SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Nós não queremos o “menos pior”por Egidio Guerra .



Manifesto do Amanhã Que Plantamos Hoje: Um mutirão de amor 

(I) 

Irmãos e irmãs da Terra cansada, do asfalto quente, do rio envenenado, 
Não venham nos oferecer migalhas do banquete podre. 
Não nos peçam para escolher, na urna cega, 
entre a fome que consome e a sede que desespera. 
Nós não queremos o “menos pior”. 
Essa é a lógica do opressor, a matemática da resignação. 

Porque ouvi, nas vielas do silêncio, o grito de Frantz Fanon: 
Cada geração deve, numa relativa opacidade, descobrir sua missão, cumpri-la ou traí-la. 
Nossa missão não é remediar. É raiz. É fundação nova. 

(II) 

Sonho, como Luther King sonhou nas escadas de um Lincoln de mármore, 
mas meu sonho tem cheiro de terra molhada e mãos calejadas. 
Sonho com as crianças de Vygotsky, aprendendo no círculo da comunidade, no “zona de desenvolvimento proximal” que é a praça, o terreiro, o campo. 
Um saber que não é dádiva, mas construção coletiva, como ensinou Paulo Freire: 
Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso, aprendemos sempre. 

Sonho com a escola de Edgar Morin, que tece os saberes, que une o texto ao contexto, o planeta à aldeia, a ciência à compaixão. 
Uma educação que não seja fábrica de peças, mas jardim de seres complexos e conectados. 

(III) 

Olho para os construtores deste “melhor” que ousamos nomear. 

Vejo Gandhi, com seu fuso e sua verdade firme, sussurrando: “Seja a mudança que você quer ver no mundo. 
Vejo Nelson Mandela, saindo após 27 anos sem permitir que o cárcere roubasse seu futuro, provando que “Aparentemente não há vergonha em perder a fé na humanidade, se mantivermos a fé nas pessoas. 
Vejo Pepe Mujica, no seu jardim simples, lembrando que “Não é pobre quem tem pouco, mas quem precisa muito”, e desafiando-nos a inventar uma felicidade que não seja mercadoria. 

Escuto Bernie Sanders, rugindo contra a oligarquia: “A justiça econômica é um direito moral. 
E ouço, vindo das assembleias indígenas, das mães de comunidade, o mesmo eco: não é sobre esmola. É sobre justiça. 

(IV) 

Este “melhor” que construímos não é uma torre de marfim. 
É a casa comum, de portas abertas, que Francisco de Assis cantaria. 
É a Terra sem males dos povos originários, não como fuga, mas como promessa plantada aqui. 
É entender, com Foucault, que o poder não é só repressão; pode ser, também, rede de solidariedade que produz vida. 
É lembrar com Platão, na sua alegoria, que sair da caverna é doloroso, mas necessário – e que não podemos voltar só para nós; temos que voltar para libertar os outros das sombras. 

(V) 

Por isso, convoco não uma marcha, mas uma semeadura. 
Que nossa ferramenta seja a enxada e o livro. 
Que nossa estratégia seja a poesia de Mario Benedetti: “Não te rendas, por favor não cedas / mesmo que o frio queime / mesmo que o medo morda… 
Que nosso ritmo seja o samba-raiz de Cartola, que transforma a dor em beleza, a luta em dança. 
Que nossa referência seja a literatura de Graciliano Ramos, que na seca do Nordeste brasileiro encontrou a dignidade intocável do homem. 

Vamos construir o melhor com a ética do cuidado – cuidado com o idoso, com a criança, com o rio, com a floresta que pulmona nosso ar. 
É a justiça social e ambiental como faces da mesma moeda, como ensinam as mulheres do Cinturão Verde do Quênia, plantadoras de árvores e de esperança. 

(VI) 

Este manifesto não é um sonho adormecido. 
É um convite para acordar e fazer. 
É um chamado para as praças, para as hortas comunitárias, para as salas de aula que questionam, para os ateliês que reciclam o lixo em arte. 
É a recusa definitiva à necropolítica, à lógica de quem decide quem merece viver e quem pode morrer. 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário