, em "Fitópolis", propõe uma revolução cognitiva: aprender com a inteligência das plantas (descentralizada, resiliente, cooperativa) para redesenharmos nossas cidades e sociedades. No entanto, o modelo predominante permanece fitofago – devorador de recursos.
Esse desequilíbrio gera migrações em massa. Gaia Vince, em "O Século Nômade", e Dénètem Touam Bona, em "Sabedoria dos Cipós: Cosmopoética do Refúgio", nos oferecem lentes cruciais. Vince documenta o surgimento de um novo nomadismo forçado, enquanto Touam Bona propõe uma ética do enraizamento no movimento, uma "cosmopoética" onde o refúgio não é exceção, mas condição do mundo. As repúblicas, porém, enfrentam esse fluxo com muros físicos e legais, negando a lição básica dos ecossistemas: a interconexão. A crise migratória é, assim, uma crise da imaginação política, incapaz de conceber pertencimento além da fortaleza identitária.
III. O Motor da Desigualdade e os Espectros do Passado
É neste caldo de incerteza que a desigualdade, meticulosamente documentada por Thomas Piketty, atua como combustível e catalisador. A concentração extrema de riqueza não é apenas econômica; é política e espacial. Ela produz "repúblicas" dentro de repúblicas – enclaves de privilégio e vastas zonas de abandono, como os gulags contemporâneos analisados por Gilmore.
Esse terreno fértil é o habitat ideal para o avanço da extrema-direita e do fascismo. Estes movimentos oferecem uma mercadoria perversa: ordem. Em um mundo sentido como caótico (pelas transformações tecnológicas, pelas catástrofes climáticas, pela "ameaça" do outro migrante), eles vendem certezas simples: fronteiras rígidas, hierarquias naturais, um passado idealizado. Eles instrumentalizam o medo, convertendo a ansiedade ecológica e social em ódio identitário e autoritarismo. O fascismo do século XXI é, portanto, uma tecnologia política em si mesmo – uma engenharia social que usa ferramentas digitais (desinformação, microdirecionamento) para ressuscitar e atualizar os piores instintos de exclusão.
IV. Contra-Correntes: Reimaginação Radical e Projetos de Mundo
Contra essa maré, emerge uma constelação de pensamentos e práticas que buscam reimaginar a república a partir de suas rachaduras.
Da Revolução Africana: Kwame Nkrumah e Frantz Fanon, na antologia "Revolução Africana", lembram-nos que a descolonização foi e é um projeto inacabado de refundação política. Fanon, em particular, alerta para os perigos da burguesia nacional pós-colonial, que replica estruturas de opressão. Sua obra é um chamado para uma república verdadeiramente emancipatória, que nasça da libertação psíquica e material dos mais oprimidos.
Do Tratado do Todo-Mundo: Édouard Glissant, em seu "Tratado do Todo-Mundo", oferece o conceito de Relation e o "direito à opacidade". Sua visão de um mundo crioulizado, onde as identidades não se fundem, mas se relacionam em sua diferença, é um antídoto potente contra o fundamentalismo identitário, seja ele do Estado-nação ou do fascismo. É a proposta de uma república rizomática, não radicular.
Do Design Significativo: Don Norman, em "Design para um Mundo Melhor", argumenta que a tecnologia e o design devem ser recentrados nas necessidades humanas reais e na sustentabilidade. É um apelo para resgatarmos a técnica das garras do lucro puro e do controle, realinhando-a com o bem-estar social e ecológico – um projeto de republicanização da tecnologia.
Da Sabedoria dos Cipós: Retomando Touam Bona, a "cosmopoética do refúgio" não é passiva. É uma prática ativa de tecer alternativas, de criar asilos na tempestade, de construir pontes de hospitalidade baseadas na vulnerabilidade compartilhada, não na fortaleza.
Conclusão: Na Encruzilhada
O futuro presente das repúblicas é este campo de batalha. De um lado, uma convergência perigosa: tecnocracia excludente + catástrofe climática + gestão securitária das migrações + desigualdade galopante, alimentando e sendo instrumentalizada por projetos neofascistas que sonham com repúblicas étnicas, homogêneas e autoritárias.
Do outro lado, uma constelação de resistências e reimaginações: tecnologias cívicas e designs significativos + justiça climática e aprendizado com a inteligência vegetal + ética da hospitalidade e do direito à fuga + projetos descolonizadores e económicos radicalmente redistributivos, tudo isso fundado numa política da Relation, da opacidade e do comum.
A dança é caótica porque seus ritmos são múltiplos e desencontrados. O desafio é coreografar, a partir das brechas, um novo contrato republicano. Um que não tenha medo da complexidade do mundo (Glissant), que enfrente o legado colonial (Fanon, Nkrumah), que aprenda com a terra e com os deslocados (Mancuso, Touam Bona, Vince), que redomestique a tecnologia para a vida (Norman) e que desmonte, peça por peça, as engrenagens que produzem gulags reais e metafóricos (Gilmore). O futuro da república, se houver, não será uma volta a um passado ideal, mas uma invenção arriscada e radicalmente plural – ou não será.
Nenhum comentário:
Postar um comentário