Manifesto do Amanhã Que Plantamos Hoje: Um mutirão de amor
(I)
Irmãos e irmãs da Terra cansada, do asfalto quente, do rio envenenado,
Não venham nos oferecer migalhas do banquete podre.
Não nos peçam para escolher, na urna cega,
entre a fome que consome e a sede que desespera.
Nós não queremos o “menos pior”.
Essa é a lógica do opressor, a matemática da resignação.
Porque ouvi, nas vielas do silêncio, o grito de Frantz Fanon:
“Cada geração deve, numa relativa opacidade, descobrir sua missão, cumpri-la ou traí-la.”
Nossa missão não é remediar. É raiz. É fundação nova.
(II)
Sonho, como Luther King sonhou nas escadas de um Lincoln de mármore,
mas meu sonho tem cheiro de terra molhada e mãos calejadas.
Sonho com as crianças de Vygotsky, aprendendo no círculo da comunidade, no “zona de desenvolvimento proximal” que é a praça, o terreiro, o campo.
Um saber que não é dádiva, mas construção coletiva, como ensinou Paulo Freire:
“Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso, aprendemos sempre.”
Sonho com a escola de Edgar Morin, que tece os saberes, que une o texto ao contexto, o planeta à aldeia, a ciência à compaixão.
Uma educação que não seja fábrica de peças, mas jardim de seres complexos e conectados.
(III)
Olho para os construtores deste “melhor” que ousamos nomear.
Vejo Gandhi, com seu fuso e sua verdade firme, sussurrando: “Seja a mudança que você quer ver no mundo.”
Vejo Nelson Mandela, saindo após 27 anos sem permitir que o cárcere roubasse seu futuro, provando que “Aparentemente não há vergonha em perder a fé na humanidade, se mantivermos a fé nas pessoas.”
Vejo Pepe Mujica, no seu jardim simples, lembrando que “Não é pobre quem tem pouco, mas quem precisa muito”, e desafiando-nos a inventar uma felicidade que não seja mercadoria.
Escuto Bernie Sanders, rugindo contra a oligarquia: “A justiça econômica é um direito moral.”
E ouço, vindo das assembleias indígenas, das mães de comunidade, o mesmo eco: não é sobre esmola. É sobre justiça.
(IV)
Este “melhor” que construímos não é uma torre de marfim.
É a casa comum, de portas abertas, que Francisco de Assis cantaria.
É a Terra sem males dos povos originários, não como fuga, mas como promessa plantada aqui.
É entender, com Foucault, que o poder não é só repressão; pode ser, também, rede de solidariedade que produz vida.
É lembrar com Platão, na sua alegoria, que sair da caverna é doloroso, mas necessário – e que não podemos voltar só para nós; temos que voltar para libertar os outros das sombras.
(V)
Por isso, convoco não uma marcha, mas uma semeadura.
Que nossa ferramenta seja a enxada e o livro.
Que nossa estratégia seja a poesia de Mario Benedetti: “Não te rendas, por favor não cedas / mesmo que o frio queime / mesmo que o medo morda…”
Que nosso ritmo seja o samba-raiz de Cartola, que transforma a dor em beleza, a luta em dança.
Que nossa referência seja a literatura de Graciliano Ramos, que na seca do Nordeste brasileiro encontrou a dignidade intocável do homem.
Vamos construir o melhor com a ética do cuidado – cuidado com o idoso, com a criança, com o rio, com a floresta que pulmona nosso ar.
É a justiça social e ambiental como faces da mesma moeda, como ensinam as mulheres do Cinturão Verde do Quênia, plantadoras de árvores e de esperança.
(VI)
Este manifesto não é um sonho adormecido.
É um convite para acordar e fazer.
É um chamado para as praças, para as hortas comunitárias, para as salas de aula que questionam, para os ateliês que reciclam o lixo em arte.
É a recusa definitiva à necropolítica, à lógica de quem decide quem merece viver e quem pode morrer.
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