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terça-feira, 14 de abril de 2026

A Fratura das Elites: Trump, os Novos Magnatas e o Caminho para a Desintegração

 



Em um cenário de crescente instabilidade política e social, três obras recentes oferecem um diagnóstico afiado e complementar sobre as forças que estão reconfigurando o poder no Ocidente. End Times: Elites, Counter-Elites, and the Path of Political Disintegration, de Peter Turchin, Going Infinite: The Rise and Fall of a New Tycoon, de Michael Lewis, e Trump in Mirror Land: Subterranean Reflections, de Manfred F.R. Kets de Vries, convergem para um ponto crucial: a crise não é um acidente, mas o produto previsível da degradação das velhas elites, da ascensão de contra-elites disruptivas e da emergência de novos magnatas que personificam tanto o excesso quanto o descontentamento popular.

1. O Colapso da Coesão Interna das Elites (Turchin)

Peter Turchin, em End Times, aplica a cliometria (a história matemática) para demonstrar que as sociedades entram em ciclos de desintegração quando a produção de elites supera a capacidade de absorção do sistema. Segundo Turchin, a partir da década de 1980, os Estados Unidos viram uma superabundância de graduados e aspirantes a posições de poder, enquanto o número de posições de elite verdadeiramente influentes permanecia estável ou diminuía. Essa “sobreprodução de elites” leva a uma luta interna feroz, onde a lealdade ao sistema é substituída por facções predatórias.

A crítica central de Turchin às elites tradicionais é que elas se tornaram endogâmicas e rent-seeking: em vez de recrutar talentos amplamente e governar para o bem comum, passaram a se reproduzir internamente (legados em universidades, redes de contatos) e a extrair riqueza do sistema produtivo por meio de finanças, lobby e regulações favoritas. Essa degradação moral e funcional das elites cria um vácuo de legitimidade. É nesse vácuo que figuras como Donald Trump e novos magnatas encontram terreno fértil.

2. Trump: O Espectro Subterrâneo (Kets de Vries)

Manfred F.R. Kets de Vries, psicanalista e estudioso de liderança, oferece em Trump in Mirror Land uma análise clínica do fenômeno Trump. Longe de vê-lo como uma aberração, Kets de Vries argumenta que Trump é o “reflexo subterrâneo” das frustrações coletivas – um líder narcisista que espelha e amplifica o ressentimento das massas contra as elites fracassadas.

Para Kets de Vries, a genialidade perversa de Trump está em explorar a teatralidade do poder. Ele não governa por políticas detalhadas, mas por performances de ruptura. Quando Turchin fala de “contra-elites” – grupos que canalizam a raiva popular para destronar as elites dominantes – Trump se torna o contra-elite por excelência: um bilionário que se apresenta como outsider, um magnata imobiliário que fala como um operário. A crítica implícita de Kets de Vries é que as elites tradicionais, ao se isolarem em sua arrogância tecnocrática, criaram um monstro psicopolítico. Trump não é a causa da desintegração; ele é o sintoma mais visível de um sistema que perdeu a capacidade de integrar seus membros mais ambiciosos e frustrados.

3. O Novo Magnata: Sam Bankman-Fried (Michael Lewis)

Em Going Infinite, Michael Lewis narra a vertiginosa ascensão e queda de Sam Bankman-Fried (SBF), o fundador da FTX. À primeira vista, SBF parece o oposto de Trump: ascético, obcecado por matemática e utilitarismo (efetivo altruísmo). No entanto, ambos são produtos da mesma disfunção elítica.

Lewis descreve SBF como um novo magnata sem lastro – um prodígio que enxergava as regras tradicionais (inclusive as éticas) como meros obstáculos a serem calculados ou contornados. A crítica de Lewis é sutil: o “altruísmo efetivo” de SBF era uma fachada para uma ambição desmedida, que via o sistema financeiro como um jogo infinito. Assim como as elites de Turchin extraíam riqueza sem criar valor real, SBF criou um castelo de criptomoedas lastreado em nada além de fé algorítmica.

A conexão com Trump e Turchin fica clara: os novos magnatas (Musk, SBF, os bilionários da tecnologia) são a encarnação da “contra-elite” que não quer reformar o sistema, mas substituí-lo por um playground próprio, com regras opacas e nenhum compromisso com o bem público. Quando SBF colapsa, não é a moralidade que o derruba, mas um erro de cálculo – o mesmo tipo de hubris que leva as elites predatórias ao desastre.

4. Síntese Crítica: A Dança dos Espelhos

A crítica conjunta que emerge dos três livros é devastadora:

  1. Turchin mostra que o sistema político-econômico está estruturalmente quebrado, produzindo mais aspirantes a elite do que vagas, gerando instabilidade inevitável.

  2. Kets de Vries demonstra que Trump é o “espelho subterrâneo” desse colapso – um líder que reflete o pior de todos os mundos: a riqueza do magnata e o discurso do ressentido.

  3. Lewis adiciona o elemento trágico-cômico: os novos magnatas (como SBF) acreditam que podem transcender as velhas regras, apenas para descobrir que a realidade – e a lei – cobra seu preço.

O fio condutor é a ilusão da excepcionalidade. As elites tradicionais se achavam insubstituíveis; Trump se acha imune às normas; SBF se acreditava inteligente demais para falir. Todos caem no mesmo abismo de desintegração que Turchin prevê.

Conclusão: O Retorno do Político

Os três autores, cada qual a seu modo, sugerem que a saída não virá de novos magnatas ou líderes messiânicos, mas de um rebaixamento das expectativas elíticas. Enquanto não houver uma reforma radical no recrutamento das elites (menos rent-seeking, mais serviço público), a dança entre Trumpes e SBFs continuará. O “fim dos tempos” de Turchin não é o apocalipse, mas o fim de uma ordem que confundiu riqueza com virtude, espetáculo com liderança e algoritmos com ética. E nesse fim, como mostram Lewis e Kets de Vries, os novos magnatas são apenas os palhaços tristes de um circo que já pegou fogo.

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