SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.
terça-feira, 14 de abril de 2026
Desigualdade não começa na renda.
Começa nas condições de partida.
À luz de uma pesquisa recente do Observatório Fundação Itaú, fiquei refletindo sobre algo que parece óbvio — mas que ainda não orienta, como deveria, nossas escolhas.
Desigualdade não é só a diferença entre quem tem mais e quem tem menos.
É o menino que começa a trabalhar antes dos 18 anos e perde a escola no caminho.
É a mulher negra que chega qualificada e encontra uma porta mais estreita.
É uma estrutura que atravessa gerações — construída ao longo do tempo, e que ainda hoje define quem acessa o quê.
Sabemos disso. Mas saber, por si só, não muda muita coisa.
Trabalho há muitos anos no terceiro setor e na filantropia, e o que mais me chama atenção não é a falta de boa vontade.
É a falta de contexto.
Tomamos decisões — de contratação, investimento, parceria, alocação de tempo — sem necessariamente ter clareza do cenário em que essas decisões aterrisam.
Os dados ajudam a iluminar essa realidade.
68% dos brasileiros percebem mais oportunidades para brancos do que para negros no mercado de trabalho — e essa diferença também aparece no acesso a boas escolas e a bairros com melhor infraestrutura.
44% reconhecem que pessoas negras têm hoje menos oportunidades como consequência de um passado histórico que ainda organiza o presente.
Para as mulheres, a desigualdade se soma: mais da metade da população percebe que homens têm mais acesso a empregos de qualidade e melhores salários.
E 6 em cada 10 brasileiros começaram a trabalhar antes dos 18 anos.
São percepções — mas percepções que a realidade insiste em confirmar.
O ponto, para mim, não é apenas o diagnóstico.
É o que fazemos com ele.
Cada um de nós, no lugar onde atua, tem alguma margem de escolha. E escolhas mais informadas — sobre com quem trabalhamos, a quem abrimos portas, onde direcionamos recursos e energia — têm efeitos que vão além do individual.
Na minha vida e no meu próprio trabalho, tento fazer um exercício simples — e nem sempre confortável: deixar que os dados incomodem o suficiente para orientar as próximas decisões.
Porque, quando esse incômodo se transforma em ação, algo começa — de fato — a se mover.
📊 Observatório Fundação Itaú — Percepções sobre a Desigualdade no Brasil (2024–2025), 2.787 entrevistados.
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