A escalada da violência e do crime nas sociedades contemporâneas não é um fenômeno isolado, mas o resultado direto de escolhas políticas e econômicas que priorizam o controle e a repressão sobre a justiça social. Como demonstra Alex Vitale em Fim do Policiamento, a expansão das funções da polícia – para lidar com problemas de saúde mental, pobreza, conflitos sociais e até educação – não só falha em resolver essas questões, como as agrava, criminalizando a miséria e patologizando a desigualdade. A polícia, nessa lógica, torna-se uma força de manutenção de um status quo profundamente injusto, e não de proteção da comunidade.
Esta crítica se aprofunda ao analisarmos os gastos astronômicos globais com polícia, armamentos e exércitos. Relatórios como os do Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI) mostram que os orçamentos militares globais ultrapassam a marca de dois trilhões de dólares anuais. Quando somamos a isso os custos exponenciais com policiamento ostensivo, tecnologia de vigilância e sistema prisional, estamos diante de um desvio colossal de recursos. Esses fundos, se redirecionados para políticas de vida – saúde universal, educação de qualidade, moradia digna, segurança alimentar, transição energética justa – teriam o poder real de erradicar a pobreza extrema, reduzir drasticamente as desigualdades e financiar a luta contra as mudanças climáticas. Em vez de investir em segurança pública através do bem-estar social, investe-se em aparatos de segurança que protegem a propriedade e o capital, numa lógica perversa que gera mais insegurança para a maioria.
Para entender as origens do crime e da violência que estes aparatos supostamente combatem, é essencial recorrer a uma análise histórica e sociológica. Michel Foucault, em obras como Vigiar e Punir, desnuda a genealogia da violência estatal. Ele mostra como o crime é construído discursivamente para justificar o poder punitivo. A prisão e o sistema policial não existem para eliminar o crime, mas para gerir ilegalismos, diferenciando os "delitos das elites" dos "crimes das classes perigosas". A violência maior, portanto, é a do próprio Estado ao classificar, controlar e disciplinar corpos e populações, criando os "inimigos internos" que sua máquina depois pretende caçar.
Eric Hobsbawm, em Era dos Extremos e Bandidos, analisa a violência como produto de rupturas sociais brutais. Para ele, o banditismo social e os surtos de criminalidade violenta muitas vezes são respostas de desespero em contextos de modernização excludente, onde comunidades inteiras são despossuídas e lançadas à marginalidade. O crime, nessa ótica, é um sintoma de um "mundo que perdeu seu rumo", onde as promessas de progresso não se materializam para grandes massas, levando a formas de resistência desorganizada ou aproveitamento ilegal das brechas do sistema.
A obra do historiador Dominique Kalifa oferece uma chave cultural fundamental. Em A Tinta e o Sangue: Narrativas sobre crimes e sociedade na Belle Époque e Os Bas-fonds: História de um Imaginário, Kalifa não estuda apenas o crime real, mas a sua representação. Ele demonstra como a imprensa sensacionalista, a literatura popular e os discursos "científicos" (como a frenologia) criaram, no século XIX, o imaginário dos bas-fonds – os fundos sociais, os submundos. Esta invenção discursiva serviu para estigmatizar territórios e populações pobres, associando-os organicamente ao perigo e ao vício. A polícia, então, surge não apenas para combater atos ilegais, mas para invadir e controlar esses lugares imaginados como criminosos. A violência policial, portanto, é também uma violência contra um imaginário construído, que justifica a repressão sobre certos corpos e espaços. Kalifa mostra que a "luta contra o crime" é sempre também uma luta por poder e pela definição de quem pertence à ordem e quem é o outro perigoso.
Conclui-se, assim, que a aposta contínua em mais polícia, mais armas e mais exército é um projeto político fracassado e cíclico. Ele fracassa porque ataca sintomas (a criminalidade violenta, muitas vezes gerada pela privação) enquanto fertiliza o solo que os produz: a injustiça social. É cíclico porque a violência repressiva gera revolta e desconfiança, que por sua vez justificam mais repressão, num círculo vicioso que só beneficia a indústria da segurança e os setores políticos que lucram com o medo.
A verdadeira segurança não vem do fuzil, mas do teto. Não vem da prisão, mas da creche e do posto de saúde. Não vem do helicóptero policial, mas do transporte público de qualidade. Desmontar a lógica do policiamento e do complexo bélico-militar, como propõe Vitale, e redirecionar esses recursos fabulosos para a vida, é o primeiro passo para desmontar as engrenagens que produzem a violência que dizemos combater. Como ensinam Foucault, Hobsbawm e Kalifa, até que enfrentemos as raízes da desigualdade e os discursos que criminalizam a pobreza, estaremos sempre gastando riquezas com a morte, em vez de investi-las, finalmente, na vida.
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